Mostrando postagens com marcador RÔMULO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador RÔMULO. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de março de 2017

GÊMEOS (3)

                   
GÊMEOS (ILUMINURA  MEDIEVAL)
Uma aproximação rica de possibilidades significativas que podemos fazer com relação ao signo de Gêmeos é a de trazer para o seu universo a figura de Peter Pan. Esta aproximação se justifica na medida em que Peter Pan é um personagem que recusa o crescimento, isto é, que não quer chegar à vida adulta, responsável, preferindo manter-se numa adolescência infantilizada. Nada de responsabilidades, de deveres. A Psicologia
PETER   PAN - KENSINGTON
deu o nome de síndrome de Peter Pan para descrever o comportamento do adulto que receia assumir responsabilidades e/ou se recusa a agir conforme a sua idade. Tudo isto pode ser percebido nos beijos de Wendy, no desejo de Peter Pan ter uma menina da sua idade que pudesse ser sua mãe, nos sentimentos conflituosos para com Wendy e Sininho (representações de diferentes arquétipos femininos), no simbolismo de sua luta com o capitão Hook, papel tradicionalmente protagonizado pelo mesmo ator que representa o pai de Wendy. 


Peter Pan  apareceu pela primeira vez em 1.902 num texto intitulado The Little White Bird, uma história das relações do seu autor (James M. Barrie) com as crianças de Sylvia Davies, de uma família amiga. Adaptada para o teatro, recebeu o título Peter Pan ou The Boy Who Wouldn´t Grow, que estreou em Londres em 1.904. Em 1.906, aparece um livro do mesmo autor com o título de Peter Pan in Kensington Gardens, ilustrado. Peter Pan foi adaptado para o cinema várias vezes, sendo o personagem representado invariavelmente por uma jovem atriz. O teatro também investiu em Peter Pan.


SYLVIA  DAVIES  E  FILHOS

Recusando-se a crescer, Peter Pan passa os seus dias de eterna juventude na pequena ilha de Neverland como líder de um grupo chamado Lost Boys, convivendo com fadas e piratas e encontrando
EDIÇÃO   DE   1906
de vez em quando crianças do “mundo de fora”. Incorporando muitos traços geminianos negativos, Peter Pan é principalmente um exagerado estereótipo de um exibido e descuidado jovem. Sua atitude diante da vida é displicente, descuidada,  inconsequente mesmo, inclusive diante do perigo. O autor da história nunca explicou aos seus leitores como Peter Pan conseguia permanecer jovem. O personagem, para alguns estudiosos, faz parte de uma antiga tradição anglo-germânica denominada Totenkindergeschichte (contos de morte de crianças).

ILUSTRAÇÃO DE 1906
Outros encontram a explicação para a eterna juventude de nosso herói porque ele foi atingido pela poeira de estrelas que um dia caíram sobre a terra. Não há também explicação convincente sobre a sua capacidade de voar. Peter Pan alega que com bons pensamentos e “poeira das fadas”, esta última igual àquela que as estrelas deixam no seu rastro. Em temas folclóricos europeus, aliás, temos a figura do Dustman, um gênio do sono que lançava poeira nos olhos das crianças para que elas dormissem. 


EDIÇÃO  DE  1915
Peter Pan é hábil na luta de espadas, na imitação de vozes e gestos, sendo acuradíssimas sua visão e audição. Peter Pan nunca conviveu com os seus pais. Numa passagem da sua obra, o autor nos revela que ele, um dia, muito criança, saiu de casa e que quando retornou, ao olhar pela janela, viu que os pais haviam encontrado um substituto para ele e que não mais o queriam. O grande oponente de Peter Pan é o capitão Hook (Gancho), cuja mão ele decepou num duelo. De tempos em tempos, Peter Pan visita o mundo real, de modo especial os jardins do bairro londrino de Kensington, relacionando-se com as crianças que ali brincam. 

A história de Peter Pan pode ser colocada em relação com a dos mitos heroicos. O nascimento do herói é geralmente milagroso (pai divino, mãe mortal); ele dá desde cedo, ainda na infância, demonstrações de seu poder, de sua habilidade, de sua força; costuma também se libertar do meio em que foi gerado, encontrando um deus ou um mestre que o orienta; passa por provas públicas (ameaças externas), lutando para adquirir o controle da sua vida interior, o mais difícil, já que sempre o ameaça a tendência ao descomedimento (hybris), ao descontrole interno, à passionalidade, que podem provocar a sua perdição e finalmente a sua morte. 

Sabemos que nos mitos o herói simboliza uma proposta de elã evolutivo, proposta que se traduz, para o homem comum, numa tomada de consciência de seu ego individual, sempre uma busca de autoconhecimento. Esta busca termina quando o homem alcança a sua idade madura. Há, contudo, nos mitos, um tipo de herói que se recusa a se submeter às provas públicas para assumir aquilo que deve lhe caber essencialmente, o desempenho da função guerreira (matador de monstros e de inimigos), o que na cultura ocidental representa a base de seu valor pessoal. 

Essa recusa significa a permanência em estágios de vida primitivos, uma renúncia à vida afetiva, um desenvolvimento precário sob o ponto de vista psíquico. Dá-se, em inglês, o nome de trickster a esse tipo de herói, muito comum em várias culturas (Jung usa essa grafia). Devo lembrar, contudo, que a palavra inglesa trickster e o seu correspondente francês triche (engano, trapaça) vêm do verbo latino tricari, com o sentido de trapacear, dissimular, enganar. O Trapaceiro é um tipo cujos apetites físicos se impõem na sua conduta, tem mentalidade infantil, vive apenas para satisfazer as suas necessidades mais imediatas e primárias, costumando ser cruel, insensível, cínico. Uma das formas sob a qual esse herói se esconde é a da raposa, animal que simboliza a esperteza. Esse herói pode às vezes participar de provas, demonstrando até valores superiores. Suas vitórias dependem sobretudo de sua habilidade, da sua astúcia, de sua rapidez, podendo inclusive vencer gigantes (Ulisses, vencedor de gigantes, é um trickster). O que estas ideias nos revelam é que a psique individual se desenvolve a partir de uma fase pueril. Por isso, é comum que  adultos psicologicamente imaturos sonhem muitas vezes  com imagens dessa primeira etapa. 

ILUSTRAÇÃO DE 1906
Lembremos que a expressão “síndrome de Peter Pan" foi popularizada a partir de 1.983 pela Psicologia para designar adultos de pouca ou nenhuma maturidade. Em Neverland, nos jardins de Kensignton, Peter Pan nunca fica triste: Eu sou a juventude, a alegria, eu sou o pássaro que rompeu a casca do ovo. Ele quer permanecer sempre uma criança para poder se divertir, um símbolo, enfim, da infância da qual o homem adulto conserva uma nostálgica lembrança.

Os mitos dos heróis, como sabemos, embora variem muito, têm estruturas semelhantes. Há invariavelmente um nascimento milagroso (pai divino, mãe mortal), as demonstrações logo na infância de seu poder, de sua força, a libertação do meio em que surge, o deus ou o mestre que o orienta, as provas públicas (ameaças externas), a conquista do poder, a luta contra o seu descomedimento (ameaças internas, a hybris), as suas tendências passionais, as traições que podem provocar a sua perdição e finalmente a morte

No mundo latino, a constelação de Gêmeos recebeu nomes que derivavam tanto de Leda como de Tíndaro (o pai mortal): Ledaei Fratres, Ledaei Juvenes, Ledaeum Sidus, Pueri Tyndarii, Tyndarides, Tyndaridae Sidae. Marcus Manilius a chamou de Phoebi Sidus, considerando-a como protegida pelo deus Febo (Apolo). Dante Aleghieri chamou a constelação de Nido di Leda. O poeta inglês John Milton a chamou de Spartan Twins. Os árabes lhe deram o nome de Al Tauaman, os Gêmeos. Os persas, Du Paikar.
RÔMULO  E  REMO ( P.P.RUBENS )
Os caldeus, Tammech. Astrônomos latinos associavam a constelação de Gêmeos à história de Remo e Rômulo, os gêmeos, filhos da vestal Reia Silva e do deus Marte. Conta o mito que o avô (Numitor) lhes deu uma área no monte Palatino para que nela fundassem uma cidade. Cada um deles levantou edificações, recebendo a constelação por isso o nome Pilares de Tijolos. Na antiguidade romana, a constelação também foi representada por duas estrelas posicionadas acima de uma embarcação, emblema protetor de Roma por determinação de Júpiter. Os dois gêmeos aparecem em muitas moedas cunhadas em Roma, ora como duas estrelas sobre a referida embarcação, ora como dois jovens cavaleiros, ora como recém-saídos de um ovo partido. 

SANTELMO
Nos Atos dos Apóstolos, lemos que os gêmeos aparecem ligados à história do navio que São Paulo e seus companheiros tomaram quando do naufrágio que os levou à ilha de Malta. Os Dioscuros são citados como protetores da navegação com o nome de Santelmo ou Fogo-de-Santelmo, pequena chama, causada pela eletricidade atmosférica, que aparece ocasionalmente na extremidade dos mastros e das vergas dos navios ou nos filamentos dos cabos, durante as tempestades.


COSME  E  DAMIÃO
No mundo católico, relacionada com o signo de Gêmeos, encontramos também a história dos irmãos Cosme e Damião. Para os autores católicos que a relataram, os nomes significam, respectivamente, pureza (Cosme) e timidez, mansidão (Damião), retirado estes sentidos, quanto ao segundo, da palavra damo, corça, gamo. Nascidos na Ásia Menor (antiga cidade de Egeia), foram instruídos nas artes médicas e se dedicaram à cura de seres humanos e de animais, gratuitamente. Eram conhecidos pelo nome grego de anargiras, avessos ao dinheiro. Pouco se sabe deles, mencionando-se apenas que teriam morrido como mártires na Síria, no ano de 300 dC.

Aos poucos, a história dos dois irmãos se espalhou pelo Egeu oriental, passando eles, a partir do séc. V dC, a ser venerados como médicos dos pobres, escolhidos desde então como patronos dos profissionais da área (confrarias), celebrando-se em 26 de setembro as festas em sua homenagem. Alguns estudiosos defendem a tese de que Cosme e Damião nunca existiram, sendo sua história, no mundo católico, tão somente uma versão do mito grego dos Dioscuros.  

ASCLÉPIO
Segundo a lenda propagada, Cosme e Damião teriam empregado, adaptando-a, uma técnica de cura, a incubatio, muito utilizada no centro médico de Epidauro, pelos sacerdotes-médicos do santuário do deus Asclépio. Esta técnica consistia em fazer com que os pacientes pernoitassem numa igreja para que, induzidos ao sono, recebessem, através de sonhos, mensagens do santo tutelar da igreja que os orientaria no sentido da obtenção de sua cura.


IBEJIS
Nas religiões afro-brasileiras, Cosme e Damião são sincretizados como entidades infantis, os Ibejis, gêmeos amigos das crianças. Divindades dos iorubás, os Ibejis (ibi, nascimento, e eji, dois), são os protetores naturais de todos os
MACACO  COLOBO
gêmeos. No complexo e riquíssimo simbolismo dos cultos afro-brasileiros, os Ibejis são representados de diversos modos. Uma das suas mais fabulosas associações simbólicas é feita com o macaco colobo, cujo comportamento o transforma numa figura emblemática mística dos referidos cultos dos Ibejis. 


COROA   BOREAL
Entre os celtas, a constelação de Gêmeos era visualizada nos céus através dos irmãos Dylan e Lleu, filhos da deusa Arianrod (círculo de prata). Faziam parte do panteão celta insular (Irlanda e Grã-Bretanha), cuja mãe era a deusa Danu, que tinha por marido o deus Bile, uma espécie de Dis Pater dos latinos.  Um dos filhos do casal era Gwydion, deus civilizador, dispensador das artes e benfeitor. Unindo-se à sua irmã Arianrod, divindade tutelar da constelação da Coroa Boreal, ele a fez, a contragosto, mãe dos gêmeos Lleu ou Lug e Dylan, representantes dos poderes da luz e das trevas. 

AHURA  -  MAZDA
Os povos da antiga Pérsia projetavam nos céus o conflito entre a luz e as trevas através dos deuses Ahura-Mazda e Ahriman. A história começa quando, antes de Zaratustra (reformador religioso), a principal divindade do país era Mithra, que aparecia também como Ahura, divindade guerreira sem rival. Com as conquistas dos aquemênidas, poderosa tribo, a figura da divindade suprema toma o
MITHRA
nome de Mazda (sabedoria, um misto de mada, entusiasmo orgiástico, bebedeira, mais mastim, iluminação). Mazda se tornou uma divindade dispensadora de poderes transcendentais. Aos poucos, cunha-se a expressão Ahura-Mazda para designar essa divindade suprema. 


ZARATUSTRA
( R. DE SANZIO , 1483 - 1520 )
Com a reforma religiosa de Zaratustra (séc. VI aC), implanta-se o Mazdeísmo. Pela fusão de seus dois nomes, Ahura-Mazda se transforma em Ormazd. Como polo oposto, seu irmão gêmeo, temos Ahriman. Ambos são filhos de Zurvan, deus do tempo. O primeiro representa a vida, a verdade, a luz; o segundo, a morte, as trevas, a mentira. Eles se definem pelo seu antagonismo. O primeiro é um anti-demônio; o segundo, um anti-deus. O mundo real é produto da luta entre os dois. 

O ego sempre luta para tomar o caminho da luz, seja por iniciativa própria (vontade) como por pressões sociais por questões de sobrevivência da sociedade. Já a sombra, o nosso lado oculto, representa os valores que reprimimos ou que recusamos a admitir. O lado sombrio em Gêmeos está sempre procurando interferir no lado luminoso, penetrando na luz, razão esta que nos leva muitas vezes a considerar o geminiano como volúvel, inconsistente e potencialmente traiçoeiro, pouco confiável. 


HELENA
(MORGAN , 1898)
Não é possível também deixar de considerar, quando nos aproximamos de Gêmeos, os componentes femininos do signo. Esta influência encontra explicação no fato mitológico de fazerem parte os Dioscuros, na realidade, de um todo quádruplo, pois são irmãos de Helena e de Clitemnestra. A primeira é filha de Zeus e de Leda, é bela, belíssima, é o que os gregos denominavam symbolon por integrar na sua personalidade a totalidade das forças geradoras do feminino. Ela sintetiza vários arquétipos femininos que estão presentes nas mulheres de todas as épocas. Helena é rainha, mulher fecunda, esposa, adúltera, ardilosa, consciente, bela, apaixonada, vítima de sequestro, dominadora de homens, prostituta. Helena é a mulher atemporal do mundo ocidental na sua caminhada de quase três mil anos desde Homero.   Por sua beleza e por sua
CLITEMNESTRA
( J. COLLIER, 1882 )
origem divina, Helena tornou-se, em várias correntes místicas da antiguidade, a personificação de um feminino espiritualizado que desceu dos céus, passando a viver no plano terrestre, mas conservando os traços do seu esplendor original. Clitemnestra, por outro lado, é uma figura  sombria, uxoricida,  violenta, voluntariosa, mais “humana”, mais forte, diante da outra. A dualidade entre ambas é notável. Helena é divina, Clitemnestra é conduzida apenas por seus desejos e paixões. Consideradas, porém, individualmente, ambas produzem destruição, catástrofes, morte.

O nome Helena parece se originar do grego hellé, esplendor luminoso, solar. A esse nome se juntam nomes como Nephele, Helle (deusa marinha) e Selene (a Lua) para formar o campo semântico de Helena. Nephele é nuvem, neblina, neblina matinal, cujo correspondente latino é nebula, névoa. Há que considerar
HELLE ,  FRIXO  E CARNEIRO
ainda o verbo hedzesthai, sentar, pousar, como a neblina matinal se deposita sobre a terra. Nephele é o nome da mãe de Helle, irmã de Frixo, personagens que participam do mitologema do Velocino de Ouro. Ao ser transportada com o irmão pelo Carneiro divino para a Cólquida, Helle caiu no mar, um estreito entre a Europa e a Ásia. O lugar recebeu o nome de Mar de Helle (Helesponto). Helle foi salva pelo deus Poseidon, que a fez sua mulher e com ela teve três filhos. Divinizada como uma deusa do amor, Helena deu nome a uma corbeille na qual se colocavam, à guisa de oferendas a Selene “objetos que não se deviam mencionar” (símbolos fálicos).  

ELECTRA, ORESTES, CLITEMNESTRA
( CERÂMICA  ANTIGA )
Já Clitemnestra vem de duas palavras (klytos, célebre, e mnestor, recordar, não esquecer) que juntas significam “a que é famosa por não esquecer.” É a filha mortal de Tíndaro. Personalidade altamente problemática, tendo uma relação marital complicadíssima com Agamêmnon, rei dos aqueus, a quem assassinou, auxiliada pelo amante, Clitemnestra foi assassinada pelo filho Orestes, encorajado pela irmã Electra. O assassinato de Clitemnestra foi executado por Orestes por determinação de Apolo, o deus patriarcal por excelência. 

A polaridade geminiana é invariavelmente considerada só sob o ponto de vista masculino. Deve-se isto provavelmente ao fato do signo ser masculino, ativo, aéreo, ligado ao arquétipo do pensador de Jung. O complexo do puer aeternus conforme a psicologia profunda o encara, de “eterna juventude”, é masculino. O feminino de puer (menino, jovem) é puella (menina adolescente, moçoila). A manifestação deste complexo (masculino ou feminino) é muito comum em alguns signos astrológicos, sendo inegavelmente mais forte a sua presença nos tipos geminianos. Há muitos casos no mundo feminino de geminianas atacadas por este complexo (puella aeterna), casos esquecidos, que a Astrologia não pode esquecer. 



A constelação de Gemini vai hoje de 1º a 23º de Câncer. Segundo Ptolomeu, as estrelas que estão nos pés da figura têm características mercurianas e venusianas (moderadamente). As brilhantes estrelas na coxa  são saturninas. A estrela alfa de Gemini é Castor, a 19º 33´ de Câncer. Ovídio chamava esta estrela de Eques, isto é, o mortal gêmeo cavaleiro, filho de Tíndaro. É oportuno lembrar que até o início da era cristã, do período helenístico para o período romano da história grega, esta estrela recebia o nome de Apolo, uma divindade diurna. No Egito, como já se disse, Castor, como estrela da manhã era chamada de Horus, sendo Seth o seu nome vespertino, noturno (Polideuces). 


OVÍDIO
Na Índia, os nomes eram Buddha e Rauhinya. Os babilônicos usavam Castor para marcar a sua décima primeira constelação eclíptica. Polideuces (Pólux), estrela beta, está a 4º 05´ de Castor, isto é, na longitude 23º 38´ de Câncer.  É chamada por Ovídio de Pugil, isto é, O Pugilista, o gêmeo imortal, filho de Zeus. Ptolomeu afirmou que a estrela chamada Apolo (Castor) era como Mercúrio, enquanto Polideuces, por ele chamada de Hércules, era semelhante ao planeta Marte. 

O que devemos reter hoje sobre estas duas estrelas é que elas são produtoras de alternância, de polaridades, sendo encontradas muito ativas no mapa de muitos escritores (James Joyce, John Lennon,
JEAN   COCTEAU ( 1889 - 1963 )
Lewis Carrol, Charles Dickens e outros) que “misturam” o bem e o mal em sua vida e seus  textos tendo em vista uma proposta de integração, de busca de uma totalidade, sempre difícil, para não dizer impossível. Se Castor prepondera, o lado luminoso costuma ser mais enfatizado, trazendo mais agitação (Jean Cocteau é um exemplo). Se Polideuces se impõe, há consciência do conflito entre os dois, há mais angústia, questões filosóficas. Um geminiano deste último tipo é, por exemplo, Jean-Paul Sartre.


Alhena, a 8º 24´ de Câncer, é a estrela gama de Gêmeos. Está situada no pé do irmão que está ao sul. O nome vem do árabe Al Hanah, palavra que sugere uma ideia de ferimento, sendo
PTOLOMEU
conhecida pela expressão “O tendão de Aquiles”. A sua natureza para Ptolomeu é de Mercúrio e Vênus (moderada). Os árabes a designavam por uma palavra que significava “marca”. “cicatriz“ (ferro quente). Esta estrela, entre os egípcios, representava uma marca divina deixada na terra, algo como a pegada de um deus. Um toque sagrado, pois, que pode significar orgulho, excesso de determinação. Entre os judeus, era a marca divina imposta a Caim, marca que o livrou de ataques e agressões, mas, por outro lado, tornou-o símbolo de uma eterna peregrinação até o final dos tempos. Alhena pressupõe a ligação a uma causa, a um destino, uma ideia de algo a ser seguido apesar de todas as adversidades (um ferimento, por exemplo). As metas podem ter uma tradução física (nomadismo, significado acidental pelo signo oposto) ou intelectual, segundo as relações da estrela com os planetas do mapa. Wasat (O Meio, em árabe) é a estrela delta, hoje a 17º 48´ de Câncer, de natureza saturnina. Pode expor a violências e a perigos (produtos químicos, gases e venenos). As demais estrelas de Gêmeos não têm importância astrológica. 

                        

sábado, 14 de novembro de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (6)





Para entender a mitologia dos romanos é preciso levar em consideração que no seu corpus estão presentes, mais do que em qualquer outra, muitas e diversas contribuições. Podemos falar numa espécie de mosaico no qual reconhecemos a participação etrusca, albana, sabina, grega, síria, persa, egípcia e obviamente a romana, em proporções variáveis. Diante da complexidade e da variedade das mitologias grega e oriental, por exemplo, a mitologia romana não faz boa figura.

CESAR
Mais práticos, menos sonhadores, menos imaginativos, os romanos sempre procuraram elaborar um sistema mitológico que atendesse às suas necessidades. Seus deuses eram, no geral, extremamente protetores e por isso eles eram “pagos” por seus serviços. Nada de muito misticismo, de reverenciar potências que pouco ou nada tinham a ver com a sua segurança, com a sua organização político-social, com o seu progresso material. Se os deuses falhassem, nada de “pagamentos”. Como máximas religiosas os romanos tinham expressões como estas: do ut des (só te dou se me deres) e Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (separação entre Estado e Religião).


DEUSES   ROMANOS

Cada povo com o qual os romanos entravam em contacto, através de conquistas ou do comércio, contribuía de algum modo para aumentar o panteão romano, embora por séculos, até o início da era cristã, a sua estrutura tivesse conservado muitos aspectos inalterados. Para melhor entender o panteão romano é preciso salientar que a religião praticada era extremamente formal, fixando-se as cerimônias e os ritos de modo bastante objetivo, pouca importância se dando a componentes espirituais. Havia uma espécie de trato entre os deuses e os romanos e tudo era feito para que essa barganha desse certo, cada parte procurando cumprir o que lhe cabia. Deuses que não cumpriam a sua parte eram sumariamente afastados do panteão romano, os cultos fechados, colocando-se, sempre sob o patrocínio do Estado, outra divindade que, supunha-se, oferecesse melhores resultados.

Outro aspecto importante: a religião romana sempre foi um assunto externo, comunitário, pouco tendo a ver com a interioridade das pessoas. Se no início a vida religiosa se centrava na família, à medida que Roma foi crescendo (e isto se deu rapidamente), este centro se deslocou para a cidade, para o Estado e, finalmente, para o Império.

Como sempre acontece, as primeiras elaborações religiosas de qualquer povo têm um caráter animista, falam de imanência. Os romanos não fugiram desse modelo. As divindades eram espíritos impessoais que animavam tudo, que moravam nos raios, nas rochas, nos rios, no mundo animal, na vegetação dos campos, nos mares, nas nuvens, nos astros. Tanto podiam ajudar como prejudicar, dependendo de como fossem tratados. Eram os numes, nem bons nem maus. As religiões foram criadas para se negociar com eles.



FAMÍLIA   ROMANA

Os negócios eram a princípio conduzidos pelo pater familias, quando Roma não passava de um aglomerado de pastores e de agricultores. Depois, quem os assumiu foi o chefe da comunidade, o rex, assessorado por por grupos que se especializaram nessa intermediação, gente entendida em rituais, cerimônias, cada vez mais complicadas.

Aos poucos esses assessores foram adquirindo um poder cada vez maior, estabelecendo a maneira “correta” de se procurar o contacto com as entidades superiores. De comum acordo, o rex e esses assessores ajustaram a sua conduta para que os negócios do Estado não fossem prejudicados. Esses assessores dividiam-se em dois grupos: os pontífices e os áugures, os primeiros especialistas em legislação religiosa e os outros mestres na decifração dos augúrios.



SANTO   AGOSTINHO


À medida que Roma crescia, o número de numes também aumentava, os colégios sacerdotais se tornavam cada vez maiores. Não é por acaso que Santo Agostinho, fazendo a defesa do cristianismo (centralização religiosa, altamente conveniente ao Império), ridicularizava o número de divindades romanas reverenciadas principalmente pela gente do campo.


A   ETRÚRIA   EM   750   AC




HEPATOCOSPIA

Com os etruscos (a Etrúria correspondia mais ou menos à Toscana de hoje), os romanos aprenderam a arte da profecia e da adivinhação, a decifrar os fenômenos atmosféricos, a observar o voo dos pássaros, as entranhas de animais sacrificados (hepatoscopia). Foram inclusive os etruscos que possibilitaram aos romanos o contacto com os deuses gregos, adotados em grande parte.

Os romanos não tinham nenhum problema com a incorporação de divindades estrangeiras ao seu panteão. Isto nunca significou, porém, o abandono da reverências aos antigos numes, sempre honrados, principalmente pelas camadas populares. Num cenário como esse não foi difícil que uma vertente importante da religião romana se fixasse no culto ao próprio imperador, o pontifex maximus, que administrava, em última instância, as relações entre o povo e as divindades.


CIBELE  -  FONTE   EM   ROMA

Não se pode esquecer também a contribuição de correntes filosóficas gregas, como o epicurismo e o estoicismo para a
MITRA
religião dos romanos, bem como a grande influência de religiões orientais, como os cultos de Cibele, Grande Mãe da Anatólia, deusa da fertilidade, de Mitra, divindade persa, que dividia o mundo entre bons e maus. A última das correntes orientais que disputou o já degradado patrimônio greco-romano foi o cristianismo. No terceiro séc. dC, o poder imperial estava minado por dentro, corrupção, lutas de poder etc, etc. Difícil segurar, por outro lado, as ondas de bárbaros que continuamente atacavam as fronteiras europeias e orientais do império.


Do terceiro para o quarto sécs. dC, o povo romano, desiludido e desgostoso com a política imperial, começou a aceitar a nova seita oriental, o cristianismo, uma nova moda, como aceitara os adivinhos etruscos, os deuses olímpicos gregos, os oráculos sibilinos, os filósofos gregos, os cultos da fertilidade da Ásia Menor e o radicalismo maniqueísta persa. Por volta do quarto século, proclamava-se abertamente em Roma que era perfeitamente possível a uma pessoa ser ao mesmo tempo um bom romano e professar o cristianismo.

Os deuses romanos eram classificados em duas grandes categorias, os itálicos e os importados, ou os indígites (endo + agere, os que agem a partir de dentro), deuses autenticamente nacionais, e os novênsiles, deuses estabelecidos recentemente, vindos do exterior, importados. Cabível ainda a distinção entre divindades protetoras do Estado e as protetoras da família. O pater familias exercia no ambiente familiar um verdadeiro sacerdócio, ao cuidar dos manes (almas dos mortos) e dos penates (divindades da casa), função tão importante como a dos sacerdotes que se dedicavam ao culto das grandes divindades como Júpiter ou Janus.


MAGNA   GRÉCIA


As maiores influências sofridas pela mitologia romana vieram da Grécia, indiscutivelmente, e depois dos etruscos. Lembremos que a fundação de Roma é do séc. VIII aC (753) e que os gregos já estavam instalados na Sicília e na Itália meridional desde essa época, dando-se o nome de Magna Grécia aos territórios ocupados pelos helenos.

ZEUS
Encontramos no nome de Júpiter raízes indo-europeias (di, div), radicais que correspondem à ideia de luz, brilho, de claridade, as mesmas que temos no  Zeus grego e no Dyaus dos indianos, no mundo védico. Para a formação do Júpiter romano não podemos esquecer a contribuição etrusca. O Júpiter etrusco chamava-se Tinia e exercia o seu poder através de advertências e castigos, possuindo para isto três raios. O primeiro ele lançava à guisa de advertência, por iniciativa própria; para lançar o segundo, também premonitório, ele devia contudo obter o consentimento dos doze deuses consentes ou cúmplices. O terceiro raio era o da punição, que só podia ser lançado com o assentimento dos deuses superiores, os dii superiores ou involuti, que agem obscuramente. Deste Júpiter etrusco podemos aproximar Summanus, outro deus etrusco do raio, que presidia o céu noturno.

O Júpiter romano é sobretudo o deus da luz (Sol e Lua) e dos fenômenos celestes, ventos, chuvas, tempestades, relâmpagos. Daí seu culto se ter também grandemente desenvolvido entre as populações do campo, camponeses, agricultores, pastores. Muitos de seus nomes correspondem a estas atribuições, Jupiter Lucetius, deus da luz; Jupiter Elicius (elicere, o que faz sair, o que retira), deus que faz a chuva sair das nuvens; Jupiter Liber, divindade das forças criadoras; Jupiter Dapalis, que governa as sementeiras (dapalis é refeição de sacrifício, suntuosa); Jupiter Terminus, que vela sobre as fronteiras dos campos (plantações).


  JÚPITER   CERCADO   POR   DEUSES  ( CÚPULA   DA  ASSEMBLEIA  -  ROMA )


Com a urbanização, Júpiter perdeu rapidamente as suas funções ligadas à agricultura para se transformar na grande divindade da cidade e do Estado. Assumiu as funções de deus guerreiro, Jupiter Stator (que prende os desertores), Feretrius (que colhe os frutos), Victor (vitorioso), de simbolo das grandes virtudes da justiça, da boa-fé da honra, de protetor das juventude. Torna-se, em suma, o grande protetor do Império: Jupiter Optimus Maximus. Ao seu nome se acrescentam títulos solenes: Conservartor Orbis, Conservator Augustorum, Propugnator (defensor, combatente), Sospitator (salvador), Tutator (protetor), Custos (guardião). Mesmo títulos menos solenes lhe são dados. Pistor (Padeiro) é nome que lhe é dado em função de um acontecimento histórico importante: Júpiter aconselhou os romanos quando, cercados pelos gauleses no Capitólio, a lançar pão por cima das muralhas para indicar aos inimigos que a fome era algo que não lhes preocupava. Tinham tanto pão (o que era mentira) que podiam até jogar fora o excesso.



PALÁCIO   DO   QUIRINAL  -  SÉCULO  XVI

O culto de Zeus era universal na Itália. Ele possuía no Quirinal um templo muito antigo. O Quirinal era nome derivado de um deus sabino, Quirinus, honrado numa colina ao norte da cidade. Ali se encontram vestígios do fórum de Trajano e das termas de Constantino. Mais tarde, no séc. XVI, ali foi construído um palácio (Quirinal) para ser a residência de verão dos papas. A partir de 1870, tornou-se a residência dos reis da Itália. É atualmente a residência do presidente da república, um edifício muito enriquecido com obras de arte. O templo de Júpiter no Quirinal chamava-se Capitolium Vetus, formando ele uma tríade com Juno e Minerva. Júpiter tomava o nome de Optimus Maximus ao formar essa tríade.


MERCADO  DE  TRAJANO  NAS  ENCOSTAS  DO  PALÁCIO  QUIRINAL - SÉCULO II DC

Era sob a tutela de Júpiter Capitolino que os senadores se reuniam quando tinham que decidir sobre as declarações de guerra. Os generais, obrigatoriamente, antes de partir para as suas campanhas militares e depois delas vinham lhe oferecer uma coroa de ouro e parte dos despojos conquistados.


TEMPLO   DE   JÚPITER   CAPITOLINO  ( GRAVURA   ANTIGA )


O templo de Júpiter Capitolino, rico e suntuoso, erguia-se, segundo
RÔMULO  E  REMO
Vergílio narra na
Eneida, no Capitólio, colina anteriormente coberta de carvalhos, lugar mítico, onde a loba teria amamentado Rômulo e Remo. Nessa região, antes do poder romano se firmar sobre os povos vizinhos, honrava-se o chamado Jupiter Latiaris, Lacial, de caráter ctônico, infernal.

Como deus da luz, eram consagrados a Júpiter os Idos de cada mês (dia que divide o mês em dois, dia 15), festas da Lua cheia, quando o céu se iluminava completamente. Nessa data, seu sacerdote, o Flamen Dialis, o sacerdote de Júpiter, oferecia-lhe uma ovelha branca.

Como deus tutelar da Justiça, do Direito, da Lealdade Jurada e Protetor do Estado, Júpiter presidia as relações internacionais de Roma através do Collegium Fetialium (Fecial: membro de um colégio de 20 sacerdotes, encarregados de declarar guerra conforme ritos muito precisos e de tutelar a redação de tratados). Os juramentos e os tratados eram, para os romanos, tão importantes que eles os gravavam em tábuas de bronze, depositado-os no templo de Júpiter Capitolino.

AUGUSTO
Os imperadores sempre procuraram se colocar dentro da aura emanada por Júpiter. Augusto, por exemplo, se vangloriava de ter sonhos enviados diretamente pelo deus. Por ter sido salvo milagrosamente de um raio, Augusto mandou erguer em homenagem ao deus um templo, o de Jupiter Tonans. Calígula exagerou: acrescentou a seu nome dois apelidos de Júpiter, Optimus e Maximus.


TARQUÍNIO
Celebrava-se em honra a Júpiter, no circo romano, os jogos anuais,os chamados Ludi Romani, cuja instituição é atribuída a Tarquínio, o Antigo. Os pontos altos destes jogos eram os concursos atléticos e as corridas de carros. Ao lado dos Ludi Romani havia os Ludi Plebeii, nos quais se realizavam corridas (pedestrianismo) e jogos cênicos.

As imagens de Júpiter são grandemente inspiradas na estatuária grega. Há um Júpiter, porém, o chamado Jupiter Volsco (volscos, um povo do Lácio), que apresenta uma peculiaridade inusitada: é representado sob uma aparência bastante jovem e imberbe.

Para entender  o Júpiter romano é preciso fazer referência à sua esposa imperial, Juno, sua irmã também. De início, diga-se que
DIANA
Juno, ligada a Júpiter, já era encontrada entre os sabinos, os oscos, os latinos, os etruscos e os umbros. Seus nomes mais antigos: Lucina, Lucetia, correspondentes às suas principais atribuições. Juno Lucetia é o princípio feminino da luz celeste, da qual Júpiter representa o princípio masculino. Como Júpiter também, ela é uma divindade lunar, aparecendo como tal sempre associada a Diana.


Deusa da luz, ela é, por extensão, deusa dos partos, relacionando-se sempre a ideia de luz aos partos. Juno Lucina, também. Nesta condição, ela ocupa um papel muito grande nas cerimônias matrimoniais (tornar a mulher mãe) e nas suas consequências. Adquire assim nomes como o de Juno Pronuba, aquela que cuida dos ritos do casamento, que acompanha o casamento; Juno Domiduca (domus + duca, conduzir à casa; Júpiter também tinha o apelido de Domiducus), aquela que conduz a esposa à casa do esposo e a auxilia a transpor a porta de entrada; Juno Nuxia (nux é todo fruto com casca dura, amêndoa; o casamento punha fim, nuces relinquere, aos jogos da infância, às brincadeiras juvenis com amêndoas etc.) é aquela que perfuma a entrada da casa do esposo.

Juno Cinxia (cinctus, cinto) é aquela que desfaz o nó do cinto da virgem esposa. Mais tarde, Juno Lucina protegerá a gravidez da esposa, fortalecerá os ossos da criança, como Juno Ossipago, fará da mãe uma boa nutriz, Juno Rumina (Ruminal era o nome da figueira ao lado da qual Remo e Rômulo receberam o alimento, o leite; por essa razão, Júpiter será também chamado de Ruminus, o que alimenta. Como deusa dos nascimentos, dos partos, Juno era muita reverenciada por mulheres estéreis. Foi Juno Lucina quem livrou as mulheres sabinas vitimadas pela esterilidade por causa de seu rapto. Juno Lucina era o grande modelo das matronas romanas.

Juno não velava só pelas mulheres romanas. Ela também incentivava a procriação nos países dominados por Roma, como Juno Populonia. Sob o nome de Martialis, mãe de Marte, ela estende sua proteção ao aspecto fecundante masculino, recebendo o apelido de Caprotina. Como protetora da cidade e do povo, Juno tomava o nome de Moneta, que tem o significado de a que avisa, a que adverte, do verbo monere, advertir, inspirar. O nome Moneta foi dado à deusa porque seus animais, os gansos, advertiram os romanos quando, de certa feita, os gauleses estavam escalando as muralhas da cidade. Noutra oportunidade foram eles que advertiram os romanos quanto a um iminente tremor de terra. Mais tarde, a administração da cidade instalou perto do templo de Juno a sua Casa da Moeda, passando a deusa também a estender sua proteção, como Moneta, à fabricação das moedas.


TRÍADE   CAPITOLINA

Dentre as grandes festas celebradas em homenagem a Juno destacamos as Matronalias, celebradas pelas matronas no mês de março, num bosque sagrado no Palatino, e transferidas depois para as casas das famílias, nelas pontificando a mãe da família, sempre honrada, recebendo presentes do marido, sendo admitidos os escravos à mesa. O título de Regina foi dado a Juno quando passou a fazer da Tríade Capitolina. Nessa condição, ela tinha nas mãos um cetro de ouro, uma patera e um raio. Ao lado do marido, seu poder se estendia assim a todo o império.




terça-feira, 4 de março de 2014

A FIGUEIRA

 
FICUS BENGHALENSIS

  
A oliveira, a vinha e a figueira são as três mais importantes expressões do mundo vegetal nas antigas sociedades mediterrâneas. As três estão ligadas ao cotidiano dessas sociedades, fazendo parte da sua economia, da sua alimentação, dos seus costumes, da sua medicina popular, dos seus mitos e lendas, das suas crenças religiosas.

 Há uma vasta literatura sobre as duas primeiras, ligadas de modo especial ao mundo greco-romano, sobejamente
BÉRBERE - MARROCOS
conhecida. Já quanto à figueira, embora  também faça ela parte da cultura ocidental, pelos motivos acima expostos, pouco se sabe dela,  como árvore-símbolo dos povos do norte da África. O que vai nos interessar mais neste trabalho é o levantamento de algumas questões que, longe de esgotar o assunto, possam nos ajudar a entender como essa árvore se tornou tão importante para muitas civilizações do mundo antigo, especialmente sob o ponto de vista religioso. 



ÁFRICA COM O NORTE EM DESTAQUE


As figueiras são conhecidas também como ficus, calculando os botânicos que no mundo todo haja cerca de oitocentas espécies dessa árvore, especialmente em regiões de clima tropical e subtropical. Os frutos da figueira, além de muito consumidos pelos seres humanos, fornecem alimento para aves, símios e peixes (frutos caídos na água). O fruto da figueira mais consumido em todo o mundo é o proveniente da Ficus Carica, assim designada porque se supõe que seja a Cária a região de sua origem. A Cária (etimologicamente, país montanhoso) estava situada no noroeste da Ásia Menor. Colônia fenícia, foi helenizada pelos dóricos e depois tomada pelos persas, passando depois para o poder romano no início de nossa era.  





Conhecida desde o período neolítico, a figueira sempre foi considerada como a árvore da generosidade e da abundância em virtude de suas virtudes protetoras, fecundantes e regeneradoras. Um dos primeiros povos a nos
revelar os segredos da figueira foi o egípcio, interessado inclusive por técnicas de seu cultivo (arboricultura), principalmente sob o ponto de vista frutífero e do aproveitamento do seu lenho,  há muito usado para a construção de sarcófagos. Conheciam os egípcios um processo chamado caprificatio através do qual as frutas fêmeas eram polinizadas por um inseto, o blastófago, que abriam nos frutos um orifício para esse fim. Os gregos e romanos também conheceram esse processo, descrito, por Teofrasto, discípulo de Platão,  e pelo naturalista romano Plínio, O Velho.

CLEÓPATRA


Um dos grandes acontecimentos da vida do povo egípcio, aliás, tem relação com os figos, muito apreciados por Cleópatra, a última rainha do país, da dinastia dos Ptolomeus. Consta da sua biografia um episódio, não confirmado historicamente, o de que a serpente (víbora) que lhe picou mortalmente o seio veio escondida num grande cesto de figos por ela pedido à sua criadagem. Uma das espécies mais conhecidas da árvore tem entre os egípcios o nome de figueira dos faraós.


A figueira dos faraós (ficus sycomorus) tem também o nome de sicômoro é árvore muito comum em todo o norte da África, cultivada tanto pelos seus frutos comestíveis e também como planta melífera e ornamental pelas suas flores, sendo inclusive muito útil na tinturaria (tingimento de tecidos). Sua madeira, além de bastante usada para a construção de sarcófagos, como se disse,  é especialmente empregada na confecção de instrumentos musicais e de móveis. 


A origem do sicômoro é explicada pelos gregos por um mito. Os gigantes eram os inimigos naturais dos deuses. Reia,
REIA
esposa de Kronos, mãe dos futuros olímpicos, ao ser ameaçada por um deles, de nome Syceu, o transformou numa árvore, o sicômoro, nome que, em grego, se decompõe: sycon, figo, e moron, vermelho escuro, também amora. Segundo uma outra versão, Syceu foi um dos titãs que salvou Geia, sua mãe, então perseguida por Zeus, quando da titanomaquia (luta entre os titãs e os futuros olímpicos). Siceu fez nascer uma gigantesca figueira para que Geia nela pudesse se esconder. 



Gaius Julius Solinus, gramático e escritor latino (séc. III dC), nos seus deliciosos textos Collectanea Rerum Memorabilium
e Polyhistor, nos informa que a figueira é a principal árvore do Egito. Sua folha, prossegue, é muito parecida com a da amoreira; seus frutos são encontrados tanto nos galhos como no tronco; a árvore nos dá seus frutos sete vezes por ano (sic); mal colhido um, outro começa a despontar no lugar do que foi colhido. A sua madeira, lançada à água, desce ao fundo; depois de um certo tempo, ela volta à superfície. Esta imagem da madeira boiando à superfície das águas foi
usada na arte mortuária (sarcófagos) para representar a dispersão dos membros do deus Osíris nas águas do rio Nilo. Por sua fecundidade excepcional, a árvore era conhecida como a nutriz por excelência dos defuntos na sua viagem para o Amenti (O Outro Lado). Por essa razão, plantavam-na diante dos túmulos para assegurar a proteção ao defunto até a sua apresentação diante de Osíris. 

OSIRIS


Muito procurada pelos amantes, que gostavam de se refugiar à sua sombra, a figueira tem lugar de destaque na poesia amorosa, desde o período pré-dinástico. Os poetas nos informam que, quando ela “fala” (o movimento de sua ramagem), suas palavras são como gotas de mel; sua textura é a da faiança, sendo sua sombra fresca sempre proteção.

NUT E GEB - CÉU E TERRA


Nos Textos das Pirâmides encontramos referências que ligam a figueira à deusa Nut. Como divindade celeste, é ela
RA
que dá nascimento aos astros, que  engole a cada entardecer e os devolve pela manhã. Assim, o lenho da figueira como sarcófago engole o defunto para transformá-lo num novo Osíris. Nos capítulos 109 e 149 do Livro dos Mortos encontramos referências a ela; no primeiro, há uma menção aos espíritos que habitam nas copas dos sicômoros de esmeralda, ornamento dos rios, que deslizam silenciosos. No segundo, se registra que, na sua viagem, Ra (Sol), com a sua barca, passa por dois sicômoros cor de turquesa. 



ÍSIS

Árvore de Ísis, sabe-se que egípcios, além do uso do figo para a fabricação de produtos farmacêuticos, faziam para
FIGOS SECOS
suas cerimônias religiosas uma bebida com eles. Informações dos tempos da dinastia dos Ramsés nos dão a conhecer que enfiadas de figos secos eram servidas em repastos depois de longas viagens. Os figos eram usados também para a engorda de gansos com fim de se preparar o
FOIE GRAS
foie gras
(fígado de ganso gordo) e na arte da panificação. Esta técnica, séculos e séculos mais tarde, muito difundida entre a elite romana, seria passada para os franceses. Luís XIV estimulou grandemente a plantação de figos na região de Versalhes, dos tipos Rouge d´Argenteuil e Dauphine.


POMAR REAL DE VERSALHES

Para uso religioso, os egípcios importaram de uma região do Mar Vermelho, do misterioso País do Punt, sinônimo de paraíso terrestre para eles, sicômoros especiais (nehat) para
FIGUEIRA DE PUNT
a produção de incenso. Estas árvores foram plantadas nos terraços do templo funerário da rainha Hatshepsut, filha de Tutmosis I, “aquela que reinou como um homem”. As figueiras eram particularmente usadas para cercar os templos, formando em torno deles um cinturão de frescor bastante agradável. As Casas de Vida, centros culturais construídos ao lado dos templos, eram também cercadas por figueiras com esse fim. As deusas Hathor e Isis tinham especial predileção pelos sicômoros para as suas manifestações.


TEMPLO FUNERÁRIO DE HATSHEPSUT


Para alguns estudiosos, o nome grego sykon (figo) teria vindo da Fenícia, lá usado para designar o fruto da Ficus Carica, muito consumido. Conhecido há mais de 10.000 anos, sua cultura já estava estabelecida por volta de 5.000 aC no Oriente Médio, espalhando-a os fenícios por todo o Mediterrâneo e propagando-a posteriormente os cartagineses, gregos e romanos. Recentemente, lembremos, arqueólogos israelenses descobriram que o figo já era cultivado na Cisjordânia desde o período neolítico e atestada a sua importância como alimento privilegiado, especialmente quando seco, para ser comido em épocas de escassez alimentar ou no inverno.


Na Grécia antiga, o figo, sempre considerado como um importante alimento (sua exportação era proibida), tinha um status privilegiado (dádiva divina). Aqueles que os contrabandeavam ou roubavam eram conhecidos pelo nome de sicofantas. O nome, inicialmente, foi aplicado aos encarregados de vigiar os frutos; depois, passou a ser usado para designar esse funcionário como  caluniador, porque,
DIONISO
aproveitando-se do cargo, ele fazia denúncias sem fundamento, só por perseguição ou antipatia. Muito apreciado pelos gregos, o figo fazia normalmente parte de sua alimentação diária. Essa importância está inclusive registrada no mito, onde encontramos a história de Syke (o figo), ninfa pela qual o deus Dioniso se apaixonou. Como símbolo da fertilidade, o fruto era muito usado como um dos alimentos consumidos na primeira fase dos Mistérios de Eleusis, a orgia, juntamente com o kykeon, bebida à base de vinho, de caráter enteógeno, que tinha entre os seus componentes certos fungos (mais tarde, usados como base do LSD), conhecidos como alimento dos deuses (broma theon),  que produziam visões fantásticas.



Em algumas passagens míticas, temos informações de que o figo era uma dádiva de Deméter, considerada “tão ou mais importante que o ouro”. Citado na Ilíada e na Odisseia, diariamente consumido, ele era especialmente recomendado aos atletas olímpicos quando concentrados para os agones, já que dava “força e agilidade”. Na medicina, como uma espécie de panaceia, eram famosos os cataplasmas de figo. Platão acreditava na sua origem divina  (dádiva de Deméter) e, como todo grego, era um philosykos, amigo dos figos. Na sua  Academia, sugeria que para melhor filosofar os seus discípulos comessem muitos figos. Para a saúde do corpo eram também recomendados os frutos;   em Esparta, faziam parte, desde cedo, da alimentação da crianças entregues à tutela do Estado. 

ACADEMIA DE PLATÃO


Entre os romanos, a figueira aparece no mito de Rômulo e Remo, encontrados ao pé de uma delas, ali sendo alimentados por uma loba. Inspirado pelos deuses, o pastor Fáustulo os encontrou e os entregou a sua esposa, Aca Larência, para que ela os criasse. À figueira foi dado o nome latino faustulus, tornando-se ela um símbolo político de
RÔMULO E REMO
proteção. Quem nos conta esta história é Plínio, o Velho: o local onde os gêmeos foram encontrados recebeu o nome de Lupercal; no cume do Palatino, berço de Roma, havia uma gruta sagrada onde a loba Luperca amamentou os meninos. O local era conhecido por uma enorme figueira, de nome Ruminal, ao lado da qual borbulhava uma fonte. Rumis era um nome carinhoso dado às mães e popularmente ao seio feminino. Plínio nos informa também que a figueira Ruminal tinha a fama de proteger contra a ação dos raios. 



Os romanos costumavam consumir os figos à mesa, frescos ou como foie gras, e, fora dela, secos. Catão recomendava  que, nessa condição, antes de colocá-los em cestos, era
CATÃO
preciso muito cuidado para que não contivessem nenhuma umidade, livrando-os assim do bolor. Depois de secos, segundo ele, os figos se transformavam num excelente alimento para os humanos e para os animais, servindo de base para muitos produtos medicinais. Plínio falava que o figo era um bom substituto do pão, podendo entrar na ração dos escravos com essa finalidade. A história registrou que Marcus Gavius Agicius, gastrônomo, séc. I dC, introduziu em Roma a técnica de engorda do fígado dos gansos. Chama-se ficatum o fígado da ave assim engordado.  



Catão, o Censor, usou a figueira, por sua resistência e facilidade de propagação, como um símbolo (metáfora) para advertir os romanos do perigo que representava a África, ou melhor, Cartago. Como a figueira, uma “verdadeira praga africana”, a cidade de Cartago resistia bravamente a Roma, afrontando o seu poder. Daí a divisa de Catão: Delenda Carthago, com a qual  encerrava todos os seus discursos diante do perigo que oferecia a cidade púnica. Na origem, punicans, tis, queria dizer vermelho, púrpura. Dela saiu punicus para designar as coisas cartaginesas; por exemplo, punica fides, a má fé, a fé púnica (mercantilismo); punica ars, estratagemas usados pelos cartagineses para enganar, tudo isto, evidentemente, sob o ponto de vista dos romanos. 

MOISÉS (MICHELANGELO)
   
O figo foi um dos tesouros que Moisés prometeu aos judeus quando chegassem à Terra Prometida. A Bíblia nos diz que Adão e Eva esconderam a sua nudez com folhas da figueira depois de terem desobedecido a ordem recebida de não comer os frutos da árvore da sabedoria. Entre os cristãos, a figueira aparece nos evangelhos de Marcos (11:12-14 e 11:20-25)) e Mateus (21:18-22). É conhecida por muitos católicos a Parábola da Figueira Estéril. Segundo muitos estudiosos, Cristo teria usado a figueira como uma metáfora a fim de descrever a aparência externa da nação judaica como algo grandioso (a sua copa, a sua ramagem), mas que deixara há muito de produzir alguma coisa útil para a glória de Deus.   


Assim a figueira, na tradição cristã, tornou-se a árvore do mal, simbolizando tanto a sinagoga, que não reconheceu o Cristo, como todas as doutrinas heréticas. A tradição medieval cristã aproximava o verbo peccare (pecar) da palavra hebraica pag, figo. Considerada árvore da abundância, da fecundidade perigosa e descontrolada, a figueira aparece na Bíblia como a árvore da ciência, sempre perigosa para as questões da fé. Árvore na qual Judas Escariotes se enforcou, sempre maldita, associada a ritos de fecundação, sempre fez parte do universo simbólico das divindades fálicas, Dioniso, Príapo e outras, satanizada por isso pelos cristãos.

EXPULSÃO DO PARAÍSO (MICHELANGELO)


Ao comer os frutos proibidos, Adão e Eva abandonaram o divino. Tentados, pressionados por forças inconscientes que não dominavam (a serpente), acharam, ao comer figos, que podiam adquirir o conhecimento que os igualasse a Deus. Ora, o divino é um mundo ao qual só se pode ter acesso pela fé, nunca pela razão. A figueira, por causa dessa carga de maldição no mundo cristão, foi condenada a dar frutos sem florir. 


A Árvore do Conhecimento, conhecida como a Árvore do
FÊNIX
Bem e do Mal, a grande figueira, estava no Jardim do Éden. Não só Adão e Eva, instigados pela Serpente, comeram os seus frutos; todos os animais da criação comeram-nos também. Só uma ave se absteve, sendo transformada por isso na Fênix, a ave que nunca morre.



 A Árvore do Conhecimento é, como se pode constatar, uma metáfora que admite leituras em várias direções: a) como símbolo da capacidade de discernimento que o homem devia demonstrar diante do Bem e do Mal; b) como uma representação da vida sexual não ligada à procriação, mas tão só ao prazer; c) como uma representação do psiquismo humano; Adão, o consciente, masculino; Eva o inconsciente, feminino. Daí, a relação entre a mulher e a serpente e a culpa atribuída a esta (s) última (s) pela perda do Paraíso; aliás, foi por esta razão que a serpente, nos meios judaico-cristãos, passou a simbolizar o Mal; a sua peçonha foi inoculada, segundo os judeus, em todos os descendentes de Eva, tendo sido, porém, removida do povo de Israel quando a Torá lhe foi transmitida; foi por esta razão também que se atribuiu a paternidade de Caim à serpente e não a Adão; d) uma Ilustração da vida humana que rejeita os valores do mundo natural ao optar pelo luxo, pela concupiscência, pela corrupção da riqueza.  


É do mundo grego que nos vem a sycomanteia (sicomancia) uma forma de adivinhação praticada com as folhas da figueira. Escreve-se um nome numa folha, nome sobre o qual se deseja alguma informação. Se a folha secar rapidamente, o sinal é de mau augúrio. Se custar a secar, o sinal é de bom augúrio. 


Ciência, fígado e fogo se equivalem no contexto semântico
PROMETEU
do mito grego de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos céus (do deus Hélio), trazendo-o escondido no galho oco de uma figueira, e o entregou aos humanos. Por isso, como punição, teve  o seu fígado destruído e recomposto alternadamente por um abutre gigantesco. Destruído durante o dia, o fígado se recompunha à noite quando a pavorosa ave se afastava. A palavra latina ficatum, como vimos, também designa o fígado de ave engordada com figos. 


O nome
SIGNO DE GÊMEOS
Prometeu, por outro lado, etimologicamente o que sabe antes, o previdente, vem de um verbo, manthanein, que tem relação com a produção do fogo pelo atrito de dois pequenos bastões, símbolo, na Astrologia, do signo de Gêmeos, do elemento ar, ligado à vida mental.




Na língua sânscrita, o substantivo manthini designa o ato de se girar bastões para a produção
AGNI
do fogo, da manteiga etc. Já se levantou a hipótese de que Prometeu seria o modelo grego dos sacerdotes que no mundo indo-europeu cultuavam o fogo. Na Índia, esses sacerdotes participavam do culto de Agni, uma das três grandes divindades do fogo no mundo védico (Surya e Indra são as outras). 



Simbolicamente, o fígado, em muitas tradições, sempre apareceu associado ao fogo como sede de paixões com o sentido de morte da alma, como privação de Deus. Esta privação toma aqui também (e em muitas outras tradições) o sentido de excesso, de orgulho mental, que neste
SÃO JOÃO DA CRUZ
sentido, por exemplo, encontramos tanto em São João da Cruz como no mito de Prometeu. Ao receber o fogo de Prometeu, os humanos, ao utilizá-lo somente para a vida mental, para a ciência e para seu subproduto, a tecnologia, para  a enorme produção de bens materiais, perderam a sua dimensão espiritual. O presente de Prometeu, o chamado filantropíssimo, se constituíu nesse sentido numa dádiva e numa maldição. Prometeu, para os humanos, um grande benfeitor, sob o ponto de vista divino, um ser perigoso, um ladrão. A rigor, o titã foi um agente duplo, como expusemos no trabalho “Prometeu, Platão e a Mitologia”,


GASTON BACHELARD
neste blog. 


Acho oportuno lembrar a esta altura que foi o mestre Gaston Bachelard quem fixou melhor para nós a ambígua figura do Filantropíssimo, ao formular o chamado complexo de Prometeu: tendência que tem o ser humano de saber mais do que aqueles que o antecederam, pais, professores, mestres. Esse complexo, como diz Bachelard, ilustra a vontade humana com relação à vida intelectual, tornando-a dependente exclusivamente do princípio da utilidade material Ou seja: o complexo representa a atitude moral que considera como superior tudo o que, sob o ponto de vista utilitário, nos dá mais felicidade. Uma espécie de “aritmética dos prazeres” que tem a finalidade de aumentar cada vez mais o bem-estar material da humanidade.  

HÉRCULES SALVA PROMETEU
     
Punido pelos deuses, Prometeu foi aprisionado nas montanhas do Cáucaso. Ali ficou por muito, tendo o seu fígado destruído e recomposto diariamente, até que Hércules, quando do terceiro trabalho (também neste blog), o libertou. Para um melhor entendimento e uma confirmação do que aqui se expõe, útil a contribuição astrológica. 


O fígado, astrologicamente, tem a ver com o planeta Júpiter, regente do signo de Sagitário. Esse planeta representa os princípios superiores que devem orientar o homem, tanto
FÍGADO
espiritual, como mental e fisicamente. Bem trabalhado, o planeta é generoso, protetor, otimista, sustentador. No corpo humano  tem muito a ver com as propriedades nutritivas e protetoras do sangue. Rege, dentre outras parte e órgãos, o fígado, o baço, a vesícula biliar, a transformação dos açúcares, a atividade química do corpo. Doenças jupiterianas produzem desordens sanguíneas, problemas no fígado, hemorragias, hiperglicemia. Tanto como órgão gerador da vida, de virtudes guerreiras e de coragem, o fígado é, por outro lado, o lugar onde o ser humano deposita sentimentos como a cólera, a dor, o ódio. 


GULA (HIERONYMUS BOSCH)

Palavras como melancolia (melanos, negro, khole, bílis)  atrabiliário (atra, negro, sombrio, mais bilis) e figadal são desse universo. Figadal é o que atinge profundamente; um inimigo figadal nos provoca rancor, faz mal às nossas víceras.
Júpiter aponta para descontroles alimentares, moléstias pulmonares (ação reflexa), impurezas do sangue, adiposidade, obesidade, flatulência etc. Muitos dos problemas de saúde causados por Júpiter estão ligados aos órgãos da nutrição, do metabolismo, da assimilação, da combustão e das reservas. O fígado, nesses casos, deve ser o primeiro a se observar: é o lugar, como se disse, onde depositamos os excessos. A gulodice é um dos pecados capitais dos sagitarianos; abundância alimentar, degustações de pratos ricos, tudo contribuindo para que o fígado receba grandes quantidades de gordura. Não metabolizada, esta gordura vai engrossar a silhueta, produzindo marcas características nos do signo que se descontrolam, ganho de peso, produzindo a chamada obesidade visceral (esteatose, degenerescência gordurosa de um tecido). Um dos males mais comuns em sagitarianos que vivem desse modo é, por isso, a diabetes. No mais, persistindo o desequilíbrio, a bulimia, acessos de hiperfagia etc. Uma das consequências mais notáveis dos excessos sagitarianos é a gota, moléstia provocada por excesso de ácido úrico no organismo, causador de dolorosas inflamações nas articulações. É uma moléstia que vem acompanha geralmente de obesidade, pressão arterial elevada e níveis altos de colesterol (khole, bilis, stereos, sólido). 


Aplicando o princípio da correspondência (Hermetismo) ao que acima se expôs, fica fácil entender porque Sagitário e Júpiter têm a ver com o distante, com as religiões, com as heresias, com a filosofia. Num nível superior, Júpiter, espiritualmente, representa a revelação e a comunicação,  a expansão pela qual a vida instintiva e a vida mental podem buscar um “além-eu” através de vários modelos de transcendência. 


O fogo que Prometeu entregou aos humanos perdeu o sentido da transcendência; veio criando, ao longos dos milênios, ao invés de modelos superiores da inquietação humana,  formas doentias de vida, hoje integradas ao quotidiano (material) das pessoa como busca desenfreada da riqueza, consumismo, nomadismo, esportes radicais, agitação sob o nome de aventuras, desejo de viajar por
BOLSA DE VALORES
nada, degustação de paisagens pitorescas, especulações ruinosas (jogo do dinheiro) sob o ponto de vista econômico, negócios internacionais questionáveis, competições esportivas motivadas pelo lucro, corrupção do espírito olímpico etc. Ao lado de tudo isto, os vícios de sempre, cada vez mais evidentes porque proclamados e divulgados hoje pelas diversas webs: a ignorância pretensiosa, o exagero, a irreflexão, a imoderação, o despudor, a autoindulgência, a falta de sinceridade, a indigência mental, o exibicionismo, o orgulho arrogante e inútil, a fanfarronice. Isto significa nenhum impulso real para se dar à vida um sentido espiritual, nenhuma vontade de se impregnar as questões práticas com alguma forma de idealismo nem de se procurar entender que as formas mais elevadas de transcendência estão nas viagens que podemos fazer para dentro de nós mesmos.  

  

No mundo islâmico, os camponeses consideravam o figo como um fruto sagrado, bendito (baraka). Sua antiguidade está longamente atestada, fazendo, por exemplo, parte do cerimonial das núpcias entre os bérberes (grupo étnico nômade de origem camita que habita o norte da África desde a pré-história) e camponeses, de um modo geral. A 95ª surata (subdivisão do Corão) começa por uma evocação da figueira e da oliveira. O simbolismo da fecundidade da figueira é, contudo, pré-islâmico. É por essa razão que na África do norte a figueira é sinônimo de testículos.


Entre os povos do norte da África, o figo seco é conhecido pelo nome araula, considerado sempre como um alimento
CARAVANA
muito importante, imprescindível para os pastores do deserto, para os trabalhadores braçais ou para qualquer pessoa que trabalhe fora de casa. São usados também os figos na composição da Fakia, (mistura de frutos secos, nozes, passas etc.), consumida nas festas de Ennair (ano novo agrário), e como acompanhamento nos ritos de inumação. O figo entra ainda como elemento básico para a produção de uma bebida alcoólica, a Mahya, uma espécie de aguardente.



É na Índia que encontramos o maior exemplar da figueira, a Ficus Bhengalensis, seculare, cuja copa chega a atingir mais
FICUS RELIGIOSA
de trezentos metros de diâmetro. Dentre as várias espécies da árvore, a mais importante é, sem dúvida, a Ficus Religiosa. Ashvata (Ashavattha, em sânscrito), conhecida desde os tempos prévédicos. Já era usada como símbolo religioso em Mohenjo Daro e Harappa (entre 5.000 e 3.000 aC), cidades do vale do rio Indus, em ruínas quando as tribos árias chegaram à região por volta de 2000 aC. 



ASWINS

Duas etimologias podem ser estabelecidas para a palavra: 1) tha, em sânscrito quer dizer permanecer, ficar; ashva é cavalo. Liga-se o nome ao signo de Mithuna (Gêmeos), na astrologia védica (Jyotish). Os Gêmeos têm o nome de Ashwins (Dióscuros, na mitologia grega); são divindades que fazem nos céus a transição das trevas noturnas para a luz, antecedendo o Sol (Surya), simbolizando como tal o princípio da vida consciente, que deve caminhar espiritualmente em direção do Brahman (O Todo). Com os Ashwins vem Ushas, a deusa da Aurora (Eos na mitologia grega). Os Ashwins são deuses cavaleiros e exercem várias funções, de modo especial a médica. São divindades curadoras na medida em que controlam os cavalos. O cavalo, como se sabe, em todas as tradições, é um dos grandes símbolos do psiquismo inconsciente; 2) a é partícula que indica em sânscrito negatividade; shwa, quer dizer amanhã; tha, quer dizer permanecer, ficar, como está acima. A palavra significaria pois “aquilo que nunca permanece o mesmo de um dia para o outro”, isto é, o transitório. Nas escolas filosóficas (darshanas) do Hinduísmo, ashvattha é o mundo fenomênico, aquilo que dura muito pouco, o mundo de Maya, mutável e perecível, “o que não permanece o mesmo de hoje para a amanhã.”


Posteriormente, na tradição Hinduísta, principalmente nos Upanishads e no poema  Bhagavad Gita, ashvattha tornou-se a árvore invertida que se identifica com o eixo do mundo (axis mundi), que une o céu, onde estão as suas raízes, à terra, por onde se espalha a sua ramagem (as escrituras sagradas, os Vedas). No Budismo a árvore tem o nome de pippal. A iluminação do príncipe Sidharta Gautama, que o transformou em Buda, ocorreu numa Lua cheia do mês de maio; sentado sob a figueira, em Boddhi Gaya, perto do Nepal, o príncipe kshatrya “aquietou os seus cavalos”.


ILUMINAÇÃO DE BUDA


“Aquietar os cavalos”  quer dizer aqui dominar o turbilhão mental e emocional interior, representado astrologicamente por Lua (emocional) e por Mercúrio (mente comum). Estes dois astros são os que mais velozmente circulam nos céus. A Lua, ligada à água, governa o emocional, de natureza inconsciente, enquanto Mercúrio, ligado ao elemento ar, simboliza o mental comum, sempre dispersivo, impregnado de interferências lunares. É por esta razão que o Budismo é um Yoga (da raíz sânscrita  yuj, atrelar, jungir), instrumento de controle dos “cavalos”,  símbolos do  psiquismo inconsciente. 

TRIMURTI

Em muitos lugares da Índia, a grande figueira é conhecida também como banian (Ficus Indica ou Ficus Benghalensis), símbolo da imortalidade, do conhecimento superior. Confunde-se ela com Vishnu, segunda pessoa da trimurti hinduísta, que tem tantos nomes quantos galhos tem a figueira sagrada. Os vishnuístas adoram esta árvore, muito encontrada na vizinhança de seus templos. Em cada cidade do interior da Índia, há um banian sagrado; seus galhos pendentes em direção da terra dão nascimento a novos troncos e é no seu cruzamento que os templos e lugares sagrados de repouso são construídos.