Avareza é a qualidade ou a característica de quem é avarento, de quem tem apego excessivo e ignóbil ao dinheiro. Mesquinharia, sovinice. Desejo incontrolável de haveres. Avarento é o obcecado por adquirir e acumular dinheiro e bens. Popularmente, no Brasil, o avarento é também chamado de agarrado, agiota, arrepanhado, avaro, ávido, cainho, forreta, canguinhas, casca, cobiçoso, come-em-vão, mão-de-vaca, mão-de-paca, miserável, munheca-de-samambaia, pão-duro, pica-fumo, unha-de-fome, usurário, morto-de-fome, fominha.
Na literatura folclórica brasileira e portuguesa, encontramos muitos ditados, anexins, sentenças e adágios sobre a avareza. Eis alguns:
É melhor levar por engano do que deixar por esquecimento.
Godero disse que eu goderasse, comesse o dos outros e o meu guardasse.
De grão em grão, a galinha enche o papo.
O olho do dono engorda o porco.
O seguro morreu de velho e o prudente foi ao enterro.
A cavalo dado não se olha o dente.
De grão em grão enche a galinha o serrão.
Quem não tem dinheiro não beija santo.
Bago a bago, enche a galinha o papo.
Orvalho não enche poço.
Do mal guardado, come o gato.
Podre de rico.
Cão e gato comem o mal guardado.
Barriga vazia não dá alegria. .
Come do teu que o meu tem veneno.
Defunto sem ouro, defunto sem choro.
Quem dá o que tem, a pedir vem.
Quem dá aos pobres, empresta a Deus.
Na cama que farás nela te deitarás.
De moeda em moeda se faz uma fortuna.
Bago a bago, enche a galinha o papo.
Do mal guardado, come o gato.
Barriga vazia não dá alegria.
O bocado parece sempre maior em mãos alheias
Amizade de genro, Sol de inverno.
Cada homem estenda a coberta até onde tem a coberta.
Faze-te de morto, deixar-te-á o touro.
Partamos como irmãos: o meu, meu e o teu de ambos.
O que parte e reparte e não fica com a melhor ou é tolo ou não entende da arte.
Ao avaro tanto lhe falta o que tem como o que não tem.
Obra do comum, obra de nenhum.
O dinheiro é um bom servo, mas um péssimo senhor.
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SÃO PAULO |
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MAMMON ( COLLIN DE PLACY , 1793 - 1887 ) |
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SIMÃO |
Alguns historiadores nos informam que, chegando a Roma, Simão se apresentou ao imperador Nero, que acabou por ordenar a sua decapitação. Milagrosamente, afirmam, a cabeça de Simão voltou a se fixar em seu corpo, restaurando-se a sua integridade física. Desde então Simão foi nomeado por Nero como feiticeiro-mor da corte real. Lendas diversas nos contam que o apóstolo Pedro, muito preocupado com a disseminação das ideias de Simão em Roma, para lá se dirigiu a fim de enfrentá-lo. Ao tomar conhecimento desse fato, Nero, para seu divertimento, convocou os dois, Simão e Pedro, à sua presença para que iniciassem uma disputa taumatúrgica, vencida por Pedro, vindo Simão a falecer em consequência da sua derrota.
O que ficou dessa história de Simão, o Mago, é que, embora ele tenha morrido, a seita por ele criada em Roma, assumida por seus discípulos, continuou funcionando, com a promessa de imortalidade do corpo e da alma para os seus adeptos. Sabe-se mais que até meados do século XIX na França e nos USA ainda eram encontrados pequenos grupos que seguiam abertamente os ensinamentos de Simão de Samaria nos referidos países.
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SANTO TOMÁS (G. DA FABRIANO, 1370-1427) |
Os primeiros padres da Igreja davam à avareza sete filhas: a traição, a fraude, a mentira, o perjúrio, a inquietude, a violência e a dureza do coração. Pelo excesso de apego que provoca, a avareza endurece o coração, opondo-se à misericórdia. Misericórdia é compaixão, piedade, palavra que vem do latim, miser, miserável, e cors, cordis, coração, ou seja, coração movido pela compaixão despertada pela visão da miséria.
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MEU ! |
Um dos grandes exemplos bíblicos do que temos aqui é o de Judas Iscariotes, que fazia parte do grupo dos sicários (sica, em latim, é pequeno punhal), que, com os zelotes (zelosos), lutavam pela independência de Israel do jugo romano, que os considerava como bandidos, assaltantes. Iscariotes passou à história como o homem do punhal, o mentiroso, o falso, que atacou Cristo traiçoeiramente, no acaso, por trinta moedas de prata. É por essa razão que na
Ultima Ceia, pintada por Leonardo da Vinci, Judas Iscariotes aparece associado ao signo de Touro, relacionado sempre com dinheiro. O mesmo se diga com relação a Lucas, outro relacionado com o signo astrológico de Touro, que fala muito sobre a avareza no seu evangelho. Citando Cristo, Lucas nos diz: acautelai-vos e guardai-vos da avareza porque a vida de qualquer (pessoa) não consiste na abundância do que possui.
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LUCAS ( VITRAL ) |
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EUGÉNIE GRANDET, DE H. DE BALZAC |
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MOLIÈRE |
Harpagão (vindo a gritar desde o quintal até entrar em cena, com as feições desconcertadas, e no auge do terror):
Ladrões! Ladrões! Assassinos! Bandidos!
Querem-me assassinar. Mataram-me. Acabei.
Justiça, Deus do céu! Oh, vocês da ronda! Oh, guardas!
Estou perdido e morto. Cortaram-me a garganta,
Roubaram-me o sangue, os dez mil cruzados.
Quem seria? Quem foi? Onde se esconde?
Que fazer para encontrá-lo? Aonde ir? Aonde não ir?
Não está lá? Nem aqui? Quem é? Pare!
Devolva-me meu dinheiro! Malandro!...
Ah! Sou eu. Estou perturbado e ignoro onde estou, quem sou, o que faço.
Que pena! Meu pobre dinheiro, meu pobre dinheiro, meu amigo, privaram-me de ti!
E, desde que te roubaram, perdi meu apoio, meu consolo, minha alegria;
Tudo acabou para mim, e não tenho mais o que fazer no mundo!
Sem ti é impossível viver.
Pronto, não posso mais, morro, estou enterrado!
Não há ninguém que queira me ressuscitar
Devolvendo-me meu querido dinheiro, ou delatando quem o pegou?
Ah! O que dizem? Não é ninguém.
É preciso, seja quem for, que o desmascarem com muito cuidado;
E escolheram justamente o momento em que falava a meu filho traidor.
Vamos. Quero buscar justiça e torturar todos desta casa:
Servos, empregados, filho, filha, e também eu.
Quanta gente reunida!
Não lanço olhares a ninguém sem desconfiar, e achando que é o ladrão
Ei! Do que estão falando aí? Do ladrão?
Que barulho é este? Será que meu ladrão está aí?
Por favor, se souberem algo de meu ladrão, suplico que me digam.
Será que ele está escondido entre vocês?
Todos me olham e põem-se a rir.
Vocês verão que eles participaram com certeza do roubo.
Vamos, depressa, comissários, guardas, arqueiros, juízes, carrascos!
Quero enforcar todo o mundo;
E, se não encontrar meu dinheiro, me enforcarei depois!