Hércules é um perseida, um descendente de Perseu, filho de Zeus (chuva de ouro) e de Danae (água), um dos maiores heróis gregos, famoso matador da monstruosa Medusa. Perseu e Andrômeda tiveram vários filhos. Dois deles são muito importantes para a história de Hércules, Alceu (a força) e Electrião a luz, o brilho). O primeiro tornou-se pai de Anfitrião (o que recebe) e o segundo de Alcmena (a forte), primos, que, unindo-se, geraram uma criança a que se deu o nome de Alcides (a força) como está explicado em nosso texto “As leituras do ciclo de Hércules”.
![]() |
ZEUS E HERA |
Esta história foi utilizada, entre os romanos,
por Plauto, autor
latino, como tema de uma de suas comédias: Anfitrião. Tendo notado Alcmena, Júpiter assume a aparência de seu marido, o general Anfitrião, que se encontrava comandando seu exército, longe da pátria. Júpiter, nessa empreitada, é auxiliado por Mercúrio, que toma a forma de Sósia, escravo de Anfitrião.
latino, como tema de uma de suas comédias: Anfitrião. Tendo notado Alcmena, Júpiter assume a aparência de seu marido, o general Anfitrião, que se encontrava comandando seu exército, longe da pátria. Júpiter, nessa empreitada, é auxiliado por Mercúrio, que toma a forma de Sósia, escravo de Anfitrião.
Uns dias depois, o
verdadeiro Anfitrião aparece. Contou à mulher a história do término da guerra.
Alcmena ficou muito
perturbada, mas nada falou. Desconfiado, Anfitrião foi a
Tirésias, o cego, o maior adivinho da Grécia. Voltou com a notícia da gravidez
da mulher. Tentou matá-la, arrastando-a para uma fogueira. Zeus, onisciente,
mandou uma chuva providencial, salvando Alcmena. Depois de algumas tentativas
infrutíferas de matá-la, percebendo que um poder divino atuava, perdoou a
mulher. Uniu-se a ela e, por artifícios divinos, Alcmena passou a gerar então
dois irmãos, gêmeos, um divino, filho de Zeus, e outro humano, filho de
Anfitrião, que receberá o nome de Íficles (etimologicamente, o gloriosamente
forte).
![]() |
TIRÉSIAS |
Nesse ínterim, um
acontecimento no Olimpo quase pôs tudo a perder: Zeus, tomado pela deusa Até
(o Erro, a que provoca distúrbios da razão), proclamara orgulhosamente numa
reunião olímpica que um descendente seu, um perseida, nascido de uma virgem,
seria o rei de Argos e, portanto, de toda a Grécia. Além disso, como herói,
faria a ligação entre o mundo humano e o divino. Hera, tomando conhecimento do
que seu boquirroto marido falara, tudo fez para impedir o nascimento do nosso futuro herói. Para tanto, enviou sua filha Ilícia, deusa dos
![]() |
MOIRAS |
partos, juntamente
com as Moiras, as donas do fio da vida à Terra. Hércules, contudo, acabou
nascendo. Enquanto as enviadas de Hera retardavam o nascimento de Hércules,
ela, Hera, havia se dirigido a Argos para fazer com que o nascimento de um
outro descendente de Perseu ocorresse antes do de Hércules, a fim de que ele e
não este herdasse o título de rei. Assim aconteceu, nascendo Euristeu, também
neto de Perseu.
Hera passou desde
então, por todos os meios, a perseguir Alcmena e seu filho Alcides, já aceito
por Anfitrião. Numa noite, Hera enviou duas serpentes com veneno mortal a fim
de que, picadas, as duas crianças morressem. Demonstrando já o que viria a ser
mais tarde, Alcides, então um infante de poucos meses, as estrangulou com
violência. Alcmena, para salvar Alcides, temendo a perseguição de Hera, resolveu
expô-lo, abandonando-o numa montanha. O episódio das serpentes foi usado como tema literário, dentre outros poetas, por Píndaro e Teócrito.
A obra de Píndaro
parece ter por base uma profecia do vidente
Tirésias, que previu para Hércules
um caminho grandioso ainda que cheio de provações, um caminho que o levaria à imortalidade.
Muitas cidades gregas, quando invadidas e ocupadas por inimigos, usavam a
imagem de Hércules estrangulando as duas serpentes como um emblema com o
sentido de uma convocação à luta para a libertação de opressores. Pherecydes,
escritor grego contemporâneo de Píndaro, entretanto, deu um sentido diferente
ao episódio das serpentes: ele seria uma espécie de ordálio. Anfitrião,
desejando saber qual dos dois filhos teria nascido dele, teria colocado a
serpente no leito das crianças.
![]() |
PÍNDARO |
Segundo antigas
tradições, Hércules teria nascido num dia que corresponderia hoje à nossa
quarta-feira. Para os antigos gregos, entre os do povo, quem nascesse nesse dia,
consagrado a Hermes, ficaria preso a uma espécie de maldição, obrigando-se,
enquanto vivesse, a trabalhar pelos outros.
A criança abandonada por Alcmena dormia quando
foi encontrada por duas divindades em visita à Terra. Eram Palas Athena e Hera;
a primeira sabia de que se tratava enquanto a segunda de nada sabia. Sugere
Athena que Hera a amamente, um subterfúgio para que, assim, a criança se
tornasse inteiramente imortal. Acolhida por Hera, a criança, de um modo
estabanado,
se atirou ao seio da deusa; o leite jorrou em esguichos, formando
um risco luminoso no céu, dando origem à Via Láctea, a Galáxia. Hera, com o
seio ferido, atirou a criança longe. As deusas continuaram o seu caminho. Palas,
em seguida, voltou para resgatar o menino, tornado em parte imortal pelas gotas
do leite de Hera que conseguira sugar, entregando-o de novo a Alcmena, com a
promessa de que Zeus os protegeria. Nos céus, o rastro luminoso seria doravante
o símbolo do caminho por onde os heróis iriam ao Olimpo. Em todas as tradições
esta Via aparece como um lugar de passagem, criado pelos deuses, para unir os
mundos divino e terrestre. Para maiores detalhes, veja neste blog matéria sobre
a Via Láctea.
![]() |
RUBENS - A ORIGEM DA VIA LÁCTEA |
A educação dos primeiros
anos de Hércules seguiu o modelo tradicional da criança grega da época.
Anfitrião ensinou o menino a conduzir
carros de guerra, arte que ele aprendeu com rapidez espantosa, superando
logo em maestria seu pai terrestre. Para
ensinar as letras e música aos irmãos, é convocado Lino, músico famoso e homem
de letras, irmão de Orfeu. Enquanto Íficles aceitava docilmente o que Lino lhe
transmitia, Hércules mostrava um comportamento irritado, agressivo,
indisciplinado. E tanto o mostrava que numa crise de fúria (tomado por Lyssa, a
Raiva) esmigalhou a cabeça do professor com violenta pancada de uma lira. Indo
a julgamento, soube defender-se tão bem que conseguiu absolvição. O que nos
fica desse período, segundo informações de muitos biógrafos, é que Hércules,
nessa fase de sua vida, sempre se mostrou muito interessado nas disciplinas
militares e esportivas, nada querendo com as coisas do espírito, irritando-se
muito quando lhe falam delas. Esta atitude ele a manteria até o fim da sua
vida.
Anfitrião o enviou
então para o campo, encarregando-o de cuidar dos seus rebanhos. Lá foi
adestrado nas armas por Castor, um dos Dióscuros. Na gruta do centauro Kiron,
recebeu
![]() |
LYSSA |
![]() |
CHIRON |
![]() |
HÉRCULES E O CENTAURO |
Aos dezoito anos, é
chegado o momento da efebia, isto é, teve que se submeter a determinadas provas
(docimasia) para ser recebido no mundo adulto. Conforme revelam antigos textos,
Hércules, quando da efebia, tinha quase
três metros de altura, ou, mais exatamente, 2,97 m. Para provar o seu valor, o
jovem herói dispôs-se a matar o montruoso leão do monte Citerão, que tudo
dizimava, animais e seres humanos. Apresentou-se ao rei Téspis e depois de
muita perseguição conseguiu matar a fera. A caçada durou cinquenta dias.
Segundo a crônica do herói registra, a cada noite, por vontade real, que
cumpria de bom grado, se unia a uma das filhas de Téspis, fecundando-as todas,
nascendo, então, mais tarde, os chamados tespíades, raça de descendentes do
herói, que emigraram depois para a Sardenha. Tendo retirado a pele do corpo do
leão de Citerão, Hércules passou a usá-la como seu emblema.
Retornando glorioso do monte Citerão, todos a falar de sua façanha ao longo dos caminhos, Hércules, ao passar por Tebas, tomou conhecimento de uma situação horrível que afligia os tebanos: a cidade pagava um pesadíssimo tributo (cem bois) a Ergino, rei de Orcômeno. O herói conseguiu desviar as águas de um rio que, inundando uma planície vizinha, provocou o afogamento de toda a de cavalaria de Ergino. Foi nesta luta que morreu Anfitrião, lutando ao lado do filho. Libertada Tebas, Creonte, o rei, resolve homenagear o herói, dando-lhe em casamento a filha, Mégara, nascendo dessa união três filhos. A Íficles, que já era pai de Iolau (a mãe era Automedusa), coube como prêmio a irmã mais nova de Mégara. Iolau terá um grande lugar na vida de Hércules, tornando-se o condutor de seu carro e seu companheiro mais próximo.
Retornando glorioso do monte Citerão, todos a falar de sua façanha ao longo dos caminhos, Hércules, ao passar por Tebas, tomou conhecimento de uma situação horrível que afligia os tebanos: a cidade pagava um pesadíssimo tributo (cem bois) a Ergino, rei de Orcômeno. O herói conseguiu desviar as águas de um rio que, inundando uma planície vizinha, provocou o afogamento de toda a de cavalaria de Ergino. Foi nesta luta que morreu Anfitrião, lutando ao lado do filho. Libertada Tebas, Creonte, o rei, resolve homenagear o herói, dando-lhe em casamento a filha, Mégara, nascendo dessa união três filhos. A Íficles, que já era pai de Iolau (a mãe era Automedusa), coube como prêmio a irmã mais nova de Mégara. Iolau terá um grande lugar na vida de Hércules, tornando-se o condutor de seu carro e seu companheiro mais próximo.
Hera, todavia, mais
uma vez resolveu perseguir o nosso herói. Possuído por Lyssa, a Raiva,
enviada pela grande deusa, mata, segundo uma versão, os seus próprios filhos. Saindo
da horrível crise, repudiou a mulher, forçando-a a se unir ao seu sobrinho
Iolau. Tentou suicidar-se, Teseu interveio demovendo-o. Palas Athenas o
mergulhou então num longo sono. Ao acordar,
lançou-se no mar, numa tentativa de
se livrar da culpa que o perseguia. Resolveu ir então em peregrinação ao
oráculo de Delfos, a fim de obter de Apolo uma sentença que o ajudasse a
reparar tão monstruosa falta. Apolo fala através da Pítia, determinando que ele
deveria se apresentar a Euristeu, seu primo, rei de Argos que lhe ditaria uma
sentença. Seriam doze anos de trabalhos, findos os quais, diante da enorme
relevância das tarefas e do descomunal esforço exigido para cumpri-las, obteria
a imortalidade, segundo Apolo e Palas Athena lhe prometeram.
![]() |
APOLO |
OS DOZE
TRABALHOS
Matar
monstros é função típica de heróis. Nenhum, porém, como Hércules. Tudo nele é
incomum, seus ataques de loucura, sua força descomunal, seu excesso de
vitalidade, seu lado animal. Sua figura: hirsuto, com uma pele de leão como
símbolo sobre os ombros, uma clava, livre com relação ao vinho, ao amor, ao
sexo, à comida e às regras sociais. Estas não eram para ele. Sua fúria e suas
paixões o impediam de observá-las. Por outro lado, bem intencionado,
justiceiro, exercendo sempre uma atividade libertadora e civilizadora no
sentido de tornar a terra mais habitável, semeando os campos, fundando templos
e cidades, instituindo jogos (na tradição dórica, de quem Hércules é patrono, o
nosso herói teria fundado os jogos olímpicos no antigo santuário da Élis, no
Peloponeso, para celebrar a sua vitória sobre Augias, quando do décimo primeiro
trabalho, como lembra Píndaro. Veja neste blog o artigo sobre Hércules e os
Jogos Olímpicos), criando oráculos, participando de rituais. Embora participe
do divino, é o mais "terrestre" dos heróis gregos e, por isso, o mais
popular. Essa dualidade, sempre presente na vida do herói, é ilustrada por
Aristófanes e por outros filósofos e escritores da época através dos conceitos Aretê (Virtude) e Kakia (Vício), na figura de duas
mulheres. A primeira está vestida de branco, tem ar modesto, pudico, lembra que
só através do trabalho conseguimos alguma coisa, que o corpo tem que se
submeter à inteligência. A outra tem roupas ricas, defende a luxúria, é gulosa,
concupiscente, é contra qualquer esforço e controle interior.
Ao
ingressar na senda que o levaria ao cumprimento dos doze trabalhos, Hércules,
diz a tradição, diante da gigantesca tarefa que o esperava, recebeu vários presentes
e conselhos dos deuses. De Palas Athena recebeu uma túnica, de Poseidon cavalos,
de Hefesto um peitoral dourado para proteger seu nobre coração, de Hermes uma
espada, de Hélios um carro (biga) e de Apolo o arco e as flechas, que, segundo
palavras do próprio deus solar, só os saberia usar bem a partir do seu nono
trabalho. Diz também a tradição que Hércules recebeu os presentes divinos,
agradeceu, mas os deixou guardados num bosque próximo de Argos. Desse mesmo
bosque retirou um tronco de oliveira selvagem do qual fez uma clava; era o
presente que dava a si mesmo. Afastou os professores, com impaciência ouviu os
conselhos, logo esquecidos, e renunciou ao nome de Alcides.
Os doze trabalhos são as provas a que Euristeu, rei de Argos, submeteu Hércules. São doze provas principais dentro das quais encontramos vários outros episódios, considerados às vezes como secundários, mas não menos importantes. Ao todo um vastíssimo plano, cheio de labirintos, desvios, descidas, subidas, quedas, acessos, uma viagem em meio a muitas trevas para que, ao final, um novo ser possa surgir. Simbolicamente, os acontecimentos, no seu todo, representam o trânsito do Sol pelas doze constelações zodiacais, uma proposta de autotransformação, o caminho da libertação, que nosso herói, não conseguiu.
![]() |
ARETÉ - HÉRCULES - KAKIA |
Os doze trabalhos são as provas a que Euristeu, rei de Argos, submeteu Hércules. São doze provas principais dentro das quais encontramos vários outros episódios, considerados às vezes como secundários, mas não menos importantes. Ao todo um vastíssimo plano, cheio de labirintos, desvios, descidas, subidas, quedas, acessos, uma viagem em meio a muitas trevas para que, ao final, um novo ser possa surgir. Simbolicamente, os acontecimentos, no seu todo, representam o trânsito do Sol pelas doze constelações zodiacais, uma proposta de autotransformação, o caminho da libertação, que nosso herói, não conseguiu.