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quarta-feira, 7 de outubro de 2020

A VIDA COMO VIAGEM INTERIOR



Em todos os mitos, quando encontramos referências a viagens, temos sempre diante de nós ideias de buscas, de procura, de algo que está além, longe, a exigir, para a sua consecução, a realização de façanhas por personagens que na cultura ocidental, desde os antigos gregos, receberam o nome de heróis. Podem estas viagens, nas quais não faltam obstáculos de dificílima transposição, se caracterizar como travessias marítimas, de desertos, escalada de montanhas, peregrinações, odisseias sem fim, descidas ao fundo de mares, ao mundo subterrâneo, infernal, como busca de paraísos perdidos, de tesouros, libertação de princesas, lutas contra monstros etc. 

A figura mítica que se lança nessas viagens procura, de um modo geral, ultrapassar as suas limitações históricas e geográficas para se relacionar com aspectos de vida que se caracterizem, segundo julgam alguns, como formas de existência novas, superiores. Tais modelos buscados, porém, se aprofundada a leitura dos relatos que temos deles, parecem não trazer, no geral, uma satisfação plena aos que realizaram tais viagens. Elas costumam, é certo, lhes dar renome, glória (kleos, entre os gregos), já que se constituem em matéria privilegiada para cantores e poetas em várias tradições, os arautos da Pheme ( A Fama).

PHEME
Com muitos olhos e ouvidos, Pheme, filha de Elpis (A Esperança) era uma deusa que vivia nos confins da Terra num palácio de bronze, com uma infinidade de orifícios, através dos quais eram captados e depois de averiguados pessoalmente por ela,  divulgados todos os sons e mesmo rumores que lhe chegavam do mundo todo. No seu trabalho, cuidadoso e moralmente  consciente, Pheme, auxiliada por Angelia (a personificação das mensagens, das notícias  e das proclamações), era muitas vezes perturbada pela ação de muitos daimons (demônios), como Dolos (A Trapaça), Apate (A Malícia ou O Ardil), Phtonos (A Inveja), Dzelos (A Rivalidade), Hybris (A Soberba), Pseydos (A Falsidade ou a Hipocrisia) e muitos outros que viviam em torno do seu palácio. 

JASÃO
Alguma coisa, porém, quando nos aproximamos do que nos deixaram os próprios heróis e/ou dos textos produzidos literariamente sobre eles, parece ficar faltando, eis que a vitória alcançada é transformada muitas vezes em fonte de insatisfação, de fracasso pessoal, quando não de destruição. Os exemplos do que aqui se expõe são muitos, Hércules, Jasão, Ulisses, Perseu, Édipo e outros mais. 

HÉRCULES
Hércules, apesar das suas vitórias, suicidou-se, um suicídio que tomou o nome de apoteótico, palavra que em grego significa ir em direção de deus, Zeus, no caso. Jasão foi destruído por Medeia, que matou inclusive os seus filhos. Ulisses, apesar de ter retornado ao seu pequeno reino, à sua amada Ítaca, depois de uma ausência de vários anos, e de ter matado os pretendentes de Penélope, sua mulher, nunca demonstrou contentamento com os resultados práticos de sua odisseia nem com o final da vitoriosa campanha bélica da qual participou. Fazia parte também, sabia-se, da viagem de retorno de Ulisses, a busca de mercados onde poderia ser encontrado o estanho, metal que escasseara na Grécia continental, imprescindível para, adicionado ao cobre, formar o bronze, a famosa liga metálica que dera origem, no Oriente Médio, por volta de 3.300 aC. à era que seguiu ao período neolítico.     

ÉDIPO E A ESFINGE
Édipo é outro exemplo: passou à história como o glorioso vencedor da Esfinge (Fix, em grego), monstro que matava os que não soubessem responder às suas perguntas.  Contentando-se apenas com suas vitórias e conquistas externas, Édipo jamais se questionara interiormente quanto às consequências de seus atos. Bastava-lhe o reconhecimento público. Quando tomou conhecimento do que fizera (ter assassinado o pai numa disputa de passagem e tido filhos com Jocasta, a própria mãe), horrorizado, mutilou-se, cegando-se. Perdeu a visão externa para “ganhar”, quem sabe, a visão interna. Conduzido pela filha Antígone, morreu em Atenas, acolhido por Teseu.



Além do mais, é oportuno observar que a viagem de retorno de Ulisses, personagem importante de A Ilíada e central de A Odisseia, ambos poemas épicos de Homero, sempre foi considerada, pela maioria dos estudiosos que sobre ela se debruçaram, como uma representação do homem superior que procurava se encontrar nos caminhos da vida. Astuto, inteligente, destemido fisicamente, sua grande viagem, a chamada Odisseia, sempre foi entendida como uma busca de autoconhecimento, a conquista de uma individualidade. Mas, na realidade, parece que nada disto aconteceu. Ulisses nunca encontrou a paz, a felicidade, mesmo com Penélope, na sua volta. Uma das versões mais acatadas sobre o fim de Ulisses nos informa que ele teria terminado os seus dias exilado, nos domínios etruscos, na Tirrênia, onde fundou várias cidades. Era lá conhecido, pelos naturais do lugar, pelo apelido de Nanos, o Errante.   

ODYSSEUS
Nos mitos, viagens e heróis sempre apareceram juntos. O herói se lança nos caminhos cheios de obstáculos, passa por sérias provações, enfrenta monstros e malfeitores, gigantes, dragões, acidentes naturais aparentemente intransponíveis. A geografia desses lugares que o herói vai buscar é fascinante, cheia de nomes sugestivos. A literatura do imaginário universal que leva o leitor a várias viagens tem como heróis Teseu, Hércules, Jasão, Siegfried, Eneias, Simbad, Ulisses. Todos foram, no mito, grandes viajantes. O último, Ulisses, inclusive, deu nome a um tipo de viagem, odisseia ( de Odysseus, seu nome grego), uma longa perambulação marcada por aventuras, eventos imprevistos, singulares, viagem que tomou também o sentido, para muitos, de uma travessia ou investigação de caráter intelectual ou espiritual. Os ciclos heroicos da mitologia que nos falam desses heróis descrevem também as suas buscas como uma forma de libertação de alguma culpa, outras vezes como uma missão a cumprir, esteja o herói comprometido consigo mesmo (projeto individual) ou ligado a algum ideal coletivo. 

Fora do mito, há abundante literatura que nos fala de viagens, de filósofos, escritores, poetas e exploradores, gente real, de carne e osso, como Platão, Santo Agostinho, Richard Burton, Joseph Conrad, Robert L.Stevenson, Cervantes, Dante, Virgílio, Camões, Júlio Verne, Hegel e outros, gente que, mais

CHARLES BAUDELAIRE
ou menos recuadamente, nos deu muitos exemplos quanto ao tema. Aventureiros, cavaleiros, exploradores, curiosos,  uma galeria imensa. No começo do Romantismo, a poesia de Charles Baudelaire nos deixou um depoimento marcante que pode ser aplicado ao tema do herói-viajante: O verdadeiro viajante é aquele que parte por partir, sozinho; aquele cujos desejos têm a forma de nuvens. 

Qualquer que seja o motivo, causas nobres, dignas ou indignas, fuga, nomadismo, revolução, vagabundagem, exílio, corrupção etc., qualquer que seja o período histórico ou a geografia, esses heróis, sempre, de um modo geral, se lançaram todos no espaço físico, viajando, percorrendo caminhos. Não será preciso muito esforço para entender que esta tendência à extroversão é muito antiga,  que o homem moderno, inspirado talvez por ela, também a busque, um impulso alimentado hoje, cada vez mais, por uma ideologia que os nossos modelos econômicos vêm impondo e incentivando.   

A não ser os depoimentos religiosos, que aqui não nos interessam, raros, raríssimos, porém, são aqueles que nos falem das viagens que alguém tenha feito em direção da sua interioridade. Essa é uma viagem que exige certamente um outro tipo de heroísmo. Quando muito, tais viagens costumam ficar restritas à área médica, que também aqui não nos interessam. A viagem interior de que falamos não tem grandes nomes, nomes que a literatura não procurou conservar, nada de terras exóticas, de monstros ou mundos desconhecidos. Ou seja, ao invés de perdermo-nos no mundo exterior, movermo-nos em direção ao nosso mundo interior, uma viagem a que alguns dão o nome de meditação, de centro-versão, de introspecção, o oposto do movimento centrífugo, um movimento centrípeto, como uma tentativa de aproximação de um eixo de rotação. 

Este tipo de viagem é muito difícil no ocidente, onde tudo está fora, além, lá, longe, acolá, gerando invariavelmente muito dinheiro em todos os sentidos. Não temos o hábito de ficar conosco nem de pensar refletidamente. A própria introspecção é vista, em alguns meios, como doença, esquizofrenia em muitos casos. Toda a ciência e seu subproduto, a tecnologia, nos põem sempre em direção do exterior e na busca da ocupação do maior espaço possível. O passo inicial para esta introversão de que falo, dizem-nos os mestres, deve começar por um aprendizado muito difícil, o da fixação da nossa atenção. Excitados e instigados sempre, tentar escapar do turbilhão mental no qual o mundo exterior nos envolve.

Ou seja, controlar a nossa atenção, aprender a fixá-la em pontos determinados, tentar segurar o nosso descontrolado fluxo de pensamentos, que, como cavalos (símbolo do psiquismo inconsciente), nos levam para todo lado, impedindo-nos de entrar em contacto com o nosso mundo interior. Cortar ou restringir ao máximo o ataque das solicitações externas como maneira de interceptar o alucinado e dispersivo fluxo da atividade mental decorrente desse processo. 

Desse ponto em diante, poderemos chegar, quem sabe, através de um esforço continuado, a uma concentração prolongada e aprofundada sobre os pontos escolhidos, fase a que os hindus dão o nome de dhyan. Com ela, chegaremos a uma absorção meditativa na qual o objeto mantido na mente preencherá todo o espaço da consciência. 

O objeto que nos interessa nesta viagem é assim a nossa própria vida, a nossa vida interior. Com isto, estaremos dando o primeiro passo para abandonar o passado e caminhar em direção do nosso presente. Isto nos permitirá, por exemplo, perceber o quanto o passado nos constitui, o quanto somos um produto do que acumulamos. O quanto estamos presos a velhos conceitos, acreditando que poderemos fazer com eles coisas que temos de fazer, mas que não conseguimos. Ficaremos nos decepcionando, divididos, hesitantes, endurecidos, inventando álibis, presos a máscaras, ocupados com tudo e menos com o mais importante, tudo para encobrir a nossa impossibilidade de mudança, o objetivo final da nossa viagem. Gregório de Matos, no século XVII, antes de Balzac, autor de uma comédia humana, deu o nome de mazombismo a essa atitude diante da vida, afirmando que os presos a essa forma de viver tinham um “ideal de caracol”, sempre brutos, ignorantes, grosseiros e barulhentos. 


Aqueles poucos que já fizeram esta viagem no sentido de desapego do passado, como nos informam os mestres, tiveram inicialmente a sensação, conforme depoimentos deixados, de entrar num caminho desconhecido, como se tivessem trocado a segurança pela insegurança. Outros falam numa sensação idêntica à da entrada numa noite escura. Outros falam de algo parecido a uma expulsão da casa paterna. No geral, temores, apreensão, medo. Muitos, pior ainda, vivem esta viagem como uma involução desastrosa que os levou a uma maior dependência do mundo do qual pretendiam se libertar. 

É importante que o desligamento do passado não signifique ir em direção oposta, ao futuro. Não, a viagem de que falamos é aquela que nos traz para o presente, que nos faz permanecer no momento. Toda vez que a mente se move para trás ou para frente, devemos trazê-la de volta, para o presente. Manter a nossa mente a serviço do nosso eu superior (o buddhi, do Hinduísmo), a ser por nós construído, a fim de descobrir o que é mais importante para nós, tarefa dificílima, principalmente nestes tempos de dispersão e de alienação. Não é uma conquista que se faça rapidamente, não sendo nem mesmo projeto para uma só existência, como dizem os hindus. 

TRIMURTI ( BRAHMA, VISHNU, SHIVA )

Ficando no presente, nós nos sentiremos, em primeiro lugar, menos tensos ou mesmo sem nenhuma tensão. Se nos mantivermos no presente, a primeira coisa que perceberemos é que teremos mais tempo. Com isto, dominaremos a nossa dispersão pelo espaço, teremos mais tempo já que este é função daquele. Um dos grandes males dos tempos modernos nasce exatamente deste descompasso entre tempo e espaço, gerado por uma inadequação entre nossos ritmos físicos e mentais e os da natureza. 

Os passos em direção do nosso eu interior, em primeiro lugar, nos despojarão da dispersiva mobilidade, tônica do nosso tempo, e nos levarão a focalizar melhor a nossa atenção em nós mesmos, como um laço que se aperta em torno de um alvo. Enquanto não fizermos isto, continuaremos pressionados e modelados a partir de fora. Uma pequena alteração que consigamos introduzir nesse sentido em nossas vidas poderá trazer consequências práticas espantosas. Num primeiro momento, a constatação de que teremos mais tempo. 

Exemplos? Algumas práticas muito saudáveis podem ser adotadas de imediato. Desligarmo-nos, por exemplo, de grande parte daquilo que nos chega pelos meios de comunicação, TV, Internet, celulares, redes sociais etc. que insistem em criar falsos acontecimentos, polêmicas ridículas, escândalos sem a mínima importância no jogo sujo da promoção dos falsos valores, no geral, para fins consumistas. Aprender a não dar atenção a fatos sem relevância alguma. O que é muito espantoso em tudo isto é que pessoas de alto poder econômico, supostamente mais letradas, e que procuram o melhor em roupas, móveis, comida e instalações para viver, tudo muito caro e dispendioso, consomem um lixo cultural repugnante veiculado pelos meios de comunicação. Não percebem que o que entra pela boca ou é captado pelo tato ou por outros buracos do corpo é tão importante quanto o que entra pelos olhos ou pelos ouvidos. 

Opondo-se ao passado, que precisa de memória para existir, temos o desejo, que precisa do futuro para ser. Com ambos, há sempre a perda do presente. Desejo é carência, falta. O feio quer ser belo, o baixo quer ser alto, o pobre quer ser rico. O rico quer ser mais rico ainda, esta casa por outra maior, este carro por outro mais potente e assim por diante. Sempre algo colocado fora do presente, nunca aqui e agora. Todos ambicionamos algo mais, algo diferente daquilo que somos ou temos. É neste sentido que falo aqui de ambição. Nunca estamos contentes com o que somos. Isso nos faz muito mal porque em grande parte de nossa vida não podemos ser ou ter outra coisa. Podemos até passar a vida inteira, desperdiçando-a, atrás de algo que nunca poderemos ser ou ter. 

Se ficarmos no presente, não podemos ser ambiciosos. Como disse o poeta-músico  Gilberto Gil, O melhor lugar do mundo é aqui e agora... Esse momento só é suficiente para sermos, mas não para desejarmos. Para desejar, precisamos de futuro, de tempo. O tempo existe em razão do desejo. O desejo cria o futuro. A memória cria o passado. Ambos, o passado e o futuro, são partes da mente. Se não desejarmos, o futuro desaparecerá. Se não há futuro não haverá tensão. Por outro lado, não havendo passado, memória, não haverá culpa ou ressentimento. Quando aprendemos a lidar com estas duas dimensões, diminuirão ou mesmo poderão desaparecer a tensão, a ira, a ansiedade, a culpa, a mágoa. 

As consequências práticas de tudo isto estão no fato de que quanto mais desejarmos as coisas materiais mais desconforto estaremos criando para nós. Este desconforto é proporcional ao nosso desejo. De outro modo: quanto mais desejarmos ser felizes, mas sofreremos. A felicidade não é nunca o resultado final de um desejo. Ela não está na satisfação dos desejos. A felicidade é um modo de ser, de viver. É uma atitude. O desejo é o contrário da felicidade. Desejando, estamos sempre buscando sensações. Quanto mais as buscamos, mais insensíveis nos tornamos. O excesso de sensações embota a nossa sensibilidade. É só olhar à nossa volta... 

A ideia de progresso que os pensadores implantaram no ocidente a partir do final do século XVIII e que as religiões oficiais sustentam há muitos e muitos séculos está baseada num modelo linear de desenvolvimento. Como consequência, tudo o que aconteceu antes de nós é considerado como menos evoluído. Tudo isto gera um enorme acúmulo de bens materiais e de sensações sempre renovadas, um desperdício brutal que alcança todas as áreas da vida moderna. Já desenvolver a sensibilidade é trabalhar com os sentidos, alargar a nossa capacidade de sentir, captar o subtil, as harmonias ocultas, o invisível por trás do visível. 


PLATÃO

Todas as filosofias do ocidente, desde Platão, colocaram o homem acima do mundo, contra o mundo, diante do mundo, de costas para ele, mas não dentro dele. A nossa colocação dentro do mundo (somos parte) só acontecerá se ficarmos no aqui e no agora. Temos que buscar a nossa experiência, por melhores que outras, inclusive a dos mestres, tenham sido. A nossa experiência também poderá acontecer de um modo absolutamente novo, o nosso. Imitar também pode ser parte da ambição. Se nós nos aceitarmos, as coisas também poderão acontecer para nós, talvez até de um modo semelhante ao que aconteceu a outros, mas de um modo absolutamente único, porque para nós. Nada acontecerá enquanto não abandonarmos impulsos tão negativos como os de poder (tendência a dominar), de fama (tendência a humilhar), de possuir (tendência de despojar os outros), de competência (tendência a sobrepujar). 

O ser humano está sempre em luta contra si mesmo e contra o mundo. Criou-se a máxima de que viver é competir e não colaborar. Estamos em luta contra a raiva que sentimos, contra a bebida, contra a comida, contra as forças eróticas que nos subjugam, contra o tempo, mas geralmente acabamos nos complicando, nos sentindo, na maioria das vezes, derrotados. Essas coisas, porém, precisamos lembrar, não acontecem só conosco. Desde que o homem está no mundo é assim. Uma pergunta então poderá se tornar cabível: por que esse tipo de luta nos põe sempre contra nós? Ora tomamos o partido de um lado, ora de outro. Esta luta é, no fundo, absurda. 

Alguns mestres orientais, profundamente conhecedores da mente humana, nos ensinam o seguinte: quando um desejo, que procura vencer, se manifestar, observe-o. Não se coloque contra ou favor dele. Não tente reprimi-lo porque isto será não conhecê-lo. Será também uma identificação com a tendência oposta. Deixe, sim, que ele aconteça, mas procure observá-lo, consciente daquilo que está fazendo, como se estivesse observando outra pessoa. É claro que esse desejo chegará a um pico. Procure ver tudo atentamente, cada passo. Depois do clímax, a atitude oposta aparecerá. Mantenha-se alerta. Não tome partido pela opinião contrária, arrependido. O desejo (comida, droga, cigarro, sexo, poder) é um dos lados (ascensão), o contrário é a queda. 

Não fique nem contra nem a favor. Não julgue: bom ou mau. Não interprete. Se puder manter essa posição, talvez você compreenda que desejo e satisfação são vertentes de uma mesma montanha... Não são opostos. Se escolhermos um, escolheremos o outro. São inseparáveis. Não há escolha, pois! Esta é a doutrina oriental do guerreiro que não luta. Ao fazer isto podemos chegar a uma situação onde não haja escolhas. Quando não escolhemos, não polarizamos. Podemos então escapar do poder do desejo. É como se ficássemos de fora, olhando os dois, os opostos lutando, se anulando. A mente quer sempre escolher. Sem escolhas não há luta, não há mente. Se escolhemos um lado, seremos capturados pelo oposto. Temos que permitir que eles se anulem através de um ponto médio no nosso interior. Assim agindo, não nos tornaremos mais “pecadores” (comilões, beberrões, consumistas, promíscuos sexualmente). Não porque a sociedade possa achar que isso é ruim, que não seja correto, mas simplesmente porque não podemos ser. Temos que buscar esse ponto no nosso interior. 


BUDA

O Budismo nos diz que quando nos movemos para os extremos com o pensamento de que eles são opostos é que nos perdemos. Buda nos pede que busquemos sempre o meio. O extremo é o excesso. Se nos mantivermos no meio, a mente desaparecerá porque ela vive em função dos extremos, vive no mundo de maya. É neste sentido que para o Budismo a verdadeira sabedoria integra os opostos. A lógica humana procura coerência, a vida é contraditória. A oposição é que torna a vida possível, como as duas margens de um rio são necessárias para que ele possa fluir. A mente atua pela divisão, pela separação, pela análise. Com ela nunca alcançamos a totalidade. A vida não está separada da morte. Para a mente, a fome e a saciedade são diferentes, quando, no fundo, são uma coisa só. Quando comemos, a fome desaparece. No momento em que ela desaparece, um novo ciclo se inicia. Ao saciá-la começamos a ter fome de novo. 

A partir deste ponto podemos entender que se escolhemos um lado escolhemos também o outro. Ao não optar nem por um nem por outro (doutrinas negativas), ficamos num estado de não-escolha. Quando não escolhemos, os polos desaparecem. Se escolhermos um dos polos, escolheremos também o outro, pois um não está separado do outro, eles são um só. Escolher um é o caminho da derrota. Esta atitude de “testemunha” é muito difícil porque a mente quer sempre escolher. Sem escolha, abandonamos a mente. Se a raiva nos toma, pensamos nas suas consequências. Quando pensamos no arrependimento, na culpa, não pensamos na raiva. Se conseguirmos colocá-los juntos, raiva e arrependimento, não haverá luta, pois observamos os dois, não nos envolvendo. Precisamos encontrar essa testemunha dentro de nós. 

A constatação final para uma aplicação prática disto que estamos abordando, dentre muitas outras possíveis, é que quanto menos nos conhecemos mais acentuamos diferenças com relação aos outros. Quanto melhor nos conhecemos, mergulhando na nossa interioridade, mais poderemos notar que, no fundo, somos todos iguais. 


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

DEUSES GREGOS: TRANSCENDÊNCIA E IMANÊNCIA


DEUSES GREGOS
  
ARISTÓTELES
É preciso colocar de início para que as ideias fiquem bem claras que a mitologia grega, quanto à cultura ocidental, se inscreve na chamada tradição imanentista por oposição à transcendentalista. Sem nos
KANT
perdermos em maiores discussões sobre esta questão e sua repercussão na Filosofia, de Aristóteles à  Escolástica  e desta  a Kant e aos existencialistas, entendemos que o imanentismo  se caracteriza simplesmente por  tudo aquilo que procede de um ser como expressão do que ele traz em si, de sua participação no mundo e de suas relações com os outros seres humanos. 

Imanente vem do latim, in, em, dentro, e manere, permanecer, ficar, ou seja, aquilo que está no interior de um ser. A moral é imanente, por exemplo, quando decorre da vida social e tem relação com os homens e com os acontecimentos do mundo. No mito, a imanência nos fala da ação do divino (modelos superiores de existência criados pelos humanos) em nosso mundo, sendo-lhe intrínseca; os deuses dele participam, fazem parte de nossa vida, estão na natureza e inspiram as produções superiores do espírito humano, têm a ver com as nossas ações, a nossa arte, a nossa literatura, a nossa música, a nossa poesia como com os nossos crimes e
JUNG
pecados. Os antigos gregos colocaram em seus deuses a totalidade da existência, toda a sua complexidade e diversidade. Aparecem-nos eles assim como modelos de existência, para o bem ou para o mal, são paradigmas, aquilo que alguns chamam de arquétipos ou, melhor, são os revestimentos primários dos arquétipos da cultura ocidental, segundo uma tradição que remonta a Platão, a Fílon de Alexandria, ao Pseudo-Dionísio, o Areopagita, a Santo Agostinho e, modernamente, a Jung.

A mitologia grega, para a cultura ocidental, como representação das forças que operam no universo, foi penetrando tudo. Acabou por se tornar a fonte de muitas alegorias  que alimentam as grandes

metáforas de muitos filósofos, místicos, cientistas, artistas, poetas, músicos, fazendo parte inclusive do cotidiano do homem comum ao invadir o léxico de várias línguas. Lembremo-nos do que Platão fez com Eros no seu diálogo O Simpósio quando, através de Sócrates, estabelece uma nova gênese do deus para  falar do amor homossexual. Ou, então, daquilo que Édipo significou para Freud na construção da sua Psicanálise ou, ainda, de como a crônica do titã Prometeu se encaixa à perfeição quando falamos de lutas contra a tirania ou do roubo de segredos científicos.

CERES (WATEAU, 1684-1721)
Quanto ao homem comum, a língua e a mitologia greco-latina estão presentes quando comemos cereais (Ceres), nectarinas, ambrosia, quando calçamos sapatos vulcanizados, ou colunas de mercúrio sobem e descem para medir as temperaturas do nosso corpo (termômetros). Vemos filmes épicos, dramáticos, eróticos; afrodisíacos melhoram o desempenho sexual; deuses (Urano, Plutão,
TÂNTALO
( GOYA , 1746 - 1828 )
Hélio, Selene) viraram elementos químicos (urânio, plutônio, hélio, selênio etc.) e um criminoso da mitologia grega deu nome a um dos metais mais valorizados do mundo, mais que o ouro, o tântalo. Utilizado em telefones portáteis, computadores pessoais e eletrônicos automotivos, o tântalo também é usado para fazer ferramentas de metal para usinagem e para a produção de superligas para componentes de motores a jato.


PÂNICO ( O  GRITO , EDWARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Personagens da mitologia grega,invadiram a Psicologia para dar nome a complexos ou síndromes (complexos de Zeus, de Cronos, de Héstia, de Electra ou síndromes do Pânico (do deus Pan), de Medeia. A palavra economia vem do grego (oikos, casa, habitação, mais nomos, lei, ou seja, é, na origem, a lei,  são as regras da casa) ou foram os deuses e heróis para o mundo das finanças para
AQUILES E AJAX (VASO GREGO)
designar o poder oculto do dinheiro (plutocracia) ou acabaram em prateleiras de supermercados como  sabão em pó (Ajax, herói grego, que é vendido como o furacão da limpeza). Foi o maior dos heróis gregos, Hércules, que no seu décimo primeiro trabalho (A limpeza dos estábulos do rei Augias) que inventou a propina. Os mitos e seus personagens estão em livros de Medicina dando o nome a doenças (satiríase, priapismo, erisipela, mercurialismo, saturnismo). Damos o nome de calcanhar de Aquiles a um ponto fraco em nosso corpo. Se mais quisermos  é só abrir os dicionários  e lá os encontraremos: morfina (Morfeu), hermético (Hermes), ciclópico (Ciclopes), tantalizar (Tântalo), nefelibata (Nefele), etérico (Éter), hemeroteca (Hemera), narcótico (Narciso), carisma (Cárites), bacanal (Baco), letargia (Lethe), museu (Musa), hipnose (Hipnos), oniromancia (Oniro). Quase toda as doenças e males que nos atingem são “gregos”: osteopenia, anemia, osteoporose, leucemia, pneumonia, prostatite, rinite, câncer, hidrocefalia, escoliose, psicopatia, nevrose, encefalite etc.  


HESPÉRIDES  ( HANS  VON  MARÉES , 1837 - 1887 )

Ampliando um pouco mais a nossa abordagem, indo noutra direção, tomemos, por exemplo, o universo semântico (possibilidades significativas) que Nix, a deusa da noite, com alguns de seus filhos ou personagens que com ela se apresentam, nos oferecem. É Nix uma das entidades cosmogônicas, nascida do Caos, como está em Hesíodo. Na ordenação cósmica cabem-lhe as trevas superiores, opondo-se ao Érebo, as trevas inferiores, estas as camadas intermediárias do Hades. Nix habita o extremo-ocidente, além da região das Hespérides, as ninfas do poente, suas filhas;  lá tem o seu palácio, de onde só sai quando Hemera, o dia, seu filho, se retira. A região onde  Nix tem o seu palácio, lembremos, é o lugar onde a luz morre. No interior da palavra ocidente esconde-se a raiz cad, que encerra a ideia de tombar, cair; daí, queda da luz, ocidente. Foi para esta região, vizinha do Hades, que se encaminhou Ulisses quando resolveu interrogar as almas dos mortos (nekyia) na esperança de obter informações sobre o seu caminho de volta  para Ítaca. O ocidente , se por um lado lembra declínio, decadência, como lugar noturno e satânico, sinistro, à esquerda, é o lugar das grandes-mães em todos os mitos, e nos diz, por outro, que ele é também o lugar da fertilidade, da fecundidade, lugar da obscuridade, das confidências, da discrição, do entendimento. 

HEMERA
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Retirando-se Hemera, o dia, e mergulhando o deus solar Hélio no oceano ou escondendo-se atrás dos montes, Nix começa  sua viagem pelos céus; vai no seu carro puxado por cavalos negros, com seu vasto manto salpicado de estrelas, franjado de infinito, como diz o poeta. Para muitos, quando ela estende o seu manto, são as horas das trevas, sempre perigosas. O intervalo entre os dois crepúsculos, o vespertino e o matutino, mais o seu ápice, a meia-noite, são as chamadas horas abertas, horas dos acontecimentos maléficos, em que demônios, fantasmas e espectros atuam livres, principalmente nas encruzilhadas. Por sua representação espacial, a encruzilhada propõe múltiplas possibilidades, sugere mudanças, abandono de um caminho por outro. Para tomar o caminho certo temos que enfrentar as criaturas perniciosas  que do lugar  se apossaram como forças do caos, temos que reverenciá-las sempre, vencer os nossos temores, as nossas projeções imaginárias.  

NIX
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Nix é tanto ausência de luz quanto escuridão misteriosa, risco de desvios, confusão de distâncias, anulação de evidências. Mas Nix é também protetora dos úteros, das cavernas e das grutas, dos lugares de nascimento e de renascimento.  A não ser que Pothos, a saudade, interfira, porque saudosos não dormimos, Nix  libera  seu filho Hipnos, o sono, que, baixando o seu tridente sobre as nossas pálpebras, traz o sono reparador. Qualquer que seja a sua representação, como um jovem segurando uma papoula ou  uma espécie de cornucópia a gotejar o sono sobre os que dormem ou (melhor ainda) se ele vier com seu filho  Morfeu, o sonho, na forma de Hypar, o sonho premonitório. 

Há ocasiões em que Nix pode retardar a chegada de seus filhos para  favorecer a reflexão, a meditação raciocinada, colocando-se entre a proposta que nos fazem e a decisão que precisamos tomar, evitando precipitações, ensinando serenamente, generosamente. É nesses momentos  que ela toma o nome de Eufrone, a benfazeja, a benevolente, ou de Eulalia, a boa palavra, a mãe do bom conselho. Duas filhas de Nix poderão, contudo, aparecer se Hipnos não vier ou demorar muito para chegar: a irritante Éris, a discórdia, e Apate,
MORFEU
o engano, sempre desagradáveis e perturbadoras. Quando Morfeu, o de mil formas, vem como Oniro, o sonho enganador, Nix deixa de ser benfazeja. Agora, então, à nossa volta, animais fabulosos, luzes espantosas, gritos, gemidos, monstros, abolição do tempo e do espaço. Oniro, com a sua infinita capacidade de mudar de forma, faz surgir personagens como Iquelos  (aparência de realidade), Fobetor  (terrível, assustador), Fantasos (fenômenos enganadores) e muitos outros...                                                

FERNANDO  PESSOA
Os poetas e músicos têm especial predileção  por  Fílotes, a ternura, um dos filhos de Nix. Muitos escreveram ou compuseram sobre este sentimento noturno cujo nome vem do verbo grego amar e que entre os latinos  se liga  ao tenro, ao terno, ao delicado. Fílotes é aconchego, proteção, afago, delicadeza. Fernando Pessoa nos deixou  em Ficções do Interlúdio  (Álvaro de Campos), ao pedir que a Noite viesse, uma ideia  muito  clara desse sentimento noturno: Vem, e embala-nos, vem e afaga-nos.
BAUDELAIRE
Beija-nos silenciosamente na fronte, tão levemente na fonte que não saibamos que nos beijam senão por uma diferença na alma. Ou lembremo-nos de como Baudelaire, com o seu Recueillement, pede à sua dor que ela se tranquilize quando uma atmosfera obscura envolve a cidade, trazendo a uns a paz e a outros, o cuidado. Em ambos a esperança de que  Nix venha com Fílotes.

CHOPIN
(DELACROIX , 1789 - 1863)
São certamente de Fílotes as composições musicais, vocais ou instrumentais, depois sobretudo pianísticas  sem forma especial, de caráter melancólico, triste para alguns,  a que deram o nome de noturno. Peças de atmosfera às quais Chopin, mais do que qualquer outro compositor, tem seu nome ligado. Abandono, solidão, um pedido de socorro... São também desse filho de Nix as chamadas berceuses, canções para fazer as crianças pegarem no sono, ritmo que lembra o balanço delicado de um berço. Para os povos de língua inglesa é a conhecida lullabay. Entre nós, é o acalanto (mitigar, acalmar, aquietar, calar), como Mário de Andrade registrou em Macunaíma, ao pedir que Acutipuru (o esquilo; de acuti: cutia e  puru: enfeitada) devolvesse o sono ausente da criança.
           
SELENE

Antes as trevas, depois a luz, é a sentença latina (Post tenebras lux), o que se torna válido tanto  para as cosmogonias como para o nosso processo de individuação. Importante destacar que Nix por isso é também vista como algo que devemos atravessar. As travessias noturnas são fortemente marcadas pela presença da Lua, a luz noturna, olho de Nix, que entre os gregos toma, dentre outros, o nome de Selene. Embora associada à doçura, à brancura, à proteção e à generosidade, lembrando em muitas tradições as velhas madrinhas. O poder maléfico de Selene pode ser tão grande quanto os bens que  prodigaliza. O ferido por ela chama-se lunático, palavra que na antiguidade e ainda hoje em certas sociedades é sinônimo de epiléptico (agarrado, raptado por cima). Não esqueçamos também que aluado designa o que nasce com perturbações tanto psíquicas (amalucado) quanto físicas, o que nasceu fraco, raquítico, o que não tem coluna vertebral (rhakhis) boa. Tudo isto porque da Lua depende tudo o que nasce e que tem de passar à vida adulta, brotos, crias, ervas, gemas, grelos, rebentos, embriões. É neste sentido que a Lua aparece como deusa das passagens, das travessias, funções que se ampliarão e se fixarão melhor na figura de Ártemis, deusa lunar do panteão olímpico.

HESÍODO
Outra que aparece com Nix é Hécate (a que fere  distância), também  representação lunar como Selene. Vinda de um mundo pré-olímpico, Hesíodo, em sua Teogonia, dá-lhe grande destaque, certamente por ser agricultor além de poeta. Hécate representa os mistérios da noite, todos os seus sortilégios, sua magia, seus encantamentos. Deusa ctônica, dividia o poder sobre as encruzilhadas com o deus Hermes, o deus dos caminhos. Personificava as três fases visíveis da Lua, recebendo, por isso, o nome de Triforme ou Trívia, além dos de  Curótrofa e Enódia, a que faz passar e a dos caminhos. 

Baixava Hécate nas encruzilhadas a cada vinte e oito dias mais ou menos, na Lua nova (ausência de lua no céu). A Lua nova, como se sabe, é tempo de germinações espontâneas, indica que algo vai surgir. Daí um outro nome seu, Numênia, a primeira Lua. Simboliza fecundidade, fertilidade, redes e pomares cheios. Na Alquimia, a Lua nova tem a ver com a primeira etapa da obra alquímica, a nigredo. O séquito da deusa era formado por espectros, fantasmas, demônios, que aterrorizavam os que paravam nas encruzilhadas. Do séquito de Hécate participavam também  cães, éguas e lobas. Os cães, sobretudo, eram muito caros à deusa já que era pelos latidos deles que se anunciava a sua chegada. Fazem também parte do séquito da deusa, às vezes, entidades repulsivas  como a Empusa e a Lâmia, monstros dos terrores noturnos, ligadas aos mundos maternal e infantil. 


HÉCATE  ( WILLIAM BLAKE , 1757 - 1827 )

As almas errantes também faziam, às vezes, parte do cortejo da deusa, almas daqueles que não tinham tido morte ritual, razão pela qual  ficam a perambular pela terra. Hécate tinha, dentre as suas funções, a de estar sempre presente quando a alma entrava e saía do corpo. Daí ser deusa das almas dos mortos. Quando vinha à terra ficava a passear  nos cemitérios entre as tumbas, carregando consigo, em meio a gemidos e ranger de dentes, as almas sedentas, com suas longas vestes. Ao lado dos alimentos que lhe eram oferecidos, sempre juntos da deusa a copa e o cântaro. 

Em muitas tradições místicas, como no Sufismo, bastante comuns as imagens da viagem noturna. Para se chegar ao desejado estado de contemplação é necessário fechar as passagens dos sentidos físicos para que os espíritos, mais profundamente, possam operar com liberdade. É a chamada Noite Mística: barrar as impressões dos sentidos (esperanças, medo, emoções, sentimentos, etc.) para se chegar à luz interior. Para S. Juan de la Cruz, o famoso místico carmelitano, entrar na noite é o caminho da ascese,  a noite escura da alma: 
Oh! Noite que me guiaste! 
Oh! Noite mais amável que a alvorada! 
Oh! Noite que juntaste Amado com Amada, 
Amada já no Amado transformada 
                                     (Canções da Alma).


S. JUAN DE LA CRUZ (BECERRA , 1520 - 1570)


TÂNATOS
Mais radical que Hipnos é seu irmão gêmeo Tânatos, a morte, também conhecido como sono eterno, o que tem alma de ferro e coração de bronze, inacessível à piedade, como diz Hesíodo. As representações terríveis de Tânatos, ao longo da história grega, é bom lembrar, admitiram sempre um lado “positivo”, digamos, na medida em que este filho de Nix significava transição para uma outra vida, acenava com possibilidade de renascimento. Se figuras sinistras como as Keres ou Eurínomo a ele se associavam  havia também a imagem dos Campos Elíseos. As Keres,  filhas de Nix, deusas lúgubres, sempre sedentas de sangue, atacavam os moribundos nos campos de batalha, como Homero nos deixou  no canto XVIII da Ilíada. Quanto a Eurínomo, o monstro escuro que devorava as carnes dos cadáveres, registre-se que é criação artística posterior. Polignoto, o pintor, o coloriu de azul, ao executar suas composições murais sobre temas mitológicos, que Pausânias e Plínio descreveram. Mesmo as Moiras, as donas do fio da vida,  também filhas de Nix, ligadas  a Tânatos, nunca chegaram  a ser representadas  de forma repulsiva ou hedionda. É claro que não podemos perder de vista as contribuições órficas e pitagóricas, já no período helenístico, que suavizaram bastante o tema da morte. 


UM  FIO  DE  OURO (JOHN  MELHUISH  STRUDWICH , 1849 - 1937) 

Ao lado do caráter inexorável, iniludível, da ação das Moiras, Tânatos sempre foi visto como uma espécie de véu que se interpunha entre o morto e a luz, uma espécie de nuvem negra. Olhos que se fechavam, pálpebras baixadas, um ato de compaixão, quase. Um benfeitor especial que trazia o descanso e aliviava as dores. O que sempre se destacou quanto às Moiras, mais do que uma ideia de um inimigo físico foi a de que tanto simbolizavam as três etapas da vida humana: nascimento (Cloto), duração (Láquesis) e morte (Átropos), como a impossibilidade de sabermos de antemão o nosso destino. Uma fatalidade, sim, mas também uma liberação, um acesso, uma revelação. Daí, muitas representações de Tânatos como um belo jovem, como que a dormir, recostado numa árvore, uma tocha apagada ao lado. Ou, como em muitas outras representações, uma coluna partida, uma vela de barco arriada, uma corrente quebrada. Em alguns casos, esculpida na pedra, junto, uma borboleta, a indicar crenças reencarnacionistas. Atenuavam-se as representações violentas de Tânatos, como, por exemplo, as que o faziam semelhante a  Bóreas, o terrível vento hibernal do norte.

MOMO
Próxima de Éris, a Discórdia, estava outra  filha de Nix, Momo, a zombaria, o sarcasmo. Sua ocupação era a de ridicularizar as ações divinas ou humanas, com exceção as de Afrodite, nas quais  não encontrou nada que pudesse ser ridicularizado. No canto II (86) da Odisseia, lá está ela nas palavras de Telêmaco, filho de Ulisses. Momo marcou sua presença  na mitologia grega de modo espetacular ao se tornar a inspiradora da guerra de Troia a Zeus como recurso para a diminuição da densidade demográfica, insuportável àquela altura conforme queixas da grande-mãe Geia. Já Geras, a  velhice, outra filha, a angústia do efêmero, era uma triste divindade. Sempre representada por uma velha mulher, de túnica negra, um bastão de apoio retorcido numa das mãos; na outra, uma taça vazia; ao lado, uma clepsidra quase esgotada
PÍNDARO
Na divisão dos bens do universo, couberam aos humanos, por sua própria culpa, muitos males e misérias, embora, como dizia Píndaro nas Nemeias, deuses e humanos tivessem uma mãe comum. As atividades humanas ficaram restritas a limites impostos pelos deuses. Ultrapassá-los, era ofendê-los. Ofendiam os humanos aquilo que os gregos chamavam de Nêmesis,  grande divindade, filha de Nix, que personificava a justiça distributiva. Mais ainda: admitiam também os gregos que,  por mais rico e poderoso que fosse um homem, os deuses, talvez por inveja, poderiam sujeitá-lo a uma punição. A fortuna demasiada era um insulto aos deuses, sentimento que fazia parte do culto a Nêmesis. A deusa recebia  também o nome de Adastreia  (a da qual não se pode fugir, a necessidade).  Nêmesis marcava os limites dentro dos quais deveriam se distribuir as ações humanas. Não é por outra razão que a Moira é chamada de Aisa, parte igual, o “pedaço” de vida assinalado a cada um de nós.
Os deuses gregos  interferem na vida dos mortais, os efêmeros, os nascidos para um dia; dela participam, misturam-se, chegam facilmente à  promiscuidade, têm paixões, fazem sexo, muitos são declaradamente homossexuais. De outro lado e ao mesmo tempo são imortais (athanatoi), imperecíveis, imputrescíveis, sublimes. Vivem no Éter, gerado por Nix, a camada superior do cosmos, acima da Lua, região da luz eterna. Seu modo de viver é o de um banquete sem fim (thaleia). Difícil compreender, inaceitável mesmo, se não tivermos em mente o caráter imanentista da mitologia grega, que os deuses e sua entourage sejam ao mesmo tempo imortais, isentos de preocupação e de cuidados, estes típicos dos humanos, vivendo numa situação de satisfação sem carências, possam chegar na sua convivência ou envolvidos com mortais a tantas situações de perigo, de risco, de degradação e de vexame. Verdades ou poesia? Sólon já havia observado  que muito mentem os poetas. Xenófanes foi mais claro e Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que entre os homens é vergonhoso e censurável, roubo, adultério e logro mútuo. Por isso, Platão certamente proibiu a entrada de Homero no seu  Estado ideal...

JAVÉ
Na tradição imanentista , as divindades não ficam fora da existência humana, distantes e inacessíveis como um Javé-Adonai, nem a transcendência é transferida para uma outra vida, para o além, fora dos limites da experiência possível. A transcendência é colocada no aqui e no agora, nesta vida, tornando-se algo histórico. Os deuses gregos vão representar o possível dessa transcendência, salientando a importância da existência humana no que ela tem de irredutível. São a consciência permanente que temos de tomar do nosso destino pessoal na medida em que nos arrancamos a cada momento do nada para abrir adiante um futuro onde nossa existência se decidirá. 
Representam assim as divindades gregas os possíveis de nossa transcendência, que não é lançada para uma outra vida, cabendo-nos a escolha ou, se quisermos, a perplexidade diante das várias  possibilidades que tipificam. São eles  em nosso mundo princípios
KIERKGAARD
vitais que nos animam e não algo que vem de fora. A imanência é o momento pelo qual nós, refletindo sobre a nossa existência, experimentando, quem sabe, um sentimento de angústia diante dela; chegamos por nós mesmos ao “divino” ou ao “demoníaco” da divindade que “vive” em nós. É neste sentido que a transcendência só pode se dar pela existência (Kierkgaard).

sábado, 7 de janeiro de 2017

CORVUS, CRATER






OVÍDIO
CORVUS – Esta constelação sempre apareceu associada à da Hydra e à de Crater, tudo conforme a mitologia grega e segundo encontramos também na literatura latina, em Ovídio, nos seus Fasti Lembremos, porém, que aves negras, na antiguidade, eram, de um modo geral, classificadas genericamente como corvos, encontradas em todos os continentes, com exceção da América do Sul. 

KORAX
Entre os gregos o corvo era chamado de Korax, ave do deus Apolo, participando de mitos relacionados com Cronos e com Asclépio. Este último, como se sabe, é filho de Apolo a da princesa Coronis, mortal, filha de Flégias, rei dos lápitas. Temendo Coronis que o deus, por ser eternamente jovem, a abandonasse na velhice, uniu-se ela secretamente a Ísquis, um lápita, antes do nascimento de Asclépio. Avisado por sua ave predileta do ocorrido, o corvo, Apolo vingou-se, matando Ísquis, enquanto sua irmã gêmea, Ártemis, se encarregou de dar fim a Coronis. 



Entre os latinos, o corvo era chamado de Phoebe Sacer Ales, ave sagrada de Phoebus, O Brilhante, o Apolo dos romanos. Em ambas as tradições, participava assim a ave da mântica profética, que tinha como titular o deus Apolo. Foram os corvos que determinaram a localização exata do oráculo de Delfos. Embora o corvo sempre apareça ligado a Apolo, como ave companheira, lembremos que nem sempre as relações entre ambos foram satisfatórias. 

CORVO   CORONE
Conforme a crônica de Apolo, a plumagem do corvo, que era inicialmente branca; tornou-se negra quando o deus o amaldiçoou para castigá-lo por ser muito indiscreto, sempre ansioso para divulgar más notícias (o caso de Coronis, por exemplo). Consta, aliás, do mito de Palas Athena que a deusa o privou do título de sua ave predileta por esse mesmo motivo, substituindo-o pela coruja. É devido a esta passagem, a tagarelice do corvo, que os latinos deram à constelação o nome de Garrulus Proditor (O Mexeriqueiro Sussurrante). 

Outra história nos informa que certa vez Apolo determinou que o corvo cumprisse determinada missão (encontrar um lugar onde houvesse água). Chegando ao local, ao ver  um cadáver boiando, esqueceu o que tinha ido fazer, pondo-se a devorá-lo avidamente. Ao retornar, cheio de desculpas, foi punido: suas penas, que eram brancas, tornaram-se negras. Esse episódio é responsável pela fama que cerca o corvo como uma ave necrófaga que tem predileção especial por cadáveres de pessoas que foram enforcadas. 


Outra história grega nos revela que, encarregado por Apolo de cumprir certa missão,  muito tempo se passou até a sua volta. Não cumpriu a missão, mas  trouxe, para justificar o seu atraso, uma serpente aquática, presa às suas garras. Consta que o deus ficou tão irritado com ele que resolveu colocá-lo entre as estrelas, sendo esta a origem da constelação de Corvus. No céu, ao lado, a Hydra o impede de beber na cratera (Crater), constelação vizinha.

ORÁCULO SIBILINO
De um modo geral, o corvo sempre apareceu consagrado a Apolo e desempenhando funções proféticas. Esta certamente a razão pela qual ele aparece citado nos chamados Oráculos Sibilinos. Muito difundidos nos meios judaico-cristãos, antes do cristianismo se tornar a religião oficial do império romano, os Oráculos Sibilinos fazem parte das chamadas Escrituras Apócrifas. 


OMPHALOS (MÁRMORE , II AC)
A mais recuada história que temos sobre as sibilas no ocidente é encontrada entre os gregos, em Delfos. Apolo transformou o oráculo, antes sob a tutela de divindades femininas, em centro do mundo (omphalos, umbigo). A partir dali, desbarbarizou antigas tradições matriarcais, propondo sempre o meio-termo, o equilíbrio e a moderação como forma de vida aos que lá iam consultá-lo. Contudo, embora Apolo signifique a substituição da mântica (adivinhação, profecia) feminina, que era por incubação, pela mântica masculina, por inspiração, os cultos do deus, nitidamente masculinos, sempre mantiveram  relação com o mundo feminino, considerado  "de baixo". Em seu Oráculo, Apolo dependeu sempre do feminino para que suas sentenças (mântica profética) fossem ouvidas, pois a mediunidade é dominada  sempre pelo feminino.
SIBILA  DÉLFICA ( MICHELANGELO )
Enquanto o masculino "dá", "insufla", o feminino "recebe", "acolhe" é a lei universal. Em transe, "recebendo" o deus, as mediuns, as sibilas ou pitonisas, revelavam as suas mensagens. Difícil, porém, interpretá-las, pois elas as sibilavam ao verbalizá-las. Sibilar é produzir sons agudos, acentuar as consoantes sibilantes, falar entre os dentes, silvar como as serpentes (símbolo da vida inconsciente). Quem interpretava as mensagens das sibilas eram os sacerdotes do deus, que administravam o Santuário de Delfos, "traduzindo-as" para os consulentes.
   
Divinamente inspiradas, as sibilas revelavam o futuro. Em tempos remotos, anteriores, à cristianização, muitas sentenças oraculares foram guardadas, exercendo sempre muita influência na pública e privada dos povos mediterrâneos. Grupos judaicos, aproveitando-se certamente da grande influência das sentenças oraculares na vida
NOSTRADAMUS
dos povos da época, se valeram da prática para fins de propagação religiosa, o que deu origem às chamadas Sibilinas Judaicas, fortemente marcadas por traços de profetismo. Com o tempo, muito do que foi produzido por grupos cristãos e judaicos acabou se fundindo, integrando-se ao cristianismo e depois ao catolicismo vitorioso, sendo citados por muitos autores cristãos ou não, como Santo Agostinho, Nostradamus e outros.

Em várias tradições, encontramos muitas histórias sobre o corvo. Na Mesopotâmia, ele participava do mito de Gilgamés, aparecendo também ligado ao deus Mithra, antiga divindade persa de natureza solar. Na Bíblia,  encontramos o corvo relacionado com o profeta Isaías e como emissário de Noé para, num voo de reconhecimento, informá-lo sobre as águas do dilúvio e sobre terras visíveis. Um dos nomes desta constelação entre os judeus vem exatamente deste episódio, O Corvo de Noé. Entre os árabes, Corvus era chamada ora de Al Ajmal (O Camelo), ora de Al Hiba (A Tenda). 


MARDUK   E   TIAMAT
Um mito mesopotâmico, projetava nos céus a associação das constelações de Corvus e da Hydra. Enquanto esta representava o monstro Tiamat, aquela era um corvo gerado por este, nascido de uma grande ninhada, chamado pelos mesopotâmicos de O Grande Pássaro da tempestade. Tiamat, como sabemos, é a personificação do elemento líquido, o grande oceano, que dá origem à vida, Simboliza as forças cegas do caos primitivo contra as quais os deuses inteligentes e organizadores, chefia por Marduk, entraram em luta. 

ODIN

No mundo celta, o corvo faz parte do mundo da profecia. Segundo a tradição, teriam sidos os corvos os responsáveis pela indicação do melhor lugar para a fundação de Lugdunum (Lyon), cidade do deus Lug, o de Longo Braço,  uma colina, chamada desde então de A Colina do Corvo. No mundo escandinavo-germânico, não podemos esquecer dos dois corvos que acompanham dia e noite o deus Odin. Um tem o nome de Hugin, a inteligência, e Munin, a memória, e lhe passam as informações de tudo o que acontece no universo.

SÃO  BENTO  DA  NÓRCIA
No mundo cristão, o corvo tem participação nas histórias de muitos santos, tanto eremitas como provedores, Bento, Bonifácio, Vicente e outros. As representações de São Bento da Nórcia no-lo mostram com o livro da Regra monástica por ele fundada, com cálice quebrado e com um corvo carregando um pão em seu bico. Três símbolos de grande importância em sua vida. Nas imagens do santo, o corvo lembra um episódio de sua vida em que monges invejosos de sua obra tentaram envenená-lo com um pão que um corvo levou para longe.

De um modo geral, porém, o mundo cristão, apesar da participação acima apontada,  sempre considerou o corvo muito negativamente como um agente propagador de contágios, de corrupção e de destruição. Inimigo da Igreja, contava-se que na Idade Média o Diabo se expressava através da onomatopeia do crocitar do corvo, cras, cras, cras, que significava amanhã, amanhã, amanhã, para instigar os pecadores a que deixasse para outro dia o arrependimento dos seus crimes e pecados. 


TÚMULO   DE   POE
Não foi outra razão, aliás, aproveitando o gancho acima, que Edgar Allan Poe, uma das principais figuras do movimento romântico, ultrarromântico, se quisermos, também chamado de Romantismo das Trevas, elegeu o corvo como um dos seus principais símbolos. A par das suas grandes virtudes narrativas, dos seus recursos estilísticos, de rimas e jogos fonéticos, o poema The Raven (O Corvo) é certamente o mais contundente exemplo da carga tanática que a geração romântica, toda ela, em maior ou menor proporção, vítima do chamado mal du siècle, pôs em circulação na literatura ocidental.    


Astrólogos da Idade Média juntaram Corvus e Crater, passando a chamar as estrelas assim agrupadas de A Arca da Aliança, naturalmente inspirados por uma leitura libriana (Libra, o signo dos acordos e da paz), já que ambas as constelação cobrem praticamente todo o signo da Balança. Em hebraico, aliança é berit e designa o relacionamento especial entre Deus e o homem. Este pacto remonta ao acordo feito entre Deus e Abraão e renovada no monte Sinai por Moisés. É por essa razão que os israelitas são conhecidos como os “filhos da Aliança”, obrigando-se a cumprir os mandamentos da Torá divina. A Arca é um símbolo dessa aliança. É de madeira, revestida de ouro, guardada no deserto e depois no templo, em Jerusalém. No interior da Arca ficavam as tábuas do decálogo.


ARCA   DA   ALIANÇA  ( JUAN  MONTERO  ROJAS )


PRAJPATI
Os hindus, por sua vez, associaram Corvus a Virgo, Libra e Bootes para formar nos céus uma figura a que deram o nome de Prajapati, distribuindo as partes do seu corpo entre as principais estrelas das mencionadas constelações. Prajpati quer dizer Senhor das Criaturas. Nos Vedas, o nome é aplicado a várias divindades, Indra, Savitri, Soma etc. A designação se fixa depois na figura de Brahma, a primeira pessoa (aspecto criador) da trimurti do Hinduísmo. 

De um modo geral, a visão que os mitos têm do corvo na tradição ocidental é negativa, uma ave agourenta que anuncia infelicidade,
ALQUIMIA
doenças, corrupção e morte. Na Alquimia simbólica, a nigredo, a primeira fase da Opus, é chamada de corvus, fase que dá início a um caminho evolutivo, a uma busca de transcendência, quando pensamos naquele que nela se inicia. A nigredo corresponde à fase das trevas e da putrefação pela qual é preciso passar, seja na Opus considerada materialmente ou psicologicamente, antes de se atingir a albedo, a segunda fase, que é do branco, para se passar à terceira, citrinitas, do amarelo, e chegar finalmente à quarta, a rubedo, do vermelho. Estas quatro fases representam simbolicamente as quatro etapas do caminho solar, da escuridão à luz plena, da meia-noite ao meio-dia. Este simbolismo, como fica fácil constatar, tanto pode ser aproximado da busca que o homem pode fazer em termos psíquicos como espirituais.  

    
NASCIMENTO   DE   ASCLÉPIO

Uma associação que não se pode deixar de fazer aqui é a relação entre Asclépio, deus médico (veja a constelação de Ophiucus), o corvo e o princípio da cura a partir da cor negra. A medicina do deus, praticada no santuário de Epidauro, a metanoia, associava a escuridão, o negro (a nigredo, a primeira das quatro fases da Alquimia) à vida inconsciente, como o ponto de partida para o renascimento, para a busca de formas evolutivas de vida. 



A constelação do Corvo estende-se de 5º a 15º Libra. Segundo Ptolomeu, sua influência é da natureza de Marte e de Saturno, proporcionando inveja, ingenuidade, maledicência, passionalidade, egoísmo, paciência, e, sobretudo, tendência a envolvimento com assuntos “sujos” e agressividade. Suas principais estrelas são Al Chiba, Gienah e Algorab. Nenhuma delas mereceu atenção sob o ponto de vista astrológico. 



BAUDELAIRE  ( GUSTAVE  COURBET )
É se se lembrar, contudo, que em alguns temas astrológicos de escritores ligados ao simbolismo do corvo, temas como o do próprio Poe, de Fernando Pessoa (tradutor do poema para o português) e de Baudelaire (editor de Poe na França), a constelação aparece de  de modo ascendente ou culminante.
   




CRATER – Como se disse, Corvus, Crater e Hydra, antes unidas, formando uma só constelação, foram separadas. Crater ou a Taça, como símbolo, representa em inúmeras tradições o modelo de recipientes sagrados, vasos, jarras, caldeirões etc., mencionados nos mitos e nas religiões. Neste sentido, é um símbolo feminino já que implica ideias de conter, receber, guardar. Associa-se assim a centros vitais, a temas que lembram vitalidade, fertilidade, crescimento. Tem o símbolo, sob o ponto de vista físico, muita relação com cerimônias para combater a seca, a desertificação, a preparação de sementeiras. Num outro sentido, mais amplo, fala do recebimento de influências celestes. Além do mais, ao lembrar recipientes que contêm (arcas, sarcófagos, urnas etc.) adquire ele um significado maternal, terrestre. 


CRATERA   GREGA
Cratera é uma espécie de jarro, semelhante a uma ânfora, usada pelos gregos para levar vinho e água à mesa. Várias lendas fizeram de uma taça a que se deu o nome de graal, na literatura medieval europeia, o símbolo de um tesouro a ser conquistado. A sua posse conferia plenitude, abundância, iluminação, espiritualidade. É uma espécie de talismã maravilhoso que, por seu simbolismo, se aproxima da cornucópia. A busca do graal (Santo Graal) é, no fundo uma aventura espiritual, que exige, antes de conquistas externas, vitórias interiores, pedindo transformações radicais de coração e espírito. 

Na mitologia de egípcios e babilônicos, esta constelação estava ligada a ideias de crescimento, de desenvolvimento. Antigos textos
ISHTAR
egípcios nos falam que quando a constelação de Crater aparecia de modo bem visível nos céus a cheia do Nilo atingia a sua maior altura. Os babilônicos davam à deusa Ishtar o poder sobre Crater. Esta deusa, como sabemos, é um dos modelos da Afrodite grega, cabendo-lhe a distribuição do princípio da fertilidade, da fermentação, sobre os reinos vegetal, animal e humano. Esta fermentação tem dois momentos, um ligado primeiramente à decomposição, à perda da forma, à ação da umidade, e outro relacionado com o aparecimento de formas novas. Estes conceitos estão na Alquimia e nos falam de transmutação, de transformação. 

PITONISA  COM  GOBELET
Para os gregos, a constelação da Taça tanto era o recipiente que Icário usou quando foi instruído por Dioniso na arte de fabricar o vinho (veja a constelação de Bootes) como podia ser o gobelet do deus Apolo, usado na sua mântica profética. O primitivo nome deste recipiente no culto apolíneo era kantaros. Passou a ser chamado de krater, latinizado o nome por Cícero como Cratera. Astrólogos latinos chamavam também a constelação de Gratus Iaccho Crater, Urna, Calix, Scyphus ou Poculum 

SANTO   GRAAL
( GABRIEL   ROSSETTI )
Entre os celtas Crater era o caldeirão do deus Bran, divindade infernal. Na Idade Média cristã, Crater toma a forma do Santo Graal, cujo modelo parece ser uma síntese de três tipos de caldeirão que aparecem como atributos de deuses celtas (abundância, ressurreição e sacrifício). Entre os árabes, Crater chamou-se primitivamente, segundo a Astronomia do deserto, de Al Malaf, A Tenda. Depois, por influência dos gregos, recebeu o nome de Al Batiyah, uma espécie de taça para vinhos. Na Índia, esta constelação era chamada de Chashaka Soma, ou seja, a taça que o deus Soma usava para distribuir o precioso néctar. Outras divindades também usavam a referida taça, deuses como Kubera, Kusmmanda Durga, Varuni. Para o homem comum, chashaka era simplesmente a taça que ele usava para para consumir vinho, tendo, nesta função, relação com rituais tântricos. A bebida dos deuses na Índia, conforme está nos Vedas e noutros textos, chamava-se soma. Entre os persas, era haoma. Ela produzia a embriaguez sagrada que levava à imortalidade. Equivalia à ambrósia dos gregos, todas com função enteógena. A religião védica elevou soma, uma bebida, à categoria de divindade. Na mitologia purânica, é dado o nome de Soma à Lua. Lembremos que na Astrologia hindu (Jyotish) é a posição e a força da Lua (chamada de Chandra ou de Soma) na carta natal que determina o quanto uma pessoa receberá do seu néctar. O bem estar-estar dessa uma pessoa dependerá da situação da Lua em seu tema.  


Na tradição religiosa ocidental, judaica e cristã, Crater recebe o nome, quanto à primeira, de A Taça de Vinho de Noé e, quanto à outra, de A Copa da Paixão de Cristo. Noé, como sabemos, salvou-se do dilúvio juntamente com sua família numa arca, uma grande embarcação. Terminada a catástrofe, ele desembarcou no monte Ararat. Recomeçando a vida, plantou algumas videiras obtendo delas muito vinho. Provou dele, gostou e se embriagou, sendo repreendido por seus filhos, conforme consta da sua história. A constelação de Crater representa a taça que Noé usou para se embriagar.


CRISTO   NA   CRUZ
( ANÔNIMO , XVII )
Já a versão cristã, aproxima a constelação de Crater da história de José de Arimateia, um discípulo de Cristo que, após a crucificação, pediu a Pilatos o seu corpo e o colocou num novo sepulcro. Nada se sabe da vida deste homem além do que consta nos Evangelhos. No século IV, começaram a aparecer várias lendas a seu respeito que não chegaram a ganhar corpo. No século XIII, entretanto, o tema foi retomado com muita intensidade. A história que se espalhou pela Europa cristã a esse tempo conta que José de Arimateia teria colhido o sangue de um ferimento de Cristo antes de ser ele enterrado, valendo-se para tanto uma copa usada na última ceia. Consta que Arimateia teria vindo para a Bretanha com o precioso recipiente, que se perdeu, depois de muitas aventuras em que se metera e de sua prisão. 

Nesta história, a copa (Crater) toma o nome de graal,  do latim gradalis, passando para a langue d´oïl  e a langue d´oc como griau, gruau etc., sempre com o sentido de um recipiente de larga abertura. O graal, como vaso maravilhoso, alimentava o corpo, a alma e o espírito. Para a alma medieval, atormentada pelo problema do Mal, o graal era um sinal de esperança, de acesso a um tipo de vida superior, da irrupção do divino no âmbito do humano. Reunindo contribuições orientais, célticas e cristãs, o tema do graal corresponde também a um anseio que tomou conta do mundo medieval, fixado em muitas histórias e lendas: a busca de talismãs que dariam a quem os encontrasse poderes sobre-humanos, muito comuns na Astrologia da antiguidade, chamados pelos latinos de sigila planetarum.


 A constelação de Crater estende-se de 13º de Virgem a 3º de Libra, tendo suas estrelas influências da natureza de Vênus e, em menor grau, de Mercúrio, segundo Ptolomeu. As propostas são de generosidade, natureza hospitaleira, receptividade, habilidade mental com alguma apreensão e indecisão. Reversões,  tendências negativas podem ser esperadas, acontecimentos imprevisíveis. A única estrela  desta constelação registrada pela Astrologia é Alkes (alfa), 23º Virgo, de pouca expressão devido à sua magnitude (abaixo da terceira). Alkes é nome que vem do grego, com o sentido de vigor, força ou poder que se opõe a alguma coisa, sugerindo ideia  de proteção, socorro e defesa. Os latinos a chamaram de Fundus Vasis devido à sua posição na base da constelação. Em alguma tradições, no lugar de Alkes, aparece o nome de Labrum,  também chamada de Santo Graal, palavra latina usada para designar vasos (em terra, pedra ou metal), de larga abertura, podendo servir inclusive de bacia para banho. Idealismo, favorecimento, poderes psíquicos, purificação e salvação estão entre as influências proporcionadas. Espiritualidade, misticismo e natureza profética podem eventualmente aparecer como influências.

Alkes marca no signo de Virgem um ponto onde podem se tornar mais claras, evidentes, principalmente se no grau indicado tivermos algum planeta ou a cúspide de alguma casa, tendências evolutivas ou involutivas para o ego que nasceu teoricamente em Leão (5ª casa). No caso das primeiras, temos a preparação para o acesso a Libra (3º quadrante, o do social). Estas tendências, positivas, de natureza espiritualizante, levarão a Sagitário (3º nível do elemento fogo) e deste para o 4º quadrante, o do coletivo, da humanidade. Negativamente, podemos a partir deste ponto ter a fixação do ego que nasceu nas tendências leoninas negativas (poder, glória, orgulho, prepotência etc.) ou a sua regressão a formas instintivas. 


Temas como os do Papa João Paulo II, de Van Gogh e de Gandhi podem ser utilizados para estudo do que aqui acabamos de apresentar.