domingo, 12 de janeiro de 2014

FRANZ KAFKA


                     

À primeira vista, a obra de Franz Kafka poderia ser entendida pelas palavras que Joseph K, o personagem de O Processo, diz antes de morrer: "como um cão". Detido, acusado e finalmente julgado, sem saber por que, Joseph K é conduzido por dois senhores, bem vestidos e educados, a um bairro afastado da cidade e lá é executado: espadas no coração e a vergonha que vai sobreviver mesmo a essa morte de cão.


        Descoberta a obra de Kafka, falou-se logo numa imagem da condição humana. O Processo seria a prova de que a vida era um cárcere sinistro; se uma porta houvesse, abrir-se-ia ela sem dúvida para uma sala onde, num cenário de Grand-Guignol, uma guilhotina  estaria  à  nossa  espera. Da mesma forma,  os outros  livros, O Castelo, A Metamorfose, A Muralha da China, América etc., seriam  a  pintura  da angústia, da solidão e do
absurdo. Para aqueles que assim entendiam, ninguém, até então, escrevera como Kafka, com tanta clareza e lucidez sobre a escuridão, uma pena científica, burocrata de gênio, que fazia o inventário do horror. Pesadelos, parábolas gigantescas.



 Nascido em Praga, em 1883, de família israelita, advogado de uma companhia de seguros, vida obscura, morreu em 1924, vítima de uma laringite tuberculosa, num sanatório perto de Viena. Hesitante, jamais se casou. Uma educação errada e um pai tirânico que destruía todas as tentativas de independência lançaram contra ele
uma espécie de décret d'expulsion (alguns, erroneamente, aliás, numa interpretação psicanalítica, verão apenas em Kafka um caso clínico, patológico, exemplo indiscutível de um complexo de Édipo, e indícios de homossexualismo). O meio hostil procurou caracterizar a sua singularidade como uma espécie de loucura, obstáculo à vida, que engendra frieza, mesquinharia, cálculo, avareza e todos os vícios do burocrata, dos quais ele amargamente se acusa no Diário.


KIERKEGAARD
Decorre desse fato a grande admiração de Kafka pelos escritores que, como Flaubert e Kierkegaard, foram capazes de viver e levar a sua singularidade às últimas consequências. Kafka, no Diário (anotação de 27-8-1916), se acusa por não poder, como eles, escolher o seu próprio caminho, por não atravessar a fronteira que separa a solidão de uma vida normal entre os homens. O julgamento de Kafka sobre si mesmo é de uma severidade impressionante não se explicando senão pelas consequências que trazem as obrigações imediatas: superar a revolta do homem particular, encontrar o caminho que conduz a uma comunidade viva, enraizada num solo, numa tradição, numa história.

KAFKA EM PRAGA
 Todavia, para que considerações como essas pudessem ser feitas, muitos mal-entendidos e equívocos tiveram de ser desfeitos. O mundo contra o qual Kafka se batia parecia abstrato. Na verdade, era o mundo de Praga, pequeno canto da Europa, chamado, então, de Boêmia. Praga aparece algumas vezes na obra de Kafka com as
suas ruas, as suas praças, as suas velhas pontes, uma atmosfera medieval que se ajusta perfeitamente ao ambiente de O Processo ou de O Castelo. Mas, quebrada a camada superficial, além do quadro familiar, percebemos outra coisa, uma espécie de fatalidade, punho descomunal pronto para golpear.


Esta fatalidade pode ser explicada não só pela condição judia de Kafka,  num  país  onde  o  antissemitismo  era  tradicional ,  como

também pela situação histórica, social e étnica de Praga. Ainda mais: outros fatores intervinham para determinar a situação toda especial de Kafka; para os checos, judeu pela raça e alemão pela língua; filho de um comerciante cujos empregados, em sua maioria, eram checos; embora alemão pela língua, desligado completamente dos alemães da Boêmia, que, a seus olhos, não eram mais do que insignificante caricatura dos do oeste; separado de todos tanto pelos preconceitos raciais, como pelos muros invisíveis do ghetto, onde a burguesia judia de Praga voluntariamente se encerrou.

Para os amadores do desespero e para os fetichistas do absurdo, a obra de Kafka indicava, pois, que um fatum cego determinava a irrealização da humanidade sem categoria, indistinta, entregue apenas à reflexão sobre a sua impotência, à percepção da intransponíve1 armadilha. Era o domínio da marginalidade e da angústia do homem expulso das situações normais e cotidianas, submetido, sem culpa, a um misterioso "processo" e à procura de um inatingível "castelo".

Pouco a pouco, porém, foi-se fazendo a luz. Quando as obras de Kafka começaram a circular mais livremente, vencido o período nazista, deixando assim a vida subterrânea, os pontos obscuros, as

passagens mais difíceis, a ambiguidade, as nebulosas, foram-se
desfazendo. O Diário, Os Aforismos, Carta ao Pai e Cartas a Milena, principalmente, possibilitaram o estabelecimento de uma verdade "mínima": a relação profunda que havia entre a desesperada busca de verdade dos heróis kafkanianos e o mundo onde viveu o autor. Percebeu-se que esse novo profeta era antes de tudo um justo, um homem de boa vontade, que andava à caça da verdade e do absoluto no labirinto das suas grandes entidades. E foi na vida que Kafka encontrou sua implacável lógica: o pensamento transformando-se num movimento reflexivo da própria existência, participando da irrefutabilidade do que é.
    
O herói de Kafka é o homem que acredita na liberdade, mas que dela não pode ter uma concepção precisa porque vive num mundo de escravidão. Para esse homem não há graça ou salvação; ele não as procura; quer antes os seus direitos, um lugar entre os homens. No universo sem luz, Kafka vai introduzir essa questão de uma forma singular. Se O Processo propunha um problema, Castelo já tenta uma solução. Os livros se completam como observa Camus: "O primeiro descreve, segundo um método quase científico, sem concluir. O segundo, numa certa medida, explica. O Processo diagnostica. O Castelo imagina um tratamento". Este último é, na obra kafkiana, um non p1us u1tra da existência. K, de quem nada se sabe, é nomeado agrimensor do Castelo; chegando à cidade, vem a saber que é impossível qualquer comunicação com o tal Castelo. E através de centenas de páginas K procurará encontrar o seu caminho, valendo-se de todos os meios; jamais desistirá e, com uma fé desconcertante, sempre quererá ocupar a função para a qual fora nomeado. Mas cada tentativa é um fracasso e um recomeço. Quando K telefona ao Castelo, não se estabelece um diálogo, chegam-lhe apenas sons confusos, vozes que ele não entende bem, risos vagos, apelos longínquos. Obstinação, fé, ilusão?


  
Grande parte da crítica literária, como se sabe, sempre procurou nos passar de Kafka uma imagem de vítima impotente diante do autoritarismo e da arbitrariedade. A esta altura, depois do tanto que já se falou e publicou sobre ele, já deu para perceber que a genial prosa kafkiana não é a de uma vítima; muito mais que um impressionante exercício formal, ela nos revelou que a sua literatura é, acima de tudo, um instrumento de conhecimento do seu próprio eu e do mundo em que viveu. 


Durante toda a sua vida Kafka sempre se esforçou para conhecer, segundo a sua peculiaridade familiar, social e racial, as diversas formas de dominação a que naquele início do séc. XX, na Europa central, o indivíduo estava submetido, de modo especial um judeu como ele. Tanto em seu Diário como na sua correspondência, são muitas as cenas por ele descritas que nos falam de humilhação e opressão, inclusive as presenciadas em sua casa e em sua atividade profissional.

Numa passagem da Carta ao Pai, Kafka nos diz que, diante
insensibilidade e mesmo da brutalidade do pai para com os seus empregados, ele tinha tomado o “partido do pessoal”. Kafka, a partir de sua situação pessoal e familiar, ao tomar o “partido do pessoal” se solidarizou com todos os rejeitados socialmente, os tchecos que viviam sob a dominação alemã; os judeus do leste desprezados pelos judeus ocidentais; os judeus que falavam a língua ídiche, considerada uma língua pobre, não civilizada, pelos judeus germanizados.
                                                                                                Alimentado certamente por leituras de obras do anarquista e comunista Kropotkine e do socialista Alexandre Herzen, esta solidariedade ele a estendeu também, como advogado de uma companhia de seguros, a todos os modestos trabalhadores e
MAX BROD
empregados que, quando acidentados, explorados, abandonados e rejeitados, procuravam em vão reivindicar os seus direitos. Ele dizia a seu amigo Max Brod e a alguns próximos não entender como essa gente era tão dócil e humilde ao pleitear os seus direitos, “ao invés de tomar a casa (a companhia) de assalto e tudo destruir.”     

Qual o caminho a seguir? Uma pilgrimage do tipo da de Bunyan? Ao contrário, a qualidade mais opressiva das obras de Kafka é justamente a estabilidade inabalável da sua situação central. Não há, pois, pilgrimage a ser vista em O Castelo, nem ali o progresso se resume numa "questão de tempo". A não ser que consideremos como progresso o que Kafka descreveu na sua fábula do rato: “Aliás, disse o rato, o mundo torna-se cada dia menor. No princípio, era tão grande que eu tinha medo, eu corria, corria e ficava feliz quando, por fim, via paredes distantes à direita e à esquerda; mas essas compridas paredes diminuíram tanto que eu já estou no último quarto e lá no canto está a armadilha em que devo cair" O gato disse então: "Você deve apenas mudar de direção", e a seguir comeu-o.

Uma passagem de O Castelo é bem esclarecedora: "Eu fico melancólica, diz Olga, quando, pela manhã, Barnabé me diz que vai ao Castelo: esse trajeto provavelmente inútil, esse dia provavelmente perdido, essa esperança provavelmente vã". Sobre esse "provavelmente" é que vai se assentar toda a obra kafkiana. um "provável" que se traduz por um "vale a pena". Não é um grito desesperado que nenhum recurso deixa ao homem. O Castelo não é um símbolo de paraíso, visão divina; para K, é algo a ser conquistado. Que a obra de Kafka esteja voltada para o absurdo pouco importa, eis que o absurdo é, ao final, um grito de esperança. E é aqui que o pensamento de Kafka une-se ao de Kierkegaard e, por extensão, ao de todos os filósofos da existência, os que, sem dúvida, melhor o entenderam.


Fica com Kafka a grande lição, lição que no fundo corresponde à
TOLSTOI
de Tolstoi, amor, esforço e paciência. Vialatte, o tradutor de Kafka, quem talvez tenha melhor escrito sobre ele, diz: "seu mal-estar é o mal-estar humano. Outros o exprimiram, depois falaram de outra coisa. Ele jamais se deixou “distrair" desta contemplação lancinante. Ele formou a sua obsessão e a ideia fixa da sua arte. Com uma veemência de visionário ele se ocupou apenas das nossas mais antigas e das nossas mais novas nostalgias. Dir-se-ia que Pascal antecipou-se a Kafka quando descreveu a horrível condição do homem condenado a permanecer só no seu quarto, a contemplar essa condição. Kafka nada mais fez do que filmar as imagens que desfilam sobre as paredes das nossas celas solitárias... 

Olhemos mais detidamente a sua fotografia, pois nela encontraremos, atrás de uma expressão de
"doçura aterrorizada", a imagem de um "homem em estado de guerra": a fronte baixa, os lábios cerrados. É um senhor que passou a sua vida numa autovivissecção por vocação particular, pelo amor da verdade, com uma crueldade humilde e infatigável. É o herói e a vítima, é a cobaia que viu a faca, é o sacrificante de olhar implacável. Os braços rubros, no meio de seus instrumentos chamuscados, ele redige um Relatório para uma Academia".