terça-feira, 4 de março de 2014

A FIGUEIRA

 
FICUS BENGHALENSIS

  
A oliveira, a vinha e a figueira são as três mais importantes expressões do mundo vegetal nas antigas sociedades mediterrâneas. As três estão ligadas ao cotidiano dessas sociedades, fazendo parte da sua economia, da sua alimentação, dos seus costumes, da sua medicina popular, dos seus mitos e lendas, das suas crenças religiosas.

 Há uma vasta literatura sobre as duas primeiras, ligadas de modo especial ao mundo greco-romano, sobejamente
BÉRBERE - MARROCOS
conhecida. Já quanto à figueira, embora  também faça ela parte da cultura ocidental, pelos motivos acima expostos, pouco se sabe dela,  como árvore-símbolo dos povos do norte da África. O que vai nos interessar mais neste trabalho é o levantamento de algumas questões que, longe de esgotar o assunto, possam nos ajudar a entender como essa árvore se tornou tão importante para muitas civilizações do mundo antigo, especialmente sob o ponto de vista religioso. 



ÁFRICA COM O NORTE EM DESTAQUE


As figueiras são conhecidas também como ficus, calculando os botânicos que no mundo todo haja cerca oitocentas espécies dessa árvore, especialmente em regiões de clima tropical e subtropical. Os frutos da figueira, além de muito consumidos pelos seres humanos, fornecem alimento para aves, símios e peixes (frutos caídos na água). O fruto da figueira mais consumido em todo o mundo é o proveniente da Ficus Carica, assim designada porque se supõe que seja a Cária a região de sua origem. A Cária (etimologicamente, país montanhoso) estava situada no noroeste da Ásia Menor. Colônia fenícia, foi helenizada pelos dóricos e depois tomada pelos persas, passando depois para o poder romano no início de nossa era.  





Conhecida desde o período neolítico, a figueira sempre foi considerada como a árvore da generosidade e da abundância em virtude de suas virtudes protetoras, fecundantes e regeneradoras. Um dos primeiros povos a nos
revelar os segredos da figueira foi o egípcio, interessado inclusive por técnicas de seu cultivo (arboricultura), principalmente sob o ponto de vista frutífero e do aproveitamento do seu lenho,  há muito usado para a construção de sarcófagos. Conheciam os egípcios um processo chamado caprificatio através do qual as frutas fêmeas eram polinizadas por um inseto, o blastófago, que abriam nos frutos um orifício para esse fim. Os gregos e romanos também conheceram esse processo, descrito, por Teofrasto, discípulo de Platão,  e pelo naturalista romano Plínio, O Velho.

CLEÓPATRA


Um dos grandes acontecimentos da vida do povo egípcio, aliás, tem relação com os figos, muito apreciados por Cleópatra, a última rainha do país, da dinastia dos Ptolomeus. Consta da sua biografia um episódio, não confirmado historicamente, o de que a serpente (víbora) que lhe picou mortalmente o seio veio escondida num grande cesto de figos por ela pedido à sua criadagem. Uma das espécies mais conhecidas da árvore tem entre os egípcios o nome de figueira dos faraós.


A figueira dos faraós (ficus sycomorus) tem também o nome de sicômoro é árvore muito comum em todo o norte da África, cultivada tanto pelos seus frutos comestíveis e também como planta melífera e ornamental pelas suas flores, sendo inclusive muito útil na tinturaria (tingimento de tecidos). Sua madeira, além de bastante usada para a construção de sarcófagos, como se disse,  é especialmente empregada na confecção de instrumentos musicais e de móveis. 


A origem do sicômoro é explicada pelos gregos por um mito. Os gigantes eram os inimigos naturais dos deuses. Reia,
REIA
esposa de Kronos, mãe dos futuros olímpicos, ao ser ameaçada por um deles, de nome Syceu, o transformou numa árvore, o sicômoro, nome que, em grego, se decompõe: sycon, figo, e moron, vermelho escuro, também amora. Segundo uma outra versão, Syceu foi um dos titãs que salvou Geia, sua mãe, então perseguida por Zeus, quando da titanomaquia (luta entre os titãs e os futuros olímpicos). Siceu fez nascer uma gigantesca figueira para que Geia nela pudesse se esconder. 



Gaius Julius Solinus, gramático e escritor latino (séc. III dC), nos seus deliciosos textos Collectanea Rerum Memorabilium
e Polyhistor, nos informa que a figueira é a principal árvore do Egito. Sua folha, prossegue, é muito parecida com a da amoreira; seus frutos são encontrados tanto nos galhos como no tronco; a árvore nos dá seus frutos sete vezes por ano (sic); mal colhido um, outro começa a despontar no lugar do que foi colhido. A sua madeira, lançada à água, desce ao fundo; depois de um certo tempo, ela volta à superfície. Esta imagem da madeira boiando à superfície das águas foi
usada na arte mortuária (sarcófagos) para representar a dispersão dos membros do deus Osíris nas águas do rio Nilo. Por sua fecundidade excepcional, a árvore era conhecida como a nutriz por excelência dos defuntos na sua viagem para o Amenti (O Outro Lado). Por essa razão, plantavam-na diante dos túmulos para assegurar a proteção ao defunto até a sua apresentação diante de Osíris. 

OSIRIS


Muito procurada pelos amantes, que gostavam de se refugiar à sua sombra, a figueira tem lugar de destaque na poesia amorosa, desde o período pré-dinástico. Os poetas nos informam que, quando ela “fala” (o movimento de sua ramagem), suas palavras são como gotas de mel; sua textura é a da faiança, sendo sua sombra fresca sempre proteção.

NUT E GEB - CÉU E TERRA


Nos Textos das Pirâmides encontramos referências que ligam a figueira à deusa Nut. Como divindade celeste, é ela
RA
que dá nascimento aos astros, que  engole a cada entardecer e os devolve pela manhã. Assim, o lenho da figueira como sarcófago engole o defunto para transformá-lo num novo Osíris. Nos capítulos 109 e 149 do Livro dos Mortos encontramos referências a ela; no primeiro, há uma menção aos espíritos que habitam nas copas dos sicômoros de esmeralda, ornamento dos rios, que deslizam silenciosos. No segundo, se registra que, na sua viagem, Ra (Sol), com a sua barca, passa por dois sicômoros cor de turquesa. 



ÍSIS

Árvore de Ísis, sabe-se que egípcios, além do uso do figo para a fabricação de produtos farmacêuticos, faziam para
FIGOS SECOS
suas cerimônias religiosas uma bebida com eles. Informações dos tempos da dinastia dos Ramsés nos dão a conhecer que enfiadas de figos secos eram servidas em repastos depois de longas viagens. Os figos eram usados também para a engorda de gansos com fim de se preparar o
FOIE GRAS
foie gras
(fígado de ganso gordo) e na arte da panificação. Esta técnica, séculos e séculos mais tarde, muito difundida entre a elite romana, seria passada para os franceses. Luis XIV estimulou grandemente a plantação de figos na região de Versalhes, dos tipos Rouge d´Argenteuil e Dauphine.


POMAR REAL DE VERSALHES

Para uso religioso, os egípcios importaram de uma região do Mar Vermelho, do misterioso País do Punt, sinônimo de paraíso terrestre para eles, sicômoros especiais (nehat) para
FIGUEIRA DE PUNT
a produção de incenso. Estas árvores foram plantadas nos terraços do templo funerário da rainha Hatshepsut, filha de Tutmosis I, “aquela que reinou como um homem”. As figueiras eram particularmente usadas para cercar os templos, formando em torno deles um cinturão de frescor bastante agradável. As Casas de Vida, centros culturais construídos ao lado dos templos, eram também cercadas por figueiras com esse fim. As deusas Hathor e Isis tinham especial predileção pelos sicômoros para as suas manifestações.


TEMPLO FUNERÁRIO DE HATSHEPSUT


Para alguns estudiosos, o nome grego sykon (figo) teria vindo da Fenícia, lá usado para designar o fruto da Ficus Carica, muito consumido. Conhecido há mais de 10.000 anos, sua cultura já estava estabelecida por volta de 5.000 aC no Oriente Médio, espalhando-a os fenícios por todo o Mediterrâneo e propagando-a posteriormente os cartagineses, gregos e romanos. Recentemente, lembremos, arqueólogos israelenses descobriram que o figo já era cultivado na Cisjordânia desde o período neolítico e atestada a sua importância como alimento privilegiado, especialmente quando seco, para ser comido em épocas de escassez alimentar ou no inverno.


Na Grécia antiga, o figo, sempre considerado como um importante alimento (sua exportação era proibida), tinha um status privilegiado (dádiva divina). Aqueles que os contrabandeavam ou roubavam eram conhecidos pelo nome de sicofantas. O nome, inicialmente, foi aplicado aos encarregados de vigiar os frutos; depois, passou a ser usado para designar esse funcionário como  caluniador, porque,
DIONISO
aproveitando-se do cargo, ele fazia denúncias sem fundamento, só por perseguição ou antipatia. Muito apreciado pelos gregos, o figo fazia normalmente parte de sua alimentação diária. Essa importância está inclusive registrada no mito, onde encontramos a história de Syke (o figo), ninfa pela qual o deus Dioniso se apaixonou. Como símbolo da fertilidade, o fruto era muito usado como um dos alimentos consumidos na primeira fase dos Mistérios de Eleusis, a orgia, juntamente com o kykeon, bebida à base de vinho, de caráter enteógeno, que tinha entre os seus componentes certos fungos (mais tarde, usados como base do LSD), conhecidos como alimento dos deuses (broma theon),  que produziam visões fantásticas.



Em algumas passagens míticas, temos informações de que o figo era uma dádiva de Deméter, considerada “tão ou mais importante que o ouro”. Citado na Ilíada e na Odisseia, diariamente consumido, ele era especialmente recomendado aos atletas olímpicos quando concentrados para os agones, já que dava “força e agilidade”. Na medicina, como uma espécie de panaceia, eram famosos os cataplasmas de figo. Platão acreditava na sua origem divina  (dádiva de Deméter) e, como todo grego, era um philosykos, amigo dos figos. Na sua  Academia, sugeria que para melhor filosofar os seus discípulos comessem muitos figos. Para a saúde do corpo eram também recomendados os frutos;   em Esparta, faziam parte, desde cedo, da alimentação da crianças entregues à tutela do Estado. 

ACADEMIA DE PLATÃO


Entre os romanos, a figueira aparece no mito de Rômulo e Remo, encontrados ao pé de uma delas, ali sendo alimentados por uma loba. Inspirado pelos deuses, o pastor Fáustulo os encontrou e os entregou a sua esposa, Aca Larência, para que ela os criasse. À figueira foi dado o nome latino faustulus, tornando-se ela um símbolo político de
RÔMULO E REMO
proteção. Quem nos conta esta história é Plínio, o Velho: o local onde os gêmeos foram encontrados recebeu o nome de Lupercal; no cume do Palatino, berço de Roma, havia uma gruta sagrada onde a loba Luperca amamentou os meninos. O local era conhecido por uma enorme figueira, de nome Ruminal, ao lado da qual borbulhava uma fonte. Rumis era um nome carinhoso dado às mães e popularmente ao seio feminino. Plínio nos informa também que a figueira Ruminal tinha a fama de proteger contra a ação dos raios. 



Os romanos costumavam consumir os figos à mesa, frescos ou como foie gras, e, fora dela, secos. Catão recomendava  que, nessa condição, antes de colocá-los em cestos, era
CATÃO
preciso muito cuidado para que não contivessem nenhuma umidade, livrando-os assim do bolor. Depois de secos, segundo ele, os figos se transformavam num excelente alimento para os humanos e para os animais, servindo de base para muitos produtos medicinais. Plínio falava que o figo era um bom substituto do pão, podendo entrar na ração dos escravos com essa finalidade. A história registrou que Marcus Gavius Agicius, gastrônomo, séc. I dC, introduziu em Roma a técnica de engorda do fígado dos gansos. Chama-se ficatum o fígado do ave assim engordado.  



Catão, o Censor, usou a figueira, por sua resistência e facilidade de propagação, como um símbolo (metáfora) para advertir os romanos do perigo que representava a África, ou melhor, Cartago. Como a figueira, uma “verdadeira praga africana”, a cidade de Cartago resistia bravamente a Roma, afrontando o seu poder. Daí a divisa de Catão: Delenda Carthago, com a qual  encerrava todos os seus discursos diante do perigo que oferecia a cidade púnica. Na origem, punicans, tis, queria dizer vermelho, púrpura. Dela saiu punicus para designar as coisas cartaginesas; por exemplo, punica fides, a má fé, a fé púnica (mercantilismo); punica ars, estratagemas usados pelos cartagineses para enganar, tudo isto, evidentemente, sob o ponto de vista dos romanos. 

MOISÉS (MICHELANGELO)
   
O figo foi um dos tesouros que Moisés prometeu aos judeus quando chegassem à Terra Prometida. A Bíblia nos diz que Adão e Eva esconderam a sua nudez com folhas da figueira depois de terem desobedecido a ordem recebida de não comer os frutos da árvore da sabedoria. Entre os cristãos, a figueira aparece nos evangelhos de Marcos (11:12-14 e 11:20-25)) e Mateus (21:18-22). É conhecida por muitos católicos a Parábola da Figueira Estéril. Segundo muitos estudiosos, Cristo teria usado a figueira como uma metáfora a fim de descrever a aparência externa da nação judaica como algo grandioso (a sua copa, a sua ramagem), mas que deixara há muito de produzir alguma coisa útil para a glória de Deus.   


Assim a figueira, na tradição cristã, tornou-se a árvore do mal, simbolizando tanto a sinagoga, que não reconheceu o Cristo, como todas as doutrinas heréticas. A tradição medieval cristã aproximava o verbo peccare (pecar) da palavra hebraica pag, figo. Considerada árvore da abundância, da fecundidade perigosa e descontrolada, a figueira aparece na Bíblia como a árvore da ciência, sempre perigosa para as questões da fé. Árvore na qual Judas Escariotes se enforcou, sempre maldita, associada a ritos de fecundação,  a árvore sempre fez parte do universo simbólico das divindades fálicas, Dioniso, Príapo e outras, satanizada por isso pelos cristãos.

EXPULSÃO DO PARAÍSO (MICHELANGELO)


Ao comer os frutos proibidos, Adão e Eva abandonaram o divino. Tentados, pressionados por forças inconscientes que não dominavam (a serpente), acharam, ao comer figos, que podiam adquirir o conhecimento que os igualasse a Deus. Ora, o divino é um mundo ao qual só se pode ter acesso pela fé, nunca pela razão. A figueira, por causa dessa carga de maldição no mundo cristão, foi condenada a dar frutos sem florir. 


A Árvore do Conhecimento, conhecida como a Árvore do
FÊNIX
Bem e do Mal, a grande figueira, estava no Jardim do Éden. Não só Adão e Eva, instigados pela Serpente, comeram os frutos da Árvore; todos os animais da criação comeram-nos também. Só uma ave se absteve, sendo transformada por isso na Fênix, a ave que nunca morre.



 A Árvore do Conhecimento é, como se pode constatar, uma metáfora que admite leituras em várias direções: a) como símbolo da capacidade de discernimento que o homem devia demonstrar diante do Bem e do Mal; b) como uma representação da vida sexual não ligada à procriação, mas tão só ao prazer; c) como uma representação do psiquismo humano; Adão, o consciente, masculino; Eva o inconsciente, feminino. Daí, a relação entre a mulher e a serpente e a culpa atribuída a esta (s) última (s) pela perda do Paraíso; aliás, foi por esta razão que a serpente, nos meios judaico-cristãos, passou a simbolizar o Mal; a sua peçonha foi inoculada, segundo os judeus, em todos os descendentes de Eva, tendo sido, porém, removida do povo de Israel quando a Torá lhe foi transmitida; foi por esta razão também que se atribuiu a paternidade de Caim à serpente e não a Adão. d) uma Ilustração da vida humana que rejeita os valores do mundo natural ao optar pelo luxo, pela concupiscência, pela corrupção da riqueza.  


É do mundo grego que nos vem a sycomanteia (sicomancia) uma forma de adivinhação praticada com as folhas da figueira. Escreve-se um nome numa folha, nome sobre o qual se deseja alguma informação. Se a folha secar rapidamente, o sinal é de mau augúrio. Se custar a secar, o sinal é de bom augúrio. 


Ciência, fígado e fogo se equivalem no contexto semântico
PROMETEU
do mito grego de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos céus (do deus Hélio), trazendo-o escondido no galho oco de uma figueira, e o entregou aos humanos. Por isso, como punição, teve Prometeu o seu fígado destruído e recomposto alternadamente por um abutre gigantesco. Destruído durante o dia, o fígado se recompunha à noite quando a pavorosa ave se afastava. A palavra latina ficatum, como vimos, também designa o fígado de ave engordada com figos. 


O nome
SIGNO DE GÊMEOS
Prometeu, por outro lado, etimologicamente o que sabe antes, o previdente, vem de um verbo, manthanein, que tem relação com a produção do fogo pelo atrito de dois pequenos bastões, símbolo, na Astrologia, do signo de Gêmeos, do elemento ar, ligado à vida mental.




Na língua sânscrita, o substantivo manthini designa o ato de se girar bastões para a produção
AGNI
do fogo, da manteiga etc. Já se levantou a hipótese de que Prometeu seria o modelo grego dos sacerdotes que no mundo indo-europeu cultuavam o fogo. Na Índia, esses sacerdotes participavam do culto de Agni, uma das três grandes divindades do fogo no mundo védico (Surya e Indra são as outras). 



Simbolicamente, o fígado, em muitas tradições, sempre apareceu associado ao fogo como sede de paixões com o sentido de morte da alma, como privação de Deus. Esta privação toma aqui também (e em muitas outras tradições também) o sentido de excesso, de orgulho mental. Este
SÃO JOÃO DA CRUZ
sentido, por exemplo, nós o encontramos tanto em São João da Cruz como no mito de Prometeu. Ao receber o fogo de Prometeu, os humanos, ao utilizá-lo somente para a vida mental, para a ciência e para seu subproduto, a tecnologia, para  a enorme produção de bens  materiais, perderam a sua dimensão espiritual. O presente de Prometeu, o chamado filantropíssimo, se constiuíu nesse sentido numa dádiva e numa maldição. Prometeu, para os humanos, um grande benfeitor, sob o ponto de vista divino, um ser perigoso, um ladrão. A rigor, o titã foi um agente duplo, como expusemos no trabalho “Prometeu, Platão e a Mitologia”,


GASTON BACHELARD
neste blog. 


Acho oportuno lembrar a esta altura que foi o mestre Gaston Bachelard quem fixou melhor para nós a ambígua figura do Filantropíssimo ao formular o chamado complexo Prometeu: a tendência que tem o ser humano de saber mais do que aqueles que o antecederam, pais, professores, mestres. Esse complexo, como diz Bachelard, ilustra a vontade humana com relação à vida intelectual, tornando-a dependente exclusivamente do princípio da utilidade material Ou seja: o complexo represente a atitude moral que considera como superior tudo o que, sob o ponto de vista utilitário, nos dá mais felicidade. Uma espécie de “aritmética dos prazeres” que tem a finalidade de aumentar cada vez mais o bem-estar material da humanidade.  

HÉRCULES SALVA PROMETEU
     
Punido pelos deuses, Prometeu foi aprisionado nas montanhas do Cáucaso. Ali ficou por muito, tendo o seu fígado destruído e recomposto diariamente, até que Hércules, quando do terceiro trabalho (também neste blog), o libertou. Para um melhor entendimento e uma confirmação do que aqui se expõe, útil a contribuição astrológica. 


O fígado, astrologicamente, tem a ver com o planeta Júpiter, regente do signo de Sagitário. Esse planeta representa os princípios superiores que devem orientar o homem, tanto
FÍGADO
espiritual, como mental e fisicamente. Bem trabalhado, o planeta é generoso, protetor, otimista, sustentador. No corpo humano  tem muito a ver com as propriedades nutritivas e protetoras do sangue. Rege, dentre outras parte e órgãos, o fígado, o baço, a vesícula biliar, a transformação dos açúcares, a atividade química do corpo. Doenças jupiterianas produzem desordens sanguíneas, problemas no fígado, hemorragias, hiperglicemia. Tanto como órgão gerador da vida, de virtudes guerreiras e de coragem, o fígado é, por outro lado, o lugar onde o ser humano deposita sentimentos como a cólera, a dor, o ódio. 


GULA (HIERONYMUS BOSCH)

Palavras como melancolia (melanos, negro, khole, bílis)  atrabiliário (atra, negro, sombrio, mais bilis) e figadal são desse universo. Figadal é o que atinge profundamente; um inimigo figadal nos provoca rancor, faz mal às nossas
vísceras. Júpiter aponta para descontroles alimentares, moléstias pulmonares (ação reflexa), impurezas do sangue, adiposidade, obesidade, flatulência etc. Muitos dos problemas de saúde causados por Júpiter estão ligados aos órgãos da nutrição, do metabolismo, da assimilação, da combustão e das reservas. O fígado, nesses casos, deve ser o primeiro a se observar: é o lugar, como se disse, onde depositamos os excessos. A gulodice é um dos pecados capitais dos sagitarianos; abundância alimentar, degustações de pratos ricos, tudo contribuindo para que o fígado receba grandes quantidades de gordura. Não metabolizada, esta gordura vai engrossar a silhueta, produzindo marcas características nos do signo que se descontrolam, ganho de peso, produzindo a chamada obesidade visceral (esteatose, degenerescência gordurosa de um tecido). Um dos males mais comuns em sagitarianos que vivem desse modo é, por isso, a diabetes. No mais, persistindo o desequilíbrio, a bulimia, acessos de hiperfagia etc. Uma das consequências mais notáveis dos excessos sagitarianos é a gota, moléstia provocada por excesso de ácido úrico no organismo, causador de dolorosas inflamações nas articulações. É uma moléstia que vem acompanha geralmente de obesidade, pressão arterial elevada e níveis altos de colesterol (khole, bilis, stereos, sólido). 


Aplicando o princípio da correspondência (Hermetismo) ao que acima se expôs, fica fácil entender porque Sagitário e Júpiter têm a ver com o distante, com as religiões, com as heresias, com a filosofia. Num nível superior, Júpiter, espiritualmente, representa a revelação e a comunicação,  a expansão pela qual a vida instintiva e a vida mental podem buscar um “além-eu” através de vários modelos de transcendência. 


O fogo que Prometeu entregou aos humanos perdeu o sentido da transcendência; veio criando, ao longos dos milênios, ao invés de modelos superiores da inquietação humana,  formas doentias de vida, hoje integradas ao quotidiano (material) das pessoa como busca desenfreada da riqueza, consumismo, nomadismo, esportes radicais, agitação sob o nome de aventuras, desejo de viajar por
BOLSA DE VALORES
nada, degustação de paisagens pitorescas, especulações ruinosas (jogo do dinheiro) sob o ponto de vista econômico, negócios internacionais questionáveis, competições esportivas motivadas pelo lucro, corrupção do espírito olímpico etc. Ao lado de tudo isto, os vícios de sempre, cada vez mais evidentes porque proclamados e divulgados hoje pelas diversas webs: a ignorância pretensiosa, o exagero, a irreflexão, a imoderação, o despudor,a autoindulgência, a falta de sinceridade, a indigência mental, o exibicionismo, o orgulho arrogante e inútil, a fanfarronice. Isto significa nenhum impulso real para se dar à vida um sentido espiritual, nenhuma vontade de se impregnar as questões práticas com alguma forma de idealismo nem de se procurar entender que as formas mais elevadas de transcendência estão nas viagens que podemos fazer para dentro de nós mesmos.  

  

No mundo islâmico, os camponeses consideravam o figo como um fruto sagrado, bendito (baraka). Sua antiguidade está longamente atestada, fazendo, por exemplo, parte do cerimonial das núpcias entre os bérberes (grupo étnico nômade de origem camita que habita o norte da África desde a pré-história) e camponeses, de um modo geral. A 95ª surata (subdivisão do Corão) começa por uma evocação da figueira e da oliveira. O simbolismo da fecundidade da figueira é, contudo, pré-islâmico. É por essa razão que na África do norte a figueira é sinônimo de testículos.


Entre os povos do norte da África, o figo seco é conhecido pelo nome araula, considerado sempre como um alimento
CARAVANA
muito importante, imprescindível para os pastores do deserto, para os trabalhadores braçais ou para qualquer pessoa que trabalhe fora de casa. São usados também os figos na composição da Fakia, (mistura de frutos secos, nozes, passas etc.), consumida nas festas de Ennair (ano novo agrário), e como acompanhamento nos ritos de inumação. O figo entra ainda como elemento básico para a produção de uma bebida alcoólica, a Mahya, uma espécie de aguardente.



É na Índia que encontramos o maior exemplar da figueira, a Ficus Bhengalensis, seculare, cuja copa chega a atingir mais
FICUS RELIGIOSA
de trezentos metros de diâmetro. Dentre as várias espécies da árvore, a mais importante é, sem dúvida, a Ficus Religiosa. Ashvata (Ashavattha, em sânscrito), conhecida desde os tempos pré-védicos. Já era usada como símbolo religioso em Mohenjo Daro e Harappa (entre 5.000 e 3.000 aC), cidades do vale do rio Indus, em ruínas quando as tribos árias chegaram à região por volta de 2000 aC. 



ASWINS

Duas etimologias podem ser estabelecidas para a palavra: 1) tha, em sânscrito quer dizer permanecer, ficar; ashva é cavalo. Liga-se o nome ao signo de Mithuna (Gêmeos), na astrologia védica (Jyotish). Os Gêmeos têm o nome de Ashwins (Dióscuros, na mitologia grega); são divindades que fazem nos céus a transição das trevas noturnas para a luz, antecedendo o Sol (Surya), simbolizando como tal o princípio da vida consciente, que deve caminhar espiritualmente em direção do Brahman (O Todo). Com os Ashwins vem Ushas, a deusa da Aurora (Eos na mitologia grega). Os Ashwins são deuses cavaleiros e exercem várias funções, de modo especial a médica. São divindades curadoras na medida em que controlam os cavalos. O cavalo, como se sabe, em todas as tradições, é um dos grandes símbolos do psiquismo inconsciente; 
2) a é partícula que indica em sânscrito negatividade; shwa, quer dizer amanhã; tha, quer dizer permanecer, ficar, como está acima. A palavra significaria pois “aquilo que nunca permanece o mesmo de um dia para o outro”, isto é, o transitório. Nas escolas filosóficas (darshanas) do Hinduísmo, ashvattha é o mundo fenomênico, aquilo que dura muito pouco, o mundo de Maya, mutável e perecível, “o que não permanece o mesmo de hoje para a amanhã.”


Posteriormente, na tradição Hinduísta, principalmente nos Upanishads e no poema  Bhagavad Gita, ashvattha tornou-se a árvore invertida que se identifica com o eixo do mundo (axis mundi), que une o céu, onde estão as suas raízes, à terra, por onde se espalha a sua ramagem (as escrituras sagradas, os Vedas). No Budismo a árvore tem o nome de pippal. A iluminação do príncipe Sidharta Gautama, que o transformou em Buda, ocorreu numa Lua cheia do mês de maio; sentado sob a figueira, em Boddhi Gaya, perto do Nepal, o príncipe kshatrya “aquietou os seus cavalos”.


ILUMINAÇÃO DE BUDA


“Aquietar os cavalos”  quer dizer aqui dominar o turbilhão mental e emocional interior, representado astrologicamente por Lua (emocional) e por Mercúrio (mente comum). Estes dois astros são os que mais velozmente circulam nos céus. A Lua, ligada à água, governa o emocional, de natureza inconsciente, enquanto Mercúrio, ligado ao elemento ar, simboliza o mental comum, sempre dispersivo, impregnado de interferências lunares. É por esta razão que o Budismo é um Yoga (da raíz sânscrita  yuj, atrelar, jungir), instrumento de controle dos “cavalos”,  símbolos do  psiquismo inconsciente. 

TRIMURTI

Em muitos lugares da Índia, a grande figueira é conhecida também como banian (Ficus Indica ou Ficus Benghalensis), símbolo da imortalidade, do conhecimento superior. Confunde-se ela com Vishnu, segunda pessoa da trimurti hinduísta, que tem tantos nomes quantos galhos tem a figueira sagrada. Os vishnuístas adoram esta árvore, muito encontrada na vizinhança de seus templos. Em cada cidade do interior da Índia, há um banian sagrado; seus galhos pendentes em direção da terra dão nascimento a novos troncos e é no seu cruzamento que os templos e lugares sagrados de repouso são construídos.