Um número é a expressão gráfica de uma quantidade, contagem, ordenação. Relação entre a unidade e seus submúltiplos e múltiplos. É ritmo de um período. É singular e plural. A ciência dos números é a base da Gnose (conhecimento), diziam os antigos gregos. O verdadeiro conhecimento era, nessa perspectiva, ao mesmo tempo ciência e iluminação interior. Desde tempos imemoriais, a ciência dos números permanece a mesma. Pitágoras falava que os números não eram abstrações, mas virtudes intrínsecas do um, as forças ativas da divindade no universo. Com base nos números, o mestre grego elaborou uma teogonia.
Os hindus explicam a criação pela passagem do zero ao um, o primeiro germe do ser. O zero, indefinido, contém em potência
todas as possibilidades do ser, infinitas possibilidades. O um, matematicamente, é igual ao produto do zero pelo infinito, isto é, do nada pelo todo. A diversidade e a multiplicidade procedem da divisão da unidade. A palavra número vem do grego (némô), dividir, partilhar, distribuir.
O movimento do um ao múltiplo corresponde à dinâmica da criação, uma involução do ponto de vista espiritual, evolução do ponto de vista material. O movimento do múltiplo ao uno corresponde à reintegração. Os pensadores védicos expressaram tudo isto através de conceitos religiosos. A passagem do Brahman, o Uno, ao universo, à multiplicidade, é o que eles chamavam (chamam) de criação. O que foi criado se mantém por uns tempos e depois desaparece, reintegrando-se ao Uno. A criação é conduzida por Brahma, a conservação por Vishnu e a destruição por Shiva, as três pessoas da trimurti (três aspectos) hinduísta.
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TRIMURTI |
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DVANDVA |
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ISHVARA |
e depende da individualidade de cada pessoa, do ponto de vista (da situação) em que ela se coloca para dar a sua opinião. Foi por esta razão, aliás, que os hinduístas, embora pensando no Brahman, criaram a noção de Ishvara, de um Deus individual, pessoal. A isto eles chamam viver no relativo, mas com os olhos voltados para o Absoluto.
A vida transcorre entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno. Os números infinitesimais, por exemplo, tentam ser uma expressão do infinitamente pequeno. Entre as partículas
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GALÁXIA |
Foi por isso que se criaram os números transfinitos, que representam não só quantidades, mas qualidades absolutas. Os números transfinitos são metafísicos. A ideia aqui é a de que o universo não se limita ao mundo físico, que há realidades não físicas (ainda um escândalo para muitos “homens da ciência”).
Com os números transfinitos será possível “contar” o Todo, o Absoluto, do qual nada se tira ou ao qual nada se acrescenta, pois
ele permanece sempre igual a si mesmo, se auto-regenerando (as escolas de filosofia da Índia começaram a falar disto por volta de 2.000 aC). Para se ter uma ideia desses números fantásticos, uma história: um rei resolveu recompensar um sábio que lhe ensinou o jogo do xadrez. O sábio pediu então humildemente que o rei mandasse que fossem colocados um grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, dois na segunda casa, quatro na terceira e assim por diante, dobrando-se o número a cada casa. O rei, a princípio, achou ridículo o pedido do sábio. Logo, porém, entrou em pânico quando viu que o crescimento dos grãos de trigo se fazia segundo uma progressão geométrica. Para atender ao pedido do sábio teria que praticamente entregar-lhe o seu reino.

A esfinge egípcia é tetramorfa, cabeça humana, asas de águia, flancos de touro e membros de leão. A aritmética tem quatro operações básicas. A Lua tem quatro fases; o ano tem quatro estações; temos quatro livros nos Vedas e quatro evangelhos no Cristianismo; Buda fala nas quatro nobres verdades; no Apocalipse são mencionados quatro cavaleiros; na mitologia grega temos os quatro ventos principais; na medicina primitiva e na Astrologia temos os quatro temperamentos; os grandes profetas do Antigo Testamento são quatro; a Igreja católica tem quatro grandes doutores; a divisa dos alquimistas tinha quatro itens. Na antiga China, o palácio imperial
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QUATRO TESOUROS |
A cruz, em todas as tradições religiosas sempre simbolizou a

O centro da cruz é o lugar de convergência, ponto de equilíbrio, lugar de cruzamento, dando-nos a ideia de eixo, lugar de irradiação de onde parte o movimento do Uno em direção do múltiplo. O centro é ponto de irradiação e de convergência de todos os
processos de emanação. No centro não há mudanças, ali o tempo não transcorre. O centro se confunde com o omphalos, o umbigo, como o encontramos no papel que o Oráculo de Delphos desempenhou na vida religiosa, política, social, econômica e individual na Grécia antiga. Nos tempos pré-históricos, o centro, o omphalos, era representado pelas Grandes-Mães obesas, princípio da vida e da morte.
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GRANDE MÃE |
O centro é fundamental, primordial, essencial. É o ponto em relação ao qual equidistam os pontos da circunferência. Como símbolo da ordem, é dele que emana a lei organizadora; num nível superior, ele é cultura e vida espiritual. Em grego, kentrum, centro, é aguilhão, ponta do compasso, nó. O centro é o ponto em torno do qual se fazem circunvoluções (Borobodur, Meca, Hardwar, Jerusalém etc.). A busca do centro simboliza para o peregrino a busca do seu centro interior. É, num certo sentido, a passagem do profano ao sagrado, do efêmero e ilusório à eternidade, da morte à vida, do humano ao divino. O acesso ao centro consagra (sagrar aqui é colocar-se a serviço de Deus), equivale a uma iniciação. Chegar ao centro é entrar numa existência real.
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BOROBUDUR |
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DECAPITAÇÃO DE LUÍS XVI |
A cruz, em muitas tradições iniciáticas, simboliza a realização do homem integral ao indicar a capacidade metafísica do seu espaço interior nos sentidos: 1) vertical, o da exaltação, representado pela cruz alta ou cruz latina; 2) horizontal, o da amplitude, representado pela cruz grega; 3) espacial, o da luz, o do chrisme (monograma de Cristo) ou cruz espacial; 4) temporal, o da sonoridade, da suástica.
Especial referência merece a chamada cruz suástica muito usada como símbolo religioso, mas aparecendo também como amuleto, decoração, arte funerária (Idade do Bronze), marca comercial, estampada em moedas e, mais recentemente, como símbolo político. Esta cruz é também chamada de gamada, por lembrarem os seus braços a letra gama, grega. Como símbolo religioso foi usada com os braços voltados para direita ou para a esquerda, podendo ser recurvas as suas extremidades. Entre os brâmanes e budistas representava a felicidade e a boa sorte. Com os braços voltados para a direita, a cruz gamada foi adotada como emblema oficial do terceiro Reich e do Partido Nacional Socialista Alemão, simbolizando o Nazismo. Em sânscrito, svastika quer dizer boa sorte, bom agouro, derivando-se a palavra de svasti, salve! No Nazismo, a suástica aparecia em negro sobre um fundo branco, encimado o emblema por uma águia.
WAN TSU EM ANTIGA PORCELANA CHINESA |
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CHAKRAS |
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FOTO DE MARTIN LIEBERMANN - www.martin-liebermann.de |
Intimamente relacionada com a cruz temos a encruzilhada,
onde os caminhos se cruzam, o chamado quadrivius ou quattuor via dos latinos, lugar de aparições e de invocações em todas as culturas. A encruzilhada é um lugar onde paramos, refletimos, para decidir quanto ao caminho a ser tomado. É um lugar de reflexão; conforme a decisão tomada, vamos de uma situação para outra, podemos mudar o nosso destino. Em todas as culturas encontramos também a ideia de que nas encruzilhadas aparecem gênios, espectros, fantasmas, criaturas do outro mundo, monstros, animais fabulosos, que nos amedrontam, que nos testam, submetendo-nos às provas das passagens.
As encruzilhadas são sempre marcadas: um monte de pedras, estátuas, imagens, cruzes, pequenos altares, capelas. Ali, depositamos as nossas oferendas para atrair a proteção dos seres que guardam as
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Na Mitologia grega, as encruzilhadas são governadas por duas divindades, Hermes e Hécate. O nome do deus vem de herma, em
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HERMES ITIFÁLICO |
O poder sobre as encruzilhadas era dividido por Hermes com a deusa Hécate (etimologicamente, a que fere de longe,
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HÉCATE |
Os romanos tinham por hábito dar aos lugares e edifícios públicos,
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LARES |
Com o tempo, fixou-se uma distinção: os espíritos de criminosos ou de pessoas que haviam tido um fim trágico receberam o nome de Larvas ou Lêmures Ao invés de proteger, atormentavam os vivos, sendo inclusive responsáveis por transtornos mentais, perturbações
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LEMURÁLIAS |
A designação de Lares fixou-se só para os espíritos protetores. Distinguiam-se vários tipos de Lares, domésticos, familiares, públicos etc. Os domésticos, por exemplo, tinham uma imagem perto do fogão da casa, cercada sempre de muito cuidado, junto dela se depositando flores, fazendo-se preces. Há registros de que os Lares eram muitas vezes repreendidos quando uma pessoa querida, que não estava “pronta” para morrer, falecia. Os Lares eram então acusados de desleixo, de se terem deixado surpreender pela ação das entidades maléficas.
No Candomblé, religião africana estabelecida no continente americano com diversas expressões, o nome de espírito de morto,
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EGUM |
No Candomblé, Exu, dentre outros atributos que possui, é a grande divindade das encruzilhadas; é chamado de “o Homem das Encruzilhadas”, mensageiro dos Orixás, guardião dos limites. Seu

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EBÓ |