Como antecedentes do poema, o mais notável fato é o rapto de Helena, rainha de Esparta, mulher de Menelau, por Páris, príncipe troiano, filho de Príamo, rei de Troia, e de Hécuba, sua mulher. São irmãos de Páris, dentre outros, Heitor, casado com Andrômaca, e Cassandra, vidente, gêmea de Heleno. A fim de reparar essa afronta, os gregos, sob o comando de Agamemnon, rei de Micenas, casado com Clitemnestra, irmão de Menelau, organizam uma expedição para resgatar Helena, que era irmã de Clitemnestra. Os gregos têm na sua expedição, como figuras principais, famosos guerreiros, Ajax, Diomedes, Ulisses, Nestor, Pátroclo e Aquiles, este o mais destemido de todos, filho de Peleu e de Tétis, divindade marinha.
O poema relata apenas um curto período da guerra de Troia, então no seu décimo ano. Os ouvintes de Homero estariam no entanto familiarizados com os acontecimentos anteriores, aos quais o poeta ia se referindo no decurso da história cantada, acompanhada pelo phorminx, ou simplesmente narrada.
Nesse sentido, a história começa em tempos muito
recuados, quando da construção das muralhas da cidade, protegida por Zeus, rei dos deuses. Governava-a, ao tempo da construção, Laomedonte, que tivera a ideia de cercá-la, tornando-a inexpugnável. Como a cidade prosperava rapidamente, ele não descansou enquanto não viu erguida uma grande e protetora muralha à sua volta.
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GUERRA DE TROIA ( J.G.TRAUTMANN, 1713 - 1769 ) |
Nesse sentido, a história começa em tempos muito
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LAOMEDONTE ( G.TROPPA , 1637 - 1733 ) |
Para construir a proteção idealizada, Laomedonte invocou e obteve a ajuda divina. Poseidon, irmão de Zeus, grande divindade dos oceanos e dos mares, ofereceu-se para ajudar os troianos mediante algumas recompensas. Todavia, terminada a construção da impenetrável muralha, os troianos se recusaram a cumprir o trato feito. Poseidon retirou a sua proteção de Troia, tornando-a vulnerável a ataques, apesar das suas poderosas muralhas
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PARIS |
Bem antes do início da guerra, Zeus decidira que Tétis, uma nereida, se casaria com Peleu, um mortal, rei de Ftia. Desta união nasceria Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos. Toda a sociedade olímpica foi convidada para a festa, com exceção, por razões óbvias, de Éris, a deusa da discórdia. Vingando-se da afronta, Éris lançou ao salão onde se realizava a festa um pomo de ouro, com a inscrição “à mais bela”. Tanto Hera, a esposa de Zeus, como Palas Athena, deusa virgem, e Afrodite, deusa do amor, reclamaram o pomo dourado, pedindo que Zeus arbitrasse a disputa, o que ele sabiamente recusou, fazendo-se substituir, por uma escolha feita ao acaso, por Páris, que vivia como um pastor perto de Troia.
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O JULGAMENTO DE PARIS ( P.P.RUBENS , 1577 - 1640 ) |
As deusas, interessadíssimas na disputa, foram então a Páris e tentaram suborná-lo, prometendo-lhe, cada uma delas, o que julgaram ser o melhor para ele. A deusa Hera ofereceu-lhe o continente asiático com todas as suas riquezas; Palas Athena, a poderosa filha de Zeus, ofereceu-lhe a sabedoria e a vitória em todas as batalhas; Afrodite ofereceu-lhe o amor na pessoa da mais bela mulher do mundo, a espetacular Helena, casada com Menelau. Páris optou pela oferta de Afrodite. As duas deusas preteridas tornaram-se de imediato grandes inimigas da deusa do amor, inimigas implacáveis, e, como tal, dispostas a causar a destruição de Troia.
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HELENA E PARIS , 1788 ( J. L. DAVID ) |
Muitos dos chefes gregos, além disso, desejavam há tempos saquear a rica cidade asiática. Sabiam, entretanto, por sentença oracular, do destino que os esperava se partissem sem que uma condição, muito importante, fosse observada: Aquiles deveria obrigatoriamente participar do empreendimento. Ulisses, grande chefe grego, por outro lado, fora avisado também de que a sua participação na guerra o levaria a uma ausência de vinte anos do seu reino. Simulou então o rei de Ítaca uma espécie de loucura para não participar da expedição a Troia. Desmascarado, acabou por decidir-se a ir.
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AQUILES MERGULHADO NO RIO ESTIGE ( A.BOREL , 1743 - 1810 ) |
Aquiles, como combatente, era praticamente invulnerável porque ao nascer a mãe o havia mergulhado nas águas do Estige, rio infernal, tornando-o imortal, excetuada esta condição por um ponto, o calcanhar, por onde a mãe o segurara. Mais tarde, como narra o poema, uma flecha, guiada pelo deus Apolo, atingirá este ponto, matando nosso herói. Aquiles também estava ciente de que, se fosse à guerra, morreria jovem. Para livrar o filho de uma morte prematura, Tétis disfarçou-o com roupas de mulher, escondendo-o. O astucioso Ulisses descobriu o ardil, o que forçou Aquiles a se envolver na luta.
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AGAMEMNON |
IFIGÊNIA , 1788 ( J.L.DAVID ) |
Depois de desembarcarem num lugar errado, os gregos acabaram chegando a Troia, cercando-a; numa das extremidades do território que ocuparam, ficou o valente Aquiles com os seus homens; na
outra, o famoso Ajax. Durante nove anos tentaram atravessar as invulneráveis muralhas. Enquanto não o conseguiam, assaltavam e pilhavam cidades e localidades próximas. Ao final do nono ano, um acontecimento precipitou, porém, os acontecimentos: capturaram os aqueus duas belas mulheres, Criseida, troféu destinado a Agamemnon, e Briseida, destinada a Aquiles. Assim começou realmente a Ilíada...
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ILÍADA |
Aquiles é sem dúvida a figura mais importante do poema homérico. Tétis, a nereida, sua mãe, filha de Nereu e de Doris, era lindíssima, corteja por todos os deuses. Uma sentença oracular declarara que se um filho dela com uma divindade nascesse ele se tornaria mais poderoso que o pai. Os candidatos mais próximos, Zeus e Poseidon, logo desistiram da bela nereida e procuram alguém para se tornar o seu esposo. Dentre muitos candidatos, apareceu Peleu, que, orientado pelo centauro Kiron, conseguiu submeter a bela Tétis, apesar de suas sucessivas metamorfoses e disfarces. O casamento se realizou com grande pompa no monte Pelion, recebendo os noivos inúmeros presentes. Um acontecimento, todavia, perturbou a solenidade. A deusa Éris, a Discórdia, por não ter sido convidada, como se disse, jogou no salão em que se realizava a festa o famoso pomo da discórdia, de tão triste memória, causador, para muitos, da guerra de Troia...
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KIRON E AQUILES ( AFRESCO ) |
O jovem foi muito bem tratado também pela mãe do centauro, Fílira, e por sua esposa, a ninfa Cáriclo. A partir dos doze anos, foi adestrado na caça, na equitação, na medicina e em outras artes; o centauro passou-lhe o respeito pelos mais velhos, e ensinamentos claros quanto à necessidade do que eram a defesa da honra pessoal (timé) e o amor à verdade. O jovem se alimentava das entranhas de leões e de javalis, da moelas de ursos, tudo para adquirir coragem, força e vigor. Do mel, recebia doçura, afabilidade. Ao chegar à gruta do centauro, o filho de Tétis chamava-se Líguiron (agudo, sibilante, gasguito).
Já no décimo ano da guerra que não se resolvia, Aquiles e Agamemnon tiveram uma séria desavença. Este último teve que devolver, por imposição do deus Apolo, ao pai, a sua escrava-amante. Irritado, para substituí-la, mandou buscar a escrava-amante de Aquiles, Briseida. Atingido em sua honra pessoal, Aquiles retirou-se da luta. A vitória dos aqueus ficou ameaçada. Tétis, a mãe do herói, subiu aos céus e foi pedir a Zeus que tornasse os troianos vitoriosos enquanto Aquiles não combatesse. Zeus atendeu-a; os acontecimentos começaram a favorecer os troianos, embora a guerra ainda não tivesse chegado ao seu auge. Diante da derrota iminente, porém, Agamemnon se retratou: devolveria Briseida e prometeu dar a Aquiles vinte escravas dentre as mulheres mais belas de Troia, além de, como prêmio máximo, lhe conceder, como esposa, uma de suas filhas. Aquiles se manteve irredutível na sua negativa.
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PÁTROCLO FERIDO |
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HEITOR MORTO ( LOUVRE ) |
Nesse ínterim, as Amazonas entraram na luta, em socorro de Troia. Aquiles, com requintes de selvageria, matou Pentesileia, a rainha das mulheres guerreiras. As lutas prosseguiam, o número de mortos aumentava. A cólera de Aquiles pela morte de Antíloco, filho de Nestor (depois de Pátroclo era o amigo mais estimado por Aquiles),
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AQUILES FERIDO |
Uma versão nos informa que Aquiles teve suas cinzas reunidas às de Pátroclo e levadas para o alto de um promontório para que todos, inclusive os navegantes, vissem a urna funerária do grande herói e de seu amigo. Outras versões registram que Tétis levou a urna para uma ilha deserta, chamada Leuce, a Branca. Outros ainda contam que Aquiles, depois de morto, passou a "viver" nessa ilha, que fica na foz do rio Danúbio. Os navegantes narram, desde então, que durante certas noites são ouvidos, vindos da ilha, ruídos do entrechoque de armas, cantos guerreiros e de banquetes. Por fim, outras versões narram que o herói se encaminhou depois de morto para os Campos Elíseos, no Hades, onde se uniu a Polixena, por quem sentiu grande amor, uma filha de Príamo, rei de Troia. Outros dizem que o herói no Hades se uniu a Medeia ou com Ifigênia ou com Helena. A Odisseia nos mostra Aquiles entre os mortos num diálogo com Ulisses, quando este, realizada a cerimônia de invocação das almas (nekyia), ouviu do eídolon do herói, arrependido, uma triste confissão, vinda do fundo de seu coração, a de que teria preferido a vida longa, mesmo que na condição de um humilde servidor de um pobre camponês.
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DIÁLOGO DE AQUILES E ULISSES |
Está hoje, devidamente assentado, por estudos históricos, arqueológicos, etnográficos, etnológicos, epigráficos, linguísticos (filologia histórica) e outros, que, por trás da Ilíada temos alguns fatos históricos bem determinados, ainda que o maravilhoso mítico poético a permeie do começo ao fim. Ninguém poderá negar que os aqueus, fundando Argos e Micenas, para sobreviver nos territórios em que se instalaram, só encontraram uma alternativa, a de buscar o mar. Pode-se inclusive admitir que se os personagens que tomaram parte na Ilíada, conforme Homero nos conta, eram fictícios, figuras do mito, a destruição de Ilion, como a de Creta, foram, ao contrário, acontecimentos bem concretos, reais, historicamente comprovados.
Abrindo um parêntesis: este mesmo entendimento terá que ser levado também para a abordagem da Odisseia. Em que pesem as diferenças entre os dois poemas homéricos, não podemos deixar de lado os fatos históricos nos quais a história de Ulisses encontra as suas melhores explicações e justificativas. Aborde-se a Odisseia pelo viés que se quiser, literário, mítico, linguístico etc., não há como se negar: a Odisseia tem como base histórica principal a busca do estanho, metal inexistente no território grego.
Sabe-se que desde o período minoico, bem antes de 2.000 aC, o comércio marítimo cretense dominava o Egeu oriental. A utilização industrial do bronze era um fato que levava os cretenses a buscar no ocidente o estanho, metal que, embora em proporção não muito elevada, entrava obrigatoriamente na fabricação do bronze. Dirigiram-se assim os cretenses à Sicília, ao Adriático e a outros lugares para esse fim.
Quando os micênicos conseguiram penetrar em Cnossos, muitos séculos depois, saqueando e destruindo a cidade, Micenas se converteu na herdeira do comércio cretense, estabelecendo transações comerciais mais amplas com o ocidente, alcançando não só a Itália meridional e a Sicília como a Sardenha e a Espanha. Sabe-se, por exemplo, que no princípio do segundo milênio aC os povos que viviam na península ibérica já haviam começado a utilizar o bronze por influência dos navegadores egeus que os visitavam.
Enquanto historicamente a discussão das datas e fatos com relação à Ilíada apresenta poucas controvérsias, a referente à Odisseia alimenta um debate que vem se estendendo até os nossos dias, firmando-se cada vez mais, com relação a esta última, a chamada tese atlântica e, por isso, ficando bastante enfraquecida a posição dos defensores da tese mediterrânea. Ou seja, Ulisses teria ultrapassado as colunas de Hércules e navegado até o Atlântico norte, tendo chegado, quem sabe, à Islândia. Por um estudo mais acurado do texto homérico e com as contribuições a que acima nos referimos, é possível estabelecer hoje que é no canto V da Odisseia que começa o relato da navegação atlântica de Ulisses, que, como tudo indica, se baseava em descrições fenícias, conforme se descobriu posteriormente.
Acrescente-se que os gregos micênicos, tendo adquirido um profundo conhecimento das técnicas de navegação, se guiavam muito bem pelas estrelas e, como observadores argutos, sabiam também se valer de outros fenômenos celestes. Nas suas observações, iam muito além do que sabiam os sacerdotes do santuário de Delfos, organizadores do imperialismo grego, que viviam fechados nos seus templos.
Desde os micênicos que os gregos tinham como norma autorizar empreendimentos marítimos e viagens só entre março e outubro. Registre-se que o início anual da temporada marítima era determinado pelo aparecimento das Plêiades, grupo de estrelas situado no final da constelação de Touro. A etimologia do nome, Plêiades, nos remete ao verbo plein, navegar, em grego. Pela limpidez de sua visualização, a partir de maio, esse grupo, as Plêiades, ligava-se com muito destaque aos calendários agrícola e marítimo.
Os marinheiros gregos observaram, por exemplo, que no curso de suas aventuras marítimas em direção do sul a estrela Polar ia se acercando cada vez mais do horizonte. A medida de sua altitude, medida angular, lhes permitia avaliar a distância que percorriam. Os gregos se aproveitaram tanto das descobertas babilônicas como egípcias com relação aos céus, valendo-se delas inclusive com relação à construção de seus barcos. O trirreme grego, para navegação oceânica, com cerca de 40 m. de comprimento, como se comprovou, descendente direto dos barcos egípcios, era impulsionado por remos manejados com grande firmeza, por cento e quarenta e quatro remadores, podendo atingir uma velocidade de 22 km/hora.
De outro lado, muito próximos de cretenses e micênicos, por sua civilização e poder marítimo, os troianos constituíam-se num sério obstáculo para a expansão dos dois primeiros citados no Mediterrâneo. Era preciso, pois, destruir a talassocracia troiana para
não só dominar o Egeu oriental como penetrar na Ásia Menor (Anatólia). A invasão de Troia pelos micênicos se deu provavelmente entre 1.193 e 1.184 aC., como as mais recentes pesquisas históricas propõem.
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TRIRREME GREGO |
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RUÍNAS DE TROIA |
Uma leitura atenta da Ilíada nos faz “sentir” que estamos diante de um texto que descreve uma guerra de conquista e que seus personagens parecem ter uma existência “real”. Ao lado dos aspectos político, social e religioso que a Ilíada apresenta, não há dúvida de que o poeta nos descreve com aceitável veracidade que o mundo micênico era constituído por um conjunto de grandes e pequenos reinos, bastante entrelaçados por razões de fidelidade ou vassalagem, dominado por uma voraz aristocracia guerreira.
As principais características do mundo grego de então foram bem destacadas por Homero, evidenciando-se dentre elas a riqueza de Micenas (riquíssima em ouro), a inexistência do cobre e do ferro, a
arquitetura dos palácios, a figura do anax (palavra que designa o rei, o senhor, que possui um poder que o situa acima do basileu, o simplesmente rei), o fausto dos funerais (Pátroclo), o megaron (grande sala, típica dos palácios micênicos), o costume de designar os aristocratas e mesmo os inferiores por meio de muitos epítetos, associados ao seu nome de família.
Nesse mundo, circulava uma poesia transmitida oralmente, de geração em geração, de natureza áulica (do grego, aulé, palácio, e do latim aula, corte, sala do palácio), palaciana, com muitas fórmulas religiosas e militares. Tal poesia se renovava continuamente à medida que ia sendo cantada, sabendo-se, contudo, que os poetas (aedos ou rapsodos) guardavam na sua memória a totalidade dos versos, a maior parte deles constituída de frases feitas, constantemente repetidas. É de se notar que os epítetos abundantemente encontrados nos poemas homéricos, milhares de vezes repetidos, ganham destaque maior quando nos voltamos para os personagens mais importantes e para as grandes divindades, que chegam a ter em média uma dezena de apelidos, que pouco variam.
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FUNERAL GRÉCIA ANTIGA |
Tudo indica que Homero fazia-se entender perfeitamente pela aristocracia micênica, gente voltada para as armas e para o mar. Deixava essa poesia claro para eles que o presente era o passado constantemente renovado por aedos e rapsodos. Nesse discurso poético, toda a ênfase se concentrava sobretudo, na vida dos heróis, na qual se projetava a vida dos deuses, em conceitos que tanto enalteciam ou não verdades do espírito e do corpo. Por isso, em Homero, na Ilíada, principalmente, o destaque vai para palavras como kalon (belo), agathon (bom), kleos (fama, renome), timé (honra), areté (virtude, excelência), kakon (mal), É do mundo homérico que nos vêm palavras como xenos e barbaros. A primeira designa o grego que vivia no exterior, vindo de uma outra cidade grega, de uma colônia. Já o bárbaro não era grego, falava uma língua incompreensível. A palavra barbaro era uma onomatopeia evocativa de uma algaravia. Quanto à projeção do divino no humano, observe-se, por exemplo, o modo como Agamemnon exerce a sua autoridade, de modo muito semelhante ao despótico comportamento de Zeus no Olimpo, com relação aos seus pares divinos.
Qualquer que seja o viés adotado para nos aproximarmos dos poemas homéricos, o que fica claro ao final é que eles difundiram o “mundo dos gregos”, democratizando-o, fazendo-nos compreender o elevado conceito que eles tinham da sua própria cultura diante dos bárbaros. Ainda que reconhecendo o que deviam aos egípcios, cretenses, mesopotâmicos e a outros povos, eles sempre tiveram consciência de que levaram a eles, inclusive através de suas aventuras imperialistas, valores novos, por esses povos ignorados, ou apenas conservados por eles num estado embrionário.
A história do nascimento, da infância e da juventude e da vida adulta dos personagens heroicos de Homero costuma se revestir de traços fantásticos, extraordinários, que vão sempre além da esfera do humano. A Grécia clássica procurou transmitir para as gerações futuras uma visão sublime desses heróis. Na realidade, entretanto, não era bem assim. Os heróis gregos, como já se observou, são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. São apresentados como invulneráveis ou quase, mas podem ser abatidos (Aquiles). Têm graça e beleza, mas podem ser monstruosos (o gigantismo de Hércules, de Aquiles, de Teseu). São, na realidade teriomorfos, andróginos, mudam de sexo, adotam o travestismo, transitam entre o masculino e o feminino (Aquiles foi chamado de Pirra, a Vermelha), têm anomalias físicas (Hércules tinha três fileiras de dentes, era também chegado ao travestismo), têm problemas nos pés (Édipo), são transformados em serpentes (Cadmo). Com muita facilidade são tomados por monstros e demônios, pela loucura (Lyssa), pelo Erro (Até), pela Discórdia (Éris), no que acompanham as próprias divindades. A maior parte dos heróis gregos tem um comportamento sexual aberrante, cometem estupros, atacam os próprios deuses, têm acessos de cólera sem nenhum motivo, desrespeitam de um modo que beira a anarquia as normas de convivência e regras de civilidade.
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GIGANTOMAQUIA ( P. P. RUBENS , 1577 - 1640 ) |
Os excessos heroicos, a rigor, não têm limites. Violentam deusas (Orion, Ixion), são sacrílegos (Ajax agride Cassandra em recinto sagrado), são hetero e homossexuais (Hércules, Aquiles), no que, aliás, imitam os próprios deuses. Certamente, o traço mais característico e específico do herói grego era a hybris, a desmedida, em escala superlativa. Embora punidos e castigados, tentarão sempre enfrentar os deuses, como se fossem iguais a eles, podendo, contudo, ajudá-los (Gigantomaquia). Ambivalentes e monstruosos, os heróis gregos, pelo seu comportamento, lembram a fluidez dos tempos primordiais, quando os elementos constitutivos do cosmos ainda não haviam se assentado. Um período onde as irregularidades e os abusos eram comuns, período do cosmos ainda em formação. Com o "mundo dos homens", onde as desmedidas, as explosões temperamentais e os excessos físicos e emocionais devem ser proibidos, ou, pelo menos, controlados, os heróis tornaram-se figuras extravagantes. Com eles, encerra-se o chamado período heroico da mitologia grega, definido por Hesíodo.
Os heróis gregos enquanto simbolizam propostas de impulsos evolutivos revelam também a situação de conflito do psiquismo humano, pelos combates, em última instância, que nele se travam entre as forças da luz (atributos solares) e as forças das trevas (monstros, malfeitores, gigantes), de tendências regressivas, uma espécie de Fatum a persegui-los. Sempre a vida como luta (agonística), como criação de novas formas de relacionamento com o mundo, a partir das lutas internas, as conquistas sempre ameaçadas de dissolução. Um processo de interiorização e de exteriorização constantes. Pressões internas, projeções imaginárias, temores, fobias, tentações, dúvidas. De outro lado, o mundo com seus monstros, dragões, seres ameaçadores, sedutores. Ao lado dos ingredientes da vida heroica, da excepcionalidade no seu agir (areté) e da honorabilidade pessoal (timé), que estão na base das vitórias interiores, sempre, por outro lado, as ameaças de origens inconscientes, a vaidade, o renome através da consideração pública.
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HERÓIS GREGOS |
Os heróis de Homero “viveram” entre um período histórico que vai do Heládico recente ao início do Arcaico. Na escala dos metais, faziam parte da chamada idade do bronze, um período da civilização que veio depois do chamado período calcolítico. Todo o período do bronze é conhecido pelo desenvolvimento da tecnologia desse metal, o bronze, essencial para a civilização grega desse período, período situado entre o fim do neolítico e o começo do arcaico, dominado pelo ferro.
Os guerreiros que participaram da guerra de Troia eram responsáveis pela confecção de suas próprias armas, sendo muito usados na Ilíada o substantivo khalkos (bronze), e o adjetivo khalkeion (brônzeo) embora Homero, que viveu na idade do ferro, se traísse, usando vez ou outra o substantivo sideros (ferro), como na passagem (Ilíada, IV) em que faz a descrição da flecha de Pândaro, com ponta de ferro, que fere Menelau.
Ficamos espantados até hoje quando tomamos conhecimento das características das armas ofensivas e defensivas usadas na Ilíada, designadas indistintamente pelo vocábulo teukhos (equipamento, utensílio). Chama nossa atenção, por exemplo, quanto às armas ofensivas, as lanças, os dois tipos, um chamado dory e outro enkhos. O primeiro tipo era pontiagudo e brilhante, bem menor diante do outra. Idomeneu, porque gostava de usar essa lança, era conhecido pelo apelido de douriklytos (o famoso pela lança dory). A outra lança chamava a atenção pelo seu tamanho, pois “projetava a sua sombra longe”. A lança de Heitor, por exemplo, tinha onze
côvados, o que equivale a mais ou menos sete metros de comprimento. A lança de Aquiles, pelo seu peso, não podia ser manejada por ninguém a não ser ele. Quando Pátroclo, que era fortíssimo, tentou usá-la, não conseguiu, faltou-lhe braço para tanto. Esta grande lança do Pelida fora um presente de Kiron a Peleu, pai do nosso herói. Muitos heróis da Ilíada gostavam de usar junto de sua espada (xiphos), na cintura, uma espécie de facão, de grande punhal (makhaira), que tanto servia para fazer cirurgias como sacrifícios.
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TEXTO DA ILÍADA |
Os combates da Ilíada privilegiam a luta corpo-a-corpo. Há bem menos referências a lutas travadas a distância. Entre os aqueus, por exemplo, Teucro, irmão bastardo de Ajax Telamônio, embora sobrinho de Príamo e tendo participado ao lado do irmão junto dos gregos, era um exímio arqueiro. Na Ilíada, entre os arqueiros, sempre considerados negativamente, indignos, sem ardor, podemos citar Pândaro e Páris.
Famosas na Íliada eram as couraças (thorakes) como armas defensivas, feitas de bronze (khalkeothorekon). A mais famosa era a de Aquiles, fabricada por Hefesto, “mais brilhante que os raios de fogo”. Outra couraça famosa foi a que Agamemnon ganhou de Ciniras, rei de Chipre, profusamente decorada. Os gregos davam o nome de mitra a um cinturão largo. Quando em combate, davam preferência a um tipo especial chamado zoster, que cobria a parte inferior da couraça.
Homero sempre usou para descrever as armas dos heróis da Ilíada uma adjetivação extremamente favorável: “armas nobres e ilustres”, “armas belas”, “armas policromadas, esplêndidas”, “armas brônzeas”. As armas do Pelida eram “extraordinárias (pelotia), admiráveis (thauma), belas (kala), nobres (aglaa)”. O escudo (aspis) do Pelida, por exemplo, era uma obra de arte: dele faziam parte cinco camadas, duas de bronze, duas de estanho e uma de ouro.
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AQUILES , O HERÓI |
Homero sempre usou para descrever as armas dos heróis da Ilíada uma adjetivação extremamente favorável: “armas nobres e ilustres”, “armas belas”, “armas policromadas, esplêndidas”, “armas brônzeas”. As armas do Pelida eram “extraordinárias (pelotia), admiráveis (thauma), belas (kala), nobres (aglaa)”. O escudo (aspis) do Pelida, por exemplo, era uma obra de arte: dele faziam parte cinco camadas, duas de bronze, duas de estanho e uma de ouro.
Além da proteção da cabeça, do peito e dos braços, os heróis homéricos usavam uma proteção para as pernas, as chamadas grevas (knemides), uma armadura de metal, composta de placas, que iam do joelho até os pés. As belas grevas de Aquiles, fabricadas por Hefesto, eram feitas de estanho, com fivelas de prata. Para a proteção da cabeça, os heróis usavam o elmo (korys), um capacete feito geralmente de bronze, enfeitados com penachos de crina de cavalos. O penacho do capacete de Aquiles era dourado.
Depois da morte de Aquiles, as suas armas deveriam ter sido entregues ao melhor dos guerreiros aqueus depois dele. As armas seriam, então, de Ajax Telamônio, o melhor, excetuando-se Aquiles. Todavia, as armas foram entregues a Ulisses, o que provocou a ira do Telamônio. A competição entre Ulisses e Ajax pelas armas do Pelida foi vencida pelo primeiro, mais por causa da sua eloquência do que pelos seus méritos bélicos. Os chefes gregos que as destinaram ao rei do Ítaca levaram mais em consideração mais o discurso de Ulisses do que as suas virtudes (areté), as suas habilidades no campo de batalha. A prevalecer estas últimas, as armas deveriam certamente ter ido para as mãos do Telamônio. Desta areté, lembre-se, faziam parte, para o herói homérico, não só a vitória, ou seja, a morte do inimigo como o ação de despojá-lo de suas armas, belíssimas no geral, e de ultrajar o seu cadáver.
A fim de se ter uma ideia de conjunto da Ilíada, para estudo, acho interessante fazer um resumo dos cantos, antes de se explicá-los, com a expectativa de que esta seja a primeira camada de uma leitura que ao correr dos anos vá se estratificando de modo a que novas camadas possam não só ir se depositando sobre a anterior, mas completando-a, alargando-a, consolidando-a e jogando-nos noutras direções. Acredito que já tenha sido possível perceber que a leitura (o estudo, melhor dizendo) dos poemas homéricos é algo que demanda vontade, tempo e persistência. O estudo dos temas e sub-temas que dele fazem parte se constitui certamente num projeto que se inscreve naquilo que os antigos chamavam de erudição e que lembra também o que entendemos por esotérico. A erudição nos lembra algo que vai se formando, se construindo, e, como tal, é algo que não se realiza nunca. Já o esoterismo aponta para o que é reservado ao interior, a poucos; por isso, por oposição ao exotérico, o que, do primeiro, pode ser difundido no exterior, sempre bem menos do que naquele se contém, se aprofunda e exige. Por isso, o exotérico é acessível a um público bem maior, no geral apenas curioso e diletante.
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ODISSEIA , EDIÇÃO DE 1815 |