Grande parte do que apresento neste artigo é um resumo das ideias que há muito, muito tempo, num projeto pessoal, venho reunindo sobre a mitologia grega, desde que, a meu pedido, em 1.949, terminado o meu curso ginasial, ganhei de presente de minha mãe, nas festas de Natal, os dois poemas de Homero, na tradução de Carlos Alberto Nunes. Com o correr dos anos, vieram depois outras traduções, outras leituras, o estudos das línguas, as viagens, o interesse por outras tradições mitológicas (a hindu principalmente), as relações delas com a literatura, o teatro, as artes plásticas, o cinema e, sobretudo, a astrologia, eis que tudo, como venho aprendendo, se ilumina mutuamente. A cada dia uma relação nova, uma descoberta. A viagem continua...
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PÍNDARO |
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HOMERO |
O que temos sobre a vida de Homero está reunido, de um modo geral, em muitos textos que podemos chamar de Vidas de Homero. Se vamos aos textos mais próximos, da época romana ou bizantina, por exemplo, percebe-se que todos eles fazem referência a textos bem mais antigos, do século VII aC. e de antes.
Para compor os seus poemas, Homero, está hoje provado, valeu-se de um dialeto literário nunca falado na Grécia. Criou praticamente uma linguagem própria, única, na história da literatura, de grande riqueza vocabular, que sempre encantou e perturbou tanto os tradutores, os especialistas, como o leitor comum, seduzindo enfim, de um modo ou de outro, todos aqueles que de seus poemas se aproximam.
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ODISSEIA |
Buscando um pouco mais, é possível, seguindo a suposição acima levantada (Homero teria se escondido em algum personagem), descobrir que, na Odisseia, Ulisses, como rei de Ítaca, mantinha também um poeta-cantor, de nome Phemios, que aparece na Ilíada. O nome Phemios, etimologicamente, se liga a ideias de normalidade, de lei divina ou lei moral, costume, vontade dos deuses. Era Phemios um poeta lírico que alegrava os banquetes. Na Odisseia, sua audiência era formada, em grande parte, pelos pretendentes de Penélope, quase todos oriundos da aristocracia de Ítaca e de reinos próximos.
No poema, quando Phemios distraía a sua plateia, Penélope o interrompeu, achando o seu canto muito triste. Telêmaco interveio, tomando a defesa do poeta, repreendendo a mãe, dizendo-lhe que os presentes não poderiam querer mal ao poeta-cantor, que a todos encantava com a sua arte, ainda que a história narrasse o triste destino dos heróis gregos.
PRETENDENTES DE PENÉLOPE ( JOHN WILLIAM WATERHOUSE , 1849 - 1917 |
No poema, quando Phemios distraía a sua plateia, Penélope o interrompeu, achando o seu canto muito triste. Telêmaco interveio, tomando a defesa do poeta, repreendendo a mãe, dizendo-lhe que os presentes não poderiam querer mal ao poeta-cantor, que a todos encantava com a sua arte, ainda que a história narrasse o triste destino dos heróis gregos.
Quando Ulisses e seu filho Telêmaco começaram a atacar os pretendentes de Penélope e os maus servidores de seu palácio, Phemios e o arauto Medon foram livrados da morte, pedindo Ulisses que o primeiro, Phemios, entoasse cantigas de noivado para dissimular os gritos dos que ele e o filho matavam. Medon, esclareça-se, era o arauto dos pretendentes de Penélope, que tentaram armar uma cilada para matar Telêmaco. Quando do regresso do jovem à ilha, Medon revelou o plano deles a Penélope, fracassando eles assim no seu intento.
Por causa do destaque bastante positivo recebido pelos poetas nos dois poemas, a Ilíada e a Odisseia, ainda no mundo arcaico foi montada uma versão segundo a qual Homero seria filho de Telêmaco e de Policasta, filha do sábio Nestor, que tantos bons conselhos prodigalizou ao filho de Ulisses. É provavelmente como um desdobramento desta versão que sai a história que faz de Homero, além de aedo, um professor.
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HESÍODO |
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OS TRABALHOS E OS DIAS |
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HERÓDOTO |
No livro II da História de Heródoto, encontramos informações de que Homero e Hesíodo haviam vivido quatrocentos anos antes dele (Heródoto) e que foram os primeiros a descrever em versos a teogonia (a origem dos deuses), a registrar a aparência
dos deuses, seus sobrenomes, as funções que exerciam, os seus cultos. Informa-nos mais Heródoto nesse item que, na sua opinião, os dois poetas foram os primeiros a abordar a história dos deuses. Parte do que relatava no referido item ele colhera quando de seus contatos com as sacerdotisas de Dodona. Quanto ao que afirmava sobre os dois poetas, nada mais fazia do que emitir a sua opinião pessoal.
Em que pesem os registros acima feitos, sobre o embate poético entre Homero e Hesíodo, o que fica de mais aceitável dessas afirmações é que desde a antiguidade procuram os estudiosos da literatura grega destacar, opondo-os, dois grandes exemplos pelos quais a tradição poética daqueles primeiros tempos procurou os seus caminhos. Uma oposição até violenta entre dois mundos. De um lado, os príncipes guerreiros, a Grécia colonialista, invasora, e, de outro, o mundo arcaico, agrário, fixado nos valores da terra. De um lado, com Homero, a poesia épica e, de outro, com Hesíodo, a poesia didática, gnômica.
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SÍTIO ARQUEOLÓGICO DE DODONA |
Em que pesem os registros acima feitos, sobre o embate poético entre Homero e Hesíodo, o que fica de mais aceitável dessas afirmações é que desde a antiguidade procuram os estudiosos da literatura grega destacar, opondo-os, dois grandes exemplos pelos quais a tradição poética daqueles primeiros tempos procurou os seus caminhos. Uma oposição até violenta entre dois mundos. De um lado, os príncipes guerreiros, a Grécia colonialista, invasora, e, de outro, o mundo arcaico, agrário, fixado nos valores da terra. De um lado, com Homero, a poesia épica e, de outro, com Hesíodo, a poesia didática, gnômica.
Com a primeira, as aventuras, os valorosos reis, a vocação marítima, a colonização, de outro, os patriarcas, a economia da terra. Economia é palavra que vem do mundo de Hesíodo, de oikos, a família, a casa, as terras, os animais e os servos, e de nomos, a lei, a ordem, o respeito, a disciplina. É por essa razão que Hesíodo denuncia os governantes, notáveis, todos, no seu entender, “comedores de propina”, corruptos e prevaricadores. Vivendo na Beócia, região agrícola, também de criadores de animais, na Grécia central, Hesíodo, como os seus demais habitantes era um sólido e taciturno camponês.
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HORÁCIO |
Para participar da questão homérica não podemos ignorar a intervenção de um outro historiador, muito importante, mas pouco citado: Éforo (405-330 aC). Ele nasceu em Cime, cidade da Eólida, Ásia Menor, e escreveu uma extensa obra histórica. Num de seus livros, Epichorium Logos, declarou-se conterrâneo de Homero. Estrabão, que não gostava de Éforo, sempre reclamou por ele gostar de citar favoravelmente em seus escritos seus conterrâneos. Estrabão considerava-o, por isso, um simples logógrafo.
Evidentemente, ninguém duvidava da existência de Homero na antiguidade grega. Suas obras faziam parte da Paideia, do sistema de educação e de formação dos estudantes gregos, do qual faziam parte a Gramática, a Retórica, a Ginástica, a Música, a Matemática, a Geografia, a História, inclusive a Natural, e a Filosofia. Esse sistema pedagógico começou a ser montado nos tempos homéricos, atingindo a sua plenitude no período clássico da história grega. Chegaram até nós, por exemplo, para confirmar a existência desse sistema muitas imagens (relevos) nos quais se vê um jovem, numa récita de poesia, acompanhado de um músico, uma das formas então utilizadas para a transmissão da cultura.
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BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA |
Duas figuras, Zenão e Helânico, eruditos ligados à Biblioteca, começaram a pesquisar a biografia de Homero, a partir de sua obra, levantando tudo, dentro da obra do poeta ou não, como lendas ou tradições diversas, que lhes parecessem úteis para o fim pretendido. Nesse trabalho, foram reunidas inclusive muitas biografias “regionais” de Homero encontradas em muitas cidades ou lugares que disputavam a glória de ser a terra natal do poeta: Rodes, Cólofon, Salamina, Chios, Argos, Esmirna, Cime etc. Já ao tempo desses eruditos alexandrinos, por exemplo, uma tese apresentada com boa argumentação, defendia que os dois poemas haviam sido escritos por poetas diferentes e que entre ambos haveria uma distância de mais ou menos dois séculos, tendo sido a Ilíada composta antes. Os defensores desta tese foram chamados de “separatistas”.
Nas cidades acima mencionadas, os que as visitavam em busca do “mistério” Homero, eram recebidos por membros de famílias que se autodenominavam homéridas, descendentes diretos do poeta, que monopolizavam, por direito de sucessão, segundo afirmavam, tanto a recitação de suas obras como o ensino da arte poética na forma por ele criada. As cidades que parecem reunir as melhores possibilidades de se apresentarem com a cidade natal do poeta são Chios e Esmirna. Na primeira destacava-se a ação dos homéridas
que sempre procuraram manter os poemas na sua tradição oral. Já Esmirna se destacou por ser um importante centro cultural e linguístico com condições de dar amplo suporte a uma formação tão rica como parece ter sido a de Homero. Os defensores de Esmirna se valeram mais tarde, para defender melhor a sua posição, do fato de nela ter nascido também Píndaro, poeta que viveu em Atenas entre 518-442 aC.
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PÍNDARO |
Como não poderia deixar de acontecer, versões evemeristas também foram coletadas. O evemerismo, sabe-se, é a transformação de um fato histórico, com os seus personagens, em mito. Algumas destas versões atribuíam a Homero uma natureza semi-divina, ora dando-o como filho de um deus e de uma mortal, ora dando-o como filho de uma deusa e de um mortal. Uma das versões mais “tentadoras” era aquela que o considerava como filho da mais importante das musas, Calíope (etimologicamente, a de bela voz), que tutelava a poesia, tanto a épica como a lírica. Calíope, no mito, é mãe de Orfeu, de Iálemo, de Himeneu e de Lino. Consta que também gerou as Sereias, as “cruéis cantoras”, e que teria sido professora de canto de Aquiles.
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ULISSES E AS SEREIAS , 1891 ( JOHN WILSON WATERHOUSE ) |
Dentre as muitas biografias de Homero, uma das mais citadas é a atribuída a um autor desconhecido, que recebeu o nome de Pseudo-Heródoto. Por ela e pelos textos que nela se mencionam, ficamos sabendo que Homero teria nascido 168 anos antes da guerra de Troia, o que permitiu fixar a data do seu nascimento em 1.102 aC. Embora considerada como pura ficção por muitos, um verdadeiro pasticcio, esta vida de Homero menciona alguns personagens importantes de Ítaca, como o poeta-cantor Phemios, Mentor e outros.
A grande notoriedade da biografia de Homero atribuída ao anônimo Pseudo-Heródoto se deve principalmente ao fato de nela se declarar que os fatos narrados sobre o poeta teriam sido compilados pelo historiador. Por contradições encontrada nos textos coletados, muitos historiadores desqualificam as afirmações nele contidas e declaram que o que conhecemos como obra desse Pseudo-Heródoto teria sido escrita entre os séculos III e IV dC, no período alexandrino, período em que havia um público para esse tipo de literatura.
É nesses textos que encontramos referências sobre a viagem que Homero teria feito a Ítaca e que teria sido hóspede de Mentor, depois incluído como personagem na Odisseia. Registra-se também que, por informações desses textos, por essa época Homero já enfrentava problemas com os seus olhos. Ao deixar Ítaca, ao passar por Colophon, é que teria perdido totalmente a visão. Em Phocacea, depois de passar por Cime, foi acolhido por um pedagogo, Thestorides, em troca de recitais nos quais apresentou a Ilíada e a Odisseia.
Os registros prosseguem e por eles ficamos sabendo que Thestorides foi para Chios e lá assumiu a autoria dos poemas homéricos. Tomando conhecimento desses fatos, Homero viajou para Chios e declarou que o verdadeiro autor dos poemas era ele. Foi nessa ilha, continuando, que Homero teria composto a sua Batrachiomaquia (A Batalha entre as Rãs e Os Ratos), então considerado como um poema destinado às crianças. A seguir, nosso poeta teria viajado para Samos e dali, ao passar por Ios, falecera, a caminho de Atenas.
Lembre-se que na biografia do Pseudo-Heródoto estão os 17 epigramas atribuídos a Homero, também encontrados nos seus Hinos Homéricos. Para os mais interessados, registre-se que temos entre nós uma excelente edição bilíngue destes hinos, organizada por Wilson Alves Ribeiro Jr. (Fundação Editora da Unesp)