Mostrando postagens com marcador VIRGÍLIO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador VIRGÍLIO. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - A IRA - I

    
A  IRA  ( HIERONYMUS  BOSCH , C.1450 - 1516 )
                                    
 A ira se define, no geral, como um intenso sentimento de ódio, de cólera, de aversão, dirigido a uma ou mais pessoas em virtude de alguma ofensa ou insulto. Pode ser também rancor generalizado em função de alguma situação irritante. Expressa-se a ira, muitas vezes, como fúria, raiva, indignação. No latim, ira é sinônimo de rabies, que em português transformou-se em raiva. 

IRA
(GIOTTO, 1266-1337)
Muitas vezes, o colérico, o cheio de ira, manifesta o seu descontentamento de modo muito agressivo, inclusive com violência. Por isso, falamos de acessos, de crises, de explosões de cólera. Podemos descarregar nossa ira de vários modos, com violência, ferozmente ou usando de solércia, de astúcia. O solerte, mesmo que não tomado totalmente pela ira, é, neste exemplo, o que age para causar muito mal a alguém com aparência de honestidade. O solerte é hábil, ardiloso, sabe despistar, é cheio de artimanhas. 
  
Em muitos casos, a ira é recalcada, explicando-a Freud, nesse caso, a partir do complexo de Édipo, ou seja, hipótese em que ela se volta contra um rival numa situação amorosa. Pode também a ira, assim, ainda com Freud, derivar-se do amor, sendo ela recalcada, coexistindo, em muitos casos, ambos os sentimentos.

Na literatura, a mais conhecida ilustração do que está acima pode ser encontrado num poema de Catulo, 84 aC-54 aC, poeta latino. É o famoso verso odi et amo (odeio e amo), que, segundo um dos melhores textos escritos sobre o jogo do amor (há boa tradução em português), Eros e Pathos, de Aldo Carotenuto, nos diz que o conflito entre estes dois sentimentos, o ódio e o amor, está sempre presente numa relação amorosa, mesmo que raramente atinja o limiar da consciência, como diz o autor. Completando o parágrafo, ele conclui: A prática clínica ensina que onde está presente um sentimento toma vida e consistência também o seu contrário. Os opostos que, com a sua interação, dilaceram o indivíduo, constituem o dinamismo secreto da vida. O amor reclama, pois, e até exige, a co-presença do ódio. 
CATULO
Pela importância de Catulo na poesia lírica latina, vale registrar aqui, ainda que brevemente, um pouco da história desse famosíssimo dístico Odi et amo. Nascido em Verona, em 87 aC, viveu ele a maior parte de sua breve vida (apenas 30 anos) em Roma. De família nobre e rica, desde cedo dedicou-se às artes (poesia principalmente), frequentando   os meios sociais mais elevados, cultos e corruptos da cidade. Apaixonou-se pela bela e depravada Clódia, que ele chamou de Lésbia, esposa do cônsul Metelo Céler, imortalizando-a no mencionado dístico, uma estrofe mínima de dois versos, a seguir exposta e traduzida:   
            
Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris.
Nescio: sed fieri sentio et excrucior.
(Odeio e amo. Por que agir assim? se me perguntas.
Não sei: só sei que o faço e sinto que me torturo )

Justos ou injustos, a ira, o ódio ou a raiva têm um campo semântico vasto: execração, gana, malquerença, rancor, sanha, zanga, repulsa, asco, aversão, fastio, nojo, ojeriza, repelência, repugnância, hostilidade, antagonismo, querela, rivalidade, agressividade, cólera etc. No fundo, a ira é um sentimento de irritação, violento, que nos leva a querer mal a alguém e, muitas vezes, a nos alegrarmos com o mal que lhe acontece. Embora possamos apontar algumas diferenças entre as palavras citadas, elas acabam se confundindo, sendo usadas como sinônimos. Muitas dessas palavras já não se usam mais, ficaram para trás, perdidas nos textos de escritores do passado.

De ira vieram palavras como iroso, iracundo e irado. A primeira palavra designa aquele que está possuído e dominado por grande ira, por esta grande paixão, que pode ser passageira. Iracundo é o habitado pela paixão. Irado indica o ato de irar-se alguém. No homem irado, a ira é como um fogo que queima. No iroso, como
ANTÔNIO  VIEIRA
um incêndio que abrasa. No iracundo, como matéria inflamável que a menor faísca põe em chamas. Um bom exemplo deste último nos foi  indicado pelo padre Antônio Vieira, gênio da língua portuguesa, ao falar de Moisés. Trata-se do caso em que ele, com as próprias mãos,  atacou um egípcio, prostrando-o morto a seus pés. Vieira sentenciou: Moisés era arrebatado e iracundo. 
CRUZ  E  SOUZA
O grande poeta negro catarinense, Cruz e Souza, um dos grandes nomes do Simbolismo brasileiro, filho de escravos alforriados, referiu-se a um ódio bom que o alimentava nos combates contra o obscurantismo da época: Ódio são! Ódio bom! Sê meu escudo/ contra os vilões do amor que infamam tudo/ Das sete torres dos mortais pecados! Manzoni (Alessandro), famoso autor do século XIX, italiano, dizia: é uma das vantagens deste mundo poder odiar e ser odiado sem se conhecer

O ódio pode tomar muitos caminhos. Quando se volta contra a humanidade, indicando falta de sociabilidade, tem o nome de misantropia. Já misoginia é a aversão a mulheres em geral; muito usada também a palavra para designar homens que não gostam de fazer sexo com mulheres. Já a xenofobia será a aversão a estrangeiros. O ódio religioso ou político aparece como fanatismo ou intolerância. 

Sob o nome de lissa (lyssa, grego) são descritas umas pústulas que aparecem na parte inferior da língua de pessoas mordidas por um animal que sofre de raiva. Atribuía-se a raiva canina a um verme, lissa, que causava a doença. No ser humano, a mordida deste cão causaria a hidrofobia, aversão ou terror mórbido da água. Sabe-se hoje que a hidrofobia ou raiva é uma doença infecciosa causada por um vírus, transmitida ao homem pela mordida de animais infectados, como o cão, o lobo, o gato ou o morcego, caracterizada por lesões no sistema nervoso central que podem provocar convulsão, tetania e paralisia respiratória. 

Na mitologia grega, os deuses, os heróis e os mortais que nela aparecem apresentam algumas vezes um comportamento inexplicável, uma conduta totalmente imprudente, que, conforme as descrições, é proveniente de um obscurecimento ou confusão mais ou menos longa da mente, causando descontrole da vontade. Uma espécie de loucura temporária atribuída à ação de uma potência
HÉRCULES  CRIANÇA
demoníaca externa. Esta potência tinha o nome de Lyssa. Tomado por ela, Hércules, por exemplo, chega a um tal estado de fúria, a um ódio inexplicável; ainda bem jovem, esmagou a cabeça de Lino, seu professor de música, só porque ele o repreendeu por ter cometido um erro. É também tomado por Lyssa que o nosso herói mata a sua família. Lyssa, às vezes, é chamada de Anoia, etimologicamente ausência de consciência, raiva furiosa, que provoca a perda total da faculdade de pensar, de raciocinar.

A expressão física mais contundente da raiva nós a encontramos na Mitologia grega na figura do deus Ares. Pelas suas histórias, é Ares, sem dúvida, um dos  mais odiosos personagens do mito grego; sempre enraivecido, é aquele que excita o ódio, o desgosto, a indignação. É apelidado de bebedor de sangue, de senhor das lágrimas, de flagelo de Deus etc. Onde ele aparecia só havia sofrimento, dor, guerra, inimizade, luta. Seu nome, Ares, tem relação com palavras que lembram enfurecimento, desgraça e infortúnio. 

É Ares filho partenogênico da deusa Hera; sua geração foi motivada pelo ódio que a deusa sentia por Zeus, seu marido, devido ao grande número de seus filhos espúrios, “semeados” fora do casamento. Somente Afrodite o acalmava, o amolecia, suavizando-o um pouco. Terão, ele e a deusa, uma filha chamada Harmonia, isto é, filha da guerra e da paz. Mas terão também, por outro lado, dois monstros como filhos, os gêmeos Fobos (Pavor) e Deimos (Horror). 


ARES
Ares, como toda divindade grega, tinha o seu séquito. Dele faziam parte, além dos gêmeos, Éris, a deusa da discórdia, as Keres (destruição, ruína, podridão), monstros femininos alados, que se alimentavam do sangue de moribundos nos campos de batalha. Sempre com roupas ensanguentadas, garras aduncas, corpo coberto de serpentes, aproveitavam elas para liquidar os agonizantes. A divindade Enio também fazia parte do grupo; era um demônio feminino devastador, sempre presente nos campos de batalha. Lembremo-nos ainda de diversos outros filhos que Ares teve, todos medonhos, violentos, assassinos, salteadores, brutais, espalhados pelo mundo.

Esplêndido fisicamente, Ares andava sempre armado. Sua presença era anunciada por seus uivos, por seus gritos e pelo barulho de suas armas. Entre os deuses do Olimpo, era o mais distante de Zeus, sempre odiado e evitado por todos, ninguém desejando a sua companhia. Entre os romanos, Ares é Marte. Na Astrologia, é o planeta Marte, simbolizando o fogo dos desejos, a vida instintiva, o dinamismo, a violência, o desrespeito pelo outro e também a genitália masculina. 

Os latinos, por exemplo, tinham o adjetivo rabidus, que significava furioso, enraivecido. Virgílio, o grande poeta latino, usa esse adjetivo para nos descrever a boca espumante da Sibila em delírio. Para o poeta, o cão tricéfalo infernal, Cérbero, tinha uma fame rabida (fome raivosa), com a suas bocarras sempre espumantes. 


DIES  IRAE  ( HANS  MEMLING , 1430 - 1494 )

O frade franciscano Tommaso de Celano (séc. XIII) colocou a ira numa famosa obra, Dies Irae, O Dia da Ira, para profetizar sobre os acontecimentos do Juízo Final. Consta que nesse dia ter-se-á um calor como nunca houve. Nesse dia, o Sol e a estrela Sirius, a estrela da canícula, da constelação do Cão Maior, estarão em conjunção. Já os profetas do fim do mundo, nos afirmam também que esse acontecimento se dará num tórrido dia de verão, estação em que as pessoas pecam mais.

LORD   BYRON
A inveja, a raiva e o ódio costumam caminhar juntos. O verbo latino é odi. Como dizia Byron, poeta inglês dos sécs. XVIII-XIX, o ódio é o prazer mais duradouro; os homens amam com pressa,
BALZAC
mas odeiam com calma. A energia do ódio é apontada por vários filósofos, psicólogos e escritores. É de Balzac, escritor francês, séc. XIX, esta observação: O sentimento que o homem suporta com mais dificuldade é a piedade, principalmente quando a merece. O ódio é um tônico, faz viver, inspira vingança; mas a piedade mata, enfraquece ainda mais a nossa fraqueza.

Chamamos de ódio figadal, profundo, visceral, o que vem do fígado porque a bile, secreção desse órgão, foi sempre um símbolo do ira, segregada justamente sempre sob a ação nervosa que a produz. O fígado é o lugar dos movimentos da cólera, do fel, da animosidade, das intenções deliberadamente venenosas, o que
SÃO  JOÃO  DA  CRUZ
explica o seu sabor amargo.  No Islã, por exemplo, o fígado é o lugar das paixões e da dor. S. João da Cruz, poeta místico espanhol, interpretando Jeremias (Lamentações), liga o fel à memória, à morte da alma, à privação de Deus.  Neste sentido, o fel se opõe ao vinho, pois é o contrário da bebida da vida, usado na eucaristia, que permite a metamorfose. Cheios de fel, não mudamos. Fel e bile se equivalem: lembram amargor, sempre um estado de espírito que reflete agastamento, azedume, impulsos destrutivos.

A vesícula biliar é o lugar onde simbolicamente encontramos as expressões da agressão, do amargor, do mau humor, da irascibilidade. Agressão não como ataque frontal, agressão como postura inamistosa, constante, cultivada, antipática, irritadiça. Os coléricos (cholé, bile, e aírein, alçar) precisam deixar fluir a bile, símbolo da energia vital retida, de algum modo. Se não o fizerem, poderão ser levados a estados de pressão e de excitação prolongados, causadores de situações hipertensivas desastrosas. 

Um outro aspecto deste problema "biliar" é o da melancolia (bile negra), mal causado por excesso desse tipo de bile que leva os indivíduos dele acometidos à lentidão, tristeza e prostração. Era, no passado, o que se chamava de abatimento, apoucamento, atrabilis (atra, negro, sombrio), marasmo, soturnidade, taciturnidade, neurastenia. Este estado aproxima-se daquilo que hoje tem o nome de psicose maníaco-depressiva (problema mental marcado por grande oscilação emocional, alternando-se nele fases de mania (excitação, hiperatividade em grego) com fases de depressão (sentimentos de inadequação, retardamento de ideias e movimentos, ansiedade, tristeza, ideias de suicídio, às vezes). Muitas doenças de pele, eczema, erisipela, psoríase, lúpus eritematoso cutâneo, pênfigos, melanomas e outras, têm relação com o ódio e a raiva. Estas doenças nos remetem sempre uma ideia de autoagressão. 


CONDE  GOBINEAU
A ira e o ódio aparecem na vida social de diversas formas. Uma delas, geradora de muita violência, de guerras, é o racismo. Nos tempos modernos, um dos grandes teóricos do racismo foi Joseph Arthur, o Conde Gobineau (1816-1882), diplomata e escritor francês. Serviu na Pérsia, na Grécia e no Brasil, onde manteve muito cordialmente relações intelectuais com D.Pedro II. Dentre outros livros, deixou um, muito famoso, o Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, no qual apresenta ideias da
CHAMBERLAIN
superioridade da raça nórdico-germânica sobre as demais. Sua teoria foi explorada pelos pangermanistas (pangermanismo: agrupar todos os povos de origem germânica sob um só Estado) e pelos adeptos do nacional-socialismo (nazismo). Na Inglaterra, um dos grandes defensores dessas ideias foi Houston Stewart Chamberlain (1885-1927), escritor alemão de origem britânica, autor de uma obra sobre Richard Wagner, cuja filha (Eva) desposou. É um dos precursores do nazismo.

O racismo ganha expressão através de doutrinas ou sistemas políticos fundados sobre o direito de uma raça, considerada pura e superior, de dominar outras. O racismo se expressa também por preconceitos mais ou menos extremados contra indivíduos pertencentes a grupos regionais menos adiantados economicamente dentro de um mesmo país. Na Itália, por exemplo, temos o preconceito dos habitantes do norte, mais adiantado economicamente, contra os do sul, os chamados meridionali ou terrone. O mesmo acontece, aliás, aqui entre nós com relação aos nordestinos que vieram de seus estados viver no sul, em busca de melhores condições de vida. É tanto o preconceito que mesmo os nossos dicionários já o registram. Baianada, por exemplo, passou a ser sinônimo de coisa mal feita, patifaria, baixaria.

O racismo também é encontrado naquela atitude que chamamos de xenofobia, palavra de origem grega que quer dizer aversão ao estrangeiro, àquilo que é diferente dos nossos valores, ao que é, em suma, diferente de nós. Foram os antigos gregos que criaram a palavra para designar aquele sentimento diante de povos que não participavam de sua cultura e, sobretudo, que não falavam a língua grega. O som da língua desses povos, aos ouvidos gregos, soava bar, bar, bar... Eram os bárbaros, para os gregos, grosseiros, não civilizados. Já na Linguística, a palavra barbarismo, como ensinam os mestres, descreve a tendência de se usar indiscriminadamente palavras e expressões de outras línguas, como nós fazemos aqui no Brasil, ao substituir quase que totalmente, o Português pela língua dos nossos neocolonizadores norte-americanos em muitas áreas da nossa vida (negócios, computação, música popular, televisão, publicidade, comércio, tecnologia etc.).


SANTO  TOMÁS 
Alguns filósofos gregos, como os peripatéticos, falavam de uma ira justa, enquanto outros, como os estoicos, sempre se referiram a esse sentimento como vicioso. Santo Tomás considerava a ira como uma paixão e, por isso, nos dizia, olhando-a sob um ponto de vista formal, que ela sempre proviria de uma alma apetitiva, ou seja, seria sempre um desejo de vingança. Sob o ponto de vista material, afirmava que a ira estava relacionada com alterações fisiológicas, com aquecimento, calor, estados que chamamos de coléricos. 

sábado, 23 de novembro de 2019

DOS PECADOS - A SOBERBA

                             
PECADOS , CAPELA  DEGLI  SCROVEGNI , PADOVA
( GIOTTO  DI  BONDONE , 1304 - 1306 )

Orgulho, arrogância, jactância, vaidade, enfatuação, presunção, pretensão de superioridade,  o campo semântico deste substantivo é, realmente, muito vasto. Os antigos gregos usavam, por exemplo, para falar desse sentimento a palavra hyperphania (só encontrada hoje em alguns dicionários teológicos) composta de hyper, acima, elevado, abundante, muito alto ou grande, mais phania, de phaneros, visível, manifesto, público, evidente. Em português, temos ufania, que se aproxima de ufa, que significa em grande quantidade, traduzindo uma ideia de exagero, de excesso, de muito além do normal, palavra encontrada na expressão (locução adverbial) a ufo, provavelmente de origem onomatopaica.(gastou sua herança à ufo). Hyperphania, latinizada, estava na Bíblia, no Novo Testamento, em Marcos (7:22) e Lucas (1:51).

Da mitologia grega provém hybris, que significa desmedida, orgulho, descomedimento. No mito, era um daimon (um demônio, um gênio) que personificava a insolência, a arrogância, a falta de moderação, formando com Koros, o Desdém, e Asebeia, a Impiedade, uma pequena família. Para o homem comum, era um conceito que tinha relação com a falta de medida para mais ou para menos.  Ao atuar, a Hybris provocava uma desproporção, podendo levar ao bom demais como ao mau demais. Ela afastava as pessoas da justa medida, do nada excesso, divisa apolínea que estava inscrita no Oráculo de Delfos. No convívio social, a hybris era sobretudo sentida como a falta de percepção do outro, como uma invasão do seu espaço. No sentido contrário de Hybris atuava a Nemesis, divindade que punia os excessos, que atacava os orgulhosos, como aconteceu com o belíssimo Narciso.


NARCISO
( MICHELANGELO DA CARAVAGGIO , 1571 -1610 )

A soberba, superbia, em latim, é sempre citada em primeiro lugar quando enumeramos os pecados capitais. É conhecida como o pecado do Diabo, ou melhor, do Diabo na sua forma luciferiana. O Diabo é o nome que damos na tradição cristã a uma figura que encarna as forças do mal. Seu nome, etimologicamente, quer dizer aquele que divide, que causa dispersão. É, como tal, símbolo do erro, da mentira, da violência, da dispersão, das forças inconscientes que provocam a desintegração da personalidade do homem, vitimando-o física e moralmente, jogando-o em mil direções. É o inimigo natural de todas as formas de espiritualidade e da elevação psíquica. Na tradição judaico-cristã personifica as paixões e os vícios. A soberba costuma se expressar através de dois modos, individual ou coletivamente São exemplos deste segundo modo o cosmocratismo, o racismo, o corporativismo, o elitismo,  as várias formas de nacionalismo, a xenofobia, sobretudo a religiosa,  o colonialismo e outros mais. Uma forma muito peculiar de soberba, que muito mal fez ao convívio harmonioso entre os povos, foi a de nações que se auto-proclamaram como escolhidas por Deus para desempenha um papel importante de liderança, principalmente com base no monoteísmo, arvorando-se como condutoras do resto da humanidade. 


O  ORGULHO , A  VAIDADE  E  A  IRA.
( PETER  BRUEGEL , C.1525 - 1569 )

Um exemplo do que acima se expôs, nos tempos modernos, comparável com o dos judeus na antiguidade, pode ser encontrado em textos da ciência política, como num de Seymour Martin Lipset, famoso e premiado sociólogo norte-americano de origem russa, aqui resumido: afirma ele que os USA, politicamente, são a mais perfeita representação  do anti-estatismo, sendo, como tal, o apanágio do  individualismo e de sistemas como o da meritocracia e do dinamismo econômico, itens que explicariam a inexistência de
S.M. Lipset,
organizações socialistas no país. É de Lipset a definição dos cinco pilares que definem não só o credo político norte-americano, único dentre todos os demais, segundo ele,  e a sua posição como país líder: liberdade, igualitarismo, individualismo, populismo e
laissez-faire, cinco pilares que apontam para o caráter excepcional da democracia americana. Lipset deu à sua teoria no nome de Excepcionalismo Americano. Esta doutrina, ainda segundo ele, já estaria antecipada numa famosa asserção de Abraham Lincoln: os Estados Unidos são quase uma nação eleita (por Deus).

Desnecessário enfatizar o quanto estes modos coletivos de expressão de soberba vêm contribuindo para causar desde, antipatias e conflitos localizados. revoluções e guerras, inclusive mundiais, sempre ligados obviamente a problemas político-
            KU-KLUX-KLAN
econômicos de toda espécie.  Os exemplos abundam: o sistema de castas (varnas) na Índia, o apartheid na África do Sul, a Ku-Klux-Klan dos USA, xiitas x sunitas no mundo islâmico, judeus x muçulmanos, católicos e protestantes em várias partes do mundo, judeus em permanente conflito com os muçulmanos, fundamentalismo radical religioso ou étnico, o separatismo (a parte mais desenvolvida de um país que quer se separar da menos desenvolvida) etc.

Este último “pecado”, o separatismo, cuja prática vem aumentando muito nos tempos modernos, como seu próprio nome indica, tende levar os seus praticantes a se fixar naquilo que é considerado como princípios fundamentais quando da fundação de determinados grupos, os certos, como acreditam. No fundo, toda discussão fundamentalista é também, como se pode ver, uma questão semântica.  O termo fundamentalista refere-se ainda a qualquer grupo dissidente que resista a identificar-se com o grupo maior do qual diverge. A sua divergência se deve quanto à interpretação dos princípios que deram origem à fundação do grupo. Os fundamentalistas imputam ao outro grupo maior o ter-se desviado dos princípios básicos, sempre uma corrupção,pela adoção de princípios alternativos hostis ou contraditórios à identidade original. 

A soberba procura sempre se manifestar de algum modo, exibir-se, seja individualmente ou em grupos, através de coletividades, sendo evidentemente mais perigosa quando sob esta última forma. Individualmente, é comum encontrarmos a soberba de braços dados com a inveja. Se um indivíduo tomado pela soberba se depara com outro, mais poderoso que ele, na sua esfera de atuação, não há como impedir que a inveja passe a roê-lo interiormente, situação sempre vivida muito dolorosamente. Comum o caso em que o invejoso procure fazer mal ao outro e que, não o conseguindo, ele acabe se autodestruindo.   
      
A soberba produz às vezes muita satisfação naquele que a experimenta, sentimento, neste caso, ostentado como dignidade pessoal. Isto é raro, mas acontece. Esta e outras nuances envolvidas nas situações ora descritas podem nos levar a considerar a soberba, o orgulho, de duas maneiras, positivamente como brio, sentimento de honra, de amor-próprio ou, negativamente, o mais comum, como arrogância, altivez. 


ZEUS , MÁRMORE , LOUVRE
Um dos melhores exemplos da soberba nos vem da mitologia grega, do chamado complexo de Zeus. Características de amplitude e de poder absoluto nos são fornecidos por esta divindade quando estudamos as suas variadas formas de expressão através dos papéis que assume no mito como senhor inconteste do Olimpo. O complexo de Zeus, basicamente, pode ser descrito como uma forte inclinação que algumas pessoas demonstram  no sentido de assumir sempre uma posição de autoridade máxima, inibindo, inclusive à força, se necessário, quaisquer tentativas de independência  de pessoas que vivam ou estejam dentro dos seus domínios. Duas frases definem, à perfeição, este complexo como ilustração da soberba: 1) Só há dois pontos de vista: o meu e o errado; 2) fora de mim, não há salvação. 


QUANDO A ESTRELA DA MANHÃ CANTOU
( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

Quanto ao viés religioso, a soberba tem em Lúcifer o seu melhor exemplo.  O nome vem do latim, aquele que transporta a luz,  (lux mais ferre). Em hebraico,   seu nome era  heilel ben-shahar, com o sentido de o filho do negrume. O nome, em grego, foi aplicado ao planeta Vênus como a estrela da manhã, a estrela d’alva, Eosphoros. A partir da Idade Média, o nome foi também aplicado a Satã. A partir da expressão astro brilhante, numa tradução (de Antonio Pereira de Figueiredo) da Vulgata, Lúcifer é encontrado em Isaías (14:12), aqui registrado o versículo: Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante? Como caíste por terra, tu, que ferias as nações?   


LÚCIFER
(W.BLAKE ,1757 - 1827)
Ao ser exilado, Lúcifer levou consigo uma hoste de anjos, caídos como ele. A revolta de Lúcifer contra Deus começou quando ele se recusou a prestar homenagens a Adão, para ele uma simples criatura feita de pó, enquanto ele, Lúcifer, era feito de luz, da mesma matéria da qual Deus era feito. Consta que Lúcifer também ficou com ciúmes de Adão porque Deus lhe deu uma companheira, que ele cobiçou.

Desde então, foram sendo atribuídos, sobretudo pela tradição judaico-cristã, principalmente pela primeira, aos operadores do Outro Lado, desdobramentos das suas principais figuras, segundo o aspecto que se desejasse representar, nomes como Belial, Belfegor, Belzebu, Asmodeu, Bael, Astarot, Beemot, Furfur, Leviatã, Moloch, Mammon, Baphomet, Beherit, Mefistófeles e outros, todos condôminos, prepostos ou asseclas dos Senhores do reino do Mal.
ASMODEU
Asmodeu, por exemplo, é um príncipe identificado com Samael, que, como serpente, seduziu Eva. Tem três cabeças taurinas, corpo humano, deita fogo pela boca de carneiro. Seus pés são de águia e tem cauda serpente. Cavalga um dragão e comanda setenta e duas legiões infernais. Superintende as casas de jogo, semeando a miséria, o horror e a dissipação. Segundo os judeus, Salomão conseguiu submetê-lo momentaneamente, obrigando-o a ajudá-lo na construção do templo. Leviatã é um monstro que aparece no Livro de Job. A tradição rabínica metamorfoseou-o num demônio andrógino. No Inferno, tem a patente de grande almirante. Segundo a tradição judaico-cristã, a tutela dos sete pecados capitais está assim distribuída, a partir do reino do Mal: Soberba, Lúcifer; Avareza, Mammon; Luxúria, Asmodeu; Inveja, Leviatã; Gula, Belzebu; Ira, Satã; e Preguiça, Belphegor.

LÚCIFER , O ÚLTIMO JULGAMENTO ( GIOTTO )

O pecado do orgulho ficou para sempre ligado à imagem de Lúcifer, belo e sábio, um modelo de perfeição, transformado num ser diabólico, símbolo da arrogância, da jactância e da vaidade intelectual. A arrogância é ato de alguém de atribuir a si direito, poder ou privilégio devida ou indevidamente. É uma qualidade ou caráter de que, por suposta superioridade mental, alguém assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros. É por isso que o oposto da soberba é a humildade.


ADÃO E EVA,1530(LUCAS CRANACH)
Santo Tomás de Aquino considerava a soberba um pecado tão grave que, quando o discutiu, isolou-o da série, tratou dele separadamente. Foi o pecado do orgulho que levou Eva a comer do fruto proibido. No Gênesis se diz que quando Eva viu a árvore do paraíso e ouviu o que dela falou a Serpente achou-a tão atraente aos seus olhos e desejável que não resistiu. Igualar-se-iam, ela e Adão, a Deus, ao comer dos seus preciosos frutos. 


A ilustração do pecado da soberba com a pretensão como a que Eva demonstrou, a de igualar-se aos deuses no campo do conhecimento, não era nova. Esta pretensão, por exemplo, como nos revela a mitologia grega estendia-se a outras manifestações que não só a intelectual. Na mitologia grega, podemos encontrar vários exemplos de heróis ou não que procuraram se igualar aos deuses ou mesmo superá-los, no plano da beleza física, da perícia na confecção de trabalhos, da esperteza, de alcançar alturas ainda mais elevadas que o Olimpo, de se oporem ou se negarem a aderir a cultos patrocinados pelos deuses etc. A esta pretensão, como já se disse, os gregos davam o nome de hybris, incorrendo neste “pecado” personagens como Sísifo, Cassiopeia, Aracne, as Piérides, Tântalo, Minos, Pasífae, Belerofonte, Ixion, Orfeu, Sísifo, Lábdaco, Narciso e muitos outros. 



Para discutir a soberba, Santo Tomás (De Magistro) toma os conceitos de desejo, de glória e de excelência. Com base em Santo Agostinho, ele nos diz que se o desejo se volta para qualquer bem naturalmente desejado de acordo com a regra da razão, esse desejo será reto e virtuoso. Ao contrário, o desejo será pecaminoso se ultrapassa essa regra ou se não chega a alcançá-la. São Tomé nos dá um exemplo: o desejo que o homem tem de conhecer as coisas sob a orientação da reta razão é
SÃO PAULO
( EL GRECCO , 1541 - 1614 )
louvável, mas querer mais é ir na direção da
curiositas, sempre um pecado mortal. Do mesmo modo, ficar aquém do que é possível conhecer retamente é cometer o pecado da negligentia. Todo homem, continua Santo Tomás, divinamente informado, tende a buscar a excelência no que faz. Ele cita, para isso, São Paulo (Coríntios): Quanto a nós, não nos gloriemos sem medida, mas segundo a regra que Deus nos deu como medida. O pecado em relação a essa regra é o distorcido desejo de grandeza, como diz Santo Agostinho (A Cidade de Deus). 

O pecado da soberba, da vaidade ou do orgulho leva o que o comete a buscar uma evidência, um esplendor alimentado pelo desejo de notoriedade, sendo sempre ignominioso por isso. Santo Tomás nos fala que a glória pode ser vista sob três aspectos. No seu nível máximo, ela é clara notoriedade visível por todos, pelas multidões. Num segundo nível, temos o bem de um que se manifesta a poucos ou a um só. Num terceiro nível, quando a própria pessoa, a sua maneira de viver, é fonte da sua própria notoriedade.

Qualquer que seja o enfoque, segundo Santo Tomás, a finalidade da vaidade é a manifestação da própria excelência, um comportamento que gera frutos. A vaidade chama-se jactância quando ela se manifesta por palavras. Quando temos a manifestação de fatos verdadeiros que despertam uma certa admiração estamos diante da presunção da novidade (o novo sempre chama mais a atenção). Se a manifestação se dá por fatos fingidos, temos a hipocrisia, característica do que é falso, dissimulado. O hipócrita carece de sinceridade, é fingido. Em grego, hypocrites, etimologicamente,  é aquele que  dá uma breve resposta; aplicava-se a palavra, de modo especial, ao ator de teatro, aquele que dava respostas ao coro. Depois, hypocrites passou a ser usada para designar aquele que não exprimia os seus verdadeiros sentimentos. 


O   ECLESIÁSTICO
Um dos textos religiosos mais importantes sobre a vaidade é O Eclesiastes, que faz parte do Antigo Testamento. Kohelet é o seu nome em hebraico, uma coleção de provérbios e máximas que constituem um capítulo importante da chamada literatura sapiencial. O texto ensina a moderação, fala das virtudes da vida familiar e do temor de Deus. Já o texto Eclesiástico (Ben Sira) discorre sobre a necessidade que o homem goze os prazeres do mundo com moderação. O primeiro livro acima citado ten a su autoria atribuída tradicionalmente ao rei Salomão, filho de David e de Betsabá, famoso por sua sabedoria, terceiro rei de Israel. Segundo a tradição, Salomão escreveu O Cânticos dos Cânticos na juventude, Os Provérbios na maturidade e O Eclesiastes (ecclesia, em latim, quer dizer assembleia, reunião  e depois comunidade cristã. igreja) na velhice. 

Os temas principais de O Eclesiastes são a vaidade das coisas humanas, o desapego dos bens terrestres, a negação da felicidade dos ricos e a tese de que os bem-aventurados serão os pobres. As ideias do livro tiveram muita difusão por volta do séc. III aC, quando a Palestina era então uma colônia macedônica, obrigada a pagar pesados tributos. O autor procura provar que a vida e a felicidade não estão na posse dos bens terrenos, no poder, nos prazeres, na ciência ou no status social. O texto procura sobretudo provar que a vida é um dom gratuito de Deus e que deve ser partilhada por todos com justiça e fraternidade.

Uma visita ao mundo grego nos ajudará, sem dúvida, a entender um pouco melhor o pecado da vaidade, embora vivamos tão longe da antiga Grécia. Aparentemente diferentes daqueles dos gregos, nossos valores, ideias, princípios e, sobretudo, nosso universo linguístico, quando hoje falamos da soberba, se assemelham bastante, sendo muito útil aproximá-los para o fim aqui colimado.

Segundo a mitologia grega, a Fama (Pheme  ou Phama , em grego) é uma filha de Geia, a Grande-Mãe, que a gerou sozinha, depois do nascimento dos gigantes. Outros a consideravam como filha de Elpis, a Esperança, sendo muito solicitados os seus serviços pelos orgulhosos de toda a espécie. Um bom exemplo do que aqui apontamos pode ser encontrado na poesia épica da literatura de muitos países na qual a Hybris e a Fama tiveram que se defrontar.

Hoje, com sabemos, há agências de publicidade especializadas na promoção do sucesso de pessoas. Elas têm por objetivo a colocação em evidência da pessoa a que prestam serviços, da melhor maneira possível, interagindo com o público. Nessa área, atua também o chamado personal coach  que treina o seu cliente para que ele “possa ir além na vida”.Ele tira a pessoa do estado (insatisfatório) em que ela se encontra (pessoal, profissional, social etc.) e faz com ela alcance o estado desejado. 

OVÍDIO
Na antiguidade, a Fama, com múltiplos olhos e ouvidos, vivia num palácio de bronze com milhares de orifícios, através dos quais captava qualquer som que fosse produzido no universo, o mais imperceptível, e, a seu critério, o amplificava, divulgando-o pelos quatro cantos do mundo. Era dotada de asas que lhe permitiam se deslocar com extrema rapidez
VIRGÍLIO
para conferir a verdade de tudo o que lhe chegava. Era obrigada a tanto, pois cercavam o seu palácio entidades perigosas, a Credulidade, o Erro, a Falsa Alegria, o Terror, a Sedição e os Falsos Boatos. Entre os latinos, Ovídio e Virgílio falaram dela. Este último a descreveu como uma deusa temível de quem nada escapava. 

Nada mais natural que Fama, na literatura grega, personificasse aquilo que os gregos chamavam de reputação, renome (kléos, em grego) e passasse a desempenhar um importante papel no mundo heroico. Para entender como isto se deu é preciso entender que o herói, no mundo homérico, era aquele homem que ultrapassava as suas limitações históricas e geográficas em direção de uma dimensão universal. Esta dimensão, embora considerada por muitos um desejo de transcendência, provocado por um impulso interior, tinha também um forte componente, o desejo de glórias mundanas.

A hipótese acima parece se confirmar como regra quando examinamos mais de perto a vida de muitos heróis gregos. Tome-se, por exemplo, o mito dos argonautas, o da conquista do velocino de ouro e a história de Ulisses como a encontramos na Odisseia. Ao falar de Ulisses, muitos mitógrafos, filósofos, poetas, artistas, escritores, professores de literatura e outros mais sempre procuraram fazer de Ulisses um símbolo do ser humano inquieto, um ideal de transcendência, ávido de conhecimentos novos, um eterno viajante. Ora, não será preciso muito, desde os primeiros cantos do poema, para que uma leitura mais atenta e menos fantasiosa da Odisseia prove o quão inconsistentes são grande parte dos textos produzidos sobre o rei de Ítaca. Como está claro na Odisseia, Ulisses rejeitou a imortalidade que lhe foi oferecida por Calipso, preferindo voltar a Ítaca para retomar o seu lugar entre os homens, o que lhe garantiria uma consideração sem igual.


CALIPSO  E  ULISSES , C.1616 ( JAN BRUGEL O VELHO )  

Outro aspecto da personalidade do herói grego, acima mencionado, era o de que ele se considerava como detentor natural de um kléos, ou seja, de uma glória e de um renome amparados por sua posição social (era sempre um membro da elite dirigente), pela sua habilidade pessoal (areté) e pela sua honorabilidade, honra pública (timé), que deveriam ser cantadas. Poetas e aedos existiam para isso. Este foi o dilema que se apresentou a Ulisses na ilha de Calipso, quando a ninfa quis transformá-lo num imortal, desde que ele se dispusesse a ficar com ela em Ogígia. A opção então se apresentou ao nosso herói: a imortalidade anônima ou uma existência mortal, com todos os riscos que esta última pudesse oferecer, mas, no caso, um herói entre os homens. No primeiro caso, manter-se-ia vivo para sempre, honrado pelos seus pares, mas sentindo-se como Aquiles quando o encontrou (o seu eidolon) no Hades. O maior guerreiro dos aqueus transformara-se num “sem-nome”, uma sombra (skia), como eram chamados todos os que se encontravam no reino infernal, porque haviam perdido o seu corpo físico, que lhes dava uma identidade. 

Como se sabe, em todas as culturas, a história dos heróis, do nascimento à morte, é revestida de muitos traços fantásticos, extraordinários, que vão sempre além da esfera do humano. Os gregos sempre procuraram transmitir para as gerações futuras uma visão sublime desses personagens, muito ampliada e mesmo deturpada pelos que os estudaram ou usaram como temas de suas obras. 

AQUILES  E HEITOR ( PALÁCIO
NACIONAL DA AJUDA, LISBOA)
Na realidade, porém, os heróis gregos nunca foram tão "heroicos" como muitos dos que nos são apresentados como tal, principalmente nos nossos tempos pela comunicação de massas (publicidade, revistas, histórias em quadrinhos, TV, cinema, Internet etc.). Se formos conferir, notamos que no geral os heróis gregos são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. Eram apresentados como invulneráveis, mas podiam ser abatidos (Aquiles, Heitor). Tinham graça e beleza, mas eram monstruosos: o gigantismo de Hércules, de Ajax Telamônio). Eram, na realidade, teriomorfos, andróginos, mudavam de sexo, adotavam o travestismo; tinham anomalias físicas (a tripla dentição de Hércules), deformações (Édipo). Com muita facilidade eram tomados por demônios ou espectros como Lyssa (Loucura), Ate (Erro), Eris (Discórdia), no que acompanhavam as próprias divindades. A maior parte dos heróis gregos tem um comportamento sexual extravagante, são estupradores, chegados à homossexualidade, atacam os próprios deuses, tentam violentar as deusas, têm acessos de cólera sem nenhum motivo, desrespeitam as normas de convivência e as regras da hospitalidade. 

Os heróis gregos, entretanto, são exemplares para nós enquanto simbolizam propostas de impulsos evolutivos e revelam também a situação de conflito do psiquismo humano pelos combates que nele se travam entre as forças da luz (atributos solares) e as forças das trevas, lunares (monstros, gigantes, dragões, imaginação descontrolada), que lembram as tendências regressivas, incansáveis, sempre a persegui-los. Faz parte da vida do herói, obrigatoriamente, a agonística, ou seja, a vida como luta, tanto interna como exteriormente. Sempre presente a ideia da criação de novas formas de relacionamento com o mundo a partir dos conflitos internos, as suas conquistas sempre ameaçadas de dissolução. Um processo de interiorização e de exteriorização ininterrupto. Pressões internas, reais ou imaginárias, temores, fobias, tentações, dúvidas, idiossincrasias. De outro lado, o mundo com os seus monstros, dragões, seres ameaçadores, sedutores, malfeitores. Sempre presentes também as ameças, conscientes ou não, como a vaidade, o orgulho, a fama, o renome, a consideração pública.

Aos poucos, no correr dos tempos, o sentido da palavra herói foi se ampliando, admitindo-se o seu uso para designar pessoas que têm um destino incomum. Do séc. XVIII em diante, com o Romantismo, em especial, uma nova dimensão foi incorporada à palavra. Determinados personagens das artes que problematizavam a sua relação com a sociedade começaram a ser chamados de heróis, nada tendo de exemplares na maioria dos casos. 

A sociedade moderna, principalmente a partir do séc. XX, saturada de profundo irracionalismo, vem há muito  tornando heróis, celebrities de todo gênero, muitas pessoas que orgulhosamente se destacam do coletivo, que “brilham” por um brutal egoísmo, por excessos individualistas, pela violência. Ladrões que vivem nas altas esferas econômicas, donos de redes de comunicação, banqueiros, demagogos, estelionatários, políticos enganadores, corruptos eméritos, falsificadores de todas as espécies, ricaços, conhecidos sonegadores, esportistas dopados, artistas de TV, do cinema, do show business, fabricantes de quinquilharias eletrônicas, uma extensa galeria enfim, promovida em escala mundial pelos meios de comunicação, pela mídia eletrônica atingiu hoje o status heroico para a grande massa globalizada, idiotizada como sempre. São os soberbos.

Antes de prosseguirmos, é preciso, porém destacar que no geral as visões “celeste” e “terrestre” do herói na mitologia grega são muitas vezes antagônicas. Isto porque se ele representa num primeiro momento um ideal de força combativa, está presente sempre nele, como já vimos, concomitantemente, a tendência ao excesso, à desmedida, que o leva a querer competir, igualar-se ou mesmo superar os deuses. 


HÉRCULES
( MUSEI  CAPITOLINI )
O herói, nos combates, vive num estado de cólera guerreira, expressão mágica para caracterizar a sua hybris, a sua orgulhosa desmedida heroica; como tal, ele pode ter direito, segundo os humanos, às suas tendências passionais. A figura heroica que melhor tipifica esta oscilação entre o anthropos e o aner, entre o homem ou sub-homem e o herói, o super-homem, sem jamais conhecer o seu metron é, sem dúvida, Hércules. Se para os humanos o culto heroico pode admitir este tipo de hybris, de orgulho, sob o ponto de vista olímpico tal não acontece. Em que pese o fato de Hércules ter sido arrebatado por seu pai, Zeus, quando de seu suicídio apoteótico, para ir viver entre os deuses, do ponto de vista do Olimpo ou do Hades, as suas façanhas sempre foram tidas como gestas ignominiosas e seu destino miserável. 

Esta também seria indiscutivelmente a visão que teríamos das façanhas de Hércules e de outros heróis se as considerássemos sob o ponto de vista da doutrina dos pecados que os santos padres da Igreja estabeleceram. Ainda que condenáveis sob muitos aspectos, tais façanhas, contudo, sempre ajudaram aqueles que delas se aproximaram a se conhecer um pouco melhor, tanto a si mesmos como aos outros, além, é claro, de constituírem, na mão de artistas maravilhosos, como Homero, Hesíodo, Ovídio, Rembrandt, Mahler, Visconti, Michelangelo, James Joyce, Leonardo da Vinci e inúmeros outros um grande e exemplar patrimônio cultural. O que diríamos então se aplicássemos os mesmos pontos de vista da mesma doutrina dos pecados para falar daquilo que muitos indivíduos procuram hoje viver quando buscam, desesperadamente, através da tecnologia, o seu momento de glória instantânea, ao produzir selfies, fotografias ou o seu perfil numa linha do tempo, com as irrelevantes, nada exemplares e descartáveis histórias do seu cotidiano ilustradas com as suas lamentáveis e desinteressantes fotos?





.

domingo, 27 de março de 2016

SATURNO (3)

                                          
Antes da chegada de Cronos à península itálica, havia uma antiga divindade chamada Consus, que atuava, na região central da Itália, como deus da vegetação, do bom conselho e das sementeiras. Seu nome parecia ter relação com o verbo condo, que significa estabelecer alguma coisa (uma cidade, por exemplo), com a palavra absconsus, que tem o sentido de esconder longe de, retirar da vista, e com o verbo consulo, deliberar, refletir, ser prudente, saber aconselhar. 



CONSUALIA

Suas festas eram as Consualia, com duas cerimônias distintas: numa primeira, celebrada a 21 de agosto, depois das colheitas, Consus aparecia associado à deusa Ops (opiconsivia), festas nas quais havia corrida de carros e de cavalos, divertimentos diversos e danças. A segunda festa se realizava no dia 15 de dezembro, depois das sementeiras, também com jogos e divertimentos. Foi durante as Consualia que ocorreu o famoso episódio do rapto das sabinas pelos romanos.  


OPICONSIVIA

Saturno tem duas faces entre os romanos. Pode ser considerado como uma antiga divindade agrícola, originária do mundo latino, e pode ser visto também como um deus novensile, isto é, importado da Grécia, o Cronos grego, derrotado na Titanomaquia, que chegou à Itália e ali teve o seu destino unido ao do deus Janus. O nome Saturno, nesse sentido, encontra as suas raízes nas palavras latinas satur, saciado, farto, ou sator (semeador), sendo sinônimo de abundância em ambos os casos. 


TITANOMAQUIA

Na Itália, Saturno é o deus dos trabalhadores do campo e dos viticultores (vitisator). Sob o nome de Stercutius ele vela pela estrumação dos campos. Sempre aparece associado à deusa Ops, uma personificação das riquezas da terra. Esta deusa sempre foi considerada como a esposa do deus. Seu nome deriva da palavra opus, obra, trabalho, atividade que produz riquezas, que gera abundância. Suas festas se realizavam nos mesmos dias das Consualia (15 de agosto e 21 de dezembro). Seu culto, de origem sabina, foi introduzido na Itália pelo rei Tito Tácio.

Saturno sempre foi considerado entre os romanos como rei da Itália durante a Aetas Aurea. Expulso por Júpiter dos céus, teria se escondido na região romana, perto do Capitólio. Suas grandes festas eram celebradas a partir do dia 17 de dezembro, ligadas desde tempos muito remotos a três festividades campestres: sementivae feriae, consualia larentalia e puganalia. As primeiras, como o nome indica, eram celebrações relacionadas com as sementeiras; as seguintes tinham a ver as mencionadas Consualia e com as Larentalia.

ACCA   LAURENTIA
As Larentalia, também chamadas Accalia, eram festas que se celebravam em hora de Acca Larentia, que, na mitologia, era a mulher do pastor Fáustulo, que encontrou Rômulo e Remo às margens do rio Tibre. Morrendo um dos doze filhos de Acca Larentia, Rômulo assumiu o seu lugar e instituiu um colégio sacerdotal com os outros onze irmãos, chamado Arvais (de aruum, campo lavrado), que não só cultuaram depois
CARMENTA


a memória da mãe quando do seu falecimento como se encarregavam de realizar sacrifícios para favorecer a fertilidade dos campos. Os cânticos dos irmãos Arvais tinham o nome de carmina (nome proveniente de Carmenta, antiga deusa das profecias); eram fórmulas mágicas rituais que tinham a finalidade de aumentar as lavouras e de garantir a sua proteção. 




FAUSTUS   E   ACCA   LAURENTIA   ENCONTRAM   RÔMULO   E   REMO 



JANUS   BIFRONTE
( BRITISH   MUSEUM )
Ovídio nos conta que Cronos foi acolhido no Latium, nome que, segundo ele, viria do verbo Latere, estar escondido. Nessa região, perto do Capitólio, fundou ele uma cidade fortificada a que deu o nome de Saturnia. Quem o acolheu foi um dos mais antigos deuses indigetes (não importados), Janus, o deus bifronte. Ao lado da cidade de Saturno, Janus tinha a sua fortaleza, chamada de Janículo.

Dividindo fraternalmente o poder, as duas divindades governaram o país, sendo conhecido, em Roma, o período em que ambos atuaram juntos pelo nome de aetas aurea, um período no qual os poetas sempre viram progresso, honestidade, liberdade, paz e abundância.

Como grande promotor da civilização que ali então se instalou, Saturno transmitiu ao povo do lugar, ampliando bastante a obra de Janus, o conhecimento do cultivo dos campos, da construção de casas e deu aos homens leis justas e sábias. Virgílio nos fala desse tempo no qual não se ouvia a trombeta bélica nem o som metálico das espadas sendo forjadas nas duras bigornas. 

Saturno era representado normalmente como um homem maduro, de barbas, empunhando uma foice. Embora com este instrumento nas mãos, sempre associado à castração, à mutilação e à ceifa de tudo o que existia, Saturno nunca apareceu, entre os romanos, com o aspecto soturno e sinistro do Cronos grego.

Historicamente, sempre permaneceu viva entre os romanos ao longo de sua história a propensão para venerar uma energia misteriosa, chamada de força vital, que comandava a vida universal, movimentando tudo, os ciclos da natureza e os seus reinos. De outro lado, havia a vontade do ser humano, uma vontade que ele deveria procurar conciliar com tal energia se ela lhe fosse propícia ou procurar desviá-la ou paralisá-la se ela lhe fosse negativa. 

Estas ideias explicam também a tendência dos romanos de venerar , como deuses ou gênios, as expressões particulares dessa energia misteriosa, nos mínimos aspectos da vida em que ela intervinha. A esses aspectos era dado o nome de numina (vontade divina, assentimento); a eles era concedido sempre um gesto de respeito, uma oferenda, alguma oração. Era o numen que fazia com que a criança pegasse o seio da mãe, o outro que a fazia beber; um numen intervinha quando a semente era enterrada ou quando se amarrava o feixe do trigo. Esta disposição mental nunca desapareceu da vida romana e acabou por levar à divinização muitas abstrações e atributos alegóricos. Sempre, pois, uma tendência dupla entre os romanos: generalização e fragmentação infinita do divino.

O homem romano dos primeiros tempos (sécs. VII e VI aC) era um camponês, sendo sua vida muito afetada por valores saturninos. Esses valores eram acrescentados ao culto doméstico; falam sempre
CATÃO , O   VELHO
de aumento do domínio territorial, do anseio de preservar e fazer prosperar os rebanhos e as plantações. Há um tratado de agronomia desse tempo, atribuído a Catão, o Velho, que nos fornece pormenores numerosos e precisos sobre as festas a celebrar, os sacrifícios a realizar, as orações a recitar etc. Cada ato da vida agrícola devia ser acompanhado sempre de um ato religioso que solicitava o seu êxito ou procurava apaziguar o descontentamento da divindade do lugar.


As preocupações agrárias penetraram profundamente a religião oficial. Os maiores deuses do panteão romano sempre se associaram à vida dos campos. Existia, por exemplo, um Júpiter Liber como deus do vinho novo. Marte era o deus protetor do trabalho agrícola e de seus produtos. O nome Saturno, para muitos, derivava-se de sata, palavra que significa “terras semeadas”. 

Saturno sempre deu sustentação, através de dois de seus principais valores, o pai de família e a vida agrícola, à vida religiosa romana dos primeiros séculos da cidade. A aetas aurea do mito explica-se: uma existência assegurada pela continuidade da família agrupada em torno do seu chefe. Isto explica também porque a religião desses primeiros tempos incorporou o pensamento jurídico (Saturno se exalta em Libra), a preocupação pelos interesses materiais, o sentido realista dos proprietários de terras e de chefes de família. 

Desde 500 aC já temos registros de um templo dedicado a Saturno em Roma e de festas celebradas em seu nome, as Saturnalia, que lembram muito as festas de ano novo no oriente em  várias culturas. Com estas festas se procurava fazer com que uma idade de ouro fosse periodicamente revivida, dela participando toda a população da cidade. Nas Saturnalia, como elementos importantes, tínhamos as “presenças” divinas entre os mortais, o chamado convivium publicum, a abundância coletiva e a eliminação da barreira entre as classes. O festim público, patrocinado pelo Estado, tinha um objetivo principal, provocar o deslumbramento das classes inferiores (escravos e trabalhadores). Por uns dias, vivia-se o otium da idade de ouro sob a tutela do saturnalicius princeps, que pontificava em desfiles de características carnavalescas. 



No período das Saturnalia, os mortais, mesmo os de nível social mais baixo, afastavam-se das fadigas e das preocupações do seu penoso dia-a-dia, para viver alegremente por duas semanas. Por volta de 220 aC as Saturnalia foram transformadas nas maiores festas de Roma, vivendo a cidade esse período dourado com grande fartura. 

Se procurarmos nos aproximar de tudo isso mais objetivamente não poderemos deixar de concluir que as Saturnalia representaram sempre uma grande jogada política que tinha o objetivo de reafirmar a unidade nacional e a glorificação do país diante de ameaças externas como o poder cartaginês e a segunda guerra púnica. O Senado romano manobrou magistralmente, apelando para o culto religioso com a finalidade de garantir a unanimidade nacional. Desde então, as Saturnalia, por uns poucos séculos mais, a Saturnia Regna, ainda se mantiveram como símbolo da esperança e do renascimento. Estas ideias foram certamente as inspiradoras dos primeiros cristãos, que se valeram das Saturnalia, que se estendiam de meados de dezembro aos primeiros dias de janeiro, para nelas fixar o Natal, o nascimento de Cristo, no dia 25 de dezembro. 


MITHRA   CRIANÇA
Outra “colaboração” para o Natal cristão foi a festa celebrada em Roma em homenagem ao deus solar persa Mithra. Esta festa foi implantada em Roma no primeiro século da era cristã e se tornou tão popular que, durante o reinado de Aureliano, em 274, o culto a Mithra foi declarado como religião oficial do Estado, fixando-se a data 25 de dezembro para as devidas celebrações, festa do Sol Invictus.

Lembre-se que para impor o Natal cristão os Padres da Igreja fizeram uma opção entre cinco datas, 25 de dezembro, 1º de janeiro, 6 de janeiro, 25 de março e 20 de maio. Nestes primeiros tempos, a festa do Natal se resumia à celebração de uma missa no dia 25 de dezembro, que “honraria não o Sol dos pagãos, mas o Criador do Sol.” Só no ano de 337 a festa de Natal cristã tomaria a sua forma definitiva, ano em que o imperador Constantino foi batizado, unindo-se desde então a Igreja e o Estado. 



O maior responsável pela consolidação de Saturno como divindade nacional foi o poeta Virgílio; na sua quarta Bucólica, em latim também chamada Eclogae, a sua primeira grande obra, o poeta põe em cena a vida pastoril e fala do futuro glorioso de Roma. Saturnus Rex não é evidentemente o fundador de Roma (Janus o antecedeu), mas na voz do poeta Saturno se transforma no grande construtor do mundo romano e ancestral de uma genealogia que, atravessando séculos, chegará até Augusto.  

Lembre-se que o solstício de inverno sempre teve uma grande importância para os povos europeus, pois era ele que abria a fase ascendente do ciclo anual, enquanto o solstício de verão abria a fase descendente. Daí o mito de Janus e das portas solsticiais, representadas pelas duas faces do deus. O solstício de inverno era o momento do ano em que o mundo dos vivos e o mundo dos mortos se comunicavam entre si. Na tradição cristã, passou a ser usada nesse período de encontro entre os dois mundos a fogueira de Natal, cujo objetivo era o de lembrar que Jesus nascera num estábulo glacial (cenário tipicamente canceriano, embora Câncer marque o início do verão) e que não tinha para aquecê-lo senão, além da fogueira, o bafo de um boi e de um asno. Acreditava-se também que do nascimento de Cristo teriam participado os anjos, que se aqueciam perto da fogueira. Dessa concepção natalina saiu a ideia muito espalhada em algumas nações cristãs de que os pais poderiam deixar as suas crianças sozinhas na noite de Natal, para irem à missa da meia-noite, pois os anjos cuidariam delas.

A fogueira de Natal que ardesse sem problemas tinha as bênçãos do céu. Quando dela escapavam muitas faíscas, os presságios de boas colheitas eram favoráveis. Além do mais, o carvão proveniente das achas que haviam queimado nessa fogueira poderia ser usado para curar várias doenças durante o ano, principalmente as de estômago; as cinzas protegiam também contra acidentes e tempestades e, depositadas nos telhados, afastavam feiticeiras.  

Na tradição cristã europeia, o período entre 25 de dezembro e 5 de janeiro (véspera da festa dos Reis) era até o início da era moderna (séc. XVIII) particularmente rico de superstições. A reputação mágica deste ciclo de doze dias, atestada desde o séc. IV dC, provém da importância do Natal e da Epifania, dia da manifestação de Cristo aos três Reis Magos e de seu batismo, que, na tradição da Igreja do Oriente, corresponde à celebração da Natividade. Do Natal à Epifania, do nascimento secreto à manifestação pública e universal simbolizada pelo testemunho dos Reis Magos, temos um tempo de maturação, de crescimento, de transformação. Epifania, epiphaneia, em grego (epi, sobre, por cima; phaneros, visível), é a primeira manifestação de Cristo como filho de Deus e também a festa religiosa em que se comemora este acontecimento. 


REIS   MAGOS

Além do caráter religioso destas datas e do período entre elas, considerados dias santificados, desde o séc. VI (Concílio de Tours), celebrava-se também a passagem do velho ao novo ano, marcada esta passagem por numerosos ritos de expulsão de influências negativas e exorcismos. Este período, como aqui se expõe, correspondia ao das Saturnalia em Roma, um período crítico e perigoso. Era o momento em que o céu e a terra se abriam para dar passagem a seres maléficos do Outro Mundo. As almas dos mortos voltavam à Terra, as feiticeiras, os demônios, os seres infernais e os lobisomens erravam a solta pelo mundo. 


SATURNALIA   ( HOWARD  DAVID  JOHNSON )

As proibições e interdições relacionadas com o Natal vêm deste período: evitar tarefas domésticas, não tecer, não costurar, não atrelar os cavalos às charruas. Uma falta cometida num destes doze dias produziria um efeito negativo a ser “colhido” num dos meses do ano. Assim, uma falta cometida no dia 25 seria “colhida” em janeiro; cometida no dia 26, seria “colhida” em fevereiro e assim sucessivamente. Esta mesmas ideias, aliás, são também encontradas na Índia védica; segundo elas, os doze dias que se sucedem ao solstício de inverno seriam a imagem do ano vindouro. Quem nos conta todas estas histórias é Pierre Saintyves, pseudônimo de Émile Nourry (1870-1935), grande antropólogo, escritor, editor e folclorista francês num de seus livros sobre Astrologia popular. 
  


PIERRE   SAINTYVES   ( ÉMILE  NOURRY )

Saturno e o Sol na Astrologia ocidental, como sabemos, sempre apareceram associados à figura paterna. Com relação ao primeiro, porém, esta associação toma sempre um caráter difícil, problemático, tirânico até, mesmo nos aspectos harmônicos que ele estabeleça com outros planetas ou com determinados ângulos de uma carta astral. Dignificado ou não numa tema astrológico, por posição ou aspectos, Saturno levará sempre, favoravelmente ou não, para uma carta astral,  sua maneira de atuar no mito. 

Não há necessidade de conhecimentos especializados da psicologia para se perceber que uma família disfuncional é uma instituição

autorreprodutora. Um Saturno “forte” num mapa tanto pode indicar um pai dominador, controlador, como uma criança que talvez venha a se tornar um pai tirânico. Este tema está, por exemplo, magistralmente desenvolvido no filme Pai Patrão, obra-prima do cinema italiano. A libertação dos padrões saturninos fixados num mapa, para transformação de Saturno em mestre interior, é sempre extremamente difícil e dolorosa. 

Do mito grego, como já se mencionou, nos vem também a passagem da prisão de Cronos no Tártaro. Saturno, num mapa, pode significar a nossa prisão, a nossa imobilidade, num lugar escuro e desolado onde ficaremos acorrentados (parece-se muito com Plutão, neste particular). Queda, banimento, humilhação e isolamento, provocados por forças externas, são conceitos relacionados com Saturno, constatáveis em muitos temas dos que atingiram, sob o ponto de vista material, as alturas, os picos, e caíram.

Na Alquimia, Saturno é estudado no capitulo da coagulatio, operação ligada ao elemento terra e, como tal, lembra forma e posição fixas, dificuldade de adaptação, concentração, condensação, quando não imobilidade. Neste sentido, Saturno tem a ver com os processos de criação de formas de um modo geral (a arte do capricorniano Cézanne é um bom exemplo). Dentre os agentes da coagulação, a Alquimia faz especial referência ao chumbo, sempre associado ao planeta Saturno e ligado, quando pensamos na prática analítica, a temas como depressão, melancolia, frieza, limitação. 



MONT   SAINTE - VICTOIRE  ( CÉZANNE ) 

O chumbo é um metal ao qual já os caldeus atribuíam uma
PARACELSO  -  OPERA   OMNIA
influência funesta, símbolo da inércia. Paracelso, o grande alquimista suíço, falecido em 1541, proclamava que o chumbo era a água de todos os metais e que se os alquimistas conhecessem o que Saturno continha eles abandonariam tudo para se fixar só nele. Não é por acaso que os antigos, desde tempos muito remotos, praticavam a adivinhação através do chumbo fundido, a chamada molibdomancia, que consistia em deixar cair algumas gotas de chumbo aquecido na água e, pelos ruídos que se produzissem ou figuras que se formassem, fazer previsões. O molibdênio é um elemento químico altamente resistente à corrosão e, por isso, usado em aviões, foguetes, mísseis etc. Em grego antigo, molibdaina era qualquer massa de chumbo. 

Segundo registros disponíveis, as primeiras notícias sobre o chumbo datam de 3000 aC, pois, por essa época, alguns povos da bacia mediterrânea já obtinham prata retirando-a dele. A natureza saturnina do chumbo é facilmente constatável quando conhecemos o seu uso como isolante acústico. É muito conhecida a eficácia do chumbo como protetor em recintos hospitalares onde se usa o Raio X e a radioterapia e em salas onde é gerada a energia nuclear. Explica-se: a extrema densidade do chumbo o torna impermeável à irradiação.

Neste sentido, o chumbo, simbolicamente, é o estágio final a que a matéria pode chegar, a matéria que não pode mais passar por
A   GRANDE   OBRA
transformações. Assim, ele tem relação com algo conclusivo, com o fim de um ciclo vital, e, consequentemente, com a velhice e com a morte. Daí o simbolismo alquímico usar a caminhada do inferior (chumbo) ao superior (ouro), a chamada Grande Obra, a Opus, para representar as experiências de transformação pelas quais o ser humano pode passar evolutivamente.


O nosso processo de individuação, a definição de um ego, a nossa autossuficiência e o nosso autocontrole têm a ver com Saturno e o chumbo. No corpo humano, o elemento chumbo, na proporção certa, está ligado a uma ossatura resistente, a cabelos, dentes e unhas fortes. Se Saturno e o chumbo aparecem em excesso os índices da “coagulatio” aumentam; temos endurecimentos, enrijecimentos, formação de cálculos, em órgãos, artérias etc. Saturno (frio e seco) trabalha por contração, endurecimentos, como câimbras, artroses. Se o endurecimento é anímico, temos as chamadas contrações saturninas da alma, medo, temores, apreensões, depressões, esquizofrenia.





O chumbo, como se sabe, é muito venenoso. Não é por acaso que a intoxicação aguda ou crônica pelo chumbo se chama saturnismo ou plumbismo. Na Homeopatia, como remédio, o chumbo entra no Plumbum metallicum, muito usado no caso de distrofia muscular, esclerose múltipla, tabes, ataxia locomotora, depressão, delírio etc. 

A velhice caracteriza o chamado “período chumbo” na vida humana, período no qual o corpo e a alma “endurecem”. Em consequência, afora as naturais limitações de ordem física, as rabugices corporais e as patologias, temos os vários casos de perda de flexibilidade, da nossa capacidade de adaptação, do que popularmente chamamos de jogo de cintura; no lugar, então, o complexo saturnino, a recusa a abandonar ou a perder  aquilo a que nos apegamos ao longo de nossa vida. Permitimos que Saturno nos canibalize como devorava os seus filhos, entregando-nos a estados de frustração, de insensibilidade, de renúncia ou de avidez. Daí os casos de conservadorismo, dogmatismo, opiniões obstinadas, tradicionalismo, teimosia e frieza. O chumbo e Saturno pertencem no ser humano à esfera da realização do eu interior. Seu valor é altamente educativo, pois não se liga àquilo que vem de fora; liga-se, sim, ao que temos de descobrir e trabalhar, no geral penosamente, dentro de nós mesmos.  

Saturno, ao mesmo tempo que nos oferece os arquétipos do parricídio e do filicídio, ele afirma os direitos absolutos do indivíduo, fixado no seu próprio  egocentrismo. A sua dolorosa experiência interior nos põe também diante dos mais variados processos de autopunição, da retirada da libido como procura instintiva do prazer e, consequentemente, de todo dionisíaco orgiástico.

Não será preciso muito esforço para se perceber, quando Saturno atua de modo negativo numa carta astrológica (por signo, casa ou aspecto), como podemos ser canibalizados, devorados. É por isso que quem tem Saturno no ascendente sempre teve muita dificuldade para se sentir jovem. Nunca, na infância, foi certamente uma criança como as demais, jamais conseguindo participar das brincadeiras como elas. Um Saturno numa quarta casa sempre fará com que a criança necessite de uma relação mais calorosa com os pais, que receba deles mais apoio, mais suporte emocional, que eles, objetiva ou subjetivamente para a criança, não sejam tão conservadores e reservados.

Quando Saturno, por exemplo, se relaciona desarmonicamente com a Lua e Júpiter, ele pode produzir um grande desequilíbrio com relação à chamada fase oral de uma criança. Esta fase, como se sabe, é a primeira da evolução libidinal, caracterizada pelo fato da criança (lactente) encontrar seu prazer na alimentação, na atividade da boca e dos lábios. O prazer de sugar (boca), ligado de início a uma necessidade fisiológica, acaba se tornando o lugar de uma atividade autoerótica, que se constitui no primeiro modo de qualquer satisfação sexual. A fase oral é “cabalística”. Esta fase se decompõe na sucção propriamente dita e no seu aspecto sádico, que corresponde ao aparecimento dos dentes e das fantasias da mordida e da devoração. A fase oral está ligada à relação entre a criança e o seio materno, constituindo-se ela simultaneamente em satisfação e frustração. 

Geralmente, os distúrbios entre Saturno e os astros que têm domicílio e exaltação em Câncer assumem, dentre outros, dois aspectos: bulimia (em grego, fome sôfrega) e anorexia (em grego, an, privativo, mais oreksis, apetite, desejo de comer). A primeira, como se sabe, é causada por episódios incontroláveis, acessos de hiperfagia, que independente da anorexia nervosa costumam ocorrer ao menos duas vezes por semana durante alguns meses ou mais. Já a anorexia é muito mais mental ou nervosa, constituindo um quadro mórbido em que alguém diminui a quantidade de alimentos ingeridos, frequentemente eliminando os ricos em calorias, por meio de uma dieta rígida, autoimposta, alternada com crises de bulimia, vômitos ou uso de purgativos.  
  
 Na bulimia, temos invariavelmente a necessidade passiva de amor materno, entrando Saturno no aspecto para produzir uma exagerada necessidade de tomar alimento, de viver sem freios, gerando egocentrismo, preguiça, ciúme, fanatismo. Na anorexia, há sempre uma necessidade concreta da figura materna; normalmente, não há ingestão de comida, a não ser que a mãe se ofereça “espontaneamente” para dar o alimento vital. Neste segundo caso, temos o quadro mais grave, sendo Saturno a fonte do desespero, da insensibilidade, do ascetismo, da separação e da indiferença. 

SATURNO   SENEX
Se nos voltarmos para os casos (aspectos harmônicos) em que Saturno aparece como Senex positivo, temos então os exemplos da sua lenta e segura ajuda no aumento da nossa força interior, da nossa disciplina e responsabilidade. Podem surgir as grandes ambições, sempre de médio para longo prazo, eis que Saturno nunca é imediatista. É nestes casos que ele se torna símbolo das grandes ascensões intelectuais ou espirituais, representado pelo Lycorne.

Saturno indica a direção que tomará na vida de alguém o princípio de autopreservação que, em sua expressão superior, deixa de ser puramente defensivo para se tornar ambicioso e aspirativo. A nossa capacidade de defesa ou de ataque diante do mundo é, mostrada, em grande parte, pela posição de Saturno no nosso mapa. Se Saturno está no mesmo signo em que nele se encontram o Sol e a Lua, a defesa predomina e há sempre o perigo de uma excessiva introversão. Quanto mais distante Saturno estiver do Sol, da Lua ou do Ascendente, melhor para a nossa objetivação e extroversão. Se Saturno se encontra no mesmo signo de Mercúrio, há sempre uma tendência de que nossas reações, diante do que nossos sentidos captam do mundo, sejam profundas, sérias, refletidas. Se Saturno acompanha Vênus, demonstraremos invariavelmente dificuldades, maiores ou menores, no plano de nossos relacionamentos; frieza nas relações afetivas, conservadorismo na nossa vida econômica; está relação costuma aparecer na vida dos que são “felizes nas cartas e infelizes no amor”. Se Saturno está relacionado com Marte, apresentamos geralmente confusão em nossa vida entre atitudes defensivas e agressivas, o que pode trazer alguma sempre indecisão.  Saturno, lembremos, não diz respeito ao que não podemos ter, mas tem relação com aquilo que merecemos ter. Ele governa os atrasos que retardam o que devemos receber ou as privações do que julgávamos que nos era devido. Saturno é tudo o que de negativo que alimentamos nesta vida: é o sentimento de falta, de carência, por mais que façamos; é a detestável tarefa que temos que cumprir. 

Onde quer que esteja Saturno num mapa, é nesse lugar em que aparecerão, cedo ou tarde, as provas, os deveres e as obrigações mais pesados; é nesse lugar (casa astrológica) em que teremos de provar algo a nós mesmos. É nesse lugar em que, com relação aos assuntos da casa, poderemos demonstrar medo, coragem e respeito próprio. Em todas as situações, a verdade de Saturno é a que nos levará a enfrentar os problemas, com determinação e constância. Saturno é tanto o que nos força a fazer uma coisa como aquilo que pode nos dar força para fazê-lo. É neste sentido que os hindus o consideram tanto como o Senhor do Karma como o do Dharma.

Ao agir no mundo deste ou daquele modo ou deixando de agir, omitindo-nos, estamos assumindo o resultado de nossas ações. Karma é a lei da causação; Sempre que há uma causa, um efeito é produzido. Sempre há uma conexão entre o que estamos fazendo hoje e o que nos acontecerá no futuro, mesmo que invoquemos a Thykhe grega ou a Fortuna, deusas dos gregos e dos romanos. 

Ao enfrentamento das consequências de nossas ações, os hindus dão o nome de Dharma, palavra que traduz uma ideia de segurar, manter, suportar. Dharma é aquilo que sustenta o universo, os seres humanos, a sociedade, a criação como um todo. De outro modo: temos que assumir o resultado de nossas ações, a responsabilidade é nossa. Nada mais saturnino, sob este ponto de vista. Só deste modo a vida poderá ser digna, dizem-nos os mestres hindus. Sem
SVADHARMA   YOGA
Dharma não há vida individual, social, coletiva, não há Estado, Nação. Particularizado, o Dharma tem o nome de Svadharma. Cada um de nós tem o seu, a ser vivido segundo o que trouxemos para esta vida e nela encontramos no nosso momento histórico. Dentro do nosso mundo de relações e de obrigações, de acordo com o nosso nível intelectual e social, temos que encontrar os preceitos dinâmicos a aplicar em cada situação. Por isso, cada um de nós tem  o seu Dharma particular, o seu Svadharma.

O símbolo de Saturno é formado por uma cruz e por um crescente. A primeira diz respeito à vida material, indicando-nos que o que
SÍMBOLO   DE   SATURNO
entrou na vida tem que morrer. Tudo que entra na existência terá que desaparecer, cedo ou tarde. Cada experiência que temos, cada coisa que conhecemos, tudo é finito, uma pedra, um vegetal, um animal, uma ideia, uma filosofia, uma civilização, um deus... A cruz se liga ao número quatro, número da simetria, símbolo da totalidade material, depreendendo-se  dele uma ideia de organização, de construção; não é por outra razão que o quaternário é a primeira das figuras sólidas. 

 O crescente, fase lunar,  entra na figura saturnina para nos falar de ritmos biológicos, do tempo que passa, de variação periódica, lembrando-nos ao mesmo tempo a semente que foi plantada. Sob a superfície da terra, um novo ciclo recomeça. A indicação é clara: por trás de todo final há sempre um recomeço. O crescente lunar diz respeito aos primeiros catorze dias do mês lunar, associado sempre ao desenvolvimento dos seres que entram na vida. Daí o antiquíssimo hábito de se ver um favorecimento para as ações humanas na fase crescente lunar e o contrário na fase decrescente.