Mostrando postagens com marcador DEBUSSY. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador DEBUSSY. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

PEIXES (3)

                                   
ILUMINURA   MEDIEVAL
Entre os gregos, atuavam no reino de Poseidon,  a grande divindade tutelar do elemento líquido, reino do qual faziam parte os oceanos, os mares, os rios, os regatos, as fontes e os lagos, certas divindades de nível inferior, conhecidas genericamente como ninfas (etimologicamente, aquela que vem
POSEIDON
coberta com um véu). Eram classificadas segundo o lugar de sua residência. Quanto às ninfas do elemento líquido, temos: as potâmidas, por exemplo, viviam nos rios; as creneias viviam nas fontes; as pegeias, nas nascentes; as limneidas, nos lagos e lagoas; as oceânidas viviam no alto-mar; as nereidas, nos mares internos; as náiades, nos ribeiros e riachos. Embora ocupassem na hierarquia divina uma posição inferior, eram, em determinadas ocasiões, admitidas no Olimpo, sendo inclusive honradas pelos mortais em cultos religiosos.

PLUTARCO
Suas atribuições eram múltiplas: tinham o dom da profecia e atuavam em oráculos; curavam doentes e, sob outros nomes,  velavam sobre as flores, os prados e os rebanhos. Embora divinas, não eram imortais. Plutarco atribuía a essas ninfas uma uma idade máxima de 9.620 anos. Tinham contudo o privilégio de, durante toda a sua existência, se manter sempre belas, pois se alimentavam de ambrosia. Geralmente benevolentes, podiam se tornar perigosas para os mortais que, por elas favorecidos, não as honravam devidamente. Muito semelhantes às russalkas eslavas na sua ação, arrastavam os ingratos para o fundo das águas, matando-os. Um exemplo: o do desventurado Hermafrodito, vítima da ninfa creneia Sálmacis. Outro, o do jovem Hylas, companheiro de Hércules.


RUSSALKAS ( IVAN NIKOLAEVICH KRAMSKOI , 1837 - 1887 )

Dentre as ninfas mais importantes da mitologia grega não podemos deixar de reter os nomes de Aganipe, ninfa creneia do Helicon, muito procurada por poetas; Cassotis e Castália, também creneias, viviam nas fontes  do Parnaso. Muito conhecida era Ciane, ninfa da Sicília (Siracusa), que se opôs ao rapto de Kore pelos deus
CALIPSO, 1869 ( ENRI  LEHMANN)
Hades. Uma das mais importantes ninfas era, sem dúvida, Calipso, que reinava sobre a ilha de Ortígia; ela acolheu Ulisses, atirado à praia depois de um vendaval; ela o protegeu por sete anos, oferecendo-lhe inclusive a imortalidade, se o herói ficasse ao seu lado. Não o conseguiu, pois teve de se curvar à ordem de Zeus, no sentido de liberá-lo, para que seu destino se cumprisse. O nome Calipso vem do verbo grego esconder (kalyptein), sendo a ninfa a personificação de todas as águas profundas que não as oceânicas.

De um modo geral, as ninfas, como divindades ligadas ao mundo natural, atuavam sobretudo através da umidade, aparecendo em bosques, vales férteis, florestas e grutas, sempre belas, nuas ou semi-vestidas. Seu poder era fertilizante e nutritivo e estendia salém do mundo natural. Os seres humanos podiam também se beneficiar de sua terna solicitude. Elas protegiam os amantes que mergulhavam em certas nascentes e fontes para obter a indispensável purificação quanto a uma saudável fecundidade. 


NEREIDAS , 1886  ( JOAQUIM  SOROLLA  BASTIDA )

Com relação às vastas extensões líquidas, oceanos e mares, obrigatória a menção das nereidas, filhas do velho Nereu e de Doris (oceânida), personificação das ondas infinitas de todos os mares. De linda cabeleira dourada, viviam as nereidas nas profundezas, sentadas em trono de ouro, a tecer, fiar e cantar, sempre sedutoras.  Têm relação com a arte. Camões as convocou para atuar no seu poema épico Os Lusíadas, no rio Tejo.

Filho de Urano e de Geia, o deus Oceano, antecessor de Poseidon, era a imagem da indistinção primordial. Unido à sua irmã Tétis, símbolo da fecundidade das águas oceânicas, gerou as oceânidas, ninfas às vezes confundidas com as náiades, responsáveis por numerosa prole. 

Encontradas em outras mitologias, estas dividades guardam entre si uma grande semelhança muito grande.  Uma notável aproximação poderá ser feita, por exemplo,  entre as sereias e as ondinas, da mitologia germânica, das quais a mais conhecida é Lorelei.

LORELEI  ,  EM  ASSMANNSHAUSEN  ,  ALEMANHA
Lorelei, lembre-se, é, na origem, o nome de uma falésia situada às margens do rio Reno, na Alemanha. Temida pelos marinheiros, era dessa falésia que a ondina atraía com seu canto os marinheiros, fazendo com que seus barcos se espatifassem contra os rochedos. Popularizada, esta história está na literatura (Brentano e Heine) e na música (F.Silcher). As ondinas são ninfas que gostam de atuar em éguas perigosas, brumosas,  oferecendo-se para ajudar os marinheiros. Ao invés de ajudá-los, porém, causam a sua perdição, levando-os à morte muitas vezes.


Na mitologia indiana, podemos aproximar das sereias as apsaras, as celebradas ninfas do céu do deus Indra. O nome apsara significa aquela que se move nas águas como uma dançarina. São conhecidas também como sumad atmajas, filhas do prazer.
APSARA
Descendo à Terra, as
apsaras procuram as águas para viver, de modo especial lagos e lagoas onde viceja o lótus. Pelo seu grande poder de sedução, elas tentam sempre desviar a atenção dos ascetas dos seus exercícios espirituais. A mais bela história de amor da literatura indiana, o poema Kalidasa (500 aC.), de autoria de Vikramorvasi, tem por tema os amores da apsara Urvashi pelo rei Pururavas.

ULISSES  E  AS  SEREIAS
Numa leitura mais atenta da Odisseia, podemos perceber que as sereias (muito famosas por causa desse texto) propunham não só alegria como a possibilidade de aquisição de um maior conhecimento. Estas eram as iscas oferecidas aos incautos marinheiros, propostas que justificavam uma das etimologias admitidas para o nome, parecida com a anteriormente citada. Seirá, nome grego de onde viria sereia, quer dizer liame, laço, nó, cadeia, tudo com o sentido de enredar, de prender, algo profundamente pisciano, como se pode depreender sob o ponto de vista astrológico. Lembremos que a sedução pelo saber é uma característica exclusiva da sereia grega.

Assegurando que tudo sabiam, as sereias de Homero não são desmentidas pela ação de Circe, que alerta Ulisses contra o seu poder de destruição, mas ela não as acusa de enganar. O que parece claro é que elas jamais revelam o saber de que dispõe; seu canto o anuncia, mas esse saber nunca chega a ser enunciado. O canto da sereia, para os gregos, não era falso; trazia mais uma ideia de ilimitado, sempre algo muito perigoso, destruidor, agindo elas como uma espécie de antimusas. Ela, a sereia, prometia conduzir o navegante a um espaço onde o canto e o saber estavam.


PLATÃO
No décimo livro de A República, obra em que Platão desenha a concepção socrática de uma sociedade ideal, aparecem as sereias girando nos círculos exteriores do fuso da Necessidade (necessário: o que não pode não ser), cantando em uníssono uma melodia perfeita. Observe-se que Sócrates reitera nesse último livro o propósito de excluir os poetas da República já que não têm eles outro talento que o de imitar, mediante certa coloração de palavras e expressões figuradas. São, por isso, supérfluos. A República, como sabemos, procura de certo modo reproduzir a ordem cósmica, em cuja alegoria as sereias ganham posição junto às Moiras. Ali, entoando hinos, ficariam elas, junto dos fusos, com o propósito de seduzir as almas que ali comparecessem.

HANS  C.  ANDERSEN
Sabemos que os desenhos animados produzidos pelos estúdios de Walt Disney divulgaram a imagem das sereias tomando como ponto de partida o conto de Andersen. Neste, a sereia já não apresentava perigo. Devido à sua desmedida paixão por um príncipe, que ela não conseguia cativar, e à sua aspiração por uma alma imortal, por sua bondade também, a sereia deixa de ser uma filha do mar e, depois de virar espuma, eleva-se à condição de filha do ar, com a possibilidade de adquirir a imortalidade com que tanto sonhara. Nesta proposta não há morte ou sedução, nenhum perigo havendo no diálogo entre vida terrestre e marinha. Isto acontece também em outros filmes americanos em que as sereias passeiam pela tela de maneira explícita ou metafórica. Migrando da tela para o supermercado, as sereias hoje podem ser encontradas nas secções de brinquedos. A banalização que os meios de comunicação impuseram ao mito, o cinema americano e os desenhos animados sobretudo, trouxe a anulação do poder das sereias, poder que ficou  neutralizado, anestesiado. Em outras palavras: não há perigo nenhum na convivência entre o mundo terrestre e o mundo oceânico.



JAN   SVANKMAJER

Por oportuno, entendo, quanto ao parágrafo acima, transcrever o que Jan Svankmajer, o grande mestre surrealista tcheco do desenho e da animação, falou sobre o artista americano: Disney está entre os maiores fabricantes de "arte para crianças". Eu sempre sustentei que nenhuma arte especial para crianças simplesmente existe, e o que passa por ela incorpora a bétula (disciplina) ou o lucro (lucro). "Arte para crianças" é perigoso na medida em que compartilha da domesticação da alma da criança ou da educação dos consumidores da cultura de massa. Receio que uma criança criada com produtos atuais da Disney ache difícil se acostumar com tipos mais sofisticados de arte, e assumirá seu lugar nas fileiras dos telespectadores de séries de TV idiotas. 


A   PEQUENA   SEREIA  ,  EM   FILME  DE   WALT   DISNEY  ,  1989

Com a vitória do cristianismo, como se sabe, todos os deuses, heróis, monstros e seres teriomórficos da mitologia grega foram satanizados indiscriminadamente. A patrística afirmava que todos esses demônios do paganismo (mundo greco-romano) se alimentavam das canções dos poetas, fazendo coro a Sócrates. Os banquetes com música e canto eram condenados, comparando-se os seus participantes a marinheiros que se atiravam contra rochedos ao ouvir as sereias. A sereia, entretanto, sobreviveu à sanha perseguidora dos primeiros padres da igreja. Continuaram a simbolizar a sedução, mais literariamente talvez do que de fato, porém. Entraram também nos bestiários e através da arquitetura foram parar nos capitéis medievais, pisos, colunas, frontões e fachadas, fazendo parte, sem muita ênfase, da galeria das tentações demoníacas.


Onde a sereia conseguiu se refugiar melhor foi no conto de fadas. No referido conto de Andersen, A Pequena Sereia, há uma barganha diabólica: a heroína perde a sua língua para sempre em
CLAUDE  DEBUSSY
troca da forma humana e da vida sobre terra. Andersen, como se sabe, escreveu esse conto entre 1.836/7, com base em vários contos orais e escritos, tanto da tradição ocidental como oriental, contos em que a sereia poderia viver na terra como mulher e ter um mortal como companheiro se observasse determinadas condições. Esse mesmo tema inspirou em parte o drama poético Pelléas et Mélisande, de Maurice de Maeterlinck, para o qual Claude Debussy compôs uma música (ópera).




PÉLLEAS  ET  MÉLISANDE , OPÉRA   NATIONALE  DE  PARIS , 2015

SEREIA  EM  COPENHAGUE
O conto de Andersen, bastante mórbido, aliás, consagrou o tema. A cidade de Copenhague, em 1913, ostenta hoje, como monumento nacional, uma estátua de bronze da pequena sereia perto do mar. Ao narrar o conto para crianças, Andersen alterou o seu caráter original, acentuando a pregação moral sobre o dever e o amor, sobre o auto-sacrifício e sobre a expiação femininos. Isto pode ser notado por um pequeno trecho do conto, que transcrevo, o da resposta da bruxa quando a pequena sereia lhe pede ajuda: mas terá que me dar algo em troca! E o preço não é baixo. Sua voz é a mais bela de todas no fundo do mar e se você acha que vai encantar o príncipe com ela engana-se,  pois sua voz é tudo o que você tem para me dar. Venha, estique a sua pequena língua para que, cortando-a, eu receba meu pagamento; então terá a minha poderosa poção!

A sereia mutilada do conto de Andersen tornou-se logo um personagem amado, aprovado. A sua transformação em ser humano foi entretanto muito dolorosa: a sua cauda se encolheu e dividiu, ganhou lindas pernas, que, ao andar, lhe causaram muita dor; seus pés sangrando sempre. Ela, contudo, não reclamou. Ao final, recuperará a sua forma original, recusando-se a atacar o príncipe, origem do seu mal. Com o coração partido, atirou-se ao mar, na “mortalmente fria espuma do mar”, dissolvendo-se no vento. A mensagem do conto é a de que para sermos salvos precisamos não só cortar a língua, mas, inclusive, chegar à auto-anulação, à dissolução. 

A sereia no mito grego, como se pode perceber, é um símbolo da sedução, ou seja, de Afrodite enquanto esta deusa é dona da enkrateia, um poder que vence resistências. O mundo machista não aceita este poder, a sua sedução é sempre condenada. Há deusas gregas que se opõe abertamente a este poder de Afrodite, Deméter e principalmente Palas Atena, por exemplo. Em Atenas,  polis tutelada por esta última, Afrodite era conhecida como a “estrangeira” ou a “prostituta”. Homero fala que a canção da sereia é “líquida” e que quem a ouve estará perdido.

A psicanálise freudiana, como se sabe, aproxima o sexual do digestivo, o que nos permite entender, usando o universo pisciano para tal, que a descida ao ventre incubador pode se fazer indiferentemente (nos contos folclóricos, lendas etc.) pela boca ou pela vagina, ocasião em que ela, a descida, tanto numa como noutra hipótese, pode se transformar em prazer. É de se lembrar que o ato sexual é representado pelo beijo, relação que nos remete ao símbolo do signo, em que temos dois peixes unidos pela boca por uma espécie de cordão umbilical. Antigas tradições, por essa razão, sempre associaram o signo de Peixes ao beijo.


DANTE  ALIGHIERI
( DOMENICO DE MICHELINO, 1417 - 1491 )
A boca fechada forma uma linha; aberta, forma um círculo, o lugar, segundo o poeta italiano Dante Alighieri (séc.XIII), onde o amor, que começa nos olhos, acaba. Sob o ponto de vista simbólico, a boca é muito mais que o órgão que nos permite comer, por onde passa o sopro vital ou que nos permite falar. Ela tem relação, como se sabe, astrologicamente, com a nossa segurança. Inseguros, precisamos agarrar, levar algo à boca. Daí, a grande imagem do seio materno ou a relação que podemos estabelecer entre a boca e a vulva, equivalentes metaforicamente, pois ambas têm lábios. A primeira coisa que sentimos na vida nos chega através do paladar, o leite materno, acompanhado geralmente de amor, afeição, carinho, sensação de segurança, calor, bem-estar. Essas associações são poderosas e não desaparecem facilmente.

A fome sexual e a fome física sempre andaram juntas. Não é por acaso que usamos tantas palavras ligadas ao paladar no jogo amoroso. Pessoas são deliciosas, gostosas, apetitosas. Fazer sexo e comer são equivalentes. De alguém delicado, cordato, falamos que é um doce. As francesas usam mon petit chou (meu repolhinho) quando se referem carinhosamente ao namorado.  Os ingleses usam
CRUMPET
a palavra crumpet (uma espécie de bolo, leve, macio, semelhante a um muffin, tostado levemente e lubrificado com muita manteiga) para falar de uma mulher muito atraente. Os alimentos têm uma íntima e impressionante ligação com o mundo de Vênus. Há vegetais que lembram o órgão fálico (mandrágora, alho-porro, cenouras, bananas, pepinos, espigas de milho); outros lembram o órgão genital feminino (figos, ostras); os pêssegos lembram traseiros calipígios; a cantárida recheava os bombons do marquês de Sade etc...

Quando falamos com uma pessoa pelo telefone celular ou pela Internet, só usamos o mental (Mercúrio e Urano), jamais Vênus ou Netuno, mesmo que quanto a este último modo de comunicação usemos o Skype. A comunicação mercuriana sem o componente venusiano é incorpórea, não há toque, é algo assim como se falássemos ao vento. Quando falamos pessoalmente, com presença física, olho no olho, podemos não só tocar a pessoa como, sobretudo, penetrar temporariamente nos seus sentimentos. Por isso, muito importante que nos encontros pessoais entre a comida e a boca, um ato simbólico que nutre tanto o corpo quanto a alma.

Comer, sugar, sorver, chupar, lamber são verbos válidos tanto no amor como na alimentação. Marcas roxas e sinais de mordidas, produzidos por chupões e dentadas podem ser sinais de amor... Entrando a boca, há sempre uma ideia de integração, de fusão, de descida ao interior, de incorporação, algo voraginoso que lembra transformação, apagamento de limites e fronteiras. Entrando Netuno, a fusão é máxima. O princípio que explica os alimentos enteógenos: “transformamo-nos no que comemos”, pode ser procurado também no amor. A exaltação de Vênus em Peixes, permite entender porque em tantas tradições os deuses dos alimentos governavam os corações e as vidas de muitas pessoas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

MARCEL PROUST E VINTEUIL



MARCEL   PROUST



Talvez o maior romance da literatura moderna, Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, se compõe de sete livros: No Caminho de Swann, À Sombra das Raparigas em Flor, O Caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra, A Prisioneira, A Fugitiva e O Tempo Recuperado. 





Em toda a obra de Proust, a arte em geral ocupa um lugar de grande destaque, especialmente a música. Uma pequena frase de uma sonata, a de Vinteuil, tem um papel muito importante. Vinteuil é um personagem inventado por Proust, formado por “pedaços” de vários músicos que fizeram parte de seu universo, Saint-Saëns, Gabriel Fauré, César Franck, Richard Wagner, Claude Debussy, George Enescu, Reinaldo Hahn e talvez outros.

A pequena frase de Vinteuil aparece diversas vezes, fazendo um contraponto com certos acontecimentos de natureza psicológica sobre os quais sua influência é determinante. Em Proust, a verdadeira vida está por trás da vida aparente, abusivamente chamada de real, diz ele. Através dos seus personagens, ele recupera este real impalpável de várias maneiras. Um deles, talvez o mais propício, seja a música, a frase de Vinteuil.

O que Proust acabou nos propondo, uma aventura literária única, foi um modo novo de se ver o mundo. Esta proposta partia da ideia de que cabe ao escritor, ao poeta, extrair o principal, o essencial, das sensações para, juntando-se tudo em metáforas, colocá-las fora das contingências temporais. A estética proustiana estava escorada em muitas ideias do tempo (Bergson, por exemplo), mas o modo pelo qual ele consegue dar forma a tudo isso é absolutamente inovador. 

Não é possível, dizia ele, que uma música, uma pintura, que nos tenham comovido, não correspondam a uma realidade espiritual. O artista não inventa, ele descobre. O universo aspira confusamente a entrar em contacto conosco. Depende de nós o rompimento dessa espécie de encantamento que torna as coisas prisioneiras, de içá-las até nós, de impedir que elas mergulhem para sempre no nada.


CENA   DE   UN   AMOUR   DE   SWANN

A música, em Proust, é um dos meios que temos para estabelecer esse contacto, para que as brechas, como ele dizia, nos permitam o acesso. No conjunto de suas obras, Proust, pela memória afetiva, recriou impressões, aprofundou-as, iluminou-as, transformando-as em elemento de inteligência. Foi um renovador da psicologia ao refazer o caminho de volta da introspecção, um declive abrupto, para que pudessem aflorar ao conhecimento fenômenos inconscientes, muito distantes no tempo. Assim como Cézanne, Rimbaud ou Renoir, Proust soube revelar, principalmente com o estímulo da música, a beleza lá onde não conseguíamos percebê-la, nos objetos mais comuns, nas coisas humildes e esquecidas, inclusive na vida profunda das naturezas mortas.


CENA   DE   LE   TEMPS   RETROUVÉ  ( SONATA  DE  VINTEUIL )

Para quem quiser mergulhar um pouco mais no universo proustiano, obrigatórios dois filmes excepcionais: Un Amour de Swann (Um Amor de Swann), de 1984, de Volker Schlöndorff e Le Temps Retrouvé (O Tempo Redescoberto), de 1999, dirigido por Raoul Ruiz. 















CLAUDE DEBUSSY II


CLAUDE   DEBUSSY   -   1900

Claude Debussy (1862-1918),   nascido Achille-Claude, é  uma das maiores figuras da música ocidental. Muito do  que ele compôs entre o final do século XIX e começo do século XX influenciou a

música popular que viria a se fazer no Brasil. Dois nomes, dentre outros, lhe são, de algum modo, tributários, Radamés Gnatali e Antônio Carlos Jobim. Boa parte do que Debussy nos deixou se deve à sua ligação com poetas. Sua formação cultural foi muito enriquecida pelo que ouviu quando frequentou Stéphane Mallarmé e Pierre Louÿs, impregnando-se das estéticas
BAUDELAIRE
simbolista e impressionista, que tanto vão se refletir nas suas audácias rítmicas. Suas obras camerísticas vocais e instrumentais têm, por exemplo, como autores das letras, poetas como Baudelaire (Cinq Poèmes) e Paul Verlaine (Fêtes Galantes). Seu Prélude  à l'Après-midi d'un faune, feito sobre um poema de Mallarmé e Pelléas et Mélisande, ópera, tem texto de Maurice Maeterlink, poeta simbolista belga.

Grande parte da crítica especializada costuma se referir, sem maiores explicações, ao caráter e ornamentos felinos da obra musical de Debussy. Se se dignassem os nossos críticos oficiais a ir um pouco mais fundo nas suas apreciações, recorrendo a outros meios para a abordagem da personalidade e da obra de artistas, as conclusões que temos sobre elas poderiam ser muito diferentes, mais ricas, jogando-se muito mais luz sobre o que temos. 

Para começar, por exemplo, saberiam que nosso compositor foi um dos mais bem logrados tipos leoninos (Sol e Ascendente em Leão). Recorrendo a um levantamento astropsicológico de sua personalidade, muito se poderia dizer sobre sua obra e de como ela reflete a mencionada tipologia, sobretudo nos seus escritos teóricos e nas suas posturas críticas. Como um leão, o rei dos felinos, Debussy foi, sem dúvida, “dono” de um extenso território musical na segunda metade do século XIX.

A Astrologia permite que se investigue uma questão fundamental quando a levamos para a arte: a de que toda obra artística traz consigo as marcas de seu autor, sobretudo do seu temperamento, do seu modo de ser, de sua presença no mundo. Para a Astrologia, no caso, todo autor se projeta de uma maneira mais ou menos perceptível na sua obra, uma projeção que ela possibilita visualizar de um modo muito diferente daquele que a crítica ou a história da
JAPONAISERIE
arte apresentam. Permitir-nos-ia essa abordagem entender melhor, por exemplo, que as influências do oriente na obra de Debussy vão muito além da sua japonaiserie e do seu interesse pelas músicas anamita  e javanesa (gamelang), que ele descobriu na Exposição Internacional de 1889, realizada em Paris.

O que aqui aponto nada tem a ver, evidentemente, com as informações que circularam sobre a famigerada Sociedade de Sião, sociedade secreta da qual Debussy, segundo consta, teria sido um dos grão-mestres (nautonniers), numa linha sucessória que teria nomes como os de Nicolas Flanel, Leonardo da Vinci, Botticelli, Isaac Newton, Victor Hugo, Jean Cocteau e outros. Ao que parece, tudo não passou de uma piada surrealista, encampada tardiamente, como jogada de mercado ($$$), por bobagens editoriais de grande sucesso como O Código da Vinci.

As relações do autor de La Mer com esse “outro lado”que às vezes

é chamado de hermético, simbolista, esotérico ou ocultista, ainda não foram levantadas para se perceber de que modo ele está presente em sua obra. Em setembro de 1893, ainda muito jovem, Debussy, numa carta a Ernest Chausson, compositor como ele, deixou-nos estas observações: Verdadeiramente a música deveria ser uma ciência hermética, preservada por textos de uma interpretação tão longa e difícil que ela desencorajaria certamente o troupeau de gens que dela se serve com a mesma desenvoltura com que se serve de um lenço! Ou, e além disso, ao invés de procurar levar a arte ao público, eu proponho a fundação de uma Sociedade de Esoterismo Musical. 

Debussy, certamente consciente do progressivo rebaixamento dos padrões artísticos já notáveis ao seu tempo, usou a palavra esoterismo corretamente, segundo a sua etimologia: ensino ministrado em círculos fechados e restritos de ouvintes, discípulos interessados, particularmente qualificados. Estas ideias circulavam entre os poetas simbolistas da época. 


MALLARMÉ
Quem as encarnou de modo superlativo foi Mallarmé, vinte anos mais velho que Debussy, considerado como o maior representante da corrente hermetista na literatura francesa. A vocação poética, para Mallarmé, exigia uma espécie de ascese (no sentido que os filósofos gregos davam a esta palavra: conjunto de práticas e disciplinas caracterizadas pela austeridade e autocontrole do corpo e do espírito que fortaleciam a especulação em busca da verdade; exercício continuado, crescimento, prática diuturna), que implicava uma renúncia total dos prazeres comuns, um desdém pelo banal e pelo acessível. Mallarmé sempre exigiu dos que se aproximassem de sua obra uma preparação sólida para que entre leitor e poesia pudesse se estabelecer uma rara e exaltada comunhão.

domingo, 18 de outubro de 2015

CLAUDE DEBUSSY I



CLAUDE  DEBUSSY  ( MARCEL  BASCHET, 1884 )

Além de permanecer vivo para aqueles que se ligam ao que a

música tem de melhor, seja ela clássica, erudita ou popular, 
Debussy continua também presente para aqueles que gostam de leituras inteligentes. Refiro-me a um livro, de leitura imprescindível, Monsieur Croche, Antidilettante. Em textos curtos, críticos, ora teóricos, ora jornalísticos e noticiosos, revela-se
PAUL   VALÉRY
Debussy como um dos escritores mais irônicos do fim do século XIX. M. Croche (colcheia) é o próprio Debussy, personagem que criou ao inspirar-se no M.Teste, de Paul Valéry, outro a exigir leitura obrigatória. O livro é, fundamentalmente, uma declaração de guerra contra todas as formas de academicismo e de acomodação em arte. 

Algumas observações do Senhor Colcheia: Senhor, não gosto dos especialistas. Para mim, especializar-se é restringir demais o nosso universo, o que faz lembrar esses velhos cavalos que, antigamente, eram movimentados pela manivela dos carrosséis e que morriam aos sons bem conhecidos da Marche Lorraine. 

E prossegue, talvez com algum exagero: A música é um total de forças esparsas. Faz-se dela uma canção especulativa. Gosto mais das notas da flauta de um pastor egípcio; ele colabora com a paisagem e ouve as harmonias ignoradas por vossos tratados... Os músicos escutam apenas a música escrita por mãos adestradas, jamais aquelas inscritas na natureza. Ver o dia nascer é mais útil que ouvir a Sinfonia Pastoral. 

JOHANN  SEBASTIAN  BACH
Por fim: E preciso buscar a disciplina na liberdade e nas fórmulas de uma filosofia tornada caduca e boa para os fracos. Não ouvir os conselhos de ninguém, a não ser do vento que passa e nos conta a história do mundo. Gostaria que se chegasse a uma música verdadeiramente livre de motivos ou formada por um único motivo contínuo, que nada interrompe e que jamais retorna... Convenço-me cada vez mais de que a música não é, por sua essência, algo que se possa colar a uma forma rigorosa e tradicional. Ela é cores e tempos ritmados... O resto é uma piada inventada por frios imbecis sobre os lombos dos mestres, os quais geralmente não fizeram nada a não ser música de época. Só Bach pressentiu a verdade!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

MITOLOGIAS DO CÉU - NETUNO (I)


Dentre os planetas gigantes do sistema solar, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, este último é o menor deles. Tem dezessete vezes a massa da Terra. Seu diâmetro equatorial é de aproximadamente 50.000 km. Sua rotação (dia) é de pouco mais de 16 h, alcançando a sua inclinação axial cerca de 30º. O passo médio anual de Netuno é de 2º 30´, sendo a sua translação zodiacal de mais ou menos 164 anos (de 12 a 14 anos em cada signo). O ano netuniano equivale a 59.743 dias terrestres.

                                       

A atmosfera de Netuno é composta basicamente de hidrogênio e hélio, com padrões climáticos muito ativos. Ele é conhecido por ser o planeta com os ventos mais fortes do sistema solar, que chegam a alcançar a espantosa velocidade de 2.100 km por hora. Já na sua alta atmosfera encontramos temperaturas de – 218º, sendo um dos mais frios do sistema solar.

Pela sua distância média com relação ao Sol, de 4.480 bilhões de km., é totalmente invisível a olho nu. Observado pelos mais poderosos telescópios, dele só se percebia a sua forma esférica, de um verde desbotado, com regiões polares embaçadas e com uma faixa mais clara em torno do seu equador. Mais detalhadas informações sobre Netuno foram obtidas pelo programa Voyager, criado a partir dos anos 1970. Esse programa, nos anos 90, permitiu inclusive que as sondas do Voyager saíssem da Heliosfera, alcançando a região conhecida por Helioheath, além de Plutão.

                                           
  
Descoberto Urano no final do séc. XVIII, como vimos, a definição de sua órbita se tornou muito difícil, devido às irregularidades que apresentava em sua caminhada pelo zodíaco. Nos primeiros anos da década de 1840, alguns astrônomos chegaram à conclusão de que um planeta invisível deveria ser a causa dessas irregularidades. As perturbações constatadas na marcha de Urano só poderiam ser atribuídas a um vizinho desconhecido. Quem fez os cálculos para se se chegar a essa conclusão foi o astrônomo e matemático francês Urbain Le Verrier. A partir de então outros astrônomos, franceses e ingleses, encontraram Netuno, surgindo uma grande controvérsia (inclusive com lances de roubo de documentos) para se creditar a descoberta a um deles.

O que se tem de concreto, como se constatou, é que Le Verrier, no dia 23 de setembro de 1846, sem avistar o planeta, definiu, através de cálculos, a posição exata de Netuno. Alguns astrônomos sugeriram que o novo astro passasse a ser chamado de Janus; outros optaram pelos nomes de Oceano, Leverrier ou Netuno, adotando-se finalmente esta última designação.

TRITÃO
       No mesmo ano de 1846, poucos dias depois da descoberta de
Netuno, um astrônomo inglês, William Lasswell, descobriu o seu principal satélite, Tritão, com 2.700 km. de diâmetro. Com os dados enviados pelo telescópio espacial Hubble recentemente, sabe-se hoje que Netuno possui anéis e tem 13 satélites (luas)
TRITÃO - FONTE DE ROMA
conhecidos, nove deles já batizados e quatro aguardando confirmação e designação. Como curiosidade, saliente-se que quatro das luas de Netuno têm marcha retrógrada, destacando-se, dentre elas, Tritão, a maior, como se disse.

Sob o ponto de vista astrológico, cada astro que transita por um dos signos zodiacais introduz um dado energético numa infinita rede de relações que se aplica tanto a um tema astral individual como a um tema coletivo, a um país e ao nosso planeta como um todo. Para entender isto é preciso ter em mente que a Astrologia não consiste em se saber algo por acumulação de dados, mas, sim, dentro de um conjunto relações. Os dados que nos são oferecidos, além de inúmeros, incontáveis, modificam-se mutuamente.

Por isso, para que possamos avançar um pouco na prática astrológica torna-se necessário, acima de tudo, entender o que seja o pensamento analógico. Sem ele somos incapazes de perceber a relação de semelhança que há entre coisas ou fatos do universo.

SOL
Assim, é com base no pensamento analógico que podemos entender, por exemplo, que ao astro mais“poderoso” e centro do nosso sistema planetário, o Sol, corresponde no ser humano à função psicológica mais forte, a vontade; a ele, o Sol, corresponde também o defeito de caráter mais forte, o orgulho. O órgão mais “forte” do corpo humano no plano fisiológico, o coração, é representado também pelo Sol. O personagem familiar mais “forte” (ainda?), o pai ou o marido, é simbolizado pelo Sol. Não é por acaso que em todas as tradições religiosas patriarcais, o Sol sempre foi adotado como o grande símbolo da divindade mais “forte”.

                                  
CONSTELAÇÃO DE AQUÁRIO (SÍMBOLO)
 Nesta perspectiva, foi possível se estabelecer um conjunto de analogias simbólicas entre os planetas, os signos zodiacais, os deuses, os elementos, os metais e as suas cores, velocidade, tamanho etc. Assim, Netuno terá relação elementar com a água (é muito úmido e ligeiramente quente, como Vênus), sendo seu domicílio o signo de Peixes e seu exílio o  de Virgem. Sua exaltação e queda estão, respectivamente, em Leão e Aquário. É de se registrar que em algumas tradições astrológicas a exaltação de Netuno se dá em Aquário e a sua queda em Leão.
                                                  
Numa tentativa de resumir a natureza particular de Netuno, apontando as suas possibilidades significativas essenciais, podemos considerá-lo como: sensitivo, fértil, inconstante, estetizante, neurótico, psicótico, eufórico, comatoso, mediúnico, complicado, inspirado, escapista, insidioso, desditoso, mortificante, evasivo, difuso, caótico, infiltrante, permeável, empático e receptivo.

Adicionar legenda
Netuno governa as plantas usadas como tóxicos (maconha,  coca, papoula, erva-do-diabo, peiote etc.), além dos cogumelos alucinógenos. Tem ele a ver também com todas as bebidas enteógenas e, associando-se à Lua, com as ervas e plantas usadas na feitiçaria. São de Netuno ainda os anestésicos e os venenos, além dos anticorpos, o líquido amniótico e a vida fetal.


Netuno tem sintonia natural, com o azul-esverdeado (cores), com
ÁGUA MARINHA
o agridoce (sabores), com nuvens, fumaça, abstrações (formas), com peixes, anfíbios e aves marinhas (animais), com a platina, a água-marinha, o topázio e o petróleo (minerais), com algas, líquens e musgos (vegetais), com os pés (corpo físico). Lembremos que  Leonardo da Vinci, na Última Ceia, representou o sígno de Peixes, governado por Netuno, por Bartolomeu, o de pés iluminados, último à esquerda no famoso afresco.

 
A astralidade netuniana predispõe a uma constituição úmido-fria, aquosa, glandular, delicada. Quanto ao temperamento, temos o linfático, o hipersensível, o mediúnico. Quanto ao caráter, o romântico, o esteta, o utopista, o universalista, o caritativo.

Netuno exerce profundas influências sobre as tendências idealistas do ser humano, impelindo-o à busca de contactos espirituais, ativando a sua imaginação e as suas faculdades paranormais. Inclina-o à investigação mística, à criatividade artística abstrata, sobretudo aquilo que não pode ser traduzido por palavras, razão pela qual é o mais musical dos planetas.

No plano social, é um planeta que concerne mais à coletividade que ao individual. Encarnando a
plasticidade que tende a se exteriorizar em imaginação, intuição, mediunidade ou perturbações psiquicas, incita, num tema pessoal, à transcendência, ao rompimento de limites e ao apagamento das formas e das fronteiras, predispondo às ilusões, às utopias e às miragens. Pode dotar o tipo humano em que é dominante de uma insaciável curiosidade, muitas vezes ilimitada e fecunda em projetos. Predispõe também às viagens, à busca de paraísos artificiais pelo álcool, pela droga ou por transportes artísticos e místicos.


ÍNDIA: JAINISTAS
Com Netuno, a sensibilidade tende sempre ao hiper, caracterizando-se ela muitas vezes por umatendência à fusão que pode levar à confusão, à perda de identidade. Esses estados se traduzem sempre pelo gosto do inominável, do indescritível, do infinito, predispondo espontaneamente a uma natureza artística e/ou espiritual. Nos tipos humanos mais espiritualizados pode levar a um natural movimento de libertação do ego para que seja possível a sua adesão a estados de participação mística.


VÊNUS
Embora os princípios de Netuno já fossem conhecidos através da mitologia, a sua descoberta permitiu que as suas influências passassem a ser percebidas arquetipicamente. Em primeiro lugar, porque logo se constatou que Netuno era a oitava mais elevada de Vênus, cujas emanações diziam respeito à reciprocidade na vida afetiva. Vênus fala de união, do equilíbrio dos elementos masculinos e femininos em toda a criação. Vênus pede trocas, dá seu coração, mas quer o do outro. Já Netuno não ama de um ponto de vista pessoal, mas a partir da plena doação. Com Netuno não há exigências de recompensas nem cobranças na vida afetiva. Há sempre uma ideia de generosidade que pode se traduzir em compaixão, mecenato, patrocínio incondicional, caridade indiscriminada.

Lembre-se que Júpiter é o segundo regente do signo de Peixes, o chamado regente noturno, um planeta quase tão fértil como Netuno. Júpiter é expansão, dilatação, extroversão otimista; nos tipos superiores aponta para uma inserção do ego em planos superiores de existência através de valores culturais, legais ou religiosos. Netuno, por sua vez, vai além, fala muitas vezes da perda da individualidade, da abolição de fronteiras individuais, de participação comunitária compassiva e anônima, dissolvendo ou dilatando o ego ao extremo a ponto de ele desaparecer.

É pelo exposto acima que defendemos a exaltação de Netuno em Leão, pois o amor sacrificial que ele propõe é muito diferente do amor solar ligado à quinta casa (Leão). Netuno fala de um amor oblativo (oblativus, em latim, o que se oferece espontaneamente). Oblato, lembre-se, é o leigo que se oferece voluntariamente para trabalhar numa ordem religiosa, entregando-lhe muitas vezes os seus bens.
                                             
MERCÚRIO

 A fusão netuniana não é mensurável nem lógica, razão pela qual Mercúrio, símbolo da inteligência aplicável à vida quotidiana e aos instrumentos e técnicas nela usados, está exilado no signo de Peixes, governado por Netuno. Por isso, para o homem comum, os místicos e os adeptos são loucos.

A maior parte das pessoas que tem um Netuno dominante em seus temas não consegue, contudo, viver no plano do amor-doação como ele propõe. Daí a influência netuniana ser sentida como sacrifício, mortificação, confusão, caos, pois falta invariavelmente às pessoas que o experimentam dessa forma uma vontade firme e vigorosa para vivê-lo superiormente. Por isso, para a maioria, não há outro caminho senão o escapismo, a evasão, a fuga das responsabilidades terrestres, a tentação do mergulho no álcool e nas drogas. Ou então o cultivo das fantasias, a tentação dos disfarces, a fraude e a autoindulgência.

A grande plasticidade psíquica dos netunianos pode empurrá-los para uma fusão com a humanidade, uma fusão que os leve a viver muitas vezes de modo mais idealista que com os pés na realidade. Sempre presente quando essas tendências se impõem o perigo do mutante, do insidioso, do incerto, deixando a alma inquieta, convidando à busca de outra aventura, de outras terras, de outras ilhas, do que está mais distante,  um impulso  sempre curioso, experimental e transcendente que costuma se perverter facilmente.

Netuno tem muito a ver com o gênio artístico, a fé, a religiosidade e o misticismo. Enquanto Júpiter nos propõe longas viagens físicas, mentais ou espirituais, Netuno também no-las oferece, mas só que em nível psíquico e emocional. Muitos, quase sempre, experimentam a força de Netuno com  resignação, vivendo-o como destino, como uma rendição masoquista ao destino.

EREMITA
Netuno associa-se a ideias de reclusão, isolamento e privacidade (as ilhas, os continentes perdidos são dele); é enigmático, muitas vezes labiríntico, decepcionante. Ele mostra geralmente o lugar onde corremos o risco de nos enganar e onde podemos ficar sozinhos, muitas vezes perdidos, o lugar em que um grande sacrifício pode ser exigido de nós. Por isso, toda submissão voluntária e inteligente, consciente, pode ser considerada como um hino de louvor a Netuno. Não é por acaso que em algumas tradições astrológicas de fundo religioso o lema netuniano é: “Servir ou sofrer”.

Numa tentativa de resumir a natureza particular de Netuno, apontando as suas possibilidades significativas essenciais, podemos considerá-lo como: sensitivo, fértil, inconstante, estetizante, neurótico, psicótico, eufórico, comatoso, mediúnico, complicado, inspirado, escapista, insidioso, traiçoeiro, desditoso, mortificante, evasivo, difuso, caótico, infiltrante, permeável, empático, receptivo.

A descoberta de Netuno em meados do séc. XIX trouxe para o primeiro plano das discussões políticas a questão social. É certo que até então sempre havíamos tido pobres e ricos e que o sofrimento dos desfavorecidos tocara muitos corações bondosos. Mas é no séc. XIX que o sofrimento dos humildes toma um sentido diferente, principalmente depois do nascimento da grande indústria, produto de novas tecnologias implantadas a partir do final do séc. XVIII (descoberta de Urano).

                                      
                                         
Foi em meados do séc. XIX que a Europa ocidental, em razão de uma produção industrial desorganizada, de uma concorrência anárquica, do trabalho escravo de mulheres e crianças, da fome e das doenças que grassavam nos meios urbanos proletarizados e das péssimas condições de vida das classes operárias, que se colocam questões sociais até então desconhecidas.


A grande concentração de operários em oficinas e fábricas, texteis e
EMILE ZOLA
metalúrgicas sobretudo, recebendo um salário de fome, tornava a vida desses grandes contingentes extremamente penosa e sofrida. Em 1830, por exemplo, a pedido de um Comitê de Bem-Estar quer procurava aliviar a vida de milhares de operários reduzidos à miséria em Rouen, o grande poeta Victor Hugo escreveu um poema, Para Os Pobres, que era quase uma parábola evangélica. Émile Zola, em Germinal, e outros escritores irão mais longe; falarão de reivindicações violentas.


Traduzida em movimentos políticos, diante, como sempre do silêncio das
TRABALHO INFANTIL
elites, esta literatura levou à criação de organizações como a Associação Internacional dos Trabalhadores, a primeira no gênero. Só em 1874 seriam baixadas leis para interditar o trabalho de menores de doze anos, para fixar em doze horas diárias a jornada de trabalho de menores (12-16 anos) e em onze o trabalho de operárias nas fábricas. A jornada dos homens continuaria fixada em doze horas diárias. Não havia descanso semanal remunerado (só em 1906 foi obtido um descanso remunerado, de quinze em quinze dias). De um modo geral, estes dados (franceses) eram os mesmos, com números ligeiramente melhores na Inglaterra e na Alemanha, os países mais industrializados da Europa.

Foi nesse cenário que surgiram as chamadas doutrinas socialistas, de forte inspiração netuniana, como se pode constatar diante do exposto, doutrinas que tinham por objetivo a reforma das sociedades humanas, propondo, no que diz respeito à vida econômica, a coletivização dos meios de produção e da distribuição, mediante supressão da propriedade privada e das classes sociais. Dentre as mais importantes correntes dessas doutrinas apontamos a utópica, a revolucionária, a científica, a marxista, a anárquica e a religiosa. O ano de 1846, por exemplo, se caracterizou por alguns “avanços” netunianos sob o ponto de vista político-social: supressão da pena de morte por razões políticas; supressão da escravidão nas colônias; instituição do sufrágio universal.

Entre os anos de 1860-1865, aparece um movimento artístico que trazia propostas também claramente “netunianas”. Levar o pintor para fora dos ateliês, fazendo-o entrar em contacto direto com o exterior, principalmente com o litoral atlântico (Normandie, praias etc.) foi uma delas. Outra foi a de libertar a pintura da tirania do “Salão”, a única possibilidade de reconhecimento oficial para um pintor. O Salão, como se sabe, determinava os motivos pictóricos “aceitáveis”, recusando sumariamente qualquer desvio do que fosse por ele fixado. A nova proposta desse movimento renovador apontava para uma visão mais espontânea da natureza. Em 1863, os rebeldes se organizam e promovem, com grande escândalo, o Salão dos Recusados.

SALÃO DO RECUSADOS
 A água (mares, oceanos, lagos, rios etc.), as nuvens, as flores, são eleitos como temas privilegiados nas artes plásticas (pintura), ao lado da figura humana, até então a única admitida. As formas se tornaram evanescentes, o contorno rígido do desenho foi rompido, tornando-se impreciso. Um jornalista (Louis Leroy), inspirando-se numa tela de Monet (Impressão, Sol Nascente) qualificou o estilo de Impressionismo.
                                   
IMPRESSION SOLEIL LEVANT
 Em que pesem as diferenças entre os vários pintores que aderiram ao movimento, todos, de um modo ou de outro, procuraram pintar a natureza na sua verdade mutável segundo a luz, utilizando-se para tanto de novas técnicas de pincelada. A ideia era a de captar todas as nuances possíveis numa mistura ótica de cores que o olho do espectador reconstituía. Aceitando a arte oriental, sob o nome de japonismo, os pintores passaram a utilizar todo o espaço da tela, suprimindo o cerne do claro-escuro e a perspectiva linear. O interesse pictórico se concentrou na busca dos efeitos fugazes da luz e do movimento, na despreocupação com relação aos contornos, na aversão aos tons sombrios e no uso de enquadramentos originais.
                                      
Estas ideias alcançaram a música, influenciando bastante o estilo das composições desenvolvido sobretudo por compositores como Debussy, Ravel, Satie, Roussel e outros. No fundo, uma tendência de usar os sons como cores, empregar formas de caráter deliberadamente nebuloso, evitando a precisão nos ritmos e nas harmonias.

Na literatura, as novas ideias dão substância a um movimento, sobretudo poético, que tomou o nome de Simbolismo. Escritores belgas e franceses, principalmente, agrupados em comunidades de caráter esotérico, divulgaram suas obras com certo sucesso, fazendo chegar a nova estética, com forte acento musical, aos demais países europeus e às Américas. O ideario simbolista é de caráter idealista: um poema deve traduzir as “ideias primordiais”, não sendo os fenômenos concreto mais que manifestações exteriores e superficiais. O poema deve se constituir, com a ajuda do símbolo, num ponto de junção entre a Ideia e o mundo. O Simbolismo se coloca assim sob a égide da filosofia idealista alemã e, em particular de Schopenhauer, que concebe o mundo como “representação”, ou seja, segundo a visão subjetiva do agente que o percebe.
 
A água é fonte e símbolo da vida, encontrando-se o seu culto em todas as mitologias. Enquanto as águas submarinas simbolizam o subconsciente, a água gelada, o gelo, representa a estagnação psíquica no seu mais elevado grau.

Divinizadas por todos povos da antiguidade como fonte da vida, a noção das águas primordiais e do oceano como fonte de tudo que emergiu estão presentes em todas as tradições. Em todas também a visão simbólica do elemento líquido como origem, purificação ou regeneração.

Em todas as cosmogonias, a água é a essência do poder feminino, passivo, sendo o mais fértil dos elementos, base de toda a criação. É, como tal, o mais usado dos elementos como meio de purificação e de regeneração física ou espiritual. A água benta, por exemplo, é um símbolo das águas primordiais que expulsa os demônios e permite a regeneração da forma a cada vez que penetramos num lugar santificado. A água batismal, vertida sobre a cabeça do infante, purifica-o e o admite na cristandade.

BATISMO COLETIVO
Entre os essênios, o rito do batismo (eu mergulho, em grego) era praticado muitas vezes ao longo da vida, inclusive num nível cósmico. As pias batismais tinham doze lados, à imagem do zodíaco, onde se alinhavam doze touros que evocavam ao mesmo tempo o mar de bronze do templo de Jerusalém e o cosmos em sua onipotência.

    Ainda simbolicamente, lembremos que a água representa a purificação dos desejos até a sua forma mais sublime, a bondade. De outro lado, as águas subterrâneas e submarinas simbolizam o subconsciente; é neste sentido que as águas que perderam a sua fluidez ou a sua movimentação identificam-se com os charcos, os pântanos, as geleiras, sempre lembrando estagnação psíquica, estados passionais, idéias fixas, obsessões e até a morte.

SOLUTIO
A água associada a Netuno tem íntima relação com a solutio alquímica, operação pela qual a matéria que tomou forma retornará à prima materia. Na psicoterapia, por exemplo, a solutio indica a destruição dos aspectos fixos e estáticos de uma personalidade para que seja possível alguma mudança, reorganizá-la de uma outra forma.

Em nível cósmico, as águas de Netuno têm relação com o signo de Peixes. Quando o Sol transita por esta constelação, entre fevereiro e março, estamos, com relação ao hemisfério norte, no último mês do inverno, mês do degelo, período do ano em que tudo o que tomou forma a perderá.

O simbolismo do signo de Peixes é inseparável do da água ao evocar sempre a renovação da natureza. É por essa razão que o signo  tem relação com todas as formas de renascimentos religiosos, sendo o peixe um símbolo natural do batismo. Não é por outra razão que os primeiros cristãos “sentiam” a presença invisível de Cristo nas águas das pias batismais.


                                                                                                                                                       
 Nos sonhos, o peixe é um intermediário entre as camadas profundas do psiquismo e um aspecto do inconsciente tornado acessível. Os grandes peixes como a baleia representam invariavelmente o risco da absorção das forças conscientes pelas energias profundamente entranhadas no inconsciente.