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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

DRAGÕES E SERPENTES NO MITO, NA ASTROLOGIA E NA ASTRONOMIA

PLANETAS
Em 1930, a União Astronômica Internacional  estabeleceu que no céu havia 88 constelações, distribuídas como  boreais (norte celeste), austrais (sul celeste) e zodiacais, que envolvem a Terra, por onde circulam, do ponto de vista terrestre, o Sol, a Lua e oito planetas: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão, estes três últimos invisíveis a olho nu. Os nomes destas constelações foram fixados na língua latina embora a maioria deles provenha da língua grega, da mitologia grega principalmente. Na antiguidade eram conhecidas, entre os três grupos acima mencionados, apenas 48 constelações, número definido por Ptolomeu no Almagesto. Hoje, esse número se expandiu para mais de cem.

LOS LIBROS DEL SABER
Historicamente, é de se recordar que só em 1252, na Europa, em Toledo, na Espanha, os estudiosos do céu voltariam a fazer uma nova e mais consequente avaliação do que gregos, latinos e outros povos haviam deixado. Esse trabalho tomou o nome de Los Libros Del Saber de Astronomia, as celebres Tábuas Afonsinas, compiladas pelos astrônomos árabes, sob o patronato do futuro rei Alfonso X, o Sábio, 1221 - 1284, dedicado astrônomo. De Alfonso, falavam os seus súditos,
CANTIGAS  DE  SANTA  MARIA
carinhosamente diga-se, que ele abandonava muitas vezes a coroa pelo astrolábio, esquecendo seus deveres terrestres pela sua paixão pelas coisas celestes. Vale informar também que Alfonso ficou também muito conhecido por sua atividade literária, sendo considerado, se não como o autor das 427 famosas Cantigas de Santa Maria, o poeta que compôs muitas delas. 

AL SUWAR
Aos agrupamentos de astros que formavam as constelações os gregos deram genericamente o nome de Morphoseis (semelhantes, parecidas) ou Schemata (figuras). Os latinos chamaram tais agrupamentos estelares de constellatio, constelações, dando-se o nome de Zodia àquelas que lembravam a forma animal. Em 1515, numa edição do Almagesto, apareceu o nome Stellatio para designá-las enquanto no mundo árabe já circulava, há muito, para o mesmo fim, o nome Al Suwar.

Foram os antigos gregos que, no ocidente, começaram a utilizar os nomes de figuras de animais para designar, principalmente, os agrupamentos estelares. Vindos do mito, dragões e serpentes ocuparam um lugar especial quanto a essa designação. Nomeando figuras formadas a partir de agrupamentos de estrelas, “sensibilizando” pontos do círculo zodiacal, atuando em certas áreas (quadrantes) ou isoladamente através de uma estrela fixa, dragões e serpentes marcaram fortemente desde então sua presença na Astrologia. Presentes em todas as tradições, esses estranhos seres, considerados como produzidos pela imaginação dos homens, costumam significar nos mapas astrais em que aparecem muito mal-estar, sofrimento e angústia.


QUATZACÓATL
A figura do dragão parte, no geral, de um modelo clássico, o da serpente, transformada ao receber pernas e componentes típicos dos répteis, como os dos crocodilos; ou receber também das aves asas, como no caso da serpente emplumada dos toltecas ou olmecas, o quatzacóatl (serpente, em língua nahuati); ao incorporar ainda dos animais marinhos barbatanas, escamas, caudas bífidas etc. A imagem desses monstros se completa muitas vezes pelo acréscimo de víboras, pequenas serpentes venenosas ao seu corpo escamoso, à guisa de pelos. 

HÉRCULES  E  CÉRBERO
Os dragões, quanto à forma, podem ser policéfalos, polioftalmos, polimorfos, polípodes etc. Vomitam fogo, sua baba é venenosa, seu sangue mata, mas, em alguns casos, é possível fabricar do corpo do dragão ou de suas secreções remédios e antídotos (contravenenos) maravilhosos. É, por exemplo, o caso de Cérbero, o cão infernal tricéfalo da mitologia grega, de cuja baba, quando esta atinge o solo, nasce o acônito. Versão mais completa sobre a origem desta planta nos informa que tal aconteceu quando Cérbero, vencido e trazido à luz por Hércules (10º trabalho), foi atingido por raios solares.  Contorcendo-se, o monstro vomitou uma baba escura e no lugar em que ela tocou a terra, brotou imediatamente um pé de acônito. Esta planta, como se descobriu posteriormente, já vicejava no Hades, no Tártaro, região infernal mais profunda, nos jardins lá mantidos pela deusa Hécate. Cérbero, como bem sabem os bons astrólogos, pode “aparecer” numa carta astral no lugar onde está posicionado Plutão.

ACÔNITO
O acônito, planta muito tóxica era utilizado na Grécia antiga em alguns rituais de magia negra. Na Europa, desde a antiguidade, o acônito era usado para afastar vampiros e curar a licantropia. Segundo a tradição, quem absorvia acônito podia morrer. Porém, aquele que estivesse envenenado e o absorvesse podia curar-se. Quando usado em doses homeopáticas o acônito costuma trazer muitos benefícios. É neste caso indicado para tratamento da ansiedade, de crises de pânico, tanatofobia, acrofobia, claustrofobia, necrofobia e descontroles físico-mentais em geral.

Em todas as tradições, qualquer que seja a sua forma, dragões serão sempre, num primeiro momento, um símbolo do Mal. Para efeitos práticos, serão dracônticos todos os seres que atuem nessa direção.  É neste sentido que os mitos relacionados com dragões, serpentes, gigantes e demônios nos revelam que quando esse seres atuam estamos sempre em perigo, sempre diante de situações ameaçadoras, que podem nos levar à morte.  

MONSTROS
Monstros, como sabemos, são seres disformes, fantásticos, tidos como produzidos pela imaginação, pela fantasia (phantasia, em grego, é imaginação) do homem. Monstro etimologicamente, quer dizer prodígio da natureza. Prodígio é palavra aplicada a seres que são aberrações, desvios, distorções, com relação ao que é natural, normal. Os monstros nos causam espanto, são descomunais. Estão presentes nos mitos, nas religiões, nas lendas e em muitas histórias da literatura universal.

MONSTROS
De um modo geral, eles têm relação com as cosmogonias, com a vida primordial e sua origem, sendo seu ambiente natural o das forças primitivas em ação no universo, forças que, embora consideradas como potencialidades formais, resistem tenazmente  a qualquer ordenação que se lhes queira dar. Nesse sentido, os monstros  aparecem sempre ligados ao caótico, ao desordenado, ao indiferenciado, ao que não tem limite ou lei. É por essa razão que os mitos e depois a psicologia fizeram deles símbolos da predominância, no ser humano, de forças instintivas ou irracionais, forças que devem ser sacrificadas em nome de uma vida superior, organizada, orientada racionalmente. Os monstros são assim avessos à ideia de cosmos, de ordem, de harmonia.

SÃO MIGUEL ARCANJO
Enquanto as serpentes, no seu modelo clássico, participam da terra e da água, os dragões se relacionam com os quatro elementos, fogo, terra, ar e água, com ênfase maior quanto ao primeiro. No cristianismo, por exemplo, a luta de São Jorge ou de São Miguel contra dragões é mais uma vitória do fogo espiritual sobre o fogo a serviço da matéria. 


Em muitas culturas, o estudo das forças do Mal, nas suas várias expressões, inclusive sob o ponto de vista histórico, é designado pelo nome de Demonologia. É nestes textos que são estudadas inclusive todas as metamorfoses pelas quais as entidades do Mal passaram e passarão continuamente para intervir não só no destino pessoal de cada ser humano como no das sociedades humanas em geral. À Demonologia aqui referida  podemos associá-la a um outro  conhecimento muito importante, a Criptozoologia, o estudo de espécies de animais lendários, hipotéticos ou simplesmente avistados, extintos ou desconhecidos, e sua relação com mitos de várias culturas.

AS  TRÊS  GÓRGONAS
( GUSTAVE KLIMT, 1862 - 1918 )
Uma característica notável que muitos dragões apresentam no mito é a da ambiguidade, podendo, neste caso, quando controlados ou vencidos, produzir o Bem. Um dos exemplos mais significativos do que aqui se fala é o da Medusa, conhecida como uma Górgona, juntamente com as suas duas outras irmãs, Ésteno e Euríale. Das três, a mais perigosa realmente era a Medusa, monstro feminino, com a cabeça enrolada por serpentes, de olhar terrível, que petrificava as pessoas com as quais trocasse olhares. O herói Perseu, quando cortou a cabeça desse monstro, avisado por deuses que o haviam aconselhado, recolheu o sangue que jorrava pelo lado direito do seu pescoço, que tinha a propriedade de curar doenças e mesmo em alguns casos de ressuscitar os mortos. O sangue do lado esquerdo, porém, era veneno mortal. 


NIX  ( PEDRO  AMÉRICO , 1843 - 1905 )
MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES, RJ 
Essa característica, aliás, a da ambiguidade, não estava presente no mito só com relação a alguns monstros. Muitas divindades que não podem ser classificadas como monstruosas, dracônticas, a possuíam, como, por exemplo, constatamos na história de Nix, a Noite, divindade primordial nascida do Caos. Nix, a Noite, entre os antigos gregos, sempre teve algum controle sobre doenças, sofrimentos, pesadelos, angústias, sonhos, infelicidades, disputas, guerras, assassinatos e morte. Tudo o que era inexplicável e temível para o ser humano podia, em muitos casos, vir dela de algum modo. Na Grécia antiga, as confrarias órficas foram na direção contrária deste entendimento, honrando-a de várias maneiras, santificando-a, porque, para elas, Nix trazia a bênção dos deuses. Símbolo de todas as germinações, de todas as gestações, Nix alimentava os luminares do céu e tudo o que a Terra produzia. O seu simbolismo tinha correspondências com a obscuridade, com o negro, com a ignorância, com o inconsciente e, por essa razão, com todas as possibilidades da existência, inclusive as de renascimento. Quando honrada devidamente, Nix tomava o nome de Eufrone, a mãe do bom conselho.
POSEIDON
Um dos maiores geradores de monstros na mitologia grega é Poseidon, deus do elemento líquido, dos mares e oceanos, Netuno entre os povos latinos, inclusive na Astrologia. Na forma de cavalo, Poseidon tomou o nome de Hippios, nome que pode ser associado à velocidade das ondas e à sua crista, como a de cavalos, quando do seu tropel marinho. Nos mitos, branco e alado, é um símbolo de espiritualidade, de autodomínio, da pessoa que sabe se dominar, se controlar. Negro, ele aparece ligado à Lua e à água, encarnando as forças descontroladas do psiquismo humano. 

BESTIÁRIO
Associado à luxúria nos Bestiários da Idade Média, o cavalo há muito já era considerado também um símbolo universal da energia psíquica colocada a serviço das paixões humanas. Todas as características e ligações de Poseidon com monstros simbolizam forças irracionais, algo tenebroso, abissal. Na Astrologia, é o planeta Netuno, princípio da receptividade passiva, manifestando-se por faculdades supranormais. Nos tipos superiores, é inspiração, intuição, amor universal, sacrifício desinteressado, espiritualidade. Nos tipos inferiores, é anulação da vontade, desorganização, caos. 

PERSEU E ANDRÔMEDA
( CHARLES - ANDRÉ  VAN  LOO, C.1740 )


Dentre outras possibilidades significativas, Poseidon (Netuno) é visto como o criador de paraísos artificiais e de ilhas, como a Atlântida. Pai de gigantes, cíclopes, salteadores e caçadores malditos, a prole de Poseidon é sempre sinônimo de desproporção, de descontrole, de malefícios. Um dos melhores exemplos que podemos mencionar com relação a Poseidon é o do monstro marinho que ele enviou para destruir o reino de Cefeu por causa da hybris (orgulho, soberba) de sua mulher, a rainha Cassiopeia,  que se considerava mais bela que todas as nereidas e que a própria deusa Hera, esposa de Zeus. 

Lembremos que não só através de divindades tidas como naturalmente benéficas, como Afrodite e Zeus, Vênus e Júpiter respectivamente na Astrologia, pode se “esconder” muito mal. Uma mulher, ainda exemplificando, pode viver astrologicamente a Vênus de seu mapa através de arquétipos representados pelas Sereias, pelas Ondinas ou pelas Melusinas (genericamente de todas as ninfas ligadas aos mares e aos oceanos, se quisermos), sempre belíssimas,  temíveis sedutoras que costumam levar muitos homens do mar à perdição e mesmo à morte. A  etimologia grega de seirazein, de onde sai a palavra sereia, quer dizer “prender com uma corda”.


JOGO  DAS  SEREIAS  ( ARNOLD  BÖCKLIN , 1886 - 1901 )

Afrodite tem vários nomes, apelidos, gerados pelos diversos papéis que pode representar, Calipígea, Trívia, Urânia, Pandêmia, Androfona, Citereia, Cípris etc. Toda pessoa que se envolve num processo afetivo de trocas, a deusa a transforma num ser especial, quase “divino”. Quando Afrodite se apossa da personalidade de uma mulher, ela costuma se abrir para o mundo, para os outros,
PALAS  ATHENA
( GUSTAV  KLIMT , 1862 - 1918 )
socializando-se, podendo inclusive aumentar bastante o seu magnetismo pessoal, chamado pelos gregos de enkrateia. Quando por razões sociais, culturais e religiosas a mulher é rebaixada, Afrodite se “ausenta”. O arquétipo pode pôr uma mulher, dependendo do meio, em divergência com os padrões de moralidade
vigentes. Por isso, as mulheres-Afrodite podem ser marginalizadas, satanizadas, consideradas como perigosas, quando não como raptoras do masculino, como no caso das Sereias. Em Atenas, lembre-se, onde Palas Athena, deusa virgem, guerreira, inspiradora dos trabalhos úteis e guia de heróis  pontificava, Afrodite era conhecida como a “oriental”, a “prostituta”.
ASCLÉPIO
As serpentes, desde tempos muito remotos, sempre apareceram associadas à vida e a  transformações porque elas têm a propriedade de mudar de pele, o que levou os antigos a considerá-las como capazes de recuperar a juventude. Por essa razão a serpente foi usada como um dos símbolos do deus Asclépio, que pontificava no santuário de Epidauro. Filho de Apolo, deus solar, educado pelo centauro Kiron, Asclépio “vivia” no Tholos, um edifício de seu complexo médico em Epidauro, em companhia de uma serpente sempre enrolada num bastão, que não só possuía o poder da adivinhação, por ter acesso ao mundo  ctônico, como por simbolizar também, como se disse, a vida que se regenerava continuamente. Não podemos esquecer que Asclépio era também conhecido pelo apelido de deus-toupeira, por fazer com que seus sacerdotes-médicos “penetrassem” na escuridão do psiquismo dos doentes, usando a  oniromancia (interpretação dos sonhos), juntamente com a chamada nooterapia (cura pela mente) técnica que levava à metanoia, à transformação dos sentimentos. A toupeira, como se sabe, é um animal ctônico, adaptado para ver na escuridão. Vive no interior da terra, movimentando-se em pequenos túneis e galerias,verdadeiros labirintos. 

ILUMINURA  MEDIEVAL
Na tradição alquímica, por exemplo, o dragão é Saturno, o adversário da luz, do espírito, do ouro, enquanto representa o chumbo. Como princípio da contração, da condensação, da inércia, força que tende sempre a cristalizar, impedindo irradiações, Saturno prende sempre à forma, impedindo mudanças. O chumbo, seu metal, governa a base mais modesta, mais inferior, de onde se pode partir em busca de alguma evolução, sempre muito difícil. Saturno se liga à falta de luz, é denso, pesado, governa a lei da gravidade e tudo o que limita e cerceia.

MONSTRO MARINHO
Dragões golpeiam, serpentes enlaçam e engolem. São diferentes dos animais de chifre que penetram e perfuram. Enquanto os dragões se ligam mais às quatro direções do espaço e aos quatro elementos, a serpente, por sua forma, liga-se mais ao movimento circular, participando de uma reabsorção cíclica, de
URÓBORO
uma ideia de eterno retorno. É neste sentido que em alguma tradições a serpente recebe o nome de
uróboro (do grego, cauda e engolir). É neste sentido que a serpente rompe o movimento linear, lembrando uma criação contínua, um perpétuo retorno. Daí ideias de continuidade e de auto-fecundação, cujo melhor exemplo encontramos no círculo zodiacal. Além do mais é preciso observar, ainda simbolicamente, que serpentes atuam mais no mundo subterrâneo, na vida subconsciente; dragões agem mais na superfície, atacando o ego que se pretende consciente.

Etimologicamente, a palavra dragão (drakon, o macho, e drakaina, a fêmea, em grego, vem do verbo derkomai, que significa “olhar fixamente”, no sentido de um olhar devolvido, muito penetrante. Os judeus lhe deram o nome de tannin, grande serpente, palavra cuja origem está ligada ao chacal (tan), animal necrófago. 

ZEUS   E   TIFON     
O dragão, nos mitos, costuma ter a sua origem estabelecida em períodos em que a ordem cósmica ainda não se fixara, períodos nos quais ele assumia o comando das forças regressivas que se opunham às que procuravam atuar evolutivamente. Nesta perspectiva, o dragão é um agente do caos. Na antiga Grécia, as forças que se 
TIAMAT
opunham à ordem cósmica tinham um representante máximo, o monstro Tifon, filho de Geia e do Tártaro. Os caldeus viram estas forças simbolizadas por Tiamat, personificação feminina do mar. É contra estas primitivas forças cegas do caos que os deuses inteligentes e organizadores devem sempre entrar em luta.

Os dragões encarnam o mal que deuses, heróis ou mesmo os seres humanos têm que vencer quando tentam buscar um caminho evolutivo. Se o dragão aparece associado ao seco, à esterilidade, o tesouro por ele guardado será então a fertilidade, representada pelo úmido, por um princípio feminino, uma princesa, por exemplo. Se, por outro lado, pensamos no escuro da vida subconsciente e nos monstros que ali habitam, o herói que deverá enfrentá-los será um representante da razão (elemento ar). Uma ilustração do que aqui se diz está na derrota do dragão de natureza luciferiana. Quem o derrotou foi Miguel, arcanjo que revelou a Sara que ela seria mãe de Isaac e que anunciou a Abraão que  não sacrificasse o filho na akedá. Miguel (Mikael: mi, quem, ka, como, El, por Elohim), em hebraico, aquele que é como Deus. Miguel está sentado à direita do trono divino, aparecendo associado aos arcanjos Gabriel, Rafael e Uriel, mas sendo a eles superior. Seu grande inimigo é Samael, líder dos demônios, chefe das forças do Setra Achra, o reino do Mal.


HESPÉRIDES  ( EDWARD  CALVERT , 1799 - 1883 )

Entre os gregos, a constelação do dragão, Draco, uma das mais antigas do céu, aparece unida a dois mitos. No primeiro temos a história do dragão de cem olhos que juntamente com as Hespérides guardava os pomos de ouro no maravilhoso jardim que ficava no extremo-ocidente. Outra versão nos conta que Apolo, para tomar posse do oráculo de Delfos, matou a drakaina  Python, também chamada de Delfine, que Geia gerara e designara para vigiá-lo.  Os egípcios identificavam Draco pelo nome de Ammit, monstro formado por partes de crocodilo, hipopótamo e pantera, que atuava na sua psicostasia (pesagem das almas).

DRAGÃO
(G. DORÉ , 1832 - 1883)
Os dragões, segundo a sua morfologia, indicam também as áreas da vida humana em que atuam. Assim, dragões com bico e pés de águia apontam para desejos de elevação, para um potencial celeste. Com o corpo de serpente, apontam para o mundo subterrâneo, para  a vida subconsciente. Com asas de morcego, sugerem elevação pelo intelecto; com corpo e/ou cauda de leão, se vencidos, indicam a vitória da vida racional sobre o instinto. 

A constelação de Draco, entre os gregos, tinha em tempos pré-históricos uma configuração bem maior do que a que tem hoje. Ela incorporava as duas Ursas, a Maior e a Menor. Estende-se atualmente entre as latitudes 63º e 81º N. A principal estrela de Draco é Thuban (nome adotado pelos árabes para tradução do nome grego Draco), que no ano de 2.700 aC ocupava a posição de estrela polar, o que fazia do dragão o guardião do centro em torno do qual todo o universo girava. Como circumpolar, a constelação do Draco nunca se põe, o que significa dizer que ela nunca “dorme” (se põe), como os dragões.

DRACO
Thuban (estrela alfa Draconis na astrologia ocidental) sensibiliza hoje o signo de Virgem a quase 7º. Sua influência, segundo Ptolomeu, é da natureza de Marte e de Saturno. No geral, os efeitos de Draco são considerados através dessa estrela. Sua proposta: o tema do tesouro e de sua respectiva proteção e vigilância. Pode isto significar numa carta astral a necessidade de muito zelo e cuidado com relação a algo a que a pessoa esteja ligada, uma ideia, uma habilidade, uma forma de arte, uma atividade profissional, algo inventado por ela etc. A influência de Draco (Thuban) também diz respeito ao ato de dar ou de compartilhar “tesouros”, inclusive quanto às dificuldades que desse ato possam decorrer. Nesta última hipótese, podemos ter também, por Saturno, indícios de personalidade fechada, soturna, sombria, quando não esquizoide.  

Sob pressão do cristianismo, a Idade Média fez da serpente um símbolo do Mal, do psiquismo impuro, um animal duplamente amaldiçoado. Primeiro, pelo Criador como um ser da astúcia, da tentação, do pecado, em suma. Segundo, foi também amaldiçoada pela Virgem Maria por ter assustado o burrico que usava para transportar o menino Jesus, quando da fuga para o Egito. É por essa razão que muitos astrólogos cristãos medievais representaram o sexto signo zodiacal por uma Virgem com um pé sobre a cabeça de uma serpente ou pisando um crescente lunar. 

O  PECADO  ORIGINAL
( HUGO VAN DER GOES , (1440 - 1482)
A satanização da serpente vem de longe, passando do judaísmo para o cristianismo. No primeiro, Satã, nome que significa acusador no antigo hebraico, era o maior dos antigos anjos. Recusou-se a prestar homenagem a Adão, uma criatura feita a partir do pó, enquanto ele, ainda que em bem menor proporção, como Deus, fora feito de luz. Lúcifer, etimologicamente, o que transporta a luz, ficou com ciúmes do status de Adão e desejou Eva. Na forma de uma serpente, tentou e manteve relação sexual com Eva, tornando-se o pai de Caim. Ao exilar-se do céu, tomou o nome de Satã, e levou consigo uma hoste de anjos, por ele liderados, formando o reino do Mal, Sitra Achra, que governa com Lilith, sua esposa. Quando se relacionou sexualmente com Eva, injetou sua peçonha nela e em todos os seus descendentes. Essa peçonha, segundo o Talmud, foi removida do povo de Israel quando Moisés lhe entregou os ensinamentos da Torá.

Em muitas constelações, encontramos referências a dragões e serpentes, como Ophiucus, Serpens, Cetus, além de monstros semelhantes. Nos doze trabalhos de Hércules, uma ilustração mítica do zodíaco, temos vários monstros de natureza dracôntica como as Éguas antropófagas de Diomeses, o Leão de Nemeia, a Hydra de Lerna, Cérbero , o Gigante Gerião e outros. 


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A QUESTÃO HOMÉRICA E A ILÍADA (1)

                            
 
GRÉCIA    ANTIGA ( PERÍODO  HOMÉRICO )
     
Grande parte do que apresento neste artigo é um resumo das ideias que há muito, muito tempo, num projeto pessoal, venho reunindo sobre a mitologia grega, desde que,  a meu pedido, em 1.949, terminado o meu curso ginasial, ganhei de presente de minha mãe, nas festas de Natal, os dois poemas de Homero, na tradução de Carlos Alberto Nunes. Com o correr dos anos, vieram depois outras traduções, outras leituras, o estudos das línguas, as viagens, o interesse por outras tradições mitológicas (a hindu principalmente), as relações delas com a literatura, o teatro, as artes plásticas, o cinema e, sobretudo, a astrologia, eis que tudo, como venho aprendendo, se ilumina mutuamente. A cada dia uma relação nova, uma descoberta. A viagem continua...   


A primeira referência que temos sobre Homero está escondida na Teogonia, no verso 39. Neste verso, Hesíodo descreve o canto das musas. Para falar dele, cria um verbo, homereusai, homenageando o poeta. Esse verbo faz referência à harmonia que há no canto das musas, como ele soa agradavelmente. Outro que assinala a presença de Homero é o poeta Callinos de Éfeso, de meados do séc. VII aC. Por essa época, Tirteu de Esparta e Mimnemene de Collophon também se referem diretamente à Ilíada. Alceu de Lesbos, contemporâneo de Sapho (fim do séc. VII aC) retoma a cena entre Zeus e Tétis do começo da Ilíada para nos falar de Homero. Mais ou menos em 600 aC, Clístenes, tirano de Siracusa, proibiu nos agones poéticos da cidade menções a poemas homéricos, declarando-os muito favoráveis aos argivos (de Argos). Um pouco antes de 520 aC, Hiparco, filho mais velho de Psístrato, tirano de Atenas, introduziu a recitação dos poemas homéricos na grande festa das Panateneias. 

PÍNDARO
No V séc. aC, aparecem sobre Homero dados mais consistentes. Além de menções, temos já muitas transcrições sobre sua poesia, algumas discutindo seus conteúdos, estilo e linguagem. Píndaro (520-445 aC), o grande poeta lírico, fala dos homéridas como cantores de palavras, rapsodos,  isto é, de versos "costurados juntos". A palavra rapsodo já circulava bastante nos meios poéticos para designar o “costureiro de versos”. A palavra rapsodo é retirada do verbo grego rhapteinv (costurar). Já o aedo, (aoídos), cantor, era sinônimo do outro. Ambos cantavam os versos dos poemas épicos. 

HOMERO
Mas quem, na realidade, foi Homero? Um neto de Ulisses?  Um velho poeta cego e lúbrico? Um ser semi-divino? Uma mulher? Onde nasceu? Na Grécia, no Egito, na Anatólia, em Roma? Teria ele existido realmente? As hipóteses são muitas. Será que os poemas que temos como sendo de sua autoria não teriam sido produzidos coletivamente, por uma corporação de poetas?   

O que temos sobre a vida de Homero está reunido, de um modo geral, em muitos textos que podemos chamar de Vidas de Homero. Se vamos aos textos mais próximos, da época romana ou bizantina, por exemplo, percebe-se que todos eles fazem referência a textos bem mais antigos, do século VII aC. e de antes. 

Para compor os seus poemas, Homero, está hoje provado, valeu-se de um dialeto literário nunca falado na Grécia. Criou praticamente uma linguagem própria, única, na história da literatura, de grande riqueza vocabular, que sempre encantou e perturbou tanto os tradutores, os especialistas, como o leitor comum, seduzindo enfim, de um modo ou de outro,  todos aqueles que de seus poemas se aproximam.


A fim de encontrar o verdadeiro Homero, ainda na antiguidade, levantou-se a hipótese de que ele poderia ter se escondido em algum personagem de seus poemas, num aedo, o mais provável.  Adotada essa linha de busca, não será preciso fazer muito esforço para “descobri-lo” na Ilíada. Agamemnon, antes de se dirigir a Troia, como  comandante dos exércitos gregos, deixou um poeta de sua corte chamado Demódoco para proteger e ajudar sua esposa, a rainha Clitemnestra, no que ela precisasse. Sabe-se que embora o poeta a tivesse aconselhado ela não resistiu ao jogo sedutor de Egisto. Enquanto Agamemnon e Menelau, seu irmão, estavam em Troia, Egisto conseguiu conquistar Clitemnestra e, com ela, tramou um plano para assassinar o seu marido, o que de fato aconteceu. 

ODISSEIA
Na Odisseia, aparece também um poeta-cantor de mesmo nome, Demódoco, considerado um “aedo divino”. Como está no poema, os deuses fizeram dele um ser que a todos seduzia com o seu canto. Demódoco alegrou os feácios, que haviam acolhido Ulisses, na corte do seu rei Alcinoo. As musas privaram-no da visão, mas lhe haviam concedido o dom de cantar divinamente. O nome Demódoco vem de duas palavras gregas: demos (povo) e dekhesthai (o que ajuda ao cantar, o que torna as coisas melhores quando canta).

Buscando um pouco mais, é possível, seguindo a suposição acima levantada de que Homero teria se escondido em algum personagem), descobrir que,  na Odisseia, Ulisses, como rei de Ítaca, mantinha também um poeta-cantor, de nome Phemios, que aparece na Ilíada. O nome Phemios, etimologicamente, se liga a ideias de normalidade, de lei divina ou lei moral, costume, vontade dos deuses. Era Phemios um poeta lírico que alegrava os banquetes. Na Odisseia, sua audiência era formada, em grande parte, pelos pretendentes de Penélope, quase todos oriundos da aristocracia de Ítaca e de reinos próximos. 


PRETENDENTES   DE   PENÉLOPE
( JOHN  WILLIAM  WATERHOUSE  ,  1849 - 1917

No poema, quando Phemios distraía a sua plateia, Penélope o interrompeu, achando o seu canto muito triste. Telêmaco interveio, tomando a defesa do poeta, repreendendo a mãe, dizendo-lhe que os presentes não poderiam querer mal ao poeta-cantor, que a todos encantava com a sua arte, ainda que a história narrasse o triste destino dos heróis gregos.


ULISSES   ATACA   PRETENDENTES   DE   PENÉLOPE

Quando Ulisses e seu filho Telêmaco começaram a atacar os pretendentes de Penélope e os maus servidores de seu palácio, Phemios e o arauto Medon foram livrados da morte, pedindo Ulisses que o primeiro, Phemios, entoasse cantigas de noivado para dissimular os gritos dos que ele e o filho matavam. Medon, esclareça-se, era o arauto dos pretendentes de Penélope, que tentaram  armar uma cilada para matar Telêmaco. Quando do regresso do jovem à ilha, Medon revelou o plano deles a Penélope, fracassando eles assim no seu intento. 

Por causa do destaque bastante positivo recebido pelos poetas nos dois poemas, a Ilíada e a Odisseia, ainda no mundo arcaico foi montada uma versão segundo a qual  Homero seria filho de Telêmaco e de Policasta, filha do sábio Nestor, que tantos bons conselhos prodigalizou ao filho de Ulisses. É provavelmente como um desdobramento desta versão que sai a história que faz de Homero, além de aedo, um  professor. 

HESÍODO
Com base na “simpática” defesa que Homero fez dos poetas em suas obras, levantaram-se já na antiguidade outras hipóteses sobre a sua origem. O mais importante, porém, como se notou, é que Homero abriu um caminho para que os poetas falassem um pouco de si mesmos e dos acontecimentos do tempo em que viveram. Se em Homero ainda havia um certo pudor quanto a isto, de Hesíodo em diante, com ele, Safo, Píndaro e outros, as declarações pessoais tornaram-se bem mais abertas.
OS   TRABALHOS   E   OS   DIAS
Mencione-se, por exemplo, o caso de Hesíodo, tido às vezes como cronologicamente um pouco mais jovem que Homero. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, poema dedicado a seu irmão Perses, com quem teve problemas por causa da herança familiar, insta-o a observar as virtudes do trabalho, dá-lhe conselhos morais, recomendando que ele procure sempre trilhar o caminho do bem. 


HERÓDOTO
Em algumas versões, como a de Heródoto, conhecido como o Pai da História, encontramos relatos de que Homero e Hesíodo foram contemporâneos e até aparentados, tendo ambos participado, como poetas, de agones (competições) fúnebres realizados na Eubeia, em homenagem ao seu rei, morto numa batalha, por volta de 700 aC. O próprio Hesíodo, aliás, numa passagem de Os Trabalhos e os Dias, faz referência a uma viagem que fizera à Eubeia para participar dos referidos jogos. Adianta mais Hesíodo que venceu os agones com um hino que compusera em homenagem às Musas, que alguns acreditam fazer parte do proêmio da sua Teogonia. Um depoimento de Aristófanes, encontrado na sua comédia As Rãs, faz alusão ao fato de que as competições seriam muito comuns entres poetas famosos e que aquela na qual se envolveram Homero e Hesíodo seria uma dentre muitas realizadas.

No livro II da História de Heródoto, encontramos informações de que Homero e Hesíodo haviam vivido quatrocentos anos antes dele (Heródoto) e que foram os primeiros a descrever em versos a teogonia (a origem dos deuses), a registrar a aparência
SÍTIO   ARQUEOLÓGICO   DE   DODONA
dos deuses, seus sobrenomes, as funções que exerciam, os seus cultos. Informa-nos mais Heródoto nesse item que, na sua opinião, os dois poetas foram os primeiros a abordar a história dos deuses. Parte do que relatava no referido item ele colhera quando de seus contatos com as sacerdotisas de Dodona. Quanto ao que afirmava sobre os dois poetas, nada mais fazia do que emitir a sua opinião pessoal.


Em que pesem os registros acima feitos, sobre o embate poético entre Homero e Hesíodo, o que fica de mais aceitável dessas afirmações é que desde a antiguidade procuram os estudiosos da literatura grega  destacar, opondo-os, dois grandes exemplos pelos quais a tradição poética daqueles primeiros tempos procurou os seus caminhos. Uma oposição até violenta entre dois mundos. De um lado, os príncipes guerreiros, a Grécia colonialista, invasora,  e, de outro, o mundo arcaico, agrário, fixado nos valores da terra. De um lado, com Homero, a poesia épica e, de outro, com Hesíodo, a poesia didática, gnômica. 
Com a primeira, as aventuras, os valorosos reis, a vocação marítima, a colonização, de outro, os patriarcas, a economia da terra. Economia é palavra que vem do mundo de Hesíodo, de oikos, a família, a casa, as terras, os animais e os servos, e de nomos, a lei, a ordem, o respeito, a disciplina. É por essa razão que Hesíodo denuncia os governantes, notáveis, todos, no seu entender, “comedores de propina”, corruptos e prevaricadores.  Vivendo na Beócia, região agrícola, também de criadores de animais,  na Grécia central, Hesíodo, como os seus demais habitantes era um sólido e taciturno camponês. 


HORÁCIO
Os habitantes da Beócia tinham a fama de usar mais a força física do que a inteligência. Beócio, aos poucos, tornou-se sinônimo de ignorante, simplório, boçal, ingênuo e também de pessoa pouco cultivada, indiferente às letras. O poeta latino Horácio espalhou o sentido pejorativo da palavra. Do grego, ela passou para o latim (boeotius) e chegou ao português. Os franceses, por uma questão homofônica, associaram beócio a bosse (bócio) e, daí, a crétin (cretino). O cretinismo é uma patologia (rara), causada pela diminuição da atividade tireoidiana que, ao atingir certas pessoas, afeta o seu desenvolvimento físico e intelectual.     

Para participar da questão homérica não podemos ignorar a intervenção de um outro historiador, muito importante, mas pouco citado: Éforo (405-330 aC). Ele nasceu em Cime, cidade da Eólida, Ásia Menor, e escreveu uma extensa obra histórica. Num de seus livros, Epichorium Logos, declarou-se conterrâneo de Homero. Estrabão, que não gostava de Éforo, sempre reclamou por ele gostar de citar favoravelmente em seus escritos seus conterrâneos. Estrabão considerava-o, por isso, um simples logógrafo.   

Evidentemente, ninguém duvidava da existência de Homero na antiguidade grega. Suas obras faziam parte da Paideia, do sistema de educação e de formação dos estudantes gregos, do qual faziam parte a Gramática, a Retórica, a Ginástica, a Música, a Matemática, a Geografia, a História, inclusive a Natural, e a Filosofia. Esse sistema pedagógico começou a ser montado nos tempos homéricos, atingindo a sua plenitude no período clássico da história grega. Chegaram até nós, por exemplo, para confirmar a existência desse sistema muitas imagens (relevos) nos quais se vê um jovem, numa récita de poesia, acompanhado de um músico, uma das formas então utilizadas para a transmissão da cultura. 

BIBLIOTECA   DE   ALEXANDRIA
As primeiras questões levantadas com relação à existência de Homero apareceram de modo mais consistente nos círculos literários que se juntavam em torno da Biblioteca de Alexandria, por volta do século III aC. Criada durante o período helenístico da história grega, na zona portuária de Alexandria, no Egito, a Biblioteca tinha por objetivo reunir tudo o que se fazia culturalmente na época, além de patrocinar um decidido apoio para a difusão do saber clássico grego.  

Duas figuras, Zenão e Helânico, eruditos ligados à Biblioteca, começaram a pesquisar a biografia de Homero, a partir de sua obra, levantando tudo, dentro da obra do poeta ou não, como lendas ou tradições diversas, que lhes parecessem úteis para o fim pretendido. Nesse trabalho, foram reunidas inclusive muitas biografias “regionais” de Homero encontradas em muitas cidades ou lugares que disputavam a glória de ser a terra natal do poeta: Rodes, Cólofon, Salamina, Chios, Argos, Esmirna, Cime etc. Já ao tempo desses eruditos alexandrinos, por exemplo, uma tese apresentada com boa argumentação, defendia que os dois poemas haviam sido escritos por poetas diferentes e que entre ambos haveria uma distância de mais ou menos dois séculos, tendo sido a Ilíada composta antes. Os defensores desta tese foram chamados de “separatistas”.

 Nas cidades acima mencionadas, os que as visitavam em busca do “mistério” Homero, eram recebidos por membros de famílias que se autodenominavam homéridas, descendentes diretos do poeta, que monopolizavam, por direito de sucessão, segundo afirmavam, tanto a recitação de suas obras como o ensino da arte poética na forma por ele criada. As cidades que parecem reunir as melhores possibilidades de se apresentarem com a cidade natal do poeta são Chios e Esmirna. Na primeira destacava-se a ação dos homéridas
PÍNDARO
que sempre procuraram manter os poemas na sua tradição oral. Já Esmirna se destacou por ser um importante centro cultural e linguístico com condições de dar amplo suporte a uma formação tão rica como parece ter sido a de Homero.  Os defensores de Esmirna se valeram mais tarde, para defender melhor a sua posição, do fato de nela ter nascido também Píndaro, poeta que viveu em Atenas entre 518-442 aC. 

Como não poderia deixar de acontecer, versões evemeristas também foram coletadas. O evemerismo, sabe-se, é a transformação de um fato histórico, com os seus personagens, em mito. Algumas destas versões atribuíam a Homero uma natureza semi-divina, ora dando-o como filho de um deus e de uma mortal, ora dando-o como filho de uma deusa e de um mortal. Uma das versões mais “tentadoras” era aquela que o considerava como filho da mais importante das musas, Calíope (etimologicamente, a de bela voz), que tutelava a poesia, tanto a épica como a lírica. Calíope, no mito, é  mãe de Orfeu, de Iálemo, de Himeneu e de Lino. Consta que também gerou as Sereias, as “cruéis cantoras”, e que teria sido professora de canto de Aquiles. 


ULISSES  E  AS  SEREIAS , 1891 ( JOHN WILSON WATERHOUSE )

Dentre as muitas biografias de Homero, uma das mais citadas é a atribuída a um autor desconhecido, que recebeu o nome de Pseudo-Heródoto. Por ela e pelos textos que nela se mencionam, ficamos sabendo que Homero teria nascido 168 anos antes da guerra de Troia, o que permitiu fixar a data do seu nascimento em 1.102 aC. Embora considerada como pura ficção por muitos, um verdadeiro pasticcio, esta vida de Homero menciona alguns personagens importantes de Ítaca, como o poeta-cantor Phemios, Mentor e outros.

A grande notoriedade da biografia de Homero atribuída ao anônimo Pseudo-Heródoto se deve principalmente ao fato de nela se declarar que os fatos narrados sobre o poeta teriam sido compilados pelo historiador. Por contradições encontradas nos textos coletados, muitos historiadores desqualificam as afirmações nele contidas e declaram que o que conhecemos como obra desse Pseudo-Heródoto teria sido escrita entre os séculos III e IV dC, no período alexandrino, período em que havia um público para esse tipo de literatura.  

É nesses textos que encontramos referências sobre a viagem que Homero teria feito a Ítaca e que teria sido hóspede de Mentor, depois incluído como personagem na Odisseia. Registra-se também que, por informações desses textos, por essa época Homero já enfrentava problemas com os seus olhos. Ao deixar Ítaca, ao passar por Colophon, é que teria perdido totalmente a visão. Em Phocacea, depois de passar por Cime, foi acolhido por um pedagogo, Thestorides, em troca de recitais nos quais apresentou a Ilíada e a Odisseia. 

Os registros prosseguem e por eles ficamos sabendo que Thestorides foi para Chios e lá assumiu a autoria dos poemas homéricos. Tomando conhecimento desses fatos, Homero viajou para Chios e declarou  que o verdadeiro autor dos poemas era ele. Foi nessa ilha, continuando, que Homero teria composto a sua Batrachiomaquia (A Batalha entre as Rãs e Os Ratos), então considerado como um poema destinado às crianças. A seguir, nosso poeta teria viajado para Samos e dali, ao passar por Ios, falecera, a caminho de Atenas.

Lembre-se que na biografia do Pseudo-Heródoto estão os 17 epigramas atribuídos a Homero, também encontrados nos seus Hinos Homéricos
Para os mais interessados, registre-se que temos entre nós uma excelente edição bilíngue destes hinos, organizada por Wilson Alves Ribeiro Jr. (Fundação Editora da Unesp)



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

PEIXES (3)

                                   
ILUMINURA   MEDIEVAL
Entre os gregos, atuavam no reino de Poseidon,  a grande divindade tutelar do elemento líquido, reino do qual faziam parte os oceanos, os mares, os rios, os regatos, as fontes e os lagos, certas divindades de nível inferior, conhecidas genericamente como ninfas (etimologicamente, aquela que vem
POSEIDON
coberta com um véu). Eram classificadas segundo o lugar de sua residência. Quanto às ninfas do elemento líquido, temos: as potâmidas, por exemplo, viviam nos rios; as creneias viviam nas fontes; as pegeias, nas nascentes; as limneidas, nos lagos e lagoas; as oceânidas viviam no alto-mar; as nereidas, nos mares internos; as náiades, nos ribeiros e riachos. Embora ocupassem na hierarquia divina uma posição inferior, eram, em determinadas ocasiões, admitidas no Olimpo, sendo inclusive honradas pelos mortais em cultos religiosos.

PLUTARCO
Suas atribuições eram múltiplas: tinham o dom da profecia e atuavam em oráculos; curavam doentes e, sob outros nomes,  velavam sobre as flores, os prados e os rebanhos. Embora divinas, não eram imortais. Plutarco atribuía a essas ninfas uma idade máxima de 9.620 anos. Tinham contudo o privilégio de, durante toda a sua existência, se manter sempre belas, pois se alimentavam de ambrosia. Geralmente benevolentes, podiam se tornar perigosas para os mortais que, por elas favorecidos, não as honrassem devidamente. Muito semelhantes às russalkas eslavas na sua ação, arrastavam os ingratos para o fundo das águas, matando-os. Um exemplo: o do desventurado Hermafrodito, vítima da ninfa creneia Sálmacis. Outro, o do jovem Hylas, companheiro de Hércules.

RUSSALKAS ( IVAN NIKOLAEVICH KRAMSKOI , 1837 - 1887 )

Dentre as ninfas mais importantes da mitologia grega não podemos deixar de reter os nomes de Aganipe, ninfa creneia do Helicon, muito procurada por poetas; Cassotis e Castália, também creneias, viviam nas fontes  do Parnaso. Muito conhecida era Ciane, ninfa da Sicília (Siracusa), que se opôs ao rapto de Kore pelos deus
CALIPSO, 1869 ( ENRI  LEHMANN)
Hades. Uma das mais importantes ninfas era, sem dúvida, Calipso, que reinava sobre a ilha de Ortígia; ela acolheu Ulisses, atirado à praia depois de um vendaval; ela o protegeu por sete anos, oferecendo-lhe inclusive a imortalidade, se o herói ficasse ao seu lado. Não o conseguiu, pois teve de se curvar à ordem de Zeus, no sentido de liberá-lo, para que seu destino se cumprisse. O nome Calipso vem do verbo grego esconder (kalyptein), sendo a ninfa a personificação de todas as águas profundas que não as oceânicas.

De um modo geral, as ninfas, como divindades ligadas ao mundo natural, atuavam sobretudo através da umidade, aparecendo em bosques, vales férteis, florestas e grutas, sempre belas, nuas ou semi-vestidas. Seu poder era fertilizante e nutritivo e estendia salém do mundo natural. Os seres humanos podiam também se beneficiar de sua terna solicitude. Elas protegiam os amantes que mergulhavam em certas nascentes e fontes para obter a indispensável purificação quanto a uma saudável fecundidade. 


NEREIDAS , (1886, JOAQUIM  SOROLLA  BASTIDA )

Com relação às vastas extensões líquidas, oceanos e mares, obrigatória a menção das nereidas, filhas do velho Nereu e de Doris (oceânida), personificação das ondas infinitas de todos os mares. De linda cabeleira dourada, viviam as nereidas nas profundezas, sentadas em trono de ouro, a tecer, fiar e cantar, sempre sedutoras.  Têm relação com a arte. Camões as convocou para atuar no seu poema épico Os Lusíadas, no rio Tejo.

Filho de Urano e de Geia, o deus Oceano, antecessor de Poseidon, era a imagem da indistinção primordial. Unido à sua irmã Tétis, símbolo da fecundidade das águas oceânicas, gerou as oceânidas, ninfas às vezes confundidas com as náiades, responsáveis por numerosa prole. 

Encontradas em outras mitologias, estas dividades guardam entre si uma grande semelhança muito grande.  Uma notável aproximação poderá ser feita, por exemplo,  entre as sereias e as ondinas, da mitologia germânica, das quais a mais conhecida é Lorelei.
LORELEI, EM  ASSMANNSHAUSEN, ALEMANHA
Lorelei, lembre-se, é, na origem, o nome de uma falésia situada às margens do rio Reno, na Alemanha. Temida pelos marinheiros, era dessa falésia que a ondina atraía com seu canto os marinheiros, fazendo com que seus barcos se espatifassem contra os rochedos. Popularizada, esta história está na literatura (Brentano e Heine) e na música (F.Silcher). As ondinas são ninfas que gostam de atuar em águas perigosas, brumosas, oferecendo-se para ajudar os marinheiros. Ao invés de ajudá-los, porém, causam a sua perdição, levando-os à morte muitas vezes.

Na mitologia indiana, podemos aproximar das sereias as apsaras, as celebradas ninfas do céu do deus Indra. O nome apsara significa aquela que se move nas águas como uma dançarina. São conhecidas também como sumad atmajas, filhas do prazer.
APSARA
Descendo à Terra, as
apsaras procuram as águas para viver, de modo especial lagos e lagoas onde viceja o lótus. Pelo seu grande poder de sedução, elas tentam sempre desviar a atenção dos ascetas dos seus exercícios espirituais. A mais bela história de amor da literatura indiana, o poema Kalidasa (500 aC.), de autoria de Vikramorvasi, tem por tema os amores da apsara Urvashi pelo rei Pururavas.
ULISSES  E  AS  SEREIAS
Numa leitura mais atenta da Odisseia, podemos perceber que as sereias (muito famosas por causa desse texto) propunham não só alegria como a possibilidade de aquisição de um maior conhecimento. Estas eram as iscas oferecidas aos incautos marinheiros, propostas que justificavam uma das etimologias admitidas para o nome, parecida com a anteriormente citada. Seirá, nome grego de onde viria sereia, quer dizer liame, laço, nó, cadeia, tudo com o sentido de enredar, de prender, algo profundamente pisciano, como se pode depreender sob o ponto de vista astrológico. Lembremos que a sedução pelo saber é uma característica exclusiva da sereia grega.

Assegurando que tudo sabiam, as sereias de Homero não são desmentidas pela ação de Circe, que alerta Ulisses contra o seu poder de destruição, mas ela não as acusa de enganar. O que parece claro é que elas jamais revelam o saber de que dispõe; seu canto o anuncia, mas esse saber nunca chega a ser enunciado. O canto da sereia, para os gregos, não era falso; trazia mais uma ideia de ilimitado, sempre algo muito perigoso, destruidor, agindo elas como uma espécie de antimusas. Ela, a sereia, prometia conduzir o navegante a um espaço onde o canto e o saber estavam.

PLATÃO
No décimo livro de A República, obra em que Platão desenha a concepção socrática de uma sociedade ideal, aparecem as sereias girando nos círculos exteriores do fuso da Necessidade (necessário: o que não pode não ser), cantando em uníssono uma melodia perfeita. Observe-se que Sócrates reitera nesse último livro o propósito de excluir os poetas da República já que não têm eles outro talento que o de imitar, mediante certa coloração de palavras e expressões figuradas. São, por isso, supérfluos. A República, como sabemos, procura de certo modo reproduzir a ordem cósmica, em cuja alegoria as sereias ganham posição junto às Moiras. Ali, entoando hinos, ficariam elas, junto dos fusos, com o propósito de seduzir as almas que ali comparecessem.

HANS  C.  ANDERSEN
Sabemos que os desenhos animados produzidos pelos estúdios de Walt Disney divulgaram a imagem das sereias tomando como ponto de partida o conto de Andersen. Neste, a sereia já não apresentava perigo. Devido à sua desmedida paixão por um príncipe, que ela não conseguia cativar, e à sua aspiração por uma alma imortal, por sua bondade também, a sereia deixa de ser uma filha do mar e, depois de virar espuma, eleva-se à condição de filha do ar, com a possibilidade de adquirir a imortalidade com que tanto sonhara. Nesta proposta não há morte ou sedução, nenhum perigo havendo no diálogo entre vida terrestre e marinha. Isto acontece também em outros filmes americanos em que as sereias passeiam pela tela de maneira explícita ou metafórica. Migrando da tela para o supermercado, as sereias hoje podem ser encontradas nas secções de brinquedos. A banalização que os meios de comunicação impuseram ao mito, o cinema americano e os desenhos animados sobretudo, trouxe a anulação do poder das sereias, poder que ficou  neutralizado, anestesiado. Em outras palavras: não há perigo nenhum na convivência entre o mundo terrestre e o mundo oceânico.

JAN   SVANKMAJER

Por oportuno, entendo, quanto ao parágrafo acima, transcrever o que Jan Svankmajer, o grande mestre surrealista tcheco do desenho e da animação, falou sobre o artista americano: Disney está entre os maiores fabricantes de "arte para crianças". Eu sempre sustentei que nenhuma arte especial para crianças simplesmente existe, e o que passa por ela incorpora a bétula (disciplina) ou o lucro (lucro). "Arte para crianças" é perigoso na medida em que compartilha da domesticação da alma da criança ou da educação dos consumidores da cultura de massa. Receio que uma criança criada com produtos atuais da Disney ache difícil se acostumar com tipos mais sofisticados de arte, e assumirá seu lugar nas fileiras dos telespectadores de séries de TV idiotas. 


A  PEQUENA  SEREIA,  EM FILME DE  WALT  DISNEY,1989

Com a vitória do cristianismo, como se sabe, todos os deuses, heróis, monstros e seres teriomórficos da mitologia grega foram satanizados indiscriminadamente. A patrística afirmava que todos esses demônios do paganismo (mundo greco-romano) se alimentavam das canções dos poetas, fazendo coro a Sócrates. Os banquetes com música e canto eram condenados, comparando-se os seus participantes a marinheiros que se atiravam contra rochedos ao ouvir as sereias. A sereia, entretanto, sobreviveu à sanha perseguidora dos primeiros padres da igreja. Continuaram a simbolizar a sedução, mais literariamente talvez do que de fato, porém. Entraram também nos bestiários e através da arquitetura foram parar nos capitéis medievais, pisos, colunas, frontões e fachadas, fazendo parte, sem muita ênfase, da galeria das tentações demoníacas.

Onde a sereia conseguiu se refugiar melhor foi no conto de fadas. No referido conto de Andersen, A Pequena Sereia, há uma barganha diabólica: a heroína perde a sua língua para sempre em
CLAUDE  DEBUSSY
troca da forma humana e da vida sobre terra. Andersen, como se sabe, escreveu esse conto entre 1.836 /7, com base em vários contos orais e escritos, tanto da tradição ocidental como oriental, contos em que a sereia poderia viver na terra como mulher e ter um mortal como companheiro se observasse determinadas condições. Esse mesmo tema inspirou em parte o drama poético Pelléas et Mélisande, de Maurice de Maeterlinck, para o qual Claude Debussy compôs uma música (ópera).


PÉLLEAS  ET  MÉLISANDE , OPÉRA   NATIONALE  DE  PARIS , 2015

SEREIA  EM  COPENHAGUE
O conto de Andersen, bastante mórbido, aliás, consagrou o tema. A cidade de Copenhague, ostenta , como monumento nacional, uma estátua de bronze da pequena sereia perto do mar. Ao narrar o conto para crianças, Andersen alterou o seu caráter original, acentuando a pregação moral sobre o dever e o amor, sobre o auto-sacrifício e sobre a expiação femininos. Isto pode ser notado por um pequeno trecho do conto, que transcrevo, o da resposta da bruxa quando a pequena sereia lhe pede ajuda: mas terá que me dar algo em troca! E o preço não é baixo. Sua voz é a mais bela de todas no fundo do mar e se você acha que vai encantar o príncipe com ela engana-se,  pois sua voz é tudo o que você tem para me dar. Venha, estique a sua pequena língua para que, cortando-a, eu receba meu pagamento; então terá a minha poderosa poção!

A sereia mutilada do conto de Andersen tornou-se logo um personagem amado, aprovado. A sua transformação em ser humano foi muito dolorosa: a sua cauda se encolheu e dividiu, ganhou lindas pernas, que, ao andar, lhe causam muita dor; seus pés sangram sempre. Ela, contudo, não reclamou. Ao final, recuperará a sua forma original, recusando-se a atacar o príncipe, origem do seu mal. Com o coração partido, atirou-se ao mar, na “mortalmente fria espuma do mar”, dissolvendo-se no vento. A mensagem do conto é a de que para sermos salvos precisamos não só cortar a língua, mas, inclusive, chegar à auto-anulação, à dissolução. 

A sereia no mito grego, como se pode perceber, é um símbolo da sedução, ou seja, de Afrodite enquanto esta deusa é dona da enkrateia, um poder que vence resistências. O mundo machista não aceita este poder, a sua sedução é sempre condenada. Há deusas gregas que se opõem abertamente a este poder de Afrodite, Deméter e principalmente Palas Atena, por exemplo. Em Atenas,  polis tutelada por esta última, Afrodite era conhecida como a “estrangeira” ou a “prostituta”. Homero fala que a canção da sereia é “líquida” e que quem a ouve estará perdido.

A psicanálise freudiana, como se sabe, aproxima o sexual do digestivo, o que nos permite entender, usando o universo pisciano para tal, que a descida ao ventre incubador pode se fazer indiferentemente (nos contos folclóricos, lendas etc.) pela boca ou pela vagina, ocasião em que ela, a descida, tanto numa como noutra hipótese, pode se transformar em prazer. É de se lembrar que o ato sexual é representado pelo beijo, relação que nos remete ao símbolo do signo, em que temos dois peixes unidos pela boca por uma espécie de cordão umbilical. Antigas tradições, por essa razão, sempre associaram o signo de Peixes ao beijo.


DANTE  ALIGHIERI
( DOMENICO DE MICHELINO, 1417 - 1491 )
A boca fechada forma uma linha; aberta, forma um círculo, o lugar, segundo o poeta italiano Dante Alighieri (séc.XIII), onde o amor, que começa nos olhos, acaba. Sob o ponto de vista simbólico, a boca é muito mais que o órgão que nos permite comer, por onde passa o sopro vital ou que nos permite falar. Ela tem relação, como se sabe, astrologicamente, com a nossa segurança. Inseguros, precisamos agarrar, levar algo à boca. Daí, a grande imagem do seio materno ou a relação que podemos estabelecer entre a boca e a vulva, equivalentes metaforicamente, pois ambas têm lábios. A primeira coisa que sentimos na vida nos chega através do paladar, o leite materno, acompanhado geralmente de amor, afeição, carinho, sensação de segurança, calor, bem-estar. Essas associações são poderosas e não desaparecem facilmente.

A fome sexual e a fome física sempre andaram juntas. Não é por acaso que usamos tantas palavras ligadas ao paladar no jogo amoroso. Pessoas são deliciosas, gostosas, apetitosas. Fazer sexo e comer são equivalentes. De alguém delicado, cordato, falamos que é um doce. As francesas usam mon petit chou (meu repolhinho) quando se referem carinhosamente ao namorado.  Os ingleses usam
CRUMPET
a palavra crumpet (uma espécie de bolo, leve, macio, semelhante a um muffin, tostado levemente e lubrificado com muita manteiga) para falar de uma mulher muito atraente. Os alimentos têm uma íntima e impressionante ligação com o mundo de Vênus. Há vegetais que lembram o órgão fálico (mandrágora, alho-porro, cenouras, bananas, pepinos, espigas de milho); outros lembram o órgão genital feminino (figos, ostras); os pêssegos lembram traseiros calipígios; a cantárida recheava os bombons do marquês de Sade etc...

Quando falamos com uma pessoa pelo telefone celular ou pela Internet, só usamos o mental (Mercúrio e Urano), jamais Vênus ou Netuno, mesmo que quanto a este último modo de comunicação usemos o Skype. A comunicação mercuriana sem o componente venusiano é incorpórea, não há toque, é algo assim como se falássemos ao vento. Quando falamos pessoalmente, com presença física, olho no olho, podemos não só tocar a pessoa como, sobretudo, penetrar temporariamente nos seus sentimentos. Por isso, muito importante que nos encontros pessoais entre a comida e a boca, um ato simbólico que nutre tanto o corpo quanto a alma.

Comer, sugar, sorver, chupar, lamber são verbos válidos tanto no amor como na alimentação. Marcas roxas e sinais de mordidas, produzidos por chupões e dentadas podem ser sinais de amor... Entrando a boca, há sempre uma ideia de integração, de fusão, de descida ao interior, de incorporação, algo voraginoso que lembra transformação, apagamento de limites e fronteiras. Entrando Netuno, a fusão é máxima. O princípio que explica os alimentos enteógenos: “transformamo-nos no que comemos”, pode ser procurado também no amor. A exaltação de Vênus em Peixes, permite entender porque em tantas tradições os deuses dos alimentos governavam os corações e as vidas de muitas pessoas.