A ira se define, no geral, como um intenso sentimento de ódio, de cólera, de aversão, dirigido a uma ou mais pessoas em virtude de alguma ofensa ou insulto. Pode ser também rancor generalizado em função de alguma situação irritante. Expressa-se a ira, muitas vezes, como fúria, raiva, indignação.No latim, ira é sinônimo de rabies, que em português transformou-se em raiva.
![]() |
IRA (GIOTTO, 1266-1337) |
Em muitos casos, a ira é recalcada, explicando-a Freud, nesse caso, a partir do complexo de Édipo, ou seja, hipótese em que ela se volta contra um rival numa situação amorosa. Pode também a ira, assim, ainda com Freud, derivar-se do amor, sendo ela recalcada, coexistindo, em muitos casos, ambos os sentimentos.
Na literatura, a mais conhecida ilustração do que está acima pode ser encontrado num poema de Catulo, 84 aC-54 aC, poeta latino. É o famoso verso odi et amo (odeio e amo), que, segundo um dos melhores textos escritos sobre o jogo do amor (há tradução em português), Eros e Pathos, de Aldo Carotenuto, nos diz que o conflito entre estes dois sentimentos, o ódio e o amor, está sempre presente numa relação amorosa, mesmo que raramente atinja o limiar da consciência, como diz o autor. Completando o parágrafo, ele conclui: A prática clínica ensina que onde está presente um sentimento toma vida e consistência também o seu contrário. Os opostos que, com a sua interação, dilaceram o indivíduo, constituem o dinamismo secreto da vida. O amor reclama, pois, e até exige, a co-presença do ódio.
![]() |
CATULO |
Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris.
Nescio: sed fieri sentio et excrucior.
Nescio: sed fieri sentio et excrucior.
(Odeio e amo. Por que agir assim? se me perguntas.
Não sei: só sei que o faço e sinto que me torturo )
Justos ou injustos, a ira, o ódio ou a raiva têm um campo semântico vasto: execração, gana, malquerença, rancor, sanha, zanga, repulsa, asco, aversão, fastio, nojo, ojeriza, repelência, repugnância, hostilidade, antagonismo, querela, rivalidade, agressividade, cólera etc. No fundo, a ira é um sentimento de irritação, violento, que nos leva a querer mal a alguém e, muitas vezes, a nos alegrarmos com o mal que lhe acontece. Embora possamos apontar algumas diferenças entre as palavras citadas, elas acabam se confundindo, sendo usadas como sinônimos. Muitas dessas palavras já não se usam mais, ficaram para trás, perdidas nos textos de escritores do passado.
De ira vieram palavras como iroso, iracundo e irado. A primeira palavra designa aquele que está possuído e dominado por grande ira, por esta grande paixão, que pode ser passageira. Iracundo é o habitado pela paixão. Irado indica o ato de irar-se alguém. No homem irado, a ira é como um fogo que queima. No iroso, como
um incêndio que abrasa. No iracundo, como matéria inflamável que a menor faísca põe em chamas. Um bom exemplo deste último nos foi indicado pelo padre Antônio Vieira, gênio da língua portuguesa, ao falar de Moisés. Trata-se do caso em que ele, com as próprias mãos, atacou um egípcio, prostrando-o morto a seus pés. Vieira sentenciou: Moisés era arrebatado e iracundo.
![]() |
ANTÔNIO VIEIRA |
![]() |
CRUZ E SOUZA |
O ódio pode tomar muitos caminhos. Quando se volta contra a humanidade, indicando falta de sociabilidade, tem o nome de misantropia. Já misoginia é a aversão a mulheres em geral; muito usada também a palavra para designar homens que não gostam de fazer sexo com mulheres. Já a xenofobia será a aversão a estrangeiros. O ódio religioso ou político aparece como fanatismo ou intolerância.
Sob o nome de lissa (lyssa, grego) são descritas umas pústulas que aparecem na parte inferior da língua de pessoas mordidas por um animal que sofre de raiva. Atribuía-se a raiva canina a um verme, lissa, que causava a doença. No ser humano, a mordida deste cão causaria a hidrofobia, aversão ou terror mórbido da água. Sabe-se hoje que a hidrofobia ou raiva é uma doença infecciosa causada por um vírus, transmitida ao homem pela mordida de animais infectados, como o cão, o lobo, o gato ou o morcego, caracterizada por lesões no sistema nervoso central que podem provocar convulsão, tetania e paralisia respiratória.
Na mitologia grega, os deuses, os heróis e os mortais que nela aparecem apresentam algumas vezes um comportamento inexplicável, uma conduta totalmente imprudente, que, conforme as descrições, é proveniente de um obscurecimento ou confusão mais ou menos longa da mente, causando descontrole da vontade. Uma espécie de loucura temporária atribuída à ação de uma potência
demoníaca externa. Essa potência tinha o nome de Lyssa. Tomado por ela, Hércules, por exemplo, chega a um tal estado de fúria, a um ódio inexplicável; ainda bem jovem, esmagou a cabeça de Lino, seu professor de música, só porque ele o repreendeu por ter cometido um erro. É também tomado por Lyssa que o nosso herói mata a sua família. Lyssa, às vezes, é chamada de Anoia, etimologicamente ausência de consciência, raiva furiosa, que provoca a perda total da faculdade de pensar, de raciocinar.
![]() |
HÉRCULES CRIANÇA |
A expressão física mais contundente da raiva nós a encontramos na Mitologia grega na figura do deus Ares. Pelas suas histórias, é Ares, sem dúvida, um dos mais odiosos personagens do mito grego; sempre enraivecido, é aquele que excita o ódio, o desgosto, a indignação. É apelidado de bebedor de sangue, de senhor das lágrimas, de flagelo de deus etc. Onde ele aparecia só havia sofrimento, dor, guerra, inimizade, luta. Seu nome, Ares, tem relação com palavras que lembram enfurecimento, desgraça e infortúnio.
É Ares filho partenogênico da deusa Hera; sua geração foi motivada pelo ódio que a deusa sentia por Zeus, seu marido, devido ao grande número de seus filhos espúrios, “semeados” fora do casamento. Somente Afrodite o acalmava, o amolecia, suavizando-o um pouco. Terão, ele e a deusa, uma filha chamada Harmonia, isto é, filha da guerra e da paz. Mas terão também, por outro lado, dois monstros como filhos, os gêmeos Fobos (Pavor) e Deimos (Horror).
![]() |
ARES |
Esplêndido fisicamente, Ares andava sempre armado. Sua presença era anunciada por seus uivos, por seus gritos e pelo barulho de suas armas. Entre os deuses do Olimpo, era o mais distante de Zeus, sempre odiado e evitado por todos, ninguém desejando a sua companhia. Entre os romanos, Ares é Marte. Na Astrologia, é o planeta Marte, simbolizando o fogo dos desejos, a vida instintiva, o dinamismo, a violência, o desrespeito pelo outro e também a genitália masculina.
Os latinos, por exemplo, tinham o adjetivo rabidus, que significava furioso, enraivecido. Virgílio, o grande poeta latino, usa esse adjetivo para nos descrever a boca espumante da Sibila em delírio. Para o poeta, o cão tricéfalo infernal, Cérbero, tinha uma fame rabida (fome raivosa), com a suas bocarras sempre espumantes.
![]() |
DIES IRAE ( HANS MEMLING , 1430 - 1494 ) |
![]() |
LORD BYRON |
![]() |
BALZAC |
Chamamos de ódio figadal, profundo, visceral, o que vem do fígado porque a bile, secreção desse órgão, foi sempre um símbolo do ira, segregada justamente sempre sob a ação nervosa que a produz. O fígado é o lugar dos movimentos de cólera, do fel, da animosidade, das intenções deliberadamente venenosas, o que
explica o seu sabor amargo. No Islã, por exemplo, o fígado é o lugar das paixões e da dor. S. João da Cruz, poeta místico espanhol, interpretando Jeremias (Lamentações), liga o fel à memória, à morte da alma, à privação de Deus. Neste sentido, o fel se opõe ao vinho, pois é o contrário da bebida da vida, usado na eucaristia, que permite a metamorfose. Cheios de fel, não mudamos. Fel e bile se equivalem: lembram amargor, sempre um estado de espírito que reflete agastamento, azedume, impulsos destrutivos.
![]() |
SÃO JOÃO DA CRUZ |
A vesícula biliar é o lugar onde simbolicamente encontramos as expressões da agressão, do amargor, do mau humor, da irascibilidade. Agressão não como ataque frontal, agressão como postura inamistosa, constante, cultivada, antipática, irritadiça. Os coléricos (cholé, bile, e aírein, alçar) precisam deixar fluir a bile, símbolo da energia vital retida, de algum modo. Se não o fizerem, poderão ser levados a estados de pressão e de excitação prolongados, causadores de situações hipertensivas desastrosas.
Um outro aspecto deste problema "biliar" é o da melancolia (bile negra), mal causado por excesso desse tipo de bile que leva os indivíduos dele acometidos à lentidão, tristeza e prostração. Era, no passado, o que se chamava de abatimento, apoucamento, atrabilis (atra, negro, sombrio), marasmo, soturnidade, taciturnidade, neurastenia. Este estado aproxima-se daquilo que hoje tem o nome de psicose maníaco-depressiva (problema mental marcado por grande oscilação emocional, alternando-se nele fases de mania (excitação, hiperatividade em grego) com fases de depressão (sentimentos de inadequação, retardamento de ideias e movimentos, ansiedade, tristeza, ideias de suicídio, às vezes). Muitas doenças de pele, eczema, erisipela, psoríase, lúpus eritematoso cutâneo, pênfigos, melanomas e outras, têm relação com o ódio e a raiva. Estas doenças nos remetem sempre uma ideia de autoagressão.
![]() |
CONDE GOBINEAU |
![]() |
CHAMBERLAIN |
O racismo ganha expressão através de doutrinas ou sistemas políticos fundados sobre o direito de uma raça, considerada pura e superior, de dominar outras. O racismo se expressa também por preconceitos mais ou menos extremados contra indivíduos pertencentes a grupos regionais menos adiantados economicamente dentro de um mesmo país. Na Itália, por exemplo, temos o preconceito dos habitantes do norte, mais adiantado economicamente, contra os do sul, os chamados meridionali ou terrone. O mesmo acontece, aliás, aqui entre nós com relação aos nordestinos que vieram de seus estados viver no sul, em busca de melhores condições de vida. É tanto o preconceito que mesmo os nossos dicionários já o registram. Baianada, por exemplo, passou a ser sinônimo de coisa mal feita, patifaria, baixaria.
O racismo também é encontrado naquela atitude que chamamos de xenofobia, palavra de origem grega que quer dizer aversão ao estrangeiro, àquilo que é diferente dos nossos valores, ao que é, em suma, diferente de nós. Foram os antigos gregos que criaram a palavra para designar aquele sentimento diante de povos que não participavam de sua cultura e, sobretudo, que não falavam a língua grega. O som da língua desses povos, aos ouvidos gregos, soava bar, bar, bar... Eram os bárbaros, para os gregos, grosseiros, não civilizados. Já na Linguística, a palavra barbarismo, como ensinam os mestres, descreve a tendência de se usar indiscriminadamente palavras e expressões de outras línguas, como nós fazemos aqui no Brasil, ao substituir quase que totalmente, o Português pela língua dos nossos neocolonizadores norte-americanos em muitas áreas da nossa vida (negócios, computação, música popular, televisão, publicidade, comércio, tecnologia etc.).
![]() |
SANTO TOMÁS |