Raiva, execração, gana, malquerença, rancor, sanha, zanga, repulsa, asco, aversão, fastio, nojo, ojeriza, repelência, repugnância, ódio, hostilidade, antagonismo, querela, rivalidade. Sentimento violento que leva alguém a querer mal a alguém e, muitas vezes, a se alegrar com o mal que lhe acontece. Embora possamos apontar algumas diferenças entre as palavras citadas, elas acabam se confundindo, sendo usadas como sinônimos. Muitas das que alinhamos já não se usam mais, ficaram para trás, perdidas nos textos de escritores do passado.
O grande poeta negro catarinense, Cruz e Souza, um dos grandes nomes do Simbolismo brasileiro, filho de

Sob o nome de lissa (lyssa, grego) são descritas umas pústulas que aparecem na parte inferior da língua de pessoas mordidas por um animal que sofre de raiva. Atribuía-se a raiva canina a um verme, lissa, que causava a doença. No ser humano, a mordida deste cão causaria a hidrofobia, aversão ou terror mórbido da água. Sabe-se hoje que a hidrofobia ou raiva é uma doença infecciosa causada por um vírus, transmitida ao homem pela mordida de animais infectados, como o cão, o lobo, o gato, o morcego, caracterizada por lesões no sistema nervoso central que provocam convulsão, tetania e paralisia respiratória.
Na Mitologia grega, os deuses, os heróis e os mortais que nela aparecem apresentam algumas vezes um comportamento inexplicável, uma conduta totalmente imprudente, que, conforme as descrições, é proveniente de um obscurecimento ou confusão mais ou menos longa da mente, causando descontrole da vontade. Uma espécie de loucura temporária atribuída à ação de uma potência demoníaca externa. Essa potência tem o nome de Lyssa. Tomado por ela, Hércules, por exemplo, chega a um tal estado de fúria, a um ódio inexplicável, que, ainda bem jovem, esmaga a cabeça de Lino, seu professor de música, só porque ele o advertiu. É também tomado por Lyssa que o nosso herói mata a sua família. Lyssa, às vezes, toma o nome de Anoia, ausência de consciência, raiva furiosa, que provoca a perda total da faculdade de pensar, de raciocinar.
A expressão física mais contundente da raiva nós a encontramos na Mitologia grega na figura do deus Ares. Pelas suas histórias, é Ares, sem dúvida, o mais odioso dos personagens, sempre enraivecido, aquele que excita o ódio, o desgosto, a indignação. É apelidado de "bebedor de sangue", de "senhor das lágrimas", de "flagelo de deus" etc. Onde ele aparece só há sofrimento, dor, guerra, inimizade, luta. Seu nome, Ares, tem etimologicamente relação com enfurecimento, desgraça, infortúnio. É filho partenogênico da deusa Hera; sua geração foi motivada pelo ódio que a deusa sentia por Zeus, seu marido, devido ao grande número de seus filhos espúrios. Somente Afrodite o amolecia, o suavizava um pouco. Terão, ele a deusa, uma filha chamada Harmonia, isto é, filha da guerra e da paz. Mas terão também, por outro lado, dois monstros como filhos, os gêmeos Fobos (Pavor) e Deimos (Horror).
Ares, como toda divindade grega tinha o seu séquito. Dele faziam parte, além dos gêmeos, Éris, a deusa da discórdia, as Keres (destruição, ruína, podridão), monstros femininos alados, que se alimentavam do sangue de moribundos nos campos de batalha.
Sempre com roupas ensanguentadas, garras aduncas, corpo coberto de serpentes, aproveitavam para liquidar os agonizantes. A divindade Ênio também fazia parte do grupo; era um demônio feminino devastador, sempre presente nos campos de batalha. Mencionem-se também os diversos filhos que teve, todos medonhos, violentos, assassinos, salteadores, brutais.
Esplêndido fisicamente, Ares andava sempre armado. Suas presença era precedida sempre de seu uivos, de seus gritos, do barulho de suas armas. Entre os deuses do Olimpo era o mais distante de Zeus, sempre odiado e evitado por todos, ninguém desejando a sua companhia. Entre os romanos, Ares é Marte. Na Astrologia, é o planeta Marte, simbolizando o fogo dos desejos, a vida instintiva, o dinamismo, a violência, o desrespeito pelo outro e também a genitália masculina.
A raiva e o ódio costumam caminhar juntos, este último considerado como um sentimento de profunda inimizade contra alguém ou alguma coisa. O verbo latino é odi. Como dizia Byron, poeta inglês dos sécs. XVIII-XIX, O ódio é o prazer mais duradouro; os homens amam com pressa, mas odeiam com calma. A energia do ódio é apontada por vários filósofos, psicólogos e escritores. É de Balzac, escritor francês, séc. XIX) esta observação: O sentimento que o homem suporta com mais dificuldade é a piedade, principalmente quando a merece. O ódio é um tônico, faz viver, inspira vingança; mas a piedade mata, enfraquece ainda mais a nossa fraqueza.
Chamamos de ódio figadal, profundo, visceral, o que vem do fígado porque a bílis, secreção do fígado, foi sempre um símbolo do ódio, da agressividade, da raiva, segregado justamente sempre sob a ação nervosa que o produz. O fígado é o lugar dos movimentos de cólera, do fel, da animosidade, das intenções deliberadamente venenosas, o que explica o sabor amargo da bílis. No Islã, por exemplo, o fígado é o lugar das paixões, da dor.
S.João da Cruz, poeta místico espanhol, interpretando Jeremias (Lamentações) liga o fel à memória, à morte da alma, à privação de Deus. Neste sentido, o fel se opõe ao vinho, pois é o contrário da bebida da vida, da eucaristia, que permite a metamorfose. Cheios de fel, não mudamos.
A vesícula biliar é o lugar onde simbolicamente encontramos as expressões da agressão, do amargor, do mau humor, da irascibilidade. Agressão não como ataque frontal, agressão como postura inamistosa, constante, cultivada, antipática, irritadiça. Os coléricos (cholé, bílis, e aírein, alçar) precisam deixar fluir a bílis, símbolo da energia vital retida,

Ainda neste capítulo de problemas físicos causados pelo ódio e pela raiva, é de se lembrar que, quando não os vivemos, são eles responsáveis por muitos males que vão se projetar em nossa pele, dermatites em geral. Socorre-nos a astrologia para deixar isto mais claro. Quando nossa raiva ou nosso ódio (Marte e Plutão) não são expressos, por razões diversas, nós os voltamos contra nós, agredindo a nossa pele (Saturno e Vênus). Eczemas (eczein, ferver em grego), herpes (herpein, serpentear; moléstia da serpente), psoríase (psora, sarna, em grego), lúpus eritematoso (lúpus, lobo, em latim, vida instintiva; eritema, vermelhidão da pele), erisipela (eris, inflamação, vermelhidão, e pele).
O ódio aparece na vida social de diversas formas. Uma delas, geradora de muita violência, de guerras, é o racismo. Nos tempos modernos, um dos grandes teóricos do racismo foi Joseph Arthur, o Conde Gobineau (1816-1882), diplomata e escritor francês. Serviu na Pérsia, na Grécia e no Brasil, onde manteve muito cordialmente relações intelectuais com D.Pedro II. Dentre outros livros, deixou um, muito famoso, o Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, no qual apresenta ideias sobre a superioridade da raça nórdica germânica sobre as demais. Sua teoria foi explorada pelos pangermanistas (agrupar todos os povos de origem germânica sob um só Estado) e pelos adeptos do nacional-socialismo (nazismo). Na Inglaterra, um dos grandes defensores dessas idéias foi Houston Stewart Chamberlain (1885-1927), escritor alemão de origem britânica, autor de uma obra sobre Richard Wagner, cuja filha (Eva) desposou. É um dos precursores do nazismo

O racismo também é encontrado naquela atitude que chamamos de xenofobia, palavra de origem grega que quer dizer aversão ao estrangeiro, àquilo que é diferente dos nossos valores, ao que é diferente de nós. Foram os antigos gregos que criaram a palavra para designar aquele sentimento diante de povos que não participavam de sua cultura e, sobretudo, que não falavam a língua grega. O som da língua desses povos, aos ouvidos gregos, soava "bar, bar, bar"... Um dos melhores exemplos do que foi dito, nós encontramos na peça de Eurípedes, Medeia : Jasão, herói grego, ao dela se separar, chama-a de bárbara em razão de sua origem asiática. Eram os bárbaros, para os gregos, grosseiros, não civilizados

MEDEIA E JASÃO
Já na Linguística, a palavra barbarismo, como ensinam os mestres, descreve a tendência de se usar indiscriminadamente palavras e expressões de outras línguas, como nós fazemos aqui no Brasil, ao substituir quase que totalmente o Português pela língua dos nossos neo-colonizadores norte-americanos.