Entre os celtas da Irlanda e do noroeste da Grã-Bretanha, os chamados gaélicos, Ogma, também denominado Cermait e
apelidado de “boca de mel”, era o deus da literatura e da
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ALFABETO OGÂMICO |
eloquência. Era casado com Etan, filha de Diancechet, deus da medicina, com a qual teve vários filhos. Ogma, o que tinha o conhecimento do carvalho, árvore sagrada dos celtas, foi o inventor do famoso alfabeto ogâmico. Este alfabeto espalhou-se pela Escócia, ilha de Man, Gales do Sul, Devonshire e muitos outros lugares. Ogma era também o mais hábil dos deuses do panteão celta-irlandês em todos os tipos de luta.
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OGMIOS |
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TEUTATES |
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LUG |
Uma curiosidade: em 1634, em Loudun, o padre Urbain Grandier foi queimado vivo em Loudun sob a acusação de manter um pacto
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OS DEMÔNIOS DE LOUDUN |

Quando os romanos invadiram a Gália, um panteão antropomorfo se levantou ao lado das divindades locais. A principal tríade gaulesa dessa época era constituida por Esus, Teutates e Taranis. O primeiro (Esus) era considerado, sobretudo pelas tribos do norte da
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TARANIS |
Ao lado das divindades acima, Júlio Cesar, nos seus Comentários (De Bello Gallico), nos deixou uma descrição bastante detalhada do Mercúrio dos celtas, para ele, como se disse, dentre as divindades

Seu culto era muito difundido. A sua lembrança se perpetuou através de nomes de lugares como Mercurey, Mercueil, Mercoeur, Mirecourt, Montmercre (depois Montmartre). Muitas estátuas foram levantadas em sua honra. Tem-se notícia de uma, de bronze, de quarenta metros de altura, obra do escultou Zenodoro, que lhe custou dois anos de trabalho; encontrava-se num vasto templo nas alturas do Puy de Dôme, no centro da França, região do Auvergne. Uma outra estátua dessa divindade, toda em prata maciça, foi descoberta, enterrada, no solo do jardim de Luxemburgo, em Paris.
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SINAIS CELTAS |
Deus da prosperidade financeira, assimilado ao Hermes-Mercúrio greco-romano, o Mercúrio celta era também, parcialmente, uma divindade ligada aos feitos guerreiros. A este título era chamado de Albiorix (rei do mundo) e de Regisamos (o muito real). No geral, era representado sob a aparência de um jovem imberbe, comumente em pé, com os tornozelos alados. Raramente sentado, nu ou vestido com a clâmide, usava sempre o pétaso e carregava o caduceu. Os animais que o simbolizam são o galo e o bode. Às vezes, ao seu lado, uma serpente cornuda. O galo e o bode associados ao Mercúrio celta lembram sempre fertilidade. O galo, além de ave fálica, guerreira, solar, é um símbolo da vigilância (alektryor, em grego, o que não deita, sempre vigilante). Quanto à serpente cornuda, ela indica o poder de Mercúrio como a divindade que faz a ligação entre o mundo inferior (serpente) e o mundo superior, espiritual (chifre).
O Mercúrio celta tinha como esposa a Rosmerta, deusa da fertilidade e da abundância, sempre representada com uma
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ROSMERTA E MERCÚRIO |
A mitologia dos povos do norte europeu compreende principalmente a das tradições da península escandinava e da Islândia. Um desdobramento deste tronco é a mitologia germânica. Não há grandes diferenças entre ambas, já que um fundo comum as informa. O modelo hermesiano, muito desenvolvido em outras tradições, como vimos, não teve realce nos povos escandinavos e germânicos.
O panteão escandinavo-germânico nunca teve um número definido
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RAGNARÖK (IGREJA DE URNES, SÉC XI) |
As referências ao Hermes escandinavo aparecem nos Edda, nome de antigos textos poéticos que nos descrevem a mitologia dos povos do norte, do séc. XII, islandeses, descobertos em 1643. Sob o nome de Hermod, o Hermes escandinavo é descrito como filho mais novo de Odin e de Frigga, grandes divindades, chamadas Ases, de Asgard, o reino dos deuses, originalmente conhecido como Godheim, ou repouso dos deuses.
Balder, também filho de Odin e de Frigga, deusa da fecuncidade e do amor, o mais sábio dos Ases, deus solar, o favorito de todos, o
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LOKI |
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AGÁRICO (COLHEITA) |
Considerado uma panaceia universal, o agárico, segundo o mito, fora semeado por mão divina para nascer agarrado ao carvalho, árvore divina, para se tornar um símbolo de imortalidade. Era colhido no inverno, pois nunca perdia a sua floração; no período hibernal ficava até mais visível, portanto, e seus galhos verdes, suas folhas e os tufos amarelos de suas flores, enlaçados à árvore nua, apresentavam a imagem da vida em meio à natureza morta.
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BALDER |

Enquanto isso, Hermod continuava a sua caminhada por vales profundos e tenebrosos. Cavalgou durante nove dias e noites,
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HERMOD |
Ao lado das deusas que habitavam as regiões luminosas do céu, os escandinavos e germânicos tinham Holle como deusa do Inferno.
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HERMOD NO INFERNO |
Em meio a essa unanimidade universal, os deuses de Asgard notaram na caverna de uma montanha que uma giganta de nome Thokk se recusara a pedir o retorno de Balder. Ora, como logo se descobrirá esta giganta não era outra senão Loki, que, disfarçado, descobrira um meio de tornar o retorno de Balder impossível.
As atribuições de Hermod se fixaram na mitologia escandinava e germânica principalmente através da função de mensageiro de Odin (Wodan) e de condutor das almas (psicopompo) ao mundo infernal. Nesta última função, era Hermod reconhecido por seu bastão (gambateim), que, na sua mão, se transformava em símbolo do viajante e do guia, protetor dos inúmeros perigos que as almas podem encontrar na sua viagem para o Inferno. Os antigos germânicos, no que lembram os chineses, possuíam uma arte divinatória chamada palomancia, realizada com o auxílio de dois pequenos bastões, um indicando um sentido favorável e outro desfavorável, com relação ao caminho a ser tomado. Lançados juntos, o bastão que caía em cima do outro era um indicador de caminho livre de obstáculos.
Hermod, como Mercúrio, tinha poucas funções.
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BRAGE |
As terapias pela palavra, vinculadas à área médica, dependiam de Eira, deusa da medicina. E assim por diante... Ao fechar este capítulo sobre Mercúrio, não podemos deixar de ressaltar que Hermes é a única divindade que poderá nos falar da realidade do homem, consciente/inconsciente, em sua totalidade. A Galáxia de Gutenberg se concretizou com os telefones celulares e a Internet. Vivemos hoje numa “aldeia global”, efetivamente, com a comunicação bidirecional entre pessoas que esses meios de comunicação vieram a possibilitar.
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GUTENBERG |
Sob o ponto de vista da saúde mental, entretanto, entendo que a Galáxia Eletrônica não pode continuar a ser considerada segundo a lógica aristotélica tradicional, base da lógica matemática do neopositivismo. Esta base lógica criou um mundo esquizoide no qual a loucura e/ou o suicídio vêm sendo vividos como as únicas saídas. Isto está claro quando temos diante de nós as tradicionais forças bipolares de pensamento, ou seja, “isto ou aquilo”. Assim agindo, não fazemos mais que acentuar ou, na pior das hipóteses, sofrer ou tolerar as contradições, nem, por outro lado, reduzindo-as ou as superando.
Temos necessidade urgente de uma nova lógica que não nos coloque, como a vigente, diante de “isto ou aquilo”, do “bom e do mau”, do “útil e do inútil”. A lógica com a qual estamos vivendo é doentia, patológica. No plano pessoal e social só conseguiremos estabelecer uma nova lógica, adequada aos novos tempos, se libertarmos o “nosso” Hermes do domínio que sobre ele exercem, como disse, Zeus, Hefesto e Ares.
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HEFESTO |
Esta nova lógica, acredito, poderia ser sintetizada pela seguinte expressão: “escolher não é renunciar” ou, de outro modo, “escolher é integrar”. Nesta perspectiva, escolher quererá dizer enriquecimento, integração do que não temos ao que temos. Esta “nova” lógica tem por base um fato fundamental: nossa cultura é cada vez mais “imagem e som” e cada vez menos “palavras”. A visão e a audição têm um valor integrativo maior que o da palavra falada e da escrita (o desta ainda menor). Só deste modo Hermes e Urano poderão nos conduzir para os novos tempos que estão se abrindo para a Humanidade...
As ideias acima expostas me vieram ao ler a correspondência trocada entre Thomas Mann e Karl Kerényi sobre questões da
mitologia grega. O primeiro considerava o “Hermético” (melhor seria dizer hermesiano) como a terceira via a ser acrescentada ao dualismo Apolo-Dioniso que Nietzsche havia trazido para a cultura histórica. Afirmava Mann que o “Hermético” era uma qualidade específica da natureza, das realizações e dos padrões existenciais dos seres humanos, nos quais podiam ser encontrados traços de astúcia, velhacaria, esperteza, de savoir vivre.
A grande característica de Hermes para Kerényi era, sem dúvida, o seu lado estradeiro, a sua permanente disposição para andar, característica que Jean-Paul Sartre, como um bom geminiano, colocará, na sua obra, como um valor “filosófico”. Kerényi, por exemplo, usava muito a palavra grega hermaion para designar aquilo que lhe chegava às mãos inesperadamente, um artigo, um livro, um texto qualquer de seu interesse. Nesse sentido, hermaion era também um encontro com pessoas interessantes, sempre na rua, numa praça, num teatro, numa livraria, algo inesperado. É nesta perspectiva que Hermes, para Mann e para Kerényi, pode desempenhar um papel importante na vida humana ao levar as pessoas para a “estrada”, lembrando que vida é caminho e que é nele que temos que fazer as nossas escolhas.
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HERMES |
E por esta razão que Hermes pouco tem a ver com a “Ilíada”, poema no qual a figura dominante é Aquiles, grande herói e o maior dos guerreiros gregos. Nada tão distante do mundo heroico
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ULISSES |