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sexta-feira, 31 de março de 2023

DIVAGAÇÕES SOBRE O RISO

Como acontecimento físico, o riso nada mais é que uma demonstração de alegria, de contentamento, pela expressão do rosto de alguém, por certos movimentos da boca e dos músculos faciais, acompanhados de expirações bruscas, contínuas e ruidosas. Cada cultura tem, inclusive à sua maneira, construções verbais peculiares para provocá-lo, para despertar o risível, usando para tanto vários recursos, como, por exemplo, as chamadas expressões idiomáticas, no geral incompreensíveis se traduzidas literalmente. 

Lembro, por exemplo, que os franceses têm se dilater la rate, expressão pela qual ligam o riso descontrolado à dilatação do baço. Curiosamente, os mesmos franceses associam o riso ao bidê pelo verbo se bidonner, rir muito. No Dictionary of the Underworld, publicado pelas Wordsworth Editions, o riso (laughaparece unido a palavras como water e weed para designar, respectivamente, álcool (bebida alcoólica) e erva daninha (maconha). Laugh off,  desprezar, não dar importância a, rir-se de, fazer pouco caso, disfarçar sorrindo e a fit of laughter pode ser “um ataque de riso”. Os italianos têm ridere a denti stretti, algo assim como rir de dentes fechados, para nos falar de alguém que ri sem graça, contrariado, contra a sua vontade. Nós, por exemplo, aproximamos riso e bandeiras (rir às bandeiras despregadas) para falar de alguém que gargalha, que ri às claras, sem dissimulação. A expressão “morrer de rir” se aproxima desta última, uma expressão hiperbólica, exagerada. Risu dissolvebat ilia sua, diziam os latinos: quebravam-se os ossos de tanto rir, arrebentar de tanto rir. Entre nós e em outras línguas, como o francês, usamos “desopilar o fígado”, ou seja, desobstruir o fígado para libertar a bile negra, causadora de mau humor ou de melancolia. Lembremos que bile negra em latim é atrabilis (atra, negro, sombrio, e bile ou bilis, substância amarelo - esverdeada secretada pelo fígado, produtora de mau humor, mau gênio) e em grego melancolia (mela, negro, e bile ou biles, o mesmo que em latim, substância causadora de abatimento mental e físico, depressão)

Para classificar os risos, podemos nos referir a riso aberto, riso claramente exteriorizado, franco; riso amarelo, riso contrafeito, constrangido; riso frouxo, riso contido, irreprimido; riso louco, riso incontido; perdido de riso, que não pode controlar ou suster o riso; riso canino ou riso sardônico, riso semelhante a um arreganhar de dentes, provocado por espasmo facial, especialmente no tétano. Acrescente-se que nos dicionários a palavra sardônico denota também ironia maldosa, zombaria, sarcasmo. Não podemos esquecer, porém, que sardônico vem do latim, Sardinia, ilha do mar Mediterrâneo. A Sardenha, antes Sardus, era não só célebre pelos seus peixes saborosos, as sardinhas. Havia nessa ilha uma erva muito tóxica, cuja ingestão provocava uma crispação dos maxilares, um rictus doloroso, chamado por isso de riso sardônico.

MAPA DA ITÁLIA
Como uma pessoa ri? O riso pode ser simplesmente um ato social; começa pelo rosto e pode se espalhar pelo corpo. Há quem diga que envelhecemos quando deixamos de rir. Onde encontrá-lo? Um veio muito rico a ser explorado quanto ao riso, por exemplo, pouco notado, está na Bíblia, inclusive nos chamados semitismos que encontramos no seu texto, os seus idiotismos peculiares, de grande riqueza, aliás, nas línguas semíticas. Presentes também na Bíblia uma das características mais interessantes encontradas nas antigas mitologias, a de unir os nomes e o destino dos personagens. A história de Isaac é um exemplo. 


SARA  E ABRAÃO
(WILLEN BARSIUS, 1612-1657)

Sara e Abraão, como se sabe, já eram muito velhos quando este anunciou que sua mulher esperava um filho. A declaração foi motivo de muita risada, de chacotas, pois, ao que parece, tinham ambos cerca de noventa anos. Quando a criança nasceu lhe deram o nome de Isaac, que etimologicamente se liga à palavra gargalhada. 

Moisés, por exemplo, que foi encontrado pela filha do faraó num cesto flutuando nas águas do rio Nilo, tem seu nome derivado de um jogo de palavras, mo, água, e uje, salvar, o “salvo das águas”. E por aí se vai...

Desde os gregos, mais exatamente de Homero,  inúmeros filósofos, poetas, historiadores, cômicos, psicólogos, médicos, sociólogos, humoristas, adivinhos ou profetas vêm tentando decifrar o riso. Uma definição que nos vem da Itália de hoje nos diz que rir é manifestar uma espotânea reação de hilariedade, suscitada no ânimo de uma pessoa através da modificação da mímica facial, consequente do estiramento dos lábios com modificação do rítmo respiratório. Fala-se também nessa definição que para haver o riso é necessária a contração de 15 músculos faciais (Dizionario della lingua italiana, de G. Devoto e G.C.Oli).

Os antigos gregos sabiam que onde a deusa Afrodite fosse louvada haveria, risos, jogos, brincadeiras, paz, doçura. Sabiam também os gregos que as crianças pequenas, os bebês, gostam de rir, apreciam o carinho, as coisas doces, as frutas, tudo isto fazendo parte do universo da deusa. As crianças gostam de brincar e de sorrir. Sabem disso instintivamente. 

FREUD

Freud, no seu trabalho sobre o humor e sua relação com o inconsciente, analisou como o riso triunfa sobre a repressão. O riso e o desejo, segundo ele, têm muito em comum: nenhum dos dois pode ser forçado. Se forçado, é um vexame. Pela graça de Afrodite, nossa inocência se renova, pois ela restaura a cada encontro amoroso a singularidade da primeira vez. Afrodite é, neste sentido, o oposto de D. Juan, que quer encontrar a primeira vez na enésima. Com Afrodite, renascemos a cada momento. Fica aqui a pergunta: será por isto que a palavra bebê entra tanto nas relações amorosas, os parceiros usando-a para se dirigir um ao outro, “meu bebê”?

Queiramos ou não, estamos sempre presos à nossa época, aos valores e às ideias do tempo em que vivemos. Nada tão risível como pensamentos e grandes “verdades” que orgulhosamente foram apresentados num determinado momento e que depois foram lidos e apreciados em outro. Parecem-nos tão ridículos... 

FRIEDRICH NIETZSCHE
Tomemos, por exemplo, o caso de um filósofo do séc. XIX, Friedrich Nietzsche, ainda muito lido e estudado , sobre o qual, com admiração, são produzidas teses e dissertações universitárias em todo o mundo ocidental. 

Ele é tido como um campeão das liberdades individuais, aquele que lutou contra o moralismo desgastado, o puritanismo decrépito. Frases como as que apresentamos a seguir não provocaram (só os meios religiosos levantaram sua voz contra ele) grande espanto no período em que apareceram. Lembro-me de um caso pessoal: na minha juventude, ao ler um livro desse filósofo, meu professor de filosofia, um jesuíta, me citou o índex (lista oficial de livros cuja leitura a igreja católica romana proibia,por considerá-la perigosa à fé e à moral), me falou de pecado mortal, excomunhão etc. Grande parte do que esse filósofo escreveu reflete, contudo, o mundinho pequeno-burguês em que ele estava mergulhado e como adotava as suas ideias:

“Quando se abre um livro escrito por uma mulher logo se dá um suspiro; mais uma cozinheira que largou o fogão” (Obras Filosóficas completas, XI, 419).”

 “A mulher constitui a segunda falha de Deus” (O Anticristo).

 “A frigidez sexual nos espíritos superiores é essencial à economia da humanidade” (Humano, demasiadamente Humano).

“Os porcos chafurdam no gozo e quem quer que pregue o gozo veja se ele não traz em si um grão de porco” (Zaratustra).

No mais, há ainda a se registrar que esse filósofo tinha grande medo de perder a visão por estar se masturbando demais... Aliás, foi Kierkgaard quem escreveu, não me lembro mais onde, que toda tese está exposta ao riso dos deuses. O riso dos deuses quanto à nossa pretensão, à nossa soberba, ao nosso orgulho, à nossa empáfia doutoral...

Durante o Renascimento, o riso, na sua forma mais radical, universal e alegre, separou-se pela primeira vez das camadas populares mais baixas e com a língua “vulgar” da época penetrou decisivamente no seio da grande literatura e da ideologia superior, contribuindo para obras de alcance mundial.

DECAMERON

Bons exemplos estão no Decameron, de Boccaccio, praticamente em tudo o que Rabelais escreveu, em Cervantes e em muitos dramas e comédias de Shakespeare.

Quanto à gargalhada, todos concordamos: é risada forte, prolongada, ruidosa. A raiz é garg, uma onomatopéia do ruído da  água durante o gargarejo ou da garganta quando o alimento é engolido sofregamente. Os nobres ingleses (sécs. XVIII e XIX) recomendavam a seus filhos que fossem vistos sempre sorrindo, nunca gargalhando. O sorriso sempre foi considerado como mais elevado, superior à gargalhada e ao riso convulsivo, estes sempre tidos como mais instintivos.

Já o sorriso seria uma forma mais humanizada da risada, sendo muito importante na chamada "Patognomonia" (estudo dos sinais que nos permitem conhecer doenças).

Se formos à Astrologia, que tem muito a dizer sobre o tema ora abordado, lembre-se, por exemplo, que ela liga a gargalhada ao elemento fogo (signo de Áries) e, no corpo humano, ao baço, este sempre considerado como sede natural de emoções e de paixões. Plínio, o Velho, já registrava na sua História Natural, fazendo coro com antigas tradições orientais, que pessoas que tinham dificuldades para controlar a gargalhada ou que gargalhavam muito podiam apresentar problemas no baço (dilatação). Os antigos chineses, por sua vez, sempre consideraram o baço no corpo humano como um depósito de energia, ligando-se ele, como tal, ao equinócio da primavera, isto é, ao signo de Áries (maiores detalhes sobre o baço e o riso neste blog, no artigo Calundu & Spleen.

A palavra sorriso vem de subridere, algo assim como rir em tom menor. O sorriso permanece muitas vezes inconscientemente estampado no rosto das pessoas como um tique, um cacoete, com finalidade de aliviar tensões. Por esta e outras razões (desejo de despertar simpatia) é que há sempre algo no sorriso que o caracteriza como uma máscara, um disfarce. Um exemplo disto está no chamado sorriso oriental, enigmático, pois nos obriga sempre a decifrá-lo. 
Quando Leonardo da Vinci foi para Florença, recebeu uma encomenda: pintar o retrato de Lisa Gherlandini, mulher de Francisco del Giocondo, proeminente comerciante florentino. O retrato de Mona Lisa (Mona é uma contração de Madona) foi o resultado, a mais famosa tela da pintura ocidental, hoje no Louvre. Depois de passar quatro anos trabalhando nela, dando-a por não concluída, Leonardo a levou para a França, onde morreu. 

MONA LISA NUA
 (LEONARDO DA VINCI,
MUSEU CONDÉ,
 PALÁCIO DE CHANTILLY

Segundo Giorgio Vasari, o sorriso da Mona Lisa é “mais divino que humano”. Vasari afirma que Leonardo se serviu de músicos e bufões, palhaços, para evitar que o seu modelo parasse de sorrir e caísse na expressão melancólica convencional. Outros dizem que Leonardo, além do auxílio dos bufões, também participava, conversando sempre que possível com o seu modelo para que o sorriso não lhe fugisse do rosto. Esse mesmo sorriso, aliás, pode ser também notado no desenho “A Gioconda Nua”, do mesmo Leonardo, hoje também na França.

Quanto à inspiração desse tipo de sorriso, Leonardo a buscou provavelmente no famoso “sorriso arcaico”, da arte grega. Colocou-o no rosto de muitos modelos femininos, principalmente nos temas maternos (Leonardo, como filho adotivo, era fixado nesse tema), como os de Leda (mãe de Helena), de Clitemnestra, dos Dióscuros, e de Santa Ana, mãe da Virgem Maria.

Freud nos diz que o sorriso foi a expressão que por primeiro revelou satisfação e que por isso se tornou a mais usual nos relacionamentos humanos. Ele, o sorriso, surge sempre como uma expressão substituta para moderar todas as situações atuantes sobre a fisionomia, a raiva que foi reprimida, o temor que foi superado, o choro contido. Tudo isso é, no geral, substituído por um sorriso. Temos, no lugar, então, em muitos casos, o já mencionado riso amarelo, o sorriso contrafeito, para disfarçar alguma coisa, uma decepção. Na arte, lembre-se novamente, temos o sorriso arcaico, de convenção desconhecida, característico da estatuária grega antiga. No capítulo de algumas patologias, como no caso de doenças mentais, não podemos esquecer o sorriso repentino, impulsivo, como no caso dos histéricos. De um modo geral, porém, o que fica é que boa parte dos sorrisos tem a finalidade de ocultar a ansiedade, um certo mal-estar físico e psíquico simplesmente porque estamos no mundo, expectantes diante de alguma coisa indefinida, talvez de um perigo não determinado, diante do qual nos sentimos indefesos.  


A ANATOMIA DA MELANCOLIA 
(ALBERT DÜRER, 1471-1528)
                                

O conceito de humor (do latim, humeo, estar misturado) foi introduzido na literatura inglesa por Robert Burton em A Anatomia da Melancolia, em 1621 (Ilustração acima, de Albert Dürer, 1471-1528). Foi definido desde então nos dicionários da língua inglesa como a qualidade que tem um discurso, um texto, uma ação que tende a provocar o riso. 

Há que se mencionar, todavia, que, antes de Burton, Ben Johnson já havia proposto na sua comédia Every Man out of his Humour (1599) a primeira definição desta palavra. Ele a associava à antiga doutrina dos humores dos gregos e a fazia correlata do termo mania, excitação. 

Na doutrina dos humores (ciência dos temperamentos) dos gregos, era dado o nome de humor a um líquido secretado pelo corpo e que era tido como determinante das condições físicas e mentais do indivíduo. Desde a antiguidade grega (Hipócrates) estavam definidos os quatro humores que indicavam os quatro temperamentos, cada um deles ligado a um elemento: colérico (fogo), sanguíneo (ar), melancólico (àgua) e fleugmático (terra). É com base nesta antiga doutrina que podemos, na Astrologia, por exemplo, ligar o riso e a gargalhada ao elemento fogo e o humor ao elemento terra, com uma certa contribuição do elemento ar.

O conceito de humor começou então, a partir dos ingleses, a ser usado em todas as literaturas, dando-se ênfase àquilo que provocava o riso, a chamada vis comica dos autores latinos. Nessa acepção, a literatura humorística abrange obras tão diferentes como os contos de Boccaccio, os textos de Rabelais, as comédias de Molière, as sátiras de Swift, a poesia irônica de Heine, a prosa burlesca de Gogol e a desgraça melancólico-ridícula de Chaplin no cinema. 

O humor, porém, já estava há muito presente no mundo. Refiro-me, por exemplo, mais uma vez, à Bíblia, ao Livro dos Provérbios, onde encontramos pérolas como estas: “Goteira pingando em dia de chuva e mulher briguenta são muito semelhantes” ou “A mulher formosa e insensata é como um anel de oiro na tromba de uma porca”. A arte de negociar dos povos semitas, quando pensamos em humor, está bem representada tanto no Antigo Testamento como no Novo. Abraão, por exemplo, ao interceder por Sodoma, num longo diálogo com Deus, não se acanhou de pechinchar descaradamente, pedindo que menos pecadores fossem sacrificados (Gênesis, cap. XVIII).

Disso tudo resulta uma grande dificuldade para se conceituar o humor. Além disso, não existe uma explicação satisfatória para o fenômeno, em que pese o importante trabalho de Henri Bergson, Le Rire. O melhor, parece-me, será considerar o humor como a faculdade de captar e exprimir o ridículo, o risível, o ambíguo, o triste-alegre, com elementos que tocam o sentimento, agindo inclusive sobre o intelecto, com a possibilidade de se chegar a um estado entre as lágrimas e o riso. 

Quando humor e ironia andam juntos, sinal de inteligência superior, o efeito é o sorriso, nunca a gargalhada. Só grandes escritores, alimentados pela perspicuitas dos latinos, fruto de uma longa convivência com os clássicos de várias literaturas, condição prévia da credibilidade do seu discurso, conseguiram juntar o humor e a ironia. Ambos, humor e ironia, pedem sempre, estilisticamente, um grande amor pelos tropos e pelas figuras de retórica, pelo uso de paradoxos, trocadilhos, oxímoros, calembures etc., o que só pode ser obtido por uma convivência com o que há melhor na literatura. O resto será riso e gargalhada...

A ironia, segundo Freud, é sinal de maturidade emocional, além de ser, para ele, o único fenômeno no reino do cômico que se aproxima do sublime. Na sua forma mais baixa, que ocupa quase todo o espaço da comunicação de massas, dá-se também o nome de humor (?) escrachado a tudo aquilo que produz o riso ou a gargalhada (escracho é também nome de retrato tirado na polícia). Outra classificação, equivalente: humor esculachado, também uma forma de humor afrontoso, deselegante, rude, boçal, muito cultivado também nos programas de TV,  onde impera o chulo, inclusive a violência física,tudo sempre muito ultrajante. Esculacho é palavra que veio para a nossa língua, segundo alguns, do inglês, de scratch, arranhar, ou, segundo outros, do francês, de crachat, cusparada.

A ironia entre os gregos (eironeia) era a arte de interrogar fingindo ignorância. Euroneimai quer dizer fingir-se de ignorante. Sócrates a levou para a filosofia. De um modo geral, todos a consideram uma forma superior de humor. Ela vem sempre com um sorriso, uma alegria bastante moderada, pois é sempre um triunfo do ego.        

No seu sentido mais imediato, a ironia é uma figura de linguagem pela qual se diz o contrário do que se quer dar a entender. É o caso do sentido oposto, diverso, emprego inteligente de contrastes. No teatro, temos a chamada ironia dramática, descompasso entre a situação desenvolvida num drama e as palavras que são proferidas, não entendidas pelos personagens, mas pela platéia. 

A ironia passa no geral por uma forma de deboche, de desprezo, e nela podemos distinguir: a) a boa ironia, ou ironia socrática, que procede do sentimento (falso?) de nossa ignorância e se exprime por interrogações aparentemente ingênuas; b) a má ironia, destrutiva ou auto destrutiva, que procede do sentimento de nossa impotência com relação ao nosso destino. A ironia se utiliza geralmente da antífrase, que consiste em fazer entender o que se quer dizer dizendo exatamente o contrário.  

Na Idade Média, havia um sentido da ironia, hoje perdido, que procurava a depreciação de algo por uma mentira ou pelo ato de enganar os outros para se tirar vantagens. São Tomás de Aquino (à esquerda, pintado por Fra Angélico) tratou desse tipo de ironia e de outras coisas referentes ao riso no seu Tratado sobre o Brincar (Comentário à Ética a Nicômaco de Aristóteles, Livro IV).

Tudo o que pudermos dizer do riso nas suas várias formas de manifestação literária também se inclui no chamado gênero cômico e nos remete, em última instância, ao deus Dioniso. Em grego, koimoidia era o canto do komos, este um cortejo ritual de camponeses, alegre e barulhento, onde havia também muita comida, sempre uma forma de se honrar o deus.

Comédia, durante muito tempo, foi a designação usada para se definir peça de teatro em geral. Comédie Française e Théâtre Français são sinônimos e comédient tanto se refere a um ator como a um cômico, a alguém que tanto trabalhe como mimo ou ator trágico. Em Aristóteles, cômico e comédia apareciam associados à imitação de homens de qualidade moral inferior, não com relação a vícios, mas com relação ao risível.

Quando lidamos com o cômico, sob o olhar psicanalítico, é preciso fazer uma distinção muito sutil entre o cômico com o qual nos deparamos na vida, espontâneo, e com aquele que é provocado deliberadamente. No caso deste último, para o seu êxito, há necessidade de dois fatores: que os impulsos da vida instintiva sejam satisfeitos e que as objeções do superego sejam ludibriadas. 

A diversidade de formas e de sentidos do cômico deu lugar a uma tipologia muito interessante, baseada nos modos utilizados. Por isso, é possível falar em comédias que têm temas baseados em costumes, em tipos humanos, em palavras, em gesticulação etc. Mais ainda: dentro da órbita do cômico, convivem, por exemplo, manifestações muito interessantes e diferentes, unindo-se desenho e palavra.  Uma dessas formas de união, por exemplo, é a caricatura. O italiano caricare e o francês charger (charge = caricatura) definem no fundo a mesma ideia: carregar, sobrecarregar. Não é por acaso que revistas cômicas como O Malho, no Brasil, e Punch (soco), na Inglaterra tiveram tais nomes.

O gênero teatral mais ligado ao riso é a comédia, na origem festas celebradas em honra ao deus Dioniso. Tinha um caráter campestre, por oposição à tragédia, urbana, mais solene. O propósito da comédia era o de divertir, nela se incluindo também o escandaloso, o ridículo, tudo em meio a cantos burlescos, comida, bebida, desregramentos. 

Aos poucos, no mundo grego, tanto a comédia como a tragédia, antes festas populares espontâneas, acabaram por se institucionalizar. O governo das cidades gregas, especialmente Atenas, as encampou, procurando esvaziá-las de seu caráter revolucionário, principalmente a comédia por causa de suas propostas anárquicas.

O grande nome da comédia grega foi Aristófanes, um dos

maiores gênios da arte teatral em todos os tempos. Seu humor é inteligente, ainda que por vezes seus textos descambem para o deboche e para o obsceno. Produzidas há 2500 anos, a maior parte das comédias de Aristófanes é atualíssima. 

Em As Vespas (422 aC), por exemplo, discute-se o problema dos tribunais do júri em Atenas. Questiona-se na comédia se o júri, como instituto jurídico, era bom ou mau. Ao final da discussão chega-se à conclusão, depois de muitas gozações, de que o maior mérito dele era o de propiciar um bom dinheiro aos juízes. 

Na comédia As Aves (411 aC), dois cidadãos, cansados da corrupção, da burocracia e dos sicofantas que infestavam a cidade (sicofantas eram os delatores profissionais) transformaram-se em aves, buscando um novo lugar para viver. Fundaram uma cidade, livre desses problemas. Logo, porém, os humanos aderiram à mania de se transformar em aves e, dentro em pouco, a nova cidade, só habitada por aves, começou a sofrer dos mesmos males de Atenas. 


Na mitologia grega, um dos menos conhecidos filhos da deusa Nix é Momo, o Sarcasmo. Sua história não é volumosa, mas ele está muito presente na arte e no cotidiano das pessoas. Momo tem relação com o verbo mokasthai, zombar, escarnecer, ridicularizar. A raiz que está por trás deste verbo, mou exprime uma ideia de desdém, de menoscabo, um trejeito feito com os lábios a lembrar deboche, pouco caso, com o objetivo de se desqualificar o que é apresentado ou dito. Momo acabou por personificar o sarcasmo.

Os gregos tinham a palavra sarkasmós, riso amargo, do verbo sarkádzo, que tem o sentido de abrir a boca para mostrar os dentes. O verbo também significa mostrar os dentes como um cão. Depois, mostrar os dentes com um riso amargo e crispado. Já sarkidzo é arrancar a carne, a pele, dilacerar. Daí sai sarcófago (sarkophagos), devorador de carne. Indo mais fundo, podemos chegar à palavra grega sarx, sarkos, carne, de onde tudo provém.

Momo, na mitologia, passou desde então a significar também açoite, ironia cáustica, ato de abrir a boca para dilacerar, maledicência, crítica feroz. Expulso do Olimpo, porque irreverente e profanador, acolhido por escritores e poetas, Momo foi para a literatura, para o teatro e para a filosofia. Dioniso, como deus do teatro, “entregou” então a Momo a tutela do chamado drama satírico, gênero teatral que fazia parte das chamadas Dionísias Urbanas.

No séc. II, Luciano de Samosata, uma das maiores figuras da sátira grega, genial sempre, escreveu Diálogos dos Mortos, onde nos deixou passagens de uma verve notável. Inspirado pelas sátiras de Menipo, ele corrigiu o seu realismo por uma fantasia plena de invenção e de malícia. Sua descrição do affaire Afrodite - Ares é soberba. Além do mais, destaque-se que ele escreveu limpidamente no melhor grego ático de seu século. Muito admirado pelos modernos, Luciano foi modelar para muitos, como Erasmo e Cyrano de Bergerac, fixando a sátira como gênero para sempre. 

Ainda na Itália, temos um personagem muito ligado ao riso. Referimo-nos a Arlequim, personagem da commedia dell´arte, Arlecchino, no teatro desde o séc. XVII. A origem de seu nome é muito interessante. Viria ele do inglês medieval, de Herle King, isto é, Rei Harilo. Depois, passou a Harlequin, Arlecchino, nome que foi usado para designar a máscara típica de um personagem bufão, apalhaçado, cuja função era a de divertir o público durante os intervalos das teatrais. Arlequim é o farsante, o bufão, o palhaço por excelência.

A sua principal característica é a de dizer a verdade rindo; ser como Arlequim é proceder dessa maneira. A origem desta característica deve estar numa famosa frase de um poeta latino, Horácio (séc. I aC): Ridendo dicere verum, que está nas Sátiras, uma obra do poeta. Logo os que o leram a divulgaram, virando ela proverbial.

Ainda com relação a Arlequim temos também a expressão latina, cunhada no séc. XVII por Jean de Santeuil, a propósito da máscara do personagem: Ridendo castigat mores. Essa expressão logo se espalhou. Totó, o famoso cômico do cinema italiano, usou-a num filme, parodiando-a. Numa cena, ele, rindo, esbofeteava um figurante de pele escura, dizendo Ridendo castigat moros. A expressão arlequinesca procura sempre, se usada seriamente, reprimir vícios e erros em tom jocoso e indulgente. 

Na Idade Média, na península ibérica, a par da poesia lírica, surgiu uma inesquecível literatura, vigorosa, bastante mordaz, obscena, satírica, implacável. Tal literatura estendia-se a todos os campos, à moral, ao religioso e ao político. Os ataques eram cruéis e muitas vezes punham em risco a própria vida do poeta. A essa produção literária, de inspiração provençal (sirvantès) se deu o nome de cantigas de escárnio e de maldizer.

 


Este artigo não poderia ser encerrado sem uma referência especial a Gregório de Matos (1633/36? - 1696), a primeira grande voz da literatura brasileira. Viveu e escreveu no período barroco, entre a Bahia e Pernambuco, com a tradição portuguesa e a espanhola. Inventivo e original, introduziu na literatura a linguagem coloquial, popular, “mestiça”, a linguagem das ruas. Chamado o “Boca do Inferno”, tornou-se um poeta maldito ao denunciar os desmandos sociais, políticos e econômicos de sua época e também ao expressar poeticamente o erotismo e a sensualidade. Sua obra é de grande qualidade e beleza artística; possui muitas faces, todas inesquecíveis e antológicas. Cultivou a poesia lírica, a satírica, a filosófica, a religiosa, a pornográfica e a encomiástica. Lírico-barroco por excelência, foi e é o maior satírico de nossa literatura, irmão de Luciano de Samosata, sempre repleto de grande brasilidade:

À Floralva, uma dama de pernambuco

1

)“Bela Floralva, se Amor 

me fizera abelha um dia, 

em todo o tempo estaria 

picando na vossa flor: 

e quando o vosso rigor 

quisesse dar-me de mão
 
por guardar a flor, então, 
tão abelhudo eu andara, 
que em vós logo me vingara 
com vos meter o ferrão.

 
2)
Se eu fora a vosso vergel, 
e na vossa flor picara, 
um favo de mel formara 
mais doce, que o mesmo mel: 
mas como vós sois cruel, 
e de natural castiço 
deixais entrar no caniço 
um Zângano comedor, 
que vos rouba o mel, e a flor, 
e a mim o vosso cortiço”. 

 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

DEUSES GREGOS: TRANSCENDÊNCIA E IMANÊNCIA


DEUSES GREGOS
  
ARISTÓTELES
É preciso colocar de início para que as ideias fiquem bem claras que a mitologia grega, quanto à cultura ocidental, se inscreve na chamada tradição imanentista por oposição à transcendentalista. Sem nos
KANT
perdermos em maiores discussões sobre esta questão e sua repercussão na Filosofia, de Aristóteles à  Escolástica  e desta  a Kant e aos existencialistas, entendemos que o imanentismo  se caracteriza simplesmente por  tudo aquilo que procede de um ser como expressão do que ele traz em si, de sua participação no mundo e de suas relações com os outros seres humanos. 

Imanente vem do latim, in, em, dentro, e manere, permanecer, ficar, ou seja, aquilo que está no interior de um ser. A moral é imanente, por exemplo, quando decorre da vida social e tem relação com os homens e com os acontecimentos do mundo. No mito, a imanência nos fala da ação do divino (modelos superiores de existência criados pelos humanos) em nosso mundo, sendo-lhe intrínseca; os deuses dele participam, fazem parte de nossa vida, estão na natureza e inspiram as produções superiores do espírito humano, têm a ver com as nossas ações, a nossa arte, a nossa literatura, a nossa música, a nossa poesia como com os nossos crimes e
JUNG
pecados. Os antigos gregos colocaram em seus deuses a totalidade da existência, toda a sua complexidade e diversidade. Aparecem-nos eles assim como modelos de existência, para o bem ou para o mal, são paradigmas, aquilo que alguns chamam de arquétipos ou, melhor, são os revestimentos primários dos arquétipos da cultura ocidental, segundo uma tradição que remonta a Platão, a Fílon de Alexandria, ao Pseudo-Dionísio, o Areopagita, a Santo Agostinho e, modernamente, a Jung.

A mitologia grega, para a cultura ocidental, como representação das forças que operam no universo, foi penetrando tudo. Acabou por se tornar a fonte de muitas alegorias  que alimentam as grandes

metáforas de muitos filósofos, místicos, cientistas, artistas, poetas, músicos, fazendo parte inclusive do cotidiano do homem comum ao invadir o léxico de várias línguas. Lembremo-nos do que Platão fez com Eros no seu diálogo O Simpósio quando, através de Sócrates, estabelece uma nova gênese do deus para  falar do amor homossexual. Ou, então, daquilo que Édipo significou para Freud na construção da sua Psicanálise ou, ainda, de como a crônica do titã Prometeu se encaixa à perfeição quando falamos de lutas contra a tirania ou do roubo de segredos científicos.

CERES (WATEAU, 1684-1721)
Quanto ao homem comum, a língua e a mitologia greco-latina estão presentes quando comemos cereais (Ceres), nectarinas, ambrosia, quando calçamos sapatos vulcanizados, ou colunas de mercúrio sobem e descem para medir as temperaturas do nosso corpo (termômetros). Vemos filmes épicos, dramáticos, eróticos; afrodisíacos melhoram o desempenho sexual; deuses (Urano, Plutão,
TÂNTALO
( GOYA , 1746 - 1828 )
Hélio, Selene) viraram elementos químicos (urânio, plutônio, hélio, selênio etc.) e um criminoso da mitologia grega deu nome a um dos metais mais valorizados do mundo, mais que o ouro, o tântalo. Utilizado em telefones portáteis, computadores pessoais e eletrônicos automotivos, o tântalo também é usado para fazer ferramentas de metal para usinagem e para a produção de superligas para componentes de motores a jato.


PÂNICO ( O  GRITO , EDWARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Personagens da mitologia grega,invadiram a Psicologia para dar nome a complexos ou síndromes (complexos de Zeus, de Cronos, de Héstia, de Electra ou síndromes do Pânico (do deus Pan), de Medeia. A palavra economia vem do grego (oikos, casa, habitação, mais nomos, lei, ou seja, é, na origem, a lei,  são as regras da casa) ou foram os deuses e heróis para o mundo das finanças para
AQUILES E AJAX (VASO GREGO)
designar o poder oculto do dinheiro (plutocracia) ou acabaram em prateleiras de supermercados como  sabão em pó (Ajax, herói grego, que é vendido como o furacão da limpeza). Foi o maior dos heróis gregos, Hércules, que no seu décimo primeiro trabalho (A limpeza dos estábulos do rei Augias) que inventou a propina. Os mitos e seus personagens estão em livros de Medicina dando o nome a doenças (satiríase, priapismo, erisipela, mercurialismo, saturnismo). Damos o nome de calcanhar de Aquiles a um ponto fraco em nosso corpo. Se mais quisermos  é só abrir os dicionários  e lá os encontraremos: morfina (Morfeu), hermético (Hermes), ciclópico (Ciclopes), tantalizar (Tântalo), nefelibata (Nefele), etérico (Éter), hemeroteca (Hemera), narcótico (Narciso), carisma (Cárites), bacanal (Baco), letargia (Lethe), museu (Musa), hipnose (Hipnos), oniromancia (Oniro). Quase toda as doenças e males que nos atingem são “gregos”: osteopenia, anemia, osteoporose, leucemia, pneumonia, prostatite, rinite, câncer, hidrocefalia, escoliose, psicopatia, nevrose, encefalite etc.  


HESPÉRIDES  ( HANS  VON  MARÉES , 1837 - 1887 )

Ampliando um pouco mais a nossa abordagem, indo noutra direção, tomemos, por exemplo, o universo semântico (possibilidades significativas) que Nix, a deusa da noite, com alguns de seus filhos ou personagens que com ela se apresentam, nos oferecem. É Nix uma das entidades cosmogônicas, nascida do Caos, como está em Hesíodo. Na ordenação cósmica cabem-lhe as trevas superiores, opondo-se ao Érebo, as trevas inferiores, estas as camadas intermediárias do Hades. Nix habita o extremo-ocidente, além da região das Hespérides, as ninfas do poente, suas filhas;  lá tem o seu palácio, de onde só sai quando Hemera, o dia, seu filho, se retira. A região onde  Nix tem o seu palácio, lembremos, é o lugar onde a luz morre. No interior da palavra ocidente esconde-se a raiz cad, que encerra a ideia de tombar, cair; daí, queda da luz, ocidente. Foi para esta região, vizinha do Hades, que se encaminhou Ulisses quando resolveu interrogar as almas dos mortos (nekyia) na esperança de obter informações sobre o seu caminho de volta  para Ítaca. O ocidente , se por um lado lembra declínio, decadência, como lugar noturno e satânico, sinistro, à esquerda, é o lugar das grandes-mães em todos os mitos, e nos diz, por outro, que ele é também o lugar da fertilidade, da fecundidade, lugar da obscuridade, das confidências, da discrição, do entendimento. 

HEMERA
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Retirando-se Hemera, o dia, e mergulhando o deus solar Hélio no oceano ou escondendo-se atrás dos montes, Nix começa  sua viagem pelos céus; vai no seu carro puxado por cavalos negros, com seu vasto manto salpicado de estrelas, franjado de infinito, como diz o poeta. Para muitos, quando ela estende o seu manto, são as horas das trevas, sempre perigosas. O intervalo entre os dois crepúsculos, o vespertino e o matutino, mais o seu ápice, a meia-noite, são as chamadas horas abertas, horas dos acontecimentos maléficos, em que demônios, fantasmas e espectros atuam livres, principalmente nas encruzilhadas. Por sua representação espacial, a encruzilhada propõe múltiplas possibilidades, sugere mudanças, abandono de um caminho por outro. Para tomar o caminho certo temos que enfrentar as criaturas perniciosas  que do lugar  se apossaram como forças do caos, temos que reverenciá-las sempre, vencer os nossos temores, as nossas projeções imaginárias.  

NIX
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Nix é tanto ausência de luz quanto escuridão misteriosa, risco de desvios, confusão de distâncias, anulação de evidências. Mas Nix é também protetora dos úteros, das cavernas e das grutas, dos lugares de nascimento e de renascimento.  A não ser que Pothos, a saudade, interfira, porque saudosos não dormimos, Nix  libera  seu filho Hipnos, o sono, que, baixando o seu tridente sobre as nossas pálpebras, traz o sono reparador. Qualquer que seja a sua representação, como um jovem segurando uma papoula ou  uma espécie de cornucópia a gotejar o sono sobre os que dormem ou (melhor ainda) se ele vier com seu filho  Morfeu, o sonho, na forma de Hypar, o sonho premonitório. 

Há ocasiões em que Nix pode retardar a chegada de seus filhos para  favorecer a reflexão, a meditação raciocinada, colocando-se entre a proposta que nos fazem e a decisão que precisamos tomar, evitando precipitações, ensinando serenamente, generosamente. É nesses momentos  que ela toma o nome de Eufrone, a benfazeja, a benevolente, ou de Eulalia, a boa palavra, a mãe do bom conselho. Duas filhas de Nix poderão, contudo, aparecer se Hipnos não vier ou demorar muito para chegar: a irritante Éris, a discórdia, e Apate,
MORFEU
o engano, sempre desagradáveis e perturbadoras. Quando Morfeu, o de mil formas, vem como Oniro, o sonho enganador, Nix deixa de ser benfazeja. Agora, então, à nossa volta, animais fabulosos, luzes espantosas, gritos, gemidos, monstros, abolição do tempo e do espaço. Oniro, com a sua infinita capacidade de mudar de forma, faz surgir personagens como Iquelos  (aparência de realidade), Fobetor  (terrível, assustador), Fantasos (fenômenos enganadores) e muitos outros...                                                

FERNANDO  PESSOA
Os poetas e músicos têm especial predileção  por  Fílotes, a ternura, um dos filhos de Nix. Muitos escreveram ou compuseram sobre este sentimento noturno cujo nome vem do verbo grego amar e que entre os latinos  se liga  ao tenro, ao terno, ao delicado. Fílotes é aconchego, proteção, afago, delicadeza. Fernando Pessoa nos deixou  em Ficções do Interlúdio  (Álvaro de Campos), ao pedir que a Noite viesse, uma ideia  muito  clara desse sentimento noturno: Vem, e embala-nos, vem e afaga-nos.
BAUDELAIRE
Beija-nos silenciosamente na fronte, tão levemente na fonte que não saibamos que nos beijam senão por uma diferença na alma. Ou lembremo-nos de como Baudelaire, com o seu Recueillement, pede à sua dor que ela se tranquilize quando uma atmosfera obscura envolve a cidade, trazendo a uns a paz e a outros, o cuidado. Em ambos a esperança de que  Nix venha com Fílotes.

CHOPIN
(DELACROIX , 1789 - 1863)
São certamente de Fílotes as composições musicais, vocais ou instrumentais, depois sobretudo pianísticas  sem forma especial, de caráter melancólico, triste para alguns,  a que deram o nome de noturno. Peças de atmosfera às quais Chopin, mais do que qualquer outro compositor, tem seu nome ligado. Abandono, solidão, um pedido de socorro... São também desse filho de Nix as chamadas berceuses, canções para fazer as crianças pegarem no sono, ritmo que lembra o balanço delicado de um berço. Para os povos de língua inglesa é a conhecida lullabay. Entre nós, é o acalanto (mitigar, acalmar, aquietar, calar), como Mário de Andrade registrou em Macunaíma, ao pedir que Acutipuru (o esquilo; de acuti: cutia e  puru: enfeitada) devolvesse o sono ausente da criança.
           
SELENE

Antes as trevas, depois a luz, é a sentença latina (Post tenebras lux), o que se torna válido tanto  para as cosmogonias como para o nosso processo de individuação. Importante destacar que Nix por isso é também vista como algo que devemos atravessar. As travessias noturnas são fortemente marcadas pela presença da Lua, a luz noturna, olho de Nix, que entre os gregos toma, dentre outros, o nome de Selene. Embora associada à doçura, à brancura, à proteção e à generosidade, lembrando em muitas tradições as velhas madrinhas. O poder maléfico de Selene pode ser tão grande quanto os bens que  prodigaliza. O ferido por ela chama-se lunático, palavra que na antiguidade e ainda hoje em certas sociedades é sinônimo de epiléptico (agarrado, raptado por cima). Não esqueçamos também que aluado designa o que nasce com perturbações tanto psíquicas (amalucado) quanto físicas, o que nasceu fraco, raquítico, o que não tem coluna vertebral (rhakhis) boa. Tudo isto porque da Lua depende tudo o que nasce e que tem de passar à vida adulta, brotos, crias, ervas, gemas, grelos, rebentos, embriões. É neste sentido que a Lua aparece como deusa das passagens, das travessias, funções que se ampliarão e se fixarão melhor na figura de Ártemis, deusa lunar do panteão olímpico.

HESÍODO
Outra que aparece com Nix é Hécate (a que fere  distância), também  representação lunar como Selene. Vinda de um mundo pré-olímpico, Hesíodo, em sua Teogonia, dá-lhe grande destaque, certamente por ser agricultor além de poeta. Hécate representa os mistérios da noite, todos os seus sortilégios, sua magia, seus encantamentos. Deusa ctônica, dividia o poder sobre as encruzilhadas com o deus Hermes, o deus dos caminhos. Personificava as três fases visíveis da Lua, recebendo, por isso, o nome de Triforme ou Trívia, além dos de  Curótrofa e Enódia, a que faz passar e a dos caminhos. 

Baixava Hécate nas encruzilhadas a cada vinte e oito dias mais ou menos, na Lua nova (ausência de lua no céu). A Lua nova, como se sabe, é tempo de germinações espontâneas, indica que algo vai surgir. Daí um outro nome seu, Numênia, a primeira Lua. Simboliza fecundidade, fertilidade, redes e pomares cheios. Na Alquimia, a Lua nova tem a ver com a primeira etapa da obra alquímica, a nigredo. O séquito da deusa era formado por espectros, fantasmas, demônios, que aterrorizavam os que paravam nas encruzilhadas. Do séquito de Hécate participavam também  cães, éguas e lobas. Os cães, sobretudo, eram muito caros à deusa já que era pelos latidos deles que se anunciava a sua chegada. Fazem também parte do séquito da deusa, às vezes, entidades repulsivas  como a Empusa e a Lâmia, monstros dos terrores noturnos, ligadas aos mundos maternal e infantil. 


HÉCATE  ( WILLIAM BLAKE , 1757 - 1827 )

As almas errantes também faziam, às vezes, parte do cortejo da deusa, almas daqueles que não tinham tido morte ritual, razão pela qual  ficam a perambular pela terra. Hécate tinha, dentre as suas funções, a de estar sempre presente quando a alma entrava e saía do corpo. Daí ser deusa das almas dos mortos. Quando vinha à terra ficava a passear  nos cemitérios entre as tumbas, carregando consigo, em meio a gemidos e ranger de dentes, as almas sedentas, com suas longas vestes. Ao lado dos alimentos que lhe eram oferecidos, sempre juntos da deusa a copa e o cântaro. 

Em muitas tradições místicas, como no Sufismo, bastante comuns as imagens da viagem noturna. Para se chegar ao desejado estado de contemplação é necessário fechar as passagens dos sentidos físicos para que os espíritos, mais profundamente, possam operar com liberdade. É a chamada Noite Mística: barrar as impressões dos sentidos (esperanças, medo, emoções, sentimentos, etc.) para se chegar à luz interior. Para S. Juan de la Cruz, o famoso místico carmelitano, entrar na noite é o caminho da ascese,  a noite escura da alma: 
Oh! Noite que me guiaste! 
Oh! Noite mais amável que a alvorada! 
Oh! Noite que juntaste Amado com Amada, 
Amada já no Amado transformada 
                                     (Canções da Alma).


S. JUAN DE LA CRUZ (BECERRA , 1520 - 1570)


TÂNATOS
Mais radical que Hipnos é seu irmão gêmeo Tânatos, a morte, também conhecido como sono eterno, o que tem alma de ferro e coração de bronze, inacessível à piedade, como diz Hesíodo. As representações terríveis de Tânatos, ao longo da história grega, é bom lembrar, admitiram sempre um lado “positivo”, digamos, na medida em que este filho de Nix significava transição para uma outra vida, acenava com possibilidade de renascimento. Se figuras sinistras como as Keres ou Eurínomo a ele se associavam  havia também a imagem dos Campos Elíseos. As Keres,  filhas de Nix, deusas lúgubres, sempre sedentas de sangue, atacavam os moribundos nos campos de batalha, como Homero nos deixou  no canto XVIII da Ilíada. Quanto a Eurínomo, o monstro escuro que devorava as carnes dos cadáveres, registre-se que é criação artística posterior. Polignoto, o pintor, o coloriu de azul, ao executar suas composições murais sobre temas mitológicos, que Pausânias e Plínio descreveram. Mesmo as Moiras, as donas do fio da vida,  também filhas de Nix, ligadas  a Tânatos, nunca chegaram  a ser representadas  de forma repulsiva ou hedionda. É claro que não podemos perder de vista as contribuições órficas e pitagóricas, já no período helenístico, que suavizaram bastante o tema da morte. 


UM  FIO  DE  OURO (JOHN  MELHUISH  STRUDWICH , 1849 - 1937) 

Ao lado do caráter inexorável, iniludível, da ação das Moiras, Tânatos sempre foi visto como uma espécie de véu que se interpunha entre o morto e a luz, uma espécie de nuvem negra. Olhos que se fechavam, pálpebras baixadas, um ato de compaixão, quase. Um benfeitor especial que trazia o descanso e aliviava as dores. O que sempre se destacou quanto às Moiras, mais do que uma ideia de um inimigo físico foi a de que tanto simbolizavam as três etapas da vida humana: nascimento (Cloto), duração (Láquesis) e morte (Átropos), como a impossibilidade de sabermos de antemão o nosso destino. Uma fatalidade, sim, mas também uma liberação, um acesso, uma revelação. Daí, muitas representações de Tânatos como um belo jovem, como que a dormir, recostado numa árvore, uma tocha apagada ao lado. Ou, como em muitas outras representações, uma coluna partida, uma vela de barco arriada, uma corrente quebrada. Em alguns casos, esculpida na pedra, junto, uma borboleta, a indicar crenças reencarnacionistas. Atenuavam-se as representações violentas de Tânatos, como, por exemplo, as que o faziam semelhante a  Bóreas, o terrível vento hibernal do norte.

MOMO
Próxima de Éris, a Discórdia, estava outra  filha de Nix, Momo, a zombaria, o sarcasmo. Sua ocupação era a de ridicularizar as ações divinas ou humanas, com exceção as de Afrodite, nas quais  não encontrou nada que pudesse ser ridicularizado. No canto II (86) da Odisseia, lá está ela nas palavras de Telêmaco, filho de Ulisses. Momo marcou sua presença  na mitologia grega de modo espetacular ao se tornar a inspiradora da guerra de Troia a Zeus como recurso para a diminuição da densidade demográfica, insuportável àquela altura conforme queixas da grande-mãe Geia. Já Geras, a  velhice, outra filha, a angústia do efêmero, era uma triste divindade. Sempre representada por uma velha mulher, de túnica negra, um bastão de apoio retorcido numa das mãos; na outra, uma taça vazia; ao lado, uma clepsidra quase esgotada
PÍNDARO
Na divisão dos bens do universo, couberam aos humanos, por sua própria culpa, muitos males e misérias, embora, como dizia Píndaro nas Nemeias, deuses e humanos tivessem uma mãe comum. As atividades humanas ficaram restritas a limites impostos pelos deuses. Ultrapassá-los, era ofendê-los. Ofendiam os humanos aquilo que os gregos chamavam de Nêmesis,  grande divindade, filha de Nix, que personificava a justiça distributiva. Mais ainda: admitiam também os gregos que,  por mais rico e poderoso que fosse um homem, os deuses, talvez por inveja, poderiam sujeitá-lo a uma punição. A fortuna demasiada era um insulto aos deuses, sentimento que fazia parte do culto a Nêmesis. A deusa recebia  também o nome de Adastreia  (a da qual não se pode fugir, a necessidade).  Nêmesis marcava os limites dentro dos quais deveriam se distribuir as ações humanas. Não é por outra razão que a Moira é chamada de Aisa, parte igual, o “pedaço” de vida assinalado a cada um de nós.
Os deuses gregos  interferem na vida dos mortais, os efêmeros, os nascidos para um dia; dela participam, misturam-se, chegam facilmente à  promiscuidade, têm paixões, fazem sexo, muitos são declaradamente homossexuais. De outro lado e ao mesmo tempo são imortais (athanatoi), imperecíveis, imputrescíveis, sublimes. Vivem no Éter, gerado por Nix, a camada superior do cosmos, acima da Lua, região da luz eterna. Seu modo de viver é o de um banquete sem fim (thaleia). Difícil compreender, inaceitável mesmo, se não tivermos em mente o caráter imanentista da mitologia grega, que os deuses e sua entourage sejam ao mesmo tempo imortais, isentos de preocupação e de cuidados, estes típicos dos humanos, vivendo numa situação de satisfação sem carências, possam chegar na sua convivência ou envolvidos com mortais a tantas situações de perigo, de risco, de degradação e de vexame. Verdades ou poesia? Sólon já havia observado  que muito mentem os poetas. Xenófanes foi mais claro e Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que entre os homens é vergonhoso e censurável, roubo, adultério e logro mútuo. Por isso, Platão certamente proibiu a entrada de Homero no seu  Estado ideal...

JAVÉ
Na tradição imanentista , as divindades não ficam fora da existência humana, distantes e inacessíveis como um Javé-Adonai, nem a transcendência é transferida para uma outra vida, para o além, fora dos limites da experiência possível. A transcendência é colocada no aqui e no agora, nesta vida, tornando-se algo histórico. Os deuses gregos vão representar o possível dessa transcendência, salientando a importância da existência humana no que ela tem de irredutível. São a consciência permanente que temos de tomar do nosso destino pessoal na medida em que nos arrancamos a cada momento do nada para abrir adiante um futuro onde nossa existência se decidirá. 
Representam assim as divindades gregas os possíveis de nossa transcendência, que não é lançada para uma outra vida, cabendo-nos a escolha ou, se quisermos, a perplexidade diante das várias  possibilidades que tipificam. São eles  em nosso mundo princípios
KIERKGAARD
vitais que nos animam e não algo que vem de fora. A imanência é o momento pelo qual nós, refletindo sobre a nossa existência, experimentando, quem sabe, um sentimento de angústia diante dela; chegamos por nós mesmos ao “divino” ou ao “demoníaco” da divindade que “vive” em nós. É neste sentido que a transcendência só pode se dar pela existência (Kierkgaard).