sexta-feira, 23 de março de 2012

MITOLOGIAS DO CÉU - A LUA (4)



Dentre os povos da Ásia Menor que desenvolveram uma mitologia lunar, não podemos esquecer dos hebreus, que, como aguerridos monoteístas, oficialmente sempre combateram cultos astrais. Viveram em constante luta contra o politeísmo dos povos vizinhos, especialmente o dos cananeus, mas, sobretudo, contra o próprio politeísmo, pois, não esqueçamos, os seus primeiros patriarcas vieram da Mesopotâmia.

Como “povo eleito”, os rabinos hebreus atribuíam a uma infidelidade a Yahvé todas as catástrofes que se abatiam sobre Israel. É nas proibições da lei mosaica e na maldição dos seus profetas que encontramos informações sobre os cultos astrais tão combatidos. Punições e ameaças de danação eterna são encontradas aos montes em vários textos, todos com a finalidade de proclamar a superioridade de Yahvé.

Todavia, a cada momento, em inúmeras passagens dos livros sagrados, para o que souber ler ou mesmo para os que não o souberem, a persistência dos cultos astrais, da astrologia, é facilmente detectada. Numa passagem bíblica, por exemplo, encontramos em Isaías (III, 18) referências às pequenas luas (luetas), jóias em forma de crescente lunar, que as jovens ostentavam numa clara afronta aos textos religiosos.

Os hebreus, como se sabe, utilizavam um calendário lunar, como aliás o faziam todos os semitas. Enquanto foram nômades, só a Lua, com as suas fases bem distintas, lhes permitiu estabelecer a medição do tempo. Sedentarizados, o calendário lunar permaneceu útil. Suas festas religiosas podem ter perdido algumas características, pois de pastores passaram a agricultores, mas, no fundo, permaneceram as mesmas.

CALENDÁRIO LUNAR

Em hebraico a palavra mês e Lua são muito semelhantes. O calendário hebraico é lunar, contendo o ano doze ou treze meses lunares, começando cada um deles com a Lua nova. Quando o mundo foi criado, contam antigas histórias, a Lua era tão brilhante quanto o Sol. Porém, como não seria possível admitir a existência de dois astros do mesmo tamanho, o da Lua foi diminuído. O povo de Israel, desde sempre, sempre foi simbolizado pela Lua, um povo cuja “sorte” aumentava e diminuía conforme as fases do astro. No tempo do Messias, o Sol e a Lua voltarão a ter o mesmo tamanho, retomando Israel a sua antiga glória.

ISHTAR

Os eclipses da Lua sempre foram considerados como muito maléficos para os judeus, pois quando a Lua deixava de ser vista as forças do mal tinham o seu poder aumentado. Dormir à luz da Lua era sempre muito perigoso para os judeus, pois os que assim faziam podiam ser atacados pelo demônio feminino Agrat Bat Mahalat, cujo modelo era a deusa Ishtar, dos mesopotâmicos.

SAMAEL

Agrat Bat Mahalat é a rainha dos demônios, concubina de Samael, o gênio do Mal, rei dos demônios, que os judeus dizer ser neta do Ismael bíblico, ou seja, o ancestral dos ismaelitas árabes.

AGAR E ISMAEL EXPULSOS POR ABRAÃO. AO FUNDO, SARA E ISAAC

Ismael (Ismail) é irmão de Isaac, sendo este o ancestral dos judeus. Ambos eram filhos de Abraão, o primeiro nascido da escrava Agar e o outro de Sara, a esposa oficial. Tendo Ismael nascido antes de Isaac, Sara exigiu de Abraão que ele e a mãe fossem expulsos, obrigando-os a ir para o deserto. Segundo os judeus, Ismael e a mãe tornaram-se errantes até que um anjo de Deus os conduziu a um poço onde o Senhor anunciou a Agar que seu filho seria um verdadeiro animal selvagem que lutaria contra todos e todos contra ele. Deus prometeu também que de Ismael nasceria uma grande nação cujos membros seriam os “filhos do vento”, isto é, os povos do deserto, nômades e livres, os beduínos (de bedaw, deserto), que se consideram como os descendentes diretos de Ismael.


Dizem os judeus que a atividade nefasta de Agrat foi limitada pelo sábio Chanina Ben Dosa, milagreiro carismático galileu do séc.I, podendo ela atuar somente nas noites de terça-feira e de sexta-feira, após ela ter implorado para que ele não a banisse do mundo. O Talmud recomenda, pois, que ninguém saia sozinho nessas noites, que são, como se sabe, de Marte e de Vênus, astrologicamente. Os rabinos e místicos judeus recomendam também que se evite olhar a Lua nessas noites, podendo ela ser vislumbrada, porém, rapidamente quando da cerimônia da Lua nova. É a chamada “kidush levaná”, santificação da Lua nova.


As festas de celebração da Lua nova entre os judeus vêm provavelmente do período nômade, antigos cultos que profetas como Oseas e Isaías mais tarde passaram a condenar enfaticamente. Tais festas, como se sabe, são realizadas até hoje, com o nome de “rosh chodesh”, início, cabeça, do mês.


A santificação da Lua acontece geralmente sábado à noite, recitam-se orações e participantes se cumprimentam com as palavras “shalom aleichem” (a paz esteja convosco). O ritual expressa a esperança de que Deus restaurará a luz da Lua e a antiga grandeza de Israel.


O “shabat”, que hoje tem um profundo sentido religioso entre os judeus, não era visto dessa maneira pelos profetas bíblicos do antigo testamento, pois tinha relação com a Lua cheia. “Shabat” era a festa da Lua cheia dos povos nômades. “Shabater” significava parar de crescer, isto é, representava o momento em que a Lua atingia no mês a sua plenitude, parando de crescer. Era uma festa alegre, de caráter orgiástico, momento de celebração em que a Lua se mostrava em toda a sua glória.

Com a sedentarização das tribos nômades, essa festa foi perdendo as suas características para os judeus, passando a ser vivida como uma cessação de atividades, repouso, período que devia ser consagrado a Deus, uma espécie de reprodução do sétimo dia da criação. Seu tempo, sagrado, se opunha assim ao profano.


Hoje, o “shabat” judaico vai do anoitecer de sexta-feira à noite de sábado. O judeu deve descansar, não realizando nenhum trabalho que signifique o controle do homem sobre a natureza. Há toda uma liturgia que regula a festa, luz, velas, cantos, visita à sinagoga. Textos rabínicos dizem que se os judeus conseguissem observar fielmente todos os preceitos estabelecidos para a festa, o Messias viria, pois a harmonia cósmica se realizaria. As forças do mal (Sitra Achra) não conseguiriam exercer qualquer ação no universo.

Com a implantação do cristianismo (séc.V dC), o “shabat” passou a ser considerado como uma festa em que feiticeiros se reuniam, libertando-se as forças do mal, que então podiam agir livremente. Tais festas, nessa visão, teriam origem nos cultos lunares provenientes de bacanais pagãs, nas quais o deus Baco(Dioniso) era invocado sob o nome de Sabazios.

Sabazios é palavra que também possui o sentido de efeminado e que designava um deus frígio, de culto orgiástico, semelhante ao de Dioniso. Na mitologia grega, lembro, Sabazios foi o nome dado ao chamado “primeiro Dioniso”, filho de Zeus e de Perséfone na forma de serpente, trucidado pelos titãs.

NOITE DE WALPURGIS

Havia dois “Shabat”; o Grande (assembléia geral) se realizava nas noites de 2 de fevereiro, 30 de abril (noite de Walpurgis), 23 de junho e 31 de outubro. O Pequeno se realizava através de reuniões menores, por regiões, em quaisquer dias da semana, mas de preferência na sexta-feira. Há inúmeras lendas medievais sobre estas reuniões, sempre realizadas nas noites de Lua cheia. Falam-nos elas de corpos cobertos de unguentos maravilhosos, deslocamentos aéreos, refeições à base de sapos, cadáveres de crianças não batizadas, de enforcados, de cães putrefatos etc. O sal era banido, assim como o vinho, o óleo e tudo mais que fosse usado pela igreja católica ou por ela bendito. Realizavam-se missas negras, cantava-se, dansava-se, uma orgia geral. Ao canto do galo, o “shabat” se dissolvia. Na tradição européia, os lugares desertos e abandonados, locais de realização dessas demoníacas celebrações, deviam ser evitados, facilmente reconhecíveis, aliás, pois nenhuma erva ou flor neles crescia, nenhum canto de pássaro neles era ouvido, lugares para sempre malditos.


Como o “shabat”, a festa da Páscoa (Pessach) era também ligada ao plenilúnio. Uns fazem derivar o nome da festa da palavra “pesak”, mancar, saltar, dançar ritualmente. A Bíblia dá outra explicação: a palavra significaria “passar sobre”.


Era a festa que celebraria a libertação dos escravos israelitas do Egito e que apontaria para a redenção do mundo na idade do Messias. Comemora-se também nessa festa a colheita da cevada e o fim da estação das chuvas.

O Pessach caía sempre na primavera, no meio do mês, periodo da Lua cheia, sendo proibido o consumo de pão levedado. A cerimônia começava no anoitecer da véspera do dia quinze de Nissan, a noite do êxodo, com uma refeição familiar. A festa era conhecida também como a do pão ázimo (fig.esq.), o pão dos escravos. Tudo terminava no momento em que os israelitas cruzavam o Mar Vermelho.

Vários acontecimentos estão incorporados à festa: a partida do Egito, o período nômade no deserto, a festa do décimo quarto dia do mês de Nissan, o primeiro mês lunar do calendário hebraico. Mês associado à primavera, ao signo de Áries, ao carneiro, Nissan começa no fim de março e se estende até meados de abril.


No Islã oficial, como em Israel, todos os fenômenos celestes estão submetidos a Deus. Conta-se que certa vez o Profeta se irritou quando ouviu interpretações sobre um eclipse. Disse, peremptório, que o Sol e a Lua eram apenas sinais de Allah. Afirmações com esta negavam toda autonomia a qualquer objeto, qualquer que fosse ele, pois tudo dependia de Allah, criador do céu e da terra. O mesmo afirmava (afirma hoje) a teologia oficial judaica, quando os rabinos diziam (dizem) que os judeus não precisam da astrologia, pois os livros sagrados continham todas as respostas.

O que temos, porém, no Islã, na realidade, com relação às influências da Lua é que ela tem muito a ver com rituais religiosos, muitos deles, senão a maioria, provenientes da tradição árabe pré-islâmica. O astro lunar ocupava e ocupa, como se sabe, um lugar de destaque na refinada cultura superior islâmica. Antes do Islã, o conhecimento que os árabes possuíam da Lua reduzia-se às chamadas mansões lunares, conhecimento, aliás, fortemente influenciado pela tradição védica.

MANSÕES LUNARES
Foi sobretudo a astronomia-astrologia grega, quando Ptolomeu (séc. II dC) foi traduzido para o árabe (Almagesto), que deu um grande impulso aos estudos árabes nesta área do conhecimento, levando por exemplo os astrônomos a calcular não só com grande precisão os eclipses, mas a desenvolver uma avançada astrologia, depois transmitida ao ocidente cristão.

ALMAGESTO

O Almagesto (O Muito Grande), famoso tratado de Ptolomeu, foi traduzido para o árabe no séc.IX. Nele se expõe o sistema geocêntrico, dele fazendo parte uma lista de 1022 estrelas, cálculos sobre a distância do Sol e da Lua, descrição de eclipses e referências a instrumentos então usados para a observação do céu.

No mundo árabe, principalmente entre as elites, as influências lunares foram muito estudadas, sobretudo pela astrologia prática. Uma das idéias mais admitidas era a de que a Lua, astro das variações cíclicas, governava tudo o que era variável na Terra, tudo o que estava submetido ao crescimento e ao declínio.

AL-QAZWINI

Um texto, extraído de um tratado de cosmografia do séc.XIII, “al-Qazwini”, mais as informações que colhemos pessoalmente no Instituto do Mundo Árabe de Paris e na tese “Images du Ciel d´Orient au Moyen Âge”, de Anna Caiozzo), nos dizem que as influências da Lua dependem de seu caráter úmido, enquanto as do Sol provêm de seu caráter quente. Os autores dos textos exemplificam tudo isto discorrendo sobre o movimento das marés, da ação da Lua sobre o corpo dos humanos e dos animais, falando-nos da circulação dos humores, do sangue, das crises de saúde, da lactação das mulheres, da disposição física, das enxaquecas, da proliferação de insetos, da quantidade de peixes nos rios e mares, dos grandes e pequenos animais, do transplante de árvores, da frutificação nos pomares, dos frutos lunares e da sua coloração (ameixas, melões, sésamo, pepinos, abóboras, metais) tudo dependendo da maior ou menor umidade que a Terra recebe em função da fase lunar (começo, meio e fim do mês).

Mesmo Avicena (fig.dir.), por volta do ano mil, grande médico, místico e filósofo, árabe-islâmico, que muito polemizou com astrólogos, reconhecia o efeito das influências lunares no corpo humano. A astrologia suscitou sempre uma forte oposição religiosa quando os astrólogos começaram a discutir os ciclos da história mundial segundo as influências celestes. A doutrina alquímica, oriunda do mundo greco-alexandrino, também provocou inquietações e oposições declaradas de representantes do pensamento teológico oficial árabe. As teses astrológicas, contudo, iam se propagando com base na lei da correspondência. O corpo humano era o microcosmo, um reflexo do céu, o macrocosmo.


AL QAMAR (SURA)

A Lua tem entre os árabes o nome de “al Qamar” ou “Badr”. É representada por um personagem masculino sentado dentro de semicírculo ou crescente, pés nus, vestindo uma espécie de blusa azul, aberta no peito, as calças vermelhas. Uma representação talvez calcada em imagens védicas. Cada fase da Lua recebe um nome, chegando-se ao detalhe de dar uma designação aos períodos intermediário de cada uma delas. A Lua, como se viu, sempre evocou transformações, mudanças, passagens de um estado a outro, o eterno devenir das coisas. Como símbolo de beleza, a Lua é inspiradora de muitos nomes femininos, nomes como Kmar (Lua cheia), Kamriya (pequena Lua), Badr ou Bedra (Lua cheia), Badr an-nur (Lua de luz), Munira (luminosa) etc.

Pelas informações de Heródoto e de outros viajantes, além naturalmente dos registros que chegaram até nós, é possível afirmar que os persas pré-islâmicos tiveram um desenvolvido culto lunar. Para eles, ”Mah”, a Lua, era a divindade que regulava os dias, sendo o décimo segundo dia do mês a ela consagrado, conforme hinos cantados em sua homenagem.


Os iranianos, como se sabe, fazem parte do mundo indo-europeu, do ramo ariano mais exatamente, que ocupou uma extensa região que fica num planalto a leste da Mesopotâmia. Eran, Eiran, de ária (nobre, leal, senhor), era o nome do país (compare com Erin, o nome celta da Irlanda). Os primeiros registros religiosos desse povo apareceram num texto chamado Avesta, dando corpo à chamada religião mazdeana. Esses textos foram destruídos quando da invasão de Alexandre e depois reconstituídos com base na tradição oral.

O culto do fogo, típico das tribos indo-européias, ocupava o centro de todo o movimento religioso, ao lado dos ritos relacionados com o “haoma” (Soma védico; fig.dir.), que falavam de imortalidade. Nesse recuado período da história persa, Mitra era então a principal divindade (lugar depois tomado por Ahura Mazda), nele se reunindo, em termos absolutos, o poder sobre as regiões celestes (conduzia o carro solar), o poder militar, o conhecimento etc.

Sob inspiração da astrologia caldaica (mesopotâmica), os astros eram objeto de cultos muito especiais, principalmente: Hvare-Khchaeta (Sol), Mah (Lua), Anahita (Vênus) e Tichtriya (Sirius).


Os organizadores desses cultos eram os Magos, que constituíam uma importante corporação sacerdotal, mantendo inclusive, com grande pureza, as primitivas práticas rituais arianas.

Devido a reformas religiosas posteriores (zoroastrismo e maniqueísmo), as antigas divindades astrais passaram a ocupar uma posição de menor relevo. A pregação do reformador Mani (fig.esq.), cerca de 240 aC, falava da existência de um conflito cósmico entre o reino da luz (Bem) e o das trevas (Mal). O homem teria que ajudar as forças do Bem através de várias práticas ascéticas. As forças do Bem nessa luta eram guiadas pelos seis “Imortais Benfeitores” (Amesha Spenta), algo semelhantes aos arcanjos bíblicos, cada um deles responsável por um setor da criação.

A Lua (Mah), nesta nova ordem, colocou-se sob as ordens de um destes Benfeitores, chamado Bahman, o Espírito do Bem, que era, dentre outras funções, o grande protetor dos rebanhos.


Esta posição da Lua se devia, segundo os antigos cultos, à sua natureza bovina, identificação seguida, aliás, universalmente e que explica sua submissão a Bahman. Mah funcionava neste esquema como uma intermediária entre o Espírito tutelar e os rebanhos, mais exAtamente como protetora da “Vaca Primordial”, personificação não só de toda a espécie, mas de centro simbólico no qual se juntam ideias de fecundidade, de maternidade, de abundância, e de imagens como a da nuvem celeste, de brancura, de leite etc. Neste contexto religioso, a Lua funciona também como purificadora dos mares porque ela provoca movimentos de alternância, o movimento das maés, ligados diretamente às suas fases.

AHURA MAZDA

Os antigos persas viam também nas fases da Lua a marcha do tempo. Quando criados, os astros, o Sol, a Lua e as estrelas, não se moviam, segundo os antigos textos. Com o assalto das forças do mal (a luta eterna entre Ahura Mazda ou Ormazd, as forças da luz, e Ahriman, as forças das trevas), os astros tiveram que percorrer o caminho que lhes foi designado para que a renovação pudesse acontecer, expulsando-se o mal do mundo.