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sábado, 15 de maio de 2021

EGITO - O LIVRO DOS MORTOS

      



O que os egípcios fizeram pelos seus mortos iguala ou mesmo ultrapassa o que eles fizeram pelos seus deuses. A sua arquitetura voltada para a morte nos deslumbra até hoje. O que se conseguiu salvar dos tesouros encontrados em túmulos e conservados em salas de vários museus é espantoso. Nas bordas de vários desertos do território egípcio as necrópoles se sucedem quase que ininterruptamente. Todas as épocas da história do país estão nelas representadas, desde o paleolítico. Cada dinastia escolheu um “lugar santo” para a construção de suas tumbas. Os reis tebanos, por exemplo, escolheram o chamado Vale dos Reis para esse fim enquanto às rainhas, aos príncipes e aos aristocratas coube uma região mais afastada, no flanco da montanha, diante da cidade. Qualquer que seja o ângulo pelo qual abordemos a história egípcia o que mais se destaca é a importância atribuída às sepulturas.

MASTABA
Inicialmente, antes da primeira documentação histórica obtida através de pesquisas arqueológicas, tudo parece indicar que as ideias sobre a morte se resumiam ao depósito dos corpos numa valeta, a eles se juntando algumas provisões e armas. Mas já nas primeira e segunda dinastias encontramos, com aspecto monumental, grandes mastabas de tijolos e um mobiliário rico e variado junto dos túmulos.

Tradicionalmente, o primeiro período dinástico se estende de 3.100 a 2.686 aC e apresenta como fatos históricos mais importantes a unificação do Alto e do Baixo Egito por Menés, o primeiro faraó que construiu a sua capital em Mênfis. Nesse período (1ª dinastia: 3.100-2.890 aC), se estabeleceu o comércio dos egípcios com o Levante e se organizaram expedições ao Sudão. Determinaram-se também com precisão o calendário, o uso da escrita hieroglífica e médicos escreveram o primeiro tratado cirúrgico conhecido. Realizaram-se grandes obras de irrigação e drenagem.  Os enormes túmulos reais foram construídos em Abidos e Mênfis. A segunda dinastia (2.890-2.686) foi perturbada por lutas religiosas entre o Alto e o Baixo Egito, difundiu-se o uso de granito e de ardósia na estatuária e o uso crescente de pedras na construção. Ao final desse período, o Alto e o Baixo Egito voltaram a se unificar. 

Certamente por influência dos romanos, os ocidentais, na prática, sempre colocaram a religião em áreas separadas da sua existência quotidiana. Para os egípcios, tal entendimento era uma aberração, pois a religião integrava a sua vida política, social e econômica. Toda a existência de um egípcio, nos seus pormenores inclusive, da cheia do Nilo à morte de um animal da casa, dependia da disposição divina. 

VALE  DOS  REIS

As bases da religião egípcia vinham de tempos pré-históricos, bem antes do aparecimento dos faraós. Como aconteceu com outras expressões religiosas, a do Egito sempre demonstrou uma atitude de respeito com relação aos fenômenos da natureza e às características temíveis ou admiráveis dos animais. Assim, não era de se estranhar que fossem representadas por animais as divindades que ao longo de sua história religiosa foram surgindo. Durante grande parte da história do país, animais vivos, associados aos deuses, foram criados e exibidos em quase todos os templos. 

MAAT
A religião egípcia, independentemente da divindade cultuada, tinha um fundo moral a que se dava o nome de maat, palavra que traduz simultaneamente ideias de ordem, verdade, justiça, dever e responsabilidade. Considerava-se maat como uma qualidade que havia sido infundida pelos deuses no momento da criação e que os homens deviam obrigatoriamente respeitar. Algo, como se vê, muito parecido com os diversos significados que o conceito hindu de dharma admite. Assim, cada ser humano, na esfera de sua atuação, tinha um maat pessoal (verdade, justiça, moralidade), exatamente como os hindus (svadharma, o dever próprio, a ação correta). Respeitá-lo era a única maneira de viver harmoniosamente com os deuses, uma qualidade que se traduzia por um comportamento ativo.

O mundo havia sido criado pelos deuses e, por isso, tudo era fixo, eterno. Mesmo acontecimentos como as pestes, as guerras, as epidemias e as secas não passavam de perturbações ocasionais da ordem cósmica estabelecida. Criado o mundo como deveria ser, sua concepção, desde a criação, não poderia admitir nada melhor nem antes ou depois dele. Decorria desse entendimento a maneira do egípcio encarar a morte. 

Nas sepulturas do período neolítico foram encontrados objetos, víveres e instrumentos ao lado dos mortos, o que demonstra a intenção do falecido de usá-los ou consumi-los numa vida futura. Os egípcios sempre acharam que o além-túmulo era uma eternidade a ser vivida como uma repetição dos melhores momentos da existência terrena. Dedicavam-se com grande afinco e confiança à preparação dessa vida eterna.

BA
Para os egípcios, a personalidade humana era composta de quatro partes: Khet, o corpo físico destinado à morte; Chut, a sombra; e dois elementos não percebidos pelos sentidos, Ba e Ka. O primeiro destes dois últimos, a partir da 18ª dinastia, tomou a forma de um pássaro (cegonha) com cabeça humana que, por ocasião da morte, escapava em direção das regiões etéreas.A partir da 18ª dinastia, Ba tomou a forma de um pássaro (cegonha), com cabeça humana que, por ocasião da morte, escapava em direção das regiões etéreas.

BA

O homem existia, assim, através de seu corpo (khet), de seu nome (ren), de sua imagem ideal (ka), de sua alma (ba) e de sua sombra (chut). Estas dimensões físicas e espirituais, ressalte-se, não podem ser avaliadas com base nas concepções judaico-cristãs às quais estamos habituados: no mundo egípcio, as categorias do concreto e do imaginário mais se imbricam do que se superpõem. Assim, o ser humano, depois de sua morte e de se ter beneficiado dos ritos funerários, se reintegra no Outro Lado. O corpo (khet), pelo cadáver mumificado, é colocado numa espécie de cova para permanecer ligado à terra, enquanto seu ka, sob a forma de uma imagem, vai receber oferendas na capela do túmulo. 

O conhecimento do nome (ren) de cada ser humano era indispensável quando da realização dos ritos de passagem por ocasião da morte porque ele guardava uma identidade secreta, sendo o morto por ele convocado. O ka fornecia a força psico-vital que permitia que o nome existisse. Aplicava-se o nome ka também à faculdade que tinha um deus, uma pessoa ou um animal de realizar seus atos.

KNUM
Quando o deus oleiro Knum fabricou com barro o primeiro corpo humano, ele criou também o ka, o duplo psico-energético do corpo físico, uma espécie de matriz invisível. Quando o ser humano morria, seu ka se separava de seu corpo físico. Este fazia parte do mundo visível, enquanto o outro participava tanto deste mundo quanto do invisível. O mundo visível, terrestre, era assim uma espécie de “cópia animada” do céu graças ao ka, que era o depósito das forças vitais do qual procedia a vida e que subsistia depois da morte. O ka era uma espécie de reservatório de forças vitais, um duplo imaterial do corpo, modelado ao mesmo tempo que ele. Quando um ser humano morria, era o ka que se “ocupava” das oferendas depositadas quando do culto funerário. O ka de um faraó tinha nele uma parcela do divino. Na arte egípcia, estátuas colossais são sempre usadas para representar o ka real.
PLATÃO

Quando nos aproximamos do conceito egípcio do ka não há como não se pensar em Platão, nas suas ideias, provavelmente retiradas, segundo entendo, do pensamento religioso egípcio.  Com efeito, para Platão, os múltiplos e sensíveis objetos do mundo físico, composto por uma matéria mutável e acidental e por uma forma pela qual são o que são, têm um substrato, uma essência, que existe eternamente. O mundo sensível era para Platão formado assim por elementos ideais e por elementos materiais, constituído pelo ser e pelo não-ser. Todos os seres e objetos do mundo, precários e perecíveis, mais ou menos segundo a espécie a que pertençam, têm em si um reflexo de uma Ideia única correspondente a essa espécie. Assim, os diferentes seres e objetos sensíveis múltiplos e destinados à morte, como se disse, como não podem ter a perfeição da sua ideia matriz, já que matéria é sinônimo de imperfeição, resistente sempre à forma, não passam de uma cópia dessa matriz ideal. 

O ba é a noção que mais se aproxima da nossa, de alma. Primitivamente, o ba parece ter sido o poder que os deuses tinham de se movimentar e de tomar formas diferentes. Assim, uma forma ligava-se a cada ba, podendo os deuses ter muitos deles, segundo a forma que quisessem assumir. O ba correspondia mais a uma capacidade do que a uma entidade. Quando um ser humano morria, o ba retomava a sua liberdade mas permanecendo ligado ao morto enquanto este, graças à mumificação, conservava uma forma humana. 

BA FALCÃO

Quanto aos deuses, o ba habitava a sua estátua de culto. O ba tinha assim necessidade de um suporte para se manter: uma imagem, uma estátua. No caso de Ra, por exemplo, dizia-se que seu ba era o Sol. Dizer que alguma coisa era o ba de um deus equivalia a dizer que esta coisa era a manifestação do deus no mundo sensível.


KA

Negra e furtiva, a sombra (chut), depois da morte e uma vez “aberta” a porta da tumba, escapava em direção da luz juntamente com a alma. A sombra, a fiel companheira do homem durante a sua vida, ao escapar, adquiria autonomia. A sombra era considerada como um duplo do ser humano com a função de lhe oferecer proteção.

Depois da morte de uma pessoa, o ka podia permanecer no corpo mumificado ou em alguma estátua que a representasse. Comida e alimentos deviam ser oferecidos para que essa ligação se mantivesse. No momento da morte, o ba, na forma de um falcão com cabeça humana, deixava o corpo e podia se deslocar por várias lugares, inclusive viajando pelos céus, mas com a obrigação de, à noite, voltar ao túmulo.

TEXTO DAS PIRÂMIDES
Os livros religiosos que nos informam sobre os costumes funerários egípcios, os Textos das Pirâmides, os Textos dos Sarcófagos e o Livro dos Mortos, nos esclarecem também sobre um princípio espiritual chamado akh, representado por um íbis com um penacho na cabeça. A palavra tem relação com o que é eficaz, benéfico e glorioso. Opondo-se ao corpo, que é da terra, o akh pertencia ao céu. Em tempos muito remotos, ao que parece, só os deuses e os faraós enquanto seres divinos, participavam deste princípio.

ÍBIS  E  IERÓGLIFOS

O akh estava no começo de qualquer gênese. A imagem para explicá-lo era a da luz saindo das trevas. Os egípcios diziam que Ra saindo de Nut era o akh. No mito, Nut, deusa do céu noturno, dava nascimento aos astros e os devorava ao fim do dia. Era por isto representada algumas vezes por uma porca, animal que tinha a reputação de devorar as suas próprias crias. O akh, o ba e o ka formavam uma espécie de trindade, três estados espirituais, não independentes, algo assim como as três faces de um triângulo equilátero.

NUT

A respeitosa e obediente atitude que os egípcios demonstravam com relação à sua religião estendia-se à concepção que eles tinham da morte. Eles encaravam o Além (Duat) como uma possibilidade de repetição dos melhores momentos da existência terrena. Confiantes e até entusiasmados preparavam-se para a morte. Todo egípcio de posses preparava com grande cuidado o túmulo através do qual ingressaria na eternidade. No caso de um faraó ou de altos dignatários, essa preparação chegava a se estender por vários anos. A decoração dos túmulos ostentava, por exemplo, cenas de atividades (caça, navegação, banquetes, arte, pastoreio, lavoura etc.) às quais ele gostaria de se dedicar no Outro Lado. 


DUAT

USHEBITS
Desde as dinastias do Primeiro Período da história egípcia havia a crença de que mesmo pessoas que em vida haviam ocupado elevadas posições sociais não ficariam  isentas de prestar serviços de natureza servil no Outro Lado. Por causa dessa crença, no Médio Império, os túmulos ricos foram abastecidos com centenas e até milhares de estatuetas de trabalhadores chamadas ushebtis. Esperavam, os que assim agiam, ser liberados numa vida futura das exigências divinas para que trabalhassem nos campos celestiais. Enquanto descansavam, os “trabalhadores” cumpririam as obrigações divinas que porventura lhes fossem impostas. 

A ideia fundamental da negação da morte limitava-se inicialmente à pessoa do faraó e à sua família. No fim do Antigo Império, essa ideia já se democratizara bastante. Admitia-se a crença de que os nobres também poderiam se beneficiar de uma outra vida no Além. A eles foi permitida a construção de seus túmulos na vizinhança do templo real e que sua decoração fosse feita com cenas das atividades palacianas que haviam exercido em vida. Desta maneira, poderiam esses nobres participar da imortalidade do faraó de algum modo. Também se admitia que os servos que fossem representados nessa decoração poderiam, além de continuar prestando serviços aos seus falecidos senhores, obter alguma parcela de imortalidade.

SARCÓFAGO COM TEXTOS
No fim do Antigo Império (2.686-2.181), quando cresceram em importância Heliópolis e seu patrono, o deus Ra, estavam inscritos nos túmulos reais os famosos "Textos das Pirâmides", que tratavam de costumes fúnebres. No Primeiro Período Intermediário da história egípcia (2.181-2.040), com o crescimento do poder dos senhores feudais e consequentes dificuldades do poder central, os Textos dos Sarcófagos foram inscritos nos túmulos dos nobres. 

CASA DA VIDA, HELIÓPOLIS

A essa altura, espalhando-se o culto osiriano e com uma participação maior das classes inferiores na vida política do país, o homem comum, o camponês, passou a participar também das benesses de uma vida pós-morte. Para que o homem comum tivesse acesso à eternidade não lhe bastava apenas cumprir as suas obrigações sociais e religiosas. Foi por essa época que a classe sacerdotal começou a colocar ao alcance de camadas muito amplas da população do país, democratizando-as certas fórmulas mágicas e preces anteriormente de uso exclusivo do faraó e da nobreza feudal. 


OSÍRIS
Assim, quem pudesse contratar um sacerdote que por ocasião do sepultamento de um familiar recitasse tais preces e usasse as fórmulas mágicas, muito facilitaria a sua passagem para o Outro Lado. Além do mais, se possível também a contratação de artistas decoradores de túmulos e de calígrafos (inscrições em papiros) melhor ainda. Tudo isto muito bem realizado e observado quando do sepultamento de alguém permitiria, como então se dizia, que o morto se tornasse um Osíris.

HERÓDOTO
Não se pode esquecer que para o egípcio o Além significava algo material, corporal. Nada de eidolon ou de skia, como para os gregos. A vida no Além seria gozada de corpo presente, nada de uma existência fantasmagórica. Para que tal pudesse acontecer, os egípcios mumificavam os seus mortos para que seus corpos ficassem livres da corrupção. As informações que temos sobre o processo de mumificação nos foram passadas por Heródoto. Com base nelas e posteriormente no exame das múmias encontradas, embora se possa admitir que o processo tenha sofrido algumas alterações ao longo dos séculos, a ideia básica sempre foi a de que ele procurou seguir sempre os passos do procedimento aplicado à ressurreição de Osíris, representando os sacerdotes o papel que nesse procedimento tiveram Anúbis, Hórus e outros deuses. 

Uma das grandes preocupações dos egípcios, desde os mais pobres ao faraó,  enquanto vivessem, era a de preparar adequadamente e na medida de suas possibilidades financeiras o seu túmulo. Fazia parte também desta preocupação a de se deixar dinheiro ou bens a parentes e amigos para que ficasse assegurada, sob a responsabilidades deles, a realização periódica de certos ritos fúnebres. Se a pessoa tivesse sido rica, esses ritos eram realizados diariamente. Se de parcos recursos e nada tivesse deixado o morto, os ritos fúnebres seriam incorporados àqueles realizados coletivamente pelos mortos na época dos grandes festivais.

ENTERRO

No Médio Império, os bens deixados por uma pessoa para a realização de ritos fúnebres começaram a ser canalizados para a classe sacerdotal, que assumiu a responsabilidade em nome da família, dos herdeiros ou dos amigos. No caso de um faraó, criava-se um fundo estatal a fim de se cobrir as enormes despesas com a preparação de seu sepultamento e com os ritos a serem realizados diariamente depois. Esse fundo era administrado pela classe sacerdotal, o que explica a grande riqueza por ela acumulada e o poder que passou a deter, de modo até a interferir, em muitos casos, nos destinos do país.   

De um modo geral, em que pesem as oscilações políticas internas e os conflitos externos, a religião egípcia, que tinha no culto dos mortos o seu maior destaque, sempre serviu para manter a coesão do país, unindo os deuses, o faraó, a classe sacerdotal e o povo, uma coesão que ajudou a civilização egípcia a sobreviver por vários milênios e a nos deixar um legado de enorme interesse cultural.

EMBALSAMAMENTO
A transição entre a vida e o Além, conduzida por uma complexa liturgia, garantia ao egípcio o acesso à eternidade. O embalsamamento de pessoas ricas podia, segundo Heródoto, se estender por dois ou mais meses. Já o corpo de um pobre era despachado em um ou dois dias. O funeral exigia sepultamento no leste, lugar em que o Sol iniciava a sua jornada diária. Por isso, as imensas necrópoles se localizavam nos áridos desertos ocidentais. 


Grandes procissões, com muitas carpideiras, levavam as múmias em caixões aos túmulos. A primeira etapa da viagem era feita através do rio Nilo, em embarcações, e depois por terra, em carros puxados por bois. Familiares, amigos e sacerdotes de cabeça raspada e de corpo inteiramente depilado, entoavam cantos até a entrada dos túmulos, onde se realizavam danças cerimoniais e muitas vezes um banquete fúnebre. 


sexta-feira, 3 de agosto de 2018

AQUÁRIO (2)


HAPI
No Egito, o signo de Aquário aparecia associado ao rio Nilo, o “rio azul”. Lembremos que o nome Nilo vem dos gregos (neilos) e é encontrado no sânscrito como adjetivo, nila, azul. Do latim, nilus, passou para o árabe e para o português, como o temos,por exemplo, na palavra anil. O rio era divinizado pelos egípcios quando de suas enchentes, sendo chamado então de Hapi. Representavam-no por uma figura antropomorfizada, obesa, com grande ventre, com seios pendentes, desenvolvidos como os de uma mulher, o que lhe dava um aspecto andrógino. Vestido como um barqueiro, às vezes como um pescador, usava Hapi uma coroa de plantas aquáticas na cabeça (lótus se representado no Alto Egito, papiro, no Baixo Egito). O deus Hapi era aquele que nutria, que alimentava o país e os próprios deuses; morava na primeira catarata do rio, numa ilha, de onde derramava de suas ânforas a água que iria abastecer o céu e depois a terra.

Autogerado, Hapi era chamado de Único, acreditando os egípcios
NUN
que ele saía do Oceano primordial, o Nun, que envolvia a Terra, do qual Hapi era uma forma secundária. Nun guardava todas as formas possíveis, as positivas e as negativas, e dentro dele se manifestou o demiurgo. Nun era considerado o deus das origens na cosmogonia heliopolitana. Em Hermópolis, era um dos quatro princípios masculinos, representando o infinito líquido, associado à sua contrapartida feminina, Nenet. Rodeando o mundo visível, ele esta na origem das enchentes. É da profundeza de suas águas que no final dos tempos sairá um demiurgo para nos proporcionar um novo ciclo de vida.  


HERMÓPOLIS  ,  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO

Já os devotos da deusa Ísis davam outra interpretação às cheias do Nilo, que começavam em meados de junho. Afirmavam eles que tal acontecimento se devia às lágrimas da deusa, chorosa pela morte de
OSÍRIS
Osíris, assassinado por seu irmão gêmeo Seth. Qualquer que seja, porém, o aspecto religioso privilegiado, o que se sabe é que, além de muitas oferendas, cânticos e poemas sempre haviam sido entoados e recitados às margens do rio desde tempos muitos remotos para que as águas atingissem um ponto ideal quando das enchentes de modo a proporcionar a máxima fertilidade paras terras vizinhas, mais ou menos a 20 km. de ambas as margens do rio,  Deste ponto ideal dependia anualmente a prosperidade ou a infelicidade do povo egípcio. Quando gregos e romanos ocuparam o país, a referida altura, para que a almejada fartura das colheitas fosse obtida, estava fixada em mais ou menos dezesseis côvados, quase onze metros.  

Lembremos que o deus Hapi, apesar de muito reverenciado,  nunca chegou a fazer parte de qualquer sistema teológico no Egito. Nos templos, ele exercia uma função doadora, para outros subalterna, sendo uma espécie de auxiliar dos grandes deuses, oferecendo-lhes o produto de suas águas. Neste sentido, a função de Hapi lembra muito a de Ganimedes como escanção dos deuses do Olimpo grego. Muito representado na escultura religiosa do país, Hapi atuava juntamente com as divindades do mar, dos grãos, do florescimento do mundo vegetal, das oferendas e, de um modo geral, dos que de algum modo proporcionavam bem-estar e felicidade.  

Na mitologia egípcia, os deuses sempre mantiveram uma relação muito difícil com o mar, com as suas enormes extensões de água salgada que muitas vezes se tornavam perigosas quando ventos e tempestades vindos da massa líquida marinha se abatiam sobre a costa. Na verdade, o alto-mar para os egípcios sempre representou uma região de acesso muito difícil, pois era preciso atravessar, para atingi-lo, as zonas instáveis do delta do rio, zonas pantanosas, perigosas, que lembravam sempre a sofrida peregrinação de Ísis em busca de seu amado Osíris. Contudo, se os extensos pântanos significavam por um lado proteção contra ataques externos, por outro desestimulavam tentativas de atravessá-los, uma alternância com a qual os egípcios tiveram que conviver por milênios.


ÍSIS

Desde tempos imemoriais se falava no país de uma força poderosa, desconhecida, que aterrorizava os pescadores que iam além do delta do Nilo, uma força que atacava e destruía barcos e homens, ninguém sobrevivendo. Era o deus dos mares, que, às vezes, avançava sobre as terras da região do delta; ora era o gado, criado nessas regiões, levado pelas águas; noutras ocasiões, pequenos vilarejos eram destruídos e cadáveres apareciam presos às raízes das plantas dos pântanos. Os rumores se multiplicavam, o temor tomava conta de todos que viviam na região. 

A afirmação dos antigos ganhou corpo com o tempo: falava-se que um monstro de nome Yam, vindo das profundezas marinhas, andava à noite pelo delta, acompanhado de crocodilos e hipopótamos. Uma boa parte da mitologia egípcia registra com ênfase a luta entre o deus Hapi e os agentes monstruosos do deus marinho, todos relacionados, sob o ponto de vista astrológico, com os dois últimos signos zodíaco.


PROTEU
Quanto aos gregos, lembremos, desde Homero, atribuíram eles inicialmente a um deus chamado Proteu (o primeiro gerado, o que vem antes, etimologicamente), cujo apelido era O Velho do Mar, a tutela dos mares gregos e egípcios. Sua residência ficava numa ilha arenosa, Pharos, situada na costa do delta do rio Nilo. Proteu era uma divindade dotada de poderes oraculares, exercendo também a função de pastor de
PTOLOMEU FILADELFO
rebanhos de animais marinhos (focas e outros). Não gostava de ser incomodado nem consultado, evitando sempre os inoportunos. Fugia deles, tomando a forma de qualquer animal marinho ou simplesmente se transformando em água ou fogo. No ano de 300 aC, Ptolomeu Filadelfo, rei do Egito, mandou construir na ilha de Pharos, diante de Alexandria, uma torre de mármore branco de 180 m. de altura. Esta notável edificação, uma das sete maravilhas do mundo, guiava os navegantes à noite, graças a fogueiras que eram mantidas permanentemente acesas no seu topo.



GEIA  E  FILHOS
Proteu era também chamado pelos gregos de Nereu (o que vive mergulhado, etimologicamente), pai das nereidas, ninfas do mar, tendo sido gerado pela união de Pontos e de Geia, esta última a Grande-Mãe Terra. O primeiro mencionado, cujo nome lembra caminho, lugar por onde se transita, representa no mito grego, como sabemos, a primeira concepção do mundo marinho, ou melhor, da energia que há no elemento líquido oceânico e passa por ter sido o pai também de, além de Nereu, de Taumas (O Maravilhoso), Fórcis (O Branco, no sentido de encanecido), Ceto (A Baleia) e Euríbia (A de Grande Força Vital), entidades marinhas. 

Os gregos, através de seus primeiros escritores, poetas ou não, como Homero, Hesíodo e Heródoto, sempre consideram o oceano
OCEANO , MOSAICO  ROMANO
como um imenso rio que fluía em torno da Terra. Na sucessão das divindades que o tutelaram, depois das  entidades primordiais acima mencionadas, aquele que melhor representou a massa circular líquida que envolvia a Terra, como um rio-serpente, foi o deus Oceano, o filho mais velho de Urano e de Geia, um titão, portanto. Sempre considerado como extremamente cordato e acessível ao se relacionar, Oceano, unindo-se a Tétis, símbolo do poder gerador das massas oceânicas, tornou-se pai das Oceânidas, as ninfas dos oceanos e mares, e de inúmeros rios que atravessa a Terra. Dentre os mais importantes filhos de Oceano, destacamos, segundo os gregos (Hesíodo), os rios Nilo, Aqueloo,  Alfeu, Erídano, Peneu... 

DEUCALIÃO  E  PIRRA
Antigos povos da Mesopotâmia, como os babilônicos, principalmente, associavam o signo de Aquário ao décimo-primeiro mês do seu zodíaco, Shabatu, palavra que tem o significado de Curso das Águas da Chuva. Na Grécia, é de se notar, o signo antes de ser associado a Ganimedes, aparecia ligado a  Deucalião, filho de Prometeu e de Clímene, herói que se salvou do dilúvio enviado por Zeus. Etimologicamente, o nome Deucalião lembra mergulho, imersão no elemento líquido. Casou-se com Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora. 

OVÍDIO
Desgostoso com o comportamento dos heróis da Idade do Bronze, descontrolados, que viviam atolados no vício e no crime, Zeus resolveu, como diz o poeta Ovídio, castigar todos os homens, afogando-os nas águas de um dilúvio. Salvou-se o casal Deucalião e Pirra, que fundou um reino e, com os seus filhos e descendentes, repovoou a terra, criando uma nova humanidade.
  
Entre os latinos, certamente por influência grega, quando Ganimedes já havia substituído Deucalião como representante mítico do signo, surgiram, para designar Aquário, além de Ganimedes, naturalmente, nomes como Amphora, Junonis Astrum (Astro de Juno, esposa de Júpiter), Jovis Cynoedus ou Cinaedus  (Favorito de Júpiter), Puer Iliacus (Garoto de Ilion, Troia), Puer Aquilae (Garoto da Águia).  


AQUÁRIO
Na tradição ocidental, pela via latina, fixou-se o nome Aquarius, para o décimo primeiro signo zodiacal. Aquarius, em latim, lembre-se é tudo o que concerna à água, servindo a palavra para designar também tanto aquele que tem a função de transportar água como o que trabalha como inspetor encarregado da supervisão das águas. Note-se ainda que os franceses adotaram para designar o signo a palavra Verseau, hydrokhoeus, em grego. vertedouro, o que derrama  água.

Diante do exposto, acredito que fique fácil entender porque os antigos associaram essa região do zodíaco à água, região conhecida em antigas astronomias pelo nome de Mar. Para representar essa região nos céus, os antigos utilizaram uma onda, que era o hieróglifo egípcio da água, elemento que põe tudo em comum, que apaga as fronteiras, ligado alquimicamente à solutio. É por esta razão que o signo que ocupou esta região do céu sempre foi considerado com aquele em que o ser humano transcende a sua individualidade e a sua vida social para se integrar a humanidade.

O acesso a esta transcendência, entretanto, terá que ser feita atrvés do elemento ar. Ou seja, é pelo despertar de sua consciência coletiva que o homem compreende que ele é também a humanidade. É por isso que este signo faz quadratura (conflito) com os signos de Touro (a matéria) e com o signo de Escorpião (a metamorfose) e faz oposição ao signo de Leão (o ego). 

Fixando-nos mais na tradição que nos vem da Grécia, não podemos deixar de considerar inicialmente que as relações entre o signo de Aquário e Urano, estabelecidas desde a descoberta desse astro em fins do séc. XVIII, confirmaram todas as aproximações anteriormente feitas entre mitologia e astrologia. Melhor, não só confirmaram como permitiram que o homem entrasse em contacto com dimensões desconhecidas da sua interioridade e do universo, ampliadas mais tarde com a descoberta de Netuno (meados do séc. XIX) e Plutão (década de 1930).


SISTEMA   SOLAR

Se os  planetas visíveis a olho nu até Saturno dizem respeito mais diretamente à evolução física e moral do ser humano individualmente considerado, os três  planetas invisíveis ao olhar humano (Urano, Netuno e Plutão), situados além de Saturno, dizem mais respeito à sua sua interioridade, à sua vida subconsciente, e afetam sobremodo a humanidade como um todo. 

Foi, aliás, por essa razão que os planetas transaturninos foram considerados como a oitava maior de Mercúrio (Urano), Vênus (Netuno) e Marte (Plutão). Quando, na música, dizemos que uma nota está uma oitava acima da outra isto significa que a nota é a mesma, situada porém numa região mais aguda do instrumento. Tome-se o caso de Mercúrio, planeta que numa carta astral descreve como funciona a mente de uma pessoa. Urano, como sua oitava maior, nos descreverá outros tipos de vibração mental, de natureza mais evoluída, que vão além de Mercúrio. É neste sentido, por exemplo, que Urano é considerado como o planeta da intuição, um conhecimento imediato, instantâneo, ao qual se pode chegar sem necessidade das demonstrações que a mente normal precisa para a ele chegar, se é que consegue. É a intuição uma apreensão que se parece muito com o conceito filosófico do Zen, o satori, que se pode traduzir como compreensão profunda e imediata, iluminação.

HESÍDIO
Conforme nos conta Hesíodo em seu poema A Teogonia, Urano era o nome que os gregos davam ao céu estrelado. Nascido de Geia por partenogênese, sem o concurso de qualquer divindade masculina, gerado por ela em igualdade de esplendor e beleza para que ele a cobrisse, como está no poema, Urano passou a fecundá-la e ela pôs no mundo vários filhos, divindades e monstros, os titãs, os Cíclopes e os Hecatônquiros.

O relacionamento entre Urano e seus filhos, como se sabe, sempre foi difícil; os filhos produzidos por ele e Geia formavam no seu todo uma prole anárquica, revoltada, perigosa, desmesurada; seu comportamento era espasmódico, imprevisível, oscilando todos entre entre estados de grande exaltação e de profunda depressão. Urano tinha tanto horror dos seus filhos, tão pouco gratificantes para o seu amor-próprio, que não hesitava em lançar uns no Tártaro, encerrando-s na camada mais profunda do inferno, ou obrigar Geia a reabsorver outros.

Levando a um paroximismo incontrolável a sua função procriadora, sempre debruçado sobre Geia, fecundando-a incessantemente, Urano jamais deu ouvidos às suas queixas. Inconformada, ela chamou seus filhos à revolta com a finalidade de dar fim à prepotência de seu filho-amante. O único que a atendeu foi Kronos, o caçula; Geia lhe forneceu-lhe então uma foice de silex com a qual ele investiu contra o pai e o castrou. Dessa castração, do contacto da genitália de Urano lançada ao mar com a sua espuma (aphros, em grego), tudo em meio a sangue e secreções, nascerá Afrodite, deusa do amor.

Parece não haver dúvidas de que o papel representado por Geia na castração de Urano foi inspirado por aquele que Cibele, deusa frígia, como Grande-Mãe, desempenhava  na mitologia dos povos do oriente-próximo. Até onde se sabe, foi no culto de Cibele que se encontrou o primeiro ritual de castração masculina devidamente registrado.


CASTRAÇÃO   DE   URANO


CIBELE
Esta história apresenta algumas versões, parecendo-nos a mais aceitável a mais antiga, a greco-oriental, que nos apresenta Atis, deus anatólio da vegetação, servidor a amante de Cibele, mãe dos deuses, dos humanos, dos animais e da vegetação selvagem. Grande-Mãe, Cibele se situa entre as maiores divindades da fertilidade do mundo antigo. Montada num carro puxado por leões,  símbolo de seu poder, ela possui uma chave com a qual abre as portas da Terra onde estão encerradas todas as suas riquezas. Seu culto se espalhou pelo Mediterrâneo, alcançando Roma, onde era apresentada majestosamente com pequenas torres numa coroa  que ostentava na sua cabeça, emblemas das várias cidades que protegia. 

CIBELE   E   ATIS ( ANGELO MONTICELLI , 1778 - 1837 )

Seus cultos, no oriente, eram de natureza orgiástica, neles se encaixando a história de Atis. Amado pelo hermafrodito Agdistis e não podendo a ele se unir, por sua dependência de Cibele, Atis enlouqueceu, e se mutilou, castrando-se (emasculação), numa das festas da Grande-Mãe, realizadas anualmente. Ovídio, muito mais tarde, retomou a história de Atis, da sua castração, eliminando, porém, a sua ligação com Agdistis.  Atis passou,  a partir dessa versão, a ser considerado  como um deus da vegetação que morria e renascia anualmente, um representante da chamada fecundidade pela morte.

Considerando o que até agora foi expôsto com relação a Urano não será preciso muito esforço para se perceber, mesmo para os que não se aventuraram na caminhada astro-mitológica, o quanto o filho amante de Geia pode se insinuar, como poderoso arquétipo na personalidade de muitos daqueles que a astrologia chama de aquarianos. Realmente, Urano, como deus do céu, além de outros excessos, parace apresentar, quando analisado mais de perto, como característica principal, uma incontrolável e anárquica criatividade, a personificação de uma fecundidade que não conhece limites.

O mito nos revela que Geia, que sofria e gemia, cansada da violência de Urano, que a fazia reabsorver os filhos que gerava, resolveu libertar a sua prole. Pediu que os filhos a auxiliassem. Todos se recusaram, com exceção do caçula, Kronos. Retirando de suas entranhas um metal até então inexistente, o ferro, com ele confeccionou uma enorme foice, entregando-a a Kronos, encarregado de enfrentar seu pai e irmão. Aguardando o momento em que Urano se preparava para mais uma vez se deitar sobre Geia, Kronos se lançou contra ele, arrancando de um golpe, com a sua foice, a sua genitália.

Sob o impacto da surpresa e da dor, Urano se retirou violentamente de cima de Geia, liberando o seu corpo, criando-se imediatamente entre ela e ele um espaço que nunca mais voltaria a desaparecer. Essa façanha de Kronos é muito semelhante a que Shu, o Ar, praticou na mitologia egípcia: representado de joelhos, sustentando com as duas mãos Nut, a abóbada estrelada, separando-a, a boa distância, de Geb, a Terra. Desde então, a foice, como símbolo, associou-se às colheitas e à morte, aparecendo como um atributo das divindades agrícolas, cujo melhor exemplo pode ser encontrado no deus Saturno, dos povos latinos.


NUT 

Astrologicamente, foi atribuída a Urano, o planeta mais excêntrico do sistema solar até então conhecido (excentricidade até hoje não contestada), a tutela da constelação de Aquário, pelas seguintes razões, em função das influências que exerce sobre o nosso planeta e a vida humana: essencialmente, Urano é variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, excitante (mania, no sentido grego), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista (utópico), original, inédito e estéril.

Através dos adiante nomeados traços de personalidade, que destacamos, a influência uraniana costuma ser traduzida pelos seguintes comportamentos:  desmesurado impulso criador; peculiaríssima originalidade, caracterizada pela autossuficiência; excessos individualistas;  forte inclinação à independência (ação reflexa do singno oposto, Leão), alimentada muitas vezes por uma absoluta falta de compromisso ou de concessões com relação ao meio em que vive; obstinada cosmovisão; lógica e ética únicas, base de um comportamento que leva invariavelmente o tipo aquariano mais comum a não querer pertencer a “nenhum rebanho”. 

Lembro que a união de uma Deusa-Mãe com um Filho Amante é um modelo muito repetido nas primeiras fases de várias mitologias, uma forma incestuosa de relacionamento que nesses tempos primordiais terminava via de regra tragicamente, encontrando-se um de seus melhores exemplos, atualizado, na história do infortunado Édipo. 

EVA
( L.L.DHURMER, 1865 - 1953 ) 
O ímpeto criativo de Urano, talvez a sua característica mais marcante, costuma gerar, em muitos casos, o melhor e o prior através de inventos e formas, individual ou coletivamente.  É neste sentido que Aquário é o signo do demiurgo, do inventor, daquele que vai também rejeitar muitas vezes (sempre?) a sua própria criação, como Urano o fez com seus próprios filhos e como, entre os judeus, Javé, valendo-se da sua criatura masculina, fez com a mulher, Eva. 

Dentro deste contexto é que podemos estabelecer a analogia entre a inesgotável capacidade criadora do Céu Estrelado e a ação aquariana superior de caráter científico, tecnológico ou artístico, uma fantástica capacidade criadora nem sempre coerente e muitas vezes inconsciente, quanto aos efeitos maléficos daquilo que foi criado, poderia produzir. São estas considerações, a meu ver, que atualmente, diante do surto inventivo que tomou conta da humanidade a partir de fins do séc. XVIII, se nota nos países mais influenciados pelas características aquarianas, características que precisam ser trazidas à discussão para se questionar a responsabilidade dos inventores, forçando tais países a que se conscientizem e interroguem sobre os efeitos deletérios de sua  própria criação. 





domingo, 27 de maio de 2018

CAPRICÓRNIO (1)

               
CAPRICÓRNIO
(CATEDRAL DE CHARTRES, FRANÇA)
Quando o Sol ingressa na constelação de Capricórnio, temos, no hemisfério norte, o chamado solstício de inverno, que se inicia com a noite mais longa do ano. Cada um dos círculos da esfera terrestre, paralelos ao equador, a 23º27´, tem o nome de trópico. Trópico vem de tropia (tropos, em grego, é direção, feição, maneira) e designa cada um dos paralelos da esfera celeste que passam pelos pontos solsticiais. O trópico de Câncer tem declinação + 23º27´, no hemisfério norte ou boreal. O trópico de Capricórnio tem declinação – 23º27', no hemisfério sul ou austral.


TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO


AURIGA
Astrologicamente, Capricórnio é um signo de terra em que o frio predomina sobre o seco, com participação do úmido, o que atenua um pouco a  sua rigidez, trazendo-lhe uma tendência impulsiva (cardinal), característica ausente nos outros signos do elemento terra, Touro e Virgem. Na antiguidade, a constelação foi chamada de Cabra Cornuda, designação que a diferenciava da estrela alfa da constelação do Auriga, chamada Capela (Pequena Cabra), hoje perto dos 22º de Gêmeos. 

A cabra com terminação de peixe só teve o seu desenho fixado por volta de 1.000 aC, conforme gravuras babilônicas. O signo, entre os mesopotâmicos, já era conhecido como o da cabra marinha, uma representação do deus Ea, cujo ideograma queria dizer aquele que fica acima das águas ou casa das águas, uma clara alusão aos dois signos do eixo solsticial. O domínio de Ea, segundo o mito, é o Apsu, a camada de água doce que envolvia a terra e lhe servia de suporte. Neste sentido, ele se opõe às águas tumultuosas oceânicas. As águas de Apsu espalham fertilidade e abundância. Além do mais, Apsu é fonte de sabedoria, nada escapando à sua vigilância. Ea tinha as características de um deus civilizador, sendo venerado por todos aqueles que trabalhavam com madeira, pedra e metal. Nesse sentido, Cronos e Saturno, como divindades civilizadoras, o lembram muito. Ea era representado normalmente por um cabrito montês com cauda de peixe. Promotor da educação e do progresso, Ea, ao dominar Apsu, tornou-se o senhor de toda a terra, instaurando-se com o seu domínio uma espécie de idade de ouro que, na mitologia grega, como se sabe, teve a regência de Cronos. Destronado depois por seu irmão Bel, que enviou um dilúvio para destruir os humanos, Ea, recuperando seu poder,  com muito esforço, conseguiu entretanto salvá-los, ensinando-lhes a construir uma arca, com a qual se salvaram.    

ASHTORAT
A cabra, desde a mais remota antiguidade, sempre apareceu associada a deusas da fertilidade. Os judeus davam o nome de Ashtorat a uma deusa assiro-babilônica cujas sacerdotisas sagradas (hierodulas) eram recompensadas por seus serviços com cabritas, animais muito valiosos então. Ashtorat era a principal deusa dos fenícios, representando os poderes reprodutivos da natureza. Era uma deusa lunar e no Egito era considerada como filha de Ra ou Ptah. Os judeus, porém, a transformaram num demônio. A Fenícia, como sabemos, era chamada também de Canaã, nome que quer dizer país baixo, e compreendia àquele tempo a área hoje ocupada pela Síria e pela Palestina. A região era também chamada de país do leite (de cabra) e do mel, considerada pelos judeus como a terra prometida. Esta região, cujo ancestral era Canaan, filho de Cham (Quente), foi invadida pelos descendentes da tribo de Abraão, o primeiro patriarca dos judeus, sob o pretexto de tê-la recebido em doação de Deus. Seus grandes centros eram Byblos, Ugarit e Tiro cidades muito importantes, muito citadas no antigo testamento. Cham foi o segundo dos três filhos de Noé, nascido antes do dilúvio. Depois desta catástrofe universal, Cham encontrou seu pai embriagado e nu, relatando o fato aos irmãos, que  repreenderam Noé publicamente. Em represália, o pai
ASTARTE
amaldiçoou Cham e o condenou a ser o servidor dos seus irmãos. Cham, como se disse, é o ancestral dos cananeus e de povos africanos. Nas regiões semíticas do noroeste, Ashtorat recebia o nome de Astarte (Ishtar nos textos mesopotâmicos), grande modelo da Afrodite grega, especialmente sob o aspecto de Erycina, que pontificava na Sicília, em Eryx, junto do monte de mesmo nome (atualmente, San Giuliano), cidade fundada pelos fenícios, objeto de disputa entre Siracusa e Cartago. 

PRAKRITI
A cabra, em antigas tradições védicas, era um símbolo da substância primordial, significando algo não nascido ainda, recebendo, por isso, o nome de Prakriti. Confundida com a natureza, com o mundo material, Prakriti se opunha ao espírito, Purusha. Enquanto a cabra canceriana lembra um universo aquático relacionado com o elemento líquido na sua função original, Capricórnio trabalha com ideias contrárias, tendo a ver com concentração, desnudamento, retração,  com o predomínio das virtudes frias, sobriedade, simplicidade, austeridade. O ser humano colocado sob a radiação de Câncer sempre terá problemas com a sua defesa corporal; seu psiquismo, no geral, se sentirá exposto, indefeso. É por isso que nele desde cedo encontramos um sentimento de desamparo, uma espécie de temor diante da vida. Capricórnio, ao contrário, inspira ação e metas firmemente delimitadas, linhas de ação que falam de cumprimento do dever, realização de propósitos lentamente amadurecidos e superação de obstáculos. Em muitos capricornianos, por isso, temos o cumprimento do dever como missão, o caráter inflexível, a tenacidade, um temor de não realizar, nada de concessões internas, a luta contra resistências elas, contra tudo o que possa ser visto com estados de ânimo oscilantes, caprichos. Uma das grandes ilustrações da máxima alquímica solve et coagula nós a encontramos perfeitamente no diálogo entre estes dois signos.

A coagulatio, lembremos, é a operação alquímica ligada ao elemento terra. Esta operação nos fala de sólidos, obtidos, por exemplo, pelo resfriamento de líquidos, que têm forma e posição fixas, com muita dificuldade de adaptação a recipientes, ao contrário da água. É por isso que os conteúdos psíquicos ligados ao elemento terra concretizam-se numa forma particular. Todos os mitos de criação (cosmogonias), a gênese bíblica, por exemplo,  usam imagens da coagulatio alquímica.   

O tipo capricorniano superior lembra a cabra que tem características montanhesas, animal das escaladas, das alturas, das elevações, dos picos, lugares que só podem ser atingidos depois de um adequado treinamento da vontade e do domínio da vida instintiva e da sensibilidade, por uma disciplina que tenha levado ao endurecimento das formas (diminuição do úmido), expressões de três grandes características inerentes ao signo: silêncio, solidão e trabalho. A participação do elemento úmido em Capricórnio, indicado pela cauda marinha da cabra, atenua, contudo, a excessiva concentração material, diminui um pouco a sua rigidez, favorecendo o impulso próprio (cardinal), tendência ausente nos outros dois signos do elemento terra, como se disse. 

Em várias tradições, Capricórnio sempre foi considerado um signo triste, de vida superior impessoal, de desapego de tudo o que é pessoal, isto é, canceriano (minha família, minha casa, meus bens, minha cidade etc). em nome de uma expansão em direção de outros níveis. Daí o uso de todos os meios herdados, dos valores materiais disponíveis, conquistados segundo modelos recebidos da tradição, como um meio de saída da vida pessoal ou social para que seja alcançada materialmente a máxima elevação máxima ou, nos tipos mais bem logrados, uma ligação com o coletivo, com a humanidade como um todo, ou seja, com a vida espiritual. É neste sentido que as montanhas, um dos grande símbolos do signo, são sacralizadas, os cumes principalmente, lugares de peregrinação, onde muitas culturas colocaram importantes templos. O alto das montanhas é visto, por isso, como um lugar de transfiguração do material em espiritual.


MAKARA
Diante do que se expôs até aqui, podemos classificar os  capricornianos em três tipos básicos, o defensivo, o aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo crocodilo (Makara, na Índia), pela cabra (astrologia ocidental) e pelo unicórnio (tradição medieval). O crocodilo, aligátor ou caimão sempre apareceu associado às trevas, à Lua, lembrando a voracidade da noite que, ao final de cada dia, parece devorar o Sol. Temível sob todos os aspectos, o crocodilo exprime uma força inelutável, como a noite e a morte porque sem elas não temos o dia ou a vida. 

SETH
No antigo Egito, o crocodilo emprestava sua forma ao monstro Seth, irmão gêmeo de Osíris, deus da desordem, da violência, personificação do mal e da morte, lembrando a desertificação por oposição àquele, símbolo da fertilidade (as cheias do rio Nilo). O deus Sobek, como crocodilo, emprestava uma parte de seu corpo para formar com o hipopótamo, o monstro devorador das psicostasias. Os principais centros de adoração de Sobek eram Crocodilópolis (hoje, Medinet el-Fayoum), Tebas e Kom Ombo, no antigo Egito, segundo nos narra Diodoro da Sicília, do século primeiro aC. O crocodilo, no país dos faraós, era considerado como um sobrevivente das águas primordiais, um animal dos primeiros tempos da criação, tendo, por isso, relação com a fertilidade e com o Sol. Sua carga simbólica era, entretanto, ambígua. De um lado, em Tebas, eram sagrados, embalsamados, transformados em joias usadas por sacerdotes; de outro, execrados, sua goela considerada como a entrada da morte, sua cauda como um prenúncio das trevas, tendo sempre o animal como símbolo um caráter funerário. 


PLUTARCO
O historiador Plutarco nos deixou relatos de que o crocodilo era adorado no Egito em virtude de sua capacidade de tudo observar em silêncio, com os olhos cobertos por um tecido membranoso, capaz, inclusive, de prever as enchentes do rio Nilo. Ainda segundo os egípcios, as fêmeas, durante a sua vida, punham sessenta ovos, número do tempo médio de sua existência em anos. Aristóteles também afirmava que as fêmeas do crocodilo dos rios punham sessenta ovos brancos. Negativamente, o crocodilo, em várias tradições, é símbolo da hipocrisia porque costuma derramar lágrimas ao devorar as suas vítimas. 

A palavra crocodilo veio do grego (krokodeilos) para o latim (crocodilu) e deste para a língua portuguesa. Os gregos grafaram o nome do animal com o antigo significado egípcio, verme das pedras, segundo o qual ele era conhecido, devido ao costume de se esquentar ao Sol sobre pedras lisas, segundo Heródoto. O grande terror que ele inspirava se devia à sua bocarra, que conta com 38 afiadíssimos dentes em cima e 30 em baixo. Ele pode matar e deglutir animais do porte de um boi ou de um búfalo. Ousado e traiçoeiro em seus ataques, passou a ser metáfora de pessoa pérfida e cruel, que chora lágrimas de crocodilo, pois ele verte lágrimas enquanto devora as presas que abate por força da pressão que sobre os seus olhos exerce o movimento de sua bocarra. 

MAKARA
Na Índia, o signo de Capricórnio é chamado de Makara, imagem que vem do mito, um monstro marinho muito semelhante ao crocodilo, montaria de Varuna, como deus das águas. No zodíaco hindu, ele corresponde ao solstício de inverno, início de um período no ciclo anual em que o Sol é “devorado” pela bocarra da escuridão hibernal. Não é difícil estender, de um modo geral, esta analogia aos capricornianos que têm uma natureza muito séria e taciturna, que são, em muitos exemplos, depressivos, esquizofrênicos, avessos a qualquer intimidade, que podem se tornar misantropos ou misóginos muito facilmente. Estes tipos são as costumeiras vítimas do chamado complexo de Cronos, isto é, tipos humanos que se recusam a perder aquilo a que se ligaram no decorrer da vida, especialmente no seu período inicial. Fixados e cristalizados na infância e na juventude, fases em que o poder paterno costuma ser muito marcante o para eles; apagam o seu ego, tornam-se pessimistas, recusam-se a viver, a não ser segundo os modelos herdados dos quais, embora sofrendo muito, nunca conseguem se libertar.

Astrologicamente, estes capricornianos de primeiro nível
KALA
apresentam de um modo geral em seus temas configurações nas quais, além do seu ascendente e dos seus luminares, seus demais planetas pessoais se mostram também “devorados” por Saturno de algum modo. É por essa razão também que os hindus associam a Kala, o tempo que devora a vida, e ao dragão Rahu, o demônio dos eclipses, ambos “devoradores”, a Shani, o planeta Saturno, e ao signo de Makara, Capricórnio. Tanto Kala

como Rahu, ambos de grande goela, a tudo devorando e engolindo,
RAHU
são representantes do vai-e-vem cósmico na sua fase de refluxo. Segundo este entendimento, tal refluxo nunca poderá ser confundido com a morte, mas sim como uma transformação. A vida, emanada do Uno, a ele retorna num ritmo ao mesmo tempo generoso e temível.

O crocodilo, o lobo, o jaguar, a hiena, a baleia e outros animais conhecidos como “devoradores”, vorazes e/ou com bocarras e grandes goelas,  foram usados, desde tempos pré-históricos, para representar a alternância entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte. É neste sentido que o lobo, na tradição védica, aparece como
USHAS
um devorador natural da codorniz, ave que representa o calor, o ardor, a luz, chamada de “ave vermelha”. Na Índia, segundo o mito, foram os Ashwins, os gêmeos equivalente aos Dioscuros gregos (signo de Gêmeos) que libertaram a codorniz (vartika) da goela do lobo, acontecimento astronômico simbolizado pela Aurora (deusa Ushas). Lembremos ainda que entre os gregos, a ilha de Ortígia é conhecida como a ilha das codornizes (ortyks, codorniz). Nessa ilha, Leto deu à luz a Ártemis e a Apolo, gêmeos divinos, filhos de Zeus, que simbolizam os dois luminares celestes do nosso sistema.

Entre os povos maias da América Central, o jaguar é uma espécie de divindade de caráter ctônico e, como tal, ligado à vida subconsciente do homem. Ele aparece no crepúsculo (obscuridade) como devorador do Sol. Representa o denominado Sol Negro, o astro no seu curso noturno. É também o jaguar nessa mesma perspectiva simbólica o senhor das montanhas, do eco, dos animais selvagens e dos tambores de convocação dos rituais. Em muitos ritos dos povos das três Américas, o jaguar é considerado como o guardião do fogo e herói civilizador (Grande Ancestral) que deu ao homem técnicas de iluminação. 

No capricorniano de segundo nível unem-se, como já se deu a entender, dois símbolos, a cabra e a montanha. A cabra a que aqui nos referimos não é evidentemente a chamada “cabra de fundo de quintal”, a cabra que come o que lhe dão, símbolo do primeiro nível tipológico do signo (makara). Este tipo “cabra de fundo de quintal” jamais ousa, subordina-se sempre a um forte sentido familiar, sentido que impõe limitações e cargas a todas as suas obrigações e responsabilidades sociais. A grande debilidade do signo está neste tipo, que sempre se mostra preso a um pesado senso de dever (mais imaginado que real) ou tendo diante si barreiras intransponíveis imaginárias. 

CABRA MONTANHESA
Já o tipo capricorniano “cabra montanhesa”, de natureza aspirativa procura definir papéis, é capaz até mesmo de criá-los, tornando-se mais público, mais exposto, lutando por uma claridade que aumenta à medida em que “sobe”. Este é o capricorniano de ambições, que procura escalar a montanha, chegar ao topo, lento mas implacável na subida, podendo, como é o caso dos tipos mais bem logrados do signo, construir paraísos materiais (Stalin, Adenauer, Mao-tse-tung, Amador Aguiar etc.). 

 A cabra, como se viu, em todas as tradições é símbolo da matéria primordial (Prakriti) que pode tomar formas evolutivas através da fecundação pela energia, representada pelo divino, pelo espírito (Purusha), sendo a subida da montanha uma das metáforas deste jogo simbólico. Esta atividade fecundante do espírito era vista como a ação do céu em benefício da terra, conforme as variadas formas que as manifestações atmosféricas poderiam tomar.