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sábado, 23 de novembro de 2019

DOS PECADOS - A SOBERBA

                             
PECADOS , CAPELA  DEGLI  SCROVEGNI , PADOVA
( GIOTTO  DI  BONDONE , 1304 - 1306 )

Orgulho, arrogância, jactância, vaidade, enfatuação, presunção, pretensão de superioridade,  o campo semântico deste substantivo é, realmente, muito vasto. Os antigos gregos usavam, por exemplo, para falar desse sentimento a palavra hyperphania (só encontrada hoje em alguns dicionários teológicos) composta de hyper, acima, elevado, abundante, muito alto ou grande, mais phania, de phaneros, visível, manifesto, público, evidente. Em português, temos ufania, que se aproxima de ufa, que significa em grande quantidade, traduzindo uma ideia de exagero, de excesso, de muito além do normal, palavra encontrada na expressão (locução adverbial) a ufo, provavelmente de origem onomatopaica.(gastou sua herança à ufo). Hyperphania, latinizada, estava na Bíblia, no Novo Testamento, em Marcos (7:22) e Lucas (1:51).

Da mitologia grega provém hybris, que significa desmedida, orgulho, descomedimento. No mito, era um daimon (um demônio, um gênio) que personificava a insolência, a arrogância, a falta de moderação, formando com Koros, o Desdém, e Asebeia, a Impiedade, uma pequena família. Para o homem comum, era um conceito que tinha relação com a falta de medida para mais ou para menos.  Ao atuar, a Hybris provocava uma desproporção, podendo levar ao bom demais como ao mau demais. Ela afastava as pessoas da justa medida, do nada excesso, divisa apolínea que estava inscrita no Oráculo de Delfos. No convívio social, a hybris era sobretudo sentida como a falta de percepção do outro, como uma invasão do seu espaço. No sentido contrário de Hybris atuava a Nemesis, divindade que punia os excessos, que atacava os orgulhosos, como aconteceu com o belíssimo Narciso.


NARCISO
( MICHELANGELO DA CARAVAGGIO , 1571 -1610 )

A soberba, superbia, em latim, é sempre citada em primeiro lugar quando enumeramos os pecados capitais. É conhecida como o pecado do Diabo, ou melhor, do Diabo na sua forma luciferiana. O Diabo é o nome que damos na tradição cristã a uma figura que encarna as forças do mal. Seu nome, etimologicamente, quer dizer aquele que divide, que causa dispersão. É, como tal, símbolo do erro, da mentira, da violência, da dispersão, das forças inconscientes que provocam a desintegração da personalidade do homem, vitimando-o física e moralmente, jogando-o em mil direções. É o inimigo natural de todas as formas de espiritualidade e da elevação psíquica. Na tradição judaico-cristã personifica as paixões e os vícios. A soberba costuma se expressar através de dois modos, individual ou coletivamente São exemplos deste segundo modo o cosmocratismo, o racismo, o corporativismo, o elitismo,  as várias formas de nacionalismo, a xenofobia, sobretudo a religiosa,  o colonialismo e outros mais. Uma forma muito peculiar de soberba, que muito mal fez ao convívio harmonioso entre os povos, foi a de nações que se auto-proclamaram como escolhidas por Deus para desempenha um papel importante de liderança, principalmente com base no monoteísmo, arvorando-se como condutoras do resto da humanidade. 


O  ORGULHO , A  VAIDADE  E  A  IRA.
( PETER  BRUEGEL , C.1525 - 1569 )

Um exemplo do que acima se expôs, nos tempos modernos, comparável com o dos judeus na antiguidade, pode ser encontrado em textos da ciência política, como num de Seymour Martin Lipset, famoso e premiado sociólogo norte-americano de origem russa, aqui resumido: afirma ele que os USA, politicamente, são a mais perfeita representação  do anti-estatismo, sendo, como tal, o apanágio do  individualismo e de sistemas como o da meritocracia e do dinamismo econômico, itens que explicariam a inexistência de
S.M. Lipset,
organizações socialistas no país. É de Lipset a definição dos cinco pilares que definem não só o credo político norte-americano, único dentre todos os demais, segundo ele,  e a sua posição como país líder: liberdade, igualitarismo, individualismo, populismo e
laissez-faire, cinco pilares que apontam para o caráter excepcional da democracia americana. Lipset deu à sua teoria no nome de Excepcionalismo Americano. Esta doutrina, ainda segundo ele, já estaria antecipada numa famosa asserção de Abraham Lincoln: os Estados Unidos são quase uma nação eleita (por Deus).

Desnecessário enfatizar o quanto estes modos coletivos de expressão de soberba vêm contribuindo para causar desde, antipatias e conflitos localizados. revoluções e guerras, inclusive mundiais, sempre ligados obviamente a problemas político-
            KU-KLUX-KLAN
econômicos de toda espécie.  Os exemplos abundam: o sistema de castas (varnas) na Índia, o apartheid na África do Sul, a Ku-Klux-Klan dos USA, xiitas x sunitas no mundo islâmico, judeus x muçulmanos, católicos e protestantes em várias partes do mundo, judeus em permanente conflito com os muçulmanos, fundamentalismo radical religioso ou étnico, o separatismo (a parte mais desenvolvida de um país que quer se separar da menos desenvolvida) etc.

Este último “pecado”, o separatismo, cuja prática vem aumentando muito nos tempos modernos, como seu próprio nome indica, tende levar os seus praticantes a se fixar naquilo que é considerado como princípios fundamentais quando da fundação de determinados grupos, os certos, como acreditam. No fundo, toda discussão fundamentalista é também, como se pode ver, uma questão semântica.  O termo fundamentalista refere-se ainda a qualquer grupo dissidente que resista a identificar-se com o grupo maior do qual diverge. A sua divergência se deve quanto à interpretação dos princípios que deram origem à fundação do grupo. Os fundamentalistas imputam ao outro grupo maior o ter-se desviado dos princípios básicos, sempre uma corrupção,pela adoção de princípios alternativos hostis ou contraditórios à identidade original. 

A soberba procura sempre se manifestar de algum modo, exibir-se, seja individualmente ou em grupos, através de coletividades, sendo evidentemente mais perigosa quando sob esta última forma. Individualmente, é comum encontrarmos a soberba de braços dados com a inveja. Se um indivíduo tomado pela soberba se depara com outro, mais poderoso que ele, na sua esfera de atuação, não há como impedir que a inveja passe a roê-lo interiormente, situação sempre vivida muito dolorosamente. Comum o caso em que o invejoso procure fazer mal ao outro e que, não o conseguindo, ele acabe se autodestruindo.   
      
A soberba produz às vezes muita satisfação naquele que a experimenta, sentimento, neste caso, ostentado como dignidade pessoal. Isto é raro, mas acontece. Esta e outras nuances envolvidas nas situações ora descritas podem nos levar a considerar a soberba, o orgulho, de duas maneiras, positivamente como brio, sentimento de honra, de amor-próprio ou, negativamente, o mais comum, como arrogância, altivez. 


ZEUS , MÁRMORE , LOUVRE
Um dos melhores exemplos da soberba nos vem da mitologia grega, do chamado complexo de Zeus. Características de amplitude e de poder absoluto nos são fornecidos por esta divindade quando estudamos as suas variadas formas de expressão através dos papéis que assume no mito como senhor inconteste do Olimpo. O complexo de Zeus, basicamente, pode ser descrito como uma forte inclinação que algumas pessoas demonstram  no sentido de assumir sempre uma posição de autoridade máxima, inibindo, inclusive à força, se necessário, quaisquer tentativas de independência  de pessoas que vivam ou estejam dentro dos seus domínios. Duas frases definem, à perfeição, este complexo como ilustração da soberba: 1) Só há dois pontos de vista: o meu e o errado; 2) fora de mim, não há salvação. 


QUANDO A ESTRELA DA MANHÃ CANTOU
( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

Quanto ao viés religioso, a soberba tem em Lúcifer o seu melhor exemplo.  O nome vem do latim, aquele que transporta a luz,  (lux mais ferre). Em hebraico,   seu nome era  heilel ben-shahar, com o sentido de o filho do negrume. O nome, em grego, foi aplicado ao planeta Vênus como a estrela da manhã, a estrela d’alva, Eosphoros. A partir da Idade Média, o nome foi também aplicado a Satã. A partir da expressão astro brilhante, numa tradução (de Antonio Pereira de Figueiredo) da Vulgata, Lúcifer é encontrado em Isaías (14:12), aqui registrado o versículo: Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante? Como caíste por terra, tu, que ferias as nações?   


LÚCIFER
(W.BLAKE ,1757 - 1827)
Ao ser exilado, Lúcifer levou consigo uma hoste de anjos, caídos como ele. A revolta de Lúcifer contra Deus começou quando ele se recusou a prestar homenagens a Adão, para ele uma simples criatura feita de pó, enquanto ele, Lúcifer, era feito de luz, da mesma matéria da qual Deus era feito. Consta que Lúcifer também ficou com ciúmes de Adão porque Deus lhe deu uma companheira, que ele cobiçou.

Desde então, foram sendo atribuídos, sobretudo pela tradição judaico-cristã, principalmente pela primeira, aos operadores do Outro Lado, desdobramentos das suas principais figuras, segundo o aspecto que se desejasse representar, nomes como Belial, Belfegor, Belzebu, Asmodeu, Bael, Astarot, Beemot, Furfur, Leviatã, Moloch, Mammon, Baphomet, Beherit, Mefistófeles e outros, todos condôminos, prepostos ou asseclas dos Senhores do reino do Mal.
ASMODEU
Asmodeu, por exemplo, é um príncipe identificado com Samael, que, como serpente, seduziu Eva. Tem três cabeças taurinas, corpo humano, deita fogo pela boca de carneiro. Seus pés são de águia e tem cauda serpente. Cavalga um dragão e comanda setenta e duas legiões infernais. Superintende as casas de jogo, semeando a miséria, o horror e a dissipação. Segundo os judeus, Salomão conseguiu submetê-lo momentaneamente, obrigando-o a ajudá-lo na construção do templo. Leviatã é um monstro que aparece no Livro de Job. A tradição rabínica metamorfoseou-o num demônio andrógino. No Inferno, tem a patente de grande almirante. Segundo a tradição judaico-cristã, a tutela dos sete pecados capitais está assim distribuída, a partir do reino do Mal: Soberba, Lúcifer; Avareza, Mammon; Luxúria, Asmodeu; Inveja, Leviatã; Gula, Belzebu; Ira, Satã; e Preguiça, Belphegor.

LÚCIFER , O ÚLTIMO JULGAMENTO ( GIOTTO )

O pecado do orgulho ficou para sempre ligado à imagem de Lúcifer, belo e sábio, um modelo de perfeição, transformado num ser diabólico, símbolo da arrogância, da jactância e da vaidade intelectual. A arrogância é ato de alguém de atribuir a si direito, poder ou privilégio devida ou indevidamente. É uma qualidade ou caráter de que, por suposta superioridade mental, alguém assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros. É por isso que o oposto da soberba é a humildade.


ADÃO E EVA,1530(LUCAS CRANACH)
Santo Tomás de Aquino considerava a soberba um pecado tão grave que, quando o discutiu, isolou-o da série, tratou dele separadamente. Foi o pecado do orgulho que levou Eva a comer do fruto proibido. No Gênesis se diz que quando Eva viu a árvore do paraíso e ouviu o que dela falou a Serpente achou-a tão atraente aos seus olhos e desejável que não resistiu. Igualar-se-iam, ela e Adão, a Deus, ao comer dos seus preciosos frutos. 


A ilustração do pecado da soberba com a pretensão como a que Eva demonstrou, a de igualar-se aos deuses no campo do conhecimento, não era nova. Esta pretensão, por exemplo, como nos revela a mitologia grega estendia-se a outras manifestações que não só a intelectual. Na mitologia grega, podemos encontrar vários exemplos de heróis ou não que procuraram se igualar aos deuses ou mesmo superá-los, no plano da beleza física, da perícia na confecção de trabalhos, da esperteza, de alcançar alturas ainda mais elevadas que o Olimpo, de se oporem ou se negarem a aderir a cultos patrocinados pelos deuses etc. A esta pretensão, como já se disse, os gregos davam o nome de hybris, incorrendo neste “pecado” personagens como Sísifo, Cassiopeia, Aracne, as Piérides, Tântalo, Minos, Pasífae, Belerofonte, Ixion, Orfeu, Sísifo, Lábdaco, Narciso e muitos outros. 



Para discutir a soberba, Santo Tomás (De Magistro) toma os conceitos de desejo, de glória e de excelência. Com base em Santo Agostinho, ele nos diz que se o desejo se volta para qualquer bem naturalmente desejado de acordo com a regra da razão, esse desejo será reto e virtuoso. Ao contrário, o desejo será pecaminoso se ultrapassa essa regra ou se não chega a alcançá-la. São Tomé nos dá um exemplo: o desejo que o homem tem de conhecer as coisas sob a orientação da reta razão é
SÃO PAULO
( EL GRECCO , 1541 - 1614 )
louvável, mas querer mais é ir na direção da
curiositas, sempre um pecado mortal. Do mesmo modo, ficar aquém do que é possível conhecer retamente é cometer o pecado da negligentia. Todo homem, continua Santo Tomás, divinamente informado, tende a buscar a excelência no que faz. Ele cita, para isso, São Paulo (Coríntios): Quanto a nós, não nos gloriemos sem medida, mas segundo a regra que Deus nos deu como medida. O pecado em relação a essa regra é o distorcido desejo de grandeza, como diz Santo Agostinho (A Cidade de Deus). 

O pecado da soberba, da vaidade ou do orgulho leva o que o comete a buscar uma evidência, um esplendor alimentado pelo desejo de notoriedade, sendo sempre ignominioso por isso. Santo Tomás nos fala que a glória pode ser vista sob três aspectos. No seu nível máximo, ela é clara notoriedade visível por todos, pelas multidões. Num segundo nível, temos o bem de um que se manifesta a poucos ou a um só. Num terceiro nível, quando a própria pessoa, a sua maneira de viver, é fonte da sua própria notoriedade.

Qualquer que seja o enfoque, segundo Santo Tomás, a finalidade da vaidade é a manifestação da própria excelência, um comportamento que gera frutos. A vaidade chama-se jactância quando ela se manifesta por palavras. Quando temos a manifestação de fatos verdadeiros que despertam uma certa admiração estamos diante da presunção da novidade (o novo sempre chama mais a atenção). Se a manifestação se dá por fatos fingidos, temos a hipocrisia, característica do que é falso, dissimulado. O hipócrita carece de sinceridade, é fingido. Em grego, hypocrites, etimologicamente,  é aquele que  dá uma breve resposta; aplicava-se a palavra, de modo especial, ao ator de teatro, aquele que dava respostas ao coro. Depois, hypocrites passou a ser usada para designar aquele que não exprimia os seus verdadeiros sentimentos. 


O   ECLESIÁSTICO
Um dos textos religiosos mais importantes sobre a vaidade é O Eclesiastes, que faz parte do Antigo Testamento. Kohelet é o seu nome em hebraico, uma coleção de provérbios e máximas que constituem um capítulo importante da chamada literatura sapiencial. O texto ensina a moderação, fala das virtudes da vida familiar e do temor de Deus. Já o texto Eclesiástico (Ben Sira) discorre sobre a necessidade que o homem goze os prazeres do mundo com moderação. O primeiro livro acima citado ten a su autoria atribuída tradicionalmente ao rei Salomão, filho de David e de Betsabá, famoso por sua sabedoria, terceiro rei de Israel. Segundo a tradição, Salomão escreveu O Cânticos dos Cânticos na juventude, Os Provérbios na maturidade e O Eclesiastes (ecclesia, em latim, quer dizer assembleia, reunião  e depois comunidade cristã. igreja) na velhice. 

Os temas principais de O Eclesiastes são a vaidade das coisas humanas, o desapego dos bens terrestres, a negação da felicidade dos ricos e a tese de que os bem-aventurados serão os pobres. As ideias do livro tiveram muita difusão por volta do séc. III aC, quando a Palestina era então uma colônia macedônica, obrigada a pagar pesados tributos. O autor procura provar que a vida e a felicidade não estão na posse dos bens terrenos, no poder, nos prazeres, na ciência ou no status social. O texto procura sobretudo provar que a vida é um dom gratuito de Deus e que deve ser partilhada por todos com justiça e fraternidade.

Uma visita ao mundo grego nos ajudará, sem dúvida, a entender um pouco melhor o pecado da vaidade, embora vivamos tão longe da antiga Grécia. Aparentemente diferentes daqueles dos gregos, nossos valores, ideias, princípios e, sobretudo, nosso universo linguístico, quando hoje falamos da soberba, se assemelham bastante, sendo muito útil aproximá-los para o fim aqui colimado.

Segundo a mitologia grega, a Fama (Pheme  ou Phama , em grego) é uma filha de Geia, a Grande-Mãe, que a gerou sozinha, depois do nascimento dos gigantes. Outros a consideravam como filha de Elpis, a Esperança, sendo muito solicitados os seus serviços pelos orgulhosos de toda a espécie. Um bom exemplo do que aqui apontamos pode ser encontrado na poesia épica da literatura de muitos países na qual a Hybris e a Fama tiveram que se defrontar.

Hoje, com sabemos, há agências de publicidade especializadas na promoção do sucesso de pessoas. Elas têm por objetivo a colocação em evidência da pessoa a que prestam serviços, da melhor maneira possível, interagindo com o público. Nessa área, atua também o chamado personal coach  que treina o seu cliente para que ele “possa ir além na vida”.Ele tira a pessoa do estado (insatisfatório) em que ela se encontra (pessoal, profissional, social etc.) e faz com ela alcance o estado desejado. 

OVÍDIO
Na antiguidade, a Fama, com múltiplos olhos e ouvidos, vivia num palácio de bronze com milhares de orifícios, através dos quais captava qualquer som que fosse produzido no universo, o mais imperceptível, e, a seu critério, o amplificava, divulgando-o pelos quatro cantos do mundo. Era dotada de asas que lhe permitiam se deslocar com extrema rapidez
VIRGÍLIO
para conferir a verdade de tudo o que lhe chegava. Era obrigada a tanto, pois cercavam o seu palácio entidades perigosas, a Credulidade, o Erro, a Falsa Alegria, o Terror, a Sedição e os Falsos Boatos. Entre os latinos, Ovídio e Virgílio falaram dela. Este último a descreveu como uma deusa temível de quem nada escapava. 

Nada mais natural que Fama, na literatura grega, personificasse aquilo que os gregos chamavam de reputação, renome (kléos, em grego) e passasse a desempenhar um importante papel no mundo heroico. Para entender como isto se deu é preciso entender que o herói, no mundo homérico, era aquele homem que ultrapassava as suas limitações históricas e geográficas em direção de uma dimensão universal. Esta dimensão, embora considerada por muitos um desejo de transcendência, provocado por um impulso interior, tinha também um forte componente, o desejo de glórias mundanas.

A hipótese acima parece se confirmar como regra quando examinamos mais de perto a vida de muitos heróis gregos. Tome-se, por exemplo, o mito dos argonautas, o da conquista do velocino de ouro e a história de Ulisses como a encontramos na Odisseia. Ao falar de Ulisses, muitos mitógrafos, filósofos, poetas, artistas, escritores, professores de literatura e outros mais sempre procuraram fazer de Ulisses um símbolo do ser humano inquieto, um ideal de transcendência, ávido de conhecimentos novos, um eterno viajante. Ora, não será preciso muito, desde os primeiros cantos do poema, para que uma leitura mais atenta e menos fantasiosa da Odisseia prove o quão inconsistentes são grande parte dos textos produzidos sobre o rei de Ítaca. Como está claro na Odisseia, Ulisses rejeitou a imortalidade que lhe foi oferecida por Calipso, preferindo voltar a Ítaca para retomar o seu lugar entre os homens, o que lhe garantiria uma consideração sem igual.


CALIPSO  E  ULISSES , C.1616 ( JAN BRUGEL O VELHO )  

Outro aspecto da personalidade do herói grego, acima mencionado, era o de que ele se considerava como detentor natural de um kléos, ou seja, de uma glória e de um renome amparados por sua posição social (era sempre um membro da elite dirigente), pela sua habilidade pessoal (areté) e pela sua honorabilidade, honra pública (timé), que deveriam ser cantadas. Poetas e aedos existiam para isso. Este foi o dilema que se apresentou a Ulisses na ilha de Calipso, quando a ninfa quis transformá-lo num imortal, desde que ele se dispusesse a ficar com ela em Ogígia. A opção então se apresentou ao nosso herói: a imortalidade anônima ou uma existência mortal, com todos os riscos que esta última pudesse oferecer, mas, no caso, um herói entre os homens. No primeiro caso, manter-se-ia vivo para sempre, honrado pelos seus pares, mas sentindo-se como Aquiles quando o encontrou (o seu eidolon) no Hades. O maior guerreiro dos aqueus transformara-se num “sem-nome”, uma sombra (skia), como eram chamados todos os que se encontravam no reino infernal, porque haviam perdido o seu corpo físico, que lhes dava uma identidade. 

Como se sabe, em todas as culturas, a história dos heróis, do nascimento à morte, é revestida de muitos traços fantásticos, extraordinários, que vão sempre além da esfera do humano. Os gregos sempre procuraram transmitir para as gerações futuras uma visão sublime desses personagens, muito ampliada e mesmo deturpada pelos que os estudaram ou usaram como temas de suas obras. 

AQUILES  E HEITOR ( PALÁCIO
NACIONAL DA AJUDA, LISBOA)
Na realidade, porém, os heróis gregos nunca foram tão "heroicos" como muitos dos que nos são apresentados como tal, principalmente nos nossos tempos pela comunicação de massas (publicidade, revistas, histórias em quadrinhos, TV, cinema, Internet etc.). Se formos conferir, notamos que no geral os heróis gregos são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. Eram apresentados como invulneráveis, mas podiam ser abatidos (Aquiles, Heitor). Tinham graça e beleza, mas eram monstruosos: o gigantismo de Hércules, de Ajax Telamônio). Eram, na realidade, teriomorfos, andróginos, mudavam de sexo, adotavam o travestismo; tinham anomalias físicas (a tripla dentição de Hércules), deformações (Édipo). Com muita facilidade eram tomados por demônios ou espectros como Lyssa (Loucura), Ate (Erro), Eris (Discórdia), no que acompanhavam as próprias divindades. A maior parte dos heróis gregos tem um comportamento sexual extravagante, são estupradores, chegados à homossexualidade, atacam os próprios deuses, tentam violentar as deusas, têm acessos de cólera sem nenhum motivo, desrespeitam as normas de convivência e as regras da hospitalidade. 

Os heróis gregos, entretanto, são exemplares para nós enquanto simbolizam propostas de impulsos evolutivos e revelam também a situação de conflito do psiquismo humano pelos combates que nele se travam entre as forças da luz (atributos solares) e as forças das trevas, lunares (monstros, gigantes, dragões, imaginação descontrolada), que lembram as tendências regressivas, incansáveis, sempre a persegui-los. Faz parte da vida do herói, obrigatoriamente, a agonística, ou seja, a vida como luta, tanto interna como exteriormente. Sempre presente a ideia da criação de novas formas de relacionamento com o mundo a partir dos conflitos internos, as suas conquistas sempre ameaçadas de dissolução. Um processo de interiorização e de exteriorização ininterrupto. Pressões internas, reais ou imaginárias, temores, fobias, tentações, dúvidas, idiossincrasias. De outro lado, o mundo com os seus monstros, dragões, seres ameaçadores, sedutores, malfeitores. Sempre presentes também as ameças, conscientes ou não, como a vaidade, o orgulho, a fama, o renome, a consideração pública.

Aos poucos, no correr dos tempos, o sentido da palavra herói foi se ampliando, admitindo-se o seu uso para designar pessoas que têm um destino incomum. Do séc. XVIII em diante, com o Romantismo, em especial, uma nova dimensão foi incorporada à palavra. Determinados personagens das artes que problematizavam a sua relação com a sociedade começaram a ser chamados de heróis, nada tendo de exemplares na maioria dos casos. 

A sociedade moderna, principalmente a partir do séc. XX, saturada de profundo irracionalismo, vem há muito  tornando heróis, celebrities de todo gênero, muitas pessoas que orgulhosamente se destacam do coletivo, que “brilham” por um brutal egoísmo, por excessos individualistas, pela violência. Ladrões que vivem nas altas esferas econômicas, donos de redes de comunicação, banqueiros, demagogos, estelionatários, políticos enganadores, corruptos eméritos, falsificadores de todas as espécies, ricaços, conhecidos sonegadores, esportistas dopados, artistas de TV, do cinema, do show business, fabricantes de quinquilharias eletrônicas, uma extensa galeria enfim, promovida em escala mundial pelos meios de comunicação, pela mídia eletrônica atingiu hoje o status heroico para a grande massa globalizada, idiotizada como sempre. São os soberbos.

Antes de prosseguirmos, é preciso, porém destacar que no geral as visões “celeste” e “terrestre” do herói na mitologia grega são muitas vezes antagônicas. Isto porque se ele representa num primeiro momento um ideal de força combativa, está presente sempre nele, como já vimos, concomitantemente, a tendência ao excesso, à desmedida, que o leva a querer competir, igualar-se ou mesmo superar os deuses. 


HÉRCULES
( MUSEI  CAPITOLINI )
O herói, nos combates, vive num estado de cólera guerreira, expressão mágica para caracterizar a sua hybris, a sua orgulhosa desmedida heroica; como tal, ele pode ter direito, segundo os humanos, às suas tendências passionais. A figura heroica que melhor tipifica esta oscilação entre o anthropos e o aner, entre o homem ou sub-homem e o herói, o super-homem, sem jamais conhecer o seu metron é, sem dúvida, Hércules. Se para os humanos o culto heroico pode admitir este tipo de hybris, de orgulho, sob o ponto de vista olímpico tal não acontece. Em que pese o fato de Hércules ter sido arrebatado por seu pai, Zeus, quando de seu suicídio apoteótico, para ir viver entre os deuses, do ponto de vista do Olimpo ou do Hades, as suas façanhas sempre foram tidas como gestas ignominiosas e seu destino miserável. 

Esta também seria indiscutivelmente a visão que teríamos das façanhas de Hércules e de outros heróis se as considerássemos sob o ponto de vista da doutrina dos pecados que os santos padres da Igreja estabeleceram. Ainda que condenáveis sob muitos aspectos, tais façanhas, contudo, sempre ajudaram aqueles que delas se aproximaram a se conhecer um pouco melhor, tanto a si mesmos como aos outros, além, é claro, de constituírem, na mão de artistas maravilhosos, como Homero, Hesíodo, Ovídio, Rembrandt, Mahler, Visconti, Michelangelo, James Joyce, Leonardo da Vinci e inúmeros outros um grande e exemplar patrimônio cultural. O que diríamos então se aplicássemos os mesmos pontos de vista da mesma doutrina dos pecados para falar daquilo que muitos indivíduos procuram hoje viver quando buscam, desesperadamente, através da tecnologia, o seu momento de glória instantânea, ao produzir selfies, fotografias ou o seu perfil numa linha do tempo, com as irrelevantes, nada exemplares e descartáveis histórias do seu cotidiano ilustradas com as suas lamentáveis e desinteressantes fotos?





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quinta-feira, 31 de março de 2011

OS (DES)CAMINHOS DA SEDUÇÃO

A palavra Bíblia, como sabemos, quer dizer livros (plural de livro em grego). A Bíblia compreende as Escrituras Sagradas dos judeus e dos cristãos, isto é, os chamados Antigo Testamento e Novo Testamento, dois livros, portanto. Essa denominação não quer dizer, como muitos erradamente supõem, que o Antigo Testamento tenha sido ultrapassado pelo Novo Testamento. Não há entre os dois livros nenhuma ideia de subordinação. Preferível chamar o primeiro livro de Escrituras Sagradas Hebraicas e o segundo de Escrituras Sagradas Cristãs. De um modo geral, quando esses textos são mencionados muitos pensam em santidade, moralidade, sacrifício, pietismo, abstinência sexual, castidade, sofrimento, mortificação, caminhos vários, enfim, pelos quais é possível chegar a Deus, ao Reino dos Céus. 

 A abordagem que vamos fazer se concentra nos textos judaicos que nos levam exatamente no sentido contrário das idéias acima. O nosso ponto de partida é a constatação de que nos referidos textos há uma dessacralização geral do sexo. Estamos, nesses textos, longe da abstinência sexual, da castidade, do recato. Presentes, em grandes doses, ao longo deles, muito erotismo e muitos lances de sedução. Esta constatação afasta também a ideia de que no texto bíblico judaico o sexo só esteja ligado a preocupações de ordem matrimonial ou à procriação, à descendência. A maior parte dos comentadores dos textos sagrados do Antigo Testamento fala muito pouco sobre estas questões de sexualidade ou então silencia mesmo sobre elas. Uma leitura mais atenta dos textos nos revelará, isto sim, que os seus autores não tinham preconceitos contra o sexo nem contra o erotismo em geral. As histórias narradas sobre estes temas são apresentadas sempre de modo muito simples, direto, natural.

Os textos bíblicos judaicos espelham, como se sabe, uma cultura de fundo patriarcal. Esta cultura é a de um povo semi-nômade, abrangendo um período que vai de, mais ou menos, 3.000 a 1.200 aC. Em termos gregos, essa cultura se insere entre as idades do bronze e do ferro e é representativa de diversas tribos que, apesar de algumas diferenças, constituíam, no seu todo, um povo chamado abirus, hebreus, de origem semita, que emigrou da Mesopotâmia em direção da costa mediterrânea, da Palestina, de desertos do sul e do Egito. Com base em antigas tradições orais de mais de mil anos aC, é no Gênesis que encontramos os principais registros da chamada cultura patriarcal.

Ainda que alguns traços de antigas tradições matriarcais possam ser percebidos nesses textos, a figura central desse mundo é o patriarca. Sua autoridade é suprema. Ele é o chefe, o senhor dos bens, das suas esposas, dos seus filhos e de tudo aquilo que o grupo, o clã, possuía. Ele estabelece normas, procura proteger a todos, alimentá-los, defendê-los, orienta as relações internas e externas dos membros do grupo, definindo inclusive com quem seus filhos e filhas poderão se casar. O objetivo final de suas determinações e atitudes era, sem dúvida, a manutenção da coesão grupal. Num meio hostil, como aquele em que viviam, esta condição era indispensável. Além do mais, tudo isto reforçava a responsabilidade coletiva, já que se procurava manter sempre a pureza do sangue.

O casamento nesse mundo era estabelecido entre famílias. Um pacto através do qual o pai da noiva entregava a filha em troca de um dote (mohar) que deveria ser devolvido no caso de divórcio. No Gênesis, exemplos de casamentos podem ser vistos, como o de Isaac, o filho de Abraão e Sara, que se casou com Rebeca. Outro exemplo é o do casamento de Jacó, um dos dois filhos gêmeos de Isaac, narrado com uma grande quantidade de detalhes.



Fixemo-nos neste último, onde temos um caso de amor à primeira vista. Jacó, ao chegar do deserto, fugindo das iras de seu irmão Esaú, viu a pastora Raquel. Esse encontro foi abrasador. Eram primos. Jacó ficou abalado porque Raquel tinha um belo porte e um lindo rosto, conforme está no texto bíblico, que procura sempre ressaltar a beleza feminina. O mesmo problema teve Abraão com Sara, que atraía os olhares de egípcios e beduínos. Por essa razão, ela acabou tantas vezes no harém do faraó e do rei Abimelec. Sara, conforme registros, morreu com 127 anos de idade. Dizia-se que aos cem anos era tão bonita quanto aos vinte. Foi por amor a Abraão que ela concordou em frequentar haréns com o objetivo de salvar a vida do marido.

Não há o que estranhar com relação à predileção de Jacó por Raquel diante da beleza física da jovem e o seu desdém por Lia. Ao pedir a moça ao tio, futuro sogro, este exige que Jacó lhe preste sete anos de serviços como dote em suas propriedades. Tão apaixonado estava que o texto nos fala que "os anos lhe pareceram apenas alguns dias". Evidentemente, uma disposição como esta só seria compreensível numa situação de intensa paixão, provocada pelo poder de sedução de Raquel.

No Eclesiástico, uma coleção de provérbios e máximas composta por Simão Ben Sira, livro que faz parte do AT, encontramos, por exemplo, dentre as muitas observações sobre os perigos da sedução este texto: "Como lâmpada brilhante no candelabro sagrado, tal é a beleza de um rosto num corpo bem acabado. Colunas de ouro sobre bases de prata, assim são as belas pernas sobre sólidos pés."

Raquel, por exemplo, além de sedutora era muito esperta. Quando Jacó percebe que o tio Labão o explorava, põe-se em fuga com as duas irmãs, depois de tê-las consultado, ambas o apoiando. Labão sai em perseguição de Jacó. Alcançando-o, responsabiliza-o pela fuga e exige a devolução dos seus ídolos familiares, roubados por Raquel. Quando o pai aparece para revistar a tenda, a jovem, que colocara as imagens sob a sela do seu camelo e sobre elas se sentara, diz-lhe: "Que meu senhor não fique bravo porque eu não me levanto em sua presença, é que me veio o incômodo das mulheres..."

Labão, pai de Raquel e de Lia, não queria permitir que a primeira se casasse com Jacó antes da outra, mais velha. Enganou Jacó, dando-lhe Lia no lugar de Raquel. Para que o estratagema desse certo, Raquel teve que participar, ajudando a irmã, dizendo-lhe como deveria proceder para convencer Jacó de que era ela, Raquel, e não Lia. Assim procedendo, Raquel abriu mão de seu desejo de casar antes da irmã com Jacó. Só depois tornou-se Raquel esposa de Jacó. Raquel, lembremos, morreria ao dar à luz seu segundo filho, Benjamim, sendo José o primogênito.

O amor no AT tem um caráter profundamente erótico. Nada tem daquela qualidade da qual São Paulo tanto falava, o amor como ágape, isto é, o amor desprovido do seu aspecto carnal. Ágape, entre os antigos gregos, é preciso lembrar, era um banquete de confraternização. No Cristianismo, era uma festa dos primitivos cristãos que consistia numa refeição comum através da qual se celebrava o rito eucarístico. Nessa festa, pobres e ricos eram admitidos, trocavam-se beijos em nome da paz. Aos poucos, porém, essa festa cristã acabou degenerando, tendo sido proibida pela Igreja.

Um dos casos mais interessantes do AT é o que está descrito no Gênesis (XXXIX). Narra-se ali a história de José com a mulher de Putifar, Zuleika, nome que, em árabe, lembra pêssego. José é um dos filhos do patriarca Jacó e de sua esposa preferida Raquel. José é o modelo do tsadik bíblico (homem justo, probo). Sendo o filho preferido, porque relatara ao pai o comportamento inadequado dos irmãos, estes, em número de dez, procuraram matá-lo, lançando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Milagrosamente, José acabou saindo de lá, sendo, entretanto, vendido pelos irmãos como escravo a Putifar, oficial egípcio.


Putifar era um eunuco do faraó, um posto muito importante. Os eunucos, no antigo Egito, eram, como altos funcionários reais, muito próximos do faraó, ocupando elevadas posições, apesar da mutilação. José, como está descrito, era belo de rosto e de corpo, "belo de se ver." Putifar tornou-se dono de José ao comprá-lo. Zuleika tentou seduzi-lo de várias formas. O texto revela que José foi salvo da tentação, resistindo ao assédio de Zuleika, porque a imagem de seu pai, Jacó, lhe apareceu, salvando-o da tentação.

José resistiu à mulher tanto por retidão em relação aos homens como em relação a Deus. "Ela segue, dia após dia, falando a José; mas ele não aceita deitar-se ao lado dela, estar com ela." Decepcionada e humilhada, Zuleika tenta comprometê-lo, agarrando-o por suas vestes. E José, diz o texto, "larga suas vestes nas mãos dela, foge, parte dali." Zuleika, quando chega Putifar, o incrimina (compare com a Fedra de Eurípedes). José será preso e irá para a prisão. Sabemos que, pela graça de Deus, ele ganhou a liberdade e acabou se tornando vice-rei e encarregado da economia do Egito.

Outro famoso caso de sedução está na história de Sansão, personagem que aparece no período bíblico dos Juízes (sécs. XII-XI aC). Sansão é nome que vem do hebreu, com o significado de "pequeno Sol". Era ele um nazarita de nascença. Nazarita era aquele que, desde o nascimento, fazia voto de se abster de tomar vinho, cortar o cabelo e ter contato com mortos. Quando de seu nascimento, sua mãe foi visitada pelo anjo Uriel, às vezes chamado Raziel, o anjo da luz. Dele recebeu a informação de que seu filho iria salvar Israel da opressão dos filisteus.

Sansão nasceu dotado de força sobre-humana, entregando-se, desde cedo, a intensas paixões sexuais. Foi capturado pelos filisteus, graças às intrigas de sua amante, Dalila, que o vendeu por muitas moedas de prata. Os filisteus o cegaram, fato entendido como um castigo por ter cedido à tentação de seus olhos, entregando-se à luxúria. Enquanto prisioneiro, cego, as mulheres iam visitá-lo na prisão para com ele ter relações sexuais, pois não havia perdido os seus encantos e dotes de grande amante. Muitas queriam ter um filho com ele, para que a criança herdasse a sua força e estatura. Sansão escolheu a sua morte quando fez desmoronar o templo dos filisteus, morrendo sob os escombros. Entre os judeus, este gesto é considerado como um martírio altruísta.

Sansão sempre foi um tipo humano cheio de caprichos, de caráter infantil. Jovem ainda, enamorou-se de uma filisteia, Tamna, uma filha de incircuncidados. Casou-se com ela. A festa de seu casamento não terminou bem. Brigou com os filisteus presentes, matando trinta deles, abandonando Tamna nesse mesmo dia. As façanhas de Sansão tornaram-se famosas. Os filisteus contratam, então, Dalila, por milhares de moedas de prata, para causar a perdição do herói, o que de fato aconteceu.

Nosso herói acabou por revelar a Dalila o segredo de sua força descomunal, os seus longos cabelos. Dalila, numa oportunidade em que ele adormeceu no seu colo, cortou-lhe os cabelos. Os filisteus o capturaram, tiraram-lhe os olhos e o reduziram à escravidão. Na prisão, com o tempo, crescendo-lhe os cabelos novamente, e desatentos os filisteus quanto a este detalhe muito importante, voltando-lhe a força, Sansão destruiu tudo. Centenas de mortos. Entre os escombros, seu corpo desfigurado.

Esta história põe em evidência um tema comum a várias tradições religiosas antigas e recorrentes na Bíblia: se a mulher é frágil fisicamente, é forte quando se trata de amor e sedução. Este tema aparece inclusive na tradição cristã: cuidado com a mulher, pois, embora pareça frágil, tem força quase invencível quando se propõe a algo. É através destas histórias que se fixa a figura da mulher como destruidora de homens e fonte do mal, como está, aliás, no referido Ben Sira: "Foi pela mulher que começou o pecado e é por culpa dela que todos morremos."

Uma das mais curiosas histórias de sedução nos textos bíblicos judaicos é a de Judite, viúva de Manassés. A narração começa nos informando que na cidade de Betúlia, sitiada pelos assírios, vivia uma jovem viúva, conhecida por sua beleza, devoção e riqueza. Decide ela um dia, levada pela compaixão que lhe inspira seu povo e pela indignação que sente diante da disposição dos importantes da cidade que a queriam entregar aos inimigos, fazer alguma coisa. Vai então ao acampamento inimigo com uma espada, com o seu talento de grande sedutora. Confia em Deus, é virtuosa, bela, discreta e sábia apesar de jovem.

Sensual e apaixonada, tem o senso da aposta, da aventura, que vive com idealismo. Judite é o feminino de Iehudah, Judah, louvor a Deus. Por trás desse nome está o substantivo yod, braço, mão, daí a louvação a Deus. O nome Judite, Judith, toma um sentido combativo entre os judeus. Lembre-se que Judah é o “homem da mão”, executor e braço de Deus, como Judite.


A descrição de como Judite se preparou para ir ao acampamento inimigo é muito rica de detalhes. Durante a viuvez (já haviam se passado três anos e meio da morte do marido) viveu sempre em sua casa, vestindo pano de saco e usando roupas de viúva, como convinha a uma mulher nessa condição, escondendo o seu corpo e a beleza de seu rosto. O marido deixara-lhe muitos bens. ”Ninguém podia fazer-lhe a mínima crítica, pois era temente a Deus." Judite, no dia em que tomou a decisão de ir ao acampamento assírio, rezou nestes termos: "Concede-me, Senhor, falar com sedução, para ferir mortalmente os que planejaram uma vingança cruel contra teus fiéis, contra tua morada santa, o monte Sião, e a casa de teus filhos." Depois, tirou o pano de saco que lhe cobria o corpo, o vestido de viúva, tomou banho, passou perfume caro no corpo, penteando os cabelos, vestindo-se com roupa de festa; calçou sandálias, enfeitou-se com braceletes, colares, anéis, brincos e todas as suas jóias. Ficou belíssima, capaz de seduzir qualquer homem que a visse.

Conforme o texto bíblico, deslumbrante como uma deusa, apresentou-se Judite a Holofernes, general de Nabucodonosor, chefe das tropas assírias. Todos se encantaram à sua passagem, as portas se abriram, ninguém tão bela. Judite diz ao general que tem um plano para que os assírios tomem a cidade. Segundo o texto, Judite ficou três dias no acampamento assírio. Orava todas as noites, purificava-se tomando banho numa fonte próxima, pois, estava "em contato com incircuncisos." Na quarta noite, um banquete para Judite, só ela e o general. Holofernes, fascinado pela bela mulher e por suas palavras, esperando tê-la definitivamente em seus braços, descuida-se, entrega-se à bebida, "bebe tanto como não o tinha feito em toda a sua vida", diz o texto. Disso se aproveitou Judite. Desembainhando a espada de Holofernes, cortou-lhe a cabeça com dois certeiros golpes, colocou-a então numa bolsa e saiu tranquilamente como todas as noites, dizendo que ia orar.

Escapou, então, em direção de Betúlia. Os oficiais e soldados hebreus, já cientes do ocorrido, atacaram os assírios no dia seguinte, derrotando-os, totalmente desorientados pela morte do seu chefe. O autor da história diz que Judite consagrou ao Senhor todos os objetos de Holofernes e também o mosquiteiro que ela mesma pegara do leito dele. Narra-se também que Judite teve muitos pretendentes, porém nunca mais se casou.
Muitos estudiosos ocidentais da Bíblia já questionaram a moralidade do ato de Judite. Uma preocupação tipicamente ocidental, incompreensível no contexto da mentalidade semita. A arte de Judite, a de seduzir, é neste particular semelhante à arte de vender, isto é, a de saber tirar a maior vantagem na transação, aproveitando-se inclusive da ingenuidade ou da ignorância do comprador, arte na qual os semitas são mestres.
A história de Judite é um "romance", uma "novela" edificante. Tem por objetivo dar coragem aos judeus nos momentos mais difíceis de sua história. Judite serviu-se das armas que Deus lhe deu como mulher para seduzir Holofernes e matá-lo. Nenhuma dúvida quanto aos aspectos morais; nenhum questionamento quanto à legitimidade dos meios que ela empregou. O apoio de Deus é constante. Além disso, nenhuma mancha, nenhuma nódoa no seu caráter. Judite é um instrumento divino e um belo exemplo de patriotismo. A história de Judite repetiu-se muitas vezes ao longo da história da humanidade e tem, sem dúvida, um objetivo pedagógico.

Em vários momentos sua história, além de atrair a atenção de muitos religiosos, seduziu também artistas, músicos, pintores, sendo encenada em feiras e praças públicas nos últimos séculos. Caravaggio, Marc-Antoine Charpentier, Opitz, Scarlatti, Vivaldi, Mozart, Salieri, Hebbel, Jean Giraudoux, Paul Claudel, Georg Kaiser, dentre outros, se apoderaram do tema de Judite, fazendo-a representar, conforme a época, um exemplo de patriotismo, de santidade, de ativismo político, da eterna luta entre o opressor e o oprimido, da minoria que tem o direito de usar todos os meios para se libertar. Nos séculos XVII e XVIII, Judite encarnará a Cristandade diante do Islã e, no século XX, a democracia diante do nazismo.

O maior amante da Bíblia é, sem dúvida, David, cuja extensa história é contada no primeiro livro de Samuel (capítulos 16-31) e no segundo livro. David foi aquele por quem todas as mulheres de Israel se apaixonaram. Seu caso mais famoso foi o que teve com Betsabá (filha do juramento ou casa do juramento), que seria mãe de seu sucessor, Salomão. David se apaixonou por ela quando a viu no banho. Unindo-se a ela, engravidou-a. Tomou providências então para que o marido de Betsabá, Urias, soldado hitita, fosse mandado para casa para que todos pensassem que o filho era dele. Este estratagema não deu certo e David ordenou que Urias fosse destacado para atuar na linha de frente, nas batalhas, a fim de lá morrer. O profeta Natan repreenderá David por esse horrível procedimento. Foi depois de sua união com Betsabá, como se sabe, que começaram os seus infortúnios: violação de sua filha Thamar pelo próprio irmão, Amnon; revolta de seu filho Absalon; usurpação de seu filho Adonias etc.

O nome David (Dauid) merece uma referência especial: ele é o “bem amado, o querido.” Vencedor do gigante Golias, encantou com a sua lira o primeiro rei dos hebreus, Saul, e o sucedeu. David era um pastor em Belém. Tratava os seus carneiros com muito cuidado, sendo, por isso, notado por Deus e por ele escolhido para cuidar de Israel. Como músico, foi chamado para alegrar Saul, muito deprimido, então. Casou-se com Michol, filha do rei Saul,e era amigo de Jonatan, seu irmão. David foi ungido rei aos 28 anos pelo profeta Samuel. Fez de Jerusalém a capital do reino. Grande soldado, músico e poeta,  morreu  numa  festa,  quando  o  Anjo  da  Morte  se aproveitou de sua
desconcentração com relação aos seus estudos. Muito ligado à imagem do carneiro, condutor do rebanho (animal do qual tirava as cordas da sua lira), David jamais abandonou o seu instrumento musical. Dentre as suas várias mulheres, a preferida foi Betsabá, mãe de seu filho Salomão, como se disse.

A imagem de David, devido ao affaire Betsabá, e também por outros casos, diga-se, era bastante negativa. Um texto judaico, o Talmud, sustenta porém que David, ao se unir a Betsabá, não cometera adultério. Isto porque, esclarece o Talmud, todos os soldados que iam para a linha de frente tinham que conceder obrigatoriamente às suas mulheres um atestado de divórcio para a eventualidade de não voltarem do campo de batalha. Assim, quando Betsabá se uniu a David ela já "estaria divorciada". Esclarece-se, também, que quando ela se uniu a David era virgem porque Urias não tivera tempo de consumar seu casamento com ela.

David chegou à velhice muito amargurado devido às revoltas e guerras que se sucediam no seu reino. Uma mulher, contudo, virá cuidar dele nos seus últimos dias. "O rei David ficou velho, com idade avançada; por mais que o cobrissem, ele não conseguia se esquentar. Seus servos então sugeriram: "busquem uma jovem solteira que dê assistência e cuide do senhor nosso rei; ela dormirá em seus braços e o senhor nosso rei se esquentará." Esta jovem foi encontrada, chamava-se Abisag, de Sunam, e a levaram para o rei.

David, ao vencer Golias, símbolo do mal, protetor de Gathes, cidade bíblica, foi considerado posteriormente, por algumas tradições cristãs, como um precursor de Cristo. Pela sua virtuosidade como músico e poeta, é, por outro lado, apontado, por algumas tradições artísticas, como uma “atualização” do Orfeu grego. Como exemplo de sua inspirada poesia, mencionemos os seus Salmos, o mais lido e copiado dos livros bíblicos na Idade Média.

Por último, não há como esquecer de Hadassa (nome hebraico), mais conhecida pelo seu nome de guerra (persa), Ester, grande sedutora e heroína nacional. Ainda muito jovem, órfã, foi comprada por seu primo Mordecai, líder dos exilados judeus no império persa, tornando-se sua filha. Belíssima, “engraçada”, consta que aos quarenta anos, idade avançada para mulheres àquele tempo, tinha a aparência de uma adolescente. A crônica registra que foi o próprio Mordecai que a incentivou a se aproximar do imperador persa, Assuero, que reinava “desde a Índia até a Etiópia.” O rei pediu a seus ministros que buscassem donzelas virgens e formosas, pois aquela que, “entre todas mais agradar aos olhos do rei, essa será rainha em lugar de Vasthi”, a rainha rebelde.

Assim aconteceu. Antes, porém, é preciso mencionar que tanto o nome hebraico (Hadassa) como o persa (Ester) têm a ver com o mirto, vegetal consagrado a Afrodite. A melhor aproximação a Ester que podemos fazer é sem dúvida com a deusa mesopotâmica Ishtar, deusa do amor e da guerra, entre os babilônicos, irmã de Ereshikgal, deusa dos Infernos.

Ao se apresentar ao rei persa Assuero, logo tomada por ele como esposa, conseguiu Ester em pouco, mercê dos seus encantos e da sua perícia nas artes do quarto de dormir, levar os judeus à vitória. Os judeus sempre defenderam a ideia de que a mulher que ia para cama com Assuero não era Ester, mas era um espírito muito parecido com ela, enviado por Deus. Consta mais que antes de se entregar ao rei persa ela jejuou e o próprio Deus a vestiu e a acompanhou. Antes de ir para a cama do rei, Ester passou por doze meses lunares de purificação, seis com óleo de mirto e seis com “odores adocicados” e chuva, no período do verão. Os judeus lembram dessa passagem ao jejuar no dia que antecede ao Purim (festa relacionada astrologicamente com o signo de Peixes), chamando-se essa cerimônia de Tanit Ester.

O Purim era uma festa celebrada no mês que antecedia a primavera, no último mês do inverno, portanto. Os judeus a herdaram dos mesopotâmicos; nessa festa se celebrava a vitória da luz, conduzida pelo deus Marduk (Mordecai), sobre o deus das trevas, Haman (Uman). Este último é o grande representante do mal no Livro de Ester. Ele tinha obtido de Assuero autorização para exterminar os judeus. Ester frustrou então os seus planos. Haman foi enforcado, com seus dez filhos, na mesma árvore que preparara para enforcar Mordecai.

Lembro que o grande gênio do teatro clássico francês, Racine, no séc. XVIII, escreveu uma tragédia em três atos, com coros, sobre o tema, a pedido de Mme. de Maintenon, para as jovens internas de Saint- Cyr.

Como se pode ver, pelos menos quanto às mulheres, o Antigo Testamento, é, sem dúvida, um tratado sobre ciúmes, ardor, paixão, fogo, luxúria, incesto; nada nos falando do amor idealizado, "platônico", ou do amor voltado exclusivamente para a procriação. A mulher bíblica, no AT, longe de ser uma devota triste e submissa, tem orgulho dos seus atributos físicos, da sua beleza. Por isso, não se descuida, procura manter-se bela, aprende a arte de seduzir e a de fazer amor.

Shalom, amén, salam alaikum, ave, namastê...