No final do século XVI, os primeiros navios portugueses com seus porões cheios de escravos chegam ao Brasil. Provenientes de várias etnias, traziam eles para a nova terra em que, à força, passariam a viver suas concepções de mundo, suas crenças, suas divindades. Dentre as raças que vieram destacamos, como principais, Jejes, Iorubás, Fons, Angolas, Haussás, Fantis, Ashantis, Malês, Fulas e Congos.
Corria o ano de 1538 quando aqui chegou a primeira leva de escravos. Vinham de São Tomé. As levas sucessivas, ao que parece, eram parcialmente islamizadas.

Aqui chegados, foram os negros se misturando segundo os interesses dos mercadores, espalhando-se pelas senzalas da Bahia, de Pernambuco, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, de São Paulo, pelo sul. Traziam eles certamente concepções religiosas antiquíssimas, muito semelhantes àquelas que vamos encontrar no patrimônio de populações já instaladas no continente africano muito antes da unificação das tribos egípcias por volta de 3000 aC. Semelhantes também as suas concepções, como se constatou posteriormente, às das populações negras drávidas que viviam a leste do Rio Indus e abaixo do Ganges, antes da invasão dos árias indo-europeus.
Luís Viana Filho, na sua obra "O Negro na Bahia", compõe o seguinte quadro relativo à entrada de escravos no Brasil: l) séc. XVI - Ciclo da Guiné; 2) séc. XVII - Ciclo de Angola; 3) séc. XVIII - Ciclo da Costa da Mina e do Golfo de Benin. Ao todo, foram trezentos anos de comércio negreiro. Extinta a escravidão, abandonado socialmente, não sendo uma mão-de-obra especializada, marginalizado, o negro de aculturou mal e precariamente, sempre marcado por preconceitos de cor e religiosos pelo mundo branco.
O aparecimento dos chamados cultos afro-brasileiros se dá dentro desse quadro histórico, caracterizado, quanto aos negros, por cruzamentos vários e sucessivos, misturando-se as etnias, já que os senhores as incentivavam como um meio aumentar numericamente a mão-de-obra escrava. A mistura desordenada de etnias, praticada como um processo de desculturação criou uma certa confusão linguística, dando origem ao chamado dialeto das senzalas, aos poucos, porém, em cerca de dois séculos, silenciado pelo crescente uso da língua portuguesa.
De um modo geral, ainda que consideradas as diferenças entre as crenças das várias etnias que para cá vieram, havia entre elas quatro importantes pontos em comum. Acreditavam todos num Deus único, uma energia primordial criadora, que se ordenava por si mesma; tinham um panteão de deuses, que administrava tudo o que entrava na existência, desde a ordem cósmica aos reinos mineral, vegetal e animal, neste último se encaixando o ser humano, com seu corpo, mente e emoções; acreditavam na existência de dois mundos distintos, um visível, o material, e outro invisível, o espiritual; traziam todas, mais ou menos, elementos islâmicos.
Estas concepções, como se pode constatar até com certa facilidade, se aproximam bastante daquilo que os hindus chamam de Brahman, a imensidade, o substrato comum de toda a existência. O espaço, o tempo e a consciência que tudo percebe podem ser considerados como aspectos diversos desse substrato, que jamais poderá ser verificado na sua expressão última, pois ele se encontra sempre além dos nossos meios de percepção e de todos os métodos de investigação que possam ser criados.
Antecipando-se aos conceitos mais atuais da Física moderna e aproximando-se também de algumas formulações da Filosofia grega (Plotino, um “hinduísta” perdido na filosofia grega), achavam que no universo tudo é uma integração e a mesma coisa, do átomo (grão de areia no dizer deles) às estrelas. O que vemos, o aspecto visível das coisas, é apenas a transformação incessante das coisas, tudo animado por uma força inteligente chamada "muntu", que é representada pelos entes intermediários (orixás), pelas entidades tutelares familiares e pela energia primordial, Deus.
Nas grandes plantações de cana e de fumo, que precisavam de muita mão-de-obra, os negros foram se agrupando. Alguns historiadores calculam que no

Tudo isto, com o correr do tempo, foi produzindo um vasto sincretismo. Nas regiões onde a influência indígena era grande,

Para entender melhor a questão do sincretismo que ocorreu no Brasil devemos relacionar os seguintes pontos: 1) vieram para o Brasil cerca de 3 milhões e meio de

O CANDOMBLÉ
O Candomblé

A participação no Candomblé é voluntária, sendo o sacerdócio (os que provocam o sagrado) exercido pelos membros do terreiro, todos procurando atrair as bênçãos e benefícios dos orixás. Como tal, o Candomblé é uma religião, ao procurar unir o "ayé" ao "orum". O primeiro é a terra, lugar dos fenômenos visíveis, onde vivem as criaturas. O outro é o Além, incomensurável, inapreensível, o lugar das energias, onde vivem os orixás e os espíritos.
No começo, os dois mundos estavam unidos. Um casal sem filhos pediu que Oxalá, o Criador, lhes desse um filho. Este casal vivia entre os dois mundos. Assim lhes foi concedido, sob a condição de que a criança não saísse nunca dos limites do "ayé". Na juventude, o filho do casal que há muito insistia em sair do limite que fora assinalado, acabou ultrapassando-o, invadindo os demais espaços. Pôs-se inclusive a desafiar a divindade.

Manes, entre os antigos romanos, eram os espíritos dos mortos, considerados bons, benevolentes, que subiam (manare, em latim, é sair do mundo de baixo para o mundo de cima) para ajudar os vivos. Entretanto, como vários registros nos contam, quando esses espíritos assumiam a condição de “manes”, eles manifestavam muitas vezes, abertamente, com relação aos vivos, a sua insatisfação, o seu inconformismo, o seu ressentimento. Daí, as várias festas que se realizavam em Roma para apaziguá-los, para fazer com que retornassem ao mundo ctônico.
Os orixás são os donos do "ori", o alto da cabeça. Lembremos que segundo a tradição hinduísta, o chakra coronário, "brahmarandra", correspondendo à glândula


Olorum é o dono do outro mundo (oló, senhor, orum, outro mundo); são dele toda a existência (iwa), a força sagrada (axé) e a permanência (abá). As primeiras emanações de Olorum são Oxalá e Odulua, constituídos numa trindade. Olorum é o demiurgo por excelência, que está em todos os lugares e em lugar nenhum. Não tem sexo, unindo o passivo (Odulua) e o ativo (Oxalá). Cosmogonicamente, no princípio, só o vazio, a indiferenciação. Olorum gerou então o primeiro movimento, descrição muito semelhante à que encontramos no Rig-Veda. Parte desse movimento, o ar infinito, se transforma nas águas primordiais, Orixinlá. Misturando-se estas àquele, surge a "prima materia", sem forma, pastosa, avermelhada, nela aparecendo um ser primordial, modelo de todos os demais, Exu.
Os domínios de Oxalá são formados pelo ar e pela água, enquanto os de Odulua o são pela água e pela terra, sendo o primeiro, portanto, o masculino universal e o outro o feminino primordial. Desse primeiro par divino surgirão os outros orixás, a partir da mãe celeste gerada por Odulua, Yemanjá, orixá feminino das águas salgadas, dos oceanos e dos mares e das águas em geral. Simbolizada por âncoras, barcos e peixes, sua cor é o azul celeste, seu metal a prata, sendo a sua força a da maternidade, presente na água salgada, a origem de toda a vida. No Catolicismo, associa-se Yemanjá à Imaculada Conceição e a Stella Maris. Matronal, Yemanjá tem seios volumosos, símbolo da maternidade fecunda e nutritiva. Vingativa se algo a incomoda, mas capaz de esquecer logo a ofensa. Deve ser reverenciada pelas pessoas que dependem do mar para viver. Seus "filhos" são fortes, vigorosos, altivos, às vezes impetuosos e arrogantes, podendo mudar muito o seu humor. Sérios, preocupam-se com o próximo.
Como nas divindades hinduístas, em algumas entidades do Candomblé o feminino (shakti, dos hindus) e o masculino coexistem. Oxalá tem a sua metade feminina, Nanã, a terra-mãe ancestral (Geia entre os gregos), é aquela que vai receber o corpo físico quando da ocorrência da morte. É a mãe que retoma o corpo de seus filhos. Como a mais velha dos orixás femininos, é uma espécie de avó. São dela a chuva, as águas doces, os pântanos, a lama, a massa informe, os lugares de fermentações, a fecundidade, enfim. Sua a cor é o negro, como a das famosas Mães Negras da Europa pré-cristã. Nanã lembra sempre que a vida nasce da morte. Sua comida tem por base o peixe de água doce em postas, acomodadas em rodelas de cebola (a criação a partir de um núcleo).
O princípio masculino gerado a partir de Odulua, a Grande-Mãe, é Oranyã, que se une incestuosamente a Yemanjá, sua irmã, nascendo dessa união os demais orixás. Yemanjá é a maternidade concretizada, suas cores são o azul-claro ou verde-claro e o branco, translúcidos. Alquimicamente, sua união com Oranyã é a dinamização da água e do ar pelo fogo. Nanã, por sua vez, é a maternidade em potência, não tem esposo, como Yemanjá também não. Nanã é calma, solene, não se vê o seu rosto, sempre coberto por um véu de palha com miçangas. Pessoas tuteladas por Nanã são calmas, mas podem se tornar terríveis nas suas vinganças.
Já Oxum e Iansã aparecem como complementos de um ou mais orixás masculinos. Oxum tem como símbolos o espelho, o ouro e o dinheiro. Sua cor é o amarelo, tendo relação com riqueza e negócios. Relaciona-se no Catolicismo ora com a Imaculada Conceição, ora com N.S. das Dores. O reino de Oxum está nas cachoeiras ou na água calma dos remansos dos rios, lugares em que seus "filhos" encontram a sua força particular (axé), lavam as suas ofensas e pedem graças. Oxum é a grande protetora da gravidez; a retenção do sangue menstrual é dela. Seu alimento é o mel, sangue vegetal, nutriente. Seu símbolo é um peixe mítico, que aparece no seu leque, pintado ou como pingente. A cor áurea lhe pertence, assim como os metais guardados no ventre da Terra, fazendo-se suas jóias de ouro, prata envelhecida e cobre. Meiga, é o arquétipo da esposa. Harmoniza-se com Xangô, complementando-o, condição que compartilha com Obá e Iansã.
Iansã é o feminino livre, independente, espantosamente semelhante à deusa Ishtar, da antiga Mesopotâmia, com alguns

Um dos mais fantásticos orixás é Ogum. Na África, divindade do ferro, uma espécie de patrono da tecnologia, protegendo todos os que manejam ferramentas, armas, espadas, que conduzem veículos. É assimilado a São Jorge. Em todas as lutas, Ogum (guerra) e Exu (magia) são particularmente invocados. A violência e o assassinato são dele, mas nunca praticados gratuitamente. Positivamente, é um herói civilizador, inventor da metalurgia e da técnica. Sete é o seu número, sendo seu emblema uma penca de sete ferramentas em miniatura. É o transformador da madeira em objeto úteis. As palmeiras são dele, várias cantigas o descrevem vestido de franjas do dendezeiro. Em qualquer hipótese, ele representa sempre o confronto, inclusive em níveis profundos da consciência. Guarda todos os limites, inclusive o dos cemitérios. Com relação às três cores do mundo, a Ogum cabe o vermelho (luz, energia, força). O negro será algo a ser transformado em ato, sendo visto como um possível; o branco é a luz manifesta.
Justiça está nas mãos de dois orixás, Xangô e Oxalá. O primeiro tem por símbolos o machado e a balança, sendo suas cores o vermelho e o branco. Poderoso e impulsivo, irrita-se com facilidade. Castiga tudo o que se desvia da retidão, os mentirosos, os ladrões. Seus "filhos" são enérgicos, conscientes de sua importância e de suas obrigações, com um profundo sentimento de justiça. Devem agir com uma severidade benevolente. No Catolicismo é São Jerônimo, Moisés entre os judeus, lembrando também muito o Zeus da Mitologia grega. Ligado ao trovão, ao raio, ao fogo. O touro é dele enquanto representa poder fecundante (chifres), virilidade, coragem e ferocidade. As pedreiras são dele, como também o são as "pedras de raio" (meteoritos), com as quais se fazia o seu machado de duas lâminas opostas (o "labrys" cretense). A grande parceira de Xangô é Iansã, podendo ele unir-se também a Oxum, Obá e mesmo Yemanjá.

OXUMARÉ
Oxalá (Cristo), o branco e o dourado são dele como as cores dos começos; dono da sabedoria que a velhice deve dar. Símbolos: o olho, a pomba e o bastão. Reina sobre o céu como envoltório da Terra; é luz, tranquilidade. Orixá criador, gera os seres no plano físico ou espiritual, Sua fecundidade se dá pelo som. É o Verbo, tendo outros símbolos o cajado, o opaxoró (cetro do mistério) e o asum, barra de metal com sinos. Deus da brancura na qual se incluem todas as cores. A vida e a morte se abrigam sob o seu pálio, sendo uma imagem da totalidade. O dia de Oxalá é a sexta-feira. O inhame é dele, comido, nas suas festas, com o ebô, feito de farinha de milho branco, sem sal, ao qual, às vezes se acrescenta feijão-fradinho torrado e azeite de dendê; é o prato votivo de Oxalá, também de Iemanjá (com azeite de oliveira ou mel) e de Oxumaré (com coco). O caracol comestível é o seu alimento preferido. Orixá de todas as potencialidades tornadas concretas, Oxalá preside à criação dos seres, dos ritos de iniciação e dos ritos que visam ao renascimento dos adeptos. Enquanto Exu é a transformação, a dinâmica da vida, Oxalá é a origem, a criação, a totalidade.
Oxossi recebeu o domínio das matas, tendo a ver com os animais selvagens e com a caça. São dele também todas as técnicas, cabendo-lhe inclusive a caça às almas que se desgarram. Aparece sob os traços de São Jorge, como Ogum. Fazendo parte do grupo d

Omolu é o orixá dos males, das enfermidades. Sua figura e seus ritos estão rodeados de mistério. A simples menção de seu

Oxumaré e o arco-íris, grande serpente que envolve a terra e o céu, garantindo a unidade do cosmos e a sua constante renovação. Tira a água da terra, levando-a para o céu, de onde voltará sob a forma de chuva. Participando da água (terra) e da luz (céu), é um orixá duplo, representando a união dos contrários. É uma serpente mítica, forma que toma para viver nas florestas, durante metade do ano. Na outra metade, vive como uma bela jovem, ninfa de rios e de lagoas. Sua dança, para muitos, é a mais bela do Candomblé.
Bará é o mais humano dos orixás, dinâmico, jovial, oscila entre o bem e o mal. É o guardião dos templos, das casas e das cidades, sendo o intermediário entre os homens e as divindades. A ele devem ser feitas oferendas antes do início de qualquer trabalho para que abra os caminhos. Conforme o tratamento que recebe, abre ou fecha, isto é, facilita ou complica. Seu símbolo é a chave, sua cor é o roxo, associado no Catolicismo ora a São Pedro, ora a Santo Antônio.
O mais complexo e incompreendido dos orixás é Exu, o portador da força que permeia todos os aspectos e estados da existência. Alguns não o vêem como orixá, mas como a personificação do princípio da transformação, participando de tudo o que existe. Como tal,

As entidades femininas são designadas pelo nome genérico de Aibás, Rainhas, simbolizadas por uma cabaça com um pássaro no seu interior, simbolizando o ventre fecundado, sendo elas as donas do mistério da gestação. Os humanos costumam chamar os orixás de Baba mi (meu pai) ou de Iyá mi (minha mãe). No processo de individuação, o orixá é um eledá, o agente dessa individualidade, entendido que o ser humano provém da mesma substância de que são feitos os orixás. Cada ser humano tem, portanto, uma origem divina, e por isto está ligado à divindade. A parte mais importante do corpo é a cabeça (ori), lugar da individualidade. No nível do transcendente, todo ser humano tem um duplo espiritual que lhe é correspondente. O ser humano reside sempre em dois planos, no concreto e no espiritual.
Quando nascemos, opera-se uma síntese entre o individual e o coletivo. A substância divina (ipori) em nós concretiza a nossa filiação a uma entidade específica (eledá). A cabeça, intercessão dos pontos cardeais, é, pois, o ponto de encontro entre as forças sagradas e as nossas possibilidades de realização pessoal. Cada ser humano se expressará assim de um modo único na rede de relações que se chama vida. Somos um feixe de linhas

No Candomblé, o mundo invisível e o mundo visível não estão completamente separados, há um fio a ligá-los. Este fio é representado pelas cerimônias. Para alguém adquirir o direito de servir de elo entre os orixás e o mundo visível há um longo processo de iniciação (abiã), com inúmeras etapas.
Terreiro é a designação da Casa do Candomblé, local onde se situa um templo para o culto dos orixás. É concebido como uma miniatura da África, sendo uma organização sócio-religiosa, com suas próprias leis e estruturas. De um modo geral, em todos, em que pesem as diferenças, três itens devem ser obedecidos rigorosamente: 1) observar o respeito; 2) ter preceito; 3) guardar segredo. O respeito equilibra os membros do egbé (a coletividade do terreiro), assegurando as relações entre os participantes e o orixá; o preceito conserva o axé, para que o caminho possa ser seguido; o segredo é a chave da sabedoria e do poder, pois onde não há segredo não há poder.
Do ponto de vista político, o babalorixá ou a ialorixá representam o orixá na terra, mantendo um poder que é uma síntese das funções e dos papéis que exerce: centralização do poder, administração, terapia corporal e psicológica, aconselhamento, sacerd

Filha-de-santo nos candomblés de rito nagô é a sacerdotisa preparada para fazer às vezes de suporte físico à descida dos orixás (na Umbanda, médium feminino que em transe faz suporte à encarnação das entidades, divindades ou espíritos, da casa. Dá-se o nome de ebome ao filho, ou, mais frequentemente, à filha-de-santo que atinge sete anos de iniciação, podendo, por isso, receber o decá e tornar-se ialorixá de seu próprio terreiro.