sábado, 17 de setembro de 2011

A PEREGRINAÇÃO


A palavra está relacionada com terras, campos (ager, agri). Peregrino era aquele que viajava, que atravessa territórios, só ou em grupos. As peregrinações, nos primeiros tempos do Cristianismo, eram feitas normalmente a Roma ou a Jerusalém, tomando o nome de romeiro aquele que ia em peregrinação a Roma. Os motivos eram obviamente sempre religiosos, sendo depois a palavra usada para designar aquele que fazia viagens longas e exaustivas a terras distantes, não só a Roma, no próprio país ou ao exterior. Algumas vezes, a palavra peregrino admitia pejorativamente o sentido de mendigo de estrada, nômade, vagabundo, pedinte. No geral, o sentido da viagem é religioso, devocional. Para alguém se tornar peregrino exige-se normalmente uma preparação prévia, a ser desenvolvida como uma espécie de maturação no transcurso da viagem, unindo-se a tudo isto ideias de meditação, de reflexão e, ao final, de uma transformação, de uma mudança de vida, antecedida por uma espécie de morte simbólica e seguida pelo "nascimento" de um novo ser. Diferia a peregrinação ou romaria da procissão enquanto esta, de caráter solene, era feita pelas ruas de uma cidade, em que religiosos saíam paramentados, carregando imagens, andores etc., seguidos pelos fiéis, formados em alas, entoando canções ou rezas. Com o tempo, esta distinção deixou de existir, usados os termos peregrinação, romaria e procissão muitas vezes como sinônimos.


ROMEIROS DE SÃO MIGUEL

A peregrinação tem por objetivo não só a chegada a um determinado e consagrado lugar, espaço cultual (memorais, sepulturas de santos, templos, santuários), como o lá se chegar num estado de alta elevação espiritual através da qual seja possível a metanoia, uma conversão espiritual. Na antiga Grécia, estas eram as propostas que inspiravam, por exemplo, as peregrinações de caráter solene, sob a proteção do deus Dioniso, que se faziam no fim do Outono a Elêusis, ao santuário de Deméter.

SANTUÁRIO DE DEMÉTER EM ELÊUSIS

O mystes, o iniciado, devidamente instruído por um mystagogo, entre a Primavera e o Outono, ia a Elêusis "morrer" simbolicamente, como a semente no interior da terra morria para dar lugar a um novo ser vegetal. No mundo judaico-cristão, famosas são, ainda hoje, as peregrinações a Santiago de Compostela, Lourdes, Roma ou Jerusalém, que quase chegam a ter tanta importância quanto aquela que os muçulmanos fazem a Meca ou que hinduístas fazem à cidade santa do deus Shiva, Varanasi, para ali se banhar no Ganges, lugar onde as águas do rio são mais sagradas, ou as que se fazem por ocasião da Kumbha Mela (Assembleia de Aquário), a cada doze anos, em Prayag (Allahabad), a maior festa religiosa do mundo.

KUMBHA MELA


Vestígios de peregrinações na pré-história são encontrados ainda hoje, conforme muitos arqueólogos entendem, no que sobrou de construções megalíticas (menhirs, pedras longas, em bretão, sendo men, longo, e hir, pedra) como as da Bretanha,
perto de Carnac. O local era um centro de peregrinação em períodos solsticiais. Outra tradição, que também deixou muitos vestígios, sãoperegrinações a lugares montanhosos. As montanhas, como espaçossagrados, participam do simbolismo do centro, da altura, da verticalidade, da estabilidade, da imutabilidade. Aproximando-se do céu, as montanhas tornaram-se centros preferidos de peregrinação ao favorecer, pela proximidade com o céu, as trocas entre o divino e o humano. Vistas de baixo, convidam a buscas ascensionais, a uma escalada. Vistas de cima, são portas de entrada do divino no humano


PROCISSÃO DE SANTA SARA EM LES SAINTES - MARIES -DE -LA - MER

Outra questão que a peregrinação propõe é que ela pode envolver um movimento de símbolos e de objetos sagrados, no sentido de atrair bênçãos especiais para um lugar ou outro, como, por exemplo, aumentar a fertilidade dos campos, fazer chover etc. Bênçãos por pessoas devidamente qualificadas, podem chamar a proteção divina a favor de alguém, de um lugar, de uma comunidade. Pela bênção opera-se uma transferência de forças. Abençoar, benzer, é benedicere, dizer boas palavras que invoquem a graça divina. A proximidade física do objeto sagrado, uma imagem, por exemplo, pode criar condições para a manifestação das forças divinas. Divindades ligadas à fertilidade, como Hertha ou Nerthus, a Mãe-Terra, dos povos germânicos, eram conduzidas numa carroça pelos campos para aumentar a sua fertilidade. A carroça, desde a invenção da roda, é um atributo de divindades que fertilizam, que fecundam. Se nela vier a imagem de uma deusa, cuja carroça seja puxada por bois, como a mencionada Nerthus, presentes com maior força as ideias de fertilidade, de crescimento da vegetação, de trabalho produtivo da terra, de abundância.

As peregrinações que transportam objetos sagrados têm também, dentre outros propósitos, o de se constituírem numa declaração pública de fé através da qual a influência do lugar sagrado é ampliada, estendida a outras áreas, até a outros países. No Cristianismo, um dos exemplos deste propósito é o da procissão de Corpus Christi, estabelecida em 1264 pelo Papa Urbano IV. No antigo Egito, a localização geográfica de um deus e de seu culto são sempre mencionados, ao lado de seus epítetos e de suas funções. Se um deus tem muitas qualificações, os egípcios as atribuíam ao fato de ele "gostar" muito de viajar, de ser muito hospitaleiro. Os deuses conquistadores, no antigo Egito, viajavam muitas vezes para se apoderar do território de outros deuses. Os deuses mais importantes possuíam "dependências de repouso" fora do seu território, às vezes um bosque sagrado. As peregrinações divinas eram geralmente feitas pelo rio Nilo, citando-se o caso de barcos de grande divindades, verdadeiros templos flutuantes, que alcançavam o comprimento de quase 80 metros.

Ainda hoje, apesar da invasão da área pela indústria turística, a intensidade do fenômeno da peregrinação é grande, desde as visitas a antigos santuários orientais, de antes de nossa era, até as peregrinações contemporâneas muito bem organizadas, como as de Meca, Lourdes, Fátima, Compostela, Les-Saintes-Maries-de-la-Mer (ciganos devotos de Santa Sara), ou mesmo à nossa Aparecida. Apesar da constante e contínua dessacralização dos lugares sagrados no mundo todo ser, por várias razões, um dado evidente e inquestionável, o fenômeno ainda é muito significativo, tem peso, ganhando inclusive grande destaque, sob a rubrica de "turismo religioso", nos fôlderes de muitas agências de turismo. Esta importância se deve evidentemente à sua principal característica, a de ser um fenômeno de massa, de ter essencialmente um caráter qualitativo. Este caráter é que o torna passível de regulamentação, tanto com relação ao fluxo (caminhos, meios de transporte etc.) como com relação a períodos de visita, horários etc.

Como fenômeno de massa, a peregrinação, além de interessar diretamente à História das Religiões, tem a ver com inúmeras outras áreas de estudo: Sociologia, Etnologia, Antropologia, Psicologia Social etc. Quaisquer que sejam os enfoques, porém, e o lugar, o período de duração, a época histórica, o sistema de crenças e as motivações das peregrinações, o que temos a ressaltar é que elas têm sempre como ponto de partida uma decisão pessoal, sendo algo que é voluntariamente assumido. Quando alguém assume conscientemente a condição de peregrino configura-se simbolicamente a situação do ser humano que, mergulhado na sua existência terrena, procura sair dela, através de uma viagem, muitas vezes cheia de provações e sacrifícios. Alguém que vai tentar transcendê-la de algum modo. Muitas vezes, a viagem é empreendida, não para uma mudança de personalidade, mas para se chegar a algum lugar, uma Terra Prometida, um Paraíso. Noutras vezes, o lugar será tão importante quanto o caminho, ao exprimir o anseio da peregrinação não só o caráter transitório de toda situação existencial como possibilitar que se revelem sentimentos de desapego com relação a um presente.

Motivações não suficientemente questionadas poderão, contudo, revestir o impulso da peregrinação de perigosas formas de irrealismo, com resultados até fatais. Costumam fazer parte do ideal peregrino sentimentos de expiação, de purificação, às vezes de culpa, remorsos, maiores talvez do que aqueles de se homenagear de alguma forma a divindade ou a entidade do lugar sagrado a se atingir. No geral, a viagem do peregrino deve ser realizada na simplicidade, na pobreza como em tempos passados se exigia, sempre uma atitude mais adequada àquele que está pretendendo se purificar, se transformar. O grande símbolo do peregrino na Idade Média era o bastão, símbolo de uma vontade firme, de alguém que está se conquistando interiormente.

O peregrino na Roma antiga era aquele que vinha do exterior, era o estrangeiro, e, como tal, revestido de uma condição de inferioridade. Cícero considerava o peregrino um infeliz, pois, para ele, a peregrinação equivalia a um exílio. Estas ideias, aliás, aparecem nos primeiros escritos cristãos, só que num outro sentido. Neles se considerava o peregrino como um exilado, sim, mas só que distante de Deus. Prevalecia assim o entendimento de que a vida terrestre era a própria peregrinação e que a verdadeira pátria era a celeste. O abandono da pátria, transposto para o campo religioso, criava aquilo que os gregos chamavam de xeniteia. No mundo judaico, a peregrinação fundamental, arquetípica, é a de Abraão, que abandona Ur, sua pátria, na Mesopotâmia, quando Javé lhe promete uma nova terra, Canaã. As festas relacionadas com peregrinações entre os judeus são conhecidas como "festas a pé", sendo três as principais do calendário judaico: Pessach, Shavuot (Pentecostes) e Sukot (Tabernáculos).

Na Índia, ainda hoje, grande parte do tempo dos fiéis hinduístas se volta para as peregrinações. Os lugares sagrados são muito numerosos e muitos deles de acesso muito difícil. Por outro lado, a pobreza de grande parte da população não permite que os grandes contingentes humanos que se lançam nas estradas e caminhos a fim de peregrinar o façam através de meios de transporte, ainda que precários, quando disponíveis. Assim, podem ser encontrados pelas estradas muitos peregrinos, grupos muito numerosos, que vão a pé, às vezes por centenas de quilômetros, aos lugares sagrados. No geral, a permanência nesses lugares é mínima diante do tempo que levam para lá chegar. A recompensa por tanto esforço, sacrifício e fervor religioso, resume-se no geral a uma simples visão da imagem divina, àquilo que eles chamam de darshan (drashana é visão e também escola filosófica, modo de ver) a prosternações e a algumas oferendas. Se o objetivo da peregrinação é a visita a um rio ou a um lago, o mesmo comportamento, além do banho ritual.

Antigos textos religiosos, os Upanishads, já alertavam para o perigo de as peregrinações se transformarem em atos mecânicos, desprovidos de verdadeira espiritualidade. No século XIX, Ramakrishna, um dos mestres do pensamento religioso hindu, professor de Vivekananda, dizia: Quando temos a adoração no coração, não há necessidade de visitar os lugares santos. Apesar deste alerta, o fenômeno das peregrinações na Índia é marcante. A grande esperança da maioria dos peregrinos, pessoas simples, é a de ter uma visão da divindade que santificou o lugar e que nele continua atuando. O maior tema das peregrinações na Índia é o da água. Os peregrinos banham-se num rio sagrado, no encontro de dois ou mais rios, em lagos, em tanques de santuários ou templo, no mar, em fontes etc. Há inclusive um tipo especial de peregrino, o monge penitente que viaja sempre, de um lugar para outro, chamado bahudaka, aquele que procura águas diferentes. Evidentemente, a mais sagrada das águas da Índia é a do Ganges, desde a sua nascente no Himalaia até a sua foz no golfo de Bengala. A maior das peregrinações da Índia é a chamada ganga-pradakshina: tendo o rio Ganges sempre à direita, caminha o peregrino a pé da sua nascente à sua foz e retorna à nascente. Tempo médio da peregrinação, seis anos. Morrer às margens do Ganges dá a muitos hinduístas a certeza de que não mais renascerão


RELICÁRIOS

Peregrinar é ir a um lugar sagrado e, ao mesmo tempo, participar de um tempo eterno, sagrado, uma experiência que alguns chegam a aproximar de uma experiência orgásmica, um encontro com o divino através dos sentidos. No encontro, algo se mostra, toca-se, ouve-se, bebe-se, se entranha, uma imersão total para muitos. A lembrança dessa experiência é muito importante e muitos a desejam prolongar, materializando-a numa relíquia, um sinal do encontro. A palavra relíquia, aliás, tem uma enorme carga de sensualidade, já que etimologicamente que dizer "aquilo que fica entre os dentes depois que comemos, resíduo, migalha. A sacralidade do encontro é assim garantida pelo objeto. A outros, porém, basta a visita e a incorporação de tudo o que foi vivido. É neste sentido que são feitas, no mundo budista, as visitas aos quatro lugares em que Buda nasceu, em que atingiu o despertar, em que fez girar a roda da sua lei e onde entrou no nirvana. Estes são os passos da peregrinação aos lugares por onde andou o "Tathagata, aquele que veio e que assim foi."

Muitas são as razões que podem impelir alguém a entrar na senda, a peregrinar, a ir a lugares distantes e sagrados. Antes de tudo, o compromisso é sempre voluntário, pessoal, seja tomada a decisão por um voto solene ou não. Às vezes, um desejo de autoconhecimento através das provas da viagem, um teste de avaliação, pode se apresentar. Noutras vezes, a motivação pode não ser nada disto. Aspectos terapêuticos são muito comuns, dando lugar às chamadas peregrinações de terapia, já encontradas de modo muito desenvolvido na Grécia antiga, como as que se faziam a Epidauro, ao santuário do deus Asclépio. No mundo egípcio e oriental, por exemplo, visitas a santuários de Ísis eram "boas" para a cura do tracoma; o túmulo do profeta Jeremias, em Alexandria, era "bom" para curar picadas mortais de serpentes etc. O Cristianismo investirá muito na peregrinação a lugares sagrados onde pontificam santos curadores.

Outros motivos, além dos acima mencionados, poderiam ser citados como motivadores de peregrinações: curas interiores, desejo de viver de modo diferente, libertação de paixões, busca da sabedoria etc. Epícteto, filósofo estoico do séc. I, aliás, já proclamava: aquele que quer se tornar amigo da sabedoria deve deixar irmãos, pátria, amigos, família, porque os velhos hábitos nos importunam e não nos permitem começar um novo modo de vida. A literatura monástica antiga do Cristianismo afirma que a única forma de se atingir a hesichia, a tranqüilidade interior, é o desprezo pelo próprio eu, obtido pela peregrinação. O clima de penitência sempre cercou a proposta da peregrinação. Ao entrar numa estrada, o peregrino sempre suporta uma nova situação; ele experimenta os seus limites, tentará dominar os sofrimentos aos quais se expõe voluntariamente, faça a viagem descalço, suba ao santuário de joelhos ou se alimente apenas uma vez por dia.

A questão de uma ruptura, então, se impõe. Passar de uma situação a outra. Se em grupo ou não, os traços mais marcantes quanto a este particular são: anulação de distinções sociais, simplificação nas relações com os outros, menos materialidade, destruição de hábitos, uma conquista comunitária que poderá ser transposta para novas formas de vida quando do retorno. Talvez a maior experiência a ser retirada da peregrinação esteja no conhecimento que vier a ser obtido, base da transformação do homem velho no homem novo, qualquer que seja o quadro religioso no qual ela se inscreva.

Além de tudo isto, como proposta de meditação, fica a sugestão de que a vida inteira deva ser vista como uma peregrinação. É a imagem do homo viator, a do El Peregrino, na colocação de Ignácio de Loyola, uma busca de síntese entre a experiência vivida do peregrino e a interiorização constante do processo na caminhada para a transcendência. Toda a literatura mística mais consequente colocará o tema nesta perspectiva, como uma dimensão mais importante do que aquela que se dá ao simples deslocamento físico no espaço.