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MONSTROS SUMÉRIOS |
É de se lembrar que os monstros míticos, a partir de fins do século XVIII, invadiram também aquelas áreas que a ciência moderna começou a descrever como anormalidade, comprometimento da ordem psicológica ou mental. Os que só se aproximaram deles com o chamado “espírito científico”, se atreveram a lhes dar outros nomes e a classificá-los, mas, no fundo, eles são os mesmos, desde sempre.
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EL SUEÑO DE LA RAZÓN PRODUCE MONSTRUOS FRANCISCO JOSÉ DE GOYA Y LUCIENTES, 1746 - 1828 |
Sem conhecer o deus Pan, as suas origens, os territórios em que vive, os seus vários mitologemas, não há como entender a chamada síndrome do pânico, hoje uma verdadeira “epidemia”. Mais ainda: sem conhecer como a grande arte representou os monstros ao longo da sua história ficaremos apenas nos aspectos periféricos desse mundo. O conhecimento da obra de Goya, por exemplo, de El sueño de la razón produce monstruos, dos seus Caprichos e das suas obscuras e enigmáticas Pinturas Negras, as últimas que produziu, permitir-nos-á, sem dúvida, entrar melhor nos subterrâneos da mente humana.
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MOROS |
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ANANKE |
Abaixo, estabelecemos uma “biografia” sumária de alguns monstros, de várias tradições, procurando destacar de algum modo como eles podem intervir na expressão e no comportamento humanos. Começaremos pelo Golem, monstro que nos vem do mundo hebraico. A palavra golem quer dizer informe, incriado, lembrando gelem, que significa matéria-prima. Trata-se de uma figura mítica e simbólica; sua aparência é semelhante à de um autômato, criado artificialmente por meio da mágica cabalística, podendo ela se constituir num perigo mortal para o seu próprio criador. Na língua ídiche, no hebraico moderno, a palavra golem tem conotação insultuosa, significando imbecil, estúpido, tolo.
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PROTEU |
Alguns tentaram aproximar (erradamente) as palavras golem e zumbi. Esta última vem de nzumbi, que na língua quimbundo quer dizer espírito atormentado, uma espécie de morto-vivo, alma que vagueia a horas mortas. Popularmente, a palavra zumbi se integrou ao nosso léxico e é usada para designar aquele que só está vivo ou só sai à noite.
O Golem, segundo a tradição judaica, foi criado por meios mágicos artificiais, para concorrer com a criação de Adão por Deus. Esta criação é uma imitação do ato criador divino e com ele conflita. O Golem é mudo, seus criadores nunca conseguiram lhe dar o dom da palavra. Ao longo dos séculos, a criação de Adão por Deus sempre esteve associada à ideia do Golem, ambos criados a partir da argila, da lama.
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MARY SHELLEY |
Uma certa semelhança pode ser estabelecida entre o Golem e o conde Frankenstein, idealizado por Mary Shelley. Esta romancista britânica, nascida Godwin (1797-1851) era a segunda mulher do poeta Percy B.Shelley, amigo de Keats e de Byron. Mary não tinha vinte anos quando escreveu “Frankenstein” ou “O Prometeu Moderno”, em 1817, novela pseudocientífica que evoca a criação artificial de um ser humano e o drama de seu demiurgo.
Muitos dos temas desenvolvidos por Mary Shelley na sua obra estão presentes na história do Golem. O principal é o de que a criação é divina. Ao tentar criar a vida artificialmente, o homem sempre fracassa. O mesmo se diga da pretensão da ciência e da tecnologia de criarem paraísos terrestres e do poder (destruidor) que o homem vem exercendo sobre a natureza. A Inglaterra de Mary Shelley, não esqueçamos, era ao tempo em que ela escrevia o seu Frankenstein, o país mais industrializado do mundo. Estas ideias, aliás, já estavam implícitas na mitologia grega, em histórias como a das asas que Dédalo, o inventor mítico, fabricou para que seu filho, Ícaro, fugisse do Labirinto.
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BORIS KARLOFF |
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PARACELSO |
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HOMUNCULUS |
O tema do Homunculus invadiu a biologia (História Natural) no séc. XVII (depois abandonado) e simbolicamente está presente em certas correntes da psicologia que o usam para representar a área neural mais importante do corpo humano.Como é no rosto (face) onde se concentra a maior quantidade de nervos e de corpos neuronais, o desenho do Homunculus mais divulgado é o de figura humanoide com um rosto muito grande com relação ao restante do corpo. O tronco é pequeno, os braços são grandes, as mãos enormes, pernas pequenas e pés médios. Neste sentido, o Homunculus seria uma representação distorcida de alguma parte do corpo físico (geralmente da cabeça) causada por alguma perturbação ou deformação da mente.

O Homunculus, há muito, encontrou nas histórias em quadrinhos (Os Cavaleiros do Zodíaco, de Masami Kurumada (1953 - ), por exemplo) o seu melhor habitat, passando ali a viver como um dos grandes símbolos dos tempos modernos.
Interpretações cabalísticas (mística judaica), aproximam o Golem de Adão, ambos, como se disse, criados a partir da argila. Seria o Golem, pois, uma espécie de Adão antes de Deus lhe ter insuflado a alma. Uma palavra é às vezes usada para caracterizar o Golem. Referimo-nos a teraphim, encontrada no texto bíblico para designar “o que não tem forma agradável”, “desarmonioso” e também ídolos, divindades familiares, como os penates dos romanos e dos etruscos.
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J. L. BEN BEZALEL |
Essas histórias sobre Golens circulavam em Praga desde a Idade Média; vários contos e lendas falavam de que esse ser criado artificialmente tinha gravadas em sua testa palavras mágicas que lhe davam animação. Diziam uns que isso se devia ao fato de o nome de Deus estar colado na sua fronte; outros afirmavam que sua animação se devia a uma placa de argila, com o nome de Deus, que ele carregava sob a sua língua.
Corria nos meios praguenses a história que Bezalel havia criado um Golem e o escravizara. Gravara na sua testa a palavra emet, verdade, em hebraico, palavra que lhe conferia a vida. Dizia-se que o Golem fora criado para defender o gueto de Josefov de Praga (onde Franz Kafka morou) contra ataques anti-semitas.
Durante o dia, o rabino escondia o Golem no sótão da Sinagoga, liberando-o à noite. Com o tempo, contudo, o Golem foi se tornando cada vez mais violento, matando pessoas e aterrorizando os habitantes do bairro. O rabino resolveu então destruir a sua criatura, apagando a primeira letra da palavra emet, formando-se então a palavra met, que quer dizer morto. O Golem entrou então em decomposição, formando-se uma massa indiferenciada, uma espécie de lama que inundou a sala onde o rabino se encontrava, sufocando-o. Essa história foi divulgada nos meios judaicos como uma advertência divina: não devemos usar impropriamente as forças mágicas, criadoras, pois elas sempre escapam do controle daquele que as usa dessa forma, tornando-se perigosas, destrutivas.
Uma outra intepretação foi endereçada àqueles que absorvidos em práticas místicas de meditação exageradas e descontroladas podiam ser levados à morte pelo novo ser que criam. Esta história, como alguns registram, tem relação, como paráfrase judaica, de uma lenda cristã segundo a qual Alberto Magno, o doutor Universal teria fabricado artificialmente um servo, destruído depois por seu aluno, Santo Tomás de Aquino.
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I. B. SINGER |
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PAUL WEGENER |
A ideia da criação artificial, mágica, de um ser sempre perseguiu o homem. No Talmud há registros de que no mundo judaico tal ideia já estava disseminada desde os séc. III e IV da nossa era. Essas ideias falavam de um “casamento” formal entre Deus e a Terra e que o primeiro exigiu que a “mãe” o cedesse para ele por mil anos, segundo termo assinado e testemunhado pelos arcanjos Miguel e Gabriel, tudo lavrado e constante dos arquivos do encarregado das escrituras divinas, Metatron.
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SÃO MIGUEL |