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ICHTHYOCENTAURO , MONSTRO MEDIEVAL |
Monstros são seres disformes, fantásticos e ameaçadores, produzidos pela imaginação, pela fantasia (phantasia, em grego, é imaginação) do homem. Monstro, etimologicamente, quer dizer prodígio da natureza. Prodígio, como sabemos, é palavra aplicada a seres que são aberrações, desvios, distorções, com relação ao que é natural, comum, normal. Os monstros nos causam espanto, são descomunais, invulgares. Estão presentes nos mitos, nas religiões, nas lendas e nas histórias da literatura universal e, para muitos, nos mitos, anunciam a vontade dos deuses.
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CAOS (I. AIVAZOVSKY, 1817-1900) |
Aquele que nos mitos subjuga estas forças desordenadas, orientando-as superiormente, de modo a que fique assegurada constantemente a sua ordenação, a chamada ordem cósmica, levando, no plano humano, o individual a se integrar devidamente ao social e este ao coletivo, é o herói. Enfrentar monstros é, pois, a principal tarefa de heróis.
Filhos de um deus e de uma mortal ou de uma deusa e de um mortal, os heróis, como geralmente os encontramos, por exemplo, na Grécia antiga, eram assim cultuados. Cada tribo, cada grupo humano, cada cidade honrava um deles, enaltecendo os atributos de que era detentor, oferecendo-lhe sacrifícios, celebrando-se sua festa em santuários chamados heroon.
Os heróis dos mitos, contos e lendas sentem-se investidos de um dever superior, o de uma autosuperação constante. Sua trajetória existencial se desenvolve normalmente segundo um itinerário-tipo: nascimento virginal, abandono ou exposição (uma espécie de expulsão do mundo matriarcal), preparação-iniciação com mestres até que ocorra a última etapa de sua vida, consumando-se o seu desapego/separação. Envolvendo-se com o mundo, o herói terá que enfrentar as fabulosas forças naturais, monstros e malfeitores que nele vivem e, interiormente, terá que lidar muitas vezes com a sua hybris, descomedimentos, excessos, orgulho, dos quais costuma se tornar vítima.
O herói pode, nesse afã, tentar alcançar uma vitória em escala universal, macrocósmica, como no caso de guias espirituais ou civilizadores, procurando regenerar a sociedade como um todo (Zaratustra, Buda, Jesus, Maomé, Moisés, Mahavira etc.). Ou, como nos contos de fadas e lendas ser a sua dimensão microcósmica, mais pessoal, limitada, individualizada, familiar, psicológica, como no caso de muitas das chamadas histórias infantis, de Pinóquio, de Chapeuzinho Vermelho, do Príncipe Sapo e de muitas outras.
Lembremos que a imagem do herói pode se manifestar através de sonhos em todas as etapas do desenvolvimento psíquico do homem, sob aspectos diversos, com relação ao seu futuro, sonhos sentidos como uma convocação para a ação heroica, indispensável à sua evolução.
Uma das grandes características dos monstros que o herói, o candidato a herói, melhor, terá de enfrentar é que eles geralmente aparecem como guardiões de tesouros encontrados em cavernas, no fundo dos mares, nas profundezas da terra, em florestas sombrias, em lugares distantes, inacessíveis. Estas situações lembram a interioridade do psiquismo do ser humano e simbolizam obviamente as dificuldades que o ser humano encontra para se libertar ou pelo menos controlar um pouco mais as inúmeras forças que dentro dele costumam se opor ao seu esforço. Mais ainda: os tesouros não são um dom gratuito do céu; eles estão na interioridade do seu ser, ocultos, e só serão descobertos e conquistados à custa de muito empenho e persistência. O tesouro nas histórias é muitas vezes representado pelo ouro, por pedras preciosas, por uma princesa, por uma erva maravilhosa, por um talismã etc., sinais exteriores do que há de ser buscado interiormente.
O ouro, por exemplo, desde sempre, porque inalterável, luminoso, solar, dificílimo de ser obtido, encontrado muitas vezes em lugares inacessíveis, protegido por poderosas forças naturais, sempre foi considerado como um símbolo da perfeição absoluta, da beleza e da sabedoria. Produzido no interior da terra por um processo de longa transformação, de aperfeiçoamento constante, é símbolo de um caminho ascensional e, como tal, do homem que se renova.
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A BELA E A FERA (JOSETTE DAY E JEAN MARAIS, FILME DE JEAN COCTEAU, 1946 ) |
Nos mitos e nos contos, personagens como príncipes e princesas, outro exemplo, representam sempre a idealização do masculino e do feminino no que eles oferecem de elevado, de superior, quando atuam em conjunto. Em muitas histórias, o príncipe aparece enfeitiçado, sob uma forma monstruosa, teriomórfica, como vítima de um poder maléfico. Só recuperará a sua beleza e a sua juventude se tocado pelo amor de uma lindíssima jovem, às vezes uma princesa. Esse é o tema de uma das mais famosas histórias do gênero, a de A Bela e Fera, encontrada em muitas tradições. Entenda-se: o que temos aqui nada mais é do que a ilustração da transformação de um eu inferior em um eu superior pela força do amor, que une polaridades até então dispersas.
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PERSEU |
Noutros contos que tratam do mesmo assunto (equilíbrio do masculino e do feminino) uma variante é a da libertação de uma princesa por um herói. A princesa está para ser devorada por um monstro e o herói, depois de ingentes esforços, consegue libertá-la. Estas variantes podem ser encontradas nos mitos de Hércules, de Perseu e de outros heróis gregos. A princesa, neste exemplos, é, muitas vezes, um símbolo do lado feminino dos heróis, um lado bloqueado, obstruído, pois vivem eles sempre saturados de machismo, tendo como expressão mais notável de sua personalidade a da função guerreira.
O sentido que aqui damos à palavra tesouro, conforme os mitos, é o de que ele simboliza aquilo que em nossa nossa vida interior precisa ser resgatado, libertado, conquistado, controlado, ou seja, que podemos traduzir como uma busca de maneiras novas de viver, de incorporar certos conhecimentos ou faculdades que nos levem em direção de planos superiores de vida, pelo ajuste dos dois lados (masculino e feminino) que todos temos, indo muito além dos nossos tristes apegos egóicos.
Os monstros que guardam esses tesouros, numa certa leitura, não são mais que aspectos da nossa vida interior, do nosso psiquismo, que se opõem a essa libertação ou conquista, são as nossas tendências negativas, o nosso comodismo, a nossa ignorância, a nossa autosuficiência pretensiosa. O poder dos monstros dentro de nós quer dizer a força dos hábitos, a incapacidade de buscar formas renovadas de vida, o imobilismo, as idiossincrasias caprichosas, as doenças, um poder que tende sobretudo a fazer de nossa personalidade algo acomodado a modelos impostos pelos modismos, algo muitas vezes herdado e não conquistado. Tudo isso nos torna vítimas das conhecidas depressões, ansiedade e angústias, subjugados por atavismos poderosos, por memórias doentias, por ideias fixas, obsessões, por inúmeras torturas, enfim, que impomos a nós mesmos sem que saibamos muitas vezes como ficamos prisioneiros desses estados.
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HADES ( GUSTAVE DORÉ , 1832 - 1883 ) |
Onde vivem estes monstros em nós? Os gregos criaram, por exemplo, nos seus mitos, para representar simbolicamente o lugar em que eles viviam e de onde podiam nos atacar, influenciando o nosso comportamento, num lugar do Hades (em grego, invisível), as profundezas infernais, o mundo ctônico, com relação à superfície da Terra. Os monstros nasciam e se desenvolviam nesse mundo, que outro não é senão uma extensa e profunda camada invisível, a que a os estudos do psiquismo humano deram o nome de inconsciente, que fica abaixo do nosso mundo consciente. Cada um de nós, pois, com o seu Hades, o seu Inferno pessoal, com as suas respectivas camadas.
Toda vez que a nossa energia vital não flui bem, que o seu funcionamento é malsão, pervertido, desajustado, estamos caindo nas garras desses monstros, conforme o mito grego. Às vezes, eles podem viver por anos e anos nas nossas “profundezas” sem que os notemos, mas sempre nos fazendo muito mal, perturbando o nosso desempenho, afetando deleteriamente a nossa vida e, por tabela, a de outros à nossa volta. Eles se anunciam muitas vezes por estados ansiosos, por várias formas de angústia, por exageros emocionais, por temores inexplicáveis, por nossa imaginação descontrolada. Gostam muito, por exemplo, de se manifestar à noite, através dos nossos sonhos, impedindo-nos de dormir, afetando o nosso sono, ou interferindo no nosso desempenho profissional durante o dia.
Esses monstros representam sempre um perigo interior. No mito, eles escapam muitas vezes do mundo subterrâneo através de cavidades, buracos, zonas pantanosas, lagos, oceanos, invadindo a superfície terrestre, isto é, o campo de nossa consciência, podendo assumir a identidade de alguém, de um familiar, de pessoas com as quais convivemos. Noutras vezes, atuam a partir das profundezas em que vivem, causando-nos muita insatisfação, dor e sofrimento, sem que consigamos indentificá-los.
No Hades grego, havia uma região chamada o Bosque de Perséfone (a Rainha do mundo infernal), relativamente perto da superfície da Terra, onde viviam vários desses monstros, que subiam com facilidade ao mundo dos mortais. Essa região é lúgubre, triste. Como espectros, fantasmas, aparições, os seres que lá vivem invadem constantemente a vida dos mortais, como se disse, atacando mais precisamente o que chamamos de ego, núcleo em torno do qual se agregam todas as experiências vividas pela mente e que tem a função de controlar o comportamento humano, em grande parte inconsciente, por isso, como se sabe.
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BOSQUE DE PERSÉFONE |
Na visão do Hades grego, no meio do Bosque de Perséfone há um imenso olmo copado, onde residem os sonhos quiméricos dos mortais, as suas ilusões, frustrações e decepções. Perto dessa árvore vive a monstruosa Quimera, dona da propriedade irrealizante de nossa consciência, monstro híbrido com cabeça de leão, corpo de cabra, cauda de serpente, sempre lançando fogo pelas narinas. Por perto, perambulam os Gigantes, os Centauros, as Harpias, as Erínias e muitas outras figuras monstruosas.
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ASFÓDELOS |
Os monstros, sobretudo os das profundezas infernais, exigem de nós muitos esforços para afastá-los e para dominá-los, sempre pavorosos, imensos, assustadores. Quando os olhamos mais de perto, porém, percebemos que eles nada mais são do que imagens do nosso próprio eu interior, projeções nossas. É preciso vencê-los para atingir níveis superiores de vida. São agentes do nosso caos, da desordem, da doença, das trevas, da privação de medidas e de limites.
Eles aparecem muito nos chamados ritos de passagem, que nos falam de provas, de etapas pelas quais temos que passar para poder ter acesso a um mundo novo. São, também, uma possibilidade de ressurreição. Indicam que o homem deve se defrontar com o seu próprio caos, descer à sua escuridão, questionar-se, para poder chegar a um renascimento.
As tradições religiosas, se bem compreendidas, confirmam, de certo modo, esse entendimento; para elas, o monstro é sempre um símbolo das forças irracionais, aparecendo associado ao desordenado, ao imenso (o que não tem medida), um ser ligado a uma etapa em que a ordem ainda não havia sido imposta à criação. A esta ordem os gregos deram o nome de cosmos, ou seja, o mundo visível e a sua organização.