Aristóteles afirmava que tudo aquilo que acontece a uma pessoa é uma paixão, diferente da ação. A primeira tem sempre

Um sentido normalmente atribuído à palavra paixão é o de sofrimento. Paixão vem de “pathos”, sofrimento, em grego. É sempre um fenômeno afetivo e intelectual muito poderoso que pode dominar a vida como um todo pela intensidade dos seus efeitos ou pela permanência de sua ação. Por isso, no amor, quando este sentimento aparece, ele costuma se tornar dominante, obsedante. Tumultuosas, veementes, incontroláveis, violentas são, dentre outros, adjetivos que usamos para falar das paixões.
O ciúme, como fenômeno

O ciúme, mais ainda, é um estado emocional complexo que se traduz por um sentimento penoso provocado por alguém ou por algo de que se pretende um amor exclusivo ou posse única. Receio, pavor, temor, desconfiança, tortura costumam se insinuar quando surge o medo da perda. Ou, então, sensação muito desagradável que experimentamos quando vemos algum possuir o que já possuímos.
Dos tormentos da alma, o ciúme talvez seja o mais avassalador. E isto porque ele não existe sem o querer, sem o gostar, sem o amar. Talvez ainda porque ele apareça sempre associado a outras emoções destrutivas como a dúvida, a angústia, a desconfiança, a mágoa, a solidão, o desamparo, o medo, a rejeição, a inveja, a paranoia, a necessidade de afirmação pessoal, a autodefesa, o amor próprio etc. Haverá alguém imune ao ciúme?
Inah foi a primeira n


Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor,
Nos braços de outro qualquer.
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
E por ele quase morrer?
E depois encontrá-lo em um braço
E nem um pedaço do meu pode ser
Há pessoas com nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, amizade, despeito ou horror
Eu só sei que quando eu a vejo
Me dá um desejo de morte e de dor.
Muito parecido com o ciúme é a inveja. Nos dicionários passam por sinônimos. Inveja vem do verbo latino invidere, olhar de modo malévolo, mau olhado, o famoso malòcchio dos italianos. No caso da inveja, o olho se transforma num emissor da energia que está nos sentimentos ruins que experimentamos porque o outro possui alguma coisa que desejamos ou passamos a desejar quando o vemos com ela (ele) e nós não. Este mau olhado recebeu dos italianos o nome de gettatura, do verbo gettare, arremessar, lançar longe.
Já os gregos antigos chamavam a inveja de phtonos, com o sentido de mágoa, dor, uma sensação muito desagradável produzida pela felicidade merecida ou não de alguém da qual não participamos. Phtonos era alegorizada sob a forma de um demônio, um espírito maléfico, que vivia em companhia de muitos outros, no Hades (Bosque de Perséfone), o inferno grego.
Dzelos era o nome que os gregos davam a um ciúme especial. Quando este tipo de ciúme se instalava chamavam-no de dzelotymia. Nesta palavra, junta-se o termo tymia a zelos, a primeira tendo relação com afetividade, emoção (a glândula timo representa em muitas tradições a sede da vida afetiva; corresponde, por exemplo, no Yoga ao chacra anahata). Dzelos era, pois, para os gregos, uma espécie de ciúme positivo, uma inveja saudável, ao levar aquele que a experimentava a tentar se igualar a alguém ou a superá-lo, uma forma de emulação. Uma competição sadia sem sentimentos baixos, sem falsidade. Seria uma forma de cuidado diligente, vigilante, precavido, cauteloso aplicado a um desempenho emulador.
De dzelos saiu negativamente a palavra zelote: aquele que finge ter zelo, que simula comportamento zeloso, falso. A palavra adquiriu também o significado de fanático. O ciúme negativo, a inveja, o mau olhado e todos os demais sentimentos ruins eram designados pela palavra phtonos. Tutelava estes sentimentos o demônio da Invidia dos romanos, um espectro feminino representado com serpentes na cabeça ao invés de cabelos, de olhos vesgos, magérrima, com um réptil roendo-lhe o coração.
É na literatura,

OTELO E DESDÊMONA
Corneille (séc. XVII), dramaturgo 

Qualquer que seja o ângulo pelo qual o examinemos, o ciúme é sempre um sentimento intenso, hostil, sombrio, que se pode experimentar também quando se vê alguém se aproveitar de algo que não possuímos ou que desejaríamos possuir com exclusividade. Ou, ainda, inquietação que nos toma quando temos de abrir mão de algo que muito prezamos ou estimamos em proveito de outra pessoa.
BALZAC
Balzac, seguindo os gregos, dizia que o ciúme e a inveja se transformavam em emulação nas pessoas superiores; nos inferiores, se transformava em ódio.

Psicólogos, espíritas,


Uma das visões mais lúcidas do tema está na que Astrologia conscientemente praticada oferece. É no eixo Touro-Escorpião,


No caso de Touro, do elemento terra, o ciúme se liga invariavelmente a um desejo de posse material do ser ou do objeto amado, algo sempre traduzido fisicamente no sentido agarrar, de reter, de conservar, de empalmar, de tocar. Qualquer ameaça a este desejo de posse, sobre o qual repousa em grande parte a segurança física e psíquica do taurino, o ciúme, latente sempre, acaba se mostrando.

Já quanto ao escorpiano (elemento água), a segurança está ligada ao emocional. Costumam os escorpianos viver a sua



Roland Barthes, semiólogo francês, em “Fragmentos de um discurso amoroso”, disse, tentando colocar o ciumento contra a parede: como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.
A Bíblia é um dos maiores repositórios de exemplos das paixões humanas: o ciúme de Caim; o de Sara, que induziu Abraão a expulsar Agar

O ciúme e a inveja costumam andar juntos com o ódio, já diziam os gregos. E completam: acompanha-os, de longe, o Arrependimento, sob a figura de uma mulher de luto, com as roupas esfarrapadas, os olhos lavados de lágrimas, em desespero, a procurar com os olhos a Verdade. Uma das melhores ilustrações deste entendimento dos gregos nos foi deixada pelo pintor Apeles (séc. IV aC), amigo e retratista de Alexandre Magno.
No mundo grego, quem melhor falou sobre o sentimento humano foi Eurípedes, conhecido pelo apelido de “pintor das paixões”, nas suas tragédias, com os seus personagens femininos, dentre os quais se destaca Medeia. Transtornada pela traição de Jasão, ela se vinga, assassinando o rei Creonte, sua filha Creusa e os próprios dois filhos: nada morderá mais rijo o coração de meu marido.

Não é de estranhar, por exemplo, que no nosso Brasil colonial algumas enciumadas sinhás (tratamento que as escravas davam às patroas) mandassem quebrar os dentes das “negrinhas roliças” ou, então, que mandassem cortar seus seios para servi-los, assados e temperados, aos maridos. Uma dessas piedosas senhoras, irritada com os elogios que seu marido fizera aos olhos de uma “mulatinha” os serviu em calda, como sobremesa. Por aí, vemos que Peter Greenway não exagerou quando mostrou em seu filme O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante o marido servindo à esposa o amante morto, temperado e enfeitado numa cerimônia cheia de requinte.
O COZINHEIRO, O LADRÃO, SUA MULHER E O AMANTE
O cinema, aliás, é pródigo em filmes sobre o ciúme. Um deles, por exemplo, é Carmem, baseado no romance de Prosper de

A poesia luso-brasileira guarda preciosidades sobre o tema. De Castro Alves:

Nas ruínas desta alma a raiva geme.
E cresce o cardo – a morte
Ciúme! Dor! Sarcasmo! Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria.
Um dos maiores textos sobre o ciúme é, sem dúvida, o pequeno poema Cidra, Ciúme, de Soror Maria do Céu (1658-1753), esquecida autora do Barroco português, também atingida pela insidiosa paixão:
É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-lhe um centro de amor o apelido,
Que o ciúme é amor mas mal sofrido,
Troquem, pois, os amantes, e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.
Até em obras

Nada melhor, porém, entre nós, do que o encontrado em doutos tratados que sobre o tema se produzem, como o samba brasileiro para nos falar sobre o ciúme. O patrono dessa produção é, par droît de conquête, o eterno Lupicínio Rodrigues, imbatível no gênero. É nesse espaço da cultura popular que encontramos obras em que se fixaram expressões como “dor de cotovelo” e “dor de corno”, e conceitos como o de “cornitude” (gênero lítero-musical), todos a discorrer sobre os males das paixões.
É de Caetano Veloso um dos clássicos no gênero, Dor de Cotovelo. Seus primeiros versos nos dizem:

O ciúme dói nos cotovelos
Na raiz dos cabelos
Gela a sola dos pés
Faz os músculos ficarem moles
E o estômago vão
E sem fome
Dói da flor da pele ao pó do osso
Rói do cóccix até o pescoço.
Para terminar, do grande mestre Lupicínio Rodrigues, Vingança, que bem poderia passar por uma homenagem a Medeia (fig. abaixo, Mucha, Praha), a fada-madrinha de todos os que mataram, matam e matarão por paixão:
Eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram chorando , bebendo,
Na mesa de um bar
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz
Não lhe deixou falar
Ai, mas eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que tive mesmo que fazer esforço
Pra ninguém notar
Mas enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aso santos clamar
Você há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar.