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POMBA DA PAZ (PABLO PICASSO, 1881-1973) |
Em geral, as cores são símbolos afirmativos de iluminação. O branco tradicionalmente sempre foi usado para representar a luz, tornando-se por essa razão símbolo da pureza, da temperança, da verdade, da inocência, da castidade, da paz (pomba branca), da limpeza e, por extensão, do sagrado e do divino. Algumas vezes, porém, o branco pode possuir algumas conotações negativas, denotando luto, medo, covardia, rendição, esquecimento, frieza, vazio, morte (palidez da morte) conotações que, contudo, não chegam a invalidar o seu sentido positivo.
Negativamente, é certo, podemos falar que deu branco quando nos esquecemos de alguma coisa ou que levantar a bandeira branca é entregar os pontos, render-se. Em branco é expressão que designa não se haver dormido (fiquei em branco a noite toda), não haver aprendido (passei em branco todos aqueles anos de estudo) ou nada comido (saí da mesa em branco, de estômago vazio). O adjetivo branquelo é pejorativo, indicando um indivíduo de pele clara e fracote, que deixa a desejar. Ficar branco de medo é expressão que equivale a amarelar, perdera coragem.
Em várias tradições, sonhos com cavalos brancos e pressentimentos da morte aparecem unidos. Lembremos ainda que na literatura fantástica os fantasmas são representados sob formas brancas ou vestidos de branco. Uma figura importante desse mundo fantástico na tradição europeia é a famosa Dame Blanche.
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DAME BLANCHE |
Como cor da santidade, da espiritualidade, da verdade e da revelação, o branco foi usado pelos druidas, os sacerdotes celtas, e por outras classes sacerdotais, tanto no mundo cristão como não-cristão, este chamado pagão. Com idêntico sentido sagrado, o branco era usado também pelas vítimas sacrificiais.
O branco, antítese do negro, é muitas vezes considerado como uma “não-cor” porque é uma mistura perfeita de todas cores do espectro luminoso. Os antigos egípcios, por exemplo, sempre procuraram envolver os seus mortos com um grande lençol branco (cor da divindade) para mostrar que a morte livrava a alma pura do seu invólucro carnal, perecível.
É oportuno lembrar que, dentre as seis cores básicas três, o azul, o amarelo e o vermelho, são fundamentais. Três outras resultam da mistura de duas destas. O verde (azul mais amarelo), o laranja (vermelho mais amarelo) e o violeta (azul mais vermelho). A síntese destas cores nos dá o branco. Não é por acaso, aliás, que todas as cores que ocupam um lugar privilegiado no simbolismo tradicional, desde os tempo mais remotos da humanidade, tiveram sempre o mesmo significado em todos os povos.
A linguagem dessas cores, nesses povos, esteve sempre ligada ao mundo religioso, desde a antiga Índia, passando pela China, pelo Egito, pela Grécia, por Roma, alcançando a Idade Média e chegando aos tempos atuais, tudo como se pode constatar por uma análise mais cuidadosa dos Vedas, das pinturas dos templos egípcios e chineses, dos livros em zende do antigo Irã, dos vitrais das catedrais góticas envolvidos pelo branco etc.
Através dos sentimentos que nos despertam a antipatia e a simpatia dentre as muitas tonalidades de cores que esse mundo do passado nos revela, além de outras informações, é claro, podemos certamente chegar ao entendimento de como tudo isso vive magnificamente até hoje em nós.
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EOS |
A alba, um dos estágios da Obra alquímica, é chamada pelos alquimistas de albedo, antecedendo-a a escuridão, a nigredo. Na mesma sequência, depois do albedo temos citrinitas, fase que corresponde ao amarelado luminoso da luz solar, e finalmente temos rubedo, fase que corresponde à luz solar no alto do céu, o Sol a pino, ou seja, o meio-dia, fase em que as sombras desaparecem.
As imagens acima, nigredo, albedo, citrinitas e rubedo foram usadas por alguns estudiosos de símbolos para representar, respectivamente, a primeira, o caos, a ignorância, a inconsciência ou a indeterminação: a segunda, os níveis iniciais do conhecimento, início da vida consciente; a terceira, o conhecimento numa etapa mais avançada, consciências mais evoluída; e a quarta, o conhecimento pleno, a consciência total. É neste sentido que se pode entender porque a cor branca representa a passagem do inconsciente para o consciente e porque ela representa também a cor que antecede a aparição da multiplicidade. Todas estas imagens, que descrevem o caminho do Sol, como se pode ver, simbolizam o caminho da consciência.
Em quase todas as tradições mítico-religiosas, o branco simboliza a inocência do paraíso original sem nenhuma influência perturbadora. É por essa razão que em numerosas culturas vestes brancas (ou que não foram tingidas),são as roupas dos religiosos, indicando-nos elas também pureza e verdade.
Na simbólica chinesa, porque associado à palidez da morte, o branco é a cor da velhice, do outono, do oeste, da infelicidade, do luto. É nesse sentido que o branco lívido se opõe ao vermelho e que se torna a cor dos vampiros que procuram o sangue, ausente de seu corpo. Nefasto, nesse caso, o branco é a cor das mortalhas e de todos os espectros e aparições.
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KWAIDAN, MULHER DA NEVE (KWAIDAN, FILME DE KOBAYASHI) |
Nos céus, o branco do leste (oriente) é a cor do retorno, o branco das auroras, quando a abóbada celeste reaparece ainda vazia, mas rica potencialmente de manifestações. Todo o simbolismo ritual do branco decorre desta observação da natureza, do céu; foi a partir desta observação que todas as culturas humanas construíram os seus sistemas filosóficos e religiosos.
Todas estas considerações nos permitem entender que o negro, por oposição ao branco, é a cor do caos, que antecede toda existência: é o negro que dá origem ao dia, à luz, pois, como todos os mitos e religiões nos revelam, no começo tudo era escuro e silencioso. Dotado de virtudes prolíficas, deste caos, desta escuridão, num determinado momento, emergiu a claridade, a luz apareceu.
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HEMERA |
Foi a partir destas representações que os antigos gregos e celtas sempre consideraram a noite como o começo do dia (a escuridão dando origem à luz); para eles a noite simbolizava o tempo das gestações, das germinações, das conspirações, de tudo afinal que iria se manifestar quando o dia nascesse. Psicologicamente, entrar na noite é mergulhar na indeterminação; sair da noite é entrar na luz, determinar-se.
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LEUCÓCITOS |
Ainda quanto às palavras, ocorre-nos titânio, designação de produto usado na indústria química como corante para a obtenção da cor branca em tintas, papel, esmalte, cerâmica e muito mais. A propósito, lembremo-nos que, na mitologia grega, Zeus, o maior dos deuses, como símbolo da luz, venceu os titãs, no caso, aqui, como representantes do obscurecimento, da desordem, das trevas, do caos.