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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - A IRA - I

    
A  IRA  ( HIERONYMUS  BOSCH , C.1450 - 1516 )
                                    
 A ira se define, no geral, como um intenso sentimento de ódio, de cólera, de aversão, dirigido a uma ou mais pessoas em virtude de alguma ofensa ou insulto. Pode ser também rancor generalizado em função de alguma situação irritante. Expressa-se a ira, muitas vezes, como fúria, raiva, indignação. No latim, ira é sinônimo de rabies, que em português transformou-se em raiva. 

IRA
(GIOTTO, 1266-1337)
Muitas vezes, o colérico, o cheio de ira, manifesta o seu descontentamento de modo muito agressivo, inclusive com violência. Por isso, falamos de acessos, de crises, de explosões de cólera. Podemos descarregar nossa ira de vários modos, com violência, ferozmente ou usando de solércia, de astúcia. O solerte, mesmo que não tomado totalmente pela ira, é, neste exemplo, o que age para causar muito mal a alguém com aparência de honestidade. O solerte é hábil, ardiloso, sabe despistar, é cheio de artimanhas. 
  
Em muitos casos, a ira é recalcada, explicando-a Freud, nesse caso, a partir do complexo de Édipo, ou seja, hipótese em que ela se volta contra um rival numa situação amorosa. Pode também a ira, assim, ainda com Freud, derivar-se do amor, sendo ela recalcada, coexistindo, em muitos casos, ambos os sentimentos.

Na literatura, a mais conhecida ilustração do que está acima pode ser encontrado num poema de Catulo, 84 aC-54 aC, poeta latino. É o famoso verso odi et amo (odeio e amo), que, segundo um dos melhores textos escritos sobre o jogo do amor (há boa tradução em português), Eros e Pathos, de Aldo Carotenuto, nos diz que o conflito entre estes dois sentimentos, o ódio e o amor, está sempre presente numa relação amorosa, mesmo que raramente atinja o limiar da consciência, como diz o autor. Completando o parágrafo, ele conclui: A prática clínica ensina que onde está presente um sentimento toma vida e consistência também o seu contrário. Os opostos que, com a sua interação, dilaceram o indivíduo, constituem o dinamismo secreto da vida. O amor reclama, pois, e até exige, a co-presença do ódio. 
CATULO
Pela importância de Catulo na poesia lírica latina, vale registrar aqui, ainda que brevemente, um pouco da história desse famosíssimo dístico Odi et amo. Nascido em Verona, em 87 aC, viveu ele a maior parte de sua breve vida (apenas 30 anos) em Roma. De família nobre e rica, desde cedo dedicou-se às artes (poesia principalmente), frequentando   os meios sociais mais elevados, cultos e corruptos da cidade. Apaixonou-se pela bela e depravada Clódia, que ele chamou de Lésbia, esposa do cônsul Metelo Céler, imortalizando-a no mencionado dístico, uma estrofe mínima de dois versos, a seguir exposta e traduzida:   
            
Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris.
Nescio: sed fieri sentio et excrucior.
(Odeio e amo. Por que agir assim? se me perguntas.
Não sei: só sei que o faço e sinto que me torturo )

Justos ou injustos, a ira, o ódio ou a raiva têm um campo semântico vasto: execração, gana, malquerença, rancor, sanha, zanga, repulsa, asco, aversão, fastio, nojo, ojeriza, repelência, repugnância, hostilidade, antagonismo, querela, rivalidade, agressividade, cólera etc. No fundo, a ira é um sentimento de irritação, violento, que nos leva a querer mal a alguém e, muitas vezes, a nos alegrarmos com o mal que lhe acontece. Embora possamos apontar algumas diferenças entre as palavras citadas, elas acabam se confundindo, sendo usadas como sinônimos. Muitas dessas palavras já não se usam mais, ficaram para trás, perdidas nos textos de escritores do passado.

De ira vieram palavras como iroso, iracundo e irado. A primeira palavra designa aquele que está possuído e dominado por grande ira, por esta grande paixão, que pode ser passageira. Iracundo é o habitado pela paixão. Irado indica o ato de irar-se alguém. No homem irado, a ira é como um fogo que queima. No iroso, como
ANTÔNIO  VIEIRA
um incêndio que abrasa. No iracundo, como matéria inflamável que a menor faísca põe em chamas. Um bom exemplo deste último nos foi  indicado pelo padre Antônio Vieira, gênio da língua portuguesa, ao falar de Moisés. Trata-se do caso em que ele, com as próprias mãos,  atacou um egípcio, prostrando-o morto a seus pés. Vieira sentenciou: Moisés era arrebatado e iracundo. 
CRUZ  E  SOUZA
O grande poeta negro catarinense, Cruz e Souza, um dos grandes nomes do Simbolismo brasileiro, filho de escravos alforriados, referiu-se a um ódio bom que o alimentava nos combates contra o obscurantismo da época: Ódio são! Ódio bom! Sê meu escudo/ contra os vilões do amor que infamam tudo/ Das sete torres dos mortais pecados! Manzoni (Alessandro), famoso autor do século XIX, italiano, dizia: é uma das vantagens deste mundo poder odiar e ser odiado sem se conhecer. 

O ódio pode tomar muitos caminhos. Quando se volta contra a humanidade, indicando falta de sociabilidade, tem o nome de misantropia. Já misoginia é a aversão a mulheres em geral; muito usada também a palavra para designar homens que não gostam de fazer sexo com mulheres. Já a xenofobia será a aversão a estrangeiros. O ódio religioso ou político aparece como fanatismo ou intolerância. 

Sob o nome de lissa (lyssa, grego) são descritas umas pústulas que aparecem na parte inferior da língua de pessoas mordidas por um animal que sofre de raiva. Atribuía-se a raiva canina a um verme, lissa, que causava a doença. No ser humano, a mordida deste cão causaria a hidrofobia, aversão ou terror mórbido da água. Sabe-se hoje que a hidrofobia ou raiva é uma doença infecciosa causada por um vírus, transmitida ao homem pela mordida de animais infectados, como o cão, o lobo, o gato ou o morcego, caracterizada por lesões no sistema nervoso central que podem provocar convulsão, tetania e paralisia respiratória. 

Na mitologia grega, os deuses, os heróis e os mortais que nela aparecem apresentam algumas vezes um comportamento inexplicável, uma conduta totalmente imprudente, que, conforme as descrições, é proveniente de um obscurecimento ou confusão mais ou menos longa da mente, causando descontrole da vontade. Uma espécie de loucura temporária atribuída à ação de uma potência
HÉRCULES  CRIANÇA
demoníaca externa. Esta potência tinha o nome de Lyssa. Tomado por ela, Hércules, por exemplo, chega a um tal estado de fúria, a um ódio inexplicável; ainda bem jovem, esmagou a cabeça de Lino, seu professor de música, só porque ele o repreendeu por ter cometido um erro. É também tomado por Lyssa que o nosso herói mata a sua família. Lyssa, às vezes, é chamada de Anoia, etimologicamente ausência de consciência, raiva furiosa, que provoca a perda total da faculdade de pensar, de raciocinar.

A expressão física mais contundente da raiva nós a encontramos na Mitologia grega na figura do deus Ares. Pelas suas histórias, é Ares, sem dúvida, um dos  mais odiosos personagens do mito grego; sempre enraivecido, é aquele que excita o ódio, o desgosto, a indignação. É apelidado de bebedor de sangue, de senhor das lágrimas, de flagelo de Deus etc. Onde ele aparecia só havia sofrimento, dor, guerra, inimizade, luta. Seu nome, Ares, tem relação com palavras que lembram enfurecimento, desgraça e infortúnio. 

É Ares filho partenogênico da deusa Hera; sua geração foi motivada pelo ódio que a deusa sentia por Zeus, seu marido, devido ao grande número de seus filhos espúrios, “semeados” fora do casamento. Somente Afrodite o acalmava, o amolecia, suavizando-o um pouco. Terão, ele e a deusa, uma filha chamada Harmonia, isto é, filha da guerra e da paz. Mas terão também, por outro lado, dois monstros como filhos, os gêmeos Fobos (Pavor) e Deimos (Horror). 


ARES
Ares, como toda divindade grega, tinha o seu séquito. Dele faziam parte, além dos gêmeos, Éris, a deusa da discórdia, as Keres (destruição, ruína, podridão), monstros femininos alados, que se alimentavam do sangue de moribundos nos campos de batalha. Sempre com roupas ensanguentadas, garras aduncas, corpo coberto de serpentes, aproveitavam elas para liquidar os agonizantes. A divindade Enio também fazia parte do grupo; era um demônio feminino devastador, sempre presente nos campos de batalha. Lembremo-nos ainda de diversos outros filhos que Ares teve, todos medonhos, violentos, assassinos, salteadores, brutais, espalhados pelo mundo.

Esplêndido fisicamente, Ares andava sempre armado. Sua presença era anunciada por seus uivos, por seus gritos e pelo barulho de suas armas. Entre os deuses do Olimpo, era o mais distante de Zeus, sempre odiado e evitado por todos, ninguém desejando a sua companhia. Entre os romanos, Ares é Marte. Na Astrologia, é o planeta Marte, simbolizando o fogo dos desejos, a vida instintiva, o dinamismo, a violência, o desrespeito pelo outro e também a genitália masculina. 

Os latinos, por exemplo, tinham o adjetivo rabidus, que significava furioso, enraivecido. Virgílio, o grande poeta latino, usa esse adjetivo para nos descrever a boca espumante da Sibila em delírio. Para o poeta, o cão tricéfalo infernal, Cérbero, tinha uma fame rabida (fome raivosa), com a suas bocarras sempre espumantes. 


DIES  IRAE  ( HANS  MEMLING , 1430 - 1494 )

O frade franciscano Tommaso de Celano (séc. XIII) colocou a ira numa famosa obra, Dies Irae, O Dia da Ira, para profetizar sobre os acontecimentos do Juízo Final. Consta que nesse dia ter-se-á um calor como nunca houve. Nesse dia, o Sol e a estrela Sirius, a estrela da canícula, da constelação do Cão Maior, estarão em conjunção. Já os profetas do fim do mundo, nos afirmam também que esse acontecimento se dará num tórrido dia de verão, estação em que as pessoas pecam mais.

LORD   BYRON
A inveja, a raiva e o ódio costumam caminhar juntos. O verbo latino é odi. Como dizia Byron, poeta inglês dos sécs. XVIII-XIX, o ódio é o prazer mais duradouro; os homens amam com pressa,
BALZAC
mas odeiam com calma. A energia do ódio é apontada por vários filósofos, psicólogos e escritores. É de Balzac, escritor francês, séc. XIX, esta observação: O sentimento que o homem suporta com mais dificuldade é a piedade, principalmente quando a merece. O ódio é um tônico, faz viver, inspira vingança; mas a piedade mata, enfraquece ainda mais a nossa fraqueza.

Chamamos de ódio figadal, profundo, visceral, o que vem do fígado porque a bile, secreção desse órgão, foi sempre um símbolo do ira, segregada justamente sempre sob a ação nervosa que a produz. O fígado é o lugar dos movimentos da cólera, do fel, da animosidade, das intenções deliberadamente venenosas, o que
SÃO  JOÃO  DA  CRUZ
explica o seu sabor amargo.  No Islã, por exemplo, o fígado é o lugar das paixões e da dor. S. João da Cruz, poeta místico espanhol, interpretando Jeremias (Lamentações), liga o fel à memória, à morte da alma, à privação de Deus.  Neste sentido, o fel se opõe ao vinho, pois é o contrário da bebida da vida, usado na eucaristia, que permite a metamorfose. Cheios de fel, não mudamos. Fel e bile se equivalem: lembram amargor, sempre um estado de espírito que reflete agastamento, azedume, impulsos destrutivos.

A vesícula biliar é o lugar onde simbolicamente encontramos as expressões da agressão, do amargor, do mau humor, da irascibilidade. Agressão não como ataque frontal, agressão como postura inamistosa, constante, cultivada, antipática, irritadiça. Os coléricos (cholé, bile, e aírein, alçar) precisam deixar fluir a bile, símbolo da energia vital retida, de algum modo. Se não o fizerem, poderão ser levados a estados de pressão e de excitação prolongados, causadores de situações hipertensivas desastrosas. 

Um outro aspecto deste problema "biliar" é o da melancolia (bile negra), mal causado por excesso desse tipo de bile que leva os indivíduos dele acometidos à lentidão, tristeza e prostração. Era, no passado, o que se chamava de abatimento, apoucamento, atrabilis (atra, negro, sombrio), marasmo, soturnidade, taciturnidade, neurastenia. Este estado aproxima-se daquilo que hoje tem o nome de psicose maníaco-depressiva (problema mental marcado por grande oscilação emocional, alternando-se nele fases de mania (excitação, hiperatividade em grego) com fases de depressão (sentimentos de inadequação, retardamento de ideias e movimentos, ansiedade, tristeza, ideias de suicídio, às vezes). Muitas doenças de pele, eczema, erisipela, psoríase, lúpus eritematoso cutâneo, pênfigos, melanomas e outras, têm relação com o ódio e a raiva. Estas doenças nos remetem sempre uma ideia de autoagressão. 


CONDE  GOBINEAU
A ira e o ódio aparecem na vida social de diversas formas. Uma delas, geradora de muita violência, de guerras, é o racismo. Nos tempos modernos, um dos grandes teóricos do racismo foi Joseph Arthur, o Conde Gobineau (1816-1882), diplomata e escritor francês. Serviu na Pérsia, na Grécia e no Brasil, onde manteve muito cordialmente relações intelectuais com D.Pedro II. Dentre outros livros, deixou um, muito famoso, o Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, no qual apresenta ideias da
CHAMBERLAIN
superioridade da raça nórdico-germânica sobre as demais. Sua teoria foi explorada pelos pangermanistas (pangermanismo: agrupar todos os povos de origem germânica sob um só Estado) e pelos adeptos do nacional-socialismo (nazismo). Na Inglaterra, um dos grandes defensores dessas ideias foi Houston Stewart Chamberlain (1885-1927), escritor alemão de origem britânica, autor de uma obra sobre Richard Wagner, cuja filha (Eva) desposou. É um dos precursores do nazismo.

O racismo ganha expressão através de doutrinas ou sistemas políticos fundados sobre o direito de uma raça, considerada pura e superior, de dominar outras. O racismo se expressa também por preconceitos mais ou menos extremados contra indivíduos pertencentes a grupos regionais menos adiantados economicamente dentro de um mesmo país. Na Itália, por exemplo, temos o preconceito dos habitantes do norte, mais adiantado economicamente, contra os do sul, os chamados meridionali ou terrone. O mesmo acontece, aliás, aqui entre nós com relação aos nordestinos que vieram de seus estados viver no sul, em busca de melhores condições de vida. É tanto o preconceito que mesmo os nossos dicionários já o registram. Baianada, por exemplo, passou a ser sinônimo de coisa mal feita, patifaria, baixaria.

O racismo também é encontrado naquela atitude que chamamos de xenofobia, palavra de origem grega que quer dizer aversão ao estrangeiro, àquilo que é diferente dos nossos valores, ao que é, em suma, diferente de nós. Foram os antigos gregos que criaram a palavra para designar aquele sentimento diante de povos que não participavam de sua cultura e, sobretudo, que não falavam a língua grega. O som da língua desses povos, aos ouvidos gregos, soava bar, bar, bar... Eram os bárbaros, para os gregos, grosseiros, não civilizados. Já na Linguística, a palavra barbarismo, como ensinam os mestres, descreve a tendência de se usar indiscriminadamente palavras e expressões de outras línguas, como nós fazemos aqui no Brasil, ao substituir quase que totalmente, o Português pela língua dos nossos neocolonizadores norte-americanos em muitas áreas da nossa vida (negócios, computação, música popular, televisão, publicidade, comércio, tecnologia etc.).


SANTO  TOMÁS 
Alguns filósofos gregos, como os peripatéticos, falavam de uma ira justa, enquanto outros, como os estoicos, sempre se referiram a esse sentimento como vicioso. Santo Tomás considerava a ira como uma paixão e, por isso, nos dizia, olhando-a sob um ponto de vista formal, que ela sempre proviria de uma alma apetitiva, ou seja, seria sempre um desejo de vingança. Sob o ponto de vista material, afirmava que a ira estava relacionada com alterações fisiológicas, com aquecimento, calor, estados que chamamos de coléricos. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - A INVEJA

   
A INVEJA
(H. BOSCH, C.1450-1516)
Comumente, a inveja é um sentimento de desgosto provocado pela felicidade ou pela prosperidade alheia. No plano da via afetiva, confunde-se com o ciúme, estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de quem se pretende amor ou fidelidade exclusivos. A inveja e/ou o ciúme são fenômenos passivos, paixões, portanto, que têm como principal característica a paralisação da ação normal da razão. As paixões, como sabemos, quando se instalam, impedem que comandemos a nossa conduta, que determinemos a nossa vontade. 

Os gregos tinham três palavras para falar da inveja, phtonos, dzelos e baskhainia. Baskhanos era o que olhava com maus olhos, era o curioso, o invejoso, o denegridor, o caluniador. Phthoneros era o ciumento, o invejoso. A palavra ciúme veio para nós do grego, dzelos, passando pelo latim, zelumen, zelumis com o sentido de intensa paixão amorosa. Os franceses têm jalousie, sentimento vivo, intenso, sombrio, palavra que veio também pela mesma via acima apontada, dando na língua provençal gilos. Os espanhóis dirão celos, os italianos gelosia e os ingleses jealousy. O ciúme tem a ver com o receio, o pavor, o temor de perda, a desconfiança, a tortura, o masoquismo.


A  INVEJA ( EDWARD  MUNCH, 1863- 1944)

Dos tormentos da alma, o ciúme e a inveja talvez sejam os mais avassaladores. E isto porque eles não existem sem o querer, sem o gostar, sem o amar. Talvez ainda porque eles apareçam sempre associados a outras emoções destrutivas como a dúvida, a angústia, a desconfiança, a mágoa, a solidão, o desamparo, o medo, a rejeição, a paranoia, a necessidade de afirmação pessoal, a autodefesa, o amor próprio etc. Haverá alguém imune à inveja e ao ciúme?

LUPICINIO  RODRIGUES
Inah foi a primeira namorada, a primeira noiva e a primeira desilusão de Lupicínio Rodrigues. Foi também a primeira e única mulata de sua vida. Depois, só teria problemas com louras, como ele mesmo declarou. Com Inah, o romance começou em Santa Maria, lá no Rio Grande do Sul, de onde ele era. Ambos muito jovens, a relação durou seis anos. Terminou porque Lupicínio não se decidia quanto ao casamento. Algum tempo depois de ter tudo findado, Inah se casou com outro. Quando Lupe, como era chamado, a viu de braço com o marido, sentiu um choque tremendo, um misto de ciúme, amizade, despeito e horror, como disse. Adquiriu, como a chamava, uma "dor de cotovelo federal”, daquelas que duram a vida inteira, diferente da dor “estadual” e da dor “municipal”, que também duram, mas passam. O resultado dessa dor de cotovelo “federal” foi Nervos de Aço, samba gravado por Francisco Alves, o primeiro grande sucesso de Lupicínio Rodrigues. 

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? 
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor, 
Nos braços de outro qualquer.
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
E por ele quase morrer?
E depois encontrá-lo em um braço
E nem um pedaço do meu pode ser
Há pessoas com nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, amizade, despeito ou horror
Eu só sei que quando eu a vejo
Me dá um desejo de morte e de dor.”

O ciúme e a inveja, nos dicionários, passam por sinônimos. Inveja vem do verbo latino invidere, olhar de modo malévolo, mau olhado, o famoso malòcchio dos italianos. No caso da inveja, o olho se transforma num emissor da energia que está nos sentimentos ruins que experimentamos porque o outro possui alguma coisa que desejamos ou passamos a desejar quando o/a vemos com ela/ele. Este mau olhado recebeu dos italianos o nome de gettatura, do verbo gettare, arremessar, lançar longe. Uma energia destrutiva que se lança contra alguém.

Já os gregos antigos chamavam a inveja “ruim” de phtonos, sentimento em que se misturam à mágoa e à dor uma sensação muito desagradável produzida pela felicidade merecida ou não de alguém da qual não participamos. Phtonos era alegorizada sob a forma de um demônio, um espírito maléfico, que vivia em companhia de muitos outros, no Inferno grego, o  Hades, no Bosque de Perséfone, seu território vestibular. Alguns mitógrafos consideravam Phtonos como filha de Afrodite e de Dioniso.
Dzelos era o nome que os gregos davam a um ciúme ou a uma inveja especial. Quando este sentimento se instalava chamavam-no de dzelotymia. Nesta palavra, juntam-se os termos tymia e zelos, o primeiro tendo relação com afetividade, emoção (a glândula timo é representada em muitas tradições como a sede da vida afetiva; corresponde, no Yoga, ao chakra anahata, também chamado erroneamente de chakra cardíaco). Dzelos era, pois, para os gregos, uma espécie de ciúme positivo, uma inveja saudável, ao levar aquele que a experimentava a tentar se igualar a alguém ou a superá-lo, uma forma de emulação. Uma competição sadia sem sentimentos baixos, sem falsidade. Seria uma forma de cuidado diligente, vigilante, precavido, cauteloso aplicado a um desempenho emulador. 
De dzelos saiu negativamente a palavra zelote. Demonizado, Phtonos se apossa daqueles que fingem ter zelo, que simulam falso comportamento zeloso. A palavra adquiriu também o significado de fanático. O ciúme negativo, a inveja, o mau olhado e todos os demais sentimentos ruins passaram a ser designados pela palavra phtonos. Semelhante é este demônio àquele que entre os romanos representava a Invidia, um espectro feminino com serpentes na cabeça, olhos vesgos, magérrima, com um réptil roendo-lhe o coração. 

SANTO TOMÁS DE AQUINO
Santo Tomás de Aquino diz que é próprio do amor o querer bem ao outro, ao amigo, à mulher amada, ao homem amado, pois, nessa dimensão amorosa, o outro é como se fosse o nosso próprio eu. Os que se entristecem com a felicidade do outro vão de encontro à caridade, pois é através dela que amamos o próximo. A caridade, na doutrina católica, é uma virtude teologal que conduz ao amor a Deus e ao nosso semelhante. Num sentido amplo, ela se constitui de atos pelos quais o próximo é beneficiado, especialmente os pobres e desprotegidos.

Tomás aponta, como “filhas” da inveja, a murmuração, a detração, o ódio,a exultação pela adversidade e a aflição pela prosperidade. Um dos grandes objetivos da inveja é o de impedir a satisfação e o prazer alheios. A inveja usa para isto o que comumente chamamos de “falar mal de alguém”, disfarçada ou abertamente. No primeiro caso temos o que os latinos designavam por sussurratio, que podemos traduzir como fofoca. No segundo caso, temos a detração.

FOFOCA
Fofoca é palavra de origem africana, tendo sido criada a partir de um verbo que tem o sentido de remexer, revolver, esgaravatar. A palavra tomou o sentido de dito maldoso, de divulgação de detalhes da vida de uma pessoa que ela gostaria que não fossem revelados. Detração é difamação, expressão maledicente com o intuito de agredir, de fazer mal.

TOLSTOI
É na literatura, evidentemente, que encontramos os melhores exemplos do ciúme. Na literatura, o tema é tratado de modo admirável por Tolstoi, em A Sonata de Kreutzer (1891). A mulher de Pozdnychev o engana com um violinista e ele a mata. Esta história de adultério permitiu a Tolstoi expor as suas ideias sobre o quão nefasto pode ser amor físico nas circunstâncias por ele apontadas. Shakespeare também tratou do tema em Otelo, o Mouro de Veneza. Ele estrangula Desdêmona, sua esposa, convencido pelo pérfido e traiçoeiro Yago de que ela o enganava.    

Corneile (séc. XVII), dramaturgo francês, dizia: O ciúme, que parece ter por objeto apenas a pessoa que amamos, prova na verdade que amamos só a nós mesmos. De Oscar Wilde (séc. XIX): As não bonitas são sempre ciumentas de seus maridos; as bonitas nunca! Não têm tempo. Estão sempre ocupadas com o ciúme em relação aos maridos de outras mulheres. E Proust arremata: Para aquela (mulher) que é objeto de ciúme, ele passa a ser considerado como desconfiança injuriosa e, por isso, é uma autorização para enganar o ciumento.
Qualquer que seja o ângulo pelo qual o examinemos, o ciúme é sempre um sentimento intenso, hostil, sombrio, que se pode experimentar também quando se vê alguém se aproveitar de algo que não possuimos ou que desejaríamos possuir com exclusividade. Ou, ainda, inquietação que nos toma quando temos de abrir mão de algo que muito prezamos ou estimamos em proveito de outra pessoa. 

BALZAC
Balzac, seguindo os gregos, dizia que o ciúme e a inveja se transformavam em emulação nas pessoas superiores; nos inferiores, se transformavam em ódio. O campo emocional do ciúme é vastíssimo, tem muitas nuances, formas expressivas. Freud, a partir da inveja e do ciúme, criou a expressão inveja do pênis para designar um elemento constitutivo, segundo ele, da sexualidade feminina, que pode se apresentar de diversas formas, indo do desejo frequentemente inconsciente dela própria possuir um pênis para dele gozar à vontade no coito. Lembremo-nos de Mafalda (personagem do grande Quino) ao ver um menino fazendo xixi: Maman, mira maman, que cosita más práctica, comprame una?

Psicólogos, espíritas, médicos, umbandistas, terapeutas, operários, empregados de escritório, fanáticos por novelas de TV, religiosos, conselheiros espirituais, exorcistas, políticos, bispos, pais-de-santo, poetas, músicos, psicopatas, donas de casa, cartomantes, membros de torcidas organizadas, protestantes, professores catedráticos, praticantes de Yoga, evangélicos, cardeais, gente que tem conta no exterior em paraísos fiscais, todos e muitos mais têm sempre o que dizer sobre o ciúme, cada um a seu modo, sem dúvida.

Uma das visões mais lúcidas do tema está na que Astrologia conscientemente praticada oferece. É no eixo Touro-Escorpião, signos fixos, sempre mais sujeitos às paixões, que temos os melhores exemplos do que aqui se trata. É óbvio que o ciúme, tanto num como noutro caso, se manifesta sobretudo, mais agudamente, nos tipos malogrados de ambos os signos. O que aqui observamos quanto aos dois mencionados signos não exclui, contudo, a possibilidade de encontrarmos manifestações de ciúme em outros signos. Quem poderá se declarar imune a esse tipo de paixão? 


Em Machado de Assis, sempre sutil e refinado, encontramos observações como esta (Relíquias da Casa Velha): Havia nela tanta modéstia e recato que o ciúme dele podia dormir com as portas abertas. Se quisermos mais do nosso Machado temos que ir a uma de suas obras máximas, Dom Casmurro, onde ele analisa de modo magistral o ciúme de Bentinho por Capitu, deixando-nos dúvidas que discutimos até hoje. 
No caso de Touro, do elemento terra, o ciúme se liga invariavelmente a um desejo de posse material de um ser, de um objeto amado, ou da fruição ou gozo de alguma sensação prazerosa. Não satisfeitos, tais desejos, pela falta, pela carência, gerarão sempre algum tipo de sofrimento. Por outro lado, satisfeito ou obtido o objeto do desejo, sobre o qual repousa em grande parte a segurança física e psíquica do tipo aqui descrito, o ciúme, latente sempre, acabará se mostrando. 

Já quanto ao escorpiano (elemento água), a segurança está ligada ao emocional. Costumam os escorpianos viver a sua afetividade de modo total, absoluto, na base do tudo ou nada. Muitos escorpianos, quando amam, desejam do outro o corpo, a alma e o resto... Em ambos os casos, o ciúme, com facilidade chega à obsessão, à ideia fixa, podendo o sentimento tomar um caminho destrutivo (se não possuo, ninguém possuirá), patológico. É evidente que quanto maior o número de astros nos signos apontados, principalmente os chamados planetas pessoais, além do ascendente, maior a ênfase passional. Não é por acaso que encontramos nesse eixo as figuras mais emblemáticas da paixão e, consequentemente, do ciúme e da inveja, seja pela sua vida pessoal, por sua atividade profissional ou pela obra que deixaram. Como exemplos, basta citar: Stendhal, Eurípedes, Dostoievski, Lupicínio Rodrigues, Balzac, Goethe, Jean-Paul Sartre, Carlos Drummond de Andrade, Luis Inácio Lula da Silva, Richard Wagner, Picasso, Racine, Restif de la Bretonne, Albert Camus, Henri Georges Clouzot, André Malraux, Freud, Hitler, Kant, Marx etc.

ROLAND  BARTHES
Roland Barthes, semiólogo francês, em Fragmentos de um discurso amoroso, disse, tentando colocar o ciumento contra a parede: Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum. 

A Bíblia é um dos maiores repositórios de exemplos das paixões humanas: o ciúme de Caim; o de Sara, que induziu Abraão a expulsar Agar e seu filho Ismael; as relações entre Esaú e Jacó; a traição de Judas (ciúme de Pedro); a venda de José, como escravo, aos egípcios; o ciúme de Lia diante da beleza de Raquel; o ciúme de Satã por Deus ter criado Adão e muito mais.

APELES
O ciúme e a inveja costumam andar juntos com o ódio, já diziam os gregos. E completam: acompanha-os, de longe, o Arrependimento, sob a figura de uma mulher de luto, com as roupas esfarrapadas, os olhos lavados de lágrimas, em desespero, a procurar com os olhos a Verdade. Uma das melhores ilustrações deste entendimento dos gregos nos foi deixada pelo pintor Apeles (séc. IV aC), amigo e retratista de Alexandre Magno.

MEDEIA  E  FILHOS
(NINO  PISANO, 1334-1336)
No mundo grego, quem melhor falou sobre o sentimento humano foi Eurípedes, conhecido pelo apelido de pintor das paixões, nas suas tragédias, com os seus personagens femininos, dentre os quais, mais que todos, se destaca Medeia. Transtornada pela traição de Jasão, ela se vinga, causando a morte do rei Creonte, de sua filha Creusa e de seus próprios filhos: nada morderá mais rijo o coração de meu marido, é a fala de Medeia.
Não é de estranhar, por exemplo, que no nosso Brasil colonial algumas enciumadas sinhás (tratamento que as escravas davam às patroas) mandassem quebrar os dentes das “negrinhas roliças” ou, então, que mandassem cortar seus seios para servi-los, assados e
temperados, aos maridos, nos jantares. Uma dessas piedosas senhoras, irritada com os elogios que seu marido fizera aos olhos de uma “mulatinha” os serviu em calda, como sobremesa. Por aí, vemos que Peter Greenway não exagerou quando mostrou em seu filme, O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, o marido servindo à esposa o amante morto, temperado e enfeitado numa cerimônia cheia de requinte.

O cinema, aliás, é pródigo em filmes sobre o ciúme. Um deles, por exemplo, é Carmem, baseado no romance de Prosper de Merimée e na ópera de Ceorges Bizet. Grandes nomes do cinema se voltaram para essa fascinante personagem, Chaplin (1916), Lubitsch (1918), Otto Preminger (1954), Peter Brook (1983), Carlos Saura (1984), Godard (1983) e Rossi (1984). Destaque ainda para outros filmes, alguns igualmente importantes: A Caixa de Pandora (Pabst), A Teia de Chocolate (Chabrol), Amar Foi Minha Ruína (Stahl), Atração Fatal (Adrien Lyne), Infielmente Tua (Zieff) etc.

A poesia luso-brasileira guarda preciosidades sobre o tema. 
CASTRO   ALVES

De Castro Alves:

Nas ruínas desta alma a raiva geme.
E cresce o cardo – a morte
Ciúme! Dor! Sarcasmo! Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria.

Um dos maiores textos sobre o ciúme é, sem dúvida, o pequeno poema Cidra, Ciúme, de Soror Maria do Céu (1658-1753), esquecida autora do Barroco português, também atingida pela insidiosa paixão: 

É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente, 
Dá-lhe um centro de amor o apelido,
Que o ciúme é amor mas mal sofrido,
Troquem, pois, os amantes, e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.

Até em obras aparentemente tão inocentes como na história da Branca de Neve podemos encontrar o veneno do ciúme infiltrado: A madrasta: Dize a pura verdade, dize, espelho meu, há no mundo mulher mais bela que eu? O espelho: Aqui neste quarto sois vós, com certeza, mas Branca de Neve possui mais beleza.

Nada, porém, entre nós, melhor do que o encontrado em doutos tratados que sobre o tema se produzem, como o samba brasileiro para nos falar sobre o ciúme. O patrono dessa produção é, par droît de conquête, o eterno Lupicínio Rodrigues, imbatível no gênero.  É nesse espaço da cultura popular que encontramos obras em que se fixaram expressões como “dor de cotovelo” e “dor de corno”, e conceitos como o de “cornitude” (gênero lítero-musical), todos a discorrer sobre os males das paixões. 
É de Caetano Veloso um dos clássicos no gênero, “Dor de Cotovelo”. Seus primeiros versos nos dizem:
CAETANO  VELOSO

O ciúme dói nos cotovelos
Na raiz dos cabelos
Gela a sola dos pés
Faz os músculos ficarem moles
E o estômago vão
E sem fome
Dói da flor da pele ao pó do osso
Rói do cóccix até o pescoço.

Do grande mestre Lupicínio Rodrigues, Vingança, que bem poderia passar por uma homenagem a Medeia, a fada-madrinha de todos os que matam ou matarão por paixão: 

“Eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram chorando, bebendo,
Na mesa de um bar
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz
Não lhe deixou falar
Ai, mas eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que tive mesmo que fazer esforço
Pra ninguém notar

Mas enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar.

Diante do que expus até agora, nestes momentos finais, para que se complete melhor a visão do tema, obrigatória uma incursão, ainda que breve, à Psicologia e à Psicanálise. Na história do freudismo, os estudos sobre a inveja apareceram totalmente associados à sexualidade feminina. Freud, como se sabe, defendeu a tese de um monismo sexual e de uma essência masculina com relação à libido humana.  Nessa perspectiva de uma libido única, Freud defendia a ideia que, num estágio infantil, as meninas desconheciam a existência da vagina e faziam o clitóris desempenhar o papel de um homólogo do pênis. Daí a sensação que apresentam, segundo ele, de terem nascido providas de um órgão castrado. A sexualidade da menina se organizaria então em torno de um falicismo, isto é, do desejo inconsciente de ser um menino, do desejo que toda mulher tem de ter um pênis.

Mais: segundo algumas doutrinas psicanalíticas, todas as meninas desenvolvem com relação à mãe uma identificação tão completa (inveja) que desejam inconscientemente tomar o seu lugar, eliminá-la, para possuir o pai. A esta atitude emocional, deu-se o nome de complexo de Electra, para Freud o complexo de Édipo às avessas. 


JUNG

Jung, como se sabe, optou pela primeira designação, complexo de Electra. Electra, no mito grego, era filha de Agamemnon, rei de Micenas. Ela instigou seu irmão, Orestes, a vingar a morte do pai, assassinado por sua mulher, Clitemnestra e seu amante. Clitemnestra era mãe de ambos, dela e de Orestes.

MELANIE  KLEIN
Na década de 1920, Melanie Klein, famosa psicanalista inglesa, estudiosa do psiquismo infantil, deslocou o tema da inveja do contexto da sexualidade feminina, ampliando-o. Para ela, o conceito de inveja designaria um sentimento primário e inconsciente de avidez em relação a um objeto que se quer destruir ou danificar. A inveja apareceria então desde o nascimento, sendo inicialmente dirigida contra o seio materno. Na posição esquizo-paranoide ou depressiva, a inveja ataca o objeto “bom” para dele fazer um objeto “mau”, gerando assim um estado de confusão psicótica. 

O IMPÉRIO DOS SENTIDOS
Para uma melhor ilustração do que aqui se coloca com relação às teorias psicanalíticas, inclusive as defendidas por Jacques-Marie Lacan, recomendo para os mais interessados os filmes japoneses O Império dos Sentidos e O Império da Paixão, de Nagisa Oshima.




segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - A LUXÚRIA I


                     
A   LUXÚRIA  ( HIERONYMUS  BOSCH , 1450 - 1516 )
              
Etimologicamente, luxúria vem de luxus, latim, palavra que significa excesso, abundância, magnificência, extravagância, exibicionismo, dela fazendo parte ideias de anormalidade, de que algo está fora do lugar. Associa-se luxus ao verbo luctari, deslocar, dele saindo, por exemplo, a palavra luxação. A palavra foi muito
ISIDORO , C.560 - 636
empregada na Roma antiga e séculos posteriores sobretudo com conotação sexual. Com o tempo, seu universo semântico foi se ampliando passando ela a designar, de um modo geral, não só abusos quanto à sexualidade, ao apego aos prazeres dos sentidos, como à corrupção dos costumes, à lascívia, à intemperança. O entendimento que os primeiros padres da Igreja, como Isidoro de Sevilha, davam à luxúria ligavam-na aos prazeres sexuais. Luxurioso era para ele o “dissolvido em prazeres”. 

S. TOMÁS (  FRA
ANGÉLICO, 1395-1455)
Para entender melhor o que a luxúria é como pecado, sob o ponto de vista religioso, católico, temos que ir a Santo Tomás. Afirmava ele que o pecado nos atos humanos é o que contraria a ordem da razão, ordem esta que requer que tudo se dirija convenientemente para um determinado fim. Acrescentava então não haver pecado se o homem guiado pela razão se valia de modo conveniente das coisas e se o fim para que elas existiam fosse bom. As consequências desta maneira de pensar ficavam então óbvias: quanto maior a necessidade que experimentasse o homem com relação a alguma coisa tanto maior a necessidade de se observar a regra da razão. Daí, seria tanto mais viciosa uma coisa, isto é, pecaminosa, quanto mais ela se afastasse da razão. 
Quanto à sexualidade, não há o que discutir: Sem os atos sexuais a humanidade não prosperaria, o universo não se povoaria. Sem os atos sexuais os seres humanos não se multiplicariam, o gênero humano desapareceria. Tudo o que, quanto à sexualidade e à sua finalidade, não observasse a ordem da razão seria, pois, pecaminoso, seria luxúria, insistiam os padres da Igreja com base em Santo Tomás. Além do mais, há que se lembrar que os chamados pecados capitais levam sempre o homem a cometer muitos outros, a eles ligados. Ao praticar atos de luxúria, o homem, com facilidade, se entregará inevitavelmente a outros pecados.

Os vícios que foram chamados de capitais têm, como é fácil perceber, grande afinidade com o prazer dos sentidos. O mais intenso prazer corporal que o homem pode experimentar é o sexual. É por essa razão que a luxúria gera muitas “filhas”, no dizer do papa Gregório Magno. Temos a cegueira da mente, a irreflexão, a inconstância, a precipitação, o amor de si, o ódio de Deus, o apego às coisas materiais e o desespero em relação ao mundo futuro.

É importante lembrar que na antiguidade, bem antes do cristianismo, já era possível encontrar uma certa gradação estabelecida quanto a atos pecaminosos praticados por alguns seres humanos contra outros seres humanos e os deuses; algo semelhante, em alguns pontos, à matéria definida mais tarde por teólogos cristãos. Pode-se mesmo admitir que estes teólogos muito se valeram do que encontram no mundo anterior ao aparecimento do cristianismo para a formulação de sua doutrina sobre os pecados. Um exemplo do que aqui se diz está no poeta latino Horácio, que viveu no século anterior ao do nascimento de Cristo.

HORÁCIO
A seguir alguma frases de Horácio que, entendo, servem para ilustrar o que acima se disse: Quem não souber viver com pouco será sempre um escravo. A pálida morte bate com pé igual nos casebres dos pobres e nos palácios dos ricos. Não é pobre aquele que se contenta com o que possui. O avarento vive sempre na pobreza. Quem deseja muito muita falta sente.

EVAGRIUS  PONTICUS
No século IV dC, o monge grego Evagrius Ponticus (345-399) definiu as oito atitudes que os cristãos poderiam assumir como pecados mais graves: gula, fornicação, avareza, descrença, ira, desencorajamento, vanglória e soberba. No ano 590, a tese do monge foi incorporada ao Direito Canônico da Igreja Católica por iniciativa do papa Gregório I (540-604), ocasião em foi  dada a designação de pecados capitais (de caput, cabeça, em latim) às oito referidas atitudes. 
Toda vez que o homem pratica um ato inferior, pecaminoso, suas faculdades superiores se debilitam, se anulam mesmo, ficando ele desorientado no seu agir. Não será preciso fazer muito esforço para se notar as muitas conexões que a luxúria pode fazer; com a prostituição, a sodomia, a pornografia, o aborto (gravidez indesejada), as doenças sexualmente transmissíveis, o incesto, o sadomasoquismo, a pedofilia, a zoofilia, o bestialismo, o voyeurismo, o fetichismo e outras mais. 


A última moda neste terreno é a do amor ("carnal", inclusive) entre humanos, robôs e máquinas, que já chegou ao cinema comercial. Blade Runner, de 1982, por exemplo, descreve, dentre outros tópicos, uma relação amorosa entre um policial caçador de androides e uma replicante. Mais delicado, outro exemplo, é o recente, 2013, filme Ela, que narra a paixão de um tecnocrata (Joachin Phoenix) por um programa informático chamado Samantha.    


VOYEURISME  ( GRAVURA  CHINESA )

O amor libidinoso tem características de primariedade, é afoito, inconsequente, precipitado, elide qualquer possibilidade de reflexão, é inconstante, esgotando-se no próprio instante. Aponta
LIBIDO
 ( PICASSO , 1881 - 1973 )
ele para uma satisfação inteiramente ególatra, que, na realidade, é uma negação da transcendência, de algo que poderia ou deveria se realizar no tempo, inclusive através de ajustes mútuos das partes envolvidas. Libido é palavra que vem do latim, onde tem o sentido de paixão, de desejo violento. É procura instintiva do prazer sexual. Na Psicanálise, é aenergia que está na base das transformações da pulsão sexual e, como tal, é a
energia vital.
A luxúria caminha ao lado da paixão, palavra que tem uma história muito antiga. Entre os gregos, pathos, paixão, era tudo o que afetava o corpo e a alma tanto de modo benéfico como maléfico. Era algo experimentado, sempre uma ideia de algo sofrido, passivo. Vitimada pela paixão, a pessoa ficava à mercê dela. 


GLÂNDULA TIMO
O filósofo Platão usava a palavra epithymia para designar os sentimentos que subjugavam o ser humano, desejos, por exemplo. Este termo que Platão usa tem por base uma outra palavra, thymos, um órgão (glândula timo), situado no centro do peito,  que, no ser humano, tem a ver com a vida afetiva, com sentimentos. Os antigos confundiam esta glândula com o coração. Por essa razão, falamos que uma pessoa quando não tem sentimentos não tem coração. Por essa razão também, na arte religiosa, a imagem de Cristo com o coração exposto no meio do peito aberto significa o amor divino pela humanidade. Ainda mais: na Índia, no Yoga, é nessa região do peito que se situa o chamado chakra cardíaco (anahata, não percutido), governado, na Astrologia, pelo planeta Vênus, que, como sabemos, é o astro da vida afetiva.

CÍCERO
(KARL STERRER, 1885-1972)
Para o escritor latino Cícero, paixões são sempre perturbações da alma. Santo Agostinho verá como sinônimos paixão e libido. Aristóteles, outro filósofo grego, dizia que paixão é tudo aquilo que nos afeta. Por isso, afetados pela paixão tornamo-nos pacientes, padecemos; agente é aquele ou aquilo que nos provoca a paixão. Qualquer que seja o entendimento, a paixão se inscreve sempre no campo dos fenômenos passivos da alma dos quais a luxúria é uma expressão. Afetados, sentimos prazer ou dor. Se prazer, tendemos a nos aproximar do estímulo, a buscá-lo. Se dor, afastamo-nos. Todavia, este dois campos nem sempre podem ser definidos deste modo. Muitas vezes, um estímulo poderá nos causar, ao mesmo tempo, prazer e dor. 
Na Psicologia, a paixão é uma tendência de maior ou menor duração, acompanhada de estados afetivos e intelectuais, imagens muito poderosas que acabam por se impor, dominando a vida de uma pessoa pela sua intensidade e permanência. Uma inclinação que, instalada, torna-se o centro de tudo, tudo a ela se subordinando. Por isso, a paixão lembra cegueira. Nada vemos senão ela. Mesmo no caso de paixões ratificadas pela razão, somos tomados por elas. A paixão pode paralisar a ação normal da razão sobre a nossa conduta, impedindo a determinação da vontade. 

O passional se define por uma oposição ao racional, ao lógico. Neste sentido, é como a loucura. A razão, o racional, liga-se à ordem, à harmonia, à clareza. A paixão lembra irracionalidade, desarmonia, desordem, doença, caos. Desde a antiguidade, a mesma recomendação, na Filosofia, na Religião, na Medicina, na Psicologia, vigiar as paixões, pois sempre ameaçam a alma e o corpo de desordem, doenças, destruição.

A  LUXÚRIA
( HIERONYMUS BOSCH, 1450-1516)
De um modo geral, o pecado da luxúria sempre foi considerado como uma perversão, um desvio, daquilo que o sexo pode proporcionar como prazer sensual. Muitas religiões afirmam não condenar o sexo se praticado com moderação, sendo sempre difícil, porém, estabelecer limites entre o que é “normal” e os seus desvios. Quando a Igreja católica condena o sexo, vendo-o como pecado capital, segundo alguns teóricos, é porque ele assume um caráter luxurioso, ou seja, quando um dos parceiros não leva em conta o outro, tornando-o um objeto, quando o parceiro que assim procede leva somente em conta a gratificação dos seus sentidos. 


É neste caso que a luxúria se torna sinônimo de fornicação, de prostituição e de outras formas condenáveis. Fornicar é ter relações sexuais fora do casamento, ir às prostitutas, cometer o chamado pecado da carne. Fornicar vem de fornice ou fornix, arco de grandes portas, sob os quais, na antiga Roma, as prostitutas se exibiam para atrair clientes. Este arco não devia ser ultrapassado por elas, pois marcava o limite da área, do bairro, onde viviam e atuavam profissionalmente, sempre sob a proteção de um homem (pai, irmão, marido ou amigo nas funções de proxeneta (etimologicamente, corretor de mercadorias), gigolô (etimologicamente, do francês, o que explora a gigolette, mulher de rua), cafetão (de cáften, no lunfardo), o que vive do dinheiro das meretrizes. 


O lunfardo é uma forma dialetal do espanhol falado nos arredores de Buenos Aires. Talvez daí, para nós, venha a palavra cafajeste. No Brasil, cafajeste é o homem que trata a mulher como objeto. Nos anos 1950, a palavra foi usada, no Rio de Janeiro, para dar nome a um clube masculino, o Clube dos Cafajestes, cujo primeiro presidente foi o milionário e industrial paulista Baby Pignatari).

Aos poucos, criou-se o verbo fornicare, frequentar determinada zona, outro nome para os redutos do meretrício. A palavra zona chegou à língua portuguesa vinda da antiga Judeia, através do latim. Zonah era o nome que os judeus davam a um matrimônio invalidado por impedimento jurídico. No tempo da dominação romana, a mulher, nessa situação, não mais pura, virgem, acabava se prostituindo, indo para um lugar chamado zonah, lá sendo chamada pelos romanos de meretriz, palavra que vem de merces, preço, e de merere, ganhar uma recompensa. 

A fornicação, como as várias tradições religiosas entendem, tradições criadas pelo mundo masculino, ressalte-se, reduz o ser humano, o homem, no caso, a uma condição puramente animal, biológica. Assim sendo, ficam esquecidos outros aspectos, até muito positivos, que deveriam fazer parte do ato sexual, como afetividade, afinidades intelectuais, psicológicas e mesmo um ideal de transcendência.

É aqui que a luxúria e o erótico se aproximam, tomando esta última palavra o sentido de provocação do desejo sexual. Quem nos explica melhor esta relação é a mitologia grega. Entidade nascida do Caos, juntamente com Geia, Tártaro, Érebo, Nix e Urano, Eros tinha a função de provocar o acasalamento, de juntar os seres que apareciam no universo criado. Nada escapava do seu poder, que se estendia aos próprios deuses, aos humanos e à natureza como um todo. Tradicionalmente, era representado por um adolescente, mal entrado na puberdade, muito jovem. Perigoso e irresistível, carregava nas mãos um globo terrestre, símbolo de sua universalidade. Era o desejo unilateral que misturava, que acasalava, uma força atrativa cega que provocava a continuidade do universo, indiferente à vontade daqueles que unia. 
TEMPLO  DE  AFRODITE , GRÉCIA
Quando Afrodite chegou ao Olimpo grego para assumir o controle da vida afetiva, de modo a colocar o desejo numa perspectiva de reciprocidade, Eros se integrou ao seu séquito. Todavia, vezes sem conta ele escapou e continua a escapar do controle da deusa, como força inquieta que é, sempre em busca de uma nova experiência. Sua perversão é a luxúria, que Afrodite procura conter; perversão que consiste em não considerar o outro como parceiro, mas, sim, como algo a ser utilizado e desprezado, não se levando em consideração o seu valor.
O cristianismo vitorioso, obviamente, nunca se esforçou para entender as religiões que o antecederam. Sumariamente, como religião vencedora, as satanizou. Quanto ao mundo grego, no âmbito da sexualidade, além de Eros, duas divindades gregas foram
EPÍSTOLAS  AOS  CORÍNTIOS
particularmente atacadas, Afrodite e Dioniso. Foi na cidade de Corinto, na qual Afrodite pontificava, onde alguns cultos cristãos já haviam sido implantados, que São Paulo, nas suas visitas missionárias se demorou um
certo tempo. Escandalizado com o que viu na cidade, deixou para os cristãos que dele se aproximaram quatro epístolas com conselhos pastorais sobre a questão, as conhecidas Epístolas aos Coríntios, duas delas integradas ao cânon bíblico.