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KANT E NIETZSCHE |
Para começar, a constatação de que Kant e Nietzsche, talvez mais este do que aquele, tenham sido as maiores vocações da filosofia alemã. O grande objetivo deste último foi, sem dúvida, a procura de uma síntese entre o mundo dionisíaco dos desejos e o mundo apolíneo da sabedoria .
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LOS BORRACHOS (DIEGO VELÁZQUES, 1599 - 1660) |
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DIONISO E APOLO |
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SIGNO DE SAGITÁRIO |
A carta astral de N. nos aponta para um radical individualista, um iconoclasta muitas vezes, além de um crítico e astuto filósofo, um apaixonado poeta, um psicólogo empírico e um profeta visionário. No seu todo, estamos também diante de um tema astral que descreve não só uma titânica luta de um homem consigo mesmo, como com o agonizante cenário histórico em que ela acontece.
N. tem o grau inicial do seu signo ascendente no final de Escorpião, estendendo-se ele até o final de Sagitário. O ascendente num tema ou mapa astral é o signo que indica como chegamos ao mundo. Como tal, descreve a personalidade visível, o corpo físico, o modo pelo qual o nativo se apresenta aos outros, a imagem que oferece ao mundo, imagem que, no geral, pode ser muito diferente do seu eu interior. N. tem dois signos importantes no seu ascendente, Escorpião e Sagitário. O signo solar (que indica o eu interior, a vontade, o que pretendemos ser) de N. ocupa o signo de Libra. A combinação destes signos (Escorpião, Sagitário e Libra), no caso de N., indica uma sensibilidade dolorosa, uma natureza emotiva e atormentada (Escorpião), que procura a verdade (Sagitário), seduzida pelo equilíbrio, pela harmonia (Libra), mas, todavia, trabalhada por surdas paixões (escórpio-arianas) que solapam seus esforços, tudo isto agravado pela presença da Lua (mãe, infância, passado, memórias) no ascendente (afetando-o até fisicamente) e de Júpiter (regente de Sagitário), na casa IV (o mundo familiar, a casa natal), a apontar, no caso de N., para uma poderosa influência religiosa (Júpiter, dentre outras coisas, tem a ver com vida religiosa, profetas, sacerdotes etc).
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NIETZSCHE (CURT STOEVING, 1863 - 1939) |
Nietzsche, como sabemos, viveu num meio excessivamente feminino, sua infância foi austera, sendo seu pai um pastor luterano, fato a que muitos atribuem, principalmente, o seu conflito com o catolicismo. Somos informados também, tanto por estudiosos de sua obra como por observações suas, que ele herdou do pai uma certa morbidez que o impediu de gozar plenamente a vida. Aliás, dizia o próprio Nietzsche que havia recebido do pai muitos dons, privilégios, menos a capacidade de dizer sim à vida. Daí a sua natureza melancólica, decadente, completava.
De um modo geral, as pessoas que, como Nietzsche, têm Escorpião no ascendente costumam ser reservadas exteriormente enquanto interiormente são muito intensas, extremistas, intransigentes, obstinadas, obsessivas até. Lembre-se que Escorpião, auge do outono, relacionado com a água, signo feminino e fecundo, portanto, é o oitavo signo (oito é o número da morte) na ordem zodiacal. Seus regentes são Plutão e Marte. Escorpião representa a morte, as riquezas escondidas, o mistério, o desejo, a sexualidade (veja a obra do escorpiano Freud). É conhecido como o signo da serpente. Diante dele, em oposição, se encontra Touro, relacionado com os prados, as florestas, o verde, os campos (o Jardim do Éden) e o fruto da tentação (a maçã). Touro representa também a voz; Escorpião o sexo (relação entre voz e puberdade). Em Touro temos o que cresce sobre a terra; em Escorpião, o que se decompõe sob a terra. Na natureza, Escorpião tem relação com a morte da vegetação, a queda e decomposição das folhas e dos galhos, momento no ciclo anual em que as formas declinam e a escuridão começa a vencer. Analogicamente, lembra a destruição dos valores objetivos e das formas exteriores através de um processo de fermentação, de putrefação e de decomposição, que vai favorecer, mais adiante, depois da escuridão e do frio do inverno, o aparecimento de novas formas (primavera).
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SIGNO DE ESCORPIÃO |
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PHTONOS |
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NÊMESIS |
Afirmando como supremo valor humano o permanente esforço para a transcendência de valores, N. sempre teve em mente a figura por ele chamada de super-homem. Praticamente, este esforço tinha para ele um caráter libertador, uma libertação que só aconteceria para aqueles que descessem às suas ocultas profundezas dionisíacas (Dioniso é um dos deuses que “vivem” no signo de Escorpião). Ao mesmo tempo, conjugando-se com este esforço, havia que se romper com o coletivo no que ele tinha de convencional, conformista, de mediocridade moral. Não há dúvida de que os mais ricos vislumbres de N. estão nesta proposta: aumentar sempre a capacidade de nosso ego através de uma busca constante de transformações pessoais pelo aumento do nosso nível de consciência (informações e conhecimentos). Na perspectiva de N., a noção de verdade é, por isso, relativista, não podendo ser obtida senão através da ação humana.
As relações entre o Sol e a Lua no tema de N. propõem uma luta entre a sua inclinação à autoafirmação e às forças do passado, condicionamentos, memórias etc.(Lua) que nele atuavam. Ou seja, os ideais librianos solares, apolíneos, de N. estavam em desacordo com o seu condicionamento filosófico-religioso. Constatamos que no psiquismo de N. os planetas pessoais (Mercúrio, mente; Vênus, vida afetiva; Marte, ação), com relação à sua experiência social, indicada por Júpiter e Saturno, estavam em conflito com as forças do inconsciente coletivo, da sua vida que ia além do individual e do social, representadas pelos planetas Urano, Netuno e Plutão. Tais planetas, como se sabe, são invisíveis ao olho humano, tendo, por isso, conforme a astrologia, relações com a vida inconsciente. Com exceção de Vênus, todos os demais planetas, inclusive Júpiter e Saturno (os chamados planetas sociais) têm relação com aqueles três, acima apontados. As pressões transformadoras que N. recebia dos planetas que estão além de Saturno, situados abaixo do horizonte, não o inclinaram a se tornar um buscador espiritual, mas o situaram no plano das buscas terrestres, orientadas por seus próprios recursos e através das suas próprias ações.
Se pudéssemos tentar uma síntese do que dissemos até aqui, considerando sobretudo o componente sagitariano do seu ascendente e as relações entre o Sol, Mercúrio, Marte, Júpiter, Urano e Plutão, afirmaríamos, a partir do tema astral de N., que estamos diante de um ser que tem um poderoso intelecto que tanto pode abrir vieses críticos, científicos ou naturalistas, através do quais esse ser, já no início de sua trajetória filosófica (trabalhos sobre a Grécia) procurava integrar o dionisíaco e o apolíneo. Um Sol libriano, intelectualizado e culto, com o seu poderoso, primitivo e instintivo mundo subterrâneo, de natureza escorpiana/ariana, representada por Marte e Plutão.
Quanto à dinâmica dos planetas de seu tema e à sua contraditória Lua sagitariana (a Lua sempre aponta para o passado; a flecha sagitariana é disparada a 45°, a angulação ideal para se atingir a máxima distância), N., ao invés de se fixar no ser, procurou sempre um tornar-se, um esforço que nos leva a considerá-lo, par droit de conquête (?), como o mais heraclitiano dos filósofos, defensor da tese de que tudo está em permanente fluxo no universo. Por tudo isso, N. chocou-se frontalmente com os valores religiosos que ao seu tempo impregnavam (e ainda hoje) toda a cultura ocidental, apesar da Enciclopédia, dos iluministas, de Voltaire e outros. Importante a sua ideia de vontade de poder sempre ligada ao impulso de uma busca de conhecimento, um alargamento da consciência, na realidade sempre de natureza intelectual. Um dos erros de N. (ou daqueles que se aproximam de sua obra e da filosofia) talvez esteja exatamente neste ponto, o de confundir informações e conhecimento com sabedoria. As duas primeiras têm relação com a mente, situando-se no plano do ter, do acúmulo; a outra, a sabedoria, pode usar as duas outras, mas situa-se, acima de tudo, no plano do ser.
A informação e o conhecimento, embora diferentes, são adquiridos; com eles, sabemos muitas coisas sobre o mundo e as pessoas, mas interiormente em nós, se nelas fixados, nada costuma acontecer, permanecemos os mesmos. A informação que captamos deve ser aplicada por nós, questionada, comparada, reti-ratificada se for o caso, corrigida, até se transformar em algo nosso. Assim é que chegamos ao conhecimento, mas isso não basta. É preciso, se possível, alcançar a sabedoria, que está além de ambos, informação e conhecimento. Ambos são muito perigosos quando apenas acumulados, tão perigosos que para isto criamos inclusive instrumentos e aparelhos com espantosa memória, mas, no geral, como se disse, fazendo-nos permanecer os mesmo ou piores interiormente. Hoje, é fácil, fútil até, transmitir informações e conhecimentos. As pessoas, atualmente, aliás, estão carregadas de informações e conhecimentos, mas parecem não ter nada melhorado com isso. Temos que mudar, sim, através do nosso ser, fazendo, se possível, com que informações e conhecimento que adquirimos trabalhem para isso e não apenas para exibições do nosso ego, ostentando-os sem nenhum compromisso com o nosso modo de ser. Não importa que se nos fizerem uma pergunta não saibamos respondê-la. Nesta perspectiva, saber sobre não é saber. Saber, sabedoria, é algo diferente da informação e do conhecimento. A sabedoria nasce da experiência própria, não é da ordem da memória e da inteligência (melhor se for, é claro!), é compartilhamento ou doação. Será possível levar N. nesta direção?
Em 1879, com 35 anos, N. renunciou ao seu posto de professor de filologia clássica na Universidade da Basileia e começou a perambular pelo mundo por cerca de dez anos, período em que escreveu seus melhores livros. Queria se distanciar do militarismo, da burocracia e da burguesia da Alemanha de Bismarck. Tempos depois, sua mente começou a se degenerar, pela sífilis (moléstia escorpiana, transmitida inclusive sexualmente). No caso de N., segundo a astrologia aponta, o mais provável é que a sífilis que o atacou tenha sido de natureza congênita, transmitida pela mãe (Lua, símbolo materno, regente da casa VIII, a casa da morte, em conjunção com o ascendente, corpo físico). Seus ataques de megalomania, por esse tempo, podem ser atribuídos à ação dissonante de Júpiter (o maior dos planetas; Zeus na mitologia grega), outro regente de seu ascendente.
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ERLAND JOSEPHSON, COMO NIETZSCHE, NO FILME DE BÉLA TARR, ALÉM DO BEM E DO MAL |
Numa manhã de janeiro de 1889, ele teve um problema, uma espécie de colapso numa rua de Turin, Itália, onde se encontrava. Com os seus braços envolveu o pescoço de um cavalo que acabara de ser açoitado impiedosamente por seu dono. Depois desse incidente, jamais se recompôs. Foi declarado insano pelos médicos que o atenderam; levado para a Alemanha, passou a ter uma vida completamente vegetativa até 25 de agosto de 1900, dia de sua morte. Astrologicamente, na morte de N., dentre outros planetas que nela intervieram, lembre-se da Lua, de Netuno e de Plutão. A primeira é a “dona” da sua casa VIII, a da morte. Netuno, na mitologia grega, é Poseidon,, o deus que criou o cavalo (um dos símbolos do psiquismo inconsciente), quando da disputa com Palas Atena pela tutela de Atenas. Plutão, o outro, é, na mitologia grega, Hades, deus do mundo infernal, subterrâneo, ctônico. Além do que já se disse sobre este último planeta, lembre-se mais que ele rege a vida subconsciente, as coisas escondidas. Influencia a função humana mais escondida, a mais secreta, a sexualidade. Representa a morte, o túmulo, a fecundidade, a ejaculação, os demônios interiores, os poderes secretos, a espionagem e a regeneração. Dentre outras funções que exerce, uma, muito importante: a de pôr fim às coisas para substituí-las progressivamente por outras, gerando um fato novo, um novo ser, no geral mais rico.
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TÚMULO DE NIETZSCHE |
No dia 25 de agosto de 1900, como está acima, o deus de Nysa, que “vive” no signo de Escorpião (nesse dia posicionado em Gêmeos, opondo-se a Sagitário) veio buscar Nietzsche. A Lua, dona da casa morte, atacava também o seu ascendente, seu corpo físico. A história do nosso filósofo, como a de Orfeu, nos lembra muito vivamente também a situação de “profetas” que ao perseguirem um ideal, a adotarem uma crença, uma filosofia, instigando inclusive outros para que também o façam, não se “sacrificam” o bastante para isso. Ficam apenas nos belos discursos, nas belas teses, em grandes exibições intelectuais, fixados apenas nos aspectos exteriores das questões que propõem. Ou seja, grandes aspirações, mas dificuldades com comportamentos que as justifiquem. Dioniso, lembre-se, é o deus que destrói, que aniquila ou enlouquece os seres e as formas que não sabem “morrer”, ou seja, mudar realmente, se transformar.