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AGONES ( CERÂMICA) |
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ACROCORINTO |
A luxúria de Corinto, conforme Paulo observou, desvalorizava o casamento. Embora fosse considerado como instituição divina, o casamento, para Paulo, deveria, se possível, ser evitando, mantendo-se o católico solteiro, para melhor servir a Deus, principalmente em Corinto, onde, dizia Paulo, os cultos a Afrodite eram só orgia e depravação. O que chama atenção nas diatribes de Paulo principalmente contra as mulheres pagãs é a sua severidade. Em Corinto, como se sabe, o poder feminino era muito grande, algo muito semelhante ao que se tivera em Creta, uma espécie de ginecocracia, apesar do governo da cidade ser ocupado por reis.
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ÁGAPE . |
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ADORAÇÃO AFRODITE ( TIZIANO VECELLIO, C.1516 ) |
Quando Paulo andou por Corinto, estava em alta, nos estudos filosóficos que se ministravam em muitas cidades gregas, as teses gnósticas, que sempre valorizaram o conhecimento sobre o mundo, a natureza, a ser buscado pelo homem, como uma forma de se obter uma vida melhor. Paulo colocava diante dessa maneira de pensar a fé no reino dos Céus, uma vida no além, sobretudo.
O gnosticismo defendia a criação do mundo por etapas, por gradação, tese muito semelhante à dos sábios védicos, o que contrariava frontalmente a ensinada pelos cristãos. Para Paulo, o conhecimento humano nunca poderia levar à santificação do homem, pois, em muitos casos, também abonava o pecado. A filosofia (grega), concluía Paulo, nunca poderia ser usada para a edificação da Igreja católica, pois jamais lhe daria firmeza. Para ilustrar o que dizia, afirmava que embora tivesse escapado do Egito, uma poderosa manifestação de Deus, o povo de Israel se perdera pelo fato de ter se deixado levar por tentações diversas.
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CORTEJO DIONISÍACO ( BAIXO RELEVO , MÁRMORE ) |
Dioniso era o deus da energia universal, ligado à natureza, ao mundo vegetal e animal, energia que se encontrava num perpétuo devenir, sempre se transformando, fazendo com que as formas aparecessem e desaparecessem. Como tal, era o deus das metamorfoses, das mudanças, das renovações sazonais, e, acima de tudo, mestre da fecundidade animal e humana. Era nesta condição que adquiria o nome de Faleno, simbolizado pelos animais que representavam as espécies prolíficas, como o touro e o bode.
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MISTÉRIOS DE ELÊUSIS |
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DIONISO |
São Paulo incluiu no cristianismo uma doutrina de salvação, de imortalidade da alma, e rebaixou o exemplo que poderíamos aproveitar da história de Cristo e de seus ensinamentos como vida moral. O importante para Paulo não era tanto viver de acordo com os ensinamentos de Cristo, mas, acima de tudo, aceitá-lo como salvador a fim de se garantir uma vida eterna de recompensas no paraíso. Fácil perceber que caberia à Igreja que Paulo e outros estavam a fundar a intermediação entre a morte e a paradisíaca vida eterna. A princípio um discurso para deserdados e excluídos socialmente, o cristianismo pouco a pouco foi avançando sobre as classes mais abastadas, que viram nele um poderoso instrumento de contenção daqueles, o mesmo procedimento, aliás, que a elite grega tentou adotar com relação à chegada dos cultos dionisíacos à polis grega.
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DEMÉTER |
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ADÃO E EVA ( AFRESCO MEDIEVAL ) |
No século XX, quando voltou a discutir a questão feminina, como o fez algumas vezes em sua história, o Vaticano declarou que a Igreja Católica Apostólica Romana não se considerava autorizada a admitir mulheres na ordenação sacerdotal. A justificativa para assim se posicionar era a de que Cristo não convocara nenhuma mulher para o seu apostolado, nem mesmo a Virgem Maria. Os sacerdotes deveriam possuir uma semelhança natural com Cristo e, se uma mulher celebrasse a missa, seria difícil ver nela a imagem de Cristo.
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TERTULIANO |
Os elementos constitutivos desta visão sobre o feminino foram herdados da antiguidade e amplificados pelo cristianismo na Idade Média quando seus principais representantes a consideraram a mulher uma serva de Satã e fonte de pecados, dentre os quais sobretudo a luxúria. Esta posição da Igreja vai se refletir inclusive na arte, em esculturas, poesias etc.
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BRUXA ( GOYA , 1746 - 1828 ) |
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As limitações e os preconceitos que cercam a figura feminina, através de discursos religiosos, políticos e pretensamente científicos, garantiram a sua indiscutível subordinação ao mundo masculino, cujos mais notáveis efeitos estão hoje no mercado de trabalho. Com isso, vem se perpetuando, sob a égide de um controle religioso, a submissão social e política da mulher ao mundo masculino.
A visão que a Igreja católica tem da mulher e do pecado é, ainda hoje, fortemente inspirada pela Idade Média. Compreenda-se: no mundo medieval europeu, na alta Idade Média, o cumprimento dos preceitos da Igreja católica era razoavelmente controlado, isto é, conheciam-se os pecadores, embora, os seus sacerdotes, semiletrados, se vissem, na maior parte das vezes, principalmente em cidades um pouco maiores, diante de uma extensa gama de pecados que nem em livros eram citados.
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PENITENTES ( JUAZEIRO , BAHIA ) |
Sabe-se que o pecado mais confessado durante a alta Idade Média era o da emissão seminal involuntária, que gerava uma pena de sete dias de jejum, se fosse involuntária. Se auxiliada manualmente (masturbação), vinte dias. No caso de um sacerdote que se masturbasse num lugar sagrado, a pena atingiria cerca de trinta dias, elevando-se para cinquenta no caso de bispos.
O maior pecado cometido era a contracepção, um pecado da luxúria, ou seja, a adoção de métodos que evitassem a fecundação da mulher. Este pecado era sumamente grave se envolvessem “venenos geradores da esterilidade”, o intercurso anal ou oral (seminem in ore, sêmen na boca) ou o coitus interruptus, pecados quase tão graves quanto o do homicídio.
O jejum, quando fixado, como penitência podia ser praticado, com exceção do pão e da água, pela abstinência de alguns alimentos, da carne, por exemplo,ou de bebidas. Uma alternativa surgiu no séc. XI, quando se estabeleceu o chicoteamento do culpado pelo sacerdote paroquial, nessa penitência se incluindo o canto de salmos penitenciais. Por exemplo, um homem que tivesse uma ejaculação noturna involuntária, deveria levantar-se e entoar sete salmos. Pela manhã, ao se levantar mais trinta salmos.
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SÃO JERÔNIMO ( M. CARAVAGGIO , 1571 - 1610 ) |
O aborto com até quarenta dias da concepção (antes que o feto houvesse adquirido alma humana) era menos pecaminoso que a contracepção. Segundo São Jerônimo, as mulheres promíscuas que tomassem poções para provocar o aborto e que morressem cometiam tríplice assassinato: eram suicidas, adúlteras com relação a Cristo (seu esposo celeste) e assassinas do próprio filho por nascer.
Os mais favorecidos pela Igreja, quanto às penas, sempre foram os heterossexuais. Quanto aos homossexuais, mão pesada. A sodomia, coito anal entre indivíduos do sexo masculino ou entre um homem e uma mulher, era um vício tão abominável que, como menciona a Bíblia, a cidade, Sodoma, onde a imoralidade fora perpetrada, foi destruída pelo fogo e pelo enxofre.
A homossexualidade sempre se constituiu num grande perigo para a Igreja católica, pois ela sabia que em suas fileiras havia muitos homossexuais. No século VI, medidas conciliares determinaram, com relação à regra beneditina, que monges nunca deveriam dormir aos pares numa mesma cama, mantendo-se, além do mais, acesas a iluminação dos dormitórios. Isto não impediu, contudo, que os mosteiros fervilhassem de sodomia, que sempre foi um problema menor diante da heterossexualidade do clero e da zoofilia, muito disseminada.
A atitude básica da Igreja, com relação aos pecados acima apontados, cometidos intramuros, foi de leniência, ao reconhecer que eles comportavam inúmeras gradações, num campo vastíssimo de expressão. As penalidades impostas, sempre temperadas de misericórdia, tornaram-se muito complexas. A idade do pecador, sua ocupação (se monge, maior a severidade), sua posição, se ativa ou passiva, a frequência da transgressão, sua extensão e muitos outros itens eram levados em consideração, em intermináveis discussões.
Exemplos (para transgressores abaixo de 20 anos) – Beijo simples: oito jejuns especiais; beijo licencioso, sem ejaculação, oito jejuns especiais; beijo com ejaculação e carícias, dez jejuns especiais. Masturbação mútua para homens acima de 20 anos – Vinte a quarenta dias de penitência. Cem dias numa segunda transgressão. Se habitual, os envolvidos seriam separados e fariam penitência por um ano. Conexão inter-femural (inserção do pênis entre as coxas do parceiro passivo), penitência de dois anos. Felação (intercurso oral), quatro anos de penitência. Na reincidência, sete anos. Sodomia (intercurso anal), sete anos de penitência.
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SANTO AGOSTINHO ( VITRAL ) |