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SAPHO |
Para os antigos gregos, a poesia tinha uma origem mítica. Dentre os muitos nomes a serem lembrados, como suas figuras inaugurais, destacamos, como mais representativas, as Musas, as Cárites, Pégaso, Orfeu, Lino e Museu. As primeiras eram filhas de Zeus e de Mnemósina, a deusa da memória, geradas não só para agradar os deuses olímpicos quando de sua vitória sobre os titãs (Titanomaquia) como para que os humanos jamais se esquecessem de tão auspicioso acontecimento. Inspiradoras dos poetas, as Musas (etimologicamente, a que faz lembrar e a fixar no espírito) ajudavam bastante, ainda que indiretamente, os humanos. Ouvindo-os, embevecidos e extasiados, eles esqueciam as suas inquietações e os seus sofrimentos. Desde que devidamente cultuadas, as Musas, ressalte-se, estendiam também sua ação protetora a todas as demais produções artísticas dos humanos, à música, à dança, ao teatro, à história etc.
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FONTE DE HIPOCRENE |
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AS MUSAS E AS PIÉRIDES |
O nome da fonte, ligado às Musas, teve origem num episódio que ficou famoso em toda a Grécia. O monte Héclicon se sentiu tão vaidoso por ter sediado a importante competição das Musas com as Piérides (etimologicamente, férteis, entumescidas, de vaidade, no caso) que o deus Poseidon resolveu punir a sua soberba (hybris), o seu desmedido orgulho. Mandou que Pégaso o punisse, escoiceando-o. No lugar em que Pégaso o atingiu, começou a jorrar água, ali brotando a famosa fonte. As Piérides foram transformadas pelos deuses em pegas, aves que, segundo Ovídio, simbolizam a inveja, a tagarelice e a presunção.
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AS TRÊS GRAÇAS SÉCULO II, ESCOLA ROMANA, LOUVRE |
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ORFEU MÁRMORE GREGO |
Lino era também filho de Apolo e de uma princesa de Argos. A ele se atribui a invenção do ritmo e da melodia na música. Foi professor de Hércules, que, num assomo de raiva, porque por ele advertido numa aula, o matou. Quanto a Museu, filho de Eumolpo, é neto de Poseidon. Místico, Museu aparece como o grande inspirado pelas Musas. Nos desdobramentos de sua história, é citado como amigo inseparável de Orfeu. Músico consumado, curava os doentes com a sua arte. Foi o introdutor dos Mistérios de Elêusis na Ática.
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HOMERO , MUSEU DO LOUVRE |
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FERNANDO PESSOA |
A poesia épica, porém, aos poucos, vai dando espaço para que um outro tipo de poesia apareça, a lírica, uma poesia subjetiva, acompanhada de música. A primeira manifestação estilística do lírico é o chamado dístico elegíaco, variedade do hexâmetro épico. Com compassos menores ao invés de períodos longos, o dístico é o meio caminho entre o livre fluxo épico e a monódia lírica. Esta última vem da Anatólia, cantos de morte, de decadência, lamentos.
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Por volta de 600 aC, aparece na ilha de Lesbos um tipo de poesia diferente, talvez originária do folclore, canções que não têm caráter coral nem popular, de cunho universalizante com temas afetivos e sobre a natureza. A fértil ilha de Lesbos, chamada também de Mytilene, por causa de sua capital, fica no mar Egeu, perto da costa anatoliana, na altura de Pérgamo. Na antiguidade, principalmente entre os séculos VII e V aC, foi um importante e ativo centro cultural, com destaque para figuras como o tirano Pittacos (um dos Sete Sábios), o inventivo músico Terpandre, o poeta Alceu e a mais que famosa poetisa de língua grega, Sapho ou Psappho.
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SAPHO |
Lesbos é uma ilha montanhosa, escavada por dois golfos profundos, com vários portos e numerosos vinhedos. Por sua situação geográfica, era muito visitada por comerciantes que iam em direção do oriente, especialmente da Pérsia, o que lhe deu um caráter bastante cosmopolita. Isto explica também as grandes diferenças que encontramos na educação e na posição social da mulher da Grécia continental (Atenas) com relação às daquelas que viviam em algumas ilhas do Egeu, como Creta e Lesbos. Lembre-se que às mulheres gregas, as atenienses da aristocracia ou do povo, estavam destinados os papéis de esposas e/ou mães, nos seus respectivos níveis. A exceção ficava por conta das cortesãs e das concubinas.
As primeiras eram ricas, independentes e belas. Escolhiam os seus homens e dedicavam-se sobremaneira aos prazeres do espírito, como aconteceu com a deslumbrante Aspásia, que escolheu Péricles, a mais importante figura política de Atenas, para viver com ela. Em segundo lugar vinham as concubinas, belas e famosas, mas só para os prazeres da carne.
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PÉRICLES E ASPÁSIA |
A mulher de Mytilene participava da vida da cidade, ruidosa, envolvente à noite; com seu encanto e seu espírito, participava da cultura musical e literária (poética, especialmente) da ilha. Não só havia para ela o dever conjugal, mas também o direito à amizade do marido e de outros homens. Devido à grande liberdade nos costumes, as mulheres gostavam de se exibir, cantavam e dançavam, enfatizando sempre os traços de sua sensualidade, com suas belas túnicas de púrpura e de seda leve, com seus anéis, pulseiras e braceletes de ouro, perfumes e óleos raros. O papel da mulher da ilha também se ligava ainda à preservação de antigas tradições matriarcais através das quais ela afirmava seus valores sem rejeitar, necessariamente, a comunidade masculina.
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SAPHO |
Sapho considerava a filha Cleia como “uma flor de ouro”, um crisântemo, em sua vida. E completava: prefiro-a ao reino de Creso (Rei da Líbia, muito rico - 561-546 aC). Sapho, nos seus escritos, descrevia-se como baixa, morena, e lamentava sempre a passagem do tempo. Nasceu no fim do séc. VII e morreu no começo do séc. V aC.
A ligação de Sapho com as mulheres se deu através de uma lírica muito íntima, pessoal. Abandonadas pelos seus maridos, homens da aristocracia, sempre metidos em guerras, ou a viajar, ampliando os seus negócios, fundou para elas, jovens mulheres da ilha, ao voltar da Sicília, sob a tutela de Afrodite, uma liga, uma espécie de irmandade, com várias professoras, onde se ministravam não só cursos de poesia, música e dança como se cuidava, em geral, do seu desenvolvimento intelectual. A escola de Sapho, além de buscar um ideal de beleza feminina, procurava fazer com que as mulheres se realizassem totalmente. As jovens se uniriam em casamento um dia e depois seriam mães de família, levando, para a sua nova situação, tudo o que haviam aprendido com Sapho.
Os antigos gregos davam o nome de thiaso às confrarias como a que Sapho criou. Confrarias voltadas para o culto de um ou mais deuses e para outras atividades, culturais, no caso da de Sapho. Os thiasos, embora sempre tenham existido na vida grega, floresceram mais no chamado período helenístico da história grega (sécs. IV-I aC). Eram honradas no thiaso de Sapho, principalmente, divindades orientais como Adônis, Osíris, Anúbis e Serapis. No mais, nessas confrarias, muitos banquetes, festas e procissões. Não havia distinção de sexo ou de idade, nem de condição social. O thiaso de Sapho era conhecido na ilha e na Grécia continental pelo nome de ”morada das servas das Musas”.
A poesia de Sapho tanto se destaca pela forma como pela sua temática (a vida afetiva em todas as suas expressões). O himeneu (forma poética muito antiga) Sapho o herdou de antigas tradições encontradas também em Corinto, cidade de Afrodite. Himeneu é um canto composto para a celebração de núpcias. Seus ritmos talvez tenham vindo da Índia. Esse canto de celebração, de poesia rústica, era comum na vida do campo quando da realização das núpcias, nas festas em meio aos vinhedos, com mesa farta, aberta.
A noiva permanecia velada até a sobremesa. Usava uma coroa de mirto, tomilho e sálvia, que formava o que os franceses chamaram depois de bouquet garni, usado também no cozimento de alimentos. A distribuição da bebida obedecia a seguinte regra: 1/3 de vinho + 2/3 de água, pois, ao entardecer “não haveria mais que um dedo de dia”. Daí a pouco a noiva se desvelaria, tirando o véu. A noite chegaria logo e os nubentes iriam para casa.
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BOUQUET GARNI |
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A. CHARLES SWINBURNE |
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EZRA POUND |
O padrão básico dos poemas amorosos de Sapho, dedicados às jovens amigas do seu thiaso, são as suas experiências pessoais reveladas ao som da lira e da flauta. Tom elevado, amoroso, generoso. Espírito aberto. Uma das formas poéticas usadas é o epitalâmio, canto nupcial através do qual se narra a escolha da noiva, tudo com imagens sadias, frescas. Sapho não esquece inclusive de prestar tributo às eternas candidatas ao noivado, não mais muito novas (acima dos vinte anos) que vão “ficando”: A donzela é como uma maçã rosada num ramo alto; os apanhadores não se esqueceram dela, não, não se esqueceram: o que não conseguiram foi chegar a ela. Sapho fala também do perigo que ronda as noivas: Noiva que não consegue se concentrar no fuso, só tem pensamentos para o mundo ausente.
SOLON , MÁRMORE |
Consta que Sapho teria recusado o amor de Alceu, poeta grego dos maiores. Sobre sua vida afetiva, há uma história que corre desde a antiguidade, a de seu amor desesperado por Phaon (nome grego que lembra a cor acinzentada, escura, da lã) e de seu suicídio na ilha Leucade, ilha jônica. Lenda? Fantasia? Uma tentativa de se provar que Sapho tinha outra opção que não só a homossexual? Dizia a história que os amantes infelizes se lançavam de um penhasco na ilha. Phaon
era um herói de Lesbos. Antes fora um barqueiro velho e feio. Um dia, Afrodite, como anciã, em visita aos humanos, pediu-lhe condução e ele a atendeu. A deusa lhe deu então um bálsamo para ser usado todo dia. Tornou-se o velho barqueiro jovem e belíssimo. Todas as mulheres se apaixonaram por ele, inclusive Sapho. Após uma breve e tumultuada ligação com ele, ela se suicidou, depois de abandonada. Ovídio, nas Heróides, descreve essa paixão.
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HERÓIDES |
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ANDRÔMACA 1853 , JOSÉ VILCHES |
A vida de Sapho foi transformada em deboche pela misoginia ática, tanto socialmente como por muitos de seus escritores, os comediógrafos especialmente (Aristófanes). Todos desejosos de conter o movimento feminista tanto na Grécia continental como nas ilhas. Daí terem cunhado eles o nome de lésbica para designar a mulher homossexual. O verbo lesbiazein vai significar todas as audácias sexuais da mulher. Outra palavra ligada a Sapho é o verbo tribein (esfregar), de onde saíram tribadismo, tríbade, para designar a mulher que se satisfaz sexualmente se esfregando com outras.
Sapho, nesta perspectiva, tentou juntar Afrodite e Eros; de um lado, a graça feminina, a ternura, a elegância nas posturas; de outro, o ardor e a paixão. Este veio da poesia sáfica se integra à sua lírica, uma poesia do eu, subjetiva, dos estados interiores da alma. Pouco ou nada com relação ao exterior. Poesia confessional, na primeira pessoa, intimista, dela fazendo parte também as inquietações e os conflitos íntimos.
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UGO FÓSCOLO |
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GIACOMO LEOPARDI |
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MARCEL PAGNOL |
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ALPHONSE DAUDET |
Safo viveu num ambiente em que não se admitiam artifícios e convenções. Trata dos eternos temas amorosos: dor da separação, recordação dos amores passados, doação, integração, plenitude, através de precisas metáforas e imagens. Seus cantos vão para Afrodite, para que ela desate as cadeias do desejo. É como Sapho diz: distante do objeto amado, seu peito emudece, seus olhos ficam obscurecidos, os ouvidos zumbem: tanto superas as mulheres da Lídia, quanto, depois do crepúsculo, a Lua de dedos róseos supera as estrelas. O orvalho derrama então seu lenitivo e florescem a rosa, a branda erva e o rebento das trevas.
Há também os prazeres mais serenos. Sapho canta a natureza, a água que corre, o luar, as estrelas, a estrela vespertina que convida ao regresso do gado, que devolve o sono maternal ao cabrito e à criança. A Lua, as Plêiades, astros e sofrimento de amor. Ela foi a primeira a explorar estas regiões. Descreve também os passos de Eros.
Já houve quem dissesse que a poesia de Sapho poderia ser chamada de fisiológica por ela preencher seu campo da consciência com sensações puras. Ela não explica, não embeleza nada, não justifica nada. Sente e registra. Daí a relação entre sensação e consumação do ser pela paixão, tudo implicado uma experiência amorosa total, descrita por imagens da natureza: Eros agitou minha alma, como o vento da montanha se abate sobre o carvalho.
Esta repercussão dos sentimentos no funcionamento do corpo, em Sapho, pertence ao mesmo tempo ao psíquico como ao físico. Há aqui certas alterações, distúrbios de funções orgânicas e corporais que têm um caráter quase patológico. Lembramo-nos de Fedra, na tragédia Hipólito, quando viu seu enteado:
Eu o vi: corei, empalideci ao vê-lo
Eu o vi: corei, empalideci ao vê-lo
Uma perturbação se eleva em minha alma perdida
Meus olhos não viam mais, não podia falar
Senti todo meu corpo tremer e arder.
Para Psafo, toda paixão tem um objeto. Ei-la descrita: silêncio da noite. Luz dos astros. Na obscuridade, os reflexos luminosos adquirem um valor muito grande, a audição se torna mais aguda. O mundo interior das lembranças, dos lamentos, da saudade, dos desejos, liberado pelo silêncio noturno. A Lua, não mais um ponto de referência, um símbolo. Onde estará Arignota? A Lua se pôs e as Plêiades; é meia-noite. A hora passa, durmo só.
Em Lesbos, além da comunidade de Sapho, havia também uma escola de jovens rapazes sob a proteção de Ares, deus do combate, das lutas, da guerra. Ele era o amante de Afrodite; sua força brutal era contrabalançada pelo poder de sedução (enkrateia) da deusa. Hoje, o que temos, sem Afrodite, é apenas o lado militar, destrutivo, brutal, sem o outro pólo. Na medida em que pressões religiosas judaico-cristãs e islâmicas se impuseram, tornou-se difícil conceber
essa união entre Ares e Afrodite. Essa dualidade, na melhor das hipóteses, foi substituída progressivamente pela ideia de paz e de um amor absoluto. Criamos um quadro falso, acreditando que o conflito poderia ser excluído. Qualquer pessoa mais atenta sabe que sem Afrodite não há Ares e vice-versa. O ódio e o amor são regidos no corpo humano pelos mesmos complexos musculares. O deus guerreiro que está hoje em moda não é Ares, mas Apolo, distante e frio. Apolo não é físico nem instintivo como Ares, é muito mais cerebral, lida com dinheiro, ciência, tecnologia, celulares, computadores. Sua violência é abstrata, mata de longe. Reprimido, Ares dá lugar a outras formas de violência que explodem descontroladamente nas ruas e nas casas. Tudo porque desconhecemos Afrodite. O que temos hoje no que diz respeito ao feminino, à mulher, não tem nada a ver com a deusa.
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APOLO (MÁRMORE, M. VATICANO) |
Sapho não era exclusão do masculino, mas uma via para as mulheres, tão importante quanto a outra. Com o mundo grego de Atenas e depois com as religiões oficiais, todas as formas de autoridade (intelectual) se tornaram exclusivamente masculinas. A importância excessiva do masculino gerou aquilo que chamamos de homossexualismo psíquico. O homem ocidental, orientado para uma carreira, deixa o amor em segundo plano. A homossexualidade psíquica é hoje tão grande quanto a física na Grécia antiga. A virilidade masculina vai toda para a ambição, para a competição, para relacionamentos masculinos, para esportes, radicais de preferência, atingindo inclusive as mulheres. Sempre que o trabalho e a carreira levam tudo, Afrodite é ofendida e vai cobrar!
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PLATÃO |
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AFRODITE URÂNIA |