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sábado, 5 de junho de 2021

O BRANCO


POMBA  DA  PAZ  (PABLO PICASSO, 1881-1973)


Em geral, as cores são símbolos afirmativos de iluminação. O branco tradicionalmente sempre foi usado para representar a luz, tornando-se por essa razão símbolo da pureza, da temperança, da verdade, da inocência, da castidade, da paz (pomba branca), da limpeza e, por extensão, do sagrado e do divino. Algumas vezes, porém, o branco pode possuir algumas conotações negativas, denotando luto, medo, covardia, rendição, esquecimento, frieza, vazio, morte (palidez da morte) conotações que, contudo, não chegam a invalidar o seu sentido positivo. 

Negativamente, é certo, podemos falar que "deu branco" quando nos esquecemos de alguma coisa ou que levantar a bandeira branca é entregar os pontos, render-se. Em branco é expressão que designa não se haver dormido (fiquei em branco a noite toda), não haver aprendido (passei em branco todos aqueles anos de estudo) ou nada comido (saí da mesa em branco, de estômago vazio). O adjetivo branquelo é pejorativo, indicando um indivíduo de pele clara e fracote, que deixa a desejar. Ficar branco de medo é expressão que equivale a amarelar, perder a coragem.

Em várias tradições, sonhos com cavalos brancos e pressentimentos da morte aparecem unidos. Lembremos ainda que na literatura fantástica os fantasmas são representados sob formas brancas ou vestidos de branco. Uma figura importante desse mundo fantástico na tradição europeia é a famosa Dame Blanche.

DAME BLANCHE
A Dame Blanche é uma aparição feminina vestida de branco que pertence à classe das fadas. Em alguns países europeus ela entra sobretudo em histórias tristes, como a que nos fala de uma Dama que vivia em torno do palácio dos Bourbons, na França, aparecendo sempre que um príncipe estava para morrer. Há uma história, narrada pelo político Malesherbes, sobre a famosa Dama. Ele nos conta que Luís XVI, no dia anterior ao de sua condenação à morte, lhe perguntara se ela, a Dame Blanche, não fora vista por alguém. 

O mesmo ocorre na Alemanha. Uma tradição alemã afirma igualmente que sempre que uma mulher vestida de branco varria as salas de palácios uma infelicidade se abatia sobre a família real. Assinalemos que o tema da Dama de Branco (1825) deu origem a uma famosa ópera de mesmo nome; foi composta por Boieldieu, inspirada num tema de Walter Scott, escritor inglês.

O branco, positivamente, é a cor da iniciação, do noviciado, usada pelo neófito ou pelo candidato (candidus é palavra latina que significa branco cintilante). Candidato, na Roma antiga, era o vestido de branco que se apresentava como aspirante à glória ou à imortalidade.  Nessa condição, o branco aparece nos ritos de passagem como o batismo, a confirmação (no catolicismo, sacramento administrado por um bispo ou por delegação papal, por um padre, através do qual a graça conferida ao cristão pelo batismo é fortalecida e aperfeiçoada; ratificação do batismo, crisma), o casamento, situações em que a cor se associa a estados de pureza, luminosos e alegres. 

Como cor da santidade, da espiritualidade, da verdade e da revelação, o branco foi usado pelos druidas, os sacerdotes celtas, e por outras classes sacerdotais, tanto no mundo cristão como não-cristão, este chamado pagão. Com idêntico sentido sagrado, o branco era usado também pelas vítimas sacrificiais. 

O branco, antítese do negro, é muitas vezes considerado como uma “não-cor” porque é uma mistura perfeita de todas cores do espectro luminoso. Os antigos egípcios, por exemplo, sempre procuraram envolver os seus mortos com um grande lençol branco (cor da divindade) para mostrar que a morte livrava a alma pura do seu invólucro carnal, perecível.

Participam do simbolismo do branco como emblemas da pureza, da castidade e da virtude, a maior parte dos símbolos usados nas várias civilizações, desde a antiguidade, símbolos como o das vestimentas dos comungantes, das noivas, feitos com tecidos de linho ou dos buquês de flores de laranja que elas carregam nas mãos, dos lírios que enfeitam os recintos sagrados, de objetos feitos com marfim etc.

É oportuno lembrar que, dentre as seis cores básicas, três, o azul, o amarelo e o vermelho, são fundamentais. Três outras resultam da mistura de duas destas. O verde (azul mais amarelo), o laranja (vermelho mais amarelo) e o violeta (azul  mais vermelho). A síntese destas cores nos dá o branco. Não é por acaso, aliás, que todas as cores que ocupam um lugar privilegiado no simbolismo tradicional, desde os tempo mais remotos da  humanidade,  tiveram sempre o mesmo significado em todos os povos. 

A linguagem dessas cores, nesses povos, esteve sempre ligada ao mundo religioso, desde a antiga Índia, passando pela China, pelo Egito, pela Grécia, por Roma, alcançando a Idade Média e chegando aos tempos atuais, tudo como se pode constatar por uma análise mais cuidadosa dos Vedas, das pinturas dos templos egípcios e chineses, dos livros em zende do antigo Irã, dos vitrais das catedrais góticas envolvidos pelo branco etc.

Através dos sentimentos que nos despertam a antipatia e a simpatia dentre as muitas tonalidades de cores que esse mundo do passado nos revela, além de outras informações, é claro, podemos certamente chegar ao entendimento de como tudo isso vive magnificamente até hoje em nós.  

Nesse e noutros sentidos, a cor branca nos remete à dialética do Um e do Todo, sendo usada para designar a aparição da primeira luminosidade quando a noite deixa de ser noite. Dá-se, aliás, o nome de alba, alva, aurora, a essa primeira luz que antecede o aparecimento Sol. Alva ou alba era também o nome da comprida veste de pano branco usada pelos sacerdotes em muitas cerimônias religiosas. O mesmo nome era aplicado à túnica branca que os condenados à morte vestiam quando levados para o patíbulo.

EOS
Na mitologia hindu, é uma deusa branca que traz a aurora (claridade que aponta para o início da manhã antes do nascer do Sol) chamada Ushas ou Ahana, isto é A Iluminadora. Entre os gregos, é a deusa Eos (nome que etimologicamente significa brilhar), irmã de Hélio (O Sol) e de Selene (A Lua). Entre os romanos, a deusa tem o nome de Aurora, palavra que os antigos romanos associavam a aurum (ouro), em razão do colorido áureo do céu que antecede o nascimento do Sol. Jovem de deslumbrante beleza, de dedos cor-de-rosa, pálpebras de neve, estava encarregada de abrir todas as manhãs as portas do céu para o carro solar poder entrar.

A alba, um dos estágios da Obra alquímica, é chamada pelos alquimistas de albedo, antecedendo-a a escuridão, a nigredo. Na mesma sequência, depois do albedo temos citrinitas, fase que corresponde ao amarelado luminoso da luz solar, e finalmente temos rubedo, fase que corresponde à luz solar no alto do céu, o Sol a pino, ou seja, o meio-dia, fase em que as sombras desaparecem. 

As imagens acima, nigredo, albedo, citrinitas e rubedo foram usadas por alguns estudiosos de símbolos para representar, respectivamente: a primeira, o caos, a ignorância, a inconsciência ou a indeterminação; a segunda, os níveis iniciais do conhecimento, início da vida consciente; a terceira, o conhecimento numa etapa mais avançada, consciência mais evoluída; e a quarta, o conhecimento pleno, a consciência total. É neste sentido que se pode entender porque a cor branca representa a passagem do inconsciente para o consciente e porque ela representa também a cor que antecede a aparição da multiplicidade. Todas estas imagens, que descrevem o caminho do Sol, como se pode ver, simbolizam o caminho da consciência.

Em quase todas as tradições mítico-religiosas, o branco simboliza a inocência do paraíso original sem nenhuma influência perturbadora. É por essa razão que, em numerosas culturas, vestes brancas (ou que não foram tingidas),são as roupas dos religiosos, indicando-nos elas também pureza e verdade.

No cristianismo primitivo, aquele que ia ser batizado usava roupas brancas assim como o sacerdote que ministrava o sacramento. Eram também vestidas de branco as almas salvas do Inferno, indicando-se dessa maneira o seu estado virginal, imaculado. Na simbologia do Vaticano, a transfiguração, a glória e o caminho do céu são os valores simbólicos ligados às vestes brancas do Papa. É nessa perspectiva também que a terceira pessoa da trindade cristã, o Espírito Santo, sempre foi representada por uma pomba branca. Na antiga Grécia, lembremos, Pitágoras, criador de uma importante seita religiosa, que pregava a reencarnação e defendia o vegetarianismo, recomendava aos cantores de hinos sagrados que se vestissem de branco. 

Na simbolopgia chinesa, porque associado à palidez da morte, o branco é a cor da velhice, do outono, do oeste, da infelicidade, do luto. É nesse sentido que o branco lívido se opõe ao vermelho e que se torna a cor dos vampiros que procuram o sangue ausente de seu corpo. Nefasto neste caso, o branco é a cor das mortalhas e de todos os espectros e aparições. 


KWAIDAN, MULHER DA NEVE
(KWAIDAN, FILME DE KOBAYASHI)
De um modo geral, porém, a valorização do branco é positiva. Ele é principalmente a cor de todo aquele que busca uma iniciação. É assim atributo do candidato (cândido é o de muita alvura, como se disse), do postulante, daquele que quer ser escolhido, que quer mostrar o seu valor, elevar-se. O branco positivo entre os celtas estava reservado à classe sacerdotal, os druidas. Além deles, só o rei tinha direito às vestes brancas. 

Nos céus, o branco do leste (oriente) é a cor do retorno, o branco das auroras, quando a abóbada celeste reaparece ainda vazia, mas rica potencialmente de manifestações. Todo o simbolismo ritual do branco decorre desta observação da natureza, do céu; foi a partir desta observação que todas as culturas humanas construíram os seus sistemas filosóficos e religiosos. 

Todas estas considerações nos permitem entender que o negro, por oposição ao branco, é a cor do caos, que antecede toda existência: é o negro que dá origem ao dia, à luz, pois, como todos os mitos e religiões nos revelam, no começo tudo era escuro e silencioso. Dotado de virtudes prolíficas, deste caos, desta escuridão, num determinado momento, emergiu a claridade, a luz apareceu. 

HEMERA
Foram estas imagens que, transpostas para a psicologia, nos explicaram que o consciente (luz), emerge do inconsciente (escuridão), o verdadeiro reservatório das nossas possibilidades existenciais. Tomar consciência é, assim, tirar da escuridão. Os antigos gregos já tinha nos deixado nos seus mitos todas estas referências. Nix, a deusa da noite, das trevas de cima, e seu irmão Érebo, as trevas debaixo, infernais, camada intermediária do Hades (Inferno), unidos, deram origem a Hemera, o dia.

Foi a partir destas representações que os antigos gregos e celtas sempre consideraram a noite como o começo do dia (a escuridão dando origem à luz); para eles a noite simbolizava o tempo das gestações, das germinações, das conspirações, de tudo afinal que iria se manifestar quando o dia nascesse. Psicologicamente, entrar na noite é mergulhar na indeterminação; sair da noite é entrar na luz, determinar-se.

Para designar o branco brilhante dos cabelos dos idosos, a língua latina criou a palavra canus, de onde saiu, para nós, o verbo encanecer, sinônimo de envelhecer, tornar branco pouco a pouco, antecedido pelo verbo agrisalhar e pelo nome grisalho, que vem de gris, cor chegada ao cinza, intermediária entre o negro e o branco. 

LEUCÓCITOS
Quanto às palavras, alargando-se, assim, o nosso vocabulário, lembremos que gregos e latinos, respectivamente, com o seu branco, leukos e albus, nos deram muitas palavras em português. Quanto aos gregos, principalmente na área médica, lembremo-nos de leucócitos (glóbulos brancos), leucócomo (que tem cabelos brancos), leucodermia (deficiência de pigmentação, problemas que podem ir de pequenas manchas brancas ao vitiligo), leuconiquia (descoloração esbranquiçada das unhas) etc. Já quanto a albus, dos latinos, registre-se albinismo (ausência total ou parcial de pigmentação da pele, dos pelos, albido (em que predomina a cor branca, alvadio, esbranquiçado), albiduria (emissão de urina muito clara ou branca) etc. 

Ainda quanto às palavras, ocorre-nos titânio,  designação de produto usado na indústria química como corante para a obtenção da cor branca em tintas,  papel, esmalte, cerâmica e muito mais. A propósito, lembremo-nos que, na mitologia grega, Zeus, o maior dos deuses, símbolo da luz, venceu os titãs, representantes do obscurecimento, da desordem, das trevas, do caos.

Embora aumentem em nossa língua as referências a matizes do branco (branco neve, branco sujo, branco lívido, branco champanhe, branco marfim, branco nude, branco off white, branco rosa pó, branco pérola, branco âmbar etc.), salientemos que jamais chegaremos perto dos esquimós que conseguem identificar dezenas de tonalidades da cor no mundo em que vivem.


segunda-feira, 8 de março de 2021

NADA EM EXCESSO

                                            

De um modo geral, os heróis, nos mitos de todas as culturas, são filhos de um deus ou de uma deusa com um ser humano, o que os torna simbolicamente um elo, um traço de união entre dois planos de existência. Ou seja, representam eles uma proposta para que o ser humano vá do material, do egoico, dos seus interesses pessoais, em direção de uma vida de natureza espiritualizante, orientada por ideais de colaboração, de participação comunitária para que o todo, a vida coletiva, melhore. Faz parte da vida dos heróis esse impulso evolutivo, que se caracteriza por um desejo de superação, de transcendência. Esse impulso evolutivo, muitas vezes, porém, apresenta aspectos contraditórios, distorções graves. Muitos heróis, nesse afã de se superar, são tomados por sentimentos descontrolados de orgulho, de vaidade, julgando-se alguns até iguais ou mesmo superiores aos próprios deuses pelas vitórias que conquistam.

Fazem parte da vida heróica ideias de renome, de glória, de imortalidade, pois os antigos gregos achavam que a memória vencia a morte. Dois são os caminhos que tomavam os heróis nesse sentido:  Um é o da via social (horizontal) e o outro é o da via espiritual (vertical), podendo eles, às vezes, se interpenetrar. No primeiro caso, o herói procura o reconhecimento dos homens, por seus feitos, por suas ações, casos em que ele se torna um personagem histórico; no segundo caso, o da via vertical, espiritual, o herói aparece como um profeta, um criador de doutrinas religiosas, um salvador, caso em que ele indica para os outros homens caminhos de realização espiritual. Neste caso, ele será um guia, um mestre, um orientador, constituindo-se a sua pregação o que os gregos chamavam de soteriologia (salvação da alma).


Uma das expressões do item acima nós a encontramos, por exemplo, no Cristianismo, quando a vida dos santos era tomada como exemplo de vida a ser seguida, a ser imitada. O mais famoso livro que conhecemos sobre o tema chama-se Legenda Aurea. Neste livro, estão reunidas várias histórias de caráter lendário sobre a vida de muitos santos e mártires da Igreja. Essas lendas, nos primeiros tempos do Cristianismo, eram lidas diariamente, durante das refeições, nos refeitórios dos conventos, para edificação dos jovens que ingressavam na vida religiosa.

CLÍMENE
Hoje, falaremos de um herói da mitologia grega que se enquadra no primeiro caso, o do herói que por suas façanhas procurou se colocar acima dos outros homens e dos próprios deuses. Seu nome é Faetonte, filho de Hélio, o Sol, divindade luminosa, que tinha como irmãos Eos (a Aurora) e Selene (a Lua). A história começa quando Hélio se une a uma divindade marinha, Clímene, tornando-a mãe de Faetonte e das Helíades, nome pelo qual eram conhecidas as suas três irmãs.

HÉLIO
Hélio, personificação do Sol, era representado por uma figura de grande beleza, cabeça aureolada, de onde emanavam raios, sempre esplêndido fisicamente. Para se movimentar pelo cosmos, o que fazia com grande velocidade, usava um carro dourado puxado por quatro intrépidos cavalos, que tinham o nome de Fogo, Luz, Chama e Brilho. A chegada de Hélio nos céus, todas as manhãs, era precedida pelo carro da deusa Eos (Aurora), sua irmã, que lhe abria o caminho. Ao final das tardes, mergulhava com seu carro no oceano, para acalmar os seus animais, ou então se escondia atrás de altas montanhas. Pernoitava num palácio de ouro, recomeçando na manhã seguinte a sua infatigável trajetória. 


O nome do nosso herói, Faetonte, vem da palavra grega phaeton, que significa brilhante. Foi educado pela mãe sem saber que era filho do deus Hélio. Só quando adolescente teve conhecimento de sua paternidade. Desde a infância fora, por isso, muito ridicularizado por não saber declinar o nome do pai. Revelada, porém, a identidade paterna e desejando calar para sempre os que o maltratavam, Faetonte, muito ansioso, pôs-se a caminho do leste, lugar onde o Sol nascia, para encontrá-lo. Quem narra essa história é o poeta latino Ovídio no seu texto, As Metamorfoses: Faetonte se regozija logo que sua mãe assim falou (declarando o nome do pai) e já se imagina no éter, e, atravessando as regiões etíopes, de onde era, e as regiões indianas castigadas pelo Sol, dirige-se, sem demora, ao lugar de onde seu pai se levanta.

Faetonte encaminhou-se então para o extremo-oriente, aproximando-se do majestoso palácio do pai, todo em ouro, com portas de prata e aplicações de marfim. O pai estava sentado num trono de esmeraldas, resplandecente. À sua direita e à sua esquerda encontravam-se os Dias, os Meses, os Anos, os Séculos e as Horas, todos dispostos nos  respectivos espaços que lhes cabiam. Também no palácio do pai se encontravam a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno, apropriadamente vestidos. Faetonte os viu e não se sentiu impressionado por todo esse esplendor. Faetonte tomou então conhecimento porque os adoradores de seu pai haviam fixado o tempo entre dois instantes sobre o caminho que ele fazia. Estes dois instantes eram os chamados solstícios. Um era o da culminação do Sol no céu, que correspondia ao início do Verão, e outro era o do declínio do Sol, que correspondia ao início do Inverno. Um era o instante supremo do Sol, o do apogeu, o do Sol triunfante, o outro era o da queda, do decesso, que lembrava a escuridão, a morte. Mas, como o caminho que seu pai fazia era circular, foi-lhe explicado que esta morte era apenas aparente, tudo representado por uma curva onde o passado, o presente e o futuro se encontravam continuamente, num eterno vir-a-ser. Nascimento, ascensão e queda, seguida esta de um novo nascimento, pois, esta é a lei a que estavam submetidos todos os seres, coisas do mundo, humanos ou deuses, que faziam parte da vida universal. Mas Faetonte, fixado no seu obsessivo desejo, não deu ouvidos a nada disto. 

HÉLIO  ( BAIXO RELEVO )
Hélio havia logo reconhecido que aquele jovem lindíssimo era seu filho pelo brilho que dele emanava. Abraçou-o comovidamente. Para sacramentar o reconhecimento do jovem, jurou, em nome das águas do rio Estige, para acalmar quem sabe os seus remorsos por nunca tê-lo reconhecido, dizendo-lhe que atenderia qualquer pedido que ele viesse a fazer. O jovem, sem titubear, pediu que o pai lhe emprestasse por um dia o carro com o qual se movimentava pelos céus. No mesmo momento em que ouviu o pedido do filho, logo o arrependimento se apoderou inteiramente de Hélio, pois não poderia voltar atrás, já que jurara pelas águas do Rio Estige (o perjúrio, neste caso, a falta de cumprimento de um juramento feito em nome do rio Estige, era um dos maiores crimes que tanto humanos como deuses poderiam cometer: quem o cometesse inclusive deuses, iria para o Inferno, onde ficaria lá prisioneiro até o final dos tempos).


RIO ESTIGE ( GUSTAVE DORÉ, 1832 - 1883 )

Hélio descreveu então para o filho os perigos a que ficaria sujeito se se atrevesse a conduzir o seu carro. Se Faetonte levasse o carro acima da eclíptica, a estrada do Sol no céu, certamente se chocaria com os astros, e, se descesse muito, com a Terra. Qualquer descuido na condução do carro, a ordem cósmica seria fatalmente perturbada, com consequências catastróficas, sem dúvida. Hélio lembrou o exemplo de Ícaro, aquele que desejou voar alto demais e teve um fim trágico. 


QUEDA DE ÍCARO ( PETER PAUL RUBENS - 1577 - 1640 )

Depois de observar ao filho que nem Zeus, o maior dos deuses, se atreveria a conduzir o seu carro, eis, conforme o texto do poeta, uma parte do discurso de Hélio ao filho sobre os perigos que poderia enfrentar se insistisse na sua tresloucada aventura: Supõe que eu te entregue o carro. Que farás? Poderás enfrentar a rotação dos polos, para não seres arrastado pelo eixo movediço? Por acaso imaginas que há no céu bosques, cidades dos deuses e templos repletos de oferendas? Aquele caminho avança entre ciladas e animais ferozes. E mesmo se o seguires sem errar terás de enfrentar os chifres do odioso Touro, o arco de Sagitário, a boca do feroz Leão, o Escorpião recurvando os ferrões e o Câncer, o Caranguejo, também de ferrões recurvados, mas em outro sentido. Quanto aos quadrúpedes, animados por um fogo que têm no peito e que soltam pela boca e pelas narinas, conduzi-los (os cavalos) não te será fácil. Eles mal me obedecem, com aquele seu vigor fogoso, e mal suportam o freio. Cuidado, meu filho, para que eu não te preste um favor funesto e, já que ainda é tempo, muda de ideia.

De nada valeram as ponderações de Hélio. Pela madrugada,
EOS
quando  Eos  já  abrira  as portas do  oriente para a luz solar, Faetonte  subiu  no  carro  do  pai  e  partiu  numa  alucinada carreira. Os cavalos logo perceberam  que  Hélio não estava no comando. Aumentando  a  velocidade, Faetonte, ao subir, põe  em  perigo   os  astros,  que  faziam  a  sua caminhada regularmente, cada um com a sua  velocidade. Nos rasantes que dava,  incendiava  a Terra. O  carro  se  chocava com as estrelas, as  nuvens se  inflamavam,  cidades  e  bosques na terra  se  incendiavam.  Faetonte  na   sua  corrida   louca  ia deixando  um  rastro  de  destruição  e  de   dor,  trazendo  a desordem  para a vida do Cosmos, regular e ordenada. 


GEIA  ( RELEVO  EM  MÁRMORE )

A Grande-Mãe, Geia, ressequida até as entranhas, não suportando mais as agressões a que estava sendo submetida, pediu a imediata intervenção de Zeus. Atendendo-a, reverente, o Senhor do universo, do alto do Olimpo, lançou a sua infalível arma, um destruidor raio, arma que abatia inapelavelmente os orgulhosos e os inconsequentes dominados pela hybris (orgulho), pelo descomedimento.



A QUEDA DE FAETONTE ( P.P. RUBENS - 1877 - 1640 )

Faetonte despencou com o carro solar, que se espatifou no solo. As ninfas dos riachos e dos regatos próximos recolheram o cadáver do infeliz jovem, dando-lhe sepultura. No túmulo colocaram a seguinte inscrição: Aqui repousa Faetonte, condutor do carro paterno, ao qual se não pôde guiar, ao menos pereceu em gesta gloriosa.


RIO ERÍDANO
Hélio, cheio de dor, deixou a terra sem luz no dia seguinte. As Helíades, irmãs do jovem, choraram-no tanto junto à sepultura, às margens do rio Erídano, em Atenas, o Rio da Vida, que foram metamorfoseadas pelos deuses em choupos e as suas lágrimas em fragmentos de âmbar. Os choupos são, como sabemos, árvores funerárias que lembram sempre as forças regressivas que atuam na natureza, trazendo-nos mais lembranças que esperanças, falando-nos mais de tempos passados que de renascimento. Já o âmbar (electron, em grego) simboliza o fio que une a energia individual à energia cósmica.

ÂMBAR

O amarelo-âmbar, como se sabe, foi muito utilizado na pintura bizantina para dar cor ao rosto de muitos santos, como um reflexo da luminosidade celeste que eles têm dentro de si.


HELÍADES CHORAM FAETONTE
O mito de Faetonte é, como se pode perceber, uma ilustração das terríveis consequências da desmedida que pode tomar um ser quando ele desconhece o seu metron, a sua medida. Não é por outra razão que no Oráculo de Delfos estavam registradas, na sua entrada, as máximas: Conhece-te a ti mesmo e Nada em excesso.

O orgulho era um tema privilegiado na mitologia grega. O orgulho é, como sabemos, a estima excessiva que alguém tem por si mesmo. Inconsequente, inconsciente na maioria dos casos, o orgulho, alegoricamente chamado de hybris pelos antigos gregos, era filho de Koros, entidade que personificava o Desdém, a Insolência. A expressão física da hybris era denominada por eles pelo nome de hamartia, podendo ela tomar muitos caminhos, sempre se constituindo, porém, numa violência cometida por palavras ou atos contra o mundo natural ou contra os próprios homens e deuses. A principal característica da hybris era o excesso, podendo ele aparecer tanto no Bem como no Mal. Os deuses gregos intervinham sempre quando esse excesso se manifestava num ou noutro sentido, porque esse descomedido impulso desequilibrava a ordem do mundo. Nesse sentido, é que a maldade, a bondade, a beleza ou a fealdade demasiadas se equivaliam,  perniciosas e perturbadoras do justo equilíbrio universal. 


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (2)

                                           
CONSTELAÇÃO   DE   ORION
Outra história da mitologia grega que mantém muitas relações com o universo escorpiano é a do gigante Orion. No mito, ele tem uma personalidade orientada instintivamente, dominada por paixões imperativas, por ideias e valores animados por pulsões violentas. Em Orion, sempre, as pulsões pela vida levadas ao extremo coexistem com um espírito tanático, uma ambivalência como a encontramos na frase de Nietzsche: O amor pela vida é, quase, o contrário do amor por uma longa vida, aplicável a alguns escorpianos. Não é por acaso que se diz de pessoas que têm este temperamento que elas têm “o Diabo no corpo”, um modo de viver que se caracteriza pelo desejo de ser sempre mais do que se é, um desejo que afasta sempre qualquer possibilidade de bem- estar e de satisfação. Uma angústia de viver que se alimenta de inquietações, exasperações, tormentos, agressividade e convulsões.  

Contam as várias versões do mito de Orion, todas descrevendo-o como um ser de extrema sensualidade, que sempre pontilharam a sua vida  cenas de vinho, de sexo, de violência e de vingança. Entregue a uma de suas grandes paixões, a caça, diz a lenda que ele chegou a ameaçar de extermínio os animais da terra, pondo assim em risco de destruição não só os ciclos da vida animal como os da ordem natural, ambas um reflexo da lei cósmica superior. Sendo-lhe oferecida, pela deusa Eos, uma oportunidade para se redimir, ele não conseguiu se libertar das suas tremendas pressões instintivas interiores, demoníacas, mantendo-se fixado no seu papel de grande sedutor, sempre belíssimo, esplêndido fisicamente, atraindo deusas e mulheres que a ele se entregavam, impotentes diante do seu poder de encantar, de fascinar. 


ÁRTEMIS
Uma das versões do mito nos conta que a deusa Ártemis, outra grande caçadora, ignorando as façanhas do nosso herói, que se gabava de ter livrado totalmente a ilha de Chios de perigosos animais, o convidou para acompanhá-la nas suas andanças cinegéticas. Apolo, irmão de Ártemis, que aliás não tinha muito sucesso com as mulheres, prossegue a mencionada versão, não viu com bons olhos essa “amizade”. Além disso, Apolo jamais esquecera que Orion havia partilhado o leito de Eos, a Aurora, na ilha de Delos, lugar sagrado, onde ele e a irmã haviam nascido. Por causa dessa grande indelicadeza da deusa da aurora com relação a ele, Apolo, o deus da luz, dizem as más línguas, foi condenada por Zeus a jamais deixar de se ruborizar. 




ORION   CARREGA   ÁRTEMIS
Apesar da segurança com que Ártemis conduziu a sua aproximação com Orion, alegando que nada poderia lhe acontecer, Apolo alimentava temores com respeito a essa relação, no que teve razão. Logo nos primeiros contactos com Ártemis, Orion deu mostras de seu descontrolado temperamento, atacando-a sexualmente, dando vazão ao seu invencível furor erótico, certamente atraído pela beleza física da irmã de Apolo.

A indignação de Ártemis diante da afoiteza e da petulância de Orion foi enorme. A deusa, como sabemos, gozava do privilégio da
ORION   E   ESCORPIÃO
virgindade, concedido por Zeus quando presenciou horrorizada o sofrimento da mãe, Leto, ao dar à luz ao irmão. O revide veio incontinenti: Ártemis arrancou das profundezas do terra um aracnídeo gigantesco (um ser até então inexistente na natureza), um escorpião, que, apesar luta de Orion para dele se desvencilhar, o picou no calcanhar, ferindo-o mortalmente. Por essa razão é que ambos, Orion e o escorpião, foram para os céus, transformados em constelações, para que a história deles nunca mais fosse esquecida.

Este episódio da morte de Orion nos faz lembrar que o calcanhar é um lugar, sob o ponto de vista astrológico, tradicionalmente considerado como ariano no corpo humano, muito vulnerável. Comuns as histórias, em mitos e lendas, que nos falam de ferimentos ou da morte de deuses solares, heróis e reis, atingidos nesse ponto. Só para citar alguns exemplos, temos, na mitologia egípcia, o deus solar Ra (serpente) e Harpócrates (escorpião); na mitologia grega, Aquiles (flecha), Talos (farpa), Édipo (argola); na mitologia escandinavo-germânica, Balder (visco); na mitologia védica, Krishna (flecha) etc. 

RAPTO   DE   KÓRE


Quando falamos do signo de Escorpião não podemos deixar de lembrar e voltar à história do rapto de Kóre, a jovem filha de Deméter, arrancada das suas inocentes brincadeiras juvenis quando colhia flores, na ilha da Sicília. Está hoje suficientemente reconhecido por todos que se voltaram para esta história que o Senhor do Inferno, Hades-Plutão, sem solicitar o consentimento de Deméter, sua irmã, “negociou” a sua união com a jovem com Zeus, seu irmão e pai da menina.

Zeus, ao que parece, nunca levou em consideração se a presença dos mortos (que não passavam, para os gregos, de sombras lamentáveis no Hades), com as suas queixas e lamentos, se as lúgubres trevas do reino infernal seriam de natureza a alegrar o coração da sua jovem filha. Nunca se perguntou também como a jovem viveria o brutal sequestro. Ele viu certamente o irmão como um “bom partido”, pois governava uma parte importante do universo. Ao concordar com o rapto, Zeus prestava, sem dúvida, um grande favor ao irmão, que não conseguia uma “rainha” para o seu reino, por motivos óbvios, apesar do título que a candidata escolhida ostentaria. E o mais importante, talvez, pois essa união sempre contribuiria para que o irmão, agradecido, não alimentasse ideias de atentar contra a sua soberania universal, como era costume acontecer entre os membros das elites divinas governantes.

Quando associamos o Hades grego ao signo de Escorpião, não podemos deixar de abrir um generoso espaço para o importante papel que nessa relação desempenha a história de Kóre-Perséfone.
PERSÉFONE   E   ROMÃ
 ( MAIA  RAMISHVILI )
Kóre, em grego, quer dizer jovem, donzela, o contrário de Kóros jovem, rapaz. Às vezes, a palavra é usada com o sentido de thygater, filha. No mito, nasceu ela da união de Zeus, o Senhor do Olimpo, com Deméter, a  deusa da terra produtiva. Um dos símbolos de Kóre era a semente, a própria imagem da alternância entre vida e a morte, lembrando tanto vida subterrânea como vida manifestada na superfície da terra. Raptada por seu tio, Hades-Plutão, levada para o Inferno, transformou-se em Perséfone, uma dualidade que nos coloca diante de dois arquétipos, o da jovem virgem e o da rainha do mundo infernal.

De um modo geral, Kóre é o arquétipo da jovem inconsciente quanto à sua personalidade visível nos seus relacionamentos com o mundo.  Possuídas por esse modelo, muitas jovens costumam erotizar bastante a sua aparência, o seu comportamento, a sua maneira de ser, colocando as pessoas à sua volta num estado de excitação e até de paixão amorosa muitas vezes incontrolável. O arquétipo de Kóre nos remete a uma das proposições mais importantes do tema da sedução: é mais pelo seduzido que pelo sedutor que a sedução se realiza. 

Realmente, apesar da sua imagem de “atacante”, o sedutor atua sempre nesse processo sob pressão. Ele é, digamos, constrangido a atacar. Seu ataque é comandado por aquele (a) que será a sua vítima. Todo sedutor é, assim, “forçado” a seduzir pela sua “vítima”. O que temos aqui é algo semelhante ao contrato masoquista, um contrato comandado pela vítima. Ao longo da história do homem, esta maneira de ser poderá ser facilmente constatada, sendo inúmeros os casos em que o sedutor não passa de uma marionete do seduzido. Bastante indecisa, às vezes falsamente ingênua, a jovem virgem Kóre, como uma flor, oferecendo os seus encantos aos que passam, “nunca sabe  bem o quer”, mas espera que algo lhe aconteça, que alguém a “colha” e que sua vida então mude.

A flor, como sabemos, se desenvolve entre a terra e água, princípios passivos. Suas pétalas, seu cálice, tudo nela é receptáculo da luz, da chuva, do orvalho, dos ventos, e, como tal, é dependente da atividade celeste. As flores, além de presentes em
ASFÓDELO
todas as etapas da vida (nascimentos, aniversários, celebrações, casamentos, mortes), sempre tiveram um papel importante no jogo da sedução, na literatura galante. Para os antigos gregos, a proximidade e/ou a inalação do perfume de certas flores era perigoso, como no caso de narcisos, asfódelos, jasmins, jacintos, camélias etc., todas presentes na mitologia grega, dela fazendo parte, às vezes, como importantes personagens. As flores brancas, particularmente aquelas que são muito perfumadas, segundo a tradição mediterrânea, podem até atrair a alma de pessoas mortas. 


NARCISO
O narciso, na mitologia, coroava a cabeça de várias divindades, das Erínias, das Moiras e, muitas vezes, do próprio Hades, sendo neste caso um símbolo do entorpecimento, da morte como um sono profundo. Como já se disse, narcisos , pelo seu perfume perturbador e soporífero, são ideais para a confecção de filtros mágicos. Diz a tradição que uma mulher que receba de um homem um buquê de narcisos ficará presa a ele, não conseguindo tiraá-lo mais da sua cabeça. 

O mito nos revela que, Kóre foi raptada quando, num prado da Sicília, junto com algumas jovens amigas, colhia flores. O mito nos revela mais que Kóre, ao contrário das amigas, se sentiu particularmente atraída por uma região mais seca do terreno, onde só havia um tipo de flores, de pétalas brancas, com uma pequena
NARCISSUS   SEROTINUS
coroa amarela no centro. Essa flor, conforme se comprovou posteriormente, foi criada especialmente pela Grande-Mãe Geia para auxiliar Hades-Plutão a raptar a jovem. Extremamente odorífica, dessa flor, chamada tecnicamente de Narcissus poeticus, às vezes confundida com o Narcissus Serotinus, os homens aprenderam a  extrair um óleo, muito usado na fabricação de perfumes. Atualmente, ao que me consta, ele entra na composição de dois perfumes muito famosos, Fatale e Samsara. O perfume do óleo do narciso lembra uma mistura do perfume de duas flores, do jacinto e do jasmim. De todas as espécies de narcisos, o poético é o mais perigoso. Pessoas que dormem ou que permanecem por algumas horas numa sala fechada onde houver narcisos poéticos correm o risco de sentir enjôos, náuseas, vômitos, fortes dores de cabeça. 

O complexo de Kóre vem sendo atualizado pela literatura, pelo cinema e, sobretudo, pelos meios de comunicação de massa (publicidade) através de vários estereótipos como lolitas e ninfetas, adolescentes que procuram sempre despertar o desejo sexual, modelos de comportamento muito ativos hoje tanto na área heterossexual como homossexual. Lembro que os norte-americanos, desde os tempos do cinema mudo, puseram em circulação o termo waif (gamine, em francês) para designar esse
AUDREY   HEPBURN
modelo, uma mistura de sexo e inocência, caracterizado por mulheres de aparência infantil, aparentemente frágeis, que pareciam “pedir” proteção, mas ocultando por trás de sua aparência, sutilmente erotizada, muita malícia, nocividade e perniciosidade como sedutoras (Audrey Hepburn é um exemplo clássico). Eram perigosas e sexualmente estimulantes. O grande arquétipo desse modelo é, sem dúvida, Kóre, “raptada” por Hades, o deus dos Infernos, com o consentimento de Zeus, o próprio pai. 

É preciso ressaltar, porém, que, se esse rapto foi um “trágico” acontecimento para Deméter, não o foi, como se disse acima, para a Grande-Mãe Geia,  que o viu como natural, como “algo” que faz parte da própria vida. Ela colaborou, como “sábia anciã”, para que o rapto se consumasse, não só permitindo que o  cenário fosse montado adequadamente (os atraentes narcisos) e também se “abrindo” para que Hades pudesse subir à sua superfície da terra para atacar a jovem  e depois voltasse ao seu reino subterrâneo. Do ponto de vista de Geia, tanto a sedução como a morte não têm nada de trágico, são acontecimentos que fazem parte do devenir da própria existência. 

O poema homérico nos diz sobre esta passagem que o narciso era um engodo, um favor de Geia, para aquele que recebe tantos, expressão pela qual os poetas se referiam a Hades Este deus era também poeticamente conhecido pelo nome grego de Pluton, nome retirado de uma palavra grega que significa rico. Ou seja, Plutão é o de “inumeráveis hóspedes” (uma referência às almas que recebia em seu reino) e o “muito rico” (uma referência aos tesouros e riquezas inexauríveis que a Terra guardava nas suas entrenhas).  

Narciso vem de narko, sono, narkê, torpor. A flor, entre os gregos, era vista como narcoléptica (narkê, torpor, e lepsis, ataque, rapto), sugerindo, por seu perfume, ideias de sono, morte e diminuição  do nível da consciência. Em razão de sua forma, que lembra o lírio, o narciso aparece ligado à corrupção da virgindade, da pureza. O narciso era também flor muita usada em ritos funerários, ornando os cadáveres levados para inumação nos cemitérios.


RAPTO   DE   KÓRE

A “perdição” de Kóre, como tudo indica, foi apoiada pela Grande-Mãe, que se tornou assim cúmplice de Hades, pois para ela o mundo subterrâneo (o subconsciente, se quisermos) também fazia parte da natureza (vida consciente). A história de Perséfone nos permite perceber todo o dualismo de seu mito, ou seja, o de se ver o mundo inferior como o mundo das almas e o mundo superior como o da luz, da vida física.  Ou seja, para que a vegetação pudesse crescer na superfície da terra, era preciso uma descida ao mundo ctônico. O “invisível” dando origem ao “visível”. Tomar consciência será assim ter percepção do “invisível”, do mundo inferior.

A jovem Kóre, enquanto vivia exclusivamente presa à mãe, não tinha nenhuma consciência de si mesma, da sua beleza, não conhcia os seus motivos subjetivamente, apenas existia simbioticamente.  Fazia-se sedutora para ser colhida, uma flor. Não percebia o quanto atraía sexualmente. Vivia para oferecer ao mundo a sua imagem mais desejável; por isso, mudava semore,  constantemente, adaptando-se como um caleidoscópio.  

A palavra Kóre em grego era usada também para designar a pupila
Adicionar legenda
(menina) do olho que, a rigor, é um vazio, isto é, um orifício situado no centro da íris que, ao se contrair ou dilatar, permite regular a quantidade de luz que penetra no olho. Daí, os outros sentidos que a palavra pupila toma, sentidos  úteis para apreendermos tudo o que arquetipicamente a jovem filha de Deméter pode significar. Pupila é aquela que um educador, um mestre, deve educar, aquela que deve ser tutelada por alguém; é uma protegida, uma educanda, uma noviça. Os gregos davam às bonecas também o nome de kóre, um simulacro do corpo feminino.

Invariavelmente, todos os que se voltaram para o tema de que tratamos falam da filha de Deméter como vítima, a que foi abduzida. O sedutor, no caso, é o deus soturno de um reino para o qual ninguém desejava ir, deuses ou mortais, dono de uma força viril ativa irresistível diante da qual o feminino (passivo) não tinha outra alternativa senão a de se render, se entregar, abandonar-se. A sedução, nessa perspectiva, é sempre apresdentada como um jogo a dois, no qual um (o mais forte) ganha e o outro perde, presente a dialética do dominador e do domimado (O D/s dos psicólogos). 

Apesar de toda a diversidade dos personagens que costumam tomar parte neste jogo, não podemos admitir que a sedução (seducere, etimologicamente, desviar do reto caminho, tirar de lado) seja simplesmente um  querer fazer mal consciente, um constrangimento imperativo irrecusável por parte de quem o pratica. Neste jogo, muitas vezes, o que parece ser o vencedor, como dissemos, aquele que aparentemente se beneficia do ataque (que colhe a flor), nem sempre é quem dá início ao jogo ou aquele que se delicia mais. É claro que sob um ponto de vista teológico, etimológico ou jurídico os sedutores serão sempre o Diabo ou um grande libertino, grandes pecadores, criminosos etc. No Direito Penal brasileiro, por exemplo, sedução é o crime de se manter conjunção carnal com mulher virgem entre 14 e 18 anos, com

aproveitamento de sua inexperiência e/ou justificável confiança. O aparecimento do sedutor (oportunidade, circunstâncias etc.) é determinado em grande parte pela parte seduzida. Na vida religiosa, este princípio pode ser assim expresso: todo místico acaba sempre encontrando o seu deus. Na vida libertina, é o caso do Don Juan descrito por Kierkgaard, seduzido pelas mulheres das quais ele já havia se tornado cativo.

Essa questão de se considerar a sedução simplesmente como um desvio maléfico deve ser revisada, admitir outra leitura, que não fique restrita ao ponto de vista dos jogadores. A sedução é, efetivamente, um desvio maléfico, em muitos casos, mas noutros (em grande parte, talvez) não o seja. Refiro-me, sob o ponto de vista factual apenas, às delícias da sedução, efêmeras ou duráveis,
( F. M. CARMONTELLE, 1750-1825 )
mas sempre delícias. Dentre todos os exemplos para reforçar o que aqui se afirma podemos ficar com os casos mais “difíceis”, o da sedução das “mulheres austeras” ou “as aquecidas pelo Divino”, as “loucas de Deus”, as que formam aquele grande contingente das esposas místicas em todas as religiões. Choderlos de Laclos tratou delas e a Igreja católica transformou muitas mulheres raptadas como Kóre  em santas. 


No tocante às religiões (refiro-me aqui de modo especial ao Cristianismo), é oportuno lembrar, quando seduzidas pelo divino, as mulheres, absolutamente, segundo a ortodoxia dominante, não se desviaram de nada, nem de si mesmas; foram promovidas, colocadas numa categoria especial, foram santificadas, tornando-se dignas de veneração e respeito. Gozaram, simplesmente, por ele
SÃO    JOÃO   DA   CRUZ
possuídas, pelo divino. Quando se trata de homens então, os casos parecem ser bem mais interessantes, pois nos põem mais profundamente diante da chamada feminilidade da alma mística, a “alma-esposa”. São João da Cruz entendia disto muito bem, referindo-se a si mesmo no feminino. Estes seduzidos, homens ou mulheres, são sempre extremamente sedutores. É extensíssima, como sabemos, em todas religiões a galeria dos seduzidos pelo divino, mulheres e homens.

Todos os fenômenos religiosos que nos falam de penetração pelo divino, do toque do divino, conversões, religiões reveladas, de mistério, participações rituais, transes oraculares, profecias etc., têm inegavelmente uma forte conotação sexual. Para receber o divino temos que nos tornar femininos, esvaziarmo-nos, como no caso do ekhstasis dos Pequenos Mistérios em Eleusis. Platão, por exemplo, associa o conceito de possessão pelo divino (enthousiasmòs) a um estado não-racional, feminino. 

PLUTÃO - HADES
O que temos na realidade, em muitos casos, quanto ao feminino, é que as seduzidas são grandes sedutoras. A mulher seduzida, como o sedutor, também “atira” as suas flechas. Elas, “ao cair”, levam junto o sedutor, o derrubam. Kóre vinha há muito, em que pesem os seus poucos anos de vida, pedindo para ser colhida. Quanto a Plutão - Hades, as consequências de seu ato, como tudo indica, ele as suportará até o final dos tempos, administrando o seu reino em companhia de Kóre, que assumiu o papel de esposa amantíssima e obediente, sob o nome de Perséfone.

Os estudiosos do mito, de todos os tempos, nunca abordaram o day after do rapto de Kóre, sob o ponto de vista de Plutão - Hades.
HÉRCULES  ,  PIRITOO  ,  TESEU
Atendo-nos ao mito, Plutão nunca mais raptou alguém. Aliás, mostrou-se sempre muito consciente dos seus poderes e deveres familiares. Lembremos do modo como agiu (marido exemplar) quando dois fanfarrões, Teseu e Piritoo, invadiram o seu reino com a pretensão de raptar Perséfone. Agiu prontamente, prendendo-os e os mandando para o Tártaro, lugar sem volta. Teseu lá ficaria para todo o sempre se não fosse Hércules... 

O que podemos concluir desse episódio, ligando-o a outros dados “biográficos” de Plutão - Hades, é que ele precisava apenas de uma “esposa oficial”, de alguém para assumir o lugar de “primeira dama” no seu reino. Nunca foi um sedutor como seu irmão Zeus, este sim um grande semeador de filhos, os chamados espúrios, alguém que não admitia negativas diante do seu furor erótico.

CHAPEUZINHO
(J. W. SMITH , 1863 - 1935 )
Sob um outro ponto de vista, psicológico, se quisermos, a ação de Plutão - Hades (função de todo “raptor”) não teve outra finalidade senão a de fazer Kóre tomar consciência do seu corpo como polaridade geradora. Aliás, aquilo que aconteceu a Kóre vem sendo atualizado simbolicamente por várias histórias, como, por exemplo, a do Chapeuzinho Vermelho, na qual Hades, Deméter e Kóre são, respectivamente, o lobo, a avó e a heroína. O rapto de Kóre é, neste sentido, uma “descida” que toda mulher deve fazer não só ao interior do seu corpo, e, dessa experiência, chegar a novas formas de autoconhecimento para buscar outras possibilidades de crescimento.

O aspecto sublime do drama Deméter-Kóre está representado, sem dúvida, pelos Mistérios de Elêusis, doação de Deméter à humanidade, como um grande processo transformador no sentido de uma espiritualização progressiva da vida material, tanto no nível pessoal como coletivo. Não é por oura razão que a divindade condutora dos mystai a Elêusis era Dioniso, o deus das metamorfoses, a divindade que num primeiro momento lembrava a regressão, a supressão das interdições, o mergulho na indiferenciação, para, num segundo momento, significar o renascimento sob uma outra forma. Não nos esqueçamos que a terceira fase dos Pequenos Mistérios, a do enthousiasmòs (literalmemente, deus em nós) se realizava quando Dioniso “possuía” o iniciado. A forte conotação sexual dessa penetração divina é evidente. Todo iniciado que participasse dos Mistérios de Eleusis assumia naturalmente a condição de uma Kóre, isto é, tornava-se feminino, sendo invadido pelo deus. 


MISTÉRIOS   DE   ELÊUSIS

Psicanaliticamente, os Mistérios de Elêusis podem ser vistos como uma proposta de descida à vida subconsciente a fim de serem libertadas as potencialidades lá aprisionadas. É neste sentido que Perséfone seria um símbolo do recalque. É no simbolismo da semente que desce ao interior da terra que devemos procurar a busca de certas faculdades espirituais (a busca do tesouro interior) que levam o ser humano ao autoconhecimento. O guia das procissões noturnas que no outono saíam de Atenas em direção de Elêusis pelo Cerâmico era Dioniso, que, como esclarecia Heráclito, era Plutão-Hades, sob um outro aspecto. Esta identificação se tornará mais clara se acrescentarmos que a mãe de Dioniso era Sêmele, nome que lembra semente, uma personificação da terra, como Deméter, fecundada por Zeus na forma de chuva primaveril.

O retorno de Kóre, por outro lado, à mãe não é mais que a ilustração de um dos subciclos do movimento cíclico das estações. Não é por acaso que no dia 22 de setembro (começo do outono), quando se realizava a epopteia, a contemplação, a consumação dos Grandes Mistérios, Perséfone tinha nessa cerimônia um papel muito importante. Ela, como a venerável Brimo, apresentava à multidão de iniciados Brimos, o menino sagrado, o puer aeternus, símbolo da energia universal que não morre nunca, que a cada ano
TELESTERION
retorna. Os Mistérios de Elêusis falavam de uma solidariedade entre a mística agrícola e a sacralidade da atividade sexual. Brimos era gerado pela grande deusa na escuridão do Telesterion e trazido diante da multidão como símbolo do mystes, o iniciado renascido. Brimos, em Elêusis, era um epíteto do deus Dioniso, a criança sagrada, nascida de Perséfone. É dentro do cenário eleusino que o culto de Dioniso significa uma proposta de mudança, de transformação, de espiritualização de quisermos, na medida em que ele nos fala de morte e renascimento. 

A palavra Brimo, de origem trácia provavelmente, sempre teve o sentido de algo terrível, algo que se presenciava com horror. Traduzia ela também uma ideia de inexorabilidade, aparecendo sempre ligada ao mundo infernal, sendo, por isso, muito aplicada a deusas que tinham relações com esse mundo. O nome era usado às vezes como um qualificativo para designar o que deusas como Perséfone, Hécate ou as  Erínias provocavam, um misto de temor, de horror. A palavra era também aplicada a Deméter, em Elêusis. 

A figura de Perséfone tem, no mito, um caráter ambíguo. Afora os seus “deveres oficiais” nos Mistérios de Elêusis e ao lado do marido, sua história é discreta, não é muito rica de acontecimentos. Perséfone aparece nos trabalhos de Hércules (décimo trabalho), no mito de Teseu (já mencionado), no Orfismo e numa disputa que teve com Afrodite. Quanto ao Orfismo, há apenas a mencionar que quando o famoso cantor trácio desceu ao Hades para resgatar a alma de sua falecida noiva, Eurídice, Perséfone, muito tocada pela grande prova de amor por ele demonstrada, interveio decisivamente, com sucesso, no sentido de obter de seu esposo autorização para a libertação da alma da desditosa jovem.


DIONISO , DEMÉTER , MÊNADES