quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

KAFKA E A BARATA


  
A lista dos intérpretes de Kafka, dos seus exegetas, é enorme. Tornou-se ele, a partir da década de 1950, um dos escritores mais lidos do mundo, pelo impulso que, Breton e Gide, dentre outros, mais os surrealistas e existencialistas franceses, como Sartre e Camus, deram à sua obra. Jean-Louis Barrault, com a colaboração de André
JEAN-LOUIS BARRAULT
Gide, fez, em 1947, uma adaptação de O Processo, colocando-o ao alcance do grande público parisiense. O resultado foi uma soberba montagem teatral, apresentada no teatro Marigny. Aos poucos, as edições e traduções das obras de Kafka aumentaram. Foram feitas adaptações para o teatro, ópera (A Metamorfose, por exemplo, voltou a ser adaptada recentemente e transformada em ópera por Michael Levinas, em 2011, em Lille, França) e cinema. Do seu nome saiu até um adjetivo, kafkiano, usado por pessoas que talvez não saibam quem tenha sido ele.


A METAMORFOSE NO TEATRO

 Em 1915, em Leipzig, apareceu uma novela sua, “fechada”, chamada A Metamorfose. Esta novela, como toda a sua obra anterior e posterior, tem um caráter parabólico, isto é, ela nos remete a outro sentido que aquele da narração. Ao que parece, A Metamorfose é o início de uma reflexão que terminou em 1919 com Carta ao Pai. Neste último texto, Kafka trata de suas paradoxais relações familiares, nelas se mesclando sentimentos de admiração e de desprezo, de repulsão e de atração, reveladores de um conflito permanente com a poderosa figura paterna. Dependendo do ponto
ABRAÃO E ISAAC
de vista adotado, podemos pensar, nas sondagens iniciais para tentar ampliar as nossas especulações, quando nos aproximamos de Carta ao Pai e A Metamorfose, em três complexos que pareceram vitimar Franz, o de Édipo, o de Isaac e o de Kronos. Entrando um pouco mais em Kafka, porém, percebemos logo que ele pode nos oferecer muito mais.   

Em A Metamorfose, o caixeiro viajante Gregor Samsa acorda certa manhã e se vê metamorfoseado numa barata, um grande coleóptero. Sua família fica horrorizada, prende-o no seu quarto. Só sua irmã lhe oferece alguma compaixão, alimentando-o. Incapaz de se comunicar com os seus, embora os compreenda perfeitamente, Gregor se fecha em sua solidão. Seu único prazer era o de andar pelas paredes do quarto. Mas suas forças vão começando a abandoná-lo.

Um dia, ouvindo sua irmã tocar violino, sai do quarto. Sua aparição
GREGOR ANDANDO PELAS PAREDES
provoca um novo escândalo. A família terá que se mudar. Entram os
donos do imóvel na questão. É preciso que a família se desembarace do monstro. Num estado de extrema fraqueza, Gregor exala seu último suspiro. A empregada da casa dá fim ao cadáver. A família, reconfortada, concede a si mesma algum repouso e já sonha com melhores dias: Grete poderá se casar.

Uma coisa que sempre me intrigou em A Metamorfose foi a questão da barata. Aliás,  não só a barata, mas as muitas referências que Kafka faz em sua obra a pequenos animais, cães, gatos, ratos e  insetos que vivem em tocas, frestas, pequenos orifícios. A crítica oficial e os estudiosos da obra kafkiana em geral, salvo algum registro ocasional, muito superficial sempre, passaram ao largo desta questão, ficando invariavelmente presos aos seus “temas maiores”. Ora, os “temas menores” em Kafka, quando nos aproximamos deles mais detidamente, são capazes de nos revelar o quão multifacetada foram a sua curta vida e variados os seus interesses. Para mim, são os “tons menores” em Kafka que nos permitem estabelecer ricas comparações, analogias surpreendentes, encontrar o semelhante no dessemelhante, relações inúmeras que tornam ainda maior a sua obra. Inscrevo nesta observação, por exemplo, questões que podemos levantar diante da expressão que ele usou, “morrer como um cão”, para se referir à morte de Joseph K. em O Processo ou o simbolismo da barata em A Metamorfose.
   
Aqui entro com a astrologia, uma arte difícil, que exige um aprendizado constante, mas sempre um recurso possível para se abrir outras vias de acesso a obras artísticas, literária no caso, além daquelas que os meios da crítica tradicional fartamente oferecem. Esta utilização da astrologia se justifica a meu ver porque, com ela, é possível se investigar num outro plano uma questão que me parece fundamental: a de que toda obra literária traz consigo as marcas de seu autor, sobretudo do seu temperamento, do seu modo de ser, da sua presença no mundo. Para a astrologia, todo autor se projeta de uma maneira mais ou menos perceptível na sua obra, uma projeção que ela visualiza de um modo muito diferente daquele que a crítica oficial apresenta, mesmo que recorrendo a biografias ou autobiografias. O alcance da astrologia é de outra natureza, como, acredito, se perceberá.

Assim, ao mesmo tempo em que ia visitando a obra de Kafka pela via astrológica, resolvi, para complementar essa visita (e lá se vão muitos anos!), dar um mergulho no ambiente físico em que ele viveu (ou no que restaria dele), fazer uma total immersion, para usar uma imagem da natação (que Kafka chegou a praticar), cara aos que entram com tudo no que fazem. Estávamos no final dos anos 80 e parti para Praga, felizmente ainda não desfigurada pelos “sopros democráticos” que logo viriam. Os bairros, as praças, as pontes, as avenidas, as ruas, os monumentos, os edifícios e as vielas estavam ainda bem preservados, como nos tempos em que Kafka lá vivera. 

PRAGA COM O CASTELO E SUA IGREJA AO FUNDO

Tudo isso aconteceu depois de muitas leituras e estudos sobre Kafka, de ter compulsado o que de mais substancial e sério se escrevera sobre ele, dos depoimentos de alguns que com ele haviam convivido. Por dias e dias, perambulamos a pé por Praga, eu e minha mulher (encarregada de tudo registrar fotograficamente); visitamos os lugares por ele frequentados, descobrimos as casas nas quais morou (principalmente em Josefov, o bairro judeu, e na 
CIDADE VELHA
Cidade Velha, onde alugamos um quarto); estivemos na casa em que nasceu e terminamos no cemitério judaico da periferia onde está enterrado. Sempre procurei nos cenários visitados e nos muitos textos lidos a que lá tive acesso, em bibliotecas e centros de cultura, outras informações sobre ele e, em especial, a razão da sua escolha da barata como alter ego de Gregor Samsa em A Metamorfose. Sobre Gregor, encontrei muita coisa, mas nada sobre a questão que carregava comigo. Desde então passamos, nós e alguns amigos, também leitores de Kafka, a chamar baratas de gregórias...

Sobre Kafka, parece que tudo já foi dito. Não há interpretação que não tenha sido feita, ângulo que não tenha sido explorado. A partir da década de 1940, sua obra converteu-se num dos pontos mais elevados não só da literatura mundial como do pensamento moderno, seja pelo seu caráter profético, por sua amplitude simbólica, pela sua religiosidade, pelo seu ceticismo, pela sua visão do desespero humano, pelas suas fascinantes maneiras de escrever sobre tudo isto, pela sua fé e pelo seu caráter humanitário, apesar de tudo. Não aceitava, como muitos estudiosos entendiam, que seus personagens fossem apenas uma encarnação de todos os párias do mundo.

Nascido em Praga, a 3/07/1883, às onze horas da manhã, este judeu de língua alemã foi, de fato, um ser totalmente excluído: pelos judeus, pelos alemães e pelos tchecos. Numa existência
HERMANN, PAI DE KAFKA
provinciana, apagada, com raras e curtas viagens a países vizinhos, quase não saiu de Praga, do bairro judeu, Josefov, e da chamada Cidade Velha. No mais, um pai tirânico e insensível (Hermann), uma mãe ausente (Julie) e três irmãs que sobreviveram a ele (Kafka morreu em 1924) e que morreram em campos de concentração durante a segunda guerra mundial.

Viveu Kafka ao todo quarenta e um anos. Durante catorze, exerceu funções burocráticas, em companhias de seguro (advogado). Noivo
FELICE E KAFKA
de Felice Bauer, alemã, não se casou. Duas ou três mulheres entraram na sua vida, de modo especial, talvez, só Milena. Sua correspondência com ela foi transformada em livro. O que existe de mais importante e significativo na literatura mundial está com Kafka, é citado geralmente ao lado de seu nome: Dostoievski, Thomas Mann, Flaubert, Goethe (um virginiano que fez e analisou o seu próprio mapa astrológico), Tchekhov,
O JOVEM GIDE
Strindberg, Kierkgaard, Gide, Joyce, Sartre, Camus, Proust, Hoffmannsthal, Brentano, Nietzsche, Byron, Schopenhauer, Tolstoi e muitos outros. Parte da obra de Kafka permanece inconclusa. Algumas tendo até versões diferentes.  A melhor compreensão virá dos textos “fechados”, acabados, como A Metamorfose e Carta ao Pai, além de pequenas referências autobiográficas, cartas, cadernos, aforismos. A Metamorfose, de que trato aqui, é, como disse, uma novela “fechada”.

No todo, a vida de Kafka é uma paixão ilimitada pela leitura, uma vocação literária como poucas a desse virginiano clássico, que se
ELIAS CANETTI
tornou um excepcional grafocrata (compulsivo escritor de cartas), no dizer de Canetti. Com efeito, só a turbulenta correspondência que manteve por cinco anos com Felice Bauer daria um livro de setecentas páginas. Tudo isto, tudo que saiu da sua pena, veio sempre amparado por uma técnica expressiva singularíssima, por uma capacidade analítica sem igual, cheia de aspectos descritivos, onde pontificam o detalhismo e a investigação, traços marcantes de sua personalidade virginiana. Abundam as referências a pormenores: observar, notar, atentar, detectar, esmiuçar, dividir, classificar, são verbos seus, muito usados pelos nativos do signo. Sua descrição é exaustiva. Atmosfera sufocante, perfeccionismo, retração do horizonte visual. 


 A visão de Kafka é microscópica, uma visão focada e precisa (lembro aqui que o microscópio é um instrumento que faz parte do mundo virgo, onde pontificam todos os que lidam com coisas pequenas, micro-organismos, detalhes, como entomólogos, citologistas, patologistas clínicos, gente que lida com a física atômica e subatômica etc). Tudo o incomodava, como se tivesse vibrissas hipersensíveis. Daí as suas inúmeras mudanças de uma residência para outra. Um ruído mais forte no quarto da casa ao lado e ele se mudava, às vezes para duas, três casas adiante, na mesma rua. Uns meses depois voltava ou ia para uma outra rua próxima. Nunca saiu do bairro judeu e da Cidade Velha.

Acredito que para melhor compreensão do que aqui se expõe quanto ao signo de Virgem (e por extensão com relação a Kafka), será registrar que no mundo das letras a arte da crítica, da boa crítica acentue-se, é território virginiano. A começar pela etimologia da palavra crítica: o verbo grego que lhe dá origem,
ALFREDO BOSI
krino, quer dizer separar, saber separar; distinguir e escolher são verbos de Virgem (somar é verbo de Touro e multiplicar é de Gêmeos). Entre nós, por exemplo, um dos nomes mais representativos da história da literatura e da crítica literária é o do virginiano Alfredo Bosi. 



RUA DOS ALQUIMISTAS, ONDE KAFKA MOROU
Não é por acaso que Maurice Maeterlink, famoso escritor belga, poeta, filósofo e naturalista, como um bom virginiano, escreveu A Vida das Abelhas e A Vida das Formigas. É trabalhando com os
ARNOLD SCHOENBERG
mesmos impulsos do signo que um compositor virginiano como Schoenberg criou a música atonal, decompondo a escala musical; não é também por acaso que Lavoisier, o criador da química moderna, grande defensor do uso sistemático da balança, tenha feito a distinção dos elementos ou que Buffon, outro virgo, grande autor de História Natural, tenha explicado a origem das espécies a partir das moléculas orgânicas...   

A obra kafkiana admite vários níveis de interpretação: religiosa, teológica, política, social, profética, psicanalítica. Outros pensaram


numa aventura individual desesperada em busca da graça, algo que lembraria o Pilgrim’s Progress, de John Bunyan. Qualquer que seja o enfoque, o que temos sempre para nos falar desse universo são as parábolas, as alegorias, as metáforas, os símiles, as metonímias, as metábases, as perífrases e outras figuras de uma retórica alucinante. Sempre um magistral criador de frases “negras”, de enigmas, de aforismos, de apotegmas, uma produção que o caracteriza como um exemplo único na literatura. É por isso que quando nos aproximamos de Kafka não podemos falar de escritores que o tenham antecedido nos territórios em que ele se aventurou nem de escritores que possam ser considerados como seus seguidores ou herdeiros.

A ideia da transformação de GS numa barata só poderia vir de um virginiano clássico como Kafka, já que Virgem é o signo dos pequenos animais, insetos no caso. Embora a crítica literária não

tenha especulado sobre o uso simbólico da barata em Kafka, quem mais discorreu sobre ela, como uma extravagância literária, foram os entomologistas. Vladimir Nabokov, por exemplo, nos deixou algumas observações, inclusive em palestras, sobre a questão dos insetos em Kafka, mas falou deles mais como um entomologista e taxonomista que era do que como um escritor. Ao que parece foi das informações de Nabokov que Robert Crumb retirou a ideia de transformar Samsa num besourão (Kafka de Crumb, publicado pela Desiderata, no Brasil). Essa designação, besourão, pode ser encontrada no texto de Kafka. Quem a usa, como já se observou, é a empregada da casa, provavelmente com a intenção de se tornar mais simpática ao irritado e amargurado pai de Gregor.

 Evidentemente, os entomologistas se escandalizam diante do “novo Gregor” quando se aproximam de A Metamorfose, não entendendo ou custando muito para admitir o uso da barata como


símbolo.  Impossível pensar, diz um deles, numa barata como Gregor já que elas não têm, como os humanos, sistemas circulatório e respiratório tão desenvolvidos. Gregor não poderia sobreviver. Se levarmos o corpo da barata à escala humana, prossegue, o sangue de seu sistema circulatório, contendo oxigênio e nutrientes, nunca seria capaz de alcançar todas as suas células. Enfim, é a velha incapacidade aristotélica (“a é igual a a e não pode ser b”) que têm os homens de ciência (sobretudo os das exatas) de lidar com símbolos, com polissemias e com o pensamento analógico, que nos permite captar relações de semelhança que nada têm com igualdade entre fatos e coisas. Sentir-se como não é ser...  

A despeito destas opiniões, lembro, por exemplo, que as baratas, apesar da sua fama de ter mau odor e da sua associação com a sujeira, são consideradas como benéficas em muitas tradições. Folclore ou não, se elas se forem de uma casa podemos esperar alguma infelicidade. Os homens do mar sabiam antigamente que quando as baratas abandonavam um navio era de se temer um naufrágio. Além do mais, é preciso salientar que como símbolo de resistência a barata é imbatível; a própria ciência nos diz que as baratas, na forma em que as temos hoje, estão na Terra há mais de 400 milhões de anos, enquanto a forma do “homem moderno” só se definiu nos últimos 50.000 anos. Grande viajante, de natureza expansionista, ela é também um grande símbolo de adaptação;  encontrada hoje no mundo todo, mesmo nos polos, ela consegue encontrar seus nichos ecológicos em cozinhas, banheiros e tubulações de esgoto, sabendo compartilhar cuidadosamente com outras, de espécies diferentes, os espaços que ocupa. Estas informações, parece-me, talvez possam a nos ajudar a encarar Gregor Samsa e sua metamorfose de um modo bem diferente.

 Astrologicamente, Kafka tem em seu mapa astral quatro signos muito importantes, Câncer, Gêmeos, Touro e Virgem, que, ao lado das informações que nos dão e das retiradas da sua hereditariedade, de poderosos atavismos, e do seu meio social nos revelam muito sobre sua vida e obra. Por ter nascido em julho, no dia três, era Kafka um canceriano, em termos de personalidade básica, de eu profundo, solar. Daí vêm as questões raciais e familiares de sua vida e a sua incansável busca de um lugar onde pudesse viver (sonhou muito com viagens, em emigrar, inclusive para a América do Sul). Acrescente-se a tudo isso muita sensibilidade, anseios de vida comunitária, atração pela vida familiar, necessidade de aconchego, receptividade, suscetibilidade, caprichos. Kafka lembra muito, nestas questões familiares, Schubert (ascendente Câncer). Em Kafka, é do seu mundo canceriano, cheio de idiossincrasias, que vem a sua famosa sensibilidade com relação a ruídos, à atmosfera de ambientes e suas tendências claustrofílicas. Seu conto O Covil é uma das mais fantásticas ilustrações desse seu componente básico virgo-canceriano. Doença ou arte? Aliás, lembremos, foi outro canceriano, Proust, de pulmões muito fracos como Kafka, que nos últimos anos de sua vida se fechou num quarto forrado de cortiça para neutralizar os ruídos da casa e da cidade que muito o incomodavam, uma maneira que encontrou para poder terminar a sua obra antes de morrer. 


KAFKA JOVEM
Outra influência poderosa em Kafka é a do signo de Gêmeos, onde ele tem, dos dez astros que consideramos na astrologia, cinco: Plutão, Saturno, Mercúrio, Vênus e Lua. É desta conjunção múltipla (stellium) que saem os seus impulsos literários, seus traços mentais e intelectuais. Gêmeos é um signo de ar, cujas características predominantes são a versatilidade intelectual, a facilidade para obtenção de informações, a curiosidade, a comunicação verbal e/ou escrita ativadas, características que apontam para sua mania de escrever cartas, para seus interesses múltiplos, inclusive aqueles onde entrasse o uso das mãos (habilidade motora fina), aos quais se juntam as poderosas influências virginianas: interesse por marcenaria, jardinagem, esportes, nutricionismo, vegetarianismo etc. Gêmeos lhe oferece tudo isto, mas, por outro lado, inclina-o bastante ao nervosismo, à insatisfação, às inquietações, às oscilações de humor, seu lado moody (conjunção Lua-Vênus).

São esses dois signos, Câncer e Gêmeos, mais a influência taurina, que explicam sua causa mortis. Em junho de 1924, depois de mais ou menos dois anos de problemas respiratórios, um câncer na laringe ou pulmão o matou. Touro, como se sabe, governa a garganta, Câncer tem a ver com a matéria pulmonar (asma, bronquites, dificuldades respiratórias etc) enquanto Gêmeos, o signo das trocas, governa o mecanismo da respiração.

Em astrologia, o ascendente é o signo da hora do nascimento (a constelação para a qual a Terra se volta nesse momento). É o signo que descreve a nossa personalidade mais visível, o modo pelo qual somos captados mais espontânea e imediatamente pelos outros. É a nossa persona, digamos. Fala o signo ascendente muito da nossa aparência, do nosso corpo físico, daquilo que projetamos, enquanto o nosso eu interior será descrito em grande parte pelo pela posição solar. A personalidade virgo, no geral, se inclina na direção de um temperamento nervoso, sempre causador de dificuldades para a vida afetiva e emocional. Virgem é o signo que antecede o de Libra, signo das uniões. Eis aqui apontada uma das razões pelas quais os virginianos como Kafka sempre encontram muita dificuldade para
KIERKGAARD
se unir, sendo o signo conhecido, por isso, como o dos ritos liminares, como o do noivado, totalmente esquecido hoje. Kafka, como Kierkgaard, outro com poderosas influências virginianas, sempre estiveram para se unir, mas nunca ousaram ultrapassar certos limites, passar pela porta (a angústia dos virginianos diante das portas) que os levaria a uma união. Foram “noivos eternos”.

Com Virgo e com Gêmeos em Kafka, na distribuição planetária de seu mapa, há uma grande intensificação da vida psíquica e mental e, ao mesmo tempo, uma grande retração com relação à vida instintiva. Decorrem daí as dificuldades de adaptação de Kafka ao exterior. Nitidamente seletivo, os acontecimentos, os menos significativos, aqueles que não deveriam merecer maior atenção, ganhavam sempre para ele muita importância. Juntando-se a estes componentes as influências cancerianas, temos as suas as inquietações permanentes. Sempre perscrutando, examinando, sondando, verificando. O apelo da vida é sempre uma ameaça permanente à paz. Por isso, não deixar entrar o exterior. Esquivar-se, recusar-se, fechar-se. No lugar, a literatura, investida agora de prerrogativas que antes, quem sabe, estariam reservadas aos textos sagrados.

A disposição geral de Virgo é a de reter (saídas só pelo mental). Um dos pecados dos tipos clássicos do signo, como Kafka, é o da dificuldade de dar por concluída alguma coisa; ficam eles num
BONNARD
rever e num repassar eternos (vide o que Bonnard fazia com os seus quadros), em cima de telas, composições musicais, textos, de um orçamento, porque o ato de separar o principal do acessório é sempre dramático para eles. As grandes linhas do cenário virginiano se desenham então: controlar, dominar, disciplinar; tendência à economia, à parcimônia, à acumulação, à conservação. Diante de tudo isto, o caráter sério, consciencioso, escrupuloso, reservado, cético, metódico, ordenado, intolerante, ligado às regras, às tarefas, voltado para as coisas difíceis, ingratas e penosas, sempre visando a satisfazer acima de tudo um sentimento de segurança ultraprotegida.

Desembaraçar-se da vida emocional, sentimental, sempre fonte de aborrecimentos, é uma grande tentação para os de Virgo. As afinidades do signo levam muitos de seus tipos a colocar sempre a pequenez do homem solitário diante das figuras destrutivas do destino. Por causa dessa retração do eu, dessa recusa da vida instintiva, o tipo virgo, no qual Kafka se encaixa, procura reforçar as suas barreiras, criar limites com seus hábitos e suas manias. É ao longo do eixo Virgo-Peixes, não esqueçamos, que se verificam normalmente os casos de TOC (transtornos obsessivos-compulsivos), com seus personagens típicos. 





 É desse mundo que saem os sonhos recorrentes com insetos, pragas,  parasitas,  vermes,  micróbios,  bacilos   etc.,   a   mania   de limpeza, o horror da sujeira. 

Encontramos em As Cartas a Milena: Eu sou sujo, Milena, infinitamente sujo, é por isso que eu grito tanto pela pureza. Ninguém canta mais puramente que aquele que habita o mais profundo inferno  é este canto que nós tomamos pelo canto dos anjos. Esta breve referência que aqui faço ao tema da limpeza em Kafka pode nos ajudar a entender porque, ao longo da história do homem, na política, na religião, na vida social e em outros setores, foram os virginianos que assumiram o papel de controladores da pureza doutrinária, religiosa ou racial, da pureza em todos os sentidos, em várias sociedades: Beria, com relação ao estalinismo, e Goebbles, com relação ao nazismo, ambos virginianos, são exemplos.

Neste item sobre a pureza em Virgem, não posso deixar, porque exemplar como poucas, uma referência talvez àquele que tenha sido a melhor ilustração desta qualidade na política. Refiro-me a Louis-Antoine de Saint-Juste, que tinha, dos dez planetas que hoje consideramos na Astrologia, seis no signo de Virgem. Incorruptível, seu ideal de pureza levou-o a uma forma especial de fanatismo responsável por frases como esta: “As armas da liberdade não devem ser tocadas senão por mãos puras”.

Permanecendo ainda neste item, não é por outra razão que, entre os judeus, os levitas representavam, na distribuição zodiacal dos doze signos astrológicos (um para cada tribo), o signo de Virgem. Eram os levitas os responsáveis pelos cuidados do templo e do tabernáculo e pela pureza do alimento a ser consumido, a comida kasher (etimologicamente, apropriado). Uma pessoa kasher é aquela que, dentre outras coisas, cumpre as leis dietéticas.

Foram os antigos judeus, sem dúvida, dentre os povos da antiguidade, os que mais se voltaram para a questão da pureza. O código de pureza que estabeleceram está fixado nos Levíticos 11-16 e indiretamente em 17-22, ainda que muitos outros preceitos sobre o assunto estejam dispersos pelo texto bíblico. Os Levíticos formam um código cerimonial que contém as disposições básicas sobre o assunto, no tocante aos sacrifícios, ao sacerdócio e às leis da pureza. Daí, as expressões como “pureza levítica”. Levi (etimologicamente, apegado, ligado) era o terceiro filho de Jacó e de sua esposa Lea, filha de Laban, prestando os seus descendentes os serviços ao templo.

Entre os antigos judeus, segundo a sua arte astrológica, uma pessoa sob a influência de Elul (nome do signo) apresenta uma inclinação natural para a análise, dando sempre muita importância a detalhes,

mesmo os insignificantes. Há uma tendência natural para o perfeccionismo, para uma acentuada postura introspectiva diante da vida e para a frieza emocional. Essas tendências, contudo, se trabalhadas segundo a Torá, poderiam ser superadas.  Sem este auxílio, teríamos a compulsão para coisas pequenas, a confusão entre o que é mais importante e o que não é. Características negativas importantes: falta de confiança, dúvida, paralisia diante das escolhas.  Lembre-se que o nome Elul, como quase todos os demais de sua adiantada astrologia, foi herdado dos babilônicos; designava o sexto mês do ano (agosto-setembro), correspondente ao mês da colheita.


A letra Yod associa-se a Elul na medida em que significa pensamento, raciocínio, apontando para um futuro a ser criado, que a conhecida estrela (signo) de Salomão, de seis (número de Virgem) pontas simboliza. Segundo os antigos astrólogos judeus, as faculdades da percepção e da compreensão são femininas. Por esta razão, o signo de Elul tem a forma feminina, uma virgem, que representa a modéstia, a pureza, características essenciais para o retorno do divino. Os textos astrológicos judaicos atribuem a mão esquerda a Elul, indicando este lado, aqui, materialidade e ação. Com a letra Yod, temos os conceitos virginianos de sabedoria e ação no mundo. 

De toda essa retração do eu que encontramos em Virgem, costuma resultar, nos tipos mais malogrados, sem dúvida, um sentimento de inferioridade. Progressivamente, se instala um efeito de intimidação que traz um auto apagamento, uma evanescência, que pode chegar à perda do eu. Mas em Kafka, e eis aqui a sua genialidade, sempre ficou, por trás desse ser que ia se transformando “numa coisa a ser esmagada”, uma consciência que sabia bem o que valia e o que queria, mas que não tinha condições de ocupar um lugar entre os seus semelhantes.

A Metamorfose admite vários níveis de leitura, aliás, como toda a obra de Kafka. Não a podemos ver como um sonho doentio, louco, se pensarmos que o ser humano, a todo  momento, é espezinhado em seus direitos, assemelhando-se a um mero e vil inseto que pode ser varrido sem maiores considerações por um criado qualquer da engrenagem. 


Como não ver em O Processo e O Castelo a representação do absurdo que é este mundo sem paz, sem tranquilidade, um mundo vítima de suas próprias contradições, caótico, alienado, enlouquecido, que desconsidera, avilta e aniquila o ser humano, mas em torno do qual tudo deveria girar – o homem vivendo com outros homens em sociedade, fraternalmente, igualitariamente. A obra de Kafka antecipa as formas de totalitarismo que vieram depois dele. O desespero, o absurdo, e tudo o mais poderia ser diferente. Precisaríamos de pouco, de muito pouco. Um mundo infinitamente próximo e, no entanto, infinitamente distante. É esta a situação absurda de Praga ao final do século XIX: alemães, tchecos e judeus, embora ligados por muitas coisas em comum (costumes, cultura, tradições), não se entendiam.

O que Kafka sempre buscou foi a legitimação de sua existência. Lutou até o fim para não se sentir um excluído, um estranho. Viveu sempre com uma sensação de risco, de perigo iminente, pelo excesso de sensibilidade. Temores, ameaças, labirintos (outro tema de Virgo). Daí sua vontade de desaparecer, morrer, volatilizar-se, metamorfosear-se. Transformar-se numa barata ou no pequeno animal de O Covil. A psicologia, numa visão reducionista, poderá ver em A Metamorfose, uma ilustração daquilo que chama de despersonalização, a perda do sentido de identidade pessoal.

Talvez seja. Mas A Metamorfose e toda a obra de Kafka vão certamente além. Ela está psicológica, social e metafisicamente centrada naquele ponto de encontro das tensões entre as relações pessoais e coletivas. Kafka, como poucos, chegou a esse ponto: mais que uma discussão sobre a condição humana, o que temos, com ele, é a discussão sobre o homem em situação. A enorme carga simbólica de sua obra, a sua vibração trágica, seu admirável poder metafórico permitiram que ele desse forma, esteticamente, à angústia do nosso tempo, aos nossos tormentos pessoais, europeus sobretudo, aos nossos dilemas, à nossa impotência e à nossa esperança. A grande parábola de nosso tempo está em Kafka, talvez no seu todo a maior construção literária dos tempos modernos.

Kafka tinha consciência do que representava. Recusava comédias sociais, álibis, representações, encenações hipócritas. As religiões oficiais não o satisfaziam e, no entanto, foi o mais religioso de todos os homens. Disse de si mesmo: “sou um término e um começo”. As filosofias também não o tocavam. Deixou claro que o homem nasce na solidão do desafio buscado por si mesmo. Ele tentou chegar à sua terra prometida, acreditou na possibilidade de se realizar entre os outros homens. “O instante decisivo da evolução humana dura sempre”, é uma de suas melhores frases.