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VÊNUS |
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LUA |
Há, em grego, uma série de palavras que nos descrevem atividades e procedimentos do deus (Hermes) que nos ajudam a entender
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HERMA - HERMES |
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ARQUIMEDES |
Hermes não tem santuários grandiosos, não pertence, a rigor, a
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ENCRUZILHADA |
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ZEUS TRANSFORMANDO LYCAON EM LOBO |
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GRÉCIA E MAGNA GRÉCIA |
Foi na qualidade de deus dos ginásios e da ginástica que a imagem de Hermes mais se fixou. Sua estátua estava entre as dos doze “grandes” em Olímpia, onde se celebravam os famosos agones. As Hermaias eram as festividades realizadas em homenagem ao deus nos ginásios. A participação nestas festividades só era permitida a jovens, aos meninos (paides) e às meninas (ageneioi).
Eram consagrados a Hermes a palmeira, a tartaruga, o galo, vários tipos de peixe e o número quatro, fazendo parte dos seus cultos, como matéria sacrificial, mel, incenso, porcos, cordeiros e bodes. A
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MEDRONHEIRO |
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SALGUEIRO |
O número quatro, sobretudo porque relacionado com os quatro pontos cardeais, é de Hermes, como deus dos deslocamentos e das
viagens. Sabemos que em todas as culturas os sistemas de
orientação e de representação do espaço foram baseados no número quatro, número que representa a realidade do mundo manifesto. Pitágoras, por exemplo, atribuía a estrutura fundamental do cosmos ao quatro. Na tradição religiosa, por essa razão, o quatro exprime a ideia do divino revelado por sua manifestação, por sua revelação, simbolizando assim o universo criado, formal, material, e sua relação com o mundo espiritual. 
Era por tudo isto também que as estátuas de Hermes
eram encontradas nas encruzilhadas e nas margens das estradas. Sua presença dava ânimo aos viajantes e à vida difícil dos vendedores ambulantes. Hermes ajudava-os, tanto afastando os perigos como fazendo-os evitar os encontros indesejáveis.
Hermes não é continente nem conteúdo, ele é processo, movimento, é consciente e inconsciente, é físico e não-físico, é simultaneamente input e output, emissor e receptor. Por outro lado, não encontramos outra divindade que tenha como ele relações tão amistosas com os seus pares, olímpicos ou não, com heróis e mesmo com mortais. É, saliente-se, dentre os olímpicos, o único que tem livre trânsito no Inferno (Hades), com o nome de Kthonios.
Para os mortais, Hermes, já ao tempo dos mais antigos núcleos urbanos, era um amigo no desespero da solidão humana, pois eram dele os ginásios, as ruas, as vielas e becos, as praças, os parques, os mercados, as galerias, os museus, os recintos de espetáculos de um modo geral, os teatros, as salas de música, as bibliotecas, a flânerie, os encontros fortuitos, os chamados encontros ombro a ombro, o bate-papo inconsequente e descompromissado, a conversa “jogada fora” na ágora. Na praça do mercado de muitas cidades gregas havia uma espécie de culto oracular ao deus. Uma estátua de Hermes, chamado de Agoraios, ficava no centro da praça; diante dela, um coração esculpido em pedra, com duas lamparinas de óleo.
Um outro aspecto importante a destacar na biografia de Hermes é o do seu relacionamento com Apolo. Este, como sabemos, sempre tentou contê-lo, enquadrá-lo, segundo a hierarquia olímpica (Apolo era o grande operador do sistema religioso-social implantado por Zeus). Como interpretar o diálogo entre as duas divindades? Apolo é a divindade que centralizava, no mundo olímpico e na sua expressão terrestre, patriarcal, a consciência do homem. Apolo era, como tal, o símbolo maior da ascensão humana, falando-nos de comando, ordem, harmonia, vida superior, qualidades que o mesmo mundo patriarcal de que falamos traduz hoje, banalizando-as, sem ter conseguido jamais vivê-las, como beleza física estereotipada, arrivismo social, vida aristocrática caricata, conquistas materiais ridículas, poder político etc. Esse modelo apolíneo aviltado, por este enfoque, cria uma espécie de patologia que só o deus Hermes pode ajudar a resolver. Esta patologia é geralmente vivida, como se sabe, com muita prepotência, violência, inquietação, ansiedade, decepção, desilusão, depressão e somatizações perigosas.
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APOLO E AS NINFAS |
Numa passagem, Hermes diz a Apolo que não terá ciúme ou inveja do que Apolo vier a fazer com a lira que inventou. Arremata,
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APOLO E A LIRA |
Se trouxermos as ideias acima para a nossa vida psíquica, o que vemos é que toda vez que Hermes é reprimido em nós, os relacionamentos ficam prejudicados, há fixações, não podemos perceber a beleza da variedade e da multiplicidade do mundo. Hermes é sempre o responsável, seja histórica ou psiquicamente, pelas aproximações, pela união, ainda que momentaneamente, de princípios antagônicos. O medo do roubo, o temor de negociar, de ser enganado, leva as pessoas a se fecharem, impedindo trocas.
É pelo que aqui se expõe que podemos compreender porque Hermes, como está no seu hino, é o único dos olímpicos a poder entrar em contacto diretamente com o Hades, com as profundezas do reino dos mortos, ou, de outra forma, com o mundo ctônico, subterrâneo, com o psiquismo dos mortais, nos quais o material onírico é a expressão mais próxima desse mundo. É uma compreensão atilada de Hermes também que vai nos permitir corrigir uma grave distorção que o mundo judaico-cristão vem impondo há milênios ao homem ocidental, a rejeição do seu corpo emocional em nome de propostas ascensionais de natureza religiosas inibidoras.
Apesar de sua malícia e de sua esperteza, ou por causa delas, Hermes conquistou a simpatia de todos os olímpicos. Até a vingativa Hera, que sempre perseguiu os filhos espúrios de Zeus, demonstrava muita simpatia pelo filho de Maia, chegando inclusive, como se disse, a oferecer os seus divinos seios para o aleitamento do menino Hermes. Aos poucos, Hermes se tornou um precioso e indispensável auxiliar dos deuses, salvando-os inclusive de muitas dificuldades. Foi, por exemplo, no episódio da gigantomaquia que, usando o elmo da invisibilidade de Hades, matou o gigante Hipólito. Famosa é a passagem em que ele, em companhia de seu filho Pan, salvou Zeus, recompondo-o devidamente para o embate final pela posse do universo com o monstruoso Tifon, impedindo assim a irremediável derrocada da ordem olímpica e a consequente destruição do mundo criado.
Fiel e prestimoso auxiliar do pai, foi Hermes quem adormeceu o dragão Argos ao som de sua flauta e o matou em seguida para
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MOLI - A PLANTA MÁGICA |
Benfeitor dos homens, Hermes estendida sua proteção também às manadas, aos viajantes, aos negócios, à vida diplomática, inspirando aos homens discursos eloquentes e palavras harmoniosas. Homero nos fala das almas dos pretendentes de Penélope que Ulisses matou se dirigindo para Hades, para as pradarias cheias de asfódelos, em companhia do deus. Esta a sua função de deus psicopompo. Assim como conduzia as almas ao lugar habitado por “aqueles que não são mais”, Hermes também podia trazê-las de volta à vida, como aconteceu com com a alma de Pelops, o filho de Tântalo. Foi Hermes também que entregou Eurídice a Orfeu quando este desceu ao Hades para trazê-la de volta à vida.
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HERMES, ORFEU E EURÍDICE |
Um filho de Hermes com uma ninfa náiade, que deixou uma história muito conhecida e divulgada, foi Dáfnis (nome que lembra o loureiro (daphne, em grego). Por ele ter nascido na Sicília, junto de um bosque de loureiros, é considerado como um semideus. Passa esse filho de Hermes por ter sido o inventor da poesia bucólica. Belíssimo, foi amado por mortais e imortais, sobretudo por um seu irmão, o deus Pan, que lhe ensinou música. Morreu muito jovem, assassinado por Nômia, a quem havia jurado fidelidade. A jovem o assassinou, cegando-o antes, quando descobriu que ele andava de amores com outra. Outra versão nos conta que Nômia apenas o cegou quando o encontrou embriagado. Desde então, desesperado, só entoando cantos fúnebres, Dáfnis se suicidou, atirando-se de um penhasco.
Públio Vergílio Marão (séc. I aC), nas suas Éclogas, transformou Dáfnis num tema poético, base de um gênero, de cantos fúnebres, mágicos, cheios de dor e saudade, através dos quais se procura
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DÁPHNIS E CHLOÉ |
O mais famoso filho de Hermes, como já se disse, é Pan (Todo,
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PENÉLOPE |
Turbulento, alegre, Pan logo se tornou o deus dos pastores das montanhas da Arcádia. Sua aparição, aos gritos, provocava o pânico, um terror inexplicável que se apossava dos que o encontravam. Pan vivia nos bosques e nos campos, nos territórios da deusa Ártemis, sendo, além de deus-pastor, uma espécie de guardião das passagens, das extensas áreas se situam entre as grutas (o conhecido, lugares de nascimento) e o grande Todo (o desconhecido, o grande mundo). Aos poucos, Pan acabou por representar a Natureza universal. Pan gostava de acompanhar Dioniso, fazer parte do seu cortejo como tocador de syrinx, a flauta dos pastores da Arcádia.
Como princípio da ordem universal, encarnando a energia que a percorria, Pan era muito invocado nas litanias órficas como símbolo da incorporação desta energia à matéria universal, formando assim a base para a constituição do cosmos. Fonte de todas as coisas, era Pan uma síntese dos quatro elementos, sendo os seus chifres a imagem da penetração da energia divina na matéria. É de Pan que derivam as criaturas mistas, entre o animal e o humano, também participantes do séquito dionisíaco, sátiros, silenos, faunos etc. Um órgão sexual desproporcional ao tamanho da figura, em imagens do deus, indicava o poder criativo da energia universal.
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CAPRICÓRNIO |
O historiador Plutarco (46-120) narra que, à época do imperador Tibério, a tripulação de um barco que passava diante da ilha de

Naxos ouviu uma voz soturna, vinda do continente, acompanhada de um pranto que parecia sair da vegetação, dos rochedos e dos animais, que dizia: Anunciai a grande nova: o deus Pan está morto. Esta história foi interpretada como um sinal da morte das divindades do mundo antigo e o anúncio de um nova era, a da era cristã, que decretou o silêncio dos oráculos e a destruição das imagens divinas.
Registre-se ainda que é o deus Pan que dá origem ao pantáculo ou pentalfa, simbolicamente uma das formas simbólicas mais evoluídas do macrocosmo, um emissor fluídico da essência universal, usado por diversos povos. O pantáculo funciona ao mesmo tempo como amuleto, protegendo; como talismã, irradiando uma força mágica, dando poder a quem o usa. O pentáculo, construído sob orientação astrológica, conjura os terrores coletivos, afasta os maus espíritos e demônios responsáveis por epidemias e catástrofes coletivas.
Quanto a Hermafrodito, acrescente-se que, como filho de Afrodite e de Hermes, temos, com ele, uma proposta mítica de reconciliação dos contrários. Nascido totalmente masculino, belíssimo, ao encontrar-se com a ninfa Sálmacis e com ela fundir-se num abraço que ela lhe deu, o jovem desceu ao fundo das águas da fonte onde se banhava, formando ambos um só e inseparável corpo. Quem nos conta a história de Hermafrodito é Ovídio (Metamorfoses).
A criação do mito é, obviamente, uma tentativa de se resolver o eterno jogo dos princípios masculino e feminino através de uma figura estática e simétrica. Se ficarmos ao nível de uma leitura biológica do mito, estaremos certamente diante de um absurdo, de uma aberração. Não é por acaso, aliás, que entre os antigos gregos a conformação anormal dos órgãos sexuais de uma criança era sempre uma monstruosidade, um mau presságio, que punha em risco a ordem social, chamando uma punição divina.
O que nos interessa mais, sem dúvida, é a tradução psicológica desse mito, na medida em que, neste plano, ele revela uma tentativa de se neutralizar a incessante e necessária atividade hermesiana, trazendo consequentemente um enfraquecimento do jogo alternante das polaridades masculina e feminina, muito mais da primeira (o forte componente machista da sociedade grega), se considerarmos o contexto em que o mito vicejou. Ou seja, enquanto vida houver, impossível estabilizar esse jogo. A não ser que o tiremos da terra, do concreto e do múltiplo onde vivemos, e o desloquemos para a teologia e passemos a admitir a ideia da conjunctio oppositorum (Deus).
A figura de Hermafrodito supõe ideias de impotência e de
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HERMAFRODITO E SÁLMACIS |
Podemos usar a figura do Hermafrodito, isto, sim, para representar, com relação ao mundo masculino, as várias figuras de estados depressivos de que hoje é vítima grande parte de seus membros. Isto acontece quando os acomete uma sensação de enfraquecimento diante da vida, de perda do seu potencial machista, obviamente com as devidas repercussões somáticas, alterações hormonais, desequilíbrios de temperamento etc. Quando Hermafrodito aparece na vida de um homem poderíamos talvez, em alguns casos, considerar positivamente essa manifestação, como uma presença a ser usada para um impulso em direção de uma nova dimensão da vida consciente. Uma atenuação do componente machista e de todo o culto que o envolve. O que o mito de Hermafrodito nos permite entender é que o homem e a mulher não são totalmente masculinos ou femininos. O homem comporta um elemento feminino e a mulher um masculino, papéis que devem se alternar, conforme as circunstâncias. Quem faz as passagens de um papel a outro é Hermes, divindade que governa as trocas entre as todas polaridades.
Entre as mortais amadas por Hermes destacamos Acacallis (nome que lembra o tamarindo), filha de Minos; ele a fez mãe de Kydon, fundador da cidade cretense de Kydonia. Amada por Hermes, Kíone (nome que lembra mau tempo, frio, gelo) tornou-se mãe de Autólico e de Filamon. O primeiro recebeu do pai o dom de tornar invisível o que tocasse; ele pode assim cometer vários furtos, até o dia em que foi confundido por Sísifo, de quem havia roubado vários animais (bois).
Filamon foi poeta e adivinho e passa também por filho de Apolo porque no mesmo dia em que se uniu a Hermes Kíone manteve relações com o deus solar. Por isso, Autólico e Filamon são gêmeos, sendo o primeiro, porém, filho de Hermes e o segundo de Apolo. Autólico aprendeu com Hermes tudo sobre as artes do furto e do perjúrio, compondo-se este último de vários itens. Tanto pode ser falso testemunho ou falsa acusação como quebra de juramentos ou renúncia a opinião e crenças. Quanto aos furtos, seria muito longa aqui a enumeração de todos eles. Autólico, quando da permanência de Sísifo, o mais astuto dos mortais, em seu palácio, fez com que ele, antes de Laerte, o futuro marido de sua filha Anticleia, se unisse a seu ilustríssimo hóspede. Dessa união, nascerá o grande herói Ulisses, como já se disse. Há que se mencionar ainda um outro filho de Hermes, Mírtilo, assassinado por Pélops. Vingando a morte do filho, Hermes infernizou toda a descendência de Pélops, filho de Tântalo, um dos grandes criminosos do mito.
As variadas e múltiplas funções de Hermes estão fixadas, além daquelas já mencionadas, em outros numerosos epítetos a seguir relacionados: Akakesios (o que não poderá ser ferido), Kataibates (o condutor de almas para o outro mundo; equivalente a psicopompo), Agetor (o que conduz à frente, guia), Agoraios (o das praças e mercados), Ktesios (protetor das propriedades), Eriounios Dator Eaon (o que propicia a boa sorte), Nomios, Epimelios (protetor dos rebanhos), Promakos (o que luta na frente), Propylaios (protetor das entradas), Pronaos (o das entradas dos templos), Trikephalos (protetor das encruzilhadas), Enagonios (o que preside as competições esportivas), Hermeneutes (o tradutor, o que esclarece as mensagens), Diaktoros (servidor público), Aggelos (mensageiro, núncio), Pheletes (ladrão), Arkhos Pheleteon (rei dos ladroões), Klepsiphron (enganador), Mekhaniotes (cheio de astúcia), Polytropos (onipresente), Poplymetis (o de juízo avisado) Poneomenos (o muito ocupado), Dais Hetairos (companheiro de festins), Khandotes (distribuidor de alegria), Akaketa (leve, gracioso), Kydimos (glorioso), Aglaios (resplandecente, brilhante), Kratos (poderoso), Mastenos (mestre das buscas), Pompaios (guia, condutor), Enounios (o sempre últil), Psykhopompos (condutor das almas).
Deuses, quaisquer que sejam eles, como sabemos, são criados pelos humanos, à medida de suas necessidades. Hermes, neste sentido foi um modelo de comportamento de grupos humanos, ainda muito influenciados por valores matriarcais, que viveram por muitos séculos como predadores e nômades. Essa vida, em grande parte
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TRICKSTER |
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HERMES ALQUÍMICO |
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SALA DE COMANDO |