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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

MARCEL PROUST E VINTEUIL



MARCEL   PROUST



Talvez o maior romance da literatura moderna, Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, se compõe de sete livros: No Caminho de Swann, À Sombra das Raparigas em Flor, O Caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra, A Prisioneira, A Fugitiva e O Tempo Recuperado. 





Em toda a obra de Proust, a arte em geral ocupa um lugar de grande destaque, especialmente a música. Uma pequena frase de uma sonata, a de Vinteuil, tem um papel muito importante. Vinteuil é um personagem inventado por Proust, formado por “pedaços” de vários músicos que fizeram parte de seu universo, Saint-Saëns, Gabriel Fauré, César Franck, Richard Wagner, Claude Debussy, George Enescu, Reinaldo Hahn e talvez outros.

A pequena frase de Vinteuil aparece diversas vezes, fazendo um contraponto com certos acontecimentos de natureza psicológica sobre os quais sua influência é determinante. Em Proust, a verdadeira vida está por trás da vida aparente, abusivamente chamada de real, diz ele. Através dos seus personagens, ele recupera este real impalpável de várias maneiras. Um deles, talvez o mais propício, seja a música, a frase de Vinteuil.

O que Proust acabou nos propondo, uma aventura literária única, foi um modo novo de se ver o mundo. Esta proposta partia da ideia de que cabe ao escritor, ao poeta, extrair o principal, o essencial, das sensações para, juntando-se tudo em metáforas, colocá-las fora das contingências temporais. A estética proustiana estava escorada em muitas ideias do tempo (Bergson, por exemplo), mas o modo pelo qual ele consegue dar forma a tudo isso é absolutamente inovador. 

Não é possível, dizia ele, que uma música, uma pintura, que nos tenham comovido, não correspondam a uma realidade espiritual. O artista não inventa, ele descobre. O universo aspira confusamente a entrar em contacto conosco. Depende de nós o rompimento dessa espécie de encantamento que torna as coisas prisioneiras, de içá-las até nós, de impedir que elas mergulhem para sempre no nada.


CENA   DE   UN   AMOUR   DE   SWANN

A música, em Proust, é um dos meios que temos para estabelecer esse contacto, para que as brechas, como ele dizia, nos permitam o acesso. No conjunto de suas obras, Proust, pela memória afetiva, recriou impressões, aprofundou-as, iluminou-as, transformando-as em elemento de inteligência. Foi um renovador da psicologia ao refazer o caminho de volta da introspecção, um declive abrupto, para que pudessem aflorar ao conhecimento fenômenos inconscientes, muito distantes no tempo. Assim como Cézanne, Rimbaud ou Renoir, Proust soube revelar, principalmente com o estímulo da música, a beleza lá onde não conseguíamos percebê-la, nos objetos mais comuns, nas coisas humildes e esquecidas, inclusive na vida profunda das naturezas mortas.


CENA   DE   LE   TEMPS   RETROUVÉ  ( SONATA  DE  VINTEUIL )

Para quem quiser mergulhar um pouco mais no universo proustiano, obrigatórios dois filmes excepcionais: Un Amour de Swann (Um Amor de Swann), de 1984, de Volker Schlöndorff e Le Temps Retrouvé (O Tempo Redescoberto), de 1999, dirigido por Raoul Ruiz. 















quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O CHUMBO


CHUMBO

A mais antiga tradição alquímica de que se tem notícia a estabelecer uma relação entre os metais, os planetas e os signos astrológicos foi a dos caldeus, povo da antiga Mesopotâmia. 



A ordem era a seguinte: ouro-Sol-Leão; prata-Lua-Câncer; mercúrio-Mercúrio-Gêmeos e Virgem; cobre-Vênus-Touro e Libra; ferro-Marte-Áries, associado igualmente ao aço, Escorpião; estanho-Júpiter-Sagitário, associado igualmente ao bronze, Peixes;   chumbo-Saturno-Capricórnio  e Aquário.

Herdeiros dessa tradição, os gregos,  ou melhor,  um colaborador de Platão, Philippe d’Oponte, foi o primeiro, num texto, Epinomis (que faz parte da obra de Platão), a dar o nome dos deuses aos planetas: Cronos (Saturno), Zeus (Júpiter), Ares (Marte), Afrodite (Vênus), Hermes (Mercúrio), relação à qual se acrescentou Selene (Lua).




Os metais sempre simbolizaram energias cósmicas solidificadas, condensadas, sendo considerados como substâncias vivas e sexuadas pelas mais antigas tradições que os dividiram em dois grupos, os criados por Deus e os criados pelo Diabo. Assim, em algumas mitologias africanas, por exemplo, enquanto Deus criava o ouro e a prata, o Diabo criava o cobre e o chumbo.  
   

Por volta de 3000 aC, quando se fixaram melhor certas atividades humanas como a metalurgia, a tecelagem, a carpintaria a construção e a fabricação de tintas e de pigmentos, que uma arte a que se deu o nome de Alquimia, nome proveniente do Egito, ao que parece, reuniu todos esses conhecimentos. A arte alquímica era produto da acumulação de muitas informações técnicas, de várias civilizações. 

Tanto a descoberta de muitos materiais como as técnicas desenvolvidas pelo homem para utilizá-los e transformá-los não
ENLIL
significou a separação destas atividades do cotidiano das pessoas, da sua vida diária. Os trabalhos técnicos dos artesãos que se ligavam diretamente a essas atividades foram associados ao acompanhamento de práticas religiosas ou mágicas, encontrando-se conexões entre metais, minerais, plantas, planetas e deuses. Os babilônicos, por exemplo, ligavam o ouro ao deus Enlil, a prata ao deus Anu e assim por diante.


Dentre as teorias criadas a esse tempo para explicar o mundo material, uma adquiriu muita importância, a de que todas as substâncias existentes no universo eram compostas por cada um e por todos os elementos (fogo, terra, ar e água, na tradição ocidental), diferenciando-se essas substâncias pelas proporções em que nelas eles se apresentavam. 

Os elementos se distinguem uns dos outros por suas qualidades chamadas de primárias, a fluidez ou umidade, a secura, o calor e o frio, possuindo sempre cada um deles duas dessas qualidades. Em cada elemento há uma qualidade que predomina sobre outra: na terra, o seco predomina sobre o frio; na água, o frio sobre o úmido; no ar, a fluidez sobre o quente; no fogo, o quente sobre o seco. Esses  elementos podem se transformar uns nos outros, são intermutáveis por meio da qualidade que possuem em comum. Exemplificando, o fogo pode transforma-se em ar por meio do quente; o ar em água por meio da umidade e assim por diante. Essas operações fazem parte da Alquimia e estão presentes em nossa atividade física e psíquica e acontecem a todo momento em nossa vida cotidiana. 

O chumbo, molybdos, em grego, plumbum em latim, é um metal extremamente denso, pesado e macio, mas não flexível, um dos mais antigos que o homem conheceu. Do ponto de vista alquímico, o chumbo se liga ao elemento terra, formado pelo frio e pelo seco. Antes de 3000 aC, vários povos da antiguidade já obtinham a prata
AQUEDUTO
retirando-a do chumbo. Na Mesopotâmia, usaram-se placas de chumbo para revestimento dos famosos jardins suspensos da Babilônia. São conhecidas, desde essa época, moedas de chumbo chinesas. Os romanos utilizaram muito chumbo, proveniente da Espanha, para fazer os seus famosos aquedutos. 


De todos os metais, sabe-se, o chumbo é o mais impermeável à
SOLDADINHO   DE   CHUMBO
água. Encanamentos com mais de 2000 anos foram encontrados recentemente em excelentes condições em Roma. A grande desvantagem dos encanamentos desse metal é que eles congelam com facilidade e estouram. Por derreter facilmente, o chumbo foi muito usado para a confecção de brinquedos, sendo os mais conhecidos os famosos soldadinhos de chumbo.


As propriedades mágicas do chumbo estão atestadas em várias culturas na antiguidade. Quando se desejava fazer mal a alguém, gravava-se numa placa de chumbo o nome do mal, um meio sempre considerado como particularmente eficaz. Por outro lado, carregar uma pequena placa de chumbo presa por fio ao redor do pescoço protegia contra diversos encantamentos e impedia que paixões amorosas se apoderassem de alguém contra a sua vontade.


QUIMERA   BELEROFONTE   E   PÉGASO

É na mitologia grega, na história da morte da Quimera, que encontramos uma referência importante com relação às virtudes do chumbo. Belerofonte, famoso herói, montado no cavalo-alado Pégaso, que conseguira domar com o auxílio de Palas Athena, atacou o pavoroso monstro que vomitava labaredas de fogo. Disparando inúmeras flechas contra o seu corpo, Belerefonte conseguiu que algumas delas, com pontas chumbo, entrassem pela sua bocarra; em contacto com as labaredas expelidas furiosamente, o metal derreteu e, descendo por sua garganta, destruiu completamente as suas entranhas.

Desde a mais remota antiguidade, praticava-se a adivinhação por meio do chumbo, a chamada molibdomancia (molybdos, chumbo, mancia, adivinhação, grego). Deixavam-se cair gotas de chumbo quase líquido na água ou numa superfície lisa e faziam-se previsões segundo os ruídos produzidos. Até o início do séc. XX, essa forma de adivinhação era praticada em quase todos os países da Europa. Na França, no dia de Reis, as jovens casadoiras, segundo a forma que o metal aquecido tomasse quando em contacto com a água, usavam o processo para descobrir a profissão de seu futuro marido: se tomada uma forma que lembrasse um machado, ele seria lenhador; se tomada a forma de uma agulha, ele seria alfaiate e assim por diante. O mesmo acontecia em outros países, usado o processo para fins divinatórios diversos, sempre numa data religiosa importante. Na Bélgica, por exemplo, na noite do dia de Santo André; na Alemanha e na Rússia, na noite do dia de São Silvestre; na Suíça, na véspera do Natal etc.

Na Idade Média, para se saber se uma doença tinha origem sobrenatural, derramava-se chumbo derretido num recipiente com
AMULETOS   DE   CHUMBO
água; se uma imagem se formasse no fundo do recipiente, a origem sobrenatural (feitiçaria) estava confirmada. Há registros de que reis franceses (Luís XVI) mantinham sempre amuletos de chumbo em contacto com o corpo para evitar doenças.


Comercialmente, hoje, o chumbo é empregado no isolamento acústico de ambientes e como material protetor contra radiações em salas de radioterapia de hospitais. É usado também em lugares onde é manipulada a energia nuclear. A sua extrema densidade o torna impermeável à radiação. Dá-se o nome de saturnismo ou plumbismo às intoxicações agudas ou crônicas causadas pelo chumbo ou por alguns de seus sais. Quando queremos nos referir a uma pessoa tristonha, soturna, ou a um céu carregado de nuvens escuras, podemos usar o adjetivo plúmbeo. 

Simbolicamente, o chumbo apareceu sempre relacionado com o fim
SATURNO   E   SEUS   ANEIS
de um período, o fim de um ciclo de vida, identificado por isso com a velhice e a morte.  Não é por acaso que a pele e os ossos, as últimas coisas que desaparecem no ser humano ao morrer, são de Saturno, astrologicamente. Além do chumbo, não podemos descer mais na escala mineral, vegetal e animal. Por isso, é tutelado pelo deus Cronos, na mitologia grega, e pelo planeta Saturno, ambos símbolos do tempo, do tic-tac fatal dos relógios. 


Cronos, como se sabe, devorava os próprios filhos que gerava, uma imagem do tempo que tudo consome. Daí, Cronos aparecer representado com a ampulheta (o tempo) e o alfange (o instrumento dos ceifadores. Analogicamente, o deus,
CRONOS
o planeta e o metal simbolizam também o princípio da concentração, da fixação, da condensação e da inércia. Viver é tomar forma e também perdê-la, o que nos acontece diariamente, a cada momento da nossa vida. Por isso, a vida, na expressão dos alquimistas, se resume a duas operações: a coagulatio e a solutio. No início, uma energia que vai tomando forma, ganhando corpo, crescendo, se desenvolvendo, chegando à sua plenitude e depois, inexoravelmente, definhando, se contraindo, até que tudo o que foi acumulado volte ao Grande Todo.



LABORATÓRIO   ALQUÍMICO

Os alquimistas sempre colocaram o chumbo em relação com o ouro. Muitas histórias da arte alquímica nos falam de transmutações coroadas de sucesso na medida em que o chumbo, considerado como o mais vil dos metais, e neutralizadas assim as suas influências funestas, podia ser transformado no rei deles, o ouro, quando submetido à ação da “pedra da sabedoria”. Esta metamorfose era para os alquimistas um símbolo da purificação do homem, preso ao mundo terrestre e materializado, que se elevava a níveis superiores da existência pela espiritualização solar.

Cronos, Saturno e o chumbo representam tanto a força que cristaliza, que fixa na rigidez o que entra na existência, dando-lhe condições de resistir aos ataques externos, como pode também se opor, como resistência intransponível, a qualquer mudança. Num primeiro momento, o chumbo simboliza assim imprescindível força que nos estrutura, ajudando-nos a resistir aos embates da vida. Num segundo momento, esta mesma força pode impedir mudanças, transformações, lembrando sempre obstáculos, carências, retardamentos, impotência, paralisia, condensação, desalento, inércia, tanto física (problemas com o metabolismo do cálcio; artroses deformantes, osteoporoses, osteopenias etc.) como psiquicamente (complexos, apego ao passado, atavismos poderosos, a tirania dos hábitos, ideias fixas, obsessões etc.)

CHAVES PARA A CARACTEROLOGIA
O chumbo forma a última fase do processo metálico, o estágio final do desenvolvimento da matéria. Na Alquimia simbólica, o   chumbo é, por isso, usado para representar o nível mais baixo a que a matéria pode chegar, iniciando-se, a partir dele, a caminhada em direção do mais elevado, do superior, simbolizado pelo ouro. Sob o ponto de vista da Caracterologia, as pessoas-chumbo podem ser incluídas entre os fleugmáticos, neles dominando a não-emotividade e a secundariedade, já que costumam retardar bastante as suas respostas diante dos  estímulos recebidos.   

O poder do chumbo tem a ver também com tudo o que segrega, e separa, com tudo o que fecha e inibe, que limita. Onde a influência de Saturno aparece temos o enrijecimento, a formação de pedras (cálculos na bexiga, nos rins, na vesícula, o endurecimento das artérias, por exemplo). Com a idade, vamos entrando no período chumbo da vida, dominado pelo processo da introversão e pelo recolhimento. Ambos, o corpo e a mente vão ficando endurecidos e inflexíveis; as pessoas tornam-se dogmáticas, obstinadas em suas opiniões, não sabendo mudar, fase em que podem se impor ideias de insensibilidade, frieza, renúncia, pessimismo, melancolia ou, simplesmente, recusa de viver. 

O chumbo inibe vibrações. Por isso, é o metal mais usado para conter as trepidações produzidas pelo trânsito pesado e intenso em áreas onde são construídos grandes edifícios. Positivamente, o chumbo e Saturno fortalecem o nosso corpo e nossa alma para que possamos enfrentar as tempestades que podem nos alcançar. Neste caso, o chumbo pode nos ajudar a controlar nossos sentimentos, dando-nos a quantidade certa de resistência ao que ameace o nosso equilíbrio. Uma pessoa saturnizada em demasia mostra-se geralmente avessa à vida social, evita visitas, quase não fala, é solitária, características do chamado tipo esquizoide. No geral, uma vida feita só de deveres, na qual o relógio e o calendário governam tudo. Uma vida onde não entram flores e risos, que são do planeta Vênus, dominado pela deusa Afrodite.   

Costumam as pessoas-chumbo ter muito medo do futuro, já que uma de suas principais características é o espírito de economia que
HARPAGON (COMÉDIE FRANÇAISE)
pode atingir formas extremas como a avareza. Um exemplo: o Harpagon, de Molière. São comuns os casos de pessoas deste tipo que quando têm alguma despesa a fazer, mínima muitas vezes, mergulham em tormentos sem fim, perdendo horas de sono inutilmente. A rondá-las, quase sempre, uma atitude pessimista diante da vida, já que costumam ver dificuldades em tudo. Usam muito o advérbio não. A sua constante insatisfação é quase sempre responsável por um sentimento de incapacidade que está na origem de suas depressões. 


Tais pessoas costumam também se deprimir porque não avançam tão rapidamente como os outros. Muitas vezes, problemas de infância (são os tipos mais propensos a apresentar esses problemas, como os de fixação na infância, no passado, sempre presente o temor inconsciente do poder dos mais velhos) estão por trás desse receio de avançar, pois são as maiores vítimas da pressão que pais exercem sobre seus filhos. Sofrem geralmente de três complexos: o de Cronos (filhos “devorados” pela figura paterna), o de Inferioridade (sentimento de pessoas que se auto depreciam) e o de Isaac (filhos que se entregam docilmente à vontade paterna). Entraram na vida sempre temendo o poder dos mais velhos, pais, professores, mestres, familiares etc. No caso de mulheres, muitas vezes o marido também exerce esse papel, sendo uma extensão da figura paterna. 

SACRIFÍCIO   DE   ISAAC  ( 1603 , CARAVAGGIO )

Muitos que se enquadram nesta tipologia gostam de mostrar um caráter severo, consigo e com o mundo. Esta severidade, porém, oculta geralmente uma atitude destinada a dissimular a sua sensibilidade e o seu medo de serem magoadas. Protegem-se “endurecendo”, exigindo sempre dos que estão à sua volta um comportamento irrepreensível no cumprimento dos seus deveres. Não toleram uma brincadeira, um “pegar mais leve” na vida. A vida para elas é feita só de obrigações e deveres.

A maioria dessas pessoas acha doloroso qualquer processo de mudança, fugindo sempre de situações em que tenham de abrir mão de imagens, ideais e objetos materiais, sobretudo os herdados. Ao invés de procurarem na vida os intercâmbios adicionais que os ajudem a evoluir, constroem à sua volta muralhas que impedem qualquer penetração na personalidade que montaram. Temem perder a segurança. 

As cores preferidas dos tipos que estou descrevendo são o cinza, o preto, o castanho-escuro e o marrom. Na anatomia humana, os problemas costumam aparecer na pele, nos ossos, nas juntas, nos ligamentos, nos órgãos da audição, na pele, nas unhas e nos cabelos. Negativamente, tudo neste cenário lembra carências (penias, hipo), obstáculos, limitações, endurecimentos etc.


AUGUSTE  RENOIR , 1841 - 1919

Positivamente, porém, simbolicamente o chumbo, Saturno e Cronos lembram constância, disciplina, controle, firmeza. Neste sentido, o que eles nos derem ninguém tira de nós. Eles simbolizam aquele trabalho anônimo que podemos diuturnamente exercer sobre nós mesmos, a conquista interior que o tempo nos dá. As virtudes saturninas são, como se disse, frias, estão do lado das asceses: concentração, perseverança, prudência, sentido de dever, silêncio, domínio da vida instintiva. Não é por acaso que o grande símbolo de Saturno é a montanha e que o mais saturnizado dos pintores, Cézanne, a pintou dezenas de vezes (montagne Sainte -Victoire). 


MONTAGNE   SAINTE -  VICTOIRE ( 1895 , CÉZANNE ) 

As melhores informações que temos para entender o chumbo simbolicamente como ponto de partida para se alcançar níveis superiores da existência nós as encontramos nos textos da Alquimia.


Em todas as tradições, o trabalho alquímico, designado pelo nome genérico de Opus ou Obra em Negro, sempre considerou o chumbo como a base mais modesta da qual se pode partir em direção de uma evolução ascendente. As virtudes requeridas para que alguém se empenhe nesse trabalho são a paciência, a solicitude, a perseverança, a dedicação contínua e a coragem, isto é, as virtudes frias às quais nos referimos. O trabalho da transmutação do chumbo em ouro tinha, por isso, um caráter sagrado, já que pedia também o desapego das limitações individuais para que fossem atingidos níveis coletivos, mais universais.


             

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A GRANDE ILUSÃO*

               
1916. No “front” alemão, dois oficiais franceses, o capitão de estado-maior Boeldieu e o tenente da aeronáutica Maréchal estão presos num campo alemão. Seus companheiros de cativeiro são um professor, um engenheiro do cadastro, um ator e um judeu, Rosenthal. As diferenças de classe são esquecidas e a vida se organiza de maneira até mesmo agradável, graças à tolerância dos carcereiros. Apesar disso, como era natural de se esperar, todos os prisioneiros só pensavam na liberdade. 

Rosenthal e os dois oficiais são transferidos para uma fortaleza, comandada pelo junker von Rauffenstein, um aristocrata alemão à antiga. Ele trata com especial atenção o nobre aristocrata francês Boeldieu, mas faz com que uma disciplina rigorosa seja estabelecida. Ainda assim Maréchal e Rosenthal conseguirão fugir, graças à cumplicidade ativa de Boeldieu, que von Rauffenstein será obrigado a executar. Esgotados, os fugitivos serão abrigados durante alguns dias por uma camponesa alemã, antes de atravessar a fronteira suíça. 

O filme, de 1937, tem como diretor Jean Renoir, que assina também o roteiro, juntamente com Charles Spaak. Fotografia: Christian Matras. Música: Joseph Kosma. Elenco: Erich von Stroheim, Jean Gabin, Pierre Fresnay, Marcel Dalio, Carette, Jean Dasté, Dita Parlo, Gaston Modot e Sylvain Itkine. 


Oriundo de uma família de artistas, militando no cinema desde 1924, Jean Renoir (1894-1979) assumiu logo a posição de mestre
JEAN    RENOIR
da nova arte, demonstrando seu grande talento na adaptação de obras literárias, nas pesquisas de vanguarda, na sátira bufa e no melodrama social. Personalista, porque consciente do seu talento, foi um gênio na improvisação, sendo capaz de ir do sublime ao mais vulgar nas sequências que filmava com um mínimo de cenas. Atendo-se ao mais importante, sempre soube contar muito com uma surpreendente economia de meios, conseguindo, além disso, transitar por vários gêneros cinematográficos. 


Seus filmes são hoje considerados clássicos e alguns, dois em especial (A Grande Ilusão e A Regra do Jogo), estão obrigatoriamente na lista dos melhores filmes já realizados. O cinema de Renoir se encaixa naquela corrente que os críticos franceses chamaram de realismo poético, que marcou profundamente o cinema francês entre 1930 e 1950. Quando a nouvelle vague passou a dominar o cinema francês, a partir de 1960, o cinema de Renoir e outros de sua época (Carné, Clouzot, Duvivier etc.) foi, se não rejeitado, menosprezado, muito esquecido, subestimado. Com o tempo, porém, o cinema desses autores voltou com muita força, dando-se-lhe hoje um merecido reconhecimento. Renoir era filho do grande pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir. Seu ultimo filme, L`Année Sainte, data de 1976.

O realismo poético no cinema, saliente-se, apareceu ao mesmo tempo que o chamado realismo mágico nas artes plásticas. Este último, evitando o “realismo do banal”, propunha uma doutrina artística e literária que ficava a meio caminho entre o surrealismo e as teses realistas do século XIX. O realismo poético no cinema destacava o papel do roteirista, que muitas vezes era o autor da própria história. Os temas costumavam abordar a realidade socioeconômica da época “transfigurada”, valorizando-se as virtudes humanas, a camaradagem, a convivência do bairro, os bistrôs, os vieux quartiers e se condenando as guerras, o individualismo, a avidez do dinheiro, a insensibilidade das modernizações...

Dentre os principais filmes produzidos dentro dessa corrente, destacamos: Toni (Jean Renoir, 1935), A Quermesse Heroica (Jacques Feyder, 1936), Hotel do Norte (Marcel Carné, 1938), Cais das Sombras (Marcel Carné, 1938), O Fim do Dia (Julien Duvivier,
JACQUES   PRÉVERT
1939), Trágico Amanhecer (Marcel Carné, 1939), Boulevard do Crime (Marcel Carné, 1945). Grande parte da notável qualidade dos filmes da corrente deve ser creditada aos roteiristas, dois em especial, Charles Spaak e Jacques Prévert, este um dos maiores poetas da França, autor das letras das melhores canções modernas, além de cineasta, agitador cultural, criador de espetáculos etc. 


Realizou Renoir 9 filmes mudos e 27 falados. Acompanharam-no na parte técnica de A Grande Ilusão figuras excepcionais como
JOSEPH    KOSMA
o citado Charles Spaak, roteirista, Christian Matras, grande fotógrafo, e Joseph Kosma, nome importante da música europeia. Kosma fez todo o tipo de música, inclusive para o cinema e teatro. Sua música acompanhou textos de Raymond Queneau, Jean-Paul Sartre e Louis Aragon, dentre outros. Trabalhou com Brecht em Berlin. Duas canções suas (música) são consideradas como as mais belas do repertório francês no gênero, Barbara e Les Feuilles Mortes (letras de Jacques Prévert).


Outro grande nome do cinema está no filme de Renoir, Erich von Stroheim(1885-1957). Austríaco de nascimento, destacou-se como ator e em 1914 já estava em Hollywood. Como diretor, realizou o inesquecível Greed (1924), obra-prima do cinema mudo, e A Marcha Nupcial, além de outros. Um de seus últimos e grandes papéis no cinema foi o de Max von Mayerling em Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), no qual trabalhou com a “diva” Gloria Swanson, do cinema mudo, filme dirigido por Billy Wilder, outro austríaco emigrado.

Pierre Fresnay (1897-1975) é o aristocrata francês em A Grande Ilusão. Igualmente grande no teatro e no cinema, participou de mais de 60 filmes. Nos últimos anos de sua vida atuou na TV e dirigiu com sua mulher, a atriz e cantora Yvonne Printemps, o Teatro de la Michodière, em Paris.

Jean Gabin (1904-1976) iniciou a sua carreira no cinema em 1931 e nos trinta anos seguintes foi considerado o maior ator do cinema francês, fazendo sempre muito sucesso diante do público feminino. Era perfeito para filmes de mistério e policiais, nos quais atuava tanto como policial ou bandido. Ficou célebre como o inspetor Maigret, na série baseada na obra de Georges Simenon. Dentre seus grandes filmes, destacamos: A Grande Ilusão, A Besta Humana, O Gato, A Última Noite, A Virgem do Reno etc. 

Marcel Dalio (1900-1983) foi um dos atores preferidos de Jean Renoir, tendo participado de muitos de seus filmes. Nos anos
MARCEL   DALIO
quarenta, já conhecido ator da França, conseguiu escapar dos alemães (era romeno de origem judaica) e chegou a Hollywood. Apareceu em dezenove filmes nos USA. Muito citada é a sua participação em Casablanca, no qual trabalhou também sua mulher, Madeleine Lebeau. Depois da guerra retornou à França, trabalhando em alguns filmes. Em 1955, voltou aos USA para participar de uma série (Casablanca) para a TV. Desde então, sua carreira se dividiu entre França e USA. 


DITA    PARLO
O primeiro filme de Dita Parlo (1906-1971), polonesa de nascimento, Volta para Casa, é de 1928. Popular no cinema alemão, na década de 30, atuou também na França, onde se destacou por dois filmes L´Atalante (1934) e La Grand Illusion (1937). Foi para Hollywwod, mas lá não se adaptou. Com a eclosão da segunda guerra mundial, retornou à Alemanha, participando de poucos filmes. Voltou ao noticiário recentemente quando a cantora Madonna declarou que Dita Parlo sempre exerceu sobre ela um grande fascínio, o mesmo declarando uma famosa atriz do teatro burlesco, Dita Von Tesse, que a homenageou ao adotar artisticamente o seu nome. O último filme de Dita Parlo foi La Dame de Pique, de 1965.

Renoir e Spaak nos mostram em A Grande Ilusão que sua geração, a de 1914, foi duramente marcada pela guerra, pela prisão, pela mistura e pela abolição de classes sociais. Eles procuram exprimir as suas crenças na igualdade e na fraternidade humanas, indo além das fronteiras e das limitações impostas socialmente, das lutas fratricidas, para nos mostrar que os combatentes podem continuar a ser homens.


BOELDIEU    E    VON   RAUFFENSTEIN

Jean Renoir, que participou da primeira guerra mundial como piloto, baseou-se para fazer o filme numa história que lhe foi contada por outro piloto francês, seu amigo, capitão, de nome Pousir. Tendo sido preso pelos alemães sete vezes, ao longo da guerra, conseguiu Pousir fugir sempre. Afinal, como declarou o próprio Renoir, a guerra de 1914 a 1918 foi uma guerra de gentlemen e a Alemanha nazista ainda não existia...   

As fronteiras, como o filme deixa claro, são uma abstração absurda, os nacionalismo uma ilusão perigosa. Mas a esperança numa paz duradoura também o será, sem dúvida. Quanto ao amor, nada mais que uma pausa momentânea, uma breve trégua na tormenta. Esta é a regra do jogo social e individual. Não esqueçamos que os filmes de Renoir e de outros diretores do realismo poético foram realizados, principalmente, entre as duas grandes guerras do século XX.

A riqueza do filme está sem dúvida nessa ambiguidade ideológica e na sutileza com que a filosofia e a estética do decadentismo são apresentadas através do diálogo entre os dois aristocratas. Eles serão, como concordam, “demais” na nova sociedade, depois de terminada a guerra. Não haverá mais lugar para eles. Esse filme, talvez único na história do cinema, nunca pode, por isso, ser reivindicado pela esquerda “progressista” ou pela “direita reacionária”. Um filme de características universais!

No ano de 1938, A Grande Ilusão ganhou prêmios em todos os festivais internacionais. Sua mensagem era simples: numa guerra, todos são perdedores. Toda guerra é uma connerie, como diz Prévert. Por isso, A Grande Ilusão é um dos filmes mais anti-belicistas da história do cinema, tendo sido banido da Alemanha desde 1938 e declarado por Goebbels como “O inimigo cinematográfico nº 1” do nazismo. Os nazistas fizeram buscas na Europa inteira para destruir o copião (matriz) do filme, e chegaram a acreditar que o tivessem conseguido. Um negativo completo, porém, foi descoberto em Munique em 1945, restaurando-se depois o filme, em 1960, sob a supervisão do próprio Renoir. Não foi por acaso que Orson Welles,  um  dos  gênios  do cinema, declarou que 
A Grande Ilusão era o filme que ele gostaria de ter feito...

Para os que quiserem mais, recomendo que procurem na série francesa Cinema de Notre Temps o documentário de Jacques Rivette (1967) Jean Renoir, le Patron. 


* Apresentação do filme A Grande Ilusão - Ciclo de Cinema realizado no MUBE, em 2010/2011 para Lita Projetos Culturais. 



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O BANHO

                                                               AS BANHISTAS - PIERRE AUGUSTE RENOIR


Ato de molhar o corpo para higiene ou para refrescá-lo. Balneion, do Grego, balneum, do Latim. Ablução corporal. Desde a antiguidade, porém, o banho sempre foi considerado mais que limpeza. Associou-se à ideia de pureza, de purificação, de libertação do pecado.


MOHENJO - DARO


Uma das referências mais antigas que temos sobre a importância do banho pode ser encontrada nas ruínas de Mohenjo-Daro (3000-2500 aC), antiga cidade de um povo que viveu perto do rio Indus (noroeste da futura Índia), antes da chegada das tribos árias à região. As ruínas dessa civilização revelaram que havia na cidade uma construção retangular de mais ou menos 15 m x 8 m, um tanque denominado “O Grande Banho”, não só para banhos públicos mas também para cerimônias de limpeza ritual. À volta do tanque, numa construção mais elevada, salas com banheiros individuais provavelmente para uso das classes sociais superiores e sacerdotal. Essa prática também foi encontrada entre os povos que viveram no antigo México. Comuns eram os banhos noturnos entre os astecas e toltecas que dominaram o país, no período pré-colombiano. 

Os banhos, associados a rituais religiosos, sempre costumaram, em todas as civilizações, marcar cada nova fase na vida de uma pessoa. A participação nos chamados Mistérios de Eleusis, por exemplo, exigia banhos rituais no mar. Nos Mistérios eleusinos o que se buscava era uma espécie de renascimento: a morte do eu velho e o nascimento de um eu novo.

MIKVEH

No antigo Judaísmo, temos o exemplo da mulher que era obrigada a tomar um banho ritual denominado mikveh sete dias depois de terminada a sua menstruação mensal. Essa palavra, mikveh, significa reunião. Designava uma piscina alimentada por água de chuva ou fonte, para rituais de purificação e ablução. A nidá, a mulher menstruada, só poderia voltar a ter relações sexuais com o marido depois desse banho, renovando-se, assim, o pacto nupcial.

BATISMO DE CRISTO ( ANDREA DI VERROCCHIO )

Dentro do tema, encontramos também o batismo (eu mergulho, em grego), como proposta de purificação e de renovação. Como rito de agregação, o batismo, como o instituiu João Batista, é imersão (hoje apenas aspersão) e emersão. Apaga-se o pecado das origens e um novo ser surge para viver em Cristo. Ligado à ideia de um renascimento através do batismo, encontramos o tema do banho na famosa Fonte da Juventude.


FONTE  DA    FADA    VIVIANE   - BRETANHA ,  FRANÇA

As fontes sempre foram consideradas como lugares sagrados nas antigas culturas, suas águas fertilizavam a terra, águas que vieram do céu e que divindades do mundo subterrâneo faziam subir à superfície. Neste particular, revestem-se de importância especial as águas quentes das fontes termais, usadas para fins medicinais. A localização destas fontes na Grécia antiga era sugerida pelas creneias e náiades, respectivamente ninfas das fontes e dos ribeiros e riachos. Entre os romanos havia um festival chamado Fontinalia, celebrado no dia 13 de outubro, em homenagem ao deus Fons, deus das fontes, filho de Jano, o deus de duas faces, um dos mais antigos do panteão romano, e da deusa Juturna, ninfa creneia. Tradições semelhantes são encontradas no mundo celta, germânico-escandinavo, e outros.




FONTE    DE   JUTURNA ( FÓRUM  ROMANO , ROMA )


Comum é a representação em várias tradições de figuras femininas associadas às fontes, geralmente sob o aspecto triádico, ao qual a fonte está ligada como, simultaneamente, símbolo de casamento, fertilidade e educação de crianças. Em algumas línguas, aparentemente tão diferentes, como a inglesa e a chinesa, encontramos a palavra fonte para designar descendência. Em inglês temos offspring, isto é, “distância da fonte”, numa tradução bastante literal: em chinês, chuan é ideograma usado para descendência, composto por três elementos que significam água, pureza e origem.

A Bíblia refere-se aos quatro rios do paraíso que saem de uma fonte (Gênesis, 2:10-14), cuja água é “viva”, abrindo-se para as quatro direções do espaço, trazendo-nos ideias de renascimento e de vida eterna. A arte aproveitará bastante o tema da água das fontes, como, por exemplo, o encontramos numa das mais fantásticas obras pictóricas de todos os tempos, o políptico de A Adoração do Cordeiro Místico, da igreja de Saint-Bavon de Gand, Bégica, de Jan Van Eyck (séc. XV). No primeiro plano da obra, a fonte da vida, cuja água limpa, purifica, redime.



A  ADORAÇÃO    DO    CORDEIRO    MÍSTICO  ( JAN VAN EYCK )


Embora o Cristianismo tivesse valorizado o banho lustral (purificador), muitos padres da Igreja o condenaram como uma ameaça à castidade. Desde os primeiros tempos da Igreja os banhos se dividiam em quentes e frios, os primeiros vistos como perigosos, sensuais. Um exemplo é S.Jerônimo, pai e doutor da Igreja, séc.IV dC, que recomendava aos fieis se afastarem dos banhos quentes, um atentado à castidade.



Clemente de Alexandria, sécs.II-III dC, estabeleceu quatro tipos de banho: para o prazer, para aquecimento do corpo, para limpeza e por razões de saúde. Fazia muitas restrições aos três primeiros, admitindo o último, com reservas, e recomendando às mulheres que os frequentassem o mínimo possível. Santo Agostinho será um pouco mais tolerante, admitindo um banho quente por mês. Na Idade Média, os banhos públicos eram considerados pelo Cristianismo como lugares de depravação, proibidos aos cristãos. Devido a influências alquímicas, o banho frio no ocidente cristão poderia ser usado para fins de mortificação (mortificatio), no sentido de penitência, de flagelação do corpo, com o objetivo de reprimir ou refrear determinados sentimentos.

Cristianismo e banhos nunca se deram bem. Em muitos países da Europa, até recentemente, as restrições eram severas. Na Espanha, por exemplo, as mulheres não poderiam se banhar sem a permissão do seu confessor, pois se o fizessem sem essa autorização poderiam ficar doentes. Entre os povos eslavos do sul, as mulheres nunca poderiam lavar todo o corpo, prática que sempre trazia muita infelicidade. Há registros de que a mulher búlgara só poderia tomar um banho na vida, na véspera de seu casamento. A confissão bastava para “lavar” a mulher de todos os pecados.                                                          

O papa Nicolau I, no séc. IX, considerava funestos os banhos nas quartas-feiras e nas sextas-feiras, bem como durante a canícula e na festa de Tiago Maior. A canícula ia de 22 de julho a 22 de agosto. Na primeira data, a estrela Sirius, da constelação do Cão Maior, se levantava com o Sol, marcando o auge do verão. A festa de Tiago Maior era celebrada no dia 25 de agosto. As mencionadas datas, lembre-se, associam-se astrologicamente ao signo de Leão.

Até o séc. XVII, falava-se muito na infiltração da água quente do banho no corpo, o que tornaria os órgãos mais frágeis, deixando os poros mais abertos a ataques nocivos externos. Por isso, a higiene, em muitas culturas, até muito recentemente, esteve muito mais ligada ao vestuário do que ao corpo. Investia-se, por isso, na aparência exterior, isto é, muito mais na indumentária e em objetos de decoração corporal que na higiene íntima. Era a aparência como espetáculo. O banho debilitava, provocava a imbecilidade, abatia as forças.



Em meados do séc.XVIII, as coisas começaram a mudar. Surge, entre as elites francesas, um objeto que irá contribuir para que as restrições ao banho sejam atenuadas. Aparece a famosa cadeira de abluções íntimas, isto é, o bidé, bidet, do francês, na origem um pequeno animal (cavalo) de sela. O bidé de Mme. de Pompadour era muito famoso: espaldar com aplicações de pau-rosa em forma de flores e ornamentos de bronze dourado. Aparecem nas casas os quartos de banho, banheiras e bidés, ainda que seu uso fique limitado a uma elite. 


Muito usadas eram as práticas intermediárias entre a imersão e mudança de roupa. Tais práticas procuram “localizar” o banho: temos o semicúpio (cupa é vasilha grande de madeira) para o banho de imersão da parte inferior do corpo, o famoso banho de assento; lavam-se os pés e as partes que têm “menos contacto com o ar”. Muito usado também o banho por fricção, inclusive com perfumes. São as práticas parciais. As bacias são os utensílios de higiene mais usados. No início do século XIX, a palavra higiene ("o que é são", em grego) já não espantava mais ninguém. Descobre-se que há um “perigo” além do sujo. Há seres microscópicos ocultos, a água começa a ser usada para liquidá-los. Pasteur descobre os “monstros invisíveis”.

Temos hoje à nossa disposição várias formas de banho, conforme os padrões das culturas em que aparecem. Os finlandeses, por exemplo, inventaram o banho a vapor, a sauna; há o banho turco, como o finlandês. Entre os povos equatoriais, indígenas brasileiros e nações africanas, os banhos em água corrente sempre foram habituais, como divertimento, exercício, limpeza, integrando-se à vida diária. Entre os nossos índios faziam parte de certos ritos de iniciação. As jovens, no primeiro catamênio, acompanhadas de suas madrinhas, banhavam-se obrigatoriamente nos rios, fontes e mares. As filhas-de-santo, nos candomblés, durante a aprendizagem, banham-se com ervas aromáticas. No nordeste são comuns os banhos-de-cheiro para “tirar” o mau-olhado, para livrar alguém de um despacho, de um ebó. O grande dia (noite) para o banho-de-cheiro é São João. O verdadeiro banho-de-cheiro no catimbó tem as seguintes ervas (sete): arruda, alecrim, manjericão, malva-rosa, malva-branca, manjerona e vassourinha. Esse banho não deve ser tomado com o “Sol de fora”. Aconselhado nos dias de Ano Bom, Natal, Ascensão do Senhor, Sábado de Aleluia e Ressurreição. Nuca usar sabonete ou toalha.


Entre os antigos gregos e romanos o banho era item importante nas iniciações (mistérios eleusinos, dionisíacas, saturnais etc.). Lembremos que Medeia, feiticeira da mitologia grega, sobrinha de Circe, padroeira dos feiticeiros, sabia rejuvenescer através de banhos. Na Idade Média, havia o banho ritual de purificação do cavaleiro. Entre os ingleses, temos a ordem Knights of Baths, fundada em 1399. Na península ibérica eram comuns os chamados banhos de S.João.




De um modo geral, a água sempre mereceu muito respeito, veneração, que as práticas de higiene ainda conservam. Há uma série de recomendações para que a água não seja “ofendida”: não fazer ato fisiológico dentro dela; não tomar banho despido, com o sexo oposto; não cuspir na água; não praticar ato sexual dentro d’água, não bater na água com o calcanhar nem em água viva (rio ou mar); não blasfemar ou praguejar na água etc.



O    BANHO  ( PIERRE  BONNARD , 1867 - 1947 )


Em todas as tradições, o banho, principalmente o de imersão, se constitui como item importante, talvez o mais importante, nos ritos de iniciação. A imersão simboliza uma regressão às origens. O caráter regenerador da água é reforçado. A água, isto é, o banho iniciático aponta para novas formas de vida, equivalendo a uma morte simbólica, já que o elemento líquido é a origem e veículo de toda a vida. 

Alquimicamente, o banho faz parte do tema da solutio, operação que tem a finalidade de transformar sólidos em líquidos. Com a solutio há sempre a ideia de um retorno da matéria a um estado de indiferenciação, caótico. A solutio aponta para a dissolução das formas. Psicologicamente, ataca os estados fixos, coagulados, estáticos, da personalidade do ser humano. Neste caso, a solutio é uma operação da alquimia simbólica sempre vivida dolorosamente, com sofrimento.



BANHO DE BETSABÉ  ( REMBRANDT , 1606 - 1669 )


Um dos grandes exemplos da solutio de uma personalidade que se pretendia estruturada e fixada está numa passagem bíblica, tendo como personagens o rei David e Betsabé. O primeiro era rei de Israel, que se apaixonou por Betsabé quando a viu no banho. Ela era casada com Urias, soldado hitita, que David mandou para a frente de batalha na esperança de vê-lo morrer para poder ficar com a bela Betsabé. David, como se sabe, uniu-se a ela, tornando-a mãe de seu sucessor, o grande Salomão. 

Ainda dentro deste tema não podemos deixar de mencionar a mania que muitas pessoas têm de tomar banho. Esta mania vem sendo caracterizada como um sinal do chamado transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), um transtorno psiquiátrico que envolve elementos obsessivos e elementos compulsivos. Quanto aos primeiros, pensamentos e imagens persistentes, repetidas, incontroláveis; quanto aos outros, uma imposição interna irresistível que leva quem a experimenta a realizar um ato, no caso, banhar-se, para aliviar o desconforto ocasionado pela obsessão.

A mania de tomar banho pode começar com preocupações relacionadas com a sujeira, contaminação, pecado, culpa, remorso. Um dos três níveis pelos quais a água pode ser vista simbolicamente é exatamente o da purificação. Os outros dois níveis, lembremos, são a origem e a regeneração. No geral, a mania de tomar banho é raramente considerada sob a ótica do primeiro nível, o da origem, um desejo de dissolver tudo, de desintegração. A regeneração é reconstituição sem destruição do todo. Banhos constantes e repetidos podem indicar uma necessidade de retorno a um estado de indiferenciação, algo semelhante ao que a criança, antes de nascer, experimentava no ventre materno, mergulhada no líquido amniótico. 

O âmnio é uma membrana que se desenvolve em torno do embrião, nos vertebrados superiores, onde está contido o líquido amniótico , que o protege contra choques e agressões, mantendo-o alimentado, numa temperatura ideal É neste sentido que a mania de tomar banho pode se revelar como um grande desejo de retorno ao ventre materno, lugar de paz e tranquilidade, para que ali possa o maníaco readquirir a sua deliciosa e inolvidável condição de amniota.