À MARGEM DO AMOR CORTÊS
Parece estar hoje suficientemente provado que o século XII marcou, na Provença, o apogeu do
trovadorismo e do amor cortês graças, em grande parte, à poderosa ação que a Igreja desenvolveu sobre a sociedade feudal a partir dos fins do século X. Com efeito, deixando de lado as implicações secundárias, veremos que a princípio tal ação significou, por um lado, o reforço do poder espiritual sobre o temporal e, por outro, contribuiu para que fossem revigoradas as estruturas que os próprios senhores ameaçavam destruir à custa de guerras e disputas entre si.
Num outro plano, ver-se-á que esta influência da Igreja veio introduzir um novo elemento nos quadros da época — o importantíssimo papel que a mulher passará a desempenhar — elemento que se liga íntima e diretamente ao trovadorismo e ao amor cortês, e dá margem, inclusive, ao aparecimento de uma instituição sui generis, as Cours d'Amour, assembleias femininas que legislaram sobre a matéria amorosa, rediscutiram a galanteria e consagraram o adultério.
Extensa literatura já foi publicada sobre o assunto de
sde os autores que lhe são contemporâneos ou que dele estão muito próximos até os que, não o estando, puderam, contudo através de um paciente trabalho de pesquisa, levantar o véu que escondia este suposto período de trevas. Temos assim os romances de Chrétien de Troyes, as poesias de Bernard de Ventadour, o catecismo do amor cortês, De Arte Amandi, do célebre André Le Chapelain, as informações de Jehan de Nostredame, irmão do famoso astrólogo Nostradamus, Stendhal, entre as fontes mais antigas, e Gaston Paris, Marc Bloch, Faral, Gustave Cohen, Belperron, A. Jeanroy como os estudiosos modernos.
O fato é que, examinados os documentos, confirmados uns, desprezados outros, com uma descoberta sensacional de quando em vez, como é o caso de De Arte Amandi, que só saiu do pó recentemente, não cabe dúvida que no século XII a mulher ganha o primeiro plano na sociedade feudal e, dos meados desse século em diante, tornar-se-á a inspiração dos trovadores e o ídolo dos cavaleiros, ideal divinizado que a todos domina e a quem se há de prestar obediência e respeito.
A mulher até esse século ocupara uma posição social bastante inferior, sob o jugo férreo do macho, que a mantinha encerrada no âmbito familiar, onde não havia lugar para outras manifestações poéticas senão as das canções de gesta, do período heroico da cavalaria, eivadas de violência e brutalidade. Nada mais coerente, todavia, se considerarmos que o casamento até então se resumia a um contrato do qual a mulher não participava, acerto entre senhores, que dispunham livremente seu corpo e da sua vontade.
Ainda que se vislumbrassem algumas alterações, a atitude da Igreja era severíssima com relação às mulheres: “soberana peste”, “porta do inferno”, “arma do diabo”, “sentinela avançada do inferno”, são nomes pelos quais, dentre muitos outros, os padres da Igreja as designavam. O mesmo se poderá dizer dos trovadores (Guillaume IX, Jaufré Rudel, por exemplo) que ainda no século XII as tratavam com grosseria e insolência tais que nos espantamos hoje do vocabulário empregado. Mas, justiça seja feita, o próprio Guillaume IX, o debochado e excomungado duque da Aquitânia, já no segundo grupo das suas canções mostra-nos que também podia haver decência e correção, embora as suas pretensões estivessem bem longe do amor platônico e casto que a cortesia impunha.
Com o correr do tempo, a Igreja começou, pois, a intervir no sentido de tolher os abusos dos senhores feudais, cujo comportamento não só contrariava os preceitos do Cristianismo como também os levaria à própria destruição. Isto porque, durante boa parte da Idade Média o direito de guerra privada foi considerado como inviolável pelo poder civil e pela mentalidade em geral. A paz, entre esses senhores, oferecia dificuldades cada vez maiores para ser concretizada. Urgia, assim, que se tomassem medidas práticas, leis, rituais, ameaças com o inferno, condenações, tudo no sentido de assegurá-la. É certo que a primeira tentativa já se fizera, com o Concílio de Charroux, em 989, quando a Igreja lançou o seu anátema contra aqueles que entrassem à força numa igreja e dela levassem algo, contra os fortes que atacassem os fracos, contra o roubo, contra a violência e contra a rapinagem.
Como se vê, eram noções novas, que o mundo pagão não conhecera, interdições nem sempre respeitadas, mas sempre válidas para impor sanções aos que transgredissem na medida em que o poder espiritual se consolidava. Em 1023, o Bispo de Beauvais obtém do Rei Roberto, o Piedoso, um juramento pelo qual não mais se maltratariam as mulheres, os padres e as crianças nem mais seriam violadas as casas dos camponeses e as igrejas. O concílio de Perpignan (Elna), a seguir, renova tais proibições e, em 1095, Urbano II, ao passar por Clermont, ratifica-as e impõe o fracionamento das guerras, de modo a reduzi-las no tempo.
Contudo, a situação carecia de medidas ainda mais práticas e eficazes. E a Igreja as toma, envolvendo a Cavalaria e encaminhando-a a uma ação além-fronteiras. Assim é que esta instituição, talvez a mais característica da Idade Média, transforma-se, aos poucos, democratiza-se, pois mesmo aqueles em condição socialmente inferior, servos, vassalos, podiam chegar até ela. Nul ne naît chevalier, Le moyen d' être anobli sans lettres est d'être fait chevalier, são máximas correntes na época.
Foi então que a Igreja mostrou à nobreza o caminho do Oriente: acabar com os infiéis e libertar o túmulo de Cristo. Vieram as Cruzadas, que, se não obtiveram o resultado almejado, contribuíram enormemente para impulsionar o comércio, tanto por terra como por mar, transformando a vida dos senhores feudais. As relações se intensificam, expedições e caravanas chegam à Síria, à Palestina, à África do Norte e até ao Mar Negro. Era o tempo das grandes feiras: Champagne, Brie, Ile-de-France. As estradas e os portos se animam; a influência oriental não tarda a chegar, a luz asiática banha a Europa e lhe faz conhecer a vertigem do tráfico, os tecidos preciosos, os perfumes violentos, os costumes suntuosos. Acima de tudo, multiplica-se o gosto do risco e da aventura, a ânsia de movimento, que, na Idade Média, coexiste de modo chocante com o mais forte e profundo apego à terra.
Temos assim o quadro esboçado: reabilitada pela Igreja, responsável pela vida material do castelo, já que o homem estava longe, ent
regue a grandes empreendimentos religiosos e comerciais, a mulher adquire importância. Eis como o historiador Faral nos informa sobre o fato: a prosperidade material, acompanhada de uma nova cultura, tinha desenvolvido nas cortes, desde o fim do século XI, uma forma de vida social onde o luxo, as festas e os jogos de espírito exigiam naturalmente a participação das mulheres. O exemplo veio, parece, do Midi: ele se propagou para o norte graças às expedições militares empreendidas em comum e graças às alianças matrimoniais.
A mulher conquista então
na sociedade um lugar cada vez mais proeminente e respeitado. O homem se apercebeu instintivamente de que a mulher não mais poderia ser somente conquistada pelo direito da força; que ele a obteria muitas vezes pelo seu mérito, em se fazendo valer; que ele devia agradar; que ele devia professar um respeito que lhe abrisse os caminhos do coração. Eis nascida a noção, eis nascido o sentimento que se chamará amor cortês: uma mística nova, uma exaltação de alma que, pelo amor à mulher, não tem outro sonho senão o de atingir as perfeições da virtude cavalheiresca e da pureza do coração, pelas quais o amante merecerá sua recompensa. E eis, ao mesmo tempo, a mulher transformada em juiz".
Esta posição da mulher no século XII é que vai explicar como nasceu na Idade Média a poesia amorosa dos trovadores e porque todas as manifestações poéticas, Chansons d’ Amour, Tensons, Jeux Partis e os Romances de Chrétien de Troyes elegem o amor para tema. E mais: explicará porque trovadores e cavaleiros, num determinado momento histórico, se dirigem às mulheres para que elas, organizadas em assembleias, as Cours d'Amour, decidam e deem a última palavra sobre as questões do amor e da galanteria.
Eis, à guisa de informação, os preceitos e as regras do amor, conforme André Le Chapelain, em De Arte Amandi os apresenta, de modo a codificar não só o amor cortês mas toda a poesia trovadoresca.
Preceitos (Livro 1 — Capítulo VII) — 1) Foge da avareza como de um flagelo perigoso e pratica, ao contrário, a prodigalidade; 2) Evita sempre a mentira; 3) Não sejas maledicente; 4) Não divulgues os segredos dos amantes; 5) Não tomes muitos confidentes para o teu amor; 6) Conserva-te puro para a tua amante; 7) Não tentes conscientemente tomar a amiga de outro; 8) Não procures o amor de uma mulher, se tiveres vergonha de desposar; 9) Sê sempre atencioso a todas as ordens das mulheres; 10) Procura sempre ser digno de pertencer à cavalaria do amor; 11) Em todas as circunstâncias, mostra-te polido e cortês; 12) Entregando-te aos prazeres do amor, não ultrapasses o desejo de tua amante; 13) Quer dês ou recebas os prazeres do amor, observa sempre um certo pudor.
ARLETY E ALAIN CUNY - LES VISITEURS DU SOIR - MARCEL CARNÉ, 1942
Regras (Livro II — Capítulo VIII) — 1) O pretexto do casamento não é uma desculpa válida para o amor; 2) Quem não é ciumento não pode amar; 3) Ninguém pode ter duas ligações ao mesmo tempo; 4) O amor deve sempre diminuir ou aumentar; 5) Não há sabor algum naquilo que o amante obtém sem o assentimento de sua amante; 6) O homem só pode amar após a puberdade; 7) Pela morte de seu amante, o sobrevivente esperará dois anos; 8) Ninguém, sem suficiente razão, deve-se privar do objeto de seu amor; 9) Ninguém pode amar verdadeiramente sem ser levado pela esperança do amor; 10) O amor deserta sempre o domicílio da avareza; 11) Não convém amar uma dama da qual ter-se-ia vergonha de fazer mulher; 12) O amante verdadeiro não deseja outros beijos que aqueles de sua amante; 13) O amor pode raramente durar quando é muito divulgado;
14) Uma conquista fácil torna o amor sem valor, uma conquista difícil dá-lhe o preço; 15) Todo amante deve empalidecer na presença de sua amante; 16) À vista súbita de sua amante, o coração de um amante deve disparar; 17) O amor novo expulsa o amor antigo; 18) Só o mérito torna digno o amor; 19) Quando o amor diminui, enfraquece depressa, e raramente refloresce; 20) O amante está sempre temeroso; 21) O verdadeiro ciúme faz sempre o amor aumentar; 22) Uma suspeita sobre sua amante, ciúme e ardor de amar aumentam; 23) Não dorme nem come aquele que paixão de amor consome; 24) Todos os atos do amante terminam no pensamento da amante; 25) O amante verdadeiro não encontra nada de bom naquilo que não agrada à sua amante; 26) O amante não saberia nada recusar à sua amante; 27) O amante não pode fartar-se dos prazeres de sua amante; 28) A menor suspeita leva o amante a imaginar o pior de sua amante; 29) Não ama verdadeiramente aquele que possui uma luxúria excessiva; 30) O amante verdadeiro está sempre absorto pela imagem constante de sua amante; 31) Nada impede a uma mulher de ser amada por dois homens; nem a um homem de ser amado por duas mulheres.
Alguns filmes relacionados com o tema acima:
Lancelot du Lac (Robert Bresson), Robin and Marion (Dick Lester), Monty Python and the Holy Grail. Les visiteurs du Soir (Marcel Carné), A Walk with Love and Death (John Huston), Silvestre (João César Monteiro), A Fonte da Donzela (Ingmar Bergman).
Ver neste mesmo blog "A Princesa Imperfeita".