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sábado, 5 de junho de 2021

O BRANCO


POMBA  DA  PAZ  (PABLO PICASSO, 1881-1973)


Em geral, as cores são símbolos afirmativos de iluminação. O branco tradicionalmente sempre foi usado para representar a luz, tornando-se por essa razão símbolo da pureza, da temperança, da verdade, da inocência, da castidade, da paz (pomba branca), da limpeza e, por extensão, do sagrado e do divino. Algumas vezes, porém, o branco pode possuir algumas conotações negativas, denotando luto, medo, covardia, rendição, esquecimento, frieza, vazio, morte (palidez da morte) conotações que, contudo, não chegam a invalidar o seu sentido positivo. 

Negativamente, é certo, podemos falar que "deu branco" quando nos esquecemos de alguma coisa ou que levantar a bandeira branca é entregar os pontos, render-se. Em branco é expressão que designa não se haver dormido (fiquei em branco a noite toda), não haver aprendido (passei em branco todos aqueles anos de estudo) ou nada comido (saí da mesa em branco, de estômago vazio). O adjetivo branquelo é pejorativo, indicando um indivíduo de pele clara e fracote, que deixa a desejar. Ficar branco de medo é expressão que equivale a amarelar, perder a coragem.

Em várias tradições, sonhos com cavalos brancos e pressentimentos da morte aparecem unidos. Lembremos ainda que na literatura fantástica os fantasmas são representados sob formas brancas ou vestidos de branco. Uma figura importante desse mundo fantástico na tradição europeia é a famosa Dame Blanche.

DAME BLANCHE
A Dame Blanche é uma aparição feminina vestida de branco que pertence à classe das fadas. Em alguns países europeus ela entra sobretudo em histórias tristes, como a que nos fala de uma Dama que vivia em torno do palácio dos Bourbons, na França, aparecendo sempre que um príncipe estava para morrer. Há uma história, narrada pelo político Malesherbes, sobre a famosa Dama. Ele nos conta que Luís XVI, no dia anterior ao de sua condenação à morte, lhe perguntara se ela, a Dame Blanche, não fora vista por alguém. 

O mesmo ocorre na Alemanha. Uma tradição alemã afirma igualmente que sempre que uma mulher vestida de branco varria as salas de palácios uma infelicidade se abatia sobre a família real. Assinalemos que o tema da Dama de Branco (1825) deu origem a uma famosa ópera de mesmo nome; foi composta por Boieldieu, inspirada num tema de Walter Scott, escritor inglês.

O branco, positivamente, é a cor da iniciação, do noviciado, usada pelo neófito ou pelo candidato (candidus é palavra latina que significa branco cintilante). Candidato, na Roma antiga, era o vestido de branco que se apresentava como aspirante à glória ou à imortalidade.  Nessa condição, o branco aparece nos ritos de passagem como o batismo, a confirmação (no catolicismo, sacramento administrado por um bispo ou por delegação papal, por um padre, através do qual a graça conferida ao cristão pelo batismo é fortalecida e aperfeiçoada; ratificação do batismo, crisma), o casamento, situações em que a cor se associa a estados de pureza, luminosos e alegres. 

Como cor da santidade, da espiritualidade, da verdade e da revelação, o branco foi usado pelos druidas, os sacerdotes celtas, e por outras classes sacerdotais, tanto no mundo cristão como não-cristão, este chamado pagão. Com idêntico sentido sagrado, o branco era usado também pelas vítimas sacrificiais. 

O branco, antítese do negro, é muitas vezes considerado como uma “não-cor” porque é uma mistura perfeita de todas cores do espectro luminoso. Os antigos egípcios, por exemplo, sempre procuraram envolver os seus mortos com um grande lençol branco (cor da divindade) para mostrar que a morte livrava a alma pura do seu invólucro carnal, perecível.

Participam do simbolismo do branco como emblemas da pureza, da castidade e da virtude, a maior parte dos símbolos usados nas várias civilizações, desde a antiguidade, símbolos como o das vestimentas dos comungantes, das noivas, feitos com tecidos de linho ou dos buquês de flores de laranja que elas carregam nas mãos, dos lírios que enfeitam os recintos sagrados, de objetos feitos com marfim etc.

É oportuno lembrar que, dentre as seis cores básicas, três, o azul, o amarelo e o vermelho, são fundamentais. Três outras resultam da mistura de duas destas. O verde (azul mais amarelo), o laranja (vermelho mais amarelo) e o violeta (azul  mais vermelho). A síntese destas cores nos dá o branco. Não é por acaso, aliás, que todas as cores que ocupam um lugar privilegiado no simbolismo tradicional, desde os tempo mais remotos da  humanidade,  tiveram sempre o mesmo significado em todos os povos. 

A linguagem dessas cores, nesses povos, esteve sempre ligada ao mundo religioso, desde a antiga Índia, passando pela China, pelo Egito, pela Grécia, por Roma, alcançando a Idade Média e chegando aos tempos atuais, tudo como se pode constatar por uma análise mais cuidadosa dos Vedas, das pinturas dos templos egípcios e chineses, dos livros em zende do antigo Irã, dos vitrais das catedrais góticas envolvidos pelo branco etc.

Através dos sentimentos que nos despertam a antipatia e a simpatia dentre as muitas tonalidades de cores que esse mundo do passado nos revela, além de outras informações, é claro, podemos certamente chegar ao entendimento de como tudo isso vive magnificamente até hoje em nós.  

Nesse e noutros sentidos, a cor branca nos remete à dialética do Um e do Todo, sendo usada para designar a aparição da primeira luminosidade quando a noite deixa de ser noite. Dá-se, aliás, o nome de alba, alva, aurora, a essa primeira luz que antecede o aparecimento Sol. Alva ou alba era também o nome da comprida veste de pano branco usada pelos sacerdotes em muitas cerimônias religiosas. O mesmo nome era aplicado à túnica branca que os condenados à morte vestiam quando levados para o patíbulo.

EOS
Na mitologia hindu, é uma deusa branca que traz a aurora (claridade que aponta para o início da manhã antes do nascer do Sol) chamada Ushas ou Ahana, isto é A Iluminadora. Entre os gregos, é a deusa Eos (nome que etimologicamente significa brilhar), irmã de Hélio (O Sol) e de Selene (A Lua). Entre os romanos, a deusa tem o nome de Aurora, palavra que os antigos romanos associavam a aurum (ouro), em razão do colorido áureo do céu que antecede o nascimento do Sol. Jovem de deslumbrante beleza, de dedos cor-de-rosa, pálpebras de neve, estava encarregada de abrir todas as manhãs as portas do céu para o carro solar poder entrar.

A alba, um dos estágios da Obra alquímica, é chamada pelos alquimistas de albedo, antecedendo-a a escuridão, a nigredo. Na mesma sequência, depois do albedo temos citrinitas, fase que corresponde ao amarelado luminoso da luz solar, e finalmente temos rubedo, fase que corresponde à luz solar no alto do céu, o Sol a pino, ou seja, o meio-dia, fase em que as sombras desaparecem. 

As imagens acima, nigredo, albedo, citrinitas e rubedo foram usadas por alguns estudiosos de símbolos para representar, respectivamente: a primeira, o caos, a ignorância, a inconsciência ou a indeterminação; a segunda, os níveis iniciais do conhecimento, início da vida consciente; a terceira, o conhecimento numa etapa mais avançada, consciência mais evoluída; e a quarta, o conhecimento pleno, a consciência total. É neste sentido que se pode entender porque a cor branca representa a passagem do inconsciente para o consciente e porque ela representa também a cor que antecede a aparição da multiplicidade. Todas estas imagens, que descrevem o caminho do Sol, como se pode ver, simbolizam o caminho da consciência.

Em quase todas as tradições mítico-religiosas, o branco simboliza a inocência do paraíso original sem nenhuma influência perturbadora. É por essa razão que, em numerosas culturas, vestes brancas (ou que não foram tingidas),são as roupas dos religiosos, indicando-nos elas também pureza e verdade.

No cristianismo primitivo, aquele que ia ser batizado usava roupas brancas assim como o sacerdote que ministrava o sacramento. Eram também vestidas de branco as almas salvas do Inferno, indicando-se dessa maneira o seu estado virginal, imaculado. Na simbologia do Vaticano, a transfiguração, a glória e o caminho do céu são os valores simbólicos ligados às vestes brancas do Papa. É nessa perspectiva também que a terceira pessoa da trindade cristã, o Espírito Santo, sempre foi representada por uma pomba branca. Na antiga Grécia, lembremos, Pitágoras, criador de uma importante seita religiosa, que pregava a reencarnação e defendia o vegetarianismo, recomendava aos cantores de hinos sagrados que se vestissem de branco. 

Na simbolopgia chinesa, porque associado à palidez da morte, o branco é a cor da velhice, do outono, do oeste, da infelicidade, do luto. É nesse sentido que o branco lívido se opõe ao vermelho e que se torna a cor dos vampiros que procuram o sangue ausente de seu corpo. Nefasto neste caso, o branco é a cor das mortalhas e de todos os espectros e aparições. 


KWAIDAN, MULHER DA NEVE
(KWAIDAN, FILME DE KOBAYASHI)
De um modo geral, porém, a valorização do branco é positiva. Ele é principalmente a cor de todo aquele que busca uma iniciação. É assim atributo do candidato (cândido é o de muita alvura, como se disse), do postulante, daquele que quer ser escolhido, que quer mostrar o seu valor, elevar-se. O branco positivo entre os celtas estava reservado à classe sacerdotal, os druidas. Além deles, só o rei tinha direito às vestes brancas. 

Nos céus, o branco do leste (oriente) é a cor do retorno, o branco das auroras, quando a abóbada celeste reaparece ainda vazia, mas rica potencialmente de manifestações. Todo o simbolismo ritual do branco decorre desta observação da natureza, do céu; foi a partir desta observação que todas as culturas humanas construíram os seus sistemas filosóficos e religiosos. 

Todas estas considerações nos permitem entender que o negro, por oposição ao branco, é a cor do caos, que antecede toda existência: é o negro que dá origem ao dia, à luz, pois, como todos os mitos e religiões nos revelam, no começo tudo era escuro e silencioso. Dotado de virtudes prolíficas, deste caos, desta escuridão, num determinado momento, emergiu a claridade, a luz apareceu. 

HEMERA
Foram estas imagens que, transpostas para a psicologia, nos explicaram que o consciente (luz), emerge do inconsciente (escuridão), o verdadeiro reservatório das nossas possibilidades existenciais. Tomar consciência é, assim, tirar da escuridão. Os antigos gregos já tinha nos deixado nos seus mitos todas estas referências. Nix, a deusa da noite, das trevas de cima, e seu irmão Érebo, as trevas debaixo, infernais, camada intermediária do Hades (Inferno), unidos, deram origem a Hemera, o dia.

Foi a partir destas representações que os antigos gregos e celtas sempre consideraram a noite como o começo do dia (a escuridão dando origem à luz); para eles a noite simbolizava o tempo das gestações, das germinações, das conspirações, de tudo afinal que iria se manifestar quando o dia nascesse. Psicologicamente, entrar na noite é mergulhar na indeterminação; sair da noite é entrar na luz, determinar-se.

Para designar o branco brilhante dos cabelos dos idosos, a língua latina criou a palavra canus, de onde saiu, para nós, o verbo encanecer, sinônimo de envelhecer, tornar branco pouco a pouco, antecedido pelo verbo agrisalhar e pelo nome grisalho, que vem de gris, cor chegada ao cinza, intermediária entre o negro e o branco. 

LEUCÓCITOS
Quanto às palavras, alargando-se, assim, o nosso vocabulário, lembremos que gregos e latinos, respectivamente, com o seu branco, leukos e albus, nos deram muitas palavras em português. Quanto aos gregos, principalmente na área médica, lembremo-nos de leucócitos (glóbulos brancos), leucócomo (que tem cabelos brancos), leucodermia (deficiência de pigmentação, problemas que podem ir de pequenas manchas brancas ao vitiligo), leuconiquia (descoloração esbranquiçada das unhas) etc. Já quanto a albus, dos latinos, registre-se albinismo (ausência total ou parcial de pigmentação da pele, dos pelos, albido (em que predomina a cor branca, alvadio, esbranquiçado), albiduria (emissão de urina muito clara ou branca) etc. 

Ainda quanto às palavras, ocorre-nos titânio,  designação de produto usado na indústria química como corante para a obtenção da cor branca em tintas,  papel, esmalte, cerâmica e muito mais. A propósito, lembremo-nos que, na mitologia grega, Zeus, o maior dos deuses, símbolo da luz, venceu os titãs, representantes do obscurecimento, da desordem, das trevas, do caos.

Embora aumentem em nossa língua as referências a matizes do branco (branco neve, branco sujo, branco lívido, branco champanhe, branco marfim, branco nude, branco off white, branco rosa pó, branco pérola, branco âmbar etc.), salientemos que jamais chegaremos perto dos esquimós que conseguem identificar dezenas de tonalidades da cor no mundo em que vivem.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

DEUSES GREGOS: TRANSCENDÊNCIA E IMANÊNCIA


DEUSES GREGOS
  
ARISTÓTELES
É preciso colocar de início para que as ideias fiquem bem claras que a mitologia grega, quanto à cultura ocidental, se inscreve na chamada tradição imanentista por oposição à transcendentalista. Sem nos
KANT
perdermos em maiores discussões sobre esta questão e sua repercussão na Filosofia, de Aristóteles à  Escolástica  e desta  a Kant e aos existencialistas, entendemos que o imanentismo  se caracteriza simplesmente por  tudo aquilo que procede de um ser como expressão do que ele traz em si, de sua participação no mundo e de suas relações com os outros seres humanos. 

Imanente vem do latim, in, em, dentro, e manere, permanecer, ficar, ou seja, aquilo que está no interior de um ser. A moral é imanente, por exemplo, quando decorre da vida social e tem relação com os homens e com os acontecimentos do mundo. No mito, a imanência nos fala da ação do divino (modelos superiores de existência criados pelos humanos) em nosso mundo, sendo-lhe intrínseca; os deuses dele participam, fazem parte de nossa vida, estão na natureza e inspiram as produções superiores do espírito humano, têm a ver com as nossas ações, a nossa arte, a nossa literatura, a nossa música, a nossa poesia como com os nossos crimes e
JUNG
pecados. Os antigos gregos colocaram em seus deuses a totalidade da existência, toda a sua complexidade e diversidade. Aparecem-nos eles assim como modelos de existência, para o bem ou para o mal, são paradigmas, aquilo que alguns chamam de arquétipos ou, melhor, são os revestimentos primários dos arquétipos da cultura ocidental, segundo uma tradição que remonta a Platão, a Fílon de Alexandria, ao Pseudo-Dionísio, o Areopagita, a Santo Agostinho e, modernamente, a Jung.

A mitologia grega, para a cultura ocidental, como representação das forças que operam no universo, foi penetrando tudo. Acabou por se tornar a fonte de muitas alegorias  que alimentam as grandes

metáforas de muitos filósofos, místicos, cientistas, artistas, poetas, músicos, fazendo parte inclusive do cotidiano do homem comum ao invadir o léxico de várias línguas. Lembremo-nos do que Platão fez com Eros no seu diálogo O Simpósio quando, através de Sócrates, estabelece uma nova gênese do deus para  falar do amor homossexual. Ou, então, daquilo que Édipo significou para Freud na construção da sua Psicanálise ou, ainda, de como a crônica do titã Prometeu se encaixa à perfeição quando falamos de lutas contra a tirania ou do roubo de segredos científicos.

CERES (WATEAU, 1684-1721)
Quanto ao homem comum, a língua e a mitologia greco-latina estão presentes quando comemos cereais (Ceres), nectarinas, ambrosia, quando calçamos sapatos vulcanizados, ou colunas de mercúrio sobem e descem para medir as temperaturas do nosso corpo (termômetros). Vemos filmes épicos, dramáticos, eróticos; afrodisíacos melhoram o desempenho sexual; deuses (Urano, Plutão,
TÂNTALO
( GOYA , 1746 - 1828 )
Hélio, Selene) viraram elementos químicos (urânio, plutônio, hélio, selênio etc.) e um criminoso da mitologia grega deu nome a um dos metais mais valorizados do mundo, mais que o ouro, o tântalo. Utilizado em telefones portáteis, computadores pessoais e eletrônicos automotivos, o tântalo também é usado para fazer ferramentas de metal para usinagem e para a produção de superligas para componentes de motores a jato.


PÂNICO ( O  GRITO , EDWARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Personagens da mitologia grega,invadiram a Psicologia para dar nome a complexos ou síndromes (complexos de Zeus, de Cronos, de Héstia, de Electra ou síndromes do Pânico (do deus Pan), de Medeia. A palavra economia vem do grego (oikos, casa, habitação, mais nomos, lei, ou seja, é, na origem, a lei,  são as regras da casa) ou foram os deuses e heróis para o mundo das finanças para
AQUILES E AJAX (VASO GREGO)
designar o poder oculto do dinheiro (plutocracia) ou acabaram em prateleiras de supermercados como  sabão em pó (Ajax, herói grego, que é vendido como o furacão da limpeza). Foi o maior dos heróis gregos, Hércules, que no seu décimo primeiro trabalho (A limpeza dos estábulos do rei Augias) que inventou a propina. Os mitos e seus personagens estão em livros de Medicina dando o nome a doenças (satiríase, priapismo, erisipela, mercurialismo, saturnismo). Damos o nome de calcanhar de Aquiles a um ponto fraco em nosso corpo. Se mais quisermos  é só abrir os dicionários  e lá os encontraremos: morfina (Morfeu), hermético (Hermes), ciclópico (Ciclopes), tantalizar (Tântalo), nefelibata (Nefele), etérico (Éter), hemeroteca (Hemera), narcótico (Narciso), carisma (Cárites), bacanal (Baco), letargia (Lethe), museu (Musa), hipnose (Hipnos), oniromancia (Oniro). Quase toda as doenças e males que nos atingem são “gregos”: osteopenia, anemia, osteoporose, leucemia, pneumonia, prostatite, rinite, câncer, hidrocefalia, escoliose, psicopatia, nevrose, encefalite etc.  


HESPÉRIDES  ( HANS  VON  MARÉES , 1837 - 1887 )

Ampliando um pouco mais a nossa abordagem, indo noutra direção, tomemos, por exemplo, o universo semântico (possibilidades significativas) que Nix, a deusa da noite, com alguns de seus filhos ou personagens que com ela se apresentam, nos oferecem. É Nix uma das entidades cosmogônicas, nascida do Caos, como está em Hesíodo. Na ordenação cósmica cabem-lhe as trevas superiores, opondo-se ao Érebo, as trevas inferiores, estas as camadas intermediárias do Hades. Nix habita o extremo-ocidente, além da região das Hespérides, as ninfas do poente, suas filhas;  lá tem o seu palácio, de onde só sai quando Hemera, o dia, seu filho, se retira. A região onde  Nix tem o seu palácio, lembremos, é o lugar onde a luz morre. No interior da palavra ocidente esconde-se a raiz cad, que encerra a ideia de tombar, cair; daí, queda da luz, ocidente. Foi para esta região, vizinha do Hades, que se encaminhou Ulisses quando resolveu interrogar as almas dos mortos (nekyia) na esperança de obter informações sobre o seu caminho de volta  para Ítaca. O ocidente , se por um lado lembra declínio, decadência, como lugar noturno e satânico, sinistro, à esquerda, é o lugar das grandes-mães em todos os mitos, e nos diz, por outro, que ele é também o lugar da fertilidade, da fecundidade, lugar da obscuridade, das confidências, da discrição, do entendimento. 

HEMERA
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Retirando-se Hemera, o dia, e mergulhando o deus solar Hélio no oceano ou escondendo-se atrás dos montes, Nix começa  sua viagem pelos céus; vai no seu carro puxado por cavalos negros, com seu vasto manto salpicado de estrelas, franjado de infinito, como diz o poeta. Para muitos, quando ela estende o seu manto, são as horas das trevas, sempre perigosas. O intervalo entre os dois crepúsculos, o vespertino e o matutino, mais o seu ápice, a meia-noite, são as chamadas horas abertas, horas dos acontecimentos maléficos, em que demônios, fantasmas e espectros atuam livres, principalmente nas encruzilhadas. Por sua representação espacial, a encruzilhada propõe múltiplas possibilidades, sugere mudanças, abandono de um caminho por outro. Para tomar o caminho certo temos que enfrentar as criaturas perniciosas  que do lugar  se apossaram como forças do caos, temos que reverenciá-las sempre, vencer os nossos temores, as nossas projeções imaginárias.  

NIX
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Nix é tanto ausência de luz quanto escuridão misteriosa, risco de desvios, confusão de distâncias, anulação de evidências. Mas Nix é também protetora dos úteros, das cavernas e das grutas, dos lugares de nascimento e de renascimento.  A não ser que Pothos, a saudade, interfira, porque saudosos não dormimos, Nix  libera  seu filho Hipnos, o sono, que, baixando o seu tridente sobre as nossas pálpebras, traz o sono reparador. Qualquer que seja a sua representação, como um jovem segurando uma papoula ou  uma espécie de cornucópia a gotejar o sono sobre os que dormem ou (melhor ainda) se ele vier com seu filho  Morfeu, o sonho, na forma de Hypar, o sonho premonitório. 

Há ocasiões em que Nix pode retardar a chegada de seus filhos para  favorecer a reflexão, a meditação raciocinada, colocando-se entre a proposta que nos fazem e a decisão que precisamos tomar, evitando precipitações, ensinando serenamente, generosamente. É nesses momentos  que ela toma o nome de Eufrone, a benfazeja, a benevolente, ou de Eulalia, a boa palavra, a mãe do bom conselho. Duas filhas de Nix poderão, contudo, aparecer se Hipnos não vier ou demorar muito para chegar: a irritante Éris, a discórdia, e Apate,
MORFEU
o engano, sempre desagradáveis e perturbadoras. Quando Morfeu, o de mil formas, vem como Oniro, o sonho enganador, Nix deixa de ser benfazeja. Agora, então, à nossa volta, animais fabulosos, luzes espantosas, gritos, gemidos, monstros, abolição do tempo e do espaço. Oniro, com a sua infinita capacidade de mudar de forma, faz surgir personagens como Iquelos  (aparência de realidade), Fobetor  (terrível, assustador), Fantasos (fenômenos enganadores) e muitos outros...                                                

FERNANDO  PESSOA
Os poetas e músicos têm especial predileção  por  Fílotes, a ternura, um dos filhos de Nix. Muitos escreveram ou compuseram sobre este sentimento noturno cujo nome vem do verbo grego amar e que entre os latinos  se liga  ao tenro, ao terno, ao delicado. Fílotes é aconchego, proteção, afago, delicadeza. Fernando Pessoa nos deixou  em Ficções do Interlúdio  (Álvaro de Campos), ao pedir que a Noite viesse, uma ideia  muito  clara desse sentimento noturno: Vem, e embala-nos, vem e afaga-nos.
BAUDELAIRE
Beija-nos silenciosamente na fronte, tão levemente na fonte que não saibamos que nos beijam senão por uma diferença na alma. Ou lembremo-nos de como Baudelaire, com o seu Recueillement, pede à sua dor que ela se tranquilize quando uma atmosfera obscura envolve a cidade, trazendo a uns a paz e a outros, o cuidado. Em ambos a esperança de que  Nix venha com Fílotes.

CHOPIN
(DELACROIX , 1789 - 1863)
São certamente de Fílotes as composições musicais, vocais ou instrumentais, depois sobretudo pianísticas  sem forma especial, de caráter melancólico, triste para alguns,  a que deram o nome de noturno. Peças de atmosfera às quais Chopin, mais do que qualquer outro compositor, tem seu nome ligado. Abandono, solidão, um pedido de socorro... São também desse filho de Nix as chamadas berceuses, canções para fazer as crianças pegarem no sono, ritmo que lembra o balanço delicado de um berço. Para os povos de língua inglesa é a conhecida lullabay. Entre nós, é o acalanto (mitigar, acalmar, aquietar, calar), como Mário de Andrade registrou em Macunaíma, ao pedir que Acutipuru (o esquilo; de acuti: cutia e  puru: enfeitada) devolvesse o sono ausente da criança.
           
SELENE

Antes as trevas, depois a luz, é a sentença latina (Post tenebras lux), o que se torna válido tanto  para as cosmogonias como para o nosso processo de individuação. Importante destacar que Nix por isso é também vista como algo que devemos atravessar. As travessias noturnas são fortemente marcadas pela presença da Lua, a luz noturna, olho de Nix, que entre os gregos toma, dentre outros, o nome de Selene. Embora associada à doçura, à brancura, à proteção e à generosidade, lembrando em muitas tradições as velhas madrinhas. O poder maléfico de Selene pode ser tão grande quanto os bens que  prodigaliza. O ferido por ela chama-se lunático, palavra que na antiguidade e ainda hoje em certas sociedades é sinônimo de epiléptico (agarrado, raptado por cima). Não esqueçamos também que aluado designa o que nasce com perturbações tanto psíquicas (amalucado) quanto físicas, o que nasceu fraco, raquítico, o que não tem coluna vertebral (rhakhis) boa. Tudo isto porque da Lua depende tudo o que nasce e que tem de passar à vida adulta, brotos, crias, ervas, gemas, grelos, rebentos, embriões. É neste sentido que a Lua aparece como deusa das passagens, das travessias, funções que se ampliarão e se fixarão melhor na figura de Ártemis, deusa lunar do panteão olímpico.

HESÍODO
Outra que aparece com Nix é Hécate (a que fere  distância), também  representação lunar como Selene. Vinda de um mundo pré-olímpico, Hesíodo, em sua Teogonia, dá-lhe grande destaque, certamente por ser agricultor além de poeta. Hécate representa os mistérios da noite, todos os seus sortilégios, sua magia, seus encantamentos. Deusa ctônica, dividia o poder sobre as encruzilhadas com o deus Hermes, o deus dos caminhos. Personificava as três fases visíveis da Lua, recebendo, por isso, o nome de Triforme ou Trívia, além dos de  Curótrofa e Enódia, a que faz passar e a dos caminhos. 

Baixava Hécate nas encruzilhadas a cada vinte e oito dias mais ou menos, na Lua nova (ausência de lua no céu). A Lua nova, como se sabe, é tempo de germinações espontâneas, indica que algo vai surgir. Daí um outro nome seu, Numênia, a primeira Lua. Simboliza fecundidade, fertilidade, redes e pomares cheios. Na Alquimia, a Lua nova tem a ver com a primeira etapa da obra alquímica, a nigredo. O séquito da deusa era formado por espectros, fantasmas, demônios, que aterrorizavam os que paravam nas encruzilhadas. Do séquito de Hécate participavam também  cães, éguas e lobas. Os cães, sobretudo, eram muito caros à deusa já que era pelos latidos deles que se anunciava a sua chegada. Fazem também parte do séquito da deusa, às vezes, entidades repulsivas  como a Empusa e a Lâmia, monstros dos terrores noturnos, ligadas aos mundos maternal e infantil. 


HÉCATE  ( WILLIAM BLAKE , 1757 - 1827 )

As almas errantes também faziam, às vezes, parte do cortejo da deusa, almas daqueles que não tinham tido morte ritual, razão pela qual  ficam a perambular pela terra. Hécate tinha, dentre as suas funções, a de estar sempre presente quando a alma entrava e saía do corpo. Daí ser deusa das almas dos mortos. Quando vinha à terra ficava a passear  nos cemitérios entre as tumbas, carregando consigo, em meio a gemidos e ranger de dentes, as almas sedentas, com suas longas vestes. Ao lado dos alimentos que lhe eram oferecidos, sempre juntos da deusa a copa e o cântaro. 

Em muitas tradições místicas, como no Sufismo, bastante comuns as imagens da viagem noturna. Para se chegar ao desejado estado de contemplação é necessário fechar as passagens dos sentidos físicos para que os espíritos, mais profundamente, possam operar com liberdade. É a chamada Noite Mística: barrar as impressões dos sentidos (esperanças, medo, emoções, sentimentos, etc.) para se chegar à luz interior. Para S. Juan de la Cruz, o famoso místico carmelitano, entrar na noite é o caminho da ascese,  a noite escura da alma: 
Oh! Noite que me guiaste! 
Oh! Noite mais amável que a alvorada! 
Oh! Noite que juntaste Amado com Amada, 
Amada já no Amado transformada 
                                     (Canções da Alma).


S. JUAN DE LA CRUZ (BECERRA , 1520 - 1570)


TÂNATOS
Mais radical que Hipnos é seu irmão gêmeo Tânatos, a morte, também conhecido como sono eterno, o que tem alma de ferro e coração de bronze, inacessível à piedade, como diz Hesíodo. As representações terríveis de Tânatos, ao longo da história grega, é bom lembrar, admitiram sempre um lado “positivo”, digamos, na medida em que este filho de Nix significava transição para uma outra vida, acenava com possibilidade de renascimento. Se figuras sinistras como as Keres ou Eurínomo a ele se associavam  havia também a imagem dos Campos Elíseos. As Keres,  filhas de Nix, deusas lúgubres, sempre sedentas de sangue, atacavam os moribundos nos campos de batalha, como Homero nos deixou  no canto XVIII da Ilíada. Quanto a Eurínomo, o monstro escuro que devorava as carnes dos cadáveres, registre-se que é criação artística posterior. Polignoto, o pintor, o coloriu de azul, ao executar suas composições murais sobre temas mitológicos, que Pausânias e Plínio descreveram. Mesmo as Moiras, as donas do fio da vida,  também filhas de Nix, ligadas  a Tânatos, nunca chegaram  a ser representadas  de forma repulsiva ou hedionda. É claro que não podemos perder de vista as contribuições órficas e pitagóricas, já no período helenístico, que suavizaram bastante o tema da morte. 


UM  FIO  DE  OURO (JOHN  MELHUISH  STRUDWICH , 1849 - 1937) 

Ao lado do caráter inexorável, iniludível, da ação das Moiras, Tânatos sempre foi visto como uma espécie de véu que se interpunha entre o morto e a luz, uma espécie de nuvem negra. Olhos que se fechavam, pálpebras baixadas, um ato de compaixão, quase. Um benfeitor especial que trazia o descanso e aliviava as dores. O que sempre se destacou quanto às Moiras, mais do que uma ideia de um inimigo físico foi a de que tanto simbolizavam as três etapas da vida humana: nascimento (Cloto), duração (Láquesis) e morte (Átropos), como a impossibilidade de sabermos de antemão o nosso destino. Uma fatalidade, sim, mas também uma liberação, um acesso, uma revelação. Daí, muitas representações de Tânatos como um belo jovem, como que a dormir, recostado numa árvore, uma tocha apagada ao lado. Ou, como em muitas outras representações, uma coluna partida, uma vela de barco arriada, uma corrente quebrada. Em alguns casos, esculpida na pedra, junto, uma borboleta, a indicar crenças reencarnacionistas. Atenuavam-se as representações violentas de Tânatos, como, por exemplo, as que o faziam semelhante a  Bóreas, o terrível vento hibernal do norte.

MOMO
Próxima de Éris, a Discórdia, estava outra  filha de Nix, Momo, a zombaria, o sarcasmo. Sua ocupação era a de ridicularizar as ações divinas ou humanas, com exceção as de Afrodite, nas quais  não encontrou nada que pudesse ser ridicularizado. No canto II (86) da Odisseia, lá está ela nas palavras de Telêmaco, filho de Ulisses. Momo marcou sua presença  na mitologia grega de modo espetacular ao se tornar a inspiradora da guerra de Troia a Zeus como recurso para a diminuição da densidade demográfica, insuportável àquela altura conforme queixas da grande-mãe Geia. Já Geras, a  velhice, outra filha, a angústia do efêmero, era uma triste divindade. Sempre representada por uma velha mulher, de túnica negra, um bastão de apoio retorcido numa das mãos; na outra, uma taça vazia; ao lado, uma clepsidra quase esgotada
PÍNDARO
Na divisão dos bens do universo, couberam aos humanos, por sua própria culpa, muitos males e misérias, embora, como dizia Píndaro nas Nemeias, deuses e humanos tivessem uma mãe comum. As atividades humanas ficaram restritas a limites impostos pelos deuses. Ultrapassá-los, era ofendê-los. Ofendiam os humanos aquilo que os gregos chamavam de Nêmesis,  grande divindade, filha de Nix, que personificava a justiça distributiva. Mais ainda: admitiam também os gregos que,  por mais rico e poderoso que fosse um homem, os deuses, talvez por inveja, poderiam sujeitá-lo a uma punição. A fortuna demasiada era um insulto aos deuses, sentimento que fazia parte do culto a Nêmesis. A deusa recebia  também o nome de Adastreia  (a da qual não se pode fugir, a necessidade).  Nêmesis marcava os limites dentro dos quais deveriam se distribuir as ações humanas. Não é por outra razão que a Moira é chamada de Aisa, parte igual, o “pedaço” de vida assinalado a cada um de nós.
Os deuses gregos  interferem na vida dos mortais, os efêmeros, os nascidos para um dia; dela participam, misturam-se, chegam facilmente à  promiscuidade, têm paixões, fazem sexo, muitos são declaradamente homossexuais. De outro lado e ao mesmo tempo são imortais (athanatoi), imperecíveis, imputrescíveis, sublimes. Vivem no Éter, gerado por Nix, a camada superior do cosmos, acima da Lua, região da luz eterna. Seu modo de viver é o de um banquete sem fim (thaleia). Difícil compreender, inaceitável mesmo, se não tivermos em mente o caráter imanentista da mitologia grega, que os deuses e sua entourage sejam ao mesmo tempo imortais, isentos de preocupação e de cuidados, estes típicos dos humanos, vivendo numa situação de satisfação sem carências, possam chegar na sua convivência ou envolvidos com mortais a tantas situações de perigo, de risco, de degradação e de vexame. Verdades ou poesia? Sólon já havia observado  que muito mentem os poetas. Xenófanes foi mais claro e Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que entre os homens é vergonhoso e censurável, roubo, adultério e logro mútuo. Por isso, Platão certamente proibiu a entrada de Homero no seu  Estado ideal...

JAVÉ
Na tradição imanentista , as divindades não ficam fora da existência humana, distantes e inacessíveis como um Javé-Adonai, nem a transcendência é transferida para uma outra vida, para o além, fora dos limites da experiência possível. A transcendência é colocada no aqui e no agora, nesta vida, tornando-se algo histórico. Os deuses gregos vão representar o possível dessa transcendência, salientando a importância da existência humana no que ela tem de irredutível. São a consciência permanente que temos de tomar do nosso destino pessoal na medida em que nos arrancamos a cada momento do nada para abrir adiante um futuro onde nossa existência se decidirá. 
Representam assim as divindades gregas os possíveis de nossa transcendência, que não é lançada para uma outra vida, cabendo-nos a escolha ou, se quisermos, a perplexidade diante das várias  possibilidades que tipificam. São eles  em nosso mundo princípios
KIERKGAARD
vitais que nos animam e não algo que vem de fora. A imanência é o momento pelo qual nós, refletindo sobre a nossa existência, experimentando, quem sabe, um sentimento de angústia diante dela; chegamos por nós mesmos ao “divino” ou ao “demoníaco” da divindade que “vive” em nós. É neste sentido que a transcendência só pode se dar pela existência (Kierkgaard).