sexta-feira, 3 de junho de 2011

A CAMÉLIA


As flores são símbolos universais, usadas para representar a vida florescente, a juventude, a realização de possibilidades latentes, um modelo de manifestação. Desenvolvendo-se a partir da água e da terra, representam assim um princípio de manifestação a partir de dois elementos passivos. Seu cálice é o receptáculo da água (chuva, orvalho), da atividade celeste.


Os romanos tinham no seu mito a deusa Flora, potência vegetal que governava tudo o que florescia. Ovídio parece ter recolhido o nome Flora num mito helênico, o da ninfa Clóris. Num dia de primavera em que errava pelos campos, o vento Zéfiro, protetor das chuvas primaveris, dela se enamorou e a raptou. Concedeu-lhe como recompensa o poder de reinar sobre todas flores, tanto as dos jardins como as dos campos.

Aparecendo ora como elemento decorativo pessoal, ora como código amoroso (principalmente pelas mulheres, usando-as muito pouco os homens com esta função), seja pelo arranjo de suas pétalas, seja por razões estéticas (pela sua cor), seja por suas propriedades psicotrópicas, eróticas, religiosas (uma vitória sobre a morte), as flores podem ser usadas como proteção, como mensageiras da paz, como porte-bonheurs (o lírio do vale, o muguet dos franceses) os porte-malheurs (as flores de plantas parasitas, como a orquídea, que jamais devem ser trazidas para dentro de casa).

O nosso tema é a camélia, uma flor que pode durar vários dias depois de colhida, mas que, se tocada, cobrir-se-á de manchas escuras. As folhas, resistentes e brilhantes, são muito decorativas e podem servir de acompanhamento até para outras flores, em arranjos e buquês de noiva.

Uma poetisa inglesa, Elizabeth Barret Browning (1806-1861), cujo renome muito se deve aos poemas que escreveu para Robert Browning, também poeta, por ela esposado secretamente, deixou-nos o seguinte texto sobre as flores: “Elas expressam a linguagem do amor. Para descobrir as melhores frases, nenhuma floração é mais adequada. Quando cultivadas em caramanchões, as donzelas ficam imaginando se mais doces são as flores ou as intenções.” Dentre as inúmeras flores que são usadas como símbolo, a camélia tem uma peculiaridade muito curiosa porque, além de fazer parte do código afetivo, apareceu num determinado momento da História brasileira com grande estaque por razões políticas.

Com flores vermelhas, brancas ou róseas, a camélia tem mais de duzentas espécies diferentes. Cultivada como ornamental, suas folhas podem ser usadas em infusões. Uma das espécies mais presentes nos jardins e salas é a chamada Camellia Japonica, um arbusto da mesma família, nativo do Japão, de flores vermelhas, amplamente cultivada como ornamental. No Oriente, principalmente na China, a camélia representa a feminilidade, sendo por isso muito retratadas nas artes decorativas.

A planta foi levada para a Europa, para a Itália, em 1739, por um jesuíta, o padre botânico Camellius (Jorge José), de cujo nome sai o da flor. Encantado pela sua beleza, o jesuíta plantou uma muda no Jardim Botânico de Caserta. Segundo os relatos que nos vêm do século XVIII, a muda plantada pelo padre Camellius se transformou na mais famosa cameleira já vista, chegando à altura de oito metros, tendo durado 153 anos.

Dentre outros que se aproximaram da flor para utilizá-la em suas obras, dois nomes se impõem na Europa, Giuseppe Verdi (1813-1901) e Alexandre Dumas Filho (1824-1895). O primeiro usou a camélia em La Traviata (1853), talvez a sua obra-prima, ópera que conheceu sucesso mundial já ao tempo em que foi apresentada. Traviare, em italiano, é desviar-se do caminho. Num outro sentido, é afastar-se do caminho reto, o do bem, e tomar o do mal, corromper-se moralmente.

La Traviata é uma ópera em três atos, baseada num libreto de Piave, inspirada na obra de Alexandre Dumas Filho, A Dama das Camélias (1853). Os personagens principais, Marguerite Gautier e Armand Duval, se transformam na ópera em Violetta Veléry e Alfredo Germont, respectivamente. A ação se situa no século XVIII, mantida a intriga elaborada por Dumas Filho, realçada pela música de Verdi, que atinge, como poucas vezes se teve antes ou depois na ópera, uma expressão dramática tão elevada.

O texto de Alexandre Dumas Filho é um drama em cinco atos, baseado num seu romance anterior de 1848. Demi-mondaine, envolvida em muitas relações, Marguerite Gautier só ama verdadeiramente o jovem Armand Duval, cujo pai, um burguês conservador e rigoroso, pressiona a jovem para que abandone o filho, fazendo-o crer que assim age porque deixara de amá-lo, o que não era verdade. De saúde muito frágil, Marguerite morre, atacada pela tuberculose, a moléstia do Romantismo. É no texto de Dumas Filho que a camélia, como símbolo, tem o seu esplendor: Marguerite usava esta flor para externar tanto a sua disposição interior como o que sentia por seus pretendentes. Muito se especulou sobre o significado das camélias que usava: a branca e a vermelha. Para alguns, nos salões que frequentava, a camélia vermelha era um sinal de impedimento, de que não estaria disposta, já que (entendessem como quisessem!) tanto poderia indicar que estava no seu período menstrual e/ou que alguma hemoptise poderia ocorrer (esta última hipótese, espalhada pelos maldosos). Já a camélia branca significaria disposição para contatos, abertura afetiva. Sem camélias, uma terceira hipótese, Marguerite estaria disposta para o que desse e viesse.

Na ópera de Verdi, encontramos o seguinte diálogo:

Violeta - Se isso for verdade, fuja de mim.
Só amizade lhe ofereço.
Amar não sei,
Nem suporto tão heroico amor.
Sou franca, ingênua...
Deve procurar outra,
Não achará difícil, então,
Esquecer-me...
Alfredo - Farei o que diz. Vou embora.
(Afasta-se)
Violeta - Então já chegou a esse ponto!
(Tira uma flor do pequeno buquê em sua cintura)
Tome esta flor.
Alfredo - Para quê?
Violeta - Para devolvê-la a mim.
Alfredo - (voltando-se)  Quando?
Violeta - Quando murchar.
Alfredo - Quer dizer... amanhã?
Violeta - Está bem, amanhã.
Alfredo (pegando a flor com enlevo) - Estou feliz...
Oh! Tão feliz!


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Alexandre Dumas Filho era filho natural de Alexandre Dumas e também escritor e dramaturgo como o pai (1801-1870). Autor de outras obras como Le Fils Naturel, Monsieur Alphonse, Denise e Francillon, Dumas Filho criava intrigas movimentadas e colocava no seu teatro, como chamava, as tranches de vie, que procuravam, pelo prosaísmo da linguagem e pela banalidade do tratamento psicológico, criar a ilusão do cotidiano.

Defensor dos direitos da mulher e da criança, particularmente atento aos problemas sociais (sedução, adultério e divórcio), deu aos seus personagens, encarregados de defender as suas teses, grande eloquência, artifício que ele usará também nos inúmeros prefácios e romances que escreveu (Diane de Lys, L´Affaire Clemenceau), em romances de folhetim (La Recherche de la Paternité).


Uma curiosidade literária: a escritora portuguesa Maria Eugênia Haas Costa Ramos (1892-1927), nascida em Évora, adotou o pseudônimo de Diana de Liz, em homenagem a Dumas Filho. Deixou-nos duas obras, Memórias duma Mulher da Época e Pedras Falsas, publicadas por seu companheiro Ferreira de Castro, que mandou construir, para acolher seus restos mortais, um mausoléu em Ossela.

Embora defensor das mulheres, Dumas Filho dava ao homem o direito de fazer justiça com as próprias mãos, caso enganado. "Um marido que tem dúvidas sobre a mulher e que, para esclarecê-las, hesita em abrir as cartas que ela recebe, é um imbecil", dizia ele, que considerava natural a infidelidade masculina . Tolstoi e Maupassant foram grandes admiradores de sua obra. A ele devemos o aparecimento de vários personagens importantes na história do drama, embora seus assuntos pequem pelo excesso de sentimentalismo, carregado de tons melodramáticos.

A obra de Dumas Filho só poderá ser compreendida se levarmos em conta que a França no período em que ele aparece passava por grandes mudanças políticas e sociais. A liberdade já não bastava; era preciso lutar contra os excessos flagrantes da injustiça social. Regimes políticos sucediam-se rapidamente (Consulado, Império, Restauração, República). A ciência ganhava prestígio com as suas inúmeras descobertas. A indústria se desenvolvia. Enormes fortunas eram formadas. A burguesia rica acelerava a sua ascensão para se tornar a classe dirigente do país. A permissividade dos costumes tornou-se pública e banal. Nas artes, na literatura, o Romantismo se firmou e o Realismo começou também a se impor. Grandes nomes dominavam então a cena: Chateaubriand, Corot, Berlioz, Delacroix, Lamartine, Vigny, Victor Hugo, Musset, Gautier, Nerval, Chopin, George Sand, Balzac, Stendhal, Merimée, Baudelaite e muitos outros...

Dumas Filho foi inegavelmente um dos reis do melodrama, gênero que Verdi, como ninguém, soube explorar na ópera. O Romantismo, como sabemos, surgiu como um protesto contra os textos frios, as representações pedantes, as análises secas, os personagens demasiadamente intelectualizados. Foi a França que chamou a atenção para o melodrama, oriundo do drama burguês.

O melodrama se caracteriza em primeiro lugar pela sua proposta moralmente didática, a de exercer forte influência sobre os espectadores através de ações saturadas de emoções. Refletia a ideologia burguesa progressista, sua ardente fé no triunfo final da verdade, pois no palco o vício e a maldade eram sempre desmascarados e castigados, enquanto a virtude triunfava. Lutava esse gênero teatral, impregnado de um pathos revolucionário, contra a tirania, a favor da igualdade, era anticlerical e muito mais. Procurou o melodrama, com alguns exageros, colocar no palco a imagem do homem real, com as suas lutas e as suas alegrias, baseando-se em temas de fácil compreensão, tratados com uma liberdade que não era permitida pelos temas clássicos.

No século XX, na França, a camélia foi imortalizada por Gabrielle Chasnel, a famosíssima Coco Chanel (1883-1971), que a usou para símbolo de sua arte, sempre um presente elegante para homens e mulheres, traduzindo beleza, harmonia, o savoir vivre, enfim. Dona de uma das mais renomadas casas de alta costura da França, aberta em 1916, Coco Chanel revolucionou a moda feminina com seu modelos simples e elegantes, além de ter sido a primeira modista a lançar um perfume com o a sua marca. Seu estilo dominou a moda por muitos anos, merecendo destaque o seu tailleur gansé de tweed.

Quanto à presença da camélia na História brasileira, lembremos, conforme os escritores que descreveram as lutas abolicionistas na segunda metade do século XIX, que a camélia era o símbolo da Confederação Abolicionista, criada em 1883, no Rio de Janeiro, com sede no jornal ‘Gazeta da Tarde’. A escolha da camélia como símbolo do movimento abolicionista era explicada porque havia no Rio de Janeiro, ao tempo, um famoso quilombo no bairro do Leblon onde eram produzidas flores, especialmente camélias, que abasteciam a então capital do país.

No dia 13 de maio de 1888, no momento em que a princesa Isabel assinava a chamada Lei Áurea (n° 3.353), foram-lhe entregues dois buquês de camélias, um, artificial, pela diretoria da Confederação, em nome do movimento vitorioso, e outro, de flores naturais, vindas do quilombo do Leblon, por gente do povo, que o abolicionista Rui Barbosa definiu como “a mais mimosa das oferendas populares.”

Desde muito que a camélia, natural ou artificial, era um símbolo da ala radical do movimento, utilizada inclusive como senha para a identificação dos seus participantes. Todos os que se envolviam mais perigosamente no movimento, apoiando fugas, criando esconderijos, usavam camélias. Qualquer escravo que fugisse encontrava um protetor, identificando-o pela camélia que ostentava no decote, se mulher, ou na lapela, se homem. A própria princesa Isabel, que, inicialmente, ficara alheia ao movimento, aderiu a ele aos poucos. Essa adesão ficou patente quando passou a ser vista com camélias no decote, aparecendo em público com as flores. O palácio imperial de Petrópolis, por sua iniciativa, teve seus jardins cobertos de cameleiras.

É preciso que fique claro, para não se ficar defendendo inverdades, que a lei Aurea não foi um presente da princesa Isabel mas, sim, uma conquista das bases, dos quilombos e dos intelectuais e políticos que se empenharam no movimento, figuras como as de José do Patrocínio, João Clapp, Rui Barbosa, Brício Filho, Joaquim Nabuco e André Rebouças, intelectual, o primeiro negro a se formar em Engenharia e que, depois, se tornaria catedrático na Escola Politécnica.

A princesa Isabel e algumas damas da corte só na reta final do regime imperial passaram a apoiar o movimento libertário. De 1887 em diante, a elite, a alta-roda, que até então sempre classificara o movimento abolicionista como “arruaça”, “baderna”, procurou se ver livre de seus escravos. Até fins de 1887, ser abolicionista era complicado, exigia sacrifícios. Do início de 1888 em diante, como a princesa e as damas enfeitassem o colo com camélias, ser abolicionista virou moda, a alta-roda entrou de cabeça no movimento, aproveitando para jogar na rua um enorme contingente de negros, grande parte dele indo se refugiar nos morros do Rio de Janeiro. Daí para a frente, o resto da história nós já sabemos. É essa gente que hoje, por exemplo, descendo dos morros do Rio de Janeiro, vem para o asfalto"cobrar" a conta pendurada pela princesa Isabel. O samba de Herivelto Martins (Ave Maria no Morro: viver no morro é viver pertinho do céu, lá tem passarada ao alvorecer, sinfonia de pardais etc.), embora um clássico nostálgico, decididamente não tem lugar no atual cenário das favelas cariocas.


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Quanto ao mais, a camélia só iria reaparecer no século XX, nos salões e desfiles carnavalescos, com a inesquecível A Jardineira, de Benecdito Lacerda e Humberto Porto, o primeiro autor ou co-autor de grandes sucessos entre 1930 e 1950, como Macaco, olha o teu rabo, Despedida de Malandro, Falta um zero no meu ordenado, A Lapa.

A JARDINEIRA

Ó jardineira,
Por que estás tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi a camélia que caiu do galho,
Deus dois suspiros
E depois morreu.
Vem, jardineira,
Vem, meu amor.
Não fique triste,
Que este mundo é todo teu,
Tu és muito mais bonita
Que a camélia que morreu.



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Para que desejar ir mais fundo, ficam aqui as sugestões de filmes baseados no tema: 1) Camille, aqui no Brasil, A Dama das Camélias, dirigido por George Cukor, muito bom diretor por seu estilo e sólida direção de atores. Fez grandes sucessos com suas comédias dramáticas e musicais, frequentemente adaptadas do teatro ou do romance. Exemplos: O Romance de Margueritte Gautier (1936), com Greta Garbo, Robert Taylor, Lionel Barrymore; Les Girls (1957), My Fair Lady" (1964), David Copperfield (1935) e outros. 2) A Dama das Camélias ou La Vera Storia della Signora delle Camelle, de 1980, direção de Mauro Bolognini, com Isabelle Huppert, Bruno Ganz, Gian Maria Volonté, Fernando Rey. 3) A Dama das Camélias, (1999) direção de Jean-Claude Brially, com Cristiane Reali no papel título, filha do jornalista brasileiro Reali Jr., recentemente falecido.

A direção de Brially é correta, mas marcadamente teatral, como a de Bolognini, aliás. A reconstituição de época é um dos pontos altos do filme, inclusive decoração e figurinos. A música de Jouannest adapta-se ao drama, mas, como estamos demasiadamente impregnados da música de Verdi quando pensamos no tema, não podemos deixar de lamentar a sua ausência.