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sábado, 23 de novembro de 2019

DOS PECADOS - A SOBERBA

                             
PECADOS , CAPELA  DEGLI  SCROVEGNI , PADOVA
( GIOTTO  DI  BONDONE , 1304 - 1306 )

Orgulho, arrogância, jactância, vaidade, enfatuação, presunção, pretensão de superioridade,  o campo semântico deste substantivo é, realmente, muito vasto. Os antigos gregos usavam, por exemplo, para falar desse sentimento a palavra hyperphania (só encontrada hoje em alguns dicionários teológicos) composta de hyper, acima, elevado, abundante, muito alto ou grande, mais phania, de phaneros, visível, manifesto, público, evidente. Em português, temos ufania, que se aproxima de ufa, que significa em grande quantidade, traduzindo uma ideia de exagero, de excesso, de muito além do normal, palavra encontrada na expressão (locução adverbial) a ufo, provavelmente de origem onomatopaica.(gastou sua herança à ufo). Hyperphania, latinizada, estava na Bíblia, no Novo Testamento, em Marcos (7:22) e Lucas (1:51).

Da mitologia grega provém hybris, que significa desmedida, orgulho, descomedimento. No mito, era um daimon (um demônio, um gênio) que personificava a insolência, a arrogância, a falta de moderação, formando com Koros, o Desdém, e Asebeia, a Impiedade, uma pequena família. Para o homem comum, era um conceito que tinha relação com a falta de medida para mais ou para menos.  Ao atuar, a Hybris provocava uma desproporção, podendo levar ao bom demais como ao mau demais. Ela afastava as pessoas da justa medida, do nada excesso, divisa apolínea que estava inscrita no Oráculo de Delfos. No convívio social, a hybris era sobretudo sentida como a falta de percepção do outro, como uma invasão do seu espaço. No sentido contrário de Hybris atuava a Nemesis, divindade que punia os excessos, que atacava os orgulhosos, como aconteceu com o belíssimo Narciso.


NARCISO
( MICHELANGELO DA CARAVAGGIO , 1571 -1610 )

A soberba, superbia, em latim, é sempre citada em primeiro lugar quando enumeramos os pecados capitais. É conhecida como o pecado do Diabo, ou melhor, do Diabo na sua forma luciferiana. O Diabo é o nome que damos na tradição cristã a uma figura que encarna as forças do mal. Seu nome, etimologicamente, quer dizer aquele que divide, que causa dispersão. É, como tal, símbolo do erro, da mentira, da violência, da dispersão, das forças inconscientes que provocam a desintegração da personalidade do homem, vitimando-o física e moralmente, jogando-o em mil direções. É o inimigo natural de todas as formas de espiritualidade e da elevação psíquica. Na tradição judaico-cristã personifica as paixões e os vícios. A soberba costuma se expressar através de dois modos, individual ou coletivamente São exemplos deste segundo modo o cosmocratismo, o racismo, o corporativismo, o elitismo,  as várias formas de nacionalismo, a xenofobia, sobretudo a religiosa,  o colonialismo e outros mais. Uma forma muito peculiar de soberba, que muito mal fez ao convívio harmonioso entre os povos, foi a de nações que se auto-proclamaram como escolhidas por Deus para desempenha um papel importante de liderança, principalmente com base no monoteísmo, arvorando-se como condutoras do resto da humanidade. 


O  ORGULHO , A  VAIDADE  E  A  IRA.
( PETER  BRUEGEL , C.1525 - 1569 )

Um exemplo do que acima se expôs, nos tempos modernos, comparável com o dos judeus na antiguidade, pode ser encontrado em textos da ciência política, como num de Seymour Martin Lipset, famoso e premiado sociólogo norte-americano de origem russa, aqui resumido: afirma ele que os USA, politicamente, são a mais perfeita representação  do anti-estatismo, sendo, como tal, o apanágio do  individualismo e de sistemas como o da meritocracia e do dinamismo econômico, itens que explicariam a inexistência de
S.M. Lipset,
organizações socialistas no país. É de Lipset a definição dos cinco pilares que definem não só o credo político norte-americano, único dentre todos os demais, segundo ele,  e a sua posição como país líder: liberdade, igualitarismo, individualismo, populismo e
laissez-faire, cinco pilares que apontam para o caráter excepcional da democracia americana. Lipset deu à sua teoria no nome de Excepcionalismo Americano. Esta doutrina, ainda segundo ele, já estaria antecipada numa famosa asserção de Abraham Lincoln: os Estados Unidos são quase uma nação eleita (por Deus).

Desnecessário enfatizar o quanto estes modos coletivos de expressão de soberba vêm contribuindo para causar desde, antipatias e conflitos localizados. revoluções e guerras, inclusive mundiais, sempre ligados obviamente a problemas político-
            KU-KLUX-KLAN
econômicos de toda espécie.  Os exemplos abundam: o sistema de castas (varnas) na Índia, o apartheid na África do Sul, a Ku-Klux-Klan dos USA, xiitas x sunitas no mundo islâmico, judeus x muçulmanos, católicos e protestantes em várias partes do mundo, judeus em permanente conflito com os muçulmanos, fundamentalismo radical religioso ou étnico, o separatismo (a parte mais desenvolvida de um país que quer se separar da menos desenvolvida) etc.

Este último “pecado”, o separatismo, cuja prática vem aumentando muito nos tempos modernos, como seu próprio nome indica, tende levar os seus praticantes a se fixar naquilo que é considerado como princípios fundamentais quando da fundação de determinados grupos, os certos, como acreditam. No fundo, toda discussão fundamentalista é também, como se pode ver, uma questão semântica.  O termo fundamentalista refere-se ainda a qualquer grupo dissidente que resista a identificar-se com o grupo maior do qual diverge. A sua divergência se deve quanto à interpretação dos princípios que deram origem à fundação do grupo. Os fundamentalistas imputam ao outro grupo maior o ter-se desviado dos princípios básicos, sempre uma corrupção,pela adoção de princípios alternativos hostis ou contraditórios à identidade original. 

A soberba procura sempre se manifestar de algum modo, exibir-se, seja individualmente ou em grupos, através de coletividades, sendo evidentemente mais perigosa quando sob esta última forma. Individualmente, é comum encontrarmos a soberba de braços dados com a inveja. Se um indivíduo tomado pela soberba se depara com outro, mais poderoso que ele, na sua esfera de atuação, não há como impedir que a inveja passe a roê-lo interiormente, situação sempre vivida muito dolorosamente. Comum o caso em que o invejoso procure fazer mal ao outro e que, não o conseguindo, ele acabe se autodestruindo.   
      
A soberba produz às vezes muita satisfação naquele que a experimenta, sentimento, neste caso, ostentado como dignidade pessoal. Isto é raro, mas acontece. Esta e outras nuances envolvidas nas situações ora descritas podem nos levar a considerar a soberba, o orgulho, de duas maneiras, positivamente como brio, sentimento de honra, de amor-próprio ou, negativamente, o mais comum, como arrogância, altivez. 


ZEUS , MÁRMORE , LOUVRE
Um dos melhores exemplos da soberba nos vem da mitologia grega, do chamado complexo de Zeus. Características de amplitude e de poder absoluto nos são fornecidos por esta divindade quando estudamos as suas variadas formas de expressão através dos papéis que assume no mito como senhor inconteste do Olimpo. O complexo de Zeus, basicamente, pode ser descrito como uma forte inclinação que algumas pessoas demonstram  no sentido de assumir sempre uma posição de autoridade máxima, inibindo, inclusive à força, se necessário, quaisquer tentativas de independência  de pessoas que vivam ou estejam dentro dos seus domínios. Duas frases definem, à perfeição, este complexo como ilustração da soberba: 1) Só há dois pontos de vista: o meu e o errado; 2) fora de mim, não há salvação. 


QUANDO A ESTRELA DA MANHÃ CANTOU
( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

Quanto ao viés religioso, a soberba tem em Lúcifer o seu melhor exemplo.  O nome vem do latim, aquele que transporta a luz,  (lux mais ferre). Em hebraico,   seu nome era  heilel ben-shahar, com o sentido de o filho do negrume. O nome, em grego, foi aplicado ao planeta Vênus como a estrela da manhã, a estrela d’alva, Eosphoros. A partir da Idade Média, o nome foi também aplicado a Satã. A partir da expressão astro brilhante, numa tradução (de Antonio Pereira de Figueiredo) da Vulgata, Lúcifer é encontrado em Isaías (14:12), aqui registrado o versículo: Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante? Como caíste por terra, tu, que ferias as nações?   


LÚCIFER
(W.BLAKE ,1757 - 1827)
Ao ser exilado, Lúcifer levou consigo uma hoste de anjos, caídos como ele. A revolta de Lúcifer contra Deus começou quando ele se recusou a prestar homenagens a Adão, para ele uma simples criatura feita de pó, enquanto ele, Lúcifer, era feito de luz, da mesma matéria da qual Deus era feito. Consta que Lúcifer também ficou com ciúmes de Adão porque Deus lhe deu uma companheira, que ele cobiçou.

Desde então, foram sendo atribuídos, sobretudo pela tradição judaico-cristã, principalmente pela primeira, aos operadores do Outro Lado, desdobramentos das suas principais figuras, segundo o aspecto que se desejasse representar, nomes como Belial, Belfegor, Belzebu, Asmodeu, Bael, Astarot, Beemot, Furfur, Leviatã, Moloch, Mammon, Baphomet, Beherit, Mefistófeles e outros, todos condôminos, prepostos ou asseclas dos Senhores do reino do Mal.
ASMODEU
Asmodeu, por exemplo, é um príncipe identificado com Samael, que, como serpente, seduziu Eva. Tem três cabeças taurinas, corpo humano, deita fogo pela boca de carneiro. Seus pés são de águia e tem cauda serpente. Cavalga um dragão e comanda setenta e duas legiões infernais. Superintende as casas de jogo, semeando a miséria, o horror e a dissipação. Segundo os judeus, Salomão conseguiu submetê-lo momentaneamente, obrigando-o a ajudá-lo na construção do templo. Leviatã é um monstro que aparece no Livro de Job. A tradição rabínica metamorfoseou-o num demônio andrógino. No Inferno, tem a patente de grande almirante. Segundo a tradição judaico-cristã, a tutela dos sete pecados capitais está assim distribuída, a partir do reino do Mal: Soberba, Lúcifer; Avareza, Mammon; Luxúria, Asmodeu; Inveja, Leviatã; Gula, Belzebu; Ira, Satã; e Preguiça, Belphegor.

LÚCIFER , O ÚLTIMO JULGAMENTO ( GIOTTO )

O pecado do orgulho ficou para sempre ligado à imagem de Lúcifer, belo e sábio, um modelo de perfeição, transformado num ser diabólico, símbolo da arrogância, da jactância e da vaidade intelectual. A arrogância é ato de alguém de atribuir a si direito, poder ou privilégio devida ou indevidamente. É uma qualidade ou caráter de que, por suposta superioridade mental, alguém assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros. É por isso que o oposto da soberba é a humildade.


ADÃO E EVA,1530(LUCAS CRANACH)
Santo Tomás de Aquino considerava a soberba um pecado tão grave que, quando o discutiu, isolou-o da série, tratou dele separadamente. Foi o pecado do orgulho que levou Eva a comer do fruto proibido. No Gênesis se diz que quando Eva viu a árvore do paraíso e ouviu o que dela falou a Serpente achou-a tão atraente aos seus olhos e desejável que não resistiu. Igualar-se-iam, ela e Adão, a Deus, ao comer dos seus preciosos frutos. 


A ilustração do pecado da soberba com a pretensão como a que Eva demonstrou, a de igualar-se aos deuses no campo do conhecimento, não era nova. Esta pretensão, por exemplo, como nos revela a mitologia grega estendia-se a outras manifestações que não só a intelectual. Na mitologia grega, podemos encontrar vários exemplos de heróis ou não que procuraram se igualar aos deuses ou mesmo superá-los, no plano da beleza física, da perícia na confecção de trabalhos, da esperteza, de alcançar alturas ainda mais elevadas que o Olimpo, de se oporem ou se negarem a aderir a cultos patrocinados pelos deuses etc. A esta pretensão, como já se disse, os gregos davam o nome de hybris, incorrendo neste “pecado” personagens como Sísifo, Cassiopeia, Aracne, as Piérides, Tântalo, Minos, Pasífae, Belerofonte, Ixion, Orfeu, Sísifo, Lábdaco, Narciso e muitos outros. 



Para discutir a soberba, Santo Tomás (De Magistro) toma os conceitos de desejo, de glória e de excelência. Com base em Santo Agostinho, ele nos diz que se o desejo se volta para qualquer bem naturalmente desejado de acordo com a regra da razão, esse desejo será reto e virtuoso. Ao contrário, o desejo será pecaminoso se ultrapassa essa regra ou se não chega a alcançá-la. São Tomé nos dá um exemplo: o desejo que o homem tem de conhecer as coisas sob a orientação da reta razão é
SÃO PAULO
( EL GRECCO , 1541 - 1614 )
louvável, mas querer mais é ir na direção da
curiositas, sempre um pecado mortal. Do mesmo modo, ficar aquém do que é possível conhecer retamente é cometer o pecado da negligentia. Todo homem, continua Santo Tomás, divinamente informado, tende a buscar a excelência no que faz. Ele cita, para isso, São Paulo (Coríntios): Quanto a nós, não nos gloriemos sem medida, mas segundo a regra que Deus nos deu como medida. O pecado em relação a essa regra é o distorcido desejo de grandeza, como diz Santo Agostinho (A Cidade de Deus). 

O pecado da soberba, da vaidade ou do orgulho leva o que o comete a buscar uma evidência, um esplendor alimentado pelo desejo de notoriedade, sendo sempre ignominioso por isso. Santo Tomás nos fala que a glória pode ser vista sob três aspectos. No seu nível máximo, ela é clara notoriedade visível por todos, pelas multidões. Num segundo nível, temos o bem de um que se manifesta a poucos ou a um só. Num terceiro nível, quando a própria pessoa, a sua maneira de viver, é fonte da sua própria notoriedade.

Qualquer que seja o enfoque, segundo Santo Tomás, a finalidade da vaidade é a manifestação da própria excelência, um comportamento que gera frutos. A vaidade chama-se jactância quando ela se manifesta por palavras. Quando temos a manifestação de fatos verdadeiros que despertam uma certa admiração estamos diante da presunção da novidade (o novo sempre chama mais a atenção). Se a manifestação se dá por fatos fingidos, temos a hipocrisia, característica do que é falso, dissimulado. O hipócrita carece de sinceridade, é fingido. Em grego, hypocrites, etimologicamente,  é aquele que  dá uma breve resposta; aplicava-se a palavra, de modo especial, ao ator de teatro, aquele que dava respostas ao coro. Depois, hypocrites passou a ser usada para designar aquele que não exprimia os seus verdadeiros sentimentos. 


O   ECLESIÁSTICO
Um dos textos religiosos mais importantes sobre a vaidade é O Eclesiastes, que faz parte do Antigo Testamento. Kohelet é o seu nome em hebraico, uma coleção de provérbios e máximas que constituem um capítulo importante da chamada literatura sapiencial. O texto ensina a moderação, fala das virtudes da vida familiar e do temor de Deus. Já o texto Eclesiástico (Ben Sira) discorre sobre a necessidade que o homem goze os prazeres do mundo com moderação. O primeiro livro acima citado ten a su autoria atribuída tradicionalmente ao rei Salomão, filho de David e de Betsabá, famoso por sua sabedoria, terceiro rei de Israel. Segundo a tradição, Salomão escreveu O Cânticos dos Cânticos na juventude, Os Provérbios na maturidade e O Eclesiastes (ecclesia, em latim, quer dizer assembleia, reunião  e depois comunidade cristã. igreja) na velhice. 

Os temas principais de O Eclesiastes são a vaidade das coisas humanas, o desapego dos bens terrestres, a negação da felicidade dos ricos e a tese de que os bem-aventurados serão os pobres. As ideias do livro tiveram muita difusão por volta do séc. III aC, quando a Palestina era então uma colônia macedônica, obrigada a pagar pesados tributos. O autor procura provar que a vida e a felicidade não estão na posse dos bens terrenos, no poder, nos prazeres, na ciência ou no status social. O texto procura sobretudo provar que a vida é um dom gratuito de Deus e que deve ser partilhada por todos com justiça e fraternidade.

Uma visita ao mundo grego nos ajudará, sem dúvida, a entender um pouco melhor o pecado da vaidade, embora vivamos tão longe da antiga Grécia. Aparentemente diferentes daqueles dos gregos, nossos valores, ideias, princípios e, sobretudo, nosso universo linguístico, quando hoje falamos da soberba, se assemelham bastante, sendo muito útil aproximá-los para o fim aqui colimado.

Segundo a mitologia grega, a Fama (Pheme  ou Phama , em grego) é uma filha de Geia, a Grande-Mãe, que a gerou sozinha, depois do nascimento dos gigantes. Outros a consideravam como filha de Elpis, a Esperança, sendo muito solicitados os seus serviços pelos orgulhosos de toda a espécie. Um bom exemplo do que aqui apontamos pode ser encontrado na poesia épica da literatura de muitos países na qual a Hybris e a Fama tiveram que se defrontar.

Hoje, com sabemos, há agências de publicidade especializadas na promoção do sucesso de pessoas. Elas têm por objetivo a colocação em evidência da pessoa a que prestam serviços, da melhor maneira possível, interagindo com o público. Nessa área, atua também o chamado personal coach  que treina o seu cliente para que ele “possa ir além na vida”.Ele tira a pessoa do estado (insatisfatório) em que ela se encontra (pessoal, profissional, social etc.) e faz com ela alcance o estado desejado. 

OVÍDIO
Na antiguidade, a Fama, com múltiplos olhos e ouvidos, vivia num palácio de bronze com milhares de orifícios, através dos quais captava qualquer som que fosse produzido no universo, o mais imperceptível, e, a seu critério, o amplificava, divulgando-o pelos quatro cantos do mundo. Era dotada de asas que lhe permitiam se deslocar com extrema rapidez
VIRGÍLIO
para conferir a verdade de tudo o que lhe chegava. Era obrigada a tanto, pois cercavam o seu palácio entidades perigosas, a Credulidade, o Erro, a Falsa Alegria, o Terror, a Sedição e os Falsos Boatos. Entre os latinos, Ovídio e Virgílio falaram dela. Este último a descreveu como uma deusa temível de quem nada escapava. 

Nada mais natural que Fama, na literatura grega, personificasse aquilo que os gregos chamavam de reputação, renome (kléos, em grego) e passasse a desempenhar um importante papel no mundo heroico. Para entender como isto se deu é preciso entender que o herói, no mundo homérico, era aquele homem que ultrapassava as suas limitações históricas e geográficas em direção de uma dimensão universal. Esta dimensão, embora considerada por muitos um desejo de transcendência, provocado por um impulso interior, tinha também um forte componente, o desejo de glórias mundanas.

A hipótese acima parece se confirmar como regra quando examinamos mais de perto a vida de muitos heróis gregos. Tome-se, por exemplo, o mito dos argonautas, o da conquista do velocino de ouro e a história de Ulisses como a encontramos na Odisseia. Ao falar de Ulisses, muitos mitógrafos, filósofos, poetas, artistas, escritores, professores de literatura e outros mais sempre procuraram fazer de Ulisses um símbolo do ser humano inquieto, um ideal de transcendência, ávido de conhecimentos novos, um eterno viajante. Ora, não será preciso muito, desde os primeiros cantos do poema, para que uma leitura mais atenta e menos fantasiosa da Odisseia prove o quão inconsistentes são grande parte dos textos produzidos sobre o rei de Ítaca. Como está claro na Odisseia, Ulisses rejeitou a imortalidade que lhe foi oferecida por Calipso, preferindo voltar a Ítaca para retomar o seu lugar entre os homens, o que lhe garantiria uma consideração sem igual.


CALIPSO  E  ULISSES , C.1616 ( JAN BRUGEL O VELHO )  

Outro aspecto da personalidade do herói grego, acima mencionado, era o de que ele se considerava como detentor natural de um kléos, ou seja, de uma glória e de um renome amparados por sua posição social (era sempre um membro da elite dirigente), pela sua habilidade pessoal (areté) e pela sua honorabilidade, honra pública (timé), que deveriam ser cantadas. Poetas e aedos existiam para isso. Este foi o dilema que se apresentou a Ulisses na ilha de Calipso, quando a ninfa quis transformá-lo num imortal, desde que ele se dispusesse a ficar com ela em Ogígia. A opção então se apresentou ao nosso herói: a imortalidade anônima ou uma existência mortal, com todos os riscos que esta última pudesse oferecer, mas, no caso, um herói entre os homens. No primeiro caso, manter-se-ia vivo para sempre, honrado pelos seus pares, mas sentindo-se como Aquiles quando o encontrou (o seu eidolon) no Hades. O maior guerreiro dos aqueus transformara-se num “sem-nome”, uma sombra (skia), como eram chamados todos os que se encontravam no reino infernal, porque haviam perdido o seu corpo físico, que lhes dava uma identidade. 

Como se sabe, em todas as culturas, a história dos heróis, do nascimento à morte, é revestida de muitos traços fantásticos, extraordinários, que vão sempre além da esfera do humano. Os gregos sempre procuraram transmitir para as gerações futuras uma visão sublime desses personagens, muito ampliada e mesmo deturpada pelos que os estudaram ou usaram como temas de suas obras. 

AQUILES  E HEITOR ( PALÁCIO
NACIONAL DA AJUDA, LISBOA)
Na realidade, porém, os heróis gregos nunca foram tão "heroicos" como muitos dos que nos são apresentados como tal, principalmente nos nossos tempos pela comunicação de massas (publicidade, revistas, histórias em quadrinhos, TV, cinema, Internet etc.). Se formos conferir, notamos que no geral os heróis gregos são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. Eram apresentados como invulneráveis, mas podiam ser abatidos (Aquiles, Heitor). Tinham graça e beleza, mas eram monstruosos: o gigantismo de Hércules, de Ajax Telamônio). Eram, na realidade, teriomorfos, andróginos, mudavam de sexo, adotavam o travestismo; tinham anomalias físicas (a tripla dentição de Hércules), deformações (Édipo). Com muita facilidade eram tomados por demônios ou espectros como Lyssa (Loucura), Ate (Erro), Eris (Discórdia), no que acompanhavam as próprias divindades. A maior parte dos heróis gregos tem um comportamento sexual extravagante, são estupradores, chegados à homossexualidade, atacam os próprios deuses, tentam violentar as deusas, têm acessos de cólera sem nenhum motivo, desrespeitam as normas de convivência e as regras da hospitalidade. 

Os heróis gregos, entretanto, são exemplares para nós enquanto simbolizam propostas de impulsos evolutivos e revelam também a situação de conflito do psiquismo humano pelos combates que nele se travam entre as forças da luz (atributos solares) e as forças das trevas, lunares (monstros, gigantes, dragões, imaginação descontrolada), que lembram as tendências regressivas, incansáveis, sempre a persegui-los. Faz parte da vida do herói, obrigatoriamente, a agonística, ou seja, a vida como luta, tanto interna como exteriormente. Sempre presente a ideia da criação de novas formas de relacionamento com o mundo a partir dos conflitos internos, as suas conquistas sempre ameaçadas de dissolução. Um processo de interiorização e de exteriorização ininterrupto. Pressões internas, reais ou imaginárias, temores, fobias, tentações, dúvidas, idiossincrasias. De outro lado, o mundo com os seus monstros, dragões, seres ameaçadores, sedutores, malfeitores. Sempre presentes também as ameças, conscientes ou não, como a vaidade, o orgulho, a fama, o renome, a consideração pública.

Aos poucos, no correr dos tempos, o sentido da palavra herói foi se ampliando, admitindo-se o seu uso para designar pessoas que têm um destino incomum. Do séc. XVIII em diante, com o Romantismo, em especial, uma nova dimensão foi incorporada à palavra. Determinados personagens das artes que problematizavam a sua relação com a sociedade começaram a ser chamados de heróis, nada tendo de exemplares na maioria dos casos. 

A sociedade moderna, principalmente a partir do séc. XX, saturada de profundo irracionalismo, vem há muito  tornando heróis, celebrities de todo gênero, muitas pessoas que orgulhosamente se destacam do coletivo, que “brilham” por um brutal egoísmo, por excessos individualistas, pela violência. Ladrões que vivem nas altas esferas econômicas, donos de redes de comunicação, banqueiros, demagogos, estelionatários, políticos enganadores, corruptos eméritos, falsificadores de todas as espécies, ricaços, conhecidos sonegadores, esportistas dopados, artistas de TV, do cinema, do show business, fabricantes de quinquilharias eletrônicas, uma extensa galeria enfim, promovida em escala mundial pelos meios de comunicação, pela mídia eletrônica atingiu hoje o status heroico para a grande massa globalizada, idiotizada como sempre. São os soberbos.

Antes de prosseguirmos, é preciso, porém destacar que no geral as visões “celeste” e “terrestre” do herói na mitologia grega são muitas vezes antagônicas. Isto porque se ele representa num primeiro momento um ideal de força combativa, está presente sempre nele, como já vimos, concomitantemente, a tendência ao excesso, à desmedida, que o leva a querer competir, igualar-se ou mesmo superar os deuses. 


HÉRCULES
( MUSEI  CAPITOLINI )
O herói, nos combates, vive num estado de cólera guerreira, expressão mágica para caracterizar a sua hybris, a sua orgulhosa desmedida heroica; como tal, ele pode ter direito, segundo os humanos, às suas tendências passionais. A figura heroica que melhor tipifica esta oscilação entre o anthropos e o aner, entre o homem ou sub-homem e o herói, o super-homem, sem jamais conhecer o seu metron é, sem dúvida, Hércules. Se para os humanos o culto heroico pode admitir este tipo de hybris, de orgulho, sob o ponto de vista olímpico tal não acontece. Em que pese o fato de Hércules ter sido arrebatado por seu pai, Zeus, quando de seu suicídio apoteótico, para ir viver entre os deuses, do ponto de vista do Olimpo ou do Hades, as suas façanhas sempre foram tidas como gestas ignominiosas e seu destino miserável. 

Esta também seria indiscutivelmente a visão que teríamos das façanhas de Hércules e de outros heróis se as considerássemos sob o ponto de vista da doutrina dos pecados que os santos padres da Igreja estabeleceram. Ainda que condenáveis sob muitos aspectos, tais façanhas, contudo, sempre ajudaram aqueles que delas se aproximaram a se conhecer um pouco melhor, tanto a si mesmos como aos outros, além, é claro, de constituírem, na mão de artistas maravilhosos, como Homero, Hesíodo, Ovídio, Rembrandt, Mahler, Visconti, Michelangelo, James Joyce, Leonardo da Vinci e inúmeros outros um grande e exemplar patrimônio cultural. O que diríamos então se aplicássemos os mesmos pontos de vista da mesma doutrina dos pecados para falar daquilo que muitos indivíduos procuram hoje viver quando buscam, desesperadamente, através da tecnologia, o seu momento de glória instantânea, ao produzir selfies, fotografias ou o seu perfil numa linha do tempo, com as irrelevantes, nada exemplares e descartáveis histórias do seu cotidiano ilustradas com as suas lamentáveis e desinteressantes fotos?





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domingo, 10 de abril de 2011

OS GRANDES CRIMINOSOS*


A proposta religiosa e social na antiguidade grega era a de moderação, de comedimento, segundo os preceitos apolíneos. A mitologia grega nos apresenta muitas ilustrações sobre esse tema. Toda vez que aparecia uma desproporção, um exagero, para mais ou para menos, no desejo, no amor, na beleza, no prazer ou no sofrimento, uma divindade entrava em ação. Limites ultrapassados, os deuses atuavam, obrigando o que se excedeu a voltar de algum modo.
Hybris era o nome dado a essa tendência que o ser humano tinha de ultrapassar os seus limites, pondo em risco a ordem social, que devia ser um reflexo da ordem cósmica. Um duplo crime, portanto. Foi por essa razão que os gregos, personificando Hybris, a colocaram no Hades, no Jardim de Perséfone, como um espectro, dando-lhe como mãe Koros, o Desdém, a Indiferença. Junto de Hybris, acompanhando-a, sempre ameaçadora, “Hamartia”, a Violência, a expressão física da desmedida, com seus asseclas, Bia, a Força Física, e Crato, o Poder, muito requisitados por  Zeus  para  a  sua  guarda  pessoal  e  para     serviços diversos (submeter Prometeu para agrilhoá-lo às montanhas do Cáucaso).
No sentido contrário destas tendências atuava Ananke, uma força sagrada, providencial, que constrangia e obrigava o descomedido a retornar aos limites dos quais nunca deveria ter saído porque seu crime, como se disse, colocava não só em perigo a ordem social como a ordem cósmica. Já, há muito, no oráculo de Delfos, do deus Apolo, estavam gravados no seu pórtico as famosas advertências: “conhece-te a ti mesmo” e “nada em excesso”. Estas ideias, herdadas talvez da Índia (lei de causa e efeito, doutrina do karma), saíram da mitologia e, como se sabe, invadiram a filosofia pré-socrática.

A tragédia grega, por outro lado, lembremos, tinha, dentre os seus objetivos fundamentais, o de ilustrar as máximas apolíneas, como proposta pedagógica para o homem grego. Ou seja, fazer com que ele procurasse manter sempre a moderação, observando determinados limites. Se tivermos em mente que a palavra cosmos (kosmos) tem o sentido de universo visível e sua ordem, fica mais fácil entender o adjetivo cosmético, usado para qualificar a pessoa que sabia se posicionar adequadamente no seu contexto social. Rompidos os limites, os deuses puniam. Esta fatalidade poderosa está presente na tragédia grega, onde o trágico aparece precisamente marcado pela impotência das vontades humanas com relação ao destino.


ANANKE

                                                                  NÊMESIS


Ananke era chamada também de Necessidade ao se  valer  da  ação  de  muitas  divindades  como Nêmesis,
as Erínias, as Moiras, as Harpias e outras mais, que atuavam para fazer com que os limites rompidos fossem repostos. 
Estas divindades, a serviço da Ananke, controlavam tanto as ações humanas como os eventos do mundo, tudo para que a justa medida fosse observada. “Sofrer para compreender” é uma das boas frases sofocleanas nesse sentido.   O constrangimento da Ananke era exercido sobre os desejos e as ações humanas por um encadeamento inevitável de princípios e consequências, de causas e efeitos, muitas vezes confundidos como Fatalidade. Vez ou outra, porém, segundo critérios insondáveis, os deuses podiam estender a sua proteção a alguns mortais, mudando este quadro, estas relações de causa e efeito. A pergunta (nunca respondida satisfatoriamente) então se impõe: fatalismo ou liberdade? Será que sem nossa iniciativa o que nos acontece teria ocorrido? Poetas como Píndaro, na Pítica, sempre procuraram nos dizer alguma coisa sobre tudo isto.


                                         JOGOS PÍTICOS

As odes triunfais de Píndaro, reunidas sob o título de Píticas, constituem-se numa boa fonte para o estudo de como certos seres humanos, bafejados pelo divino, parecem ter escapado do determinismo anankeano. Pítico, como se sabe, tem relação com a pítia, sacerdotisa do santuário de Delfos, que revelava em transe as sentenças oraculares de Apolo, e também com os jogos (agones), competições que se realizavam nessa cidade, de quatro em quatro anos.Para Píndaro, sem o favorecimento divino, o ser humano não era nada, um perdido no mundo, um ser aphretor, athemistos e anestios, sem descendência, sem lei e sem lar. Eram dos deuses concessões como kydos (glória), time (honra pessoal), kleos (renome) e olbios (fortuna), todas se colocando na esfera do numinoso. “Numen” é gesto de cabeça que traduz assentimento. Numinoso quer dizer influenciado pelo alto, proteção advinda do poder divino. Na Odisseia, por exemplo, Homero nos descreve o olbios de Alcinoo, rei dos feácios, como riqueza, bem-estar, felicidade, algo concedido pelos deuses e desfrutado, que está tanto na posse como na sabedoria do possuidor.


Píndaro nos deixa claro que a vitória sempre era dada pela divindade:
                          
A vitória não depende dos homens./Somente a divindade outorga sucessos./ Ora eleva este ao céu, ora sua mão rebaixa aquele./ Saibas encontrar teu caminho, observando a moderação./ Seres efêmeros! que é cada um de nós?/ Que não é cada um de nós?/ O homem é o sonho de uma sombra!/ Mas quando os deuses pousam/ sobre ele um raio de sua luz/ então vivo fulgor o envolve/ e adoça-lhe a existência.


                                                                                                    HERÁCLITO

Não há nada de social ou jurídico quanto à intervenção dos deuses para que o homem possa conter a sua hybris. Toda questão se resume na necessidade de que os limites sejam respeitados. A frase é de Heráclito: O Sol não sairá dos seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão.

Aqueles que se entregam à hybris, como diz o mito, vão para o Tártaro, a última região do Hades, lugar jamais alcançado pela luz. Ficarão lá para sempre, presos às cadeiras do esquecimento, ou sujeitos a penas eternas. Nenhuma mudança, nenhuma transformação, coagulatio e mortificatio sem fim. Tortura, degradação e sofrimentos que nunca levarão a nenhum crescimento, nenhuma esperança de ressurreição. Uma punição constantemente renovada e sempre a mesma (apocatástase).

Sísifo (de sophos, sábio, inteligente) é considerado na mitologia grega como o mais astucioso dos mortais. Sua falta de escrúpulos era proporcional à sua prodigiosa inteligência. Descendente de Deucalião (sobrevivente do dilúvio), era filho de Éolo, deus dos ventos, atribuindo-se a ele a fundação da cidade de Corinto. Uniu-se por casamento a Mérope, uma das Plêiades, a menos importante, pois suas outras seis irmãs se ligaram sempre a divindades. Dois descendentes de Sísifo têm destaque no mito, Glauco e Belerofonte.


                                           GLAUCO

O primeiro é filho de Sísifo; teve uma vida complicada. Numa das versões que temos sobre ele, registra-se que bebeu água de uma fonte que conferia a imortalidade. Ninguém, porém, acreditou na história. Para confirmá-la, Glauco atirou-se ao mar, sendo transformado pelos deuses numa divindade marinha, obrigada a percorrer os oceanos da terra ininterruptamente até o final dos tempos. O marinheiro que o visse morreria no ato.

O nome Glauco deriva do grego glaukos, brilhante, entre o azul e o verde. Era-lhe dado também o nome de Pontios, quando aparecia associado a cavalos, símbolos das ondas e imagens de irrupções súbitas inconscientes que rompem uma inércia enganadora.

Belerefonte é um filho de Poseidon, mas seu pai putativo é Glauco, sendo, pois, neto de Sísifo. Foi o herói que, cavalgando o Pégaso, matou a Quimera, terrível monstro. Lutou contra as amazonas, massacrando-as, e venceu os descendentes do deus Ares na Lícia. Cheio de hybris, devido às suas façanhas, tentou escalar o Olimpo. Morreu fulminado por Zeus.

Sísifo tomou conhecimento de que o maior dos larápios, Autólico, filho do deus Hermes, havia roubado animais do seu rebanho. Indo visitá-lo, logo reconheceu os seus animais, recuperando-os. Sua visita coincidiu com o casamento de Anticleia, filha de Autólico, com o herói Laerte. Antes que este consumasse a sua união com a jovem, Autólico fez com que Sísifo se relacionasse sexualmente com ela, pois desejava um neto do “mais solerte dos mortais”, como dizia Homero. Assim aconteceu, nascendo Ulisses, grande herói da Odisseia.
A história da prisão de Sísifo no Tártaro tem início quando nosso herói teve a oportunidade ter visto Zeus, o Senhor do Olimpo, raptar Egina, a filha do deus-rio Asopo. Graças a informações negociadas que recebeu de Sísifo, Asopo conseguiu localizá-la. Como pagamento (fala-se em recompensa) ao informante (protótipo do chamado “insider” moderno), Asopo fez brotar na acrópole da cidade uma fonte que se tornaria muito famosa, a que se deu o nome de Pirene, ficando assim garantido para sempre o abastecimento da Acrocorinto. Muito célebre, Corinto era a cidade do amor, das festas e da alegria, da deusa Afrodite, onde viviam num famoso templo as suas hierodulas, as prostitutas sagradas, sacerdotisas da deusa. A título de curiosidade, lembremos que São Paulo, nos anos 50 dC, na sua Epístola aos Coríntios, estigmatizou a impudicícia da cidade.

Zeus, que tudo sabe, mandou que Thanatos, o deus da morte, fosse buscar o indiscreto Sísifo. Avisado das intenções do Senhor do Olimpo, Sísifo ordenou a Mérope, sua mulher, que não lhe fossem prestadas as honras fúnebres. Chegando ao Inferno sem que as referidas formalidades tivessem sido cumpridas, foi levado à presença de Hades e lhe contou o motivo de tamanho sacrilégio. Atribuiu a culpa à mulher; suplicante e choroso, pediu-lhe insistentemente para voltar ao mundo dos vivos, a fim de não só punir a impiedade da mulher como obrigá-la a cumprir devidamente os ritos de praxe.
Hades concordou. Uma vez em Corinto, Sísifo nunca mais se preocupou em cumprir o que prometera. Passados uns tempos, Hades pediu a intervenção de Zeus. Thanatos foi então buscá-lo de novo, arrastando-o para o mundo ctônico impiedosamente, indo o atrevido rei do Corinto diretamente, sem julgamento algum, para o Tártaro. Foi condenado a rolar uma pedra montanha acima, sempre com a esperança de um dia empurrá-la para a outra vertente, para se ver livre do tormento. Todavia, a cada dia, mal chegado ao cume, exausto, quase desfalecido, cheio de dores terríveis pelo corpo, não conseguia dar o último impulso. A pedra, escapando-lhe das mãos, rolava montanha abaixo. No dia seguinte, tudo recomeçava e se repetia.

Na língua inglesa, nos meios cultos, com base na história de Sísifo, aparece às vezes o adjetivo sisyphean (não dicionarizado) na expressão sisyphean labor para descrever um trabalho interminável, nenhum progresso obtendo o seu executante, a não ser cansaço e frustração.


Em 1942, Albert Camus publicou um ensaio filosófico Le Mythe de Sisyphe, que tem como subtítulo Essai sur l'absurde. A obra se abre com uma interrogação sobre o suicídio, que o autor recusa, em nome de uma ética da verdade. Prossegue, dizendo-nos que a vida é realmente um absurdo, um nonsense que precisamos aceitar, e que a nossa única saída será a de encontrar a felicidade em meio ao próprio absurdo. Sisypho, para Camus, é o grande símbolo condição humana.

Outro grande criminoso que se encontra no Tártaro é Tântalo (etimologicamente, o que suporta), filho de Zeus e de Plutó, uma titânida. Rei da Frígia, riquíssimo, amado pelos deuses, chegou a participar dos banquetes divinos. Unindo-se a Dione, uma atlântida, foi pai de filhos ilustres, Pélops e Níobe. Dele descendem os tantálidas, Atreu, Agamemnon e Menalau, figuras importantes do mito. Um de seus primeiros crimes foi o roubo de um animal, um cão que guardava um templo do Senhor do Olimpo na ilha de Creta. Depois, dando mostra do que viria mais tarde, raptou Ganimedes, príncipe troiano, futuro “amor” de Zeus.
Seu grande crime, porém, foi o de trair a confiança dos imortais, ao revelar os seus segredos aos mortais e ao roubar ambrósia da mesa divina quando participou de um banquete a fim de oferecer a amigos o precioso néctar, alardadeando uma familiaridade inadmissível com as divindades olímpicas. O arremate desta série criminosa ocorreu quando, num banquete que ofereceu aos deuses, para testar a onisciência deles, serviu-lhes o próprio filho, Pélops, como apetitoso manjar. Os deuses, evidentemente, logo perceberam o lhes estava sendo servido, com exceção de Deméter, a essa altura muito perturbada, devido ao rapto de Kore, sua amada filha. 

A deusa dos cereais, sem o notar, abocanhou uma espádua do jovem. Interferindo, os demais convivas divinos a alertaram. O festim terminou ali. Zeus manifestou a sua fúria. Os favores que prestara a Tântalo se transformaram em punições atrozes. Zeus ordenou que os pedaços do corpo de Pélops fossem recolhidos, levados para uma panela e cozidos de novo. Cloto, uma das Moiras, foi convocada; recolheu tudo da panela e costurou todos os pedaços.
O jovem Pélops, então, por ação divina, teve o seu corpo inteiramente reconstituído, voltando à vida e Tântalo foi lançado para sempre no Tártaro, condenado a sofrer eternamente fome e sede. Homero, Ovídio e Virgílio sempre o representaram vitimado por esse horrível suplício. Devorado por uma sede abrasadora, mergulhado até a altura do peito num lago, toda vez que se inclina para sorver água ela lhe escapa. O mesmo acontece com os saborosos frutos das árvores que tenta alcançar para saciar a sua fome. Ao estender as mãos, os galhos se afastam, ficando fora de seu alcance.

O suplício de Tântalo pode ser visto como uma eterna frustração. Exaltação e queda são os termos muito utilizados para explicar a desdita do favorito dos deuses. Perdendo a noção de até onde poderia ir, Tântalo invadiu a esfera do divino, tentando se igualar ou mesmo superar os deuses. Desejos atendidos e insatisfação são idéias que nos vêm diante dessa história. Quanto mais os deuses lhe davam, mais Tântalo queria.
Tântalo foi parar nos dicionários. Tantalizar alguém é tanto prometer e não cumprir como sofrer por coisas de impossível consecução ou obtenção. O maldito descendente de Zeus, juntamente com a sua filha, a orgulhosa e infeliz Níobe, fazem hoje também parte das tabelas da química. O tântalo é muito usado na construção de aviões, aços, filamentos de lâmpadas incandescentes, instrumentos cirúrgicos e dentários. A justificativa que os cientistas encontraram para dar o nome de Tântalo ao elemento químico de número atômico 73 foi o de que ele tem um comportamento não reativo; ou seja, está entre inúmeros reagentes e não é afetado por eles. O nióbio é um metal branco, muito raro, também usado em ligas, e que aparece na natureza sempre ligado ao pai, isto é, ao tântalo.

Não podemos esquecer que Tântalo serviu também de inspiração para uma invenção muito usada por amantes do vinho. Tântalo é o nome que se dá a um pequeno armário aberto onde ficam expostos decantadores cheios da preciosa bebida. Aparentemente à mercê de qualquer um naquela pequena vitrine, os recipientes com o vinho ficam, no entanto, travados por um mecanismo invisível. Só quem tiver a chave do armário poderá ter acesso a eles. Um suplício vê-los e não ter acesso a eles.
Um aspecto da associação de Tântalo com decantadores talvez tenha passado desapercebido pelos que criaram o referido armário. Decantar é palavra que vem do latim medieval, do mundo dos alquimistas (canthus em latim é bico de cântaro) e quer dizer separar por gravidade, deixar depositar. A palavra tomou o sentido de purificar, de tornar mais claro. Daí decantar idéias, dar-se um tempo de reflexão a fim de se ter uma visão mais clara, meditar, tempo que o infeliz filho de Éolo terá até o final dos tempos para refletir sobre os seus crimes.  Ao contrário dos inúmeros filhos de Zeus, no geral ligados ao mundo heroico, os de Poseidon são sempre gigantescos, descontrolados, imensos, a própria imagem da “hybris”. É o caso de Oto (demônio noturno, íncubo) e de Efialtes (o que assalta, pesadelo), filhos do deus dos oceanos e de Ifimedia, sua nora. Casada com Aloeu, filho de Poseidon, a moça devotava grande amor ao sogro (entrava nua diariamente no mar). Acabaram se unindo, nascendo os dois gigantes.

Aos nove anos, diz o mito, já alcançavam mais de vinte metros de altura. Quando adultos, descomunais, resolveram desafiar os imortais, escalando o Olimpo. Atacaram os deuses, tentando inverter a ordem cósmica, tranformando terras e mar. Cansado da prepotência dos dois irmãos, Zeus os fulminou. No Tártaro, foram amarrados com serpentes a uma coluna; ao lado deles, uma coruja, com pios agudíssimos, dia e noite, os impede de dormir.
Os gigantes, lembre-se, são seres que se caracterizam pela enormidade de seu tamanho e pela sua indigência mental e espiritual. São a imagem da desmedida, neles predominando a vida instintiva. Há vários tipos deles. Uns, por exemplo, são filhos de Géia e de Urano: os Hecatônquiros (Coto, Briaréu e Giges), monstros de cem braços, e os Cíclopes (Brontes, Estérope e Arges), gigantes de um só olho. Géia, quando sobre ela caiu o sangue proveniente da castração de Urano por Cronos, gerou também, sozinha, muitos gigantes (etimologicamente, os filhos da Terra). Outros são filhos de Poseidon, todos monstruosos, destrambelhados, como, além dos que aqui discutimos, Polifemo (cíclope siciliano), o gigante Crisaor, os colossais salteadores Cércion e Ciron, o antropófago Lamo, rei dos lestrigões, e Orion, o belíssimo e maldito caçador. Poderíamos ainda incluir na galeria gigantesca alguns titãs, filhos de Urano e de Géia, que formaram a primeira dinastia divina, e alguns de seus descendentes, como, por exemplo, o gigante Atlas, que foi condenado a sustentar eternamente a abóbada celeste sobre os seus ombros.Muitos dos gigantes nasceram com um pavoroso aspecto dracôntico, sempre colossais e com força praticamente invencível. Quando Zeus dividiu o poder com os seus irmãos, Poseidon e Hades, depois de ter vencido os titãs (Titanomaquia), Geia, a Grande-Mãe, irritada porque os vencidos haviam sido lançados no Tártaro pelos olímpicos, os senhores da nova ordem, instigou os gigantes para que os atacassem, inciando-se uma batalha (Gigantomaquia) tão cheia de perigos quanto a anterior.

Quando todos os gigantes, atendida a convocação de Geia, apareceram nos campos Flegreos (região vulcânica da Itália meridional, perto de Nápoles) as estrelas do céu empalideceram, Hélio retrocedeu, a Grande Ursa se fundiu com o mar, o próprio Zeus ficou aterrorizado ao vê-los e pediu socorro a todos os deuses. Estige, filha do deus Oceano, depois rio infernal, foi a primeira a acudir o Senhor do Olimpo, acompanhada de seus filhos, Nike (Vitória), Crato (Poder), Bia (Força) e Dzelos (Emulação). Agradecido por sua diligência, Zeus dispôs no ato que daquele momento em diante se tornassem inquebrantáveis os juramentos divinos feitos em nome da oceânida, o chamado privilégio do “horkos”.

PROMONTÓRIO SAGRAD - MONTE ATHOS, HOJE
Nessa batalha, distinguiram-se, dentre os gigantes, Athos (este, depois, transformado na montanha sagrada da religião grega ortodoxa), Efialtes e os Centimanos (Hecatônquiros). Para atingir o Olimpo, eles removeram várias montanhas, empilhando-as, e do seu cume começaram a lançar petardos contra a mansão olímpica, rochas, troncos de árvore inflamados, lavas incandescentes de vulcões etc. Os deuses fugiram apavorados e tomando a forma de diversos animais, conforme conta o mito, ficaram escondidos por longo tempo no Egito.

Ao que parece, Ares foi o primeiro a reagir, dando uma estocada mortal no gigante Peloro. Athena conseguiu atacar o gigante Pallas, petrificando-o com a cabeça da Medusa do seu escudo. Um oráculo havia previsto que os gigantes só seriam vencidos se pudessem contar com a colaboração de um mortal privilegiado, um heros-theos. Aconselhado por Athena, Zeus mandou chamar Hércules, que com as suas certeiras flechas conseguiu matar alguns gigantes.

HÉRCULES

No meio do fragor da batalha, muitos acontecimentos paralelos. O gigante Porfírio tentou violentar a deusa Hera, então uma adolescente, mas foi morto por Hércules e por Zeus. Um dos mais terríveis inimigos dos olímpicos foi Efialtes, que teve o seu olho esquerdo vazado por uma flecha de Apolo e seu olho direito por uma de Hércules. Athena conseguiu deter Encélado, lançando-o no Etna.

A maior parte dos gigantes sucumbiu pelas flechas ou pela clava de Hércules e devido aos raios lançados por Zeus, apesar da ação enérgica de outros deuses que participaram do combate. O fator decisivo da vitória dos olímpicos (até hoje não explicado convenientemente), que afastou decisivamente o perigo dos gigantes, pondo em fuga os remanescentes, foram, para muitos que narraram a Gigantomaquia, certos ruídos ensurdecedores produzidos pelo relinchar de um asno, animal sagrado de Dioniso, e pela trompa de Tritão, divindade marinha, filho de Poseidon. Vencidos assim, os gigantes foram enviados para o Tártaro. Do sangue deles, derramado sobre a terra, nasceu uma perversa raça humana, que Zeus aniquilou quando do dilúvio de Deucalião.
O episódio da Gigantomaquia tem um aspecto digno de destaque: os gigantes só poderiam ser vencidos pela ação conjunta de humanos e deuses. Historicamente, antes que o homem se civilizasse e que pudesse gozar dos benefícios da cultura, só os seres como os gigantes, que possuíssem grande vigor físico, sobreviveriam no mundo natural ainda não constituído totalmente como cosmos. Do ponto de vista das representações da vida subconsciente, gigantes e dragões estão intimamente ligados como imagens de estados mal diferenciados entre a bestialidade terrestre e o ser humano. A evolução da vida em direção do humano e deste em direção ao espiritual é, sem dúvida, um combate gigantesco. Os gigantes nada mais são, assim, do que símbolos das forças que no interior do homem se manifestam como tendências regressivas, prendendo-o à terra. Eles impedem o impulso evolutivo.

 Não é por outra razão que, quando golpeados, se tocam a terra, recuperam as suas forças. Alquimicamente, são os gigantes “filhos” da terra e da água, elementos passivos. Para vencê-los, temos que fazer como Hércules na sua luta contra a Hidra de Lerna (8º trabalho). Só a venceu quando a retirou do pântano (água e terra), elevando-a no ar e expondo-a à luz (elementos ativos, ar e fogo). Danaides, as filhas de Dânao, o Aquático, rei da Líbia, também há muito estão no Tártaro. Oriundas do Egito, instalaram-se em Argos, sendo pedidas em casamento por seus primos. O pai delas, Dânao, que estava rompido com o irmão, fingiu concordar com o casamento, oferecendo um grande banquete para celebrar o acontecimento. A cada filha, no entanto, ele deu um punhal, arrancando delas a solene promessa de que na primeira noite em que estivessem a sós com os maridos, seus primos, no sagrado tálamo, elas os matariam, cortando-lhes as cabeças.

Assim aconteceu. Por tão monstruoso crime, as Danaides foram condenadas a ir para o Tártaro e obrigadas a encher com água tonéis sem fundo, eternamente. Esta passagem mítica tem uma variante: a de que elas foram condenadas a transportar água em peneiras. Os gregos chamaram o crime das Danaides de genocídio, extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, de um grupo étnico ou religioso.
Platão interpreta esta história como uma entrega, por parte dos criminosos, às suas paixões, que jamais se satisfazem. Os órficos interpretaram o castigo das Danaides como a punição àqueles que, por não usarem a água convenientemente, ficam obrigados a transportá-la para sempre, mas inutilmente, como seu elemento purificador.

No Orfismo, quando depois da morte do corpo físico a alma iniciava a sua jornada em direção do Hades, em busca do “seio de Perséfone”, dois caminhos se apresentavam. O da direita era o dos justos, o da esquerda era o dos maus. Os justos, sedentos, bebiam a água da fonte da Memória, que ficava junto de um cipreste branco, símbolo paradisíaco da imortalidade, e sua água significava a lembrança da bem-aventurança.
Os maus, desviados para a esquerda, bebiam a água do rio Lethe, a fim de esquecer a existência terrena. Para escapar da reencarnação, os órficos evitavam a água desse rio. Se assim acontecesse, a rainha do Hades, os recebia, dizendo-lhe:”Ó feliz e bem-aventurado! Era homem e te tornaste um deus.”

Platão, na República e no Fedon, fala daqueles que mergulhados no lodaçal imundo hão de receber o suplício apropriado à sua degradação moral: esgotar-se-ão em inúteis esforços para encher barrís sem fundo ou para carregar água numa peneira. Aristófanes, através de Hércules, personagem de As Rãs, nos fala de alguns crimes que levam ao Tártaro: falta do dever de hospitalidade, violência contra os pais (parricidas e matricidas), perjúrio, sacrilégio etc. A todos esperando está Eurínomo, o monstruoso abutre infernal, devorador das carnes dos cadáveres inumados. É de se mencionar ainda Ésquilo, que numa tetralogia, As Egípcias, As Suplicantes, As Danaides e Amimone (drama satírico) se aproveitou do tema das infelizes filhas de Dânao.
Ixion, filho do deus Ares e de Perimele, era rei dos lápitas, um povo da Tessália. Para obter a mão de Dia, filha de Dioneu, prometeu ao pai que o cumularia de presentes, especialmente uns cavalos maravilhosos. Realizado o casamento, Dioneu foi reclamar do genro os presentes prometidos. Ixion, num acesso de raiva, sem nenhuma testemunha, matou-o, lançando o corpo num poço profundo cheio de carvões em brasa. Hipocritamente, passou a cultuar a memória do sogro em cerimônias que Dia realizava.

Historicamente, os lápitas eram selvagens e violentos, criadores de cavalos, guerreiros e mercenários. Viviam nos maciços montanhosos do norte da Grécia. Úmida e fria no inverno, muito quente no verão, a Tessália se integrou ao mito pelas histórias de muitos personagens, do deus-rio Peneu, da ninfa Filira, de Lápites (filho de Apolo), deCeneu, de Mopso e de outros, alguns inclusive participantes da expedição dos argonautas.
Descoberta, porém, não só a morte do sogro, mas muitos outros crimes por ele cometidos, Ixion, apesar da sua elevada posição, foi afastado do trono e expulso do seu reino, tornando-se um ser errante, por todos amaldoçoado, ninguém se dispondo a se aproximar dele.

Abandonado por todos, Ixion simulou estar arrependido, pondo-se a fazer sacrifícios às Eumênides, as Benfeitoras. Zeus que tudo via lá das alturas, apiedou-se de seu neto, chamando-o para o Olimpo. Mal instalado na mansão dos deuses, atacado por grande hybris, ousou ele cometer um crime muito maior do que todos os que cometera na sua vida terrena. Tentou violentar a deusa Hera, esposa imperial de Zeus, seu protetor.
Cientificado do fato por Hera, Zeus confeccionou com nuvens um simulacro de sua esposa, em tudo idêntico a ela, que recebeu o nome de Nephele (Nuvem). Ixion caiu no engodo, unindo-se sexualmente a este simulacro. Dessa união nasceram os centauros, seres híbridos, humanos na parte superior e cavalos na parte inferior de seu corpo.
Para castigar Ixion, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o imortal, e depois mandou amarrá-lo com serpentes a uma roda incandescente, a girar constantemente, lançando-o no Tártaro. Fixado nesse suplício até o final dos tempos, Ixion grita sem cessar: Honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão.

Os centauros são considerados símbolos da força bruta e das pulsões instintivas que se apoderam do homem, anulando o lado humano de sua personalidade, que não consegue dominar este lado animal. Concupiscentes, lúbricos, bestiais, comedores de carne crua, bastando um copo de vinho para embriagá-los, são a imagem da trracionalidade do ser humano.

Ao mito de Ixion não podemos deixar de acrescentar a história de seu filho Piritoo, um ser também vitimado pelas paixões como o pai, cujas aventuras fazem parte da crônica do grande herói Teseu. Impressionado pelo filho de Egeu e por suas façanhas, Piritoo passou a acompanhá-lo como uma espécie de escravo. Uma das maiores aventuras desta dupla foi a tentativa (fracassada) de rapto de Perséfone, a rainha do Inferno.
Salmoneu (etimologicamente, o que transborda), oriundo da Tessália, filho de Éolo, deus dos ventos, emigrando para a Élida, fundou a cidade de Salmona. Muito orgulhoso e descomedido, julgou que poderia se tornar um deus na terra. Uma espécie de Zeus. Mandou construir diante de seu palácio uma pista de bronze e num carro com rodas de ferro que arrastavam correntes desfilava por ela, pretendendo produzir ruídos como os trovões e chispas de fogo como os relâmpagos e raios, armas de Zeus, que lhes foram dadas pelos Cíclopes. Apesar de nada popular entre seus súditos, que o achavam ridículo, queria ser conhecido por dois epítetos de Zeus, Brontaios (Trovejante) e Astrapaios (Relampejante).



ZEUS ASTRAPAIOS


Não demorou muito para que a paciência de Zeus se esgotasse. Irritado com a idiotice do espetáculo (aliás muito repetido hoje com motocicletas e automóveis), o Senhor do Olimpo o fulminou e o enviou para o Tártaro, onde se encontra até hoje, obrigado a ouvir trovões e a ter que suportar em seu corpo descargas elétricas equivalentes a raios.Dentre as figuras mais sinistras que estão aprisionadas no Tártaro temos Títio (forte, grosso). Filho espúrio de Zeus, de um de seus inúmeros amores itinerantes (Elara), foi escondido, por ordem do pai, no interior da Terra para que sua ciumenta mulher não o descobrisse. Hera, contudo, o descobriu, a essa altura uma figura gigantesca, dracôntica .Inspirou-lhe Hera uma violenta paixão por um dos grandes amores de Zeus, Leto ou Latona, a mãe dos gêmeos Ártemis e Apolo.




Quando estava prestes a violentá-la Zeus o lançou no Tártaro. Seu suplício: ter o seu fígado devorado por duas serpentes, na fase da Lua nova. Na fase crescente, as serpentes lhe dão um descanso, reconstituindo-se o órgão. Vergílio nos conta a história de Títio na Eneida, substituindo, porém, as serpentes por um cruel abutre que lhe rói as entranhas, não permitindo descanso às fibras que sempre renascem.











                        *Ciclos de Mitologia - "Lita Projetos Culturais"