domingo, 18 de julho de 2021

ISAAC & KRONOS - COMPLEXOS PATERNOS

             

Na base das ordens religiosa, social e política ocidentais, atreladas de um modo geral ao chamado mundo masculino, a figura paterna sempre representou tradicionalmente a autoridade suprema nas três. Pai dos Deuses, Pai de Família e Pai da Pátria são expressões comumente encontradas em muitos textos que discutem tais ordens. Se vamos a outros ramos do conhecimento humano, os que tratam do nosso psiquismo, como a Psicanálise, por exemplo, a figura paterna aparece não só como instância ordenadora do nosso eu superior como aquela que tanto interdita o acesso do homem (filho) à figura materna como lhe inflige simbolicamente vários tipos de castração.

É por todas estas razões que a figura paterna, detentora do poder gerador ativamente considerado, assume vários papéis, os de dominação, de posse, de criador de valores etc. Deus, pai, patrão, mestre, tirano, professor, regente, são os papéis normalmente a ela atribuídos, concebidos, de um modo geral, como desestimuladores ou inibidores de quaisquer esforços de libertação por parte dos que a ela estão submetidos em vários níveis. A figura paterna, com relação aos filhos, é de se lembrar ainda, subsiste, em muitas tradições ocidentais ou não, como um ideal de transcendência que deve ser aceito pelos que dela dependem a título de uma relação inspirada, muitas vezes religiosamente, pelo chamado amor filial.

Para ilustrar este tema utilizei-me da história de Kafka, trazendo para nossa consideração as relações que ele manteve com o Pai, Hermann Kafka, comerciante estabelecido em Praga com negócio de armarinho. Em 1919, Franz Kafka, então com 36 anos, anunciou ao pai que ficara noivo de Julie Wohryzek. A frieza paterna foi o que obteve como resposta. Decepção, mágoa, ódio, talvez, fracasso, sentimentos confusos se misturaram, conforme um documento que escreveu sobre esse acontecimento. Esse documento faz parte hoje da literatura mundial. Seu título: Carta ao Pai. Nele, Kafka, chama o pai ora de regente, tirano, rei, Deus, papéis aos quais acima nos referimos.  Dentre outras expressões, para se referir ao pai, usa uma que ficou muito citada: Tu eras para mim a medida de todas as coisas...

A METAMORFOSE
Em texto anteriormente aqui exposto, Kafka e a Barata, me referi aos complexos que, para mim, estão ligados às relações de Franz com o pai, os de Isaac, de Kronos e de Édipo. Procurarei me ater resumidamente aos dois primeiros, menos conhecidos, deixando o último, para considerações posteriores, por suas ligações com a mitologia grega (Sófocles), nem sempre exploradas adequadamente pelos que do tema edipiano se valeram e, sobretudo, pela importância que Freud lhe deu em sua obra.

Geralmente, dá-se o nome de complexo a um lugar de condensação na nossa interioridade onde represamos sentimentos e representações parcial ou totalmente inconscientes, com enorme carga afetiva. São núcleos, agregados, ajuntamentos de conteúdos psíquicos que não chegando ao nosso consciente navegam de modo autônomo na nossa interioridade. Muitos desses núcleos não têm a devida consistência para se fazerem sentidos. Podem, contudo, ganhar corpo, formando uma espécie de segundo eu, causando divisões quanto à personalidade que o carrega. Um outro eu que pode tomar diversas formas. Adquirem eles, nesse caso, vida própria, tornando-se bastante ativos, impondo-se muitas vezes ao que denominamos vontade, podendo mesmo, em muitos casos, destruir a noção de identidade.

ASCLÉPIO
Os gregos antigos, através dos seus mitos, já haviam notado a importância desse fenômeno. Perto de Atenas, no santuário médico de Epidauro, do deus Asclépio, o deus-toupeira, os sacerdotes que lá viviam, dentre outros procedimentos terapêuticos que adotavam para dissolver ou descarregar a energia assim represada no psiquismo dos pacientes que os procuravam, praticavam a chamada nooterapia, com o auxílio da oniromancia (interpretação dos sonhos), dentre outras técnicas. Estas terapias tinham não só a finalidade de curar as mentes doentes como de reformar o homem por inteiro, psíquica e fisicamente, através de várias atividades e controles (canto, dança, teatro, esportes, cuidados alimentares etc.). O objetivo último era o de provocar nos que lá se internavam a metanoia, a transformação da mente para que os sentimentos represados fossem eliminados. Estes sentimentos, como agentes mórbidos, eram não só os causadores de muitas doenças do corpo físico como de muitos distúrbios na vida psíquica. Cura? Só com a destruição ou transformação dos sentimentos.

A partir de fins do século XIX, com a intensa retomada, no ocidente, das terapias do psiquismo, afastados, ainda que com muita dificuldade, os preconceitos religiosos e os da ciência oficial, aos complexos foram sendo atribuídos nomes de vários personagens do mito, da religião e da literatura. Através desses nomes definiram-se comportamentos, padrões de conduta, formando-se uma espécie de demonologia, que, em grande parte, passou dos confessionários religiosos para os consultórios médicos. Os exemplares desse universo estão nos mitos de diversas culturas. Muitos os chamam de arquétipos, modelos de comportamento, há muito forjados, que se impunham. Arche, em grego, é palavra que lembra superioridade, comando, anterioridade, antiguidade, poder, precedência; typos é marca impressa num corpo, em alguma coisa. Arquétipo, numa tradução livre, é o poder do antigo, do que foi forjado há muito tempo e que se impõe.

Os exemplares desse universo estão nos mitos, nas lendas, na literatura, nos contos, em histórias muito antigas, fazendo parte de tradições às vezes esquecidas ou perdidas, encontrados em todas as culturas. Sua origem é muito discutível. Partiram de um tronco único? Ou cada sociedade os fabricou? O que parece mais aceitável é que esses padrões de comportamento aparecem como símbolos a partir de um modelo original. Conforme o contexto social em que aparecem, são atualizados simbolicamente em cada momento histórico, como se disse, pela arte, pela literatura, pelo teatro e hoje pelo cinema, pelo teatro, pela chamada comunicação de massas.

O revestimento básico desses padrões de comportamento, na cultura ocidental, é dado, na sua maior parte, pela mitologia grega, não se excluindo deste predomínio, porém, o fato de outras culturas terem colaborado bastante para dar vida a outros modelos. Os complexos constituem um entrave na vida de qualquer pessoa, criando sempre muitos obstáculos para o pleno desenvolvimento de sua personalidade. Sociedades muito rígidas, de características acentuadamente puritanas, por exemplo, favorecem o aparecimento e a fixação desses complexos. 

Dentre alguns complexos vindos desse mundo, um dos mais significativos é o de Isaac, que aqui abordamos. O nome do filho de Abraão e de Sara, Isaac, deriva do verbo rir. Os pais o tiveram já velhos, daí o riso, as gargalhadas, quando anunciado o seu futuro nascimento. Deus testou a fidelidade de Abraão (10 testes). Um dos testes foi o de que ele deveria oferecer o filho tão aguardado ao sacrifício.

Segundo a tradição bíblica, Abraão era um respeitado patriarca e grande astrólogo em sua terra (Ur, Mesopotâmia). Quando tinha 75 anos foi visitado por Deus. Recebeu ordens para abandonar sua casa e seus pais e partir em direção de uma terra que Deus lhe mostraria.  Seguindo em direção de Canaã, com sua esposa Sara, seu sobrinho Lot e companheiros convertidos à sua fé monoteísta, Deus lhe prometeu, dentre outras coisas, uma descendência numerosa, tão numerosa quanto as estrelas do céu, como está no texto bíblico. 

Quando Abraão chegou aos 99 anos, Deus lhe apareceu novamente para ratificar com ele e seu povo sua aliança e ordenou que ele se circuncidasse, um símbolo da referida aliança, prática a ser mantida por todos os seus descendentes. Como a tradição revela, foi a partir desse acontecimento que Abraão se tornou perfeito, que o nome de sua mulher, também muito idosa, foi mudado de Sarai (minha princesa) para Sarah (princesa de todas as nações), e que se anunciou para breve o nascimento do filho tão desejado. Assim aconteceu, nascendo Isaac.

SACRIFÍCIO DE ISAAC
(REMBRANDT,1606-1669)
Homem cheio de devoção e benevolência, Abraão foi submetido então por Deus a vários testes para que, através deles, desse demonstração de sua fé. O seu último e mais difícil desafio, como a Torá revela, era o do sacrifício de Isaac. Conhecemos os detalhes da viagem do pai e do filho, então com 25 anos, para o local do sacrifício, o monte Moriá. No último momento, porém, quando Abraão estendeu a mão para cortar a garganta de seu amado e dócil filho, surgiu o arcanjo Gabriel que salvou Isaac. Akedá é como os judeus chamam este teste de obediência, também designado por alguns pelo nome de teste da amarração. 

No lugar de Isaac foi colocado um carneiro, animal sacrificial por excelência, que, como se sabe, representa o princípio solar viril, luminoso, ligando-se o seu simbolismo ao ciclo das estações. Na tradição judaica, cristã e muçulmana o animal torna-se a vítima sacrificial do período do Pessach, da Páscoa e do Ramadã, inclusive entre os povos védicos. Adotado especialmente pelos cristãos, o animal representa o Messias, o Verbo divino. Sempre ligado a ritos de fertilidade, ele aparece associado à chamada festa equinocial da primavera, enquanto a festa do bode tem relação com a das colheitas. 


Lembremos que bem antes de Abraão, o primeiro patriarca judeu, o carneiro já aparecia como um símbolo astrológico-religioso. O shofar, pequena trompa feita com chifres desse animal, passou a ser empregado em rituais religiosos e usado em sinagogas ao fim do Yom Kipur. No cristianismo, o Pessach tomou o nome de Páscoa. Outra versão, porém, narra que foi Abraão quem colocou, como um sacrifício alternativo, no lugar de Isaac um carneiro, animal que aparecia como suporte simbólico de numerosos ritos que falavam da continuidade da vida. O que se sabe quanto a Isaac, é que após a traumática experiência da akedá, ele se retirou da vida mundana, mas ficou com sérios problemas nos olhos por ter olhado o céu enquanto estava amarrado no altar do sacrifício e visto Deus. Além disso, seus olhos foram também afetados pelas lágrimas de chorosos anjos, apiedados de sua sorte.

Sob o ponto de vista astrológico, não há como se negar que a história de Isaac esta repleta de símbolos arianos. Áries é o signo do Carneiro, marcado pela entrada do Sol, a cada ano (hemisfério norte), a 21 de março, nessa constelação (equinócio da primavera). Áries é o signo que marca o despertar da natureza, a passagem do frio ao calor, da escuridão à luz. Lembremos que o carneiro entre os muçulmanos está na relação dos dez animais admitidos por Maomé no paraíso. A divindade védica Kubera, guardiã dos tesouros e das riquezas da Terra, aparece cavalgando um carneiro divino, sua montaria (vahana).  

Isaac foi o primeiro judeu a ser circuncidado no tempo certo (oito dias depois do nascimento). Para desfazer boatos sobre seu nascimento, Isaac foi criado de modo a que se parecesse o máximo possível com seu pai. Por exigência de Sara, Ismael (Deus escuta, em hebraico) e a mãe, a escrava Agar, foram expulsos por Abraão, tornando-se nômades do deserto. Apareceu-lhes então um anjo que os conduziu a um poço onde o Senhor anunciou a Agar que de seu filho nasceria uma grande nação. Seus descendentes seriam chamados de filhos do vento. Nômades e livres, eles tomaram o nome de beduínos (de badw, deserto) por se considerarem os únicos descendentes diretos de Ismael. Isaac se casou com Rebeca e se tornou pai dos gêmeos Esaú e Jacó. 

CHOURAQUI
Diante do exposto e das preciosas informações que retiramos da "insólita Bíblia" (tradução francesa e comentários de André Chouraqui, 1917-2007), o tema do complexo ilustrado por esta história pode ser explicitado: Isaac é o arquétipo dos filhos aos quais os pais transferem os seus problemas para que estes os assumam ou paguem por eles; é o filho que passivamente se coloca à mercê do pai, que procura lhe impor uma profissão ou fazê-lo seu herdeiro profissional; é o caso do descendente que deve assumir deveres ou responsabilidades paternas sem se revoltar. O patriarca hebreu Abraão é, nesta perspectiva, um ser cruel, orgulhoso, dominador, um ser da separação que rejeita o amor à posteridade, apesar de tudo o que os textos da ortodoxia judaica defendem contrariamente. Na Idade Média, Isaac tornou-se o símbolo do martírio judaico. A morte de crianças judias pelos pais por causa da perseguição cristã ou pelo batismo forçado foi inspirada pela akedá de Isaac, acompanhada sempre da esperança da ressurreição. 

HEGEL, 1770-1831
Ao longo da tradição cultural da humanidade, a história de Abraão e de Isaac foi interpretada e usada de diversos modos. Hegel, por exemplo, antes de Freud, viu no Deus dos judeus a imagem da crueldade, sendo Abraão um ser da separação; seu desprezo pela humanidade leva-o a rejeitar um dos sentimentos mais profundos do ser humano, o amor à posteridade. De um modo geral, inclusive na visão de escritores modernos que se valeram do tema, como Kierkgaard, Marcel Proust, Alfred Döblin e Thomas Mann, Isaac é o exemplo da vítima consentida, escravo do Pai, ser do silêncio e da solidão, sendo Abraão um patriarca egoísta e orgulhoso.

MOZART, 1756-1791
O complexo de Isaac apresenta variadas nuances. Podemos, por exemplo, encontrá-lo no mundo da realeza, nos casos de Luís XV e Luís XVI. No mundo empresarial, temos muitos casos de filhos que nos dão lamentáveis e patéticos exemplos. Entre os profissionais liberais de sucesso são notáveis os casos do complexo de Isaac, isto é, de filhos que, sem a mínima condição profissional, herdam empresas, escritórios e clínicas famosos. Um exemplo histórico de como não funcionou o complexo foi o de Mozart, ainda que Leopoldo, seu pai, tentasse impô-lo ao jovem Wolfgang. O pai pretendeu fazer com que ele, desde a infância, “entrasse” no complexo. Só que Mozart era imensamente maior do que o papel que o pai queria lhe impor. Além de inúmeros exemplos colhidos no mundo real, a literatura poderá ser também uma boa fonte para os estudos de casos deste complexo, como encontramos em Eça de Queiroz, Balzac, Turgueniev etc. 

Quanto aos gregos, como dissemos, deixaram-nos eles um dos melhores exemplos de um complexo semelhante ao de Isaac (mas muito diferente em vários aspectos) centrado na figura paterna, arquetípico para a cultura ocidental. Os antigos poetas gregos especialmente Hesíodo, sempre consideraram a Idade do Ouro da mitologia grega, que coincidiu com a do reinado de Kronos, como um período muito favorável aos humanos. Na realidade, porém, o que temos, nesta Idade, é uma sociedade estruturada com base na figura paterna, na sua necessidade de concentração de poder, na sua rigidez e na eliminação de qualquer forma de sucessão. É por esta razão que, segundo o mito, Kronos exigia que Reia, sua esposa, lhe entregasse, assim que nascidos, os filhos para devorá-los. Este modelo grego aproxima-se muito do que Franz e seu pai Hermann viveram. Kafka, entretanto, a seu modo, a duríssimas penas, conseguiu (?) superar o massacre a que o Pai o submeteu. Outro caso  exemplar, que ilustra à perfeição este complexo, é o do italiano Gavino Leda, cuja história foi levada exemplarmente para o cinema (Padre Padrone, obra-prima) pelos irmãos Taviani.

SATURNO (GOYA, 1746-1828
Ao complexo de Kronos damos também o nome de complexo do sucessor ou do herdeiro. Nos tipos mais significativos dos que neste complexo melhor se enquadram temos os casos daqueles que jamais se sentem à vontade na relação pai-filho, sempre vivendo na defensiva com relação ao pai, no seu temor, na sua dúvida, num eterno autoquestionamento, modos de ser que costumam, considerados mais de perto, tipificar muitas fases de estados depressivos ou bipolares. É por tudo isso e muito mais que Saturno (Kronos na mitologia) é conhecido também como o planeta da melancolia, estado mórbido, depressivo, caracterizado por um esgotamento físico e moral que pode levar a um progressivo apagamento do eu, acorrentados que ficam os filhos a um destino que sempre significa aniquilação, frustração e autocrítica negativa. Foi Goya quem talvez tenha melhor ”ilustrado” este complexo com a sua fantástica obra Saturno devorando um de seus filhos, encontrada na Quinta Del Sordo, hoje no Museu do Prado.


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