Mostrando postagens com marcador AQUILES. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador AQUILES. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de março de 2021

OS MONSTROS - II

              

SOLUTIO

Evidentemente estas experiências relacionadas com a solutio são sempre dolorosas, pois, no geral, se dão, em meio a muito sofrimento, por uma descida ao mundo inconsciente, ao nosso inferno pessoal. Uma espécie de imersão acompanhada sempre de muita angústia e medo porque, de qualquer maneira, ela é sempre um desmentido da pretensa autonomia e do poder do nosso ego. Pode-se dizer, por isso, correndo o risco da generalização, que não há uma solutio agradável ou feliz.


O caos, na perspectiva em que aqui o abordamos, precede sempre a existência. Lembre-se: a constituição da ordem cósmica implica três elementos, fixados na seguinte ordem, segundo A Teogonia, o poema de Hesíodo: caos, existência e cosmos. Esta é também a ordem do nosso processo de individuação, se o entendemos segundo a lei universal da correspondência:   inconsciente, consciente e supraconsciente. Por essa lei, sabemos que existe uma correspondência entre as leis e os fenômenos da natureza nos diversos planos da existência. Esta lei pode ser assim também resumida: o que está em cima é como o que está em baixo e o que está em baixo é como o que está em cima, tudo para que se perpetue a unidade. Esta lei não nos fala de igualdade ou semelhança, mas de analogia, de correspondência. 


GEIA  ( BRONZE )
A primeira entidade a sair do caos foi Geia, a Grande-Mãe Terra, o ponto de partida de todo processo criador, fato que consagra indiscutivelmente o princípio feminino como o ponto de partida de tudo o que entra na existência. Distando de Geia, simetricamente dispostos, um em oposição ao outro, temos acima dela o céu, por ela gerado, “em igualdade de esplendor e beleza para que ele a cubra”, como diz Hesíodo, e de outro, abaixo dela, o Tártaro, a mais profunda camada do mundo infernal, escuridão absoluta, região jamais atingida pela luz. Ou, se quisermos, sob o ponto de vista psicológico, de um lado, o céu para o supraconsciente e o inferno para o subconsciente (inconsciente). Entre eles, a Terra, para o homem e a sua consciência, o sentimento que cada ser humano tem de sua existência e de seus atos.

É próprio da matéria caótica e dos seres maléficos, monstruosos, que nela "vivem", oporem-se a qualquer tentativa de controle, de imposição de uma ordem. E mesmo que dominados a matéria caótica e os seus monstros  temos sempre, de um lado, quanto à primeira, a sua constante luta para escapar dos limites que a ela se procure impor e, de outro, quanto aos outros, o fato de, mesmo "morrendo", renascerem, ou se reproduzirem com extrema facilidade através de processos que lembram biologicamente a cissiparidade, a neoplasia  e  a partenogênese. Embora momentaneamente dominados, aproveitam-se os "nossos" monstros de qualquer oportunidade para retornar, ameaçando a nossa suposta autonomia, conquistada com tantos esforços.

Uma das ilustrações do que estamos a dizer pode ser encontrada na escuridão dos nossos intestinos. Pela lei da correspondência, por exemplo, como uma contrapartida do que acontece no nosso psiquismo, ocultamente aninhados, fazendo-nos muito mal, podemos  detectar alguns “monstros”, vermes cestoides, como as tênias, que, como se sabe, costumam atingir vários metros de comprimento. 


PHTONOS
Uma  analogia do que aqui estamos a dizer pode ser encontrada, pela lei da correspondência, quando aproximamos mente humana (vida psíquica) e intestinos. Em ambos temos ideias de escuridão, interioridade, inconsciência. Os monstros que vivem no Jardim de Perséfone, como Lyssa (Raiva), Phtonos (Inveja), Apateia (Apatia), Eris (Discordia), Algia (Dor), Geras (Velhice) e outros,  perfeitamente identificados no mito, que, do nosso inconsciente pessoal, invadem o campo da nossa consciência, infernizando a nossa vida, são equivalentes àqueles que na escuridão dos nossos intestinos, como tênias (vermes cestoides) e outros, por exemplo, podem ali ficar a se nutrir do que ingerimos. 

MERCÚRIO

A ciência moderna, hoje, combate com relativa facilidade os nossos vermes e outros seres que atacam o nosso a parelho gástrico, mas parece fracassar com relação aos monstros que se acomodam, com muita facilidade, no nosso psiquismo. Talvez um dia as coisas melhorem quando os homens da ciência entenderem que Mercúrio (Hermes grego), astrologicamente, é a  divindade que tanto governa  a mente humana como os intestinos. Sua função é a de receber o que entra, avaliar, separar, discriminar devidamente, rejeitar o desnecessário (dando a este o respectivo destino final) e distribuir adequadamente o aproveitável, o saudável, para garantir a nossa higidez em ambas as áreas, física e mental. Vale aqui lembrar o trabalho que damos ao nosso Mercúrio Virgo quando não temos noção de hábitos alimentares mais saudáveis, a sobrecarga que a ele "levamos" quando não controlamos  o que ingerimos. Ou, no outro plano, no mental, quando nos submetemos passivamente aos imbecilizantes  processos comunicacionais que a moderna tecnologia põe hoje em circulação em escala mundial.

Antes, porém, como caracterizar um monstro mítico? Para os nossos propósitos, ele não é, antes de mais nada, uma besta ou um animal qualquer que foi parar nas histórias mitológicas, um leão, um cavalo ou um cão. O que o caracteriza sobretudo é que ele não existe realmente, é uma invenção da nossa mente (imaginação) humana, mas sua  “realidade” é indiscutível. Não faz parte do mundo objetivo. Isto é, tem existência subjetiva, opondo-se, neste sentido, ao conceito de existência material, positiva. Monstros são símbolos, algo que o homem construiu para representar certos estados interiores que experimenta, medo, inveja, incerteza, culpa, remorso etc., que dificultam ou se opõem ao que ele considera como buscas de um sentido evolutivo de vida, desejos de sucesso, de felicidade, de transcendência.

CAPRICHOS  ( GOYA, 1746 - 1828 )

Desde a pré-história, os homens usam certas coisas, como imagens ou objetos, nas quais vêm alguma relação com o que querem representar, para significar outras, dando-lhes sentidos e valor. Este é o chamado processo simbólico, talvez a principal característica a distinguir o homem dos animais. Estes, ao que parece, não usam símbolos. Os homens, ao contrário, vivem mergulhados num universo simbólico. Lutam e morrem por eles, tornam-se brutais e violentos por causa deles, fazem guerras. 

Sabemos que dentre todas as formas de simbolismo a linguagem humana é a mais desenvolvida. Podemos fazer com que determinados sons que produzimos representem certos coisas que nos acontecem, afetando o nosso sistema nervoso. Mensagens verbais ou escritas que emitimos, risos, palmas, assobios, gritos são exemplos do que estamos a dizer. Na Internet, nos USA, inclusive, em certos meios, usar maiúsculas pode ser um sinal de agressividade. 


AQUILES
De um modo geral, aparentemente, acentue-se, símbolos e coisas simbolizadas não têm nada em comum. Entretanto, se os observarmos mais detidamente poderemos perceber que entre coisas tão distintas às vezes pode haver muita semelhança. Dá-se o nome de analogia a essa relação. O prefixo ana da palavra analogia, como se sabe, tem o sentido de repetição. Daí se falar em analogia entre sentimentos e cores, entre metais e seres humanos. O vermelho sempre expressou violência. Não é por acaso que Aquiles, o maior dos guerreiros gregos, tem um temperamento colérico e é ruivo, avermelhado; podemos falar de pessoas-antimônio, próximas da “perfeição”, mas que podem às vezes cair das suas “alturas”, ou de pessoas-chumbo, taciturnas, rabugentas, que vivem olhando para o passado e que podem ser um modelo de autodisciplina.

AMMIT
Os antigos egípcios, ainda exemplificando, quando tiveram que construir uma imagem para representar o assustador monstro devorador das almas condenadas que atuava na sua psicostasia, Ammit ou Ammut, o compuseram com partes do crocodilo, do hipopótamo e da pantera. O primeiro é um réptil, um animal das águas primordiais, uma sobrevivência ameaçadora, um representante do mal. Voraz e hipócrita (sempre com uma “cara” de quem não quer nada) infestava as águas do rio Nilo. Ele faz parte da grande galeria dos devoradores, animais que se 
MAKARA
distinguiam por sua enorme boca e goela com relação ao corpo (jaguar, lobo, leão, sucuri, anaconda, baleia, crocodilo) e que, por isso, foram usados para simbolizar as trevas, como a noite que tudo engole. Na Índia o crocodilo aparece associado ao solstício de inverno, período do ano em que o Sol é “engolido” pelas trevas hibernais, dando-se o nome de Makara (crocodilo, em sânscrito) a  Capricórnio, signo no qual o Sol ingressa em 21 de dezembro, anualmente (solstício de inverno).

SOBEK

Os egípcios, diga-se de passagem, davam uma posição proeminente no seu panteão ao deus-crocodilo Sobek ou Soukhos, ainda que uma aura de maldição cercasse esta divindade. Tal se devia a uma história em que se narrava o assassinato do deus Osíris por seu irmão Seth, que, para fugir da responsabilidade pelo crime, encontrara refúgio no corpo de um crocodilo. 


BEHEMOT ( WILLIAM BLAKE, 1757 - 1827 )

Já o hipopótamo (cavalo de rio), muito comum no Nilo, é um herbívoro, conhecido como devorador de colheitas. É considerado uma manifestação das forças negativas universais e inimigo dos humanos. Faz parte do séquito de Seth, gênio do mal, grande inimigo de Osíris. Lembremos que um dos grandes demônios do mundo judaico, Behemot (fera, em hebraico) teve a sua forma inspirada pelo hipopótamo egípcio.

MÊNADE COM TIRSO E PANTERA
Quanto à pantera (etimologicamente, animal do grande todo), consagrado a Dioniso na Grécia, é tradicionalmente vista como símbolo da astúcia diabólica e da heresia, “escondendo sob uma expressão de alabastro uma alma de ébano”, como nos dizem antigos textos. Além de Dioniso, a pantera aparece associada a Afrodite, à Grande-Mãe Cibele, da Ásia Menor, e à maga Circe.

GOLEM E RABINO

Os monstros podem ser formados por várias partes de animais diferentes como é o caso de Ammit, acima apontado, ou do centauro-peixe apontado no início deste texto. Noutras vezes, são criados por multiplicação de partes do corpo, como  a Hidra de Lerna, com as suas nove cabeças, ou como Cérbero, cão infernal, tricéfalo. Alguns combinam o animal e o humano, como o Centauro, a Sereia ou o Minotauro. Outros são fabricados artificialmente, como o Golem ou Frankenstein, a partir do modelo humano.


TIFON ( VASO GREGO )
Não podemos esquecer, como já mencionei, aliás, que há uma estreita ligação entre os mitos de criação nas várias tradições e monstros. Lembremos da tradição mesopotâmica (O Épico da Criação), em que Tiamat, monstro feminino, símbolo do caos primordial, personificação do grande oceano, cria um grupo de monstros para a auxiliar na luta que trava contra Marduk, o deus-herói, que a obrigará a se fixar em determinados limites. Depois, Marduk matará os monstros por ela criados.

ÉQUIDNA
O drama da criação entre os gregos também inclui o aparecimento de monstruosas criaturas, como Tifon (Tempestade) e Équidna (Serpente), ambos filhos de Geia e do Tártaro, ou seja, da Terra e do Não-Ser. Agentes do caos, irmãos, ambos são poderosíssimos. A cabeça de Tifon ultrapassava as mais altas nuvens do céu; de braços abertos, ele alcançava com facilidade o leste e o oeste. Possuía asas, soltava fogo pelos olhos,  seu corpo era coberto de serpentes. Ao andar pelos oceanos, sua cabeça ficava sempre acima da superfície das águas. Équidna era mulher até a cintura e monstro daí para baixo. Muito fértil, unida ao irmão, o único que podia fecundá-la, gerou inúmeros monstros que tanto infelicitam a humanidade. É um dos grande símbolos da libido insaciável.

VRITRA
Dentre as várias características dos monstros míticos ressaltamos uma, muito importante, a da posse e o controle das forças naturais e dos elementos por alguns deles, como a água e o fogo. Em muitas histórias, temos dragões que soltam fogo pelas ventas ou que através do elemento líquido provocam grandes catástrofes. Na China, ao contrário do ocidente, os dragões exercem ações benéficas, controlando as águas e distribuindo as chuvas na medida certa, na estação devida. Recorde-se que na mitologia hindu, o dragão Vritra, demônio da seca, tem a sua casa nos céus e é responsável por longos períodos de estiagem que tanto prejudicam o território indiano. É preciso que Indra, o senhor do raio e dos elementos, o ataque para que a terra receba as chuvas necessárias, que podem vir dos céus, inclusive com grande violência. 

HESPÉRIDES

Dragões e serpentes na mitologia costumam exercer a função de guardiões, servindo de exemplos o de Delfos, de nome Piton, morto por Apolo, e o de nome Ladon, que dava assistência às ninfas do poente, as Hespérides, que guardavam no seu jardim os pomos de ouro recebidos por Zeus e Hera, da Mãe Geia, quando de seu casamento (3º trabalho de Hércules).

SÃO  JORGE  E  O DRAGÃO  ( PAOLO  UCCELLO, 1397 - 1475 )


A arte, a escultura principalmente, é de grande valia para o estudo dessas criaturas, muito usadas, pelo seu hibridismo, para marcar certas fronteiras e  limites entre o demoníaco, o humano e o sagrado. No Antigo Testamento, o dragão está na causa da morte, do afastamento do divino, e na origem do pecado. Estas ideias foram levadas para o Novo Testamento, passando o dragão a representar tudo que era de Satã e obra dele. O dragão foi muito usado pela Igreja Católica para simbolizar também a heresia. 

Na Idade Média, como se sabe, no seio da cristandade, surgiram várias heresias e cismas; quanto às primeiras, negações de doutrinas da Igreja oficialmente definidas e, quanto aos outros, movimentos de deliberada separação para a constituição de um corpo separado. O grande símbolo destes movimentos separatistas era o dragão, tendo sido fundadas diversas ordens de cavalaria que tinham por objetivo a “morte do dragão”, como foi o caso, exemplificando, da cruzada contra Jan Hus, reformador religioso tcheco (séc. XV).

Na Idade Média cristã, as bestas míticas perderam um pouco a sua dimensão de inimigas da ordem cósmica e da sua grande ferocidade, tornando-se, em muitos casos, símbolos das paixões humanas e dos ataques do mundo sobrenatural àqueles que pretendiam trilhar o caminho da ascese cristã. Por essa razão, por exemplo, o Lycorne (Lyon Cornu, Leão de Chifre), símbolo do signo astrológico de Capricórnio foi transformado no doce e gentil Unicórnio sob as carícias da Dame, como temos no fantástico  conjunto das seis tapeçarias de La Dame à la Licorne, confeccionadas entre 1484 e 1500, por Jean La Viste, hoje no Museu Nacional da Idade Média, nas Termas de Cluny, em Paris, França.


Este conjunto forma uma alegoria dos cinco sentidos, que se fecha, na sexta tapeçaria, com uma frase que a encima: À mon seul désir, ou seja, segundo o meu livre-arbítrio, sem nenhuma sujeição ao que os sentidos pedem. Esta tapeçaria lembra, sob o ponto de vista astrológico, que o caminho de Leão, quinto signo zodiacal, até Capricórnio, o décimo, passa obrigatoriamente pela Dama (sétima casa astrológica), pela integração do masculino e do feminino. Ou seja, o nosso caminho de Leão, que tem a ver com a conquista de um eu autônomo, até Capricórnio, simbolizado por picos de montanhas, tem que admitir a participação do outro, a sétima casa astrológica, Libra, a Dame da tapeçaria, e o controle dos nossos desejos pessoais. É nesse sentido que Capricórnio (10) é duas vezes Leão (5).   

ILUMINURA ,   IDADE   MÉDIA

Historicamente, é oportuno lembrar que no final da Idade Média, com o término das guerras e das cruzadas (a violência permitida em nome de Deus, segundo tese de Santo Agostinho), os cavaleiros voltaram para os castelos, para os seus feudos. Embora aristocratas (aristocracia: governo dos bons), eram grossos, boçais, sujos e mal-educados. Alguns meios católicos procuraram, pelo incentivo da adoção de regras de boas maneiras, da cortesia & mesura, amenizar um pouco esse cenário de deseducação e ignorância, movimento que recebeu uma apreciável contribuição da arte, principalmente da produção poética da época.  A tapeçaria acima mencionada pede obrigatoriamente referências a este contexto histórico e à matéria astrológica para um melhor alcance de todas as suas possibilidades significativas. 



quinta-feira, 18 de março de 2021

OS SÍMILES EM HOMERO

                                   

Os povos da antiguidade sempre perceberam que todos os animais e vegetais estavam impregnados de uma parte, maior ou menor, da energia que animava o universo, e muitas tradições consideravam esta energia como divina. As características de muitos animais (todos?) foram parar nas religiões, devidamente sacralizadas. Assim, serpentes, vacas, leões, peixes, toupeiras, águias, ratos, panteras, escorpiões e outros foram adotados para representar o poder  de deuses, de semideuses, de heróis ou simplesmente algum aspecto do caráter de seres humanos.

Os antigos cultos dos povos predadores, caçadores e/ou guerreiros, bem antes do domínio das religiões patriarcais, se caracterizavam por uma grande quantidade de representações animais, que hoje sobrevivem, por exemplo, no círculo zodiacal, na arte, na literatura, na comunicação de massas ou na linguagem informal do homem comum. O cristianismo fez grande uso de símbolos animais, bastando apenas lembrar as representações de três dos evangelistas Mateus (anjo), Lucas (boi), Marcos (leão) e João (águia). Cristo foi representado pelo cordeiro, o Espírito-Santo por uma pomba e os primeiros cristãos por peixinhos.


MATEUS                 JOÃO                  MARCUS               LUCAS

O que nos fica destas representações é que os animais sempre foram considerados como receptáculos da energia cósmica. Os bestiários (compilações medievais, geralmente em versos, de narrativas alegóricas sobre animais fabulosos ou reais) estão repletos de exemplos. Muitos animais, nesse imenso contexto, foram usados para representar aspectos negativos ou não da natureza humana. A serpente, por exemplo, “domesticada” pelo homem, ganhou asas para que se representasse positivamente o controle da vida instintiva. É por este entendimento que uma das obras de arte mais famosas da cultura ocidental, a tapeçaria de La Dame à La Licorne, hoje em Paris, no Museu de Cluny, em Paris, França, numa “leitura” mais culta pode ser levada também para a Psicanálise. 

LA DAME À LA LICORNE

Aventurando-nos na Ilíada, seus símiles (figura de Retórica que estabelece uma comparação entre dois termos de sentido diferente, que podem ou não estar unidos por expressões comparativas, a expressão "assim como") de animais são entendidos sem problemas pela maioria dos seus leitores. A tradição literária europeia, inclusive a popular, desde a antiguidade, já continha numerosos exemplos nesse sentido. Em Homero, os símiles de animais, de fácil entendimento, dentre outras coisas, tinham a pretensão de animar os auditórios, de elogiar personagens, denegri-los, provocar o riso etc. 

A Ilíada, como sabemos, cujo texto é classificado como um poema épico, tem a sua ação centrada na Idade dos Heróis, falando-nos ele de uma guerra de conquista. Problemas éticos e psicológicos dos heróis e demais personagens desta epopeia, têm, pela habilidade do poeta, como se pode constatar, relação com símiles de animais sempre associados ao tema, leão (animal bélico por excelência), leopardos, lobos, javalis etc. É de se lembrar, também, que os símiles de animais em Homero têm por objetivo não só a ampliação da narrativa, pelas conexões que obrigam o leitor (ouvinte) a fazer, como permitir-lhe assimilar aspectos de animais à aparência e à personalidade de um personagem.

MENELAU
Exemplo: Menelau, no canto III, por exemplo, ao avançar com passo arrogante à frente do seu exército, ao ver Páris, é comparado a um leão esfaimado quando encontra um cervo morto ou uma cabra selvagem para devorar. Além de animais, lembremos, são usados também na Ilíada, para símiles, elementos (o fogo, no caso, obviamente): guerreiros são associados ao elemento ígneo, lutando com o ardor do fogo chamejante; um herói em campanha é comparado a um incêndio na floresta; uma lingueta de flama surge na cabeça de Aquiles quando ele se dirige à trincheira para se opor  aos troianos. A deusa Fama, ao atuar, se inflama (canto II) etc.



PÁTROCLO


AQUILES
O que podemos destacar, porém, em Homero é que os seus símiles não podem ser definidos linearmente, não fazem parte de um vocabulário fixo de sinais aceitos e sem nenhuma ambiguidade. As imagens que Homero usa para nos falar do desejo ardente de vingança de Aquiles (causado pela morte de Pátroclo por Heitor) são retiradas do mundo animal. Heitor, antes de lutar com Aquiles, pede-lhe que o vencedor do combate devolva o corpo do vencido à sua família para as devidas exéquias. Aquiles recusa, demonstrando uma hostilidade implacável, cheia de ódio, a Heitor. A ilustração desta situação é feita através de símiles que tipificam a inimizade no mundo animal. Aquiles quer demonstrar o absurdo, o impossível, da proposta de Heitor. O poeta usa repetições (anáforas) para criar uma ênfase fortemente negativa, sugerindo, assim, o antagonismo entre animais para nos remeter à situação de Heitor diante de Aquiles. O poeta usa pares de oponentes: leões e homens, lobos e ovelhas. Ou seja, Aquiles está do lado dos leões e dos lobos, Heitor estará do lado de homens e ovelhas. Tanto a psicologia e os costumes sociais desses animais nos dizem que leões e lobos jamais farão contratos como Heitor propusera. 

Aquiles usa repetidamente símiles sobre os seus sentimentos, numa espécie de auto-exposição constante. Nosso herói, lutando pelos gregos, por Agamemnon e Menelau, sente-se como uma ave-mãe sofrendo na busca de petiscos para os seus passarinhos. As comparações continuam: ao combater em Troia, Aquiles não teme ser morto por Heitor ou por Páris, uma morte digna talvez, mas teme ser morto como um porqueiro miserável afogado no rio Escamandro. 



PÁRIS  E  MENELAU

A semelhança entre guerreiros e animais é grande: Aquiles “olha como uma fera”, seus “olhos de leão chamejam”. Os animais em Homero têm um sistema emocional e racional-mental parecido com os dos homens. Os animais têm, como os humanos, kardia, thymos, phrenes, órgãos que falam, em Homero e em toda a antiguidade grega, de um princípio de vida, de sentimentos, de paixões, de entranhas que ditam comportamentos.

HOMERO
Para Homero, homens e animais tinham em comum uma emoção a que ele deu o nome de charne, algo semelhante ao que provoca uma excitação que se apossa do guerreiro quando convocado para a  luta. Essa exultação, associada a alke, coragem, que combinada com a força física mais a areté (qualidade, aptidão), constitui a base da virtude bélica para os gregos. Alke tem também um outro sentido: é a pulsão que leva homens e animais a chegar a extremos numa batalha, extremos que podem inclusive lhes causar a morte. É de se lembrar que o primitivo nome de Hércules, o famoso Leontohymon (Coração de Leão), era Alcides, Alkeides, nome proveniente de alke, força em ação. O apelido de Coração de Leão o nosso herói, como se sabe, o conquistou quando realizou o seu quinto trabalho, associado ao signo astrológico de leão, matando o leão de Nemeia.


HÉRCULES E LEÃO DE NEMEIA
As associações e relações podem prosseguir: lembre-se que Nemeia é nome que tem relação com um bosque e uma cidade da Argólida. Foi no bosque de Nemeia que Hércules enfrentou e venceu o monstruoso animal, filho de Ortro, outro monstro, cujos pai e mãe eram, respectivamente, Tifão e Équidna. Eram irmãos do Leão de Nemeia, dentre outras, figuras tenebrosas do mundo animal como Cérbero (cão infernal de três cabeças) e a Hidra de Lerna. 



HIDRA DE LERNA  ( VASO GREGO
)


NÊMESIS
Ainda cabível me parece lembrar outra relação: Nemeia, do verbo nemein, como se disse, traduz sempre uma ideia de se distribuir conforme o costume, isto é, equitativamente, de modo que o que cada um venha a obter não ponha em risco o mundo dos homens e a própria ordem cósmica como um todo. É desse contexto que sai uma das principais figuras da mitologia grega, a deusa Nêmesis, que simboliza, como as Erínias, não só a justiça primitiva dos deuses como a força divina que há de se opor aos que tentam ultrapassar o seu métron.   


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A QUESTÃO HOMÉRICA E A ILÍADA (3)



O   RAPTO   DE   HELENA ( FRANCESCO PRIMATICCIO , 1504 - 1570 )
                                          
Como antecedentes do poema, o mais notável fato é o rapto de Helena, rainha de Esparta, mulher de Menelau, por Páris, príncipe troiano, filho de Príamo, rei de Troia, e de Hécuba, sua mulher. São irmãos de Páris, dentre outros, Heitor, casado com Andrômaca, e Cassandra, vidente, gêmea de Heleno. A fim de reparar essa afronta, os gregos, sob o comando de Agamemnon, rei de Micenas, casado com Clitemnestra, irmão de Menelau, organizam uma expedição para resgatar Helena, que era irmã de Clitemnestra. Os gregos têm na sua expedição, como figuras principais, famosos guerreiros, Ajax, Diomedes, Ulisses, Nestor, Pátroclo e Aquiles, este o mais destemido de todos, filho de Peleu e de Tétis, divindade marinha.


GUERRA  DE  TROIA
( J.G.TRAUTMANN, 1713 - 1769 )
O poema relata apenas um curto período da guerra de Troia, então no seu décimo ano. Os ouvintes de Homero estariam no entanto familiarizados com os acontecimentos anteriores, aos quais o poeta ia se referindo no decurso da história cantada, acompanhada pelo phorminx (instrumento musical), ou simplesmente narrada.

Nesse sentido, a história começa em tempos muito
LAOMEDONTE
( G.TROPPA , 1637 - 1733 )
recuados, quando da construção das muralhas da cidade, protegida por Zeus, rei dos deuses. Governava-a, ao tempo da construção, Laomedonte, que tivera a ideia de cercá-la, tornando-a inexpugnável. Como a cidade prosperava rapidamente, ele não descansou enquanto não viu erguida uma grande e protetora muralha à sua volta.  

Para construir a proteção idealizada, Laomedonte invocou e obteve a ajuda divina. Poseidon, irmão de Zeus, grande divindade dos oceanos e dos mares, ofereceu-se para ajudar os troianos mediante algumas recompensas. Todavia, terminada a construção da impenetrável muralha, os troianos se recusaram a cumprir o trato feito. Poseidon retirou a sua proteção de Troia, tornando-a vulnerável a ataques, apesar das suas poderosas muralhas


PARIS
Troia, por ocasião da guerra, era governada pelo rei Príamo, filho de Laomedonte, casado com Hécuba, princesa da Frígia, que, de acordo com algumas versões, lhe deu catorze filhos, citando-se, dentre eles, que nos interessam mais de perto, o nobre Heitor, a profetisa Cassandra, o vidente Heleno e o belo Páris. Quando estava grávida de Páris, Hécuba sonhou que este filho seria a causa da destruição total da cidade, sonho confirmado por um oráculo. Para o bem de Troia, entretanto, Hécuba decidiu abandonar o filho à morte, expondo-o no monte Ida. Mas Páris foi salvo por pastores e cresceu como um deles, ignorando a sua origem real. 

Bem antes do início da guerra, Zeus decidira que Tétis, uma nereida, se casaria com Peleu, um mortal, rei de Ftia. Desta união nasceria Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos. Toda a sociedade olímpica foi convidada para a festa, com exceção, por razões óbvias, de Éris, a deusa da discórdia. Vingando-se da afronta, Éris lançou ao salão onde se realizava a festa um pomo de ouro, com  a inscrição “à mais bela”. Tanto Hera, esposa de Zeus, como Palas Athena, deusa virgem, e Afrodite, deusa do amor, reclamaram o pomo dourado, pedindo que Zeus arbitrasse a disputa, o que ele sabiamente recusou, fazendo-se substituir, por uma escolha feita ao acaso, por Páris, que vivia como um pastor perto de Troia.  


O  JULGAMENTO  DE  PARIS  ( P.P.RUBENS , 1577 - 1640 )

As deusas, interessadíssimas na disputa, foram então a Páris e tentaram suborná-lo, prometendo-lhe, cada uma delas, o que julgaram ser o melhor para ele. A deusa Hera ofereceu-lhe o continente asiático com todas as suas riquezas; Palas Athena,  poderosa filha de Zeus, ofereceu-lhe a sabedoria e a vitória em todas as batalhas; Afrodite ofereceu-lhe o amor na pessoa da mais bela mulher do mundo, a espetacular Helena, casada com Menelau. Páris optou pela oferta de Afrodite. As duas deusas preteridas tornaram-se de imediato grandes inimigas da deusa do amor, inimigas implacáveis, e, como tal, dispostas a causar a destruição de Troia. 

HELENA   E   PARIS  , 1788  ( J. L. DAVID )

Pronto para a conquista de Helena, Páris dirigiu-se antes ao palácio real de Troia, onde foi reconhecido por Cassandra e aceito por Príamo como seu filho legítimo. Rumou em seguida para Esparta, sendo recebido na corte de Menelau, que dela se ausentara momentaneamente por questões de família. Ajudado por Afrodite, conquistou rapidamente Helena e a levou para Troia. Quando voltou a Esparta e soube do motivo da partida da mulher, Menelau convocou um grande número de chefes gregos para irem com ele, com os seus exércitos, atacar Troia e trazer Helena de volta. É de se lembrar que em tempos idos estes chefes gregos, convocados por Menelau, tinham também cortejado Helena e firmado um acordo: ajudar aquele que conseguisse o amor dela e vingar qualquer desonra que sobre o futuro marido viesse a recair por sua causa. Foi assim que Páris pôs em andamento a concretização da profecia oracular que causaria a destruição de Troia.

Muitos dos chefes gregos, além disso, desejavam há tempos saquear a rica cidade asiática. Sabiam, entretanto, por sentença oracular, do destino que os esperava se partissem sem que uma condição, muito importante, fosse observada: Aquiles deveria obrigatoriamente participar do empreendimento. Ulisses, grande chefe grego, por outro lado, fora avisado também de que a sua participação na guerra o levaria a uma ausência de vinte anos do seu reino. Simulou então o rei de Ítaca uma espécie de loucura para não participar da expedição a Troia. Desmascarado, acabou por decidir-se a ir. 

AQUILES  MERGULHADO  NO  RIO  ESTIGE ( A.BOREL , 1743 - 1810 )

Aquiles, como combatente, era praticamente invulnerável porque ao nascer a mãe o havia mergulhado nas águas do Estige, rio infernal, tornando-o imortal, excetuada esta condição por um ponto, o calcanhar, por onde a mãe o segurara. Mais tarde, como narra o poema, uma flecha, guiada pelo deus Apolo, atingirá este ponto, matando nosso herói. Aquiles também estava ciente de que, se fosse à guerra, morreria jovem. Para livrar o filho de uma morte prematura, Tétis disfarçou-o com roupas de mulher, escondendo-o. O astucioso Ulisses descobriu o ardil, o que forçou Aquiles a se envolver na luta.

AGAMEMNON
Agamemnon, irmão de Menelau, foi eleito comandante de todos os exércitos gregos. Cerca de mil navios foram preparados para levar as tropas gregas às costas troianas, através do mar Egeu. Os ventos, contudo, quando da partida dos gregos, cessaram completamente, impedindo a partida do porto de Aulis. Consultado um oráculo através de Calcas, o adivinho da expedição, descobriu-se que Agamemnon tinha morto, numa caçada, uma corça consagrada
IFIGÊNIA  , 1788  ( J.L.DAVID )
a Ártemis, a deusa lunar. Nada faria a deusa perdoar a ofensa senão o sacrifício de Ifigênia, filha de Agamemnon. Em meio a grandes tormentos e angústias, Agamemnon mandou chamar a filha sob o enganoso pretexto de a casar com Aquiles. Clitemnestra, a rainha, mãe de Ifigênia, todavia, descobriu a trama mentirosa. No momento em que a jovem estava para ser sacrificada, acalmou-se a deusa, que desistiu da exigência que impusera, voltando os ventos a soprar, o que possibilitou a partida da frota grega para Troia. 

Depois de desembarcarem num lugar errado, os gregos acabaram chegando a Troia, cercando-a; numa das extremidades do território que ocuparam, ficou o valente Aquiles com os seus homens; na
ILÍADA 
outra, o famoso Ajax. Durante nove anos tentaram atravessar as invulneráveis muralhas. Enquanto não o conseguiam, assaltavam e pilhavam cidades e localidades próximas. Ao final do nono ano, um acontecimento precipitou, porém, os acontecimentos: capturaram os aqueus duas belas mulheres, Criseida, troféu destinado a Agamemnon, e Briseida, destinada a Aquiles. Assim começou realmente a Ilíada...

Aquiles é sem dúvida a figura mais importante do poema homérico. Tétis, a nereida, sua mãe, filha de Nereu e de Doris, era lindíssima, corteja por todos os deuses. Uma sentença oracular declarara que se um filho dela com uma divindade nascesse ele se tornaria mais poderoso que o pai. Os candidatos mais próximos, Zeus e Poseidon, logo desistiram da bela nereida e procuram alguém para se tornar o seu esposo. Dentre muitos candidatos, apareceu Peleu, que, orientado pelo centauro Kiron, conseguiu submeter a bela Tétis, apesar de suas sucessivas metamorfoses e disfarces. O casamento se realizou com grande pompa no monte Pelion, recebendo os noivos inúmeros presentes. Um acontecimento, todavia, perturbou a solenidade. A deusa Éris, a Discórdia, por não ter sido convidada, como se disse, jogou no salão em que se realizava a festa o famoso pomo da discórdia, de tão triste memória, causador, para muitos, da guerra de Troia...


KIRON  E  AQUILES  ( AFRESCO )
Depois de seis filhos consumidos pelo fogo, na ânsia de torná-los imortais, Tétis resolveu mergulhar o último nas águas do rio Estige, que tinham o poder de tornar invulnerável tudo o que fosse banhado por elas. Essa criança era Aquiles, cujo calcanhar, porém, não foi banhado pelas águas, pois por ali a mãe o segurara. Para os cuidados de sua educação,  Aquiles foi enviado à gruta do centauro Kiron. Consta que o centauro-mestre, ainda que não tivesse resolvido o problema da invulnerabilidade total de Aquiles, mas para aumentar o seu desempenho físico, operou o calcanhar do nosso herói, nele implantando um osso do gigante Dâmiso, o maior corredor que já existira, jamais vencido. 

O jovem foi muito bem tratado também pela mãe do centauro, Fílira, e por sua esposa, a ninfa Cáriclo. A partir dos doze anos, foi adestrado na caça, na equitação, na medicina e em outras artes; o centauro passou-lhe o respeito pelos mais velhos, e ensinamentos claros quanto à necessidade do que eram a defesa da honra pessoal (timé) e o amor à verdade. O jovem se alimentava das entranhas de leões e de javalis, da moelas de ursos, tudo para adquirir coragem, força e vigor. Do mel, recebia doçura, afabilidade. Ao chegar à gruta do centauro, o filho de Tétis chamava-se Líguiron (agudo, sibilante, gasguito).

Calcas, o adivinho, profetizou que a cidade de Troia só seria conquistada com a participação de Aquiles e que a guerra duraria cerca de dez anos. Tétis veio do fundo do mar e escondeu o filho, vestindo-o de mulher e passando a chamá-lo de Pirra. Assim, educado como uma jovem passou Aquiles muito tempo. Chegando a profecia ao conhecimento dos chefes militares aqueus, foram eles buscá-lo, sendo-lhes difícil reconhecer no meio das moças aquele que seria o maior guerreiro de todos os tempos. Acabaram por fim encontrando-o, resolvendo Ulisses o problema. Engajado, Aquiles partiu com um amigo, Pátroclo. Tétis sabia que o filho, se fosse a Troia, teria uma glória eterna, mas sua vida seria breve. Se não fosse, viveria muito, mas sem nenhuma glória. Aquiles, conhecendo o dilema, optou pelo morrer jovem.

Já no décimo ano da guerra que não se resolvia, Aquiles e Agamemnon tiveram  uma séria desavença. Este último teve que devolver, por imposição do deus Apolo,  ao pai, a sua escrava-amante. Irritado, para substituí-la, mandou buscar a escrava-amante de Aquiles, Briseida. Atingido em sua honra pessoal, Aquiles retirou-se da luta. A vitória dos aqueus ficou ameaçada. Tétis, a mãe do herói, subiu aos céus e foi pedir a Zeus que tornasse os troianos vitoriosos enquanto Aquiles não combatesse. Zeus atendeu-a; os acontecimentos começaram a favorecer os troianos, embora a guerra ainda não tivesse chegado ao seu auge. Diante da derrota iminente, porém, Agamemnon se retratou: devolveria Briseida e prometeu dar a Aquiles vinte escravas dentre as mulheres mais belas de Troia, além de, como prêmio máximo, lhe conceder,  como esposa,  uma de suas filhas. Aquiles se manteve irredutível na sua negativa.

PÁTROCLO   FERIDO
Nesse ínterim, Pátroclo, grande amigo de Aquiles, seu companheiro de tenda, numa ação individual, partiu em socorro dos gregos, desmoralizados por sucessivas derrotas. Aquiles consentiu que o amigo partisse, emprestando-lhe sua armadura. Pátroclo, numa escaramuça, acabou sucumbindo, golpeado por Heitor, herói troiano. Tomado por imensa dor, Aquiles se reconciliou com Agamemnon, voltando à luta, apesar de seu cavalo, Xanto, que tinha o dom da profecia, lhe ter anunciado sua morte próxima. Desprezando o aviso, avançou Aquiles contra os troianos. Heitor tentou atingi-lo. O deus Poseidon interveio, livrando-os do choque mortal. Depois de vários encontros, Aquiles e Heitor voltaram a se enfrentar. Zeus se decidiu pela morte do troiano. Ao morrer, Heitor falou a Aquiles sobre a hora de sua morte, que estava bem próxima. Aquiles, tomado pelo ódio, mutilou o corpo de Heitor, nunca esquecendo que ele matara Pátroclo. 



HEITOR   MORTO  ( LOUVRE )


Nesse ínterim, as Amazonas entraram na luta, em socorro de Troia. Aquiles, com requintes de selvageria, matou Pentesileia, a rainha das mulheres guerreiras. As lutas prosseguiam, o número de mortos aumentava. A cólera de Aquiles pela morte de Antíloco, filho de Nestor (depois de Pátroclo, era o amigo mais estimado por Aquiles),
AQUILES   FERIDO
foi enorme. Preparava-se o filho de Tétis para o assalto final às muralhas de Troia. Teria tomado a cidade certamente se o deus Apolo não o intimasse a parar a luta. Não sendo atendido, Apolo guiou uma flecha disparada por Páris para que ela atingisse o único lugar vulnerável do corpo de Aquiles, o calcanhar. Em meio a estertores, lançando gritos de cólera e dor, Aquiles tombou finalmente morto. A disputa pelo seu corpo foi grande, conseguindo Ulisses e Ajax recuperá-lo. Os funerais foram celebrados por Tétis, pelas Ninfas e pelas Musas. Athena passou ambrosia no corpo de Aquiles para que ele não entrasse em putrefação. Todos lhe prestaram homenagens até que o fogo acabou por consumi-lo totalmente. 

Uma versão nos informa que Aquiles teve suas cinzas reunidas às de Pátroclo e levadas para o alto de um promontório para que todos, inclusive os navegantes, vissem a urna funerária do grande herói e de seu amigo. Outras versões registram que Tétis levou a urna para uma ilha deserta, chamada Leuce, a Branca. Outros ainda contam que Aquiles, depois de morto, passou a "viver" nessa ilha, que fica na foz do rio Danúbio. Os navegantes narram, desde então, que durante certas noites são ouvidos, vindos da ilha, ruídos do entrechoque de armas, cantos guerreiros e de banquetes. Por fim, outras versões narram que o herói se encaminhou depois de morto para os Campos Elíseos, no Hades, onde se uniu a Polixena, uma filha de Príamo, rei de Troia, por quem sentiu grande amor. Outros dizem que o herói no Hades se uniu a Medeia ou com Ifigênia ou com Helena. A Odisseia nos mostra Aquiles entre os mortos num diálogo com Ulisses, quando este, realizada a  cerimônia de invocação das almas (nekyia), ouviu do eídolon do herói, arrependido, uma triste confissão, vinda do fundo de seu coração,  a de que teria preferido a vida longa, mesmo que na condição de um humilde servidor de um pobre camponês.


DIÁLOGO  DE  AQUILES  E  ULISSES  

Está hoje, devidamente assentado, por estudos históricos, arqueológicos, etnográficos, etnológicos, epigráficos, linguísticos (filologia histórica) e outros, que, por trás da Ilíada temos alguns fatos históricos bem determinados, ainda que o maravilhoso mítico poético a permeie do começo ao fim. Ninguém poderá negar que os aqueus, fundando Argos e Micenas, para sobreviver nos territórios em que se instalaram, só encontraram uma alternativa, a de buscar o mar. Pode-se inclusive admitir que se os personagens que tomaram parte na Ilíada, conforme Homero nos conta, eram fictícios, figuras do mito, a destruição de Ilion, como a de Creta, foram, ao contrário, acontecimentos bem concretos, reais, historicamente comprovados. 

Abrindo um parêntesis: este mesmo entendimento terá que ser levado também para  a abordagem da Odisseia. Em que pesem as diferenças entre os dois poemas homéricos, não podemos deixar de lado os fatos históricos nos quais a história de Ulisses encontra as suas melhores explicações e justificativas. Aborde-se a Odisseia pelo viés que se quiser, literário, mítico, linguístico etc., não há como se negar: a  Odisseia tem como base histórica principal a busca do estanho, metal inexistente no território grego.

Sabe-se que desde o período minoico, bem antes de 2.000 aC, o comércio marítimo cretense dominava o Egeu oriental. A utilização industrial do bronze era um fato que levava os cretenses a buscar no ocidente o estanho, metal que, embora em proporção não muito elevada, entrava obrigatoriamente na fabricação do bronze. Dirigiram-se assim os cretenses à Sicília, ao Adriático e a outros lugares para esse fim.




Quando os micênicos conseguiram penetrar em Cnossos, muitos séculos depois, saqueando e destruindo a cidade, Micenas se converteu na herdeira do comércio cretense, estabelecendo transações comerciais mais amplas com o ocidente, alcançando não só a Itália meridional e a Sicília como a Sardenha e a Espanha. Sabe-se, por exemplo, que no princípio do segundo milênio aC os povos que viviam na península ibérica já haviam começado a utilizar o bronze por influência dos navegadores egeus que  os visitavam. 

Enquanto historicamente a discussão das datas e fatos com relação à Ilíada apresenta poucas controvérsias, a referente à Odisseia alimenta um debate que vem se estendendo até os nossos dias, firmando-se cada vez mais, com relação a esta última, a chamada tese atlântica e, por isso, ficando bastante enfraquecida a posição dos defensores da tese mediterrânea. Ou seja, Ulisses teria ultrapassado as colunas de Hércules e navegado até o Atlântico norte, tendo chegado, quem sabe, à Islândia. Por um estudo mais acurado do texto homérico e com as contribuições a que acima nos referimos, é possível estabelecer hoje que é no canto V da Odisseia que começa o relato da navegação atlântica de Ulisses, que, como tudo indica, se baseava em descrições fenícias, conforme se descobriu posteriormente. 

Acrescente-se que os gregos micênicos, tendo adquirido um profundo conhecimento das técnicas de navegação, se guiavam muito bem pelas estrelas e, como observadores argutos, sabiam também se valer de outros fenômenos celestes. Nas suas observações, iam muito além do que sabiam os sacerdotes do santuário de Delfos, organizadores do imperialismo grego, que viviam fechados nos seus templos. 





Desde os micênicos que os gregos tinham como norma autorizar empreendimentos marítimos e viagens só entre março e outubro. Registre-se que o início anual da temporada marítima era determinado pelo aparecimento das Plêiades, grupo de estrelas situado no final da constelação de Touro. A etimologia do nome, Plêiades, nos remete ao verbo plein, navegar, em grego. Pela limpidez de sua visualização, a partir de maio, esse grupo, as Plêiades, ligava-se com muito destaque aos calendários agrícola e marítimo.

Os marinheiros gregos observaram, por exemplo, que no curso de suas aventuras marítimas em direção do sul a estrela Polar ia se acercando cada vez mais do horizonte. A medida de sua altitude, medida angular, lhes permitia avaliar a distância que percorriam. Os gregos se aproveitaram tanto das descobertas babilônicas como egípcias com relação aos céus, valendo-se delas inclusive com relação à construção de seus barcos. O trirreme grego, para navegação oceânica, com cerca de 40 m. de comprimento, como se comprovou, descendente direto dos barcos egípcios, era impulsionado por remos manejados com grande firmeza, por cento e quarenta e quatro remadores, podendo atingir uma velocidade de 22 km/hora. 


TRIRREME   GREGO 

De outro lado, muito próximos de cretenses e micênicos, por sua civilização e poder marítimo, os troianos constituíam-se num sério obstáculo para a expansão dos dois primeiros citados no Mediterrâneo. Era preciso, pois, destruir a talassocracia troiana para
RUÍNAS  DE  TROIA
não só dominar o Egeu oriental como penetrar na Ásia Menor (Anatólia). A invasão de Troia pelos micênicos se deu provavelmente entre 1.193 e 1.184 aC., como as mais recentes pesquisas históricas propõem.

Uma leitura atenta da Ilíada nos faz “sentir” que estamos diante de um texto que descreve uma guerra de conquista e que seus personagens parecem ter uma existência “real”. Ao lado dos aspectos político, social e religioso que a Ilíada apresenta, não há dúvida de que o poeta nos descreve com aceitável veracidade que o mundo micênico era constituído por um conjunto de grandes e pequenos reinos, bastante entrelaçados por razões de fidelidade ou vassalagem, dominado por uma voraz aristocracia guerreira.

As principais características do mundo grego de então foram bem destacadas por Homero, evidenciando-se dentre elas a riqueza de Micenas (riquíssima em ouro), a inexistência do cobre e do ferro, a
FUNERAL   GRÉCIA   ANTIGA
arquitetura dos palácios, a figura do anax (palavra que designa o rei, o senhor, que possui um poder que o situa acima do basileu, o simplesmente rei), o fausto dos funerais (Pátroclo), o megaron (grande sala, típica dos palácios micênicos), o costume de designar os aristocratas e mesmo os inferiores por meio de muitos epítetos, associados ao seu nome de família. 



Nesse mundo, circulava uma poesia transmitida oralmente, de geração em geração, de natureza áulica (do grego, aulé, palácio, e do latim aula, corte, sala do palácio), palaciana, com muitas fórmulas religiosas e militares. Tal poesia se renovava continuamente à medida que ia sendo cantada, sabendo-se, contudo, que os poetas (aedos ou rapsodos) guardavam na sua memória a totalidade dos versos, a maior parte deles constituída de frases feitas, constantemente repetidas. É de se notar que os epítetos abundantemente encontrados nos poemas homéricos, milhares de vezes repetidos, ganham destaque maior quando nos voltamos para os personagens mais importantes e para as grandes divindades, que chegam a ter em média uma dezena de apelidos, que pouco variam.

Tudo indica que Homero fazia-se entender perfeitamente pela aristocracia micênica, gente voltada para as armas e para o mar. Deixava essa poesia claro para eles que o presente era o passado constantemente renovado por aedos e rapsodos. Nesse discurso poético, toda a ênfase se concentrava sobretudo, na vida dos heróis, na qual se projetava a vida dos deuses, em conceitos que tanto enalteciam ou não verdades do espírito e do corpo. Por isso, em Homero, na Ilíada, principalmente, o destaque vai para palavras como kalon (belo), agathon (bom), kleos (fama, renome), timé (honra), areté (virtude, excelência), kakon (mal), É do mundo homérico que nos vêm palavras como xenos e barbaros. A primeira designa o grego que vivia no exterior, vindo de uma outra cidade grega, de uma colônia. Já o bárbaro não era grego, falava uma língua incompreensível. A palavra barbaro era uma onomatopeia evocativa de uma algaravia. Quanto à projeção do divino no humano, observe-se, por exemplo, o modo como Agamemnon exerce a sua autoridade, de modo muito semelhante ao despótico comportamento de Zeus no Olimpo, com relação aos seus pares divinos.

Qualquer que seja o viés adotado para nos aproximarmos dos poemas homéricos, o que fica claro ao final é que eles difundiram o “mundo dos gregos”, democratizando-o, fazendo-nos compreender o elevado conceito que eles tinham da sua própria cultura diante dos bárbaros. Ainda que reconhecendo o que deviam aos egípcios, cretenses, mesopotâmicos e a outros povos, eles sempre tiveram consciência de que levaram a eles, inclusive através de suas aventuras imperialistas, valores novos, por esses povos  ignorados, ou apenas conservados por eles num estado embrionário. 

A história do nascimento, da infância e da juventude e da vida adulta dos personagens heroicos  de Homero costuma se revestir de traços fantásticos, extraordinários, que vão sempre além da esfera do humano. A Grécia clássica procurou transmitir para as gerações futuras uma visão sublime desses heróis. Na realidade, entretanto, não era bem assim. Os heróis gregos, como já se observou,  são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. São apresentados como invulneráveis ou quase, mas podem ser abatidos (Aquiles). Têm graça e beleza, mas podem ser monstruosos (o gigantismo de Hércules, de Aquiles, de Teseu). São, na realidade teriomorfos, andróginos, mudam de sexo, adotam o travestismo, transitam entre o masculino e o feminino (Aquiles foi chamado de Pirra, a Vermelha), têm anomalias físicas (Hércules tinha três fileiras de dentes, era também chegado ao travestismo), têm problemas nos pés (Édipo), são transformados em serpentes (Cadmo). Com muita facilidade são tomados por monstros e demônios, pela loucura (Lyssa), pelo Erro (Até), pela Discórdia (Éris), no que acompanham as próprias divindades. A maior parte dos heróis gregos tem um comportamento sexual aberrante, cometem estupros, atacam os próprios deuses,  têm acessos de cólera sem nenhum motivo, desrespeitam de um modo que beira a anarquia as normas de convivência e regras de civilidade. 


GIGANTOMAQUIA  ( P. P. RUBENS , 1577 - 1640 )

Os excessos heroicos, a rigor, não têm limites. Violentam deusas (Orion, Ixion), são sacrílegos (Ajax agride Cassandra em recinto sagrado), são hétero e homossexuais (Hércules, Aquiles), no que, aliás, imitam os próprios deuses. Certamente, o traço mais característico e específico do herói grego era a hybris, a desmedida, em escala superlativa. Embora punidos e castigados, tentarão sempre enfrentar os deuses, como se fossem iguais a eles, podendo, contudo, ajudá-los (Gigantomaquia). Ambivalentes e monstruosos, os heróis gregos, pelo seu comportamento, lembram a fluidez dos tempos primordiais, quando os elementos constitutivos do cosmos ainda não haviam se assentado. Um período onde as irregularidades e os abusos eram comuns, período do cosmos ainda em formação. Com o "mundo dos homens", onde as desmedidas, as explosões temperamentais e os excessos físicos e emocionais devem ser proibidos, ou, pelo menos, controlados, os heróis tornaram-se figuras extravagantes. Com eles, encerra-se o chamado período heroico da mitologia grega, definido por Hesíodo. 

Os heróis gregos enquanto simbolizam propostas de impulsos evolutivos revelam também a situação de conflito do psiquismo humano, pelos combates, em última instância, que nele se travam entre as forças da luz (atributos solares) e as forças das trevas (monstros, malfeitores, gigantes), de tendências regressivas, uma espécie de Fatum a persegui-los. Sempre a vida como luta (agonística), como criação de novas formas de relacionamento com o mundo, a partir das lutas internas, as conquistas sempre ameaçadas de dissolução. Um processo de interiorização e de exteriorização constantes. Pressões internas, projeções imaginárias, temores, fobias, tentações, dúvidas. De outro lado, o mundo com seus monstros, dragões, seres ameaçadores, sedutores. Ao lado dos ingredientes da vida heroica, da excepcionalidade no seu agir (areté) e da honorabilidade pessoal (timé), que estão na base das vitórias interiores, sempre, por outro lado, as ameaças de origens inconscientes, a vaidade, o renome através da consideração pública.


 HERÓIS   GREGOS   

Os heróis de Homero “viveram” entre um período histórico que vai do Heládico recente ao início do Arcaico. Na escala dos metais, faziam parte da chamada idade do bronze, um período da civilização que veio depois do chamado período calcolítico. Todo o período do bronze é conhecido pelo desenvolvimento da tecnologia desse metal, o bronze, essencial para a civilização grega desse período, período este situado entre o fim do neolítico e o começo do arcaico, dominado pelo ferro.

Os guerreiros que participaram da guerra de Troia eram responsáveis pela confecção de suas próprias armas, sendo muito usados na Ilíada o substantivo khalkos  (bronze), e o adjetivo khalkeion (brônzeo) embora Homero, que viveu na idade do ferro, se traísse, usando vez ou outra o substantivo sideros (ferro), como na passagem (Ilíada, IV) em que faz a descrição da flecha de Pândaro, com ponta de ferro, que fere Menelau.

Ficamos espantados até hoje quando tomamos conhecimento das características das armas ofensivas e defensivas usadas na Ilíada, designadas indistintamente pelo vocábulo teukhos (equipamento, utensílio). Chama nossa atenção, por exemplo, quanto às armas ofensivas, de dois tipos, as lanças, um chamado dory e outro enkhos. O primeiro tipo era pontiagudo e brilhante, bem menor diante do outra. Idomeneu, porque gostava de usar essa lança,  era conhecido pelo apelido de douriklytos (o famoso pela lança dory). A outra lança chamava a atenção pelo seu tamanho, pois “projetava a sua sombra longe”. A lança de Heitor, por exemplo, tinha onze 
TEXTO  DA  ILÍADA
côvados, o que equivale  a mais ou menos sete metros de comprimento. A lança de Aquiles, pelo seu peso, não podia ser manejada por ninguém a não ser ele. Quando Pátroclo, que era fortíssimo, tentou usá-la, não conseguiu, faltou-lhe braço para tanto. Esta grande lança do Pelida fora um presente de Kiron a Peleu, pai do nosso herói.  Muitos heróis da Ilíada gostavam de usar junto de sua espada (xiphos), na cintura, uma espécie de facão, de grande punhal (makhaira), que tanto servia para fazer cirurgias como sacrifícios. 

Os combates da Ilíada privilegiam a luta corpo-a-corpo. Há bem menos referências a lutas travadas à distância. Entre os aqueus, por exemplo, Teucro, irmão bastardo de Ajax Telamônio, embora sobrinho de Príamo e tendo participado ao lado do irmão junto dos gregos, era um exímio arqueiro. Na Ilíada, entre os arqueiros, sempre considerados negativamente,  indignos,  sem ardor, podemos citar Pândaro e Páris.  

Famosas na Íliada eram as couraças (thorakes) como armas defensivas, feitas de bronze (khalkeothorekon). A mais famosa era a de Aquiles, fabricada por Hefesto, “mais brilhante que os raios de fogo”. Outra couraça famosa foi a que Agamemnon ganhou de Ciniras, rei de Chipre, profusamente decorada. Os gregos davam o nome de mitra a um cinturão largo. Quando em combate, davam preferência a um tipo especial chamado zoster, que cobria a parte inferior da couraça. 


AQUILES  ,  O   HERÓI

Homero sempre usou para descrever as armas dos heróis da Ilíada uma adjetivação extremamente favorável: “armas nobres e ilustres”, “armas belas”, “armas policromadas, esplêndidas”, “armas brônzeas”. As armas do Pelida eram “extraordinárias (pelotia), admiráveis (thauma), belas (kala), nobres (aglaa)”. O escudo (aspis) do Pelida, por exemplo, era uma obra de arte: dele faziam parte cinco camadas, duas de bronze, duas de estanho e uma de ouro. 

Além da proteção da cabeça, do peito e dos braços, os heróis homéricos usavam uma proteção para as pernas, as chamadas grevas (knemides), uma armadura de metal, composta de placas, que iam do joelho até os pés. As belas grevas de Aquiles, fabricadas por Hefesto, eram feitas de estanho, com fivelas de prata. Para a proteção da cabeça, os heróis usavam o elmo (korys), um capacete feito geralmente de bronze, enfeitado com penachos de crina de cavalos. O penacho do capacete de Aquiles era dourado. 

Depois da morte de Aquiles, as suas armas  deveriam ser entregues ao melhor dos guerreiros aqueus depois dele. As armas seriam, então, de Ajax Telamônio, o melhor, excetuando-se Aquiles. Todavia, as armas foram entregues a Ulisses, o que provocou a ira do Telamônio. A competição entre Ulisses e Ajax pelas armas do Pelida foi vencida pelo primeiro, mais por causa da sua eloquência do que pelos seus méritos bélicos. Os chefes gregos que as destinaram ao rei do Ítaca levaram mais em consideração o discurso de Ulisses do que as suas virtudes (areté), suas habilidades no campo de batalha. A prevalecer estas últimas, as armas deveriam certamente ter ido para as mãos do Telamônio. Desta areté, lembre-se, faziam parte, para o herói homérico, não só a vitória, ou seja a morte do inimigo, como a ação de despojá-lo de suas armas, belíssimas no geral, e de ultrajar o seu cadáver. 

A fim de se ter uma ideia de conjunto da Ilíada, para estudo, acho interessante fazer um resumo dos cantos, antes de se explicá-los, com a expectativa de que esta seja a primeira camada de uma leitura que ao correr dos anos vá se estratificando de modo a que novas camadas possam não só ir se depositando sobre a anterior, mas completando-a, alargando-a, consolidando-a e jogando-nos noutras direções. Acredito que já tenha sido possível perceber que a leitura (o estudo, melhor dizendo) dos poemas homéricos é algo que demanda vontade, tempo e persistência.  O estudo dos temas e subtemas que dele fazem parte se constitui certamente num projeto que se inscreve naquilo que os antigos chamavam de erudição e que lembra também o que entendemos por esotérico. A erudição nos lembra algo que vai se formando, se construindo, e, como tal, é algo que não se realiza nunca. Já o esoterismo aponta para o que é reservado ao interior a poucos; por isso, por oposição ao exotérico, o que, do primeiro, pode ser difundido no exterior, sempre bem menos do que naquele se contém, se aprofunda e exige. Por isso, o exotérico é acessível a um público bem maior, no geral apenas curioso e diletante. 

ODISSEIA , EDIÇÃO  DE  1815
Cabe ainda lembrar que um bom número dos antigos estudiosos gregos das duas epopeias dividiram-se em dois grupos, os unitários e os separatistas. Os primeiros sempre achando que os dois poemas haviam sido escritos por um mesmo poeta (ou por um mesmo grupo). Os outros eram partidários daqueles que atribuíam uma autoria diferente aos poemas. Para estes, A Ilíada seria efetivamente um poema histórico, épico, ou seja, homérico, enquanto a Odisseia seria mais um romance (o primeiro romance escrito), mais fantasioso, “romanesco”. Unitários ou separatistas, cada grupo, ao longo dos séculos, sempre defendeu o seu ponto de vista com muita garra, recheando-o de muitos argumentos, dados e citações. Já ao tempo dos antigos gregos, observe-se, dava-se o nome de corizontes aos defensores do ponto de vista separatista, do verbo grego chorizein (separar).