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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

MAL DI LUNA



A   LUA ( TARSILA  DO  AMARAL , 1886 - 1973 ), MOMA, NY

Em razão de sua rápida movimentação e das transformações periódicas pelas quais passa na sua trajetória celeste, a Lua, em todas as culturas, sempre apareceu associada aos valores da mudança, da inconstância, da mobilidade.  No ser humano, ela rege a vida infantil, arcaica, anímica, tendo relação com a zona noturna da sua personalidade como matéria constitutiva da própria anima, do princípio feminino passivo, maternal, e das trevas do inconsciente. É deste modo que o astro lunar, quando pensamos no ser humano, tem relação com os temperamentos linfáticos, digestivos, dilatados, que caracterizam o chamado complexo maternal, que se traduz por uma sensibilidade crepuscular, voltada para a vida vegetativa, temperamentos fortemente marcados pelo instinto de conservação, pela prudência, pela propensão à calma e ao repouso. Seres que, ao invés de adquirir uma forma, de conquistar uma individualidade, sempre nos dão a impressão de tomados por um forte desejo de se demorar na infância, de prolongá-la, de preferirem o interior ao exterior, de viverem dentro de uma concha, de se refugiarem no passado.
O comportamento lunar apresenta, como tal, relação com a vida instintiva, anímica, infantil, caprichosa, inconstante, quimérica, sonhadora, inconsciente, noturna, por oposição à vida solar, racional, adulta, firme, brilhante, que se pretende constante, afirmativa e consciente. Sentimental e imaginativo, o lunático é o que sofre influência da Lua, sempre um indivíduo de humor inconstante, incoerente, excêntrico, muitas vezes idiossincrático ao extremo. Lunaticus era o adjetivo que os escritores romanos usavam para designar tanto o maníaco como o epiléptico, males sempre atribuídos a influências lunares. 

LUIGI   PIRANDELLO

MALE  DI  LUNA
Em 1913, Luigi Pirandello publicou uma novela chamada Male di Luna, que nos descreve um personagem que nas noites de Lua cheia apresentava mudanças no seu comportamento. Esta história, com outras quatro do mesmo escritor, foram filmadas pelos irmãos Taviani em l983. O filme, chamado pelos seus autores de Kaos, teve o seu nome retirado, segundo explicações deixadas pelo próprio Pirandello, que nasceu em 1867, num local chamado Càvusu, na língua regional, próximo de Agrigento, ao sul da Sicília. Depois o nome do lugar foi abreviado para Càusu, palavra derivada do grego kaos.


VITTORIO (1929-2018) E PAOLO TAVIANI (1931)
Male di luna, no filme dos Taviani, nos conta que Sidora, três dias depois de sua lua-de-mel, descobre que, durante a Lua cheia, seu marido, Batà, fora de casa, passava a noite uivando como um lobo, arranhando a porta e janelas da casa. Batà tentou salvar o seu casamento permitindo que o belo Saro passasse as noites dentro de sua casa, com a sua mulher, para protegê-la,

NA  ILHA  DE  LIPARI

O filme é todo de inspiração lunar. O seu epílogo, uma história chamada Colloquio con la madre (Conversa com a Mãe) descreve o próprio Pirandello fazendo uma visita ao seu lar na Sicília, muitos anos depois de sua mãe ter morrido. Na conversa que mantém com ela, o personagem lhe pede que conte a história de uma viagem que fez quando criança, à ilha de Malta, aonde foram visitar seu pai, lá exilado. A sequência final nos mostra crianças escorregando em direção do mar na ilha de Lipari.

KAOS
Os contos de Pirandello que dão origem ao belo filme dos Taviani têm relação com a sofrida vida camponesa, gente que trabalhava no campo, muitos permanentemente tomados pela ideia de emigrar. Interessante destacar que Pirandello chegou a afirmar algumas vezes que, a rigor, as histórias de Kaos não haviam sido escritas por ele; eram histórias que ele ouvira de Maristella, uma camponesa de Agrigento, sua ama, que dele cuidava e, à escondida dos pais, o levava à missa, sempre a lhe contar histórias da gente siciliana, histórias de vida e morte, de amor, de licantropia, de crendices e superstições

NOVO MUNDO
A esta altura, não é possível deixar de se aproximar este grande filme dos irmãos Taviani de Novo Mundo (Nuovomondo), de 2006, da bela e politicamente engajada obra de Emanuele Crialese (direção e roteiro).  Este filme, que complementa aquele de outro modo, retrata as enormes dificuldades de muitos sicilianos que, com crianças, mães e velhas avós, no início do século XX, tentaram entrar nos USA como emigrantes. 

PROUST  E  SUA  MÃE
Com um pouco de leituras e atenção, não precisamos fazer muito esforço para descobrir na literatura o escritor que talvez tenha vivido como ninguém o chamado complexo lunar em toda a sua amplitude. Referimo-nos a Marcel Proust (1871-1922). A mãe chamava-se Jeanne Weil, de uma família judaica, a quem o menino se ligou desde os primeiros meses de vida com uma ternura doentia, extravagante, quase morbosa, alimentada por Jeanne. Tomado por esse amor maternal exagerado, o pequeno Marcel, desde cedo, mimado como poucos, foi se entregando a uma ansiedade incontrolável, com relação à mãe, causadora de muitos de seus distúrbios psicossomáticos. 

Num dia em que, retornando de um passeio, teve a sua primeira crise de falta de ar, a vida do menino Marcel mudou drasticamente. Esta situação se agravou dias depois quando, antes dos seus dez anos, numa noite, sozinho no seu quarto, posto para dormir, ele voltou a ter outra crise, muito pior do que a primeira. Em baixo, os pais recebiam convidados no salão de festas da casa (uma reunião só para adultos) e a mãe não subira (esquecera-se?) para acariciá-lo, como sempre fazia nessas ocasiões. Nos dias seguintes, o diagnóstico médico veio: asma, uma doença inflamatória crônica das vias respiratórias aéreas.  No caso de Proust, uma afecção também geradora de muita angústia, sempre um apelo à proteção e à ternura, como concluiu  André Maurois. 

ROBERT  DE  MONTESQUIOU
( GIOVANNI  BOLDINI , 1842 - 1931 )
Charles Briand nos revela (Le Secret de Marcel Proust) que, ao aceitar e cultivar a doença, Proust parece tê-la achado muito melhor, bem mais aprazível “vivê-la” do que enfrentar a vida real, com as suas inúmeras, constantes e aborrecidas dificuldades. Escapismo, evasão e sonho, de um lado, levaram-no à literatura, para uma realização literária genial e única. De outro, antes mesmo de chegar à puberdade, um crescente envolvimento com o que chamou de “pântano dos prazeres”, cultivado por sua exigente sensualidade, seu confuso erotismo e uma filosofia de vida hedonista de jovem burguês rico, com fumaças aristocráticas, inspiradas pelo conde Robert de Montesquiou, modelo do seu personagem Charlus.



Em 1906, Proust foi morar num apartamento do boulevard Haussmann, mandando revestir de cortiça o seu quarto para se proteger dos ruídos das ruas. Nesse endereço, isolado do mundo,  escreveu À La Recheche Du Temps Perdu, talvez o melhor romance da literatura moderna. 


A Proust, um canceriano de nascimento, aplicam-se exemplarmente alguns dos traços que descrevem o que chamamos aqui de comportamento lunar maternal: interiormente, a pessoa, embora adulta, parece se conservar sempre uma delicada e sensível criança em cuja vida terão lugar mais importante, sempre com lacrimejante emoção, as memórias, as reminiscências, os lugares da infância, a nostalgia, objetos do passado, cenários em que a figura materna se destacará sempre.  Um universo interior que, na maioria dos casos, passa a substituir o mundo exterior.

A Psicologia junguiana, ao falar do complexo materno descreve como suas principais características uma grande necessidade de seduzir, a homossexualidade e a impotência, o que leva aquele que por ele é tomado a desenvolver também uma personalidade puer. Puer, pueris, em latim, é criança. Na Psicologia a palavra foi usada para descrever o comportamento da criança, do pré-adolescente ou mesmo do adolescente que se recusa a “crescer, que não amadurece, desligado da realidade, dela descomprometido, sempre procurando proteção materna e preso geralmente às lembranças do passado, juntando objetos, muito mais fixado no seu valor emocional do que no seu valor econômico. 

PEDROLINO
( GIOVANNI  PELLESINI )
Atraente, fascinante e ao mesmo tempo temível, o mundo lunar dá origem a muitos personagens na arte, na literatura, na música e no cinema. Um deles, por exemplo, é o Pierrô. Sonhador, poeta, que vive no “mundo da Lua”; ele usa uma espécie de caftã branco aperolado. Oriundo da Commedia dell ́Arte, como o Arlequin, tem nela o nome italiano de Pedrolino. Apareceu em Paris no século XVI, de onde saltou para os teatros de feira, para a Ópera Cômica francesa e para o resto do mundo, inclusive para o carnaval brasileiro. 

JEAN-LOUIS  BARRAULT , 1910 - 1994
Mestre da pantomima, Pierrô não consegue falar, apenas sente. Ingênuo e sentimental, com sua roupa enfeitada de pompons e gola grande franzida; ama Colombina, também personagem da Commedia dell ́Arte, que não o ama, uma espécie de Afrodite Pandemia, sedutora, volúvel, esperta. O Pierrô foi imortalizado por um dos maiores atores do teatro e do cinema de todos os tempos, Jean-Louis Barrault. Como Baptiste (no papel de um mímico), o filme, Les Enfants Du Paradis, de 1945, aqui exibido com o título de Boulevard do Crime, tem a direção de Marcel Carné (1945) e roteiro de Jacques Prévert, obra considerada como uma das melhores da história cinematográfica. Dela participaram, além de Barrault, Arletty, Pierre Brasseur e Maria Casarès, três figuras inesquecíveis do cinema francês.

Jean-Luc Godard, em 1965, realizou seu décimo filme, sobre um jovem professor que se cansara da monotonia e do absurdo de sua vida profissional e familiar. O filme teve por base uma história do escritor norte-americano Lionel White e ficou conhecido por dois títulos de Demônio das Onze Horas e Pierrot Le Fou, um road-movie, cheio de peripécias, crimes e banhos de sangue.

PIERROT , LE  FOU
 Os principais personagens do filme, vividos por Jean-Paul Belmondo e Anna Karina. Ele um professor casado, com filhos, e ela uma babá, sua antiga amante, parecem tentar provar que o amor é a única salvação num mundo totalmente alienado (estamos na década de 1960!). Todavia, o que o filme nos mostra realmente, no qual os personagens se movimentam bastante, é um mundo anárquico, fragmentado, ilógico, assumindo o seu personagem principal o papel de um anti-herói. Sua companheira, a babá Marianne, num momento do filme, diante do seu comportamento, o chama de Pierrot, o Louco.   

GILLES  ( ANTOINE  WATEAU )
Nas artes plásticas, Antoine Watteau (1684-1721) utilizou o personagem na tela chamada Pierrot ou Gilles, nome que no séc. XVII designava um bufão de feira, ingênuo, simplório e tristonho. A obra pictórica de Watteau se inscreve na estética do rococó, uma derivação e, ao mesmo tempo, uma reação à suntuosidade e ao exibicionismo do barroco. Rococó é palavra de origem francesa, proveniente de rocaille, literalmente, rocha artificial. Rocaille, como termo arquitetônico, indicava ornamentação de grutas e jardins com o motivo das conchas de vieira (símbolo de Afrodite) e outros deste derivados. 

As grutas são simbolicamente verdadeiros reservatórios de energia e de lembranças, de complexos, de sentimentos e emoções que muitas vezes se agitam inexplicável e confusamente na interioridade do ser humano, perturbando a sua vida consciente. Antigos lugares de culto da humanidade, ornados de pinturas e gravuras, como nos mitos de gênese de antigos povos, desde recuados períodos, consideradas como um lugar materno, por excelência, as grutas sempre apareceram associadas aos órgãos genitais femininos e, como tal, à fertilidade. Vários povos, como sabemos, relacionaram num mesmo contexto simbólico a caverna, a mulher, a chuva e a Lua.

ROCOCÓ
O rococó, além da França, ganhou muito destaque no sul da Alemanha e na Áustria. O rococó, voltado principalmente para os interiores, procurou o que os latinos chamaram de bellum, às vezes pejorativamente, expresso através do agradável, do delicado, do sutilmente sensual, do requinte que beirava o afetado, da graça, da brincadeira, mesmo na arquitetura. Para designar o barroco e suas manifestações artísticas, usavam-se qualificativos como belo,  íntegro, grandioso, palaciano, imponente, que os latinos procuraram sintetizar através do conceito de pulchrum, feito sobretudo para espantar, atrair e submeter. 

CHINOISERIES
Watteau participou de um grupo de pintores que se destacou na decoração de interiores, tornando-se muito requisitado para pintar arabescos e desenhos nas residências de nobres e aristocratas. Muito sucesso alcançou Watteau ao introduzir na pintura que fazia nessas residências, além de temas mitológicos e bucólicos, o que então foi chamado chinoiseries e singeries, pequenos motivos chineses e simiescos, que se tornaram muito afamados em toda a Europa. 

PIERRE-AUGUSTE RENOIR
( 1841 - 1919 )
 No fim da vida, no seu último ano de existência, certamente cansado e desiludido, passou de excepcional pintor a gênio, indo muito além de tudo o que fizera; deixou-nos, como legado maior de sua arte, a obra-prima que é Pierrot ou Gilles, algo muito diferente das suas fêtes galantes e das suas badinages. Sem nenhum bem, morreu pobremente, assistido por um único amigo em julho de 1721. Dentre muitos dos grandes das artes plásticas, como Renoir, Cézanne, Monet e outros, que, indo à commedia dell’arte, se valeram do lunar Pierrot, o mais impressionante é, sem dúvida, o de Watteau.   
PIERROT  LUNAIRE
Já na música, quem se valeu do lunar personagem foi Arnold Schoenberg para o seu melodrama lírico (quatro instrumentos e voz), com base num poema de A.Giraud, chamado Pierrot lunaire (1912). Revolucionária, esta obra utiliza o chamado Sprechgesang, o canto falado, que permite à voz a liberdade de fazer inflexões entre as notas. Esta obra exerceu grande influência sobre a música erudita do séc. XX.




PIERROT  LUNAIRE
Para compor a sua obra, Schoenberg se valeu de um ciclo de cincoenta poemas publicado em 1884 pelo poeta belga Albert Giraud, que geralmente aparece associado tanto ao movimento Simbolista como ao Decadentismo. O protagonista do ciclo é o lunar Pierrot, o servo cômico da Commedia dell'Arte francesa e, mais tarde, da pantomima da avenida parisiense.

LICANTROPIA
Para designar o modo pelo qual a claridade da Lua afetava certas pessoas os gregos criaram o verbo selenediazein, do nome Selene, pelo qual o astro noturno era conhecido. Sempre associada a um mundo perigoso, incompreensível, maléfico muitas vezes, doentio (licantropia; veja Mal da Lua, conto de Kaos), a Lua tornava lunáticos os seres por ela “feridos”, seres que se tornavam hipersensíveis, incoerentes, inadaptados para uma vida normal. Do verbo acima, para designar tais pessoas, saiu o substantivo seleniadzomenus, que no cristianismo (São Mateus) incorporou também o sentido de epilético.  

No mundo da arte, como estamos a expor, encontramos um grande número de “feridos” mais ou menos profundamente pela Lua, artistas que embora por ela “atacados” e/ou justamente por causa dela, nos deixaram uma produção de excepcional valor, um Schubert e um Debussy na Música, um Amedeo Modigliani na Pintura, Rousseau e Montaigne na Filosofia, Proust na Literatura etc. Dentre todos estes, aquele que talvez tenha sido um seleniadzomenus dos mais “feridos” pela Lua tenha sido o poeta francês Jules Laforgue, tanto pela participação da Lua em sua obra como pelo tipo de vida que levou.


JULES   LAFORGUE   E   LEAH   LEE

Jules Laforgue (1860-1887) nasceu no Uruguai (Montevideo) onde o pai trabalhava como professor. Em 1876, a família, de origem bretã (o pai, a mãe e nove filhos) voltou à França, ficando Jules e um de seus irmãos, por razões de dificuldades financeiras, na casa de um tio, em Tarbes. Tentando completar seus estudos regulares, Jules, que nunca foi um bom aluno, não o conseguiu.  Morrendo a mãe em 1877, Jules, já em Paris, tendo abandonado a escola, entregou-se à leitura de autores franceses (poetas principalmente) e a perambular por museus, onde adquiriu certa cultura artística.  Protegido por Paul Bourget, editor, e por Charles Ephrussi, rico colecionador de obras de arte, publicou o seu primeiro poema em 1879. 


Entre 1881 e 1886, Laforgue morou em Berlin, trabalhando como leitor e conselheiro cultural da Imperatriz Augusta. Em 1885, publicou L’Imitation de Notre-Dame La Lune, por muitos considerada a sua melhor obra. Retornando à França em 1886, casou-se com a inglesa Leah Lee, morrendo no ano seguinte, vitimado pela tuberculose. 

LITANIAS  DA  LUA 
Foi influenciado por Walt Whitman na poesia e, de modo especial, no plano das ideias (filosofia), por Schopenhauer e por Von Hartman. Cultivou, em especial, nos seus poemas, por influência maior do primeiro, do qual foi grande leitor, dois veios carregados de melancolia e de spleen. Um dos primeiros poetas na França a aderir ao verso livre, à linguagem coloquial, influenciou bastante Ezra Pound, Marcel Duchamp e o jovem T.S. Eliot. Entre nós, além de outros, foram tocados por ele de algum modo Pedro Kilkerry, Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Seus versos foram aqui traduzidos, com destaque para Litanias da Lua (tradução e organização de Regis Bonvicino, Edit. Iluminuras) e Os Últimos Poemas do Pierrô Lunar (tradução de Luiz Carlos de B. Rezende, Edit. 7 Letras).  



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

KAFKA E A BARATA



  
A lista dos intérpretes de Kafka, dos seus exegetas, é enorme. Tornou-se ele, a partir da década de 1950, um dos escritores mais lidos do mundo, pelo impulso que, Breton e Gide, dentre outros, mais os surrealistas e existencialistas franceses, como Sartre e Camus, deram à sua obra. Jean-Louis Barrault, com a colaboração de André
JEAN-LOUIS BARRAULT
Gide, fez, em 1947, uma adaptação de O Processo, colocando-o ao alcance do grande público parisiense. O resultado foi uma soberba montagem teatral, apresentada no teatro Marigny. Aos poucos, as edições e traduções das obras de Kafka aumentaram. Foram feitas adaptações para o teatro, ópera (A Metamorfose, por exemplo, voltou a ser adaptada recentemente e transformada em ópera por Michael Levinas, em 2011, em Lille, França) e cinema. Do seu nome saiu até um adjetivo, kafkiano, usado por pessoas que talvez não saibam quem tenha sido ele.


A METAMORFOSE NO TEATRO

Em 1915, em Leipzig, apareceu uma novela sua, “fechada”, chamada A Metamorfose. Esta novela, como toda a sua obra anterior e posterior, tem um caráter parabólico, isto é, ela nos remete a outro sentido que aquele da narração. Ao que parece, A Metamorfose é o início de uma reflexão que terminou em 1919 com Carta ao Pai. Neste último texto, Kafka trata de suas paradoxais relações familiares, nelas se mesclando sentimentos de admiração e de desprezo, de repulsão e de atração, reveladores de um conflito permanente com a poderosa figura paterna. Dependendo do ponto
ABRAÃO E ISAAC
de vista adotado, podemos pensar, nas sondagens iniciais para tentar ampliar as nossas especulações, quando nos aproximamos de Carta ao Pai e A Metamorfose, em três complexos que pareceram vitimar Franz, o de Édipo, o de Isaac e o de Kronos. Entrando um pouco mais em Kafka, porém, percebemos logo que ele pode nos oferecer muito mais.   


Em A Metamorfose, o caixeiro viajante Gregor Samsa acorda certa manhã e se vê metamorfoseado numa barata, um grande coleóptero. Sua família fica horrorizada, prende-o no seu quarto. Só sua irmã lhe oferece alguma compaixão, alimentando-o. Incapaz de se comunicar com os seus, embora os compreenda perfeitamente, Gregor se fecha em sua solidão. Seu único prazer era o de andar pelas paredes do quarto. Mas suas forças vão começando a abandoná-lo.

Um dia, ouvindo sua irmã tocar violino, sai do quarto. Sua aparição
GREGOR ANDANDO PELAS PAREDES
provoca um novo escândalo. A família terá que se mudar. Entram os
donos do imóvel na questão. É preciso que a família se desembarace do monstro. Num estado de extrema fraqueza, Gregor exala seu último suspiro. A empregada da casa dá fim ao cadáver. A família, reconfortada, concede a si mesma algum repouso e já sonha com melhores dias: Grete poderá se casar.

Uma coisa que sempre me intrigou em A Metamorfose foi a questão da barata. Aliás,  não só a barata, mas as muitas referências que Kafka faz em sua obra a pequenos animais, cães, gatos, ratos e  insetos que vivem em tocas, frestas, pequenos orifícios. A crítica oficial e os estudiosos da obra kafkiana em geral, salvo algum registro ocasional, muito superficial sempre, passaram ao largo desta questão, ficando invariavelmente presos aos seus “temas maiores”. Ora, os “temas menores” em Kafka, quando nos aproximamos deles mais detidamente, são capazes de nos revelar o quão multifacetada foi a sua curta vida e variados os seus interesses. Para mim, são os “tons menores” em Kafka que nos permitem estabelecer ricas comparações, analogias surpreendentes, encontrar o semelhante no dessemelhante, relações inúmeras que tornam ainda maior a sua obra. Inscrevo nesta observação, por exemplo, questões que podemos levantar diante da expressão que ele usou, “morrer como um cão”, para se referir à morte de Joseph K. em O Processo ou o simbolismo da barata em A Metamorfose.
   
Aqui entro com a astrologia, uma arte difícil, que exige um aprendizado constante, mas sempre um recurso possível para se abrir outras vias de acesso a obras artísticas, literária no caso, além daquelas que os meios da crítica tradicional fartamente oferecem. Esta utilização da astrologia se justifica a meu ver porque, com ela, é possível se investigar num outro plano uma questão que me parece fundamental: a de que toda obra literária traz consigo as marcas de seu autor, sobretudo do seu temperamento, do seu modo de ser, da sua presença no mundo. Para a astrologia, todo autor se projeta de uma maneira mais ou menos perceptível na sua obra, uma projeção que ela visualiza de um modo muito diferente daquele que a crítica oficial apresenta, mesmo que recorrendo a biografias ou autobiografias. O alcance da astrologia é de outra natureza, como, acredito, se perceberá.

Assim, ao mesmo tempo em que ia visitando a obra de Kafka pela via astrológica, resolvi, para complementar essa visita (e lá se vão muitos anos!), dar um mergulho no ambiente físico em que ele viveu (ou no que restaria dele), fazer uma total immersion, para usar uma imagem da natação (que Kafka chegou a praticar), cara aos que entram com tudo no que fazem. Estávamos no final dos anos 80 e parti para Praga, felizmente ainda não desfigurada pelos “sopros democráticos” que logo viriam. Os bairros, as praças, as pontes, as avenidas, as ruas, os monumentos, os edifícios e as vielas estavam ainda bem preservados, como nos tempos em que Kafka lá vivera. 

PRAGA COM O CASTELO E SUA IGREJA AO FUNDO

Tudo isso aconteceu depois de muitas leituras e estudos sobre Kafka, de ter compulsado o que de mais substancial e sério se escrevera sobre ele, dos depoimentos de alguns que com ele haviam convivido. Por dias e dias, perambulamos a pé por Praga, eu e minha mulher (encarregada de tudo registrar fotograficamente); visitamos os lugares por ele frequentados, descobrimos as casas nas quais morou (principalmente em Josefov, o bairro judeu, e na 
CIDADE VELHA
Cidade Velha, onde alugamos um quarto); estivemos na casa em que nasceu e terminamos no cemitério judaico da periferia onde está enterrado. Sempre procurei nos cenários visitados e nos muitos textos lidos a que lá tive acesso, em bibliotecas e centros de cultura, outras informações sobre ele e, em especial, a razão da sua escolha da barata como alter ego de Gregor Samsa em A Metamorfose. Sobre Gregor, encontrei muita coisa, mas nada sobre a questão que carregava comigo. Desde então passamos, nós e alguns amigos, também leitores de Kafka, a chamar baratas de gregórias...

Sobre Kafka, parece que tudo já foi dito. Não há interpretação que não tenha sido feita, ângulo que não tenha sido explorado. A partir da década de 1940, sua obra converteu-se num dos pontos mais elevados não só da literatura mundial como do pensamento moderno, seja pelo seu caráter profético, por sua amplitude simbólica, pela sua religiosidade, pelo seu ceticismo, pela sua visão do desespero humano, pelas suas fascinantes maneiras de escrever sobre tudo isto, pela sua fé e pelo seu caráter humanitário, apesar de tudo. Não aceitava, como muitos estudiosos entendiam, que seus personagens fossem apenas uma encarnação de todos os párias do mundo.

Nascido em Praga, a 3/07/1883, às onze horas da manhã, este judeu de língua alemã foi, de fato, um ser totalmente excluído: pelos judeus, pelos alemães e pelos tchecos. Numa existência
HERMANN, PAI DE KAFKA
provinciana, apagada, com raras e curtas viagens a países vizinhos, quase não saiu de Praga, do bairro judeu, Josefov, e da chamada Cidade Velha. No mais, um pai tirânico e insensível (Hermann), uma mãe ausente (Julie) e três irmãs que sobreviveram a ele (Kafka morreu em 1924) e que morreram em campos de concentração durante a segunda guerra mundial.

Viveu Kafka ao todo quarenta e um anos. Durante catorze, exerceu funções burocráticas, em companhias de seguro (advogado). Noivo
FELICE E KAFKA
de Felice Bauer, alemã, não se casou. Duas ou três mulheres entraram na sua vida, de modo especial, talvez, só Milena. Sua correspondência com ela foi transformada em livro. O que existe de mais importante e significativo na literatura mundial está com Kafka, é citado geralmente ao lado de seu nome: Dostoievski, Thomas Mann, Flaubert, Goethe (um virginiano que fez e analisou o seu próprio mapa astrológico), Tchekhov,
O JOVEM GIDE
Strindberg, Kierkgaard, Gide, Joyce, Sartre, Camus, Proust, Hoffmannsthal, Brentano, Nietzsche, Byron, Schopenhauer, Tolstoi e muitos outros. Parte da obra de Kafka permanece inconclusa. Algumas tendo até versões diferentes.  A melhor compreensão virá dos textos “fechados”, acabados, como A Metamorfose e Carta ao Pai, além de pequenas referências autobiográficas, cartas, cadernos, aforismos. A Metamorfose, de que trato aqui, é, como disse, uma novela “fechada”.

No todo, a vida de Kafka é uma paixão ilimitada pela leitura, uma vocação literária como poucas a desse virginiano clássico, que se
ELIAS CANETTI
tornou um excepcional grafocrata (compulsivo escritor de cartas), no dizer de Canetti. Com efeito, só a turbulenta correspondência que manteve por cinco anos com Felice Bauer daria um livro de setecentas páginas. Tudo isto, tudo que saiu da sua pena, veio sempre amparado por uma técnica expressiva singularíssima, por uma capacidade analítica sem igual, cheia de aspectos descritivos, onde pontificam o detalhismo e a investigação, traços marcantes de sua personalidade virginiana. Abundam as referências a pormenores: observar, notar, atentar, detectar, esmiuçar, dividir, classificar, são verbos seus, muito usados pelos nativos do signo. Sua descrição é exaustiva. Atmosfera sufocante, perfeccionismo, retração do horizonte visual. 


A visão de Kafka é microscópica, uma visão focada e precisa (lembro aqui que o microscópio é um instrumento que faz parte do mundo virgo, onde pontificam todos os que lidam com coisas pequenas, micro-organismos, detalhes, como entomólogos, citologistas, patologistas clínicos, gente que lida com a física atômica e subatômica etc). Tudo o incomodava, como se tivesse vibrissas hipersensíveis. Daí as suas inúmeras mudanças de uma residência para outra. Um ruído mais forte no quarto da casa ao lado e ele se mudava, às vezes para duas, três casas adiante, na mesma rua. Uns meses depois voltava ou ia para uma outra rua próxima. Nunca saiu do bairro judeu e da Cidade Velha.

Acredito que para melhor compreensão do que aqui se expõe quanto ao signo de Virgem (e por extensão com relação a Kafka), será registrar que no mundo das letras a arte da crítica, da boa crítica acentue-se, é território virginiano. A começar pela etimologia da palavra crítica: o verbo grego que lhe dá origem,
ALFREDO BOSI
krino, quer dizer separar, saber separar; distinguir e escolher são verbos de Virgem (somar é verbo de Touro e multiplicar é de Gêmeos). Entre nós, por exemplo, um dos nomes mais representativos da história da literatura e da crítica literária é o do virginiano Alfredo Bosi. 



RUA DOS ALQUIMISTAS, ONDE KAFKA MOROU

Não é por acaso que Maurice Maeterlink, famoso escritor belga, poeta, filósofo e naturalista, como um bom virginiano, escreveu A Vida das Abelhas e A Vida das Formigas. É trabalhando com os
ARNOLD SCHOENBERG
mesmos impulsos do signo que um compositor virginiano como Schoenberg criou a música atonal, decompondo a escala musical; não é também por acaso que Lavoisier, o criador da química moderna, grande defensor do uso sistemático da balança, tenha feito a distinção dos elementos ou que Buffon, outro virgo, grande autor de História Natural, tenha explicado a origem das espécies a partir das moléculas orgânicas...   

A obra kafkiana admite vários níveis de interpretação: religiosa, teológica, política, social, profética, psicanalítica. 

Outros pensaram numa aventura individual desesperada em busca da graça, algo que lembraria o Pilgrim's Progress, de John Bunyan. Qualquer que seja o enfoque, o que temos sempre para nos falar desse universo são as parábolas, as alegorias, as metáforas, os

símiles, as metonímias, as metábases, as perífrases e outras figuras de uma retórica alucinante. 
Sempre um magistral criador de frases “negras”, de enigmas, de aforismos, de apotegmas, uma produção que o caracteriza como um exemplo único na literatura. É por isso que quando nos aproximamos de Kafka não podemos falar de escritores que o tenham antecedido nos territórios em que ele se aventurou nem de escritores que possam ser considerados como seus seguidores ou herdeiros. 

A ideia da transformação de GS numa barata só poderia vir de um virginiano clássico como Kafka, já que Virgem é o signo dos pequenos animais, insetos no caso. Embora a crítica literária não

tenha especulado sobre o uso simbólico da barata em Kafka, quem mais discorreu sobre ela, como uma extravagância literária, foram os entomologistas. Vladimir Nabokov, por exemplo, nos deixou algumas observações, inclusive em palestras, sobre a questão dos insetos em Kafka, mas falou deles mais como um entomologista e taxonomista que era do que como um escritor. Ao que parece foi das informações de Nabokov que Robert Crumb retirou a ideia de transformar Samsa num besourão (Kafka de Crumb, publicado pela Desiderata, no Brasil). Essa designação, besourão, pode ser encontrada no texto de Kafka. Quem a usa, como já se observou, é a empregada da casa, provavelmente com a intenção de se tornar mais simpática ao irritado e amargurado pai de Gregor.

Evidentemente, os entomologistas se escandalizam diante do “novo Gregor” quando se aproximam de A Metamorfose, não entendendo ou custando muito para admitir o uso simbólico da barata.


Impossível pensar, diz um deles, numa barata como Gregor já que elas não têm, como os humanos, sistemas circulatório e respiratório tão desenvolvidos. Gregor não poderia sobreviver. Se levarmos o corpo da barata à escala humana, prossegue, o sangue de seu sistema circulatório, contendo oxigênio e nutrientes, nunca seria capaz de alcançar todas as suas células. Enfim, é a velha incapacidade aristotélica (“a é igual a a e não pode ser b”) que têm os homens de ciência (sobretudo os das exatas) de lidar com símbolos, com polissemias e com o pensamento analógico, que nos permite captar relações de semelhança que nada têm com igualdade entre fatos e coisas. Sentir-se como não é ser...  

A despeito destas opiniões, lembro, por exemplo, que as baratas, apesar da sua fama de ter mau odor e da sua associação com a sujeira, são consideradas como benéficas em muitas tradições. Folclore ou não, se elas se forem de uma casa podemos esperar alguma infelicidade. Os homens do mar sabiam antigamente que quando as baratas abandonavam um navio era de se temer um naufrágio. Além do mais, é preciso salientar que como símbolo de resistência a barata é imbatível; a própria ciência nos diz que as baratas, na forma em que as temos hoje, estão na Terra há mais de 400 milhões de anos, enquanto a forma do “homem moderno” só se definiu nos últimos 50.000 anos. Grande viajante, de natureza expansionista, ela é também um grande símbolo de adaptação;  encontrada hoje no mundo todo, mesmo nos polos, ela consegue encontrar seus nichos ecológicos em cozinhas, banheiros e tubulações de esgoto, sabendo compartilhar cuidadosamente com outras, de espécies diferentes, os espaços que ocupa. Estas informações, parece-me, talvez possam nos ajudar a encarar Gregor Samsa e sua metamorfose de um modo bem diferente.

Astrologicamente, Kafka tem em seu mapa astral quatro signos muito importantes, Câncer, Gêmeos, Touro e Virgem, que, ao lado das informações que nos dão e das retiradas da sua hereditariedade, de poderosos atavismos, e do seu meio social nos revelam muito sobre sua vida e obra. Por ter nascido em julho, no dia três, era Kafka um canceriano, em termos de personalidade básica, de eu profundo, solar. Daí vêm as questões raciais e familiares de sua vida e a sua incansável busca de um lugar onde pudesse viver (sonhou muito com viagens, em emigrar, inclusive para a América do Sul). Acrescente-se a tudo isso muita sensibilidade, anseios de vida comunitária, atração pela vida familiar, necessidade de aconchego, receptividade, suscetibilidade, caprichos. Kafka lembra muito, nestas questões familiares, Schubert (ascendente Câncer). Em Kafka, é do seu mundo canceriano, cheio de idiossincrasias, que vem a sua famosa sensibilidade com relação a ruídos, à atmosfera de ambientes e suas tendências claustrofílicas. Seu conto O Covil é uma das mais fantásticas ilustrações desse seu componente básico virgo-canceriano. Doença ou arte? Aliás, lembremos, foi outro canceriano, Proust, de pulmões muito fracos como Kafka, que nos últimos anos de sua vida se fechou num quarto forrado de cortiça para neutralizar os ruídos da casa e da cidade que muito o incomodavam, uma maneira que encontrou para poder terminar a sua obra antes de morrer. 


KAFKA JOVEM
Outra influência poderosa em Kafka é a do signo de Gêmeos, onde ele tem, dos dez astros que consideramos na astrologia, cinco: Plutão, Saturno, Mercúrio, Vênus e Lua. É desta conjunção múltipla (stellium) que saem os seus impulsos literários, seus traços mentais e intelectuais. Gêmeos é um signo de ar, cujas características predominantes são a versatilidade intelectual, a facilidade para obtenção de informações, a curiosidade, a comunicação verbal e/ou escrita ativadas, características que apontam para sua mania de escrever cartas, para seus interesses múltiplos, inclusive aqueles onde entrasse o uso das mãos (habilidade motora fina), aos quais se juntam as poderosas influências virginianas: interesse por marcenaria, jardinagem, esportes, nutricionismo, vegetarianismo etc. Gêmeos lhe oferece tudo isto, mas, por outro lado, inclina-o bastante ao nervosismo, à insatisfação, às inquietações, às oscilações de humor, seu lado moody (conjunção Lua-Vênus).

São esses dois signos, Câncer e Gêmeos, mais a influência taurina, que explicam sua causa mortis. Em junho de 1924, depois de mais ou menos dois anos de problemas respiratórios, um câncer na laringe ou pulmão o matou. Touro, como se sabe, governa a garganta, Câncer tem a ver com a matéria pulmonar (asma, bronquites, dificuldades respiratórias etc) enquanto Gêmeos, o signo das trocas, governa o mecanismo da respiração.

Em astrologia, o ascendente é o signo da hora do nascimento (a constelação para a qual a Terra se volta nesse momento). É o signo que descreve a nossa personalidade mais visível, o modo pelo qual somos captados mais espontânea e imediatamente pelos outros. É a nossa persona, digamos. Fala o signo ascendente muito da nossa aparência, do nosso corpo físico, daquilo que projetamos, enquanto o nosso eu interior será descrito em grande parte pela posição solar. A personalidade virgo, no geral, se inclina na direção de um temperamento nervoso, sempre causador de dificuldades para a vida afetiva e emocional. Virgem é o signo que antecede o de Libra, signo das uniões. Eis aqui apontada uma das razões pelas quais os virginianos como Kafka sempre encontram muita dificuldade para
KIERKGAARD
se unir, sendo o signo conhecido, por isso, como o dos ritos liminares, como o do noivado, totalmente esquecido hoje. Kafka, como Kierkgaard, outro com poderosas influências virginianas, sempre estiveram para se unir, mas nunca ousaram ultrapassar certos limites, passar pela porta (a angústia dos virginianos diante das portas) que os levaria a uma união. Foram “noivos eternos”.

Com Virgo e com Gêmeos em Kafka, na distribuição planetária de seu mapa, há uma grande intensificação da vida psíquica e mental e, ao mesmo tempo, uma grande retração com relação à vida instintiva. Decorrem daí as dificuldades de adaptação de Kafka ao exterior. Nitidamente seletivo, os acontecimentos, os menos significativos, aqueles que não deveriam merecer maior atenção, ganhavam sempre para ele muita importância. Juntando-se a estes componentes as influências cancerianas, temos as suas inquietações permanentes. Sempre perscrutando, examinando, sondando, verificando. O apelo da vida é sempre uma ameaça permanente à paz. Por isso, não deixar entrar o exterior. Esquivar-se, recusar-se, fechar-se. No lugar, a literatura, investida agora de prerrogativas que antes, quem sabe, estariam reservadas aos textos sagrados.

A disposição geral de Virgo é a de reter (saídas só pelo mental). Um dos pecados dos tipos clássicos do signo, como Kafka, é o da dificuldade de dar por concluída alguma coisa; ficam eles num
BONNARD
rever e num repassar eternos (vide o que Bonnard fazia com os seus quadros), em cima de telas, composições musicais, textos, de um orçamento, porque o ato de separar o principal do acessório é sempre dramático para eles. As grandes linhas do cenário virginiano se desenham então: controlar, dominar, disciplinar; tendência à economia, à parcimônia, à acumulação, à conservação. Diante de tudo isto, o caráter sério, consciencioso, escrupuloso, reservado, cético, metódico, ordenado, intolerante, ligado às regras, às tarefas, voltado para as coisas difíceis, ingratas e penosas, sempre visando a satisfazer acima de tudo um sentimento de segurança ultraprotegida.

Desembaraçar-se da vida emocional, sentimental, sempre fonte de aborrecimentos, é uma grande tentação para os de Virgo. As afinidades do signo levam muitos de seus tipos a colocar sempre a pequenez do homem solitário diante das figuras destrutivas do destino. Por causa dessa retração do eu, dessa recusa da vida instintiva, o tipo virgo, no qual Kafka se encaixa, procura reforçar as suas barreiras, criar limites com seus hábitos e suas manias. É ao longo do eixo Virgo-Peixes, não esqueçamos, que se verificam normalmente os casos de TOC (transtornos obsessivos-compulsivos), com seus personagens típicos. 





É desse mundo que saem os sonhos recorrentes com insetos, pragas,  parasitas,  vermes,  micróbios,  bacilos   etc.,   a   mania   de limpeza, o horror da sujeira. 


Encontramos em As Cartas a Milena: Eu sou sujo, Milena, infinitamente sujo, é por isso que eu grito tanto pela pureza. Ninguém canta mais puramente que aquele que habita o mais profundo inferno  é este canto que nós tomamos pelo canto dos anjos. Esta breve referência que aqui faço ao tema da limpeza em Kafka pode nos ajudar a entender porque, ao longo da história do homem, na política, na religião, na vida social e em outros setores, foram os virginianos que assumiram o papel de controladores da pureza doutrinária, religiosa ou racial, da pureza em todos os sentidos, em várias sociedades: Beria, com relação ao estalinismo, e Goebbles, com relação ao nazismo, ambos virginianos, são exemplos.

Neste item sobre a pureza em Virgem, não posso deixar, porque exemplar como poucas, uma referência talvez àquele que tenha sido a melhor ilustração desta qualidade na política. Refiro-me a Louis-Antoine de Saint-Juste, que tinha, dos dez planetas que hoje consideramos na Astrologia, seis no signo de Virgem. Incorruptível, seu ideal de pureza levou-o a uma forma especial de fanatismo responsável por frases como esta: “As armas da liberdade não devem ser tocadas senão por mãos puras”.

Permanecendo ainda neste item, não é por outra razão que, entre os judeus, os levitas representavam, na distribuição zodiacal dos doze signos astrológicos (um para cada tribo), o signo de Virgem. Eram os levitas os responsáveis pelos cuidados do templo e do tabernáculo e pela pureza do alimento a ser consumido, a comida kasher (etimologicamente, apropriado). Uma pessoa kasher é aquela que, dentre outras coisas, cumpre as leis dietéticas.

Foram os antigos judeus, sem dúvida, dentre os povos da antiguidade, os que mais se voltaram para a questão da pureza. O código de pureza que estabeleceram está fixado nos Levíticos 11-16 e indiretamente em 17-22, ainda que muitos outros preceitos sobre o assunto estejam dispersos pelo texto bíblico. Os Levíticos formam um código cerimonial que contém as disposições básicas sobre o assunto, no tocante aos sacrifícios, ao sacerdócio e às leis da pureza. Daí, as expressões como “pureza levítica”. Levi (etimologicamente, apegado, ligado) era o terceiro filho de Jacó e de sua esposa Lea, filha de Laban, prestando os seus descendentes os serviços ao templo.

Entre os antigos judeus, segundo a sua arte astrológica, uma pessoa sob a influência de Elul (nome do signo) apresenta uma inclinação natural para a análise, dando sempre muita importância a detalhes,

mesmo os insignificantes. Há uma tendência natural para o perfeccionismo, para uma acentuada postura introspectiva diante da vida e para a frieza emocional. Essas tendências, contudo, se trabalhadas segundo a Torá, poderiam ser superadas.  Sem este auxílio, teríamos a compulsão para coisas pequenas, a confusão entre o que é mais importante e o que não é. Características negativas importantes: falta de confiança, dúvida, paralisia diante das escolhas.  Lembre-se que o nome Elul, como quase todos os demais de sua adiantada astrologia, foi herdado dos babilônicos; designava o sexto mês do ano (agosto-setembro), correspondente ao mês da colheita.


A letra Yod associa-se a Elul na medida em que significa pensamento, raciocínio, apontando para um futuro a ser criado, que a conhecida estrela (signo) de Salomão, de seis (número de Virgem) pontas simboliza. Segundo os antigos astrólogos judeus, as faculdades da percepção e da compreensão são femininas. Por esta razão, o signo de Elul tem a forma feminina, uma virgem, que representa a modéstia, a pureza, características essenciais para o retorno do divino. Os textos astrológicos judaicos atribuem a mão esquerda a Elul, indicando este lado, aqui, materialidade e ação. Com a letra Yod, temos os conceitos virginianos de sabedoria e ação no mundo. 

De toda essa retração do eu que encontramos em Virgem, costuma resultar, nos tipos mais malogrados, sem dúvida, um sentimento de inferioridade. Progressivamente, se instala um efeito de intimidação que traz um auto apagamento, uma evanescência, que pode chegar à perda do eu. Mas em Kafka, e eis aqui a sua genialidade, sempre ficou, por trás desse ser que ia se transformando “numa coisa a ser esmagada”, uma consciência que sabia bem o que valia e o que queria, mas que não tinha condições de ocupar um lugar entre os seus semelhantes.

A Metamorfose admite vários níveis de leitura, aliás, como toda a obra de Kafka. Não a podemos ver como um sonho doentio, louco, se pensarmos que o ser humano, a todo  momento, é espezinhado em seus direitos, assemelhando-se a um mero e vil inseto que pode ser varrido sem maiores considerações por um criado qualquer da engrenagem. 


Como não ver em O Processo e O Castelo a representação do absurdo que é este mundo sem paz, sem tranquilidade, um mundo vítima de suas próprias contradições, caótico, alienado, enlouquecido, que desconsidera, avilta e aniquila o ser humano, mas em torno do qual tudo deveria girar – o homem vivendo com outros homens fraternalmente, igualitariamente, em sociedade. A obra de Kafka antecipa as formas de totalitarismo que vieram depois dele. O desespero, o absurdo, e tudo o mais poderia ser diferente. Precisaríamos de pouco, de muito pouco. Um mundo infinitamente próximo e, no entanto, infinitamente distante. É esta a situação absurda de Praga ao final do século XIX: alemães, tchecos e judeus, embora ligados por muitas coisas em comum (costumes, cultura, tradições), não se entendiam.

O que Kafka sempre buscou foi a legitimação de sua existência. Lutou até o fim para não se sentir um excluído, um estranho. Viveu sempre com uma sensação de risco, de perigo iminente, pelo excesso de sensibilidade. Temores, ameaças, labirintos (outro tema de Virgo). Daí sua vontade de desaparecer, morrer, volatilizar-se, metamorfosear-se. Transformar-se numa barata ou no pequeno animal de O Covil. A psicologia, numa visão reducionista, poderá ver em A Metamorfose, uma ilustração daquilo que chama de despersonalização, a perda do sentido de identidade pessoal. Talvez seja. Mas A Metamorfose e toda a obra de Kafka vão certamente além. Ela está psicológica, social e metafisicamente centrada naquele ponto de encontro das tensões entre as relações pessoais e coletivas. Kafka, como poucos, chegou a esse ponto: mais que uma discussão sobre a condição humana, o que temos, com ele, é a discussão sobre o homem em situação. 


A enorme carga simbólica de sua obra, a sua vibração trágica, seu admirável poder metafórico permitiram que ele desse forma, esteticamente, à angústia do nosso tempo, aos nossos tormentos pessoais, europeus sobretudo, aos nossos dilemas, à nossa impotência e à nossa esperança. A grande parábola de nosso tempo está em Kafka, talvez no seu todo a maior construção literária dos tempos modernos.

Kafka tinha consciência do que representava. Recusava comédias sociais, álibis, representações, encenações hipócritas. As religiões oficiais não o satisfaziam e, no entanto, foi o mais religioso de todos os homens. Disse de si mesmo: “sou um término e um começo”. As filosofias também não o tocavam. Deixou claro que o homem nasce na solidão do desafio buscado por si mesmo. Ele tentou chegar à sua terra prometida, acreditou na possibilidade de se realizar entre os outros homens. “O instante decisivo da evolução humana dura sempre”, é uma de suas melhores frases.