![]() |
ALQUIMISTAS |
Apesar dos grandes trabalhos (Hegel, Freud, Jung, Castoriadis, Klein, enciclopédias etc.) que a abordam direta ou indiretamente, mais ou menos profundamente, a Sublimatio, do elemento ar, muito relacionada com as as Artes e a Psicologia, tem as suas raízes fincadas na antiga Alquimia, como uma das suas principais operações, ao lado da Calcinação (Calcinatio-Fogo), da Coagulação (Coagulatio-Terra) e da Dissolução (Solutio-Água)), encontrando-se na Astrologia os melhores desdobramentos práticos de todas estas operações.
No plano humano, a dominante terra tende invariavelmente a se expressar horizontalmente. Seus símbolos traduzem essa tendência, sempre ideias de ocupação do espaço, de peso, de densidade, de construtividade, de segurança, de algo firme, fundamental, básico. Já a dominante ar trabalhará naturalmente com ideias de elevação, de ascensão, de transcendência. A sublimatio representa o estado gasoso, fluido, impalpável, leve, volátil, que tende sempre para a difusão, para a expansão ilimitada em espaços cada vez maiores.
![]() |
MUTUS LIBER |
Participam do ar, como qualidades primitivas, o úmido e o quente, como se viu. O quente tem relação com energia, atividade, vivacidade, iniciativa, imediatismo, expansão. Pela contribuição do úmido, os sentimentos tendem a se impor ao intelecto, provocando instabilidade, impressionabilidade, caprichos, espontaneidade, versatilidade, difusão, elevação, mudança. O elemento ar, como se constata, é formado por duas qualidades primitivas que se opõem, apresentando, por isso, conceitualmente, por princípio, uma contradição assim expressa: ao mesmo tempo que receptivo, o ar busca sempre uma expansão. É por causa dessa contradição que os tipos humanos, principalmente naqueles em que o quente predomina sobre o úmido, encontram muita dificuldade para dar forma ao que experimentam e sentem.
Nas combinações em que o quente predomina notavelmente sobre o úmido estamos sempre em presença de uma poderosa tendência expansiva das impressões recebidas. Com a predominância do quente, as percepções (úmido), por mínimas que sejam, procuram sempre uma forma expansiva, principalmente através de relacionamentos, de conexões.
![]() |
GÊMEOS LIBRA AQUÁRIO |
Na Astrologia, os signos de ar (Gêmeos, Libra e Aquário) representam as três grandes etapas dos inter-relacionamentos humanos. O primeiro é o signo dos relacionamentos informais, acidentais, causais; o segundo tem a ver com os relacionamentos íntimos, com as associações formais, legais; o terceiro se relaciona com amizades, com ideais comunitários, com companheirismo, ligações que se estabelecem por livre e espontânea vontade. Como grandes faltas ou deficiências atribuídas a esses signos temos: indecisão, adaptabilidade, dualidade, volubilidade, dispersão, excessivo alheamento, teorização exagerada etc. Negativamente ainda, a dominante ar aponta para grandes dificuldades com os elementos terra (vida material) e água (sentimentos e emoções).
![]() |
SCHUMANN |
![]() |
AQUÁRIO |
As melhores expressões aquarianas aparecem quando o esforço individual se integra ao social, isto é, quando o aquariano se dedica a uma causa como um servidor da humanidade, através de reformas, inovações ou revoluções. Não nos esqueçamos que o lema da revolução francesa de 1789 é de clara inspiração aquariana: liberdade, igualdade, fraternidade.
Quando o úmido prevalece sobre o quente, a disposição de se dar alguma coesão às impressões recebidas sempre aumenta. Isto se deve ao fato de o volume de impressões recebidas se sempre muito significativo, incessante, muitas vezes; fica difícil lhes dar uma unidade, coesão, um sentido. Daí, nessa combinação, nas suas expressões mais malogradas, sempre presente a ameaça de um constante jogo de harmonizações, de um interminável balanceamento das impressões recebidas. É por essa razão que o signo de Libra, apesar de masculino, tem fortes traços femininos.
É notória, nos exemplos que estamos expondo, a tendência que o tipo médio libriano apresenta no sentido de se inclinar alternadamente para a espontaneidade, para o receio, para o abandono, pelo recuo diante da vida, para um dar-se e um recolher-se, comportamentos que acabam por caracterizá-lo como um indeciso, um ser muitas vezes incapaz de tomar decisões.
A sentimentalidade desse libriano médio costuma tomar dois caminhos. Quando extrovertida (venusiana), temos ideias de disposição simpática, vontade de estabelecer uma rede de laços e afeições com o mundo, de dar livre curso à generosidade dos seus impulsos. Quando introvertida (saturnizada), a disposição sentimental costuma se concentrar numa única pessoa. Isto torna evidentemente o libriano muito mais frágil, inquieto, temeroso e inquieto, pelo medo de perdas afetivas, que, ocorrendo, podem precipitar verdadeiras tragédias. Neste caso, o libriano costuma se mostrar muito reservado, aparentemente tranquilo. Visto mais de perto, conhecendo-o um pouco mais profundamente, não será difícil perceber essa aparência em termos de uma sensibilidade dolorosa que encobre geralmente paixões agudas.
![]() |
LAMARTINE |
![]() |
COCTEAU, 1916 ,MODIGLIANI |
Em Gêmeos, como se sabe, há o predomínio do quente sobre o úmido, com contribuição do seco. As impressões (úmido) ganham não só dinâmica (quente) como alguma expressão concreta (seco). É isto que traz um desejo constante de variação ao tipo básico do signo. Para ilustrar o que aqui se coloca, podemos nos voltar, na literatura, dentre outras, para duas personalidades muito significativas: Jean-Paul Sartre e Jean Cocteau.
![]() |
SARTRE |
Dentre as histórias mais emblemáticas da sublimatio alquímica, a de Jacob, o ultimo patriarca judeu, filho de Isaac, neto de Abraão, é uma das mais representativas. Jacob é o adepto a ser despertado do seu sono, da sua inércia (lembre-se da prancha de abertura do Mutus Liber). Ele sonhou com uma escada que ligava a terra ao céu, uma escada de setenta e dois degraus (lembre-se também das especulações astrológicas que fizemos sobre este número), por onde transitavam continuamente os anjos, unindo os dois planos, o terrestre e o celeste.
![]() |
ABADIA DE SAINT NICOLAS-LES-CÎTEAUX À CÔTE D'OR, DIJON, BOURGOGNE |
A escada, como sabemos, é símbolo de ascensão progressiva e de valorização, representando a passagem de um nível de existência a outro, um itinerário espiritual comportando diversos estados de consciência figurados pelos degraus, lembrando ascensão de um mundo material (da base, terra) à espiritualidade (ao topo, céu). A escada sempre simbolizou, em todas as tradições, um ideal de elevação. Como exemplo, cito os mosteiros cistercienses (fundados no séc. XII) que, na Europa medieval, eram chamados de “escadas de Deus” (Scalae Dei).
Empresas aéreas, publicitários e empresas de viagem também usam bastante o tema da sublimação. A proposta é a de transformar o homem comum, preso a um quotidiano desinteressante, massacrante, alienante, nas grandes cidades, pelo breve período de suas férias, numa ilha, de preferência, num ser “olímpico”.
![]() |
PERSPECTIVISMO |
É destas ideias que sai a chamada Hermenêutica (etimologicamente, do deus Hermes e do verbo grego hermeneuein, interpretar), a arte de interpretar signos, sinais. A hermenêutica é uma reflexão filosófica sobre os signos, os discursos humanos em geral e por extensão dos mitos, das religiões e das mais variadas formas de expressão. A hermenêutica é uma noção central da filosofia moderna, de modo especial da fenomenologia existencial. Uma das técnicas hermenêuticas mais conhecidas é a Hiponoia (etimologicamente, sentido subjacente, significado oculto), muito usada para a interpretação dos mitos.
![]() |
SAN JUAN |
Na psicanálise, a sublimação designa a transformação de tendências ou instintos inferiores em sentimentos superiores e elevados. Por exemplo, as tendências sexuais podem ser sublimadas em tendências estéticas ou religiosas (veja a obra de San Juan de La Cruz e de Santa Teresa de Ávila). A sublimação lida com sentimentos brutos, com pulsões extremamente primitivas e negativas, com ideias de que se esses sentimentos prevaleçam, pode nos rebaixar como seres humanos.
A grande meta da sublimação é o céu, que é elevado, infinito, inacessível, transcendente, como lugar de manifestações inesgotáveis. Em todas as tradições, o céu sempre foi colocado acima da Lua. É no mundo sublunar que vivem os seres humanos e tudo o que está sujeito à transformação, ao devenir e à morte. Acima da Lua fica o céu dos deuses, a região etérica, dos seres que se alimentam de luz, eternos. Lembremos que morrer, nas religiões patriarcais, é “ir para o céu.”
![]() |
PARACELSO |
É no capítulo das mortificações e na sua variante, a crucificação ( que estudamos também, por exemplo, expressões comportamentais dolorosas tipificadas pelo complexo de Héstia ou por temas como os de autopiedade, de autocomiseração, de autoflagelação, de sadomasoquismo e de sacrifícios de toda a espécie, além de muitos casos que na Astrologia costumam aparecer por quincúncios (aspectos de 150º).
Há um número, o 40, cujo simbolismo se liga à putrefactio. O número significa tanto o fim de um ciclo como a passagem a um outro modo de ação, de vida. Na maioria das tradições religiosas, só quando decorridos quarenta dias da sua morte uma pessoa pode ser considerada realmente morta. É a chamada quarentena, que, uma vez terminada, determina o momento da realização dos ritos mortuários (desaparecimento da carne e limpeza dos ossos para colocá-los num lugar definitivo) e de purificação dos parentes do defunto.
O número 40 caracteriza também, nas tradições religiosas, as intervenções sucessivas de Deus que determinam a mudança de ciclos. O dilúvio, que precede a aliança com Noé, durou quarenta dias. Moisés passou quarenta dias conversando com Deus no Sinai. Jesus passou quarenta dias no deserto, submetido às tentações diabólicas. Ele se mostrou aos seus discípulos por quarenta dias, tempo que antecedeu a sua ascensão.
![]() |
ECKHART |
A conquista de uma vida consciente é produto de uma separatio constante. A construção de um eu consciente não é algo que se realize de uma vez para sempre. Nossa consciência está permanentemente ameaçada de dissolução, por ataques internos e externos: conteúdos inconscientes que vão se coagulando e que impedem que nossa consciência se realize em toda a sua plenitude.
Símbolos da separatio: espadas, lâminas, facas, tudo que corta é tema da separação alquímica. O maior símbolo (instrumento) da separatio é, todavia, a língua, que tem a forma de uma lamina que corta pelos dois lados. Filosófica e psicologicamente, falar é separar (relação entre Logos e Separatio). Ou seja, nomear é separar, dar nomes é sair da indeterminação. A Alquimia nos permite entender claramente que os que não sabem nomear vivem mergulhados numa solutio permanente. Os sufixos lys e lit nos remetem a ideias de separação, de afastamento: análise (separação pela palavra), ansiolítico (separação da ansiedade). Falar, discriminar, é saber separar, classificar, categorizar, diferenciar. Se não nos separamos, não temos opinião própria. Desde a criação do chamado cyber espaço, tudo foi posto em comum, tudo passou a ser transmitido em tempo real. Por esse processo de globalização, entramos numa solutio cósmica. Difícil, hoje, trabalhar no sentido contrário, inclusive no campo da arte. Na Astrologia, lembremos, o signo da separatio é Virgo.
A malhação e a moagem se ligam evidentemente a conceitos de purificação e de sublimação, como operações que procuram alterar a organização da matéria na forma em que se encontra. Malhar era, basicamente, na metalurgia, bater o metal aquecido para torná-lo mais flexível e, assim, ir se lhe impondo uma forma desejada. Já na atividade agrícola malhar é processo pelo qual se separam os cereais da espiga, debulhar. Figuradamente, malhar, como se sabe, é surrar, espancar.
![]() |
HEFESTO |
O malho (martelo) é um atributo do deus Hefesto e da iniciação cabírica (metalurgia), sendo um emblema da atividade demiúrgica. Simbolicamente, em muitas tradições esotéricas, era com ele que o mestre modelava o noviço. Demiurgo quer dizer construtor, artífice. Todo o trabalho psicoterapêutico (relação médico-paciente), com as suas várias técnicas, está incluído figuradamente na noção de malhação e de moagem do nosso psiquismo.
A malhação adelgaça, torna mais leve, mais delgado, mais leve e mais flexível o que era denso e pesado. A malhação e a moagem estão ligadas ao abrandamento do material, à transformação do grosso em fino. Sem a sovação (malhação), por exemplo, o pão não fica bom. Já moer (britar, triturar, esmigalhar) é transformar em pequenos fragmentos, técnica que sob o nome de análise foi parar nos consultórios de psicologia analítica. Analisar, neste sentido, é moer, fragmentar, reduzir a pedacinhos para enfraquecer o todo. Tudo dependerá, é claro, de como usamos o “martelo”. O que sobra da malhação é o fino, o residual, o pó, que equivale na alquimia às cinzas, aquilo que vem depois do que foi queimado, malhado, triturado. As cinzas significam sempre o ponto de partida para uma reorganização futura. As cinzas simbolizam a renúncia a uma vida anterior. É por essa razão que os penitentes, os romeiros, esfregam cinzas no seu corpo, um símbolo de renúncia às vaidades, abandono do material. O pó tem um valor residual, lembra semente, o pólen, e, como tal, é ponto de partida para a conquista de novas formas. Misturando-se o pó à água, está criada a possibilidade da obtenção de uma nova forma. Como variante da malhação, temos, por exemplo, a esfoliação, outro processo alquímico de purificação. Esfoliar é transformar em folhas, laminar, técnica que simbolicamente significa retirar os excessos, comprimir, no fundo, um processo de limpeza.