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O AVARO |
Jean de la Fontaine (1621-1658), o inesquecível escritor francês, muito conhecido pelas suas fábulas, fez da formiga um símbolo da avareza, do egoísmo, ainda que apresentando-a com traços positivos, ao reconhecer a sua atividade industriosa, a sua vida organizada em sociedade, a sua previsão. Em outras tradições, essa mesma ideia aparece, como no oriente, onde a formiga é vista tanto como símbolo de uma vida industriosa como de um excessivo apego a às coisas e aos bens do mundo.
Abaixo o clássico A Cigarra e a Formiga, do nosso grande escritor:
Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga
Que morava perto dela.
Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o aceso estio.
"Amiga, diz a cigarra,
Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos antes de agosto
Os juros e o capital.
A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
"No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.
Responde a outra: "Eu cantava
Noite e dia, a toda hora
Oh! Bravo! Torna a formiga;
Por trás da avareza, esconde-se o chamado complexo oral, que produz tipos humanos cujos impulsos básicos existenciais os orientam sempre para a absorção, para uma disposição irrefreável de captar, dominada pelo ter o mais possível. A estética da avareza é totalmente dominada pelo elemento terra (sensação), nela prevalecendo o peso, o volume, a forma, a cor, o valor, a quantidade, a durabilidade, o lucro etc. Esta discussão nos remete de certo modo ao verbo latino avere, querer muito, desejar desesperadamente, do qual saiu a avaritia. A rigor, não podemos considerar este querer muito, este desejar desesperadamente, como pecado. A questão maior está certamente no que se faz para esse querer muito nos tomar e o que vem com ele, como vimos, aquilo do que esse querer se nutre para ter sucesso, que acaba impedindo qualquer troca ou abertura com relação ao nosso próximo.
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DINHEIRO |
Dinheiro é meio de pagamento, na forma de moedas ou cédulas, emitido e controlado pelos governos de cada país. A palavra vem de denarius, latim, referindo-se a uma moeda romana que valia dez ases (unidade monetária romana). Outros nomes para designar o dinheiro: arame, bolsa, cabedal, capim, caraminguá, cascalho, cobre, erva, gaita, grana, metal, numerário, pecúnia, pila, prata, tostão, tubos, tutu, verba, prata etc.
De um modo geral, todos se sentem incomodados ao falar de dinheiro. Pensa-se nele todo o tempo, mas ninguém gosta de falar dele. Se interrogamos alguém sobre seu salário, sobre seus lucros, sobre seu patrimônio, essa pessoa geralmente desconversa. Se insistimos, muitos enrubescem até as orelhas, como se tivéssemos penetrado em sua intimidade mais profunda, mais secreta. Este pudor é geral em quase todas as pessoas. Trata-se de um tabu, o último talvez que persiste e que continua a impor silêncio.
A palavra dinheiro é considerada tão chocante que mesmo a imprensa especializada a coloca atrás de nomes neutros, tais como lucro, interesse, dividendo, economia, provento. valor, renda etc... Mesmo os profissionais quando recebem ou pagam, não falam em dinheiro, mas referem-se a salário, recompensa, soldo, honorário, estipêndio, remuneração, tarifa, emolumentos, ordenado, paga, comissão, retribuição, contagem, embolso, féria, jornada, vencimento e outros sinônimos.
O dinheiro é tanto objeto de desprezo e repulsa como do desejo e da veneração ao mesmo tempo. Toleramos com dificuldade que um indivíduo receba os benefícios das riquezas que ele criou. Instintivamente, sentimos também repulsa pelo contato físico com o dinheiro. Quanto mais subimos na escala social, menos desejamos "sujar" as mãos diretamente com ele. Acerte com a secretária, por favor, é a mensagem, às vezes envergonhada. Se quisermos nos consolar um pouco, fiquemos com a frase de J.J. Rousseau: A infelicidade não está na privação das coisas, mas na necessidade que temos delas.
Qualquer que seja o enfoque, porém, a avareza é sempre uma patologia do ter. O ter diz respeito às necessidades concretas da vida, necessidades estas que correspondem às satisfações das exigências do corpo (alimentação, excreção, sexo, abrigo etc). Mas, por razões as mais diversas, muitas vezes tendemos a acumular bens materiais, informações, conhecimentos os mais variados e chegamos mesmo, em casos extremos, a guardá-los egoisticamente sem desejarmos compartilhá-los com ninguém. É a perversão da dimensão do ter.
A era industrial destacou o valor-coisa além de retirar do ser humano o trabalho e impingir-lhe um emprego. Temos a busca de estabilidade, o anseio pela solidez. Esta é uma das características do avaro, que persegue a posse, mas esta apenas não o satisfaz. Precisa seguir acumulando, sempre com o pavor de perder e de não conseguir continuar concentrando nesse incansável afã. Seu desejo, portanto, não é jamais satisfeito. Somemos a tudo isto a teoria econômica atualmente predominante em nossa sociedade, que abre caminho para que a avareza seja considerada como um valor de base, quando na verdade ela é uma patologia. Privilegia-se o "meu" e busca-se por todos os meios transformar o não-meu em meu. O que interessa é captar, estocar, entesourar, conservar., guardar sempre, cada vez mais e jamais perder.
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MEU ! |
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BANQUEIRO MEDIEVAL |
Na Idade Média, dava-se o nome de usura a um suplemento ilicitamente agregado ao pagamento de alguma dívida e também ao pecado que consistia na exigência deste suplemento. As restrições que a Igreja católica fazia com relação a este procedimento, cobrança de juros, na prática, já no fim da Idade Média, eram consideradas como um grande entrave a operações de crédito e, por extensão, ao desenvolvimento econômico no ocidente medieval.
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CONCÍLIO DE NICEIA |
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ARGENTARII |
A partir da baixa Idade Média, a atividade tomou grande impulso. Aos poucos, as operações financeiras acabaram se concentrando nas mãos de três segmentos: judeus, templários e lombardos. No renascimento, as casas bancárias já estavam internacionalizadas. Juro é palavra que vem de jus, juris, direito, isto é, força, ato de submeter, de subjugar. Por trás desta palavra estão os radicais indo-europeus yeug ou yug, que traduzem a ideia de atrelar, de submeter ou de unir, encontrados em palavras como jugo, conjugar, jungir, quadriga (forma sincopada de quadriuga).
Se formos além, à língua sânscrita, temos, na Índia, Yoga, que vem de yuj, tanto uma escola de filosofia como uma técnica colocada ao alcance do homem para que ele possa controlar o seu turbilhão mental e os seus descontroles emocionais.
Numa tradução livre, Yoga é a “arte de atrelar cavalos, entendendo-se estes como símbolos do psiquismo inconsciente. Lembre-se que Sidartha Gautama atrelou os seus cavalos, isto é, controlou a sua mente e dominou as suas emoções, iluminou-se, quando se sentou, numa noite de Lua cheia, sob uma árvore, a ashvata, literalmente, a árvore em baixo da qual os cavalos se aquietam, uma espécie de figueira (fícus religiosa).
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BUDA MEDITA SOB A BODHI TREE |