Mostrando postagens com marcador BUNYAN. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BUNYAN. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

KAFKA E A BARATA



  
A lista dos intérpretes de Kafka, dos seus exegetas, é enorme. Tornou-se ele, a partir da década de 1950, um dos escritores mais lidos do mundo, pelo impulso que, Breton e Gide, dentre outros, mais os surrealistas e existencialistas franceses, como Sartre e Camus, deram à sua obra. Jean-Louis Barrault, com a colaboração de André
JEAN-LOUIS BARRAULT
Gide, fez, em 1947, uma adaptação de O Processo, colocando-o ao alcance do grande público parisiense. O resultado foi uma soberba montagem teatral, apresentada no teatro Marigny. Aos poucos, as edições e traduções das obras de Kafka aumentaram. Foram feitas adaptações para o teatro, ópera (A Metamorfose, por exemplo, voltou a ser adaptada recentemente e transformada em ópera por Michael Levinas, em 2011, em Lille, França) e cinema. Do seu nome saiu até um adjetivo, kafkiano, usado por pessoas que talvez não saibam quem tenha sido ele.


A METAMORFOSE NO TEATRO

Em 1915, em Leipzig, apareceu uma novela sua, “fechada”, chamada A Metamorfose. Esta novela, como toda a sua obra anterior e posterior, tem um caráter parabólico, isto é, ela nos remete a outro sentido que aquele da narração. Ao que parece, A Metamorfose é o início de uma reflexão que terminou em 1919 com Carta ao Pai. Neste último texto, Kafka trata de suas paradoxais relações familiares, nelas se mesclando sentimentos de admiração e de desprezo, de repulsão e de atração, reveladores de um conflito permanente com a poderosa figura paterna. Dependendo do ponto
ABRAÃO E ISAAC
de vista adotado, podemos pensar, nas sondagens iniciais para tentar ampliar as nossas especulações, quando nos aproximamos de Carta ao Pai e A Metamorfose, em três complexos que pareceram vitimar Franz, o de Édipo, o de Isaac e o de Kronos. Entrando um pouco mais em Kafka, porém, percebemos logo que ele pode nos oferecer muito mais.   


Em A Metamorfose, o caixeiro viajante Gregor Samsa acorda certa manhã e se vê metamorfoseado numa barata, um grande coleóptero. Sua família fica horrorizada, prende-o no seu quarto. Só sua irmã lhe oferece alguma compaixão, alimentando-o. Incapaz de se comunicar com os seus, embora os compreenda perfeitamente, Gregor se fecha em sua solidão. Seu único prazer era o de andar pelas paredes do quarto. Mas suas forças vão começando a abandoná-lo.

Um dia, ouvindo sua irmã tocar violino, sai do quarto. Sua aparição
GREGOR ANDANDO PELAS PAREDES
provoca um novo escândalo. A família terá que se mudar. Entram os
donos do imóvel na questão. É preciso que a família se desembarace do monstro. Num estado de extrema fraqueza, Gregor exala seu último suspiro. A empregada da casa dá fim ao cadáver. A família, reconfortada, concede a si mesma algum repouso e já sonha com melhores dias: Grete poderá se casar.

Uma coisa que sempre me intrigou em A Metamorfose foi a questão da barata. Aliás,  não só a barata, mas as muitas referências que Kafka faz em sua obra a pequenos animais, cães, gatos, ratos e  insetos que vivem em tocas, frestas, pequenos orifícios. A crítica oficial e os estudiosos da obra kafkiana em geral, salvo algum registro ocasional, muito superficial sempre, passaram ao largo desta questão, ficando invariavelmente presos aos seus “temas maiores”. Ora, os “temas menores” em Kafka, quando nos aproximamos deles mais detidamente, são capazes de nos revelar o quão multifacetada foi a sua curta vida e variados os seus interesses. Para mim, são os “tons menores” em Kafka que nos permitem estabelecer ricas comparações, analogias surpreendentes, encontrar o semelhante no dessemelhante, relações inúmeras que tornam ainda maior a sua obra. Inscrevo nesta observação, por exemplo, questões que podemos levantar diante da expressão que ele usou, “morrer como um cão”, para se referir à morte de Joseph K. em O Processo ou o simbolismo da barata em A Metamorfose.
   
Aqui entro com a astrologia, uma arte difícil, que exige um aprendizado constante, mas sempre um recurso possível para se abrir outras vias de acesso a obras artísticas, literária no caso, além daquelas que os meios da crítica tradicional fartamente oferecem. Esta utilização da astrologia se justifica a meu ver porque, com ela, é possível se investigar num outro plano uma questão que me parece fundamental: a de que toda obra literária traz consigo as marcas de seu autor, sobretudo do seu temperamento, do seu modo de ser, da sua presença no mundo. Para a astrologia, todo autor se projeta de uma maneira mais ou menos perceptível na sua obra, uma projeção que ela visualiza de um modo muito diferente daquele que a crítica oficial apresenta, mesmo que recorrendo a biografias ou autobiografias. O alcance da astrologia é de outra natureza, como, acredito, se perceberá.

Assim, ao mesmo tempo em que ia visitando a obra de Kafka pela via astrológica, resolvi, para complementar essa visita (e lá se vão muitos anos!), dar um mergulho no ambiente físico em que ele viveu (ou no que restaria dele), fazer uma total immersion, para usar uma imagem da natação (que Kafka chegou a praticar), cara aos que entram com tudo no que fazem. Estávamos no final dos anos 80 e parti para Praga, felizmente ainda não desfigurada pelos “sopros democráticos” que logo viriam. Os bairros, as praças, as pontes, as avenidas, as ruas, os monumentos, os edifícios e as vielas estavam ainda bem preservados, como nos tempos em que Kafka lá vivera. 

PRAGA COM O CASTELO E SUA IGREJA AO FUNDO

Tudo isso aconteceu depois de muitas leituras e estudos sobre Kafka, de ter compulsado o que de mais substancial e sério se escrevera sobre ele, dos depoimentos de alguns que com ele haviam convivido. Por dias e dias, perambulamos a pé por Praga, eu e minha mulher (encarregada de tudo registrar fotograficamente); visitamos os lugares por ele frequentados, descobrimos as casas nas quais morou (principalmente em Josefov, o bairro judeu, e na 
CIDADE VELHA
Cidade Velha, onde alugamos um quarto); estivemos na casa em que nasceu e terminamos no cemitério judaico da periferia onde está enterrado. Sempre procurei nos cenários visitados e nos muitos textos lidos a que lá tive acesso, em bibliotecas e centros de cultura, outras informações sobre ele e, em especial, a razão da sua escolha da barata como alter ego de Gregor Samsa em A Metamorfose. Sobre Gregor, encontrei muita coisa, mas nada sobre a questão que carregava comigo. Desde então passamos, nós e alguns amigos, também leitores de Kafka, a chamar baratas de gregórias...

Sobre Kafka, parece que tudo já foi dito. Não há interpretação que não tenha sido feita, ângulo que não tenha sido explorado. A partir da década de 1940, sua obra converteu-se num dos pontos mais elevados não só da literatura mundial como do pensamento moderno, seja pelo seu caráter profético, por sua amplitude simbólica, pela sua religiosidade, pelo seu ceticismo, pela sua visão do desespero humano, pelas suas fascinantes maneiras de escrever sobre tudo isto, pela sua fé e pelo seu caráter humanitário, apesar de tudo. Não aceitava, como muitos estudiosos entendiam, que seus personagens fossem apenas uma encarnação de todos os párias do mundo.

Nascido em Praga, a 3/07/1883, às onze horas da manhã, este judeu de língua alemã foi, de fato, um ser totalmente excluído: pelos judeus, pelos alemães e pelos tchecos. Numa existência
HERMANN, PAI DE KAFKA
provinciana, apagada, com raras e curtas viagens a países vizinhos, quase não saiu de Praga, do bairro judeu, Josefov, e da chamada Cidade Velha. No mais, um pai tirânico e insensível (Hermann), uma mãe ausente (Julie) e três irmãs que sobreviveram a ele (Kafka morreu em 1924) e que morreram em campos de concentração durante a segunda guerra mundial.

Viveu Kafka ao todo quarenta e um anos. Durante catorze, exerceu funções burocráticas, em companhias de seguro (advogado). Noivo
FELICE E KAFKA
de Felice Bauer, alemã, não se casou. Duas ou três mulheres entraram na sua vida, de modo especial, talvez, só Milena. Sua correspondência com ela foi transformada em livro. O que existe de mais importante e significativo na literatura mundial está com Kafka, é citado geralmente ao lado de seu nome: Dostoievski, Thomas Mann, Flaubert, Goethe (um virginiano que fez e analisou o seu próprio mapa astrológico), Tchekhov,
O JOVEM GIDE
Strindberg, Kierkgaard, Gide, Joyce, Sartre, Camus, Proust, Hoffmannsthal, Brentano, Nietzsche, Byron, Schopenhauer, Tolstoi e muitos outros. Parte da obra de Kafka permanece inconclusa. Algumas tendo até versões diferentes.  A melhor compreensão virá dos textos “fechados”, acabados, como A Metamorfose e Carta ao Pai, além de pequenas referências autobiográficas, cartas, cadernos, aforismos. A Metamorfose, de que trato aqui, é, como disse, uma novela “fechada”.

No todo, a vida de Kafka é uma paixão ilimitada pela leitura, uma vocação literária como poucas a desse virginiano clássico, que se
ELIAS CANETTI
tornou um excepcional grafocrata (compulsivo escritor de cartas), no dizer de Canetti. Com efeito, só a turbulenta correspondência que manteve por cinco anos com Felice Bauer daria um livro de setecentas páginas. Tudo isto, tudo que saiu da sua pena, veio sempre amparado por uma técnica expressiva singularíssima, por uma capacidade analítica sem igual, cheia de aspectos descritivos, onde pontificam o detalhismo e a investigação, traços marcantes de sua personalidade virginiana. Abundam as referências a pormenores: observar, notar, atentar, detectar, esmiuçar, dividir, classificar, são verbos seus, muito usados pelos nativos do signo. Sua descrição é exaustiva. Atmosfera sufocante, perfeccionismo, retração do horizonte visual. 


A visão de Kafka é microscópica, uma visão focada e precisa (lembro aqui que o microscópio é um instrumento que faz parte do mundo virgo, onde pontificam todos os que lidam com coisas pequenas, micro-organismos, detalhes, como entomólogos, citologistas, patologistas clínicos, gente que lida com a física atômica e subatômica etc). Tudo o incomodava, como se tivesse vibrissas hipersensíveis. Daí as suas inúmeras mudanças de uma residência para outra. Um ruído mais forte no quarto da casa ao lado e ele se mudava, às vezes para duas, três casas adiante, na mesma rua. Uns meses depois voltava ou ia para uma outra rua próxima. Nunca saiu do bairro judeu e da Cidade Velha.

Acredito que para melhor compreensão do que aqui se expõe quanto ao signo de Virgem (e por extensão com relação a Kafka), será registrar que no mundo das letras a arte da crítica, da boa crítica acentue-se, é território virginiano. A começar pela etimologia da palavra crítica: o verbo grego que lhe dá origem,
ALFREDO BOSI
krino, quer dizer separar, saber separar; distinguir e escolher são verbos de Virgem (somar é verbo de Touro e multiplicar é de Gêmeos). Entre nós, por exemplo, um dos nomes mais representativos da história da literatura e da crítica literária é o do virginiano Alfredo Bosi. 



RUA DOS ALQUIMISTAS, ONDE KAFKA MOROU

Não é por acaso que Maurice Maeterlink, famoso escritor belga, poeta, filósofo e naturalista, como um bom virginiano, escreveu A Vida das Abelhas e A Vida das Formigas. É trabalhando com os
ARNOLD SCHOENBERG
mesmos impulsos do signo que um compositor virginiano como Schoenberg criou a música atonal, decompondo a escala musical; não é também por acaso que Lavoisier, o criador da química moderna, grande defensor do uso sistemático da balança, tenha feito a distinção dos elementos ou que Buffon, outro virgo, grande autor de História Natural, tenha explicado a origem das espécies a partir das moléculas orgânicas...   

A obra kafkiana admite vários níveis de interpretação: religiosa, teológica, política, social, profética, psicanalítica. 

Outros pensaram numa aventura individual desesperada em busca da graça, algo que lembraria o Pilgrim's Progress, de John Bunyan. Qualquer que seja o enfoque, o que temos sempre para nos falar desse universo são as parábolas, as alegorias, as metáforas, os

símiles, as metonímias, as metábases, as perífrases e outras figuras de uma retórica alucinante. 
Sempre um magistral criador de frases “negras”, de enigmas, de aforismos, de apotegmas, uma produção que o caracteriza como um exemplo único na literatura. É por isso que quando nos aproximamos de Kafka não podemos falar de escritores que o tenham antecedido nos territórios em que ele se aventurou nem de escritores que possam ser considerados como seus seguidores ou herdeiros. 

A ideia da transformação de GS numa barata só poderia vir de um virginiano clássico como Kafka, já que Virgem é o signo dos pequenos animais, insetos no caso. Embora a crítica literária não

tenha especulado sobre o uso simbólico da barata em Kafka, quem mais discorreu sobre ela, como uma extravagância literária, foram os entomologistas. Vladimir Nabokov, por exemplo, nos deixou algumas observações, inclusive em palestras, sobre a questão dos insetos em Kafka, mas falou deles mais como um entomologista e taxonomista que era do que como um escritor. Ao que parece foi das informações de Nabokov que Robert Crumb retirou a ideia de transformar Samsa num besourão (Kafka de Crumb, publicado pela Desiderata, no Brasil). Essa designação, besourão, pode ser encontrada no texto de Kafka. Quem a usa, como já se observou, é a empregada da casa, provavelmente com a intenção de se tornar mais simpática ao irritado e amargurado pai de Gregor.

Evidentemente, os entomologistas se escandalizam diante do “novo Gregor” quando se aproximam de A Metamorfose, não entendendo ou custando muito para admitir o uso simbólico da barata.


Impossível pensar, diz um deles, numa barata como Gregor já que elas não têm, como os humanos, sistemas circulatório e respiratório tão desenvolvidos. Gregor não poderia sobreviver. Se levarmos o corpo da barata à escala humana, prossegue, o sangue de seu sistema circulatório, contendo oxigênio e nutrientes, nunca seria capaz de alcançar todas as suas células. Enfim, é a velha incapacidade aristotélica (“a é igual a a e não pode ser b”) que têm os homens de ciência (sobretudo os das exatas) de lidar com símbolos, com polissemias e com o pensamento analógico, que nos permite captar relações de semelhança que nada têm com igualdade entre fatos e coisas. Sentir-se como não é ser...  

A despeito destas opiniões, lembro, por exemplo, que as baratas, apesar da sua fama de ter mau odor e da sua associação com a sujeira, são consideradas como benéficas em muitas tradições. Folclore ou não, se elas se forem de uma casa podemos esperar alguma infelicidade. Os homens do mar sabiam antigamente que quando as baratas abandonavam um navio era de se temer um naufrágio. Além do mais, é preciso salientar que como símbolo de resistência a barata é imbatível; a própria ciência nos diz que as baratas, na forma em que as temos hoje, estão na Terra há mais de 400 milhões de anos, enquanto a forma do “homem moderno” só se definiu nos últimos 50.000 anos. Grande viajante, de natureza expansionista, ela é também um grande símbolo de adaptação;  encontrada hoje no mundo todo, mesmo nos polos, ela consegue encontrar seus nichos ecológicos em cozinhas, banheiros e tubulações de esgoto, sabendo compartilhar cuidadosamente com outras, de espécies diferentes, os espaços que ocupa. Estas informações, parece-me, talvez possam nos ajudar a encarar Gregor Samsa e sua metamorfose de um modo bem diferente.

Astrologicamente, Kafka tem em seu mapa astral quatro signos muito importantes, Câncer, Gêmeos, Touro e Virgem, que, ao lado das informações que nos dão e das retiradas da sua hereditariedade, de poderosos atavismos, e do seu meio social nos revelam muito sobre sua vida e obra. Por ter nascido em julho, no dia três, era Kafka um canceriano, em termos de personalidade básica, de eu profundo, solar. Daí vêm as questões raciais e familiares de sua vida e a sua incansável busca de um lugar onde pudesse viver (sonhou muito com viagens, em emigrar, inclusive para a América do Sul). Acrescente-se a tudo isso muita sensibilidade, anseios de vida comunitária, atração pela vida familiar, necessidade de aconchego, receptividade, suscetibilidade, caprichos. Kafka lembra muito, nestas questões familiares, Schubert (ascendente Câncer). Em Kafka, é do seu mundo canceriano, cheio de idiossincrasias, que vem a sua famosa sensibilidade com relação a ruídos, à atmosfera de ambientes e suas tendências claustrofílicas. Seu conto O Covil é uma das mais fantásticas ilustrações desse seu componente básico virgo-canceriano. Doença ou arte? Aliás, lembremos, foi outro canceriano, Proust, de pulmões muito fracos como Kafka, que nos últimos anos de sua vida se fechou num quarto forrado de cortiça para neutralizar os ruídos da casa e da cidade que muito o incomodavam, uma maneira que encontrou para poder terminar a sua obra antes de morrer. 


KAFKA JOVEM
Outra influência poderosa em Kafka é a do signo de Gêmeos, onde ele tem, dos dez astros que consideramos na astrologia, cinco: Plutão, Saturno, Mercúrio, Vênus e Lua. É desta conjunção múltipla (stellium) que saem os seus impulsos literários, seus traços mentais e intelectuais. Gêmeos é um signo de ar, cujas características predominantes são a versatilidade intelectual, a facilidade para obtenção de informações, a curiosidade, a comunicação verbal e/ou escrita ativadas, características que apontam para sua mania de escrever cartas, para seus interesses múltiplos, inclusive aqueles onde entrasse o uso das mãos (habilidade motora fina), aos quais se juntam as poderosas influências virginianas: interesse por marcenaria, jardinagem, esportes, nutricionismo, vegetarianismo etc. Gêmeos lhe oferece tudo isto, mas, por outro lado, inclina-o bastante ao nervosismo, à insatisfação, às inquietações, às oscilações de humor, seu lado moody (conjunção Lua-Vênus).

São esses dois signos, Câncer e Gêmeos, mais a influência taurina, que explicam sua causa mortis. Em junho de 1924, depois de mais ou menos dois anos de problemas respiratórios, um câncer na laringe ou pulmão o matou. Touro, como se sabe, governa a garganta, Câncer tem a ver com a matéria pulmonar (asma, bronquites, dificuldades respiratórias etc) enquanto Gêmeos, o signo das trocas, governa o mecanismo da respiração.

Em astrologia, o ascendente é o signo da hora do nascimento (a constelação para a qual a Terra se volta nesse momento). É o signo que descreve a nossa personalidade mais visível, o modo pelo qual somos captados mais espontânea e imediatamente pelos outros. É a nossa persona, digamos. Fala o signo ascendente muito da nossa aparência, do nosso corpo físico, daquilo que projetamos, enquanto o nosso eu interior será descrito em grande parte pela posição solar. A personalidade virgo, no geral, se inclina na direção de um temperamento nervoso, sempre causador de dificuldades para a vida afetiva e emocional. Virgem é o signo que antecede o de Libra, signo das uniões. Eis aqui apontada uma das razões pelas quais os virginianos como Kafka sempre encontram muita dificuldade para
KIERKGAARD
se unir, sendo o signo conhecido, por isso, como o dos ritos liminares, como o do noivado, totalmente esquecido hoje. Kafka, como Kierkgaard, outro com poderosas influências virginianas, sempre estiveram para se unir, mas nunca ousaram ultrapassar certos limites, passar pela porta (a angústia dos virginianos diante das portas) que os levaria a uma união. Foram “noivos eternos”.

Com Virgo e com Gêmeos em Kafka, na distribuição planetária de seu mapa, há uma grande intensificação da vida psíquica e mental e, ao mesmo tempo, uma grande retração com relação à vida instintiva. Decorrem daí as dificuldades de adaptação de Kafka ao exterior. Nitidamente seletivo, os acontecimentos, os menos significativos, aqueles que não deveriam merecer maior atenção, ganhavam sempre para ele muita importância. Juntando-se a estes componentes as influências cancerianas, temos as suas inquietações permanentes. Sempre perscrutando, examinando, sondando, verificando. O apelo da vida é sempre uma ameaça permanente à paz. Por isso, não deixar entrar o exterior. Esquivar-se, recusar-se, fechar-se. No lugar, a literatura, investida agora de prerrogativas que antes, quem sabe, estariam reservadas aos textos sagrados.

A disposição geral de Virgo é a de reter (saídas só pelo mental). Um dos pecados dos tipos clássicos do signo, como Kafka, é o da dificuldade de dar por concluída alguma coisa; ficam eles num
BONNARD
rever e num repassar eternos (vide o que Bonnard fazia com os seus quadros), em cima de telas, composições musicais, textos, de um orçamento, porque o ato de separar o principal do acessório é sempre dramático para eles. As grandes linhas do cenário virginiano se desenham então: controlar, dominar, disciplinar; tendência à economia, à parcimônia, à acumulação, à conservação. Diante de tudo isto, o caráter sério, consciencioso, escrupuloso, reservado, cético, metódico, ordenado, intolerante, ligado às regras, às tarefas, voltado para as coisas difíceis, ingratas e penosas, sempre visando a satisfazer acima de tudo um sentimento de segurança ultraprotegida.

Desembaraçar-se da vida emocional, sentimental, sempre fonte de aborrecimentos, é uma grande tentação para os de Virgo. As afinidades do signo levam muitos de seus tipos a colocar sempre a pequenez do homem solitário diante das figuras destrutivas do destino. Por causa dessa retração do eu, dessa recusa da vida instintiva, o tipo virgo, no qual Kafka se encaixa, procura reforçar as suas barreiras, criar limites com seus hábitos e suas manias. É ao longo do eixo Virgo-Peixes, não esqueçamos, que se verificam normalmente os casos de TOC (transtornos obsessivos-compulsivos), com seus personagens típicos. 





É desse mundo que saem os sonhos recorrentes com insetos, pragas,  parasitas,  vermes,  micróbios,  bacilos   etc.,   a   mania   de limpeza, o horror da sujeira. 


Encontramos em As Cartas a Milena: Eu sou sujo, Milena, infinitamente sujo, é por isso que eu grito tanto pela pureza. Ninguém canta mais puramente que aquele que habita o mais profundo inferno  é este canto que nós tomamos pelo canto dos anjos. Esta breve referência que aqui faço ao tema da limpeza em Kafka pode nos ajudar a entender porque, ao longo da história do homem, na política, na religião, na vida social e em outros setores, foram os virginianos que assumiram o papel de controladores da pureza doutrinária, religiosa ou racial, da pureza em todos os sentidos, em várias sociedades: Beria, com relação ao estalinismo, e Goebbles, com relação ao nazismo, ambos virginianos, são exemplos.

Neste item sobre a pureza em Virgem, não posso deixar, porque exemplar como poucas, uma referência talvez àquele que tenha sido a melhor ilustração desta qualidade na política. Refiro-me a Louis-Antoine de Saint-Juste, que tinha, dos dez planetas que hoje consideramos na Astrologia, seis no signo de Virgem. Incorruptível, seu ideal de pureza levou-o a uma forma especial de fanatismo responsável por frases como esta: “As armas da liberdade não devem ser tocadas senão por mãos puras”.

Permanecendo ainda neste item, não é por outra razão que, entre os judeus, os levitas representavam, na distribuição zodiacal dos doze signos astrológicos (um para cada tribo), o signo de Virgem. Eram os levitas os responsáveis pelos cuidados do templo e do tabernáculo e pela pureza do alimento a ser consumido, a comida kasher (etimologicamente, apropriado). Uma pessoa kasher é aquela que, dentre outras coisas, cumpre as leis dietéticas.

Foram os antigos judeus, sem dúvida, dentre os povos da antiguidade, os que mais se voltaram para a questão da pureza. O código de pureza que estabeleceram está fixado nos Levíticos 11-16 e indiretamente em 17-22, ainda que muitos outros preceitos sobre o assunto estejam dispersos pelo texto bíblico. Os Levíticos formam um código cerimonial que contém as disposições básicas sobre o assunto, no tocante aos sacrifícios, ao sacerdócio e às leis da pureza. Daí, as expressões como “pureza levítica”. Levi (etimologicamente, apegado, ligado) era o terceiro filho de Jacó e de sua esposa Lea, filha de Laban, prestando os seus descendentes os serviços ao templo.

Entre os antigos judeus, segundo a sua arte astrológica, uma pessoa sob a influência de Elul (nome do signo) apresenta uma inclinação natural para a análise, dando sempre muita importância a detalhes,

mesmo os insignificantes. Há uma tendência natural para o perfeccionismo, para uma acentuada postura introspectiva diante da vida e para a frieza emocional. Essas tendências, contudo, se trabalhadas segundo a Torá, poderiam ser superadas.  Sem este auxílio, teríamos a compulsão para coisas pequenas, a confusão entre o que é mais importante e o que não é. Características negativas importantes: falta de confiança, dúvida, paralisia diante das escolhas.  Lembre-se que o nome Elul, como quase todos os demais de sua adiantada astrologia, foi herdado dos babilônicos; designava o sexto mês do ano (agosto-setembro), correspondente ao mês da colheita.


A letra Yod associa-se a Elul na medida em que significa pensamento, raciocínio, apontando para um futuro a ser criado, que a conhecida estrela (signo) de Salomão, de seis (número de Virgem) pontas simboliza. Segundo os antigos astrólogos judeus, as faculdades da percepção e da compreensão são femininas. Por esta razão, o signo de Elul tem a forma feminina, uma virgem, que representa a modéstia, a pureza, características essenciais para o retorno do divino. Os textos astrológicos judaicos atribuem a mão esquerda a Elul, indicando este lado, aqui, materialidade e ação. Com a letra Yod, temos os conceitos virginianos de sabedoria e ação no mundo. 

De toda essa retração do eu que encontramos em Virgem, costuma resultar, nos tipos mais malogrados, sem dúvida, um sentimento de inferioridade. Progressivamente, se instala um efeito de intimidação que traz um auto apagamento, uma evanescência, que pode chegar à perda do eu. Mas em Kafka, e eis aqui a sua genialidade, sempre ficou, por trás desse ser que ia se transformando “numa coisa a ser esmagada”, uma consciência que sabia bem o que valia e o que queria, mas que não tinha condições de ocupar um lugar entre os seus semelhantes.

A Metamorfose admite vários níveis de leitura, aliás, como toda a obra de Kafka. Não a podemos ver como um sonho doentio, louco, se pensarmos que o ser humano, a todo  momento, é espezinhado em seus direitos, assemelhando-se a um mero e vil inseto que pode ser varrido sem maiores considerações por um criado qualquer da engrenagem. 


Como não ver em O Processo e O Castelo a representação do absurdo que é este mundo sem paz, sem tranquilidade, um mundo vítima de suas próprias contradições, caótico, alienado, enlouquecido, que desconsidera, avilta e aniquila o ser humano, mas em torno do qual tudo deveria girar – o homem vivendo com outros homens fraternalmente, igualitariamente, em sociedade. A obra de Kafka antecipa as formas de totalitarismo que vieram depois dele. O desespero, o absurdo, e tudo o mais poderia ser diferente. Precisaríamos de pouco, de muito pouco. Um mundo infinitamente próximo e, no entanto, infinitamente distante. É esta a situação absurda de Praga ao final do século XIX: alemães, tchecos e judeus, embora ligados por muitas coisas em comum (costumes, cultura, tradições), não se entendiam.

O que Kafka sempre buscou foi a legitimação de sua existência. Lutou até o fim para não se sentir um excluído, um estranho. Viveu sempre com uma sensação de risco, de perigo iminente, pelo excesso de sensibilidade. Temores, ameaças, labirintos (outro tema de Virgo). Daí sua vontade de desaparecer, morrer, volatilizar-se, metamorfosear-se. Transformar-se numa barata ou no pequeno animal de O Covil. A psicologia, numa visão reducionista, poderá ver em A Metamorfose, uma ilustração daquilo que chama de despersonalização, a perda do sentido de identidade pessoal. Talvez seja. Mas A Metamorfose e toda a obra de Kafka vão certamente além. Ela está psicológica, social e metafisicamente centrada naquele ponto de encontro das tensões entre as relações pessoais e coletivas. Kafka, como poucos, chegou a esse ponto: mais que uma discussão sobre a condição humana, o que temos, com ele, é a discussão sobre o homem em situação. 


A enorme carga simbólica de sua obra, a sua vibração trágica, seu admirável poder metafórico permitiram que ele desse forma, esteticamente, à angústia do nosso tempo, aos nossos tormentos pessoais, europeus sobretudo, aos nossos dilemas, à nossa impotência e à nossa esperança. A grande parábola de nosso tempo está em Kafka, talvez no seu todo a maior construção literária dos tempos modernos.

Kafka tinha consciência do que representava. Recusava comédias sociais, álibis, representações, encenações hipócritas. As religiões oficiais não o satisfaziam e, no entanto, foi o mais religioso de todos os homens. Disse de si mesmo: “sou um término e um começo”. As filosofias também não o tocavam. Deixou claro que o homem nasce na solidão do desafio buscado por si mesmo. Ele tentou chegar à sua terra prometida, acreditou na possibilidade de se realizar entre os outros homens. “O instante decisivo da evolução humana dura sempre”, é uma de suas melhores frases.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

MAPA ASTROLÓGICO DE LEWIS CARROLL




Mapa astrológico de Lewis Carrol - CID MARCUS

                       Ilustrações de  Adriana Peliano



Mapa astrológico de Lewis Carrol - CID MARCUS

A maior parte dos astros da carta astral de Charles Lutwidge Dodgson (Lewis Carroll), nascido na madrugada do dia 27 de janeiro de 1832, em Daresbury, Inglaterra, às 03H50M, se distribui pelas suas três primeiras casas. Essas casas constituem o chamado primeiro quadrante zodiacal. Uma grande concentração de astros nessa área, em qualquer carta, indica, de um modo geral, que temos diante de nós uma pessoa muito voltada para os seus interesses pessoais. Esta interiorização costuma tomar dois caminhos: 

1) uma extroversão egoísta, ou seja, o indivíduo age sobre o mundo levando muito pouco em consideração os outros, ignorando-os até; muitos são afoitos e descuidados, neles prevalecendo a ideia de, ao agir, tomar a dianteira, de ultrapassar; não há diálogo, trocas; 
2) uma introversão, de certo modo também egoísta, mas fixando o indivíduo a sua energia psíquica no seu mundo interior, às vezes de grande riqueza, alimentado por buscas mentais ou pela imaginação ; são indivíduos que parecem fechados, prudentemente críticos e contidos, mas que sempre tentarão se impor ao mundo, muito mais por sua inteligência que por suas ações.


LC aos 8 anos
LC aos 8 anos

LC, desde cedo, se encaixou neste segundo tipo.
A ausência do elemento água na sua carta astral tem certamente muito a ver com o enquadramento a que me refiro. A falta deste elemento num mapa é responsável, em grande parte, por dificuldades de convívio com o mundo circundante, pois afeta negativamente a sociabilidade, havendo pouca receptividade para o que vem de fora.                                                                              
No caso de LC, o elemento ar compensou esta carência. Reservado e tímido, primogênito numa família de muitos filhos, foi educado num ambiente familiar conservador, vitoriano. 
Seu o pai era pastor da igreja anglicana, muito rigoroso e severo. LC sentiu logo as pressões a que estaria sujeito, mas nunca, me parece, se deixou envolver pelos complexos que costumam submeter os tipos enquadrados no segundo item (evidentemente os tipos menos logrados), complexos como o de Cronos ou o de Isaac, que poderiam ser ativados, no caso, pelo planeta Saturno, um significador da figura paterna, da tradição, dono de sua vida econômica (casa II), condômino de sua inteligência inata (casa III) e tendo a ver também com o seu Meio do Céu, com amigos, inclusive os do pais, e projetos (casas X e XI), o planeta mais elevado de seu mapa

No mapa de LC, Saturno, regente do signo de Capricórnio, é, como se disse, dono de sua segunda casa, a casa dos valores, da vida econômica. Nesta casa, temos informações sobre o seu destino financeiro, informações que se completam com outras, que o planeta Júpiter (Fortuna Maior) e a Roda da Fortuna oferecem. A segunda casa em Capricórnio aponta para atitudes muito conservadoras com relação ao dinheiro. Nesta casa estão definidas, ainda que inconscientemente, as coisas às quais uma pessoa se agarrará mais enquanto viver, falando-nos, no caso presente, tanto de um desejo de segurança financeira como de respeito à tradição. A capacidade ou a incapacidade de alguém para ganhos e aquisições está nesta casa. 
LC, como se sabe, foi preparado por seu pai para a carreira religiosa (muito segura sempre, principalmente para tipos menos afoitos fisicamente como ele) e foi através dela que ele teve acesso à cátedra na universidade de Oxford.


Era LC, sem dúvida, um conservador na aparência, mas intelectualmente, na sua expressão, um rebelde e até certo ponto muito “perigoso” sob o ponto de vista afetivo. 
O planeta Vênus, em conjunção com Marte, num signo de fogo (Sagitário), fala aqui de prazeres sensoriais, estetizantes, de atrações instintivas, de doces confidências, tudo ligado a afetos de atração voluptuosa e a estados emocionais. 
Ao mesmo tempo, valorizava bastante o mundo conservador, a segurança que ele lhe proporcionava materialmente, os favores que, pelo seu aspecto de bom moço e confiável, obteve dos outros. Não foi por acaso que permaneceu como professor de Oxford por longos 26 anos, até 1881. 
Sua obra literária e sua sexualidade, porém, pelo seu inusitado, sempre constituíram um problema que ele parece ter sabido contornar, sobretudo se levarmos em conta os valores da sociedade em que vivia e cultuava, muito permeados, como se sabe, por desvios sexuais (a homossexualidade e a pedofilia das elites no período vitoriano).
Saturno está posicionado na sua nona casa (setor do magistério superior), no signo de Virgem (interceptado), em conjunção com o asteroide Juno (que prefiro chamar de Hera), este sempre um indicador de tendências conservadoras, apontando para o que é legal, oficial. 
Este asteroide é um dos regentes de Libra, signo que governa o Meio do Céu e a casa XI do mapa de LC. 
A conjunção Saturno-Hera sugere benefícios mundanos, profissionais, e também a participação favorável de amigos. 
A interceptação Peixes-Virgo, no eixo III-IX, aponta para estudos religiosos, mas não nos deixa admitir uma prática religiosa sincera. Em LC, religião de fachada, usada apenas para fins profissionais. Ele lia os textos religiosos, transmitia-os mecanicamente, nunca se identificando com eles. A atenção e o cuidado que dedicou à sua formação religiosa não tiveram outro objetivo senão o de garantir mundana e hipocritamente, tivesse ele tido consciência disso ou não, a sua posição no sistema no qual estava integrado.



Quanto ao Meio do Céu no signo de Libra, as indicações que dele podemos obter cooperam com o que o trígono Saturno-Mercúrio proporciona. Este ângulo do mapa descreve como são conduzidos os vários papéis que alguém assume publicamente. Ele fala do perfil público que este alguém terá na sociedade em que vive. Libra, neste ponto, indica que LC se estabeleceu profissionalmente como religioso e professor muito mais por iniciativa de seu pai e pela ação de amigos do que por uma decisão sua, pessoal. Libra nesta posição revela também que a posição mundana que obteve foi por ele conduzida até com muita diplomacia, com muito tato, equilíbrio, um jogo social que ele parece ter dominado muito bem. O planeta regente do MC é Vênus, na primeira casa, em conjunção com Marte, regente da quarta casa, a da família. Mais dados, pois, a corroborar o que acima está dito: a vida profissional de LC não foi buscada por ele, não foi uma conquista sua. Ao contrário, a vida profissional é que foi a ele.



A Roda da Fortuna em conjunção com o MC, em Libra, indica que a vida profissional de LC foi beneficiada de alguma forma por essa sua postura de “não-auto-afirmação”. Recebeu a cooperação dos outros, ganhou aceitação, cultivou amizades, deixou-se conduzir; foi assim que se estabeleceu profissionalmente. Lembro que bem antes do final de sua vida, LC, ao entrar nos seus cinquenta anos, conforme registros disponíveis, já estava muito bem acomodado financeiramente, embora exteriormente não demonstrasse sinais de riqueza. Morava na mesma casa de sempre, continuava a lecionar, nenhuma mudança notável aparentemente, mas tranquilo com relação à sua vida financeira.



Ilustração de Adriana Peliano

Quanto a Júpiter, regente do ascendente, posiciona-se ele no final de Aquário, na início da casa III, o que nos permite admitir uma expansão por escritos, ganhos por amigos, um certo sucesso social e popularidade (LC se tornou “popular”, digamos, pelo seu lado aquariano, como veremos), o que colabora com as indicações solares. Com Júpiter dominado por Urano, temos idéias de não confinamento mental e de uma liberdade quase anárquica nesta área; há sempre propostas de inventividade, de visão inovadora no modo de ver as coisas e de falar ou escrever sobre elas. Estas características LC as viveu muito em função dos outros (forte traço aquariano), isto é, de um público, haja vista que boa parte de seus inventos e jogos de palavras, senão a totalidade, sempre procuraram proporcionar algum benefício às pessoas, fazendo-as conviver melhor, divertindo-as, ajudando-as a participar de grupos, como o chamado Nyctograph, o triciclo, as regras para identificar o dia da semana de qualquer data etc. Jogos, brincadeiras, gadgets, trocadilhos, passatempos, tudo aquilo que em língua inglesa podemos classificar como trifle, produções aparentemente frívolas, insignificantes até, mas espirituosas, e que, no fundo, no caso de LC, serviram para não só ajudá-lo a se colocar melhor socialmente como a se aproximar de pessoas, reunindo-as, facilitar a sua a convivência de todos. Quanto a este particular, aliás, lembro que um dos traços mais salientes de muitos aquarianos, que LC aqui revela, é o desejo de agradar, de ser atencioso, de colaborar de algum modo.

Astrologicamente, como se sabe, o Sol se exila em Aquário. Este exílio oferece para os aquarianos, via de regra, uma certa dificuldade para a sua afirmação, produz um enfraquecimento da vontade solar, menos concentração, leva-a a um certo espalhamento, 
desconcentra-a, dificuldade que muitos procurarão compensar. Esta compensação costuma se dar pela exacerbação de alguma atitude ou postura diante da vida, fazer sobressair algum aspecto da personalidade, seja fisicamente (um esporte, radical muitas vezes), mentalmente (vanguarda literária, artística), por algum descomedimento (comportamento antissocial), por alguma extravagância (decoração corporal ou ambiental escandalosas), expressões pelas quais esses aquarianos se afirmarão, se farão notar e destacar. Muitos, como é o caso de LC, se tornarão “únicos”, diferentes, Mozart, James Joyce, Franz Schubert, Manet, Virginia Woolf, Santos Dumont, James Dean, Jules Verne, são alguns exemplos. Saliento que o planeta Urano, num mapa, fala das faculdades inventivas de alguém, da sua inserção na vida moderna, inclusive da sua adesão a ondas e modismos de vanguarda, do desejo de alguém se tornar vedete de algum modo.
Essa forma de compensação a que me refiro tornou LC, na sociedade em que vivia, uma espécie de “entertainer” (algo até certo ponto impensável para um reverendo), um charmeur, traço de sua personalidade que ele cultivou bastante. Longe do mundo oficial, foi mímico, contador de histórias e até um razoável cantor, apesar da sua famosa gagueira, um tormento desde a infância, que era preciso também compensar.


Quatro astros em LC são particularmente responsáveis por essa perturbação da fala de origem psicomotora, caracterizada, no geral, pela repetição espasmódica de sílabas e paradas involuntárias no início das palavras. Urano, como se sabe, é também o planeta responsável por movimentos físicos involuntários, espasmos, desde câimbras, tiques nervosos até disritmias e manifestações epileptiformes (na época, um dos diagnósticos, diante dos desmaios de LC). Na gagueira, lembremos, há um bloqueio do centro intelectual da fala (aspecto Mercúrio, a fala, e Saturno, o bloqueio, o mundo paterno). Atividades “femininas”, porém, como o canto, podem acontecer normalmente (casos de alguns cantores gagos), ajudando a superar o problema. A gagueira se caracteriza sobretudo por uma obstrução, por um medo de alguém se expressar, o que leva o gago às vezes a querer verbalizar tudo muito apressadamente, como verdadeiras rajadas verbais. Além de Mercúrio, Saturno e Urano, a Lua, em conjunção com o ascendente, é outro fator altamente perturbador com relação à sua “presença” no mundo, à sua maneira de aparecer para os outros, além de responsável por certos traços paranoicos que encontramos na personalidade de LC.


Ilustração de Adriana Peliano


LC chamou de “hesitação” diante da vida essa sua mistura de gagueira e de traços paranoicos, que o acometeram desde cedo. O radical “para”, em grego, quer dizer “à margem”, “ficar de lado”. Na paranoia, o que temos é um pensar (noein) de modo anormal, ficar fora da normalidade. É, no fundo, um delírio de relação onde costumam entrar mania de perseguição, ciúmes, absurdas inferências, que podem acabar levando à chamada esquizofrenia paranoide. A relação Urano-Saturno-Mercúrio no tema de LC parece ter muito a ver também com as suas famosas dores de cabeça (migraines), com manifestação de aura, e perda da consciência, de natureza epiléptica, que alguns passaram a denominar “síndrome de Alice no País das Maravilhas”. Urano, como se sabe, sob o ponto de vista aqui enfocado, é o planeta da neuromentalidade, sendo o responsável, em determinadas condições, por fenômenos de gigantismo ou de nanismo, aquilo que, em LC, se caracterizou como macropsia ou micropsia, a percepção alterada do tamanho dos objetos, deformações do mundo real, para mais ou para menos, traços que ele registrou em “Alice”.




Ilustração de Adriana Peliano

A Lua, num mapa astrológico, nos revela muito sobre as tendências herdadas, os instintos de sobrevivência, as ligações emocionais, tendo a ver com a vida subconsciente. Fala-nos a Lua do passado, da infância, da vida familiar, da figura materna sobretudo. Enquanto a figura paterna de LC, como se disse, sempre lembrou a ele o mundo oficial, o limite, o dever, a obrigação, a ordem, a tradição, a figura materna, por outro lado, uma presença fugidia, que desapareceu relativamente cedo de sua vida, sempre lhe trouxe idéias de liberdade, de metas distantes, de independência, de idealismo, idéias que ele viveu através de sua literatura e da fotografia, nunca fisicamente. Neste particular, registra-se uma única viagem sua ao exterior, à Rússia, em 1867. Não podemos esquecer que o tema das viagens em LC se concretizou sagitarianamente por duas vias, a religiosa e a mental, esta com uma poderosa contribuição aquariana.

Já na infância LC possuía uma reading list. Precocemente dotado (muitos aquarianos “aceleraram” muito a sua entrada na vida; lembremo-nos, por exemplo, de Mozart), já aos sete anos, fazia parte das suas leituras um dos mais famosos livros de viagens, “A Viagem do Peregrino (The Pilgrim´s Progress from this world to that which is to come), de John Bunyan (1628-1688), escritor inglês, uma das maiores obras da literatura religiosa (astrologicamente, Júpiter em Aquário). Neste livro se mostra o acompanhamento do cristão por duas entidades, Pliable (Docilidade) e Faithful (Fé) no seu caminhar em direção da Cidade Celeste, em meio às mais variadas emboscadas: vozes demoníacas no vale das Sombras e da Morte, nevoeiros e sarçais na Terra Encantada, os lamaçais do Desencorajamento, a Feira das vaidades. Ainda está para ser feito, ao que me conste, um estudo de o quanto as idéias de Bunyan estão “presentes” na obra de LC. A Viagem do Peregrino foi considerado nos meios religiosos da Inglaterra (Bunyan, filho de sapateiro, foi ministro da Igreja batista e passou doze anos na prisão) como o “mais belo livro do mundo depois da Bíblia”.


O planeta Júpiter, regente do ascendente, é também “responsável” pelo nascimento de Lewis Carroll. Júpiter, como se sabe, tem ciclos de doze anos. Na segunda volta desse planeta à sua posição natal, o jovem Dodgson, então com 24 anos, em 1856, publicou um poema, Solitude, adotando pela primeira vez o pseudônimo de LC. Lewis é uma forma anglicanizada de Ludovicus, tradução latina do seu sobrenome materno Lutwidge. Carroll vem de Carolus, latim, de onde saiu o seu prenome Charles, Carlos. A inspiração materna, lunar, por trás deste segundo nascimento, é evidente.



Ilustração de Adriana Peliano

Quanto ao nome Lewis, há mais: o nome Ludovico, uma latinização do nome do rei dos francos, Clóvis, proveniente este de wig, batalha, no antigo germânico, tomou o sentido, na Idade Média, de lúdico e também de vitorioso. Ludovico, Louis, Lewis, é nome que, pela sua etimologia e histórias de personagens a ele ligados, sugere espírito independente, generosidade (tornar o mundo mais feliz), capricho, ligação com o espiritual, movimento, liberdade (mas ancorada na tradição), improvisação... Charles (Carroll) vem da mitologia escandinavo-germânica, nome de um dos filhos do deus solar Heimdall, Karl (Charles, Carroll), nome que traduz uma ideia de virilidade, de independência, de criatividade, de abertura do espírito.



Vitral em All Saints Church, Daresbury, Cheshire.


A presença de Júpiter, regente do ascendente, na casa dos escritos, fala também de sentimentos humanitários ou religiosos que, se não vividos, poderão ser pelo menos expressos em textos ou simplesmente verbalizados, simuladamente. Ou seja, pode-se escrever e falar sobre coisas nunca vividas ou nas quais não se acredita, até com muita propriedade e de modo muito convincente. Não esqueçamos que LC era também o reverendo Dodgson...

A “hesitação” de LC diante do mundo trouxe-lhe evidentemente alguns sérios problemas. Um deles foi o receio de ocupar postos mais elevados na carreira religiosa, pois teria que conviver bastante com o mundo “oficial”, discursar, usar muito a comunicação oral. Preferiu não se expor. Além disso, conforme anotações em seu diário, quando estava prestes a completar 28 anos (primeiro retorno de Saturno, que volta a ocupar a sua posição natal) parece ter ele passado por uma profunda crise religiosa, declarando-se “pecador” e “culpado”. Recebeu, contudo, as ordens do decanato, instância hierárquica inferior, pela qual ingressou na carreira, em fins de 1861, aos 29 anos, definindo a sua situação profissional.




Ilustração de Adriana Peliano

A “hesitação” do reverendo Dodgson deve ter sido também a responsável, até onde se sabe, pela ausência de mulheres na sua vida sentimental. Tímido e inseguro diante delas, tornava-se completamente diferente com as meninas e nos meios onde podia soltar o seu lado aquariano. Incapaz de estabelecer relacionamentos que levassem a uniões formais e/ou a uma sexualidade aberta, adulta, de que natureza fosse, voltou-se para as meninas, com as quais se tornava muito mais livre, fluente, intrépido até. Superou este problema, pelo menos em parte, compensando-o pela literatura e pela fotografia. Mas não deixou de se caricaturizar (uma punição? Um pedido de socorro?), em “Alice”, como Dodo, a repetição gaguejante da primeira sílaba de seu sobrenome paterno, Dodgson, grafado, segundo consta, nos seus cartões de visita, como “Do-do-Dogson”. O dodo, personagem que aparece em Alice, é, como se sabe, um pássaro desajeitado, perseguido até a sua extinção.














            Ceres                                 Pallas Atena 

Tudo leva a crer que LC explorou conscientemente este traço de sua liberdade aquariana para compensar o desconforto, o temor, a ansiedade que o seu “lado oficial”, de religioso e de professor universitário, lhe causava. Os dois asteróides, Pallas (Palas Atena) e Ceres (Deméter), posicionados na casa três ajudaram de certo Júpiter na missão social acima apontada. O quincúncio Saturno-Urano é exatamente o revelador dos problemas que LC encontrou nessa área, problemas que tanto o perturbaram, o conflito, entre o “oficial” e o “rebelde”, a sua gagueira, as suas reticências diante da vida. Esclareça-se, porém: ele foi um “rebelde” que jamais bateu de frente com a sociedade vitoriana, puritana e conservadora na superfície, mas muito “pecadora” um pouco mais abaixo, como a vida de muitos aristocratas, artistas e escritores da época o confirmam.


Família Rossetti



Tennyson

Como reverendo Dodgson, LC sempre se sentiu muito pressionado pelas responsabilidades decorrentes das posições que ocupava profissionalmente como religioso e professor. A exploração do seu potencial aquariano através da fotografia (Netuno em boas relações com o MC) foi colocado, sem dúvida, a serviço de sua sexualidade (a fotografia das meninas nuas ou quase nuas), mas ele soube usar também esta habilidade para socialmente, isto é, oficialmente, se promover, progredir. LC fotografou muitos dos “notáveis” do país, aproximando-se inclusive de intelectuais do sistema, como Dante Gabriel Rossetti, Tennyson, Arthur Huges e outros.


Voyeurismo (Marte, o planeta da visão, em conjunção da Lua Negra) e fetichismo (a fotografia) se unem na personalidade de LC através das relações da conjunção Vênus-Marte, em semi-sextil irritante com Netuno (fotografia), e de Plutão (sexualidade), regente da casa XII, na casa IV. O quincúncio Saturno-Plutão, que entendo existir, aponta, por outro lado, para dificuldades de convivência que LC deve ter encontrado no seu ambiente familiar com relação ao tema da sexualidade (alguma experiência infantil?). Este aspecto indica tensões, uma atmosfera repressiva, sobretudo, pelo que Plutão significa (regente da casa XII), no que diz respeito à sua sexualidade (fixação na figura materna?).

A Lua Negra, por sua vez, tem algo a nos dizer sobre o que aqui se expõe. Em Capricórnio, ela nos fala de uma sensualidade reprimida e indica um papel muito importante dos pais, do pai, no caso, na educação sexual do menino e do jovem Dodgson. Há sempre com a Lua Negra neste signo indícios de repressão da vida instintiva, de auto-disciplina, de conflito entre o desejo e a sua recusa. A Lua Negra, como se sabe, num mapa, é um ponto focal de características “infernais”, algo muitas vezes incompreensível, um ponto kármico como dizem os hindus, um lugar onde onde há que se resgatar alguma coisa sob o ponto de vista sexual. Ao formar aspecto com algum planeta (Marte, no caso), a Lua Negra indica por onde a vida sensual teria a tendência de se exprimir. A contribuição do trígono Plutão-Lua, por sua vez, além de revelar emoções sob controle, traz outras influências até certo ponto positiva para esta problemática , amenizando-a talvez, apontando para contactos e mesmo convivência com crianças, que poderão se tornar fonte de alguma forma de criatividade, de sublimação.



Lewis Carroll


A concentração de planetas num determinado quadrante, como sabemos, fornece importantes indicações sobre o rumo principal que um indivíduo tomará na vida. No caso de LC, todos os planetas do seu mapa, como se disse, com exceção de Saturno e Plutão, estão concentrados no primeiro quadrante, fato que nos remete à ideia de que ele, de alguma forma, apesar de tudo, procurou saídas para a sua dificuldade na struggle for life. Com efeito, estão no primeiro quadrante não só os dois luminares (Sol e Lua) como o regente do ascendente e todos os chamados planetas pessoais (Lua, Mercúrio, Vênus e Marte). Saturno, regente das casas dois e três, encontra-se na nona casa, em Virgem, com alguma dignidade (triplicidade) pelo elemento terra. Plutão, regente da casa doze, como se disse, encontra-se na quarta casa, Áries, exaltado, portanto.



Há que se considerar também que a quase totalidade dos planetas (a exceção é Saturno) está abaixo do horizonte, região das chamadas casas noturnas, o que denota uma influência preponderante da vida subjetiva sobre a vida objetiva. O semiciclo inferior está relacionado com as coisas essenciais à sobrevivência, questões familiares, sua influência, e organização prática da vida diária (segundo quadrante).




Ilustração de Adriana Peliano

Observações como estas, ressaltemos, têm sempre um valor conjectural e dependerão, é claro, de um exame mais aprofundado do tema. Tais observações nos dizem que LC, confirmando o que expusemos inicialmente, foi naturalmente uma pessoa voltada para o seu mundo interior, alguém que procurou abrir caminhos na vida levando muito pouco em consideração o mundo exterior, seja através de alianças, de propósitos ascensionais ou de envolvimentos com grupos ou coletividades; usou-os, sim, embora não tivesse conseguido ficar totalmente imune às suas poderosas pressões. Conseguiu escapar, sem dúvida, pela excepcionalidade de sua obra, pejorativamente classificada como de literatura “nonsense” ou infantil. Segurança econômica e produção literária (na época mais considerada como um divertissement), mais aquela do que esta, puseram-no nas “alturas” sociais (Saturno elevado na casa IX). A Lua, regente da casa VIII, a casa da morte, pode ser considerada também como um significador de que o real reconhecimento público de LC viria só depois de sua morte.

Quanto à distribuição elementar no mapa de LC, a ênfase está em fogo e ar, com uma significativa contribuição do elemento terra, já que Saturno, em Virgem, na nona casa, retrógrado, é dispositor de Mercúrio e, juntamente com Urano, do Sol. Predominância, pois, de dois elementos positivos, ativos. A combinação fogo-ar indica atividades muito mais voltadas para especulações mentais ao nível da linguagem (casa III aquariana) do que voltadas para expressões físicas (viagens) ou fins práticos (terra). De notável, quanto aos elementos, a ausência de planetas nos signos de água, já observada, reveladora, de um modo geral, de grandes dificuldades com relação à vida emocional. Emoção só para a fotografia, talvez, uma arte pisciana (Júpiter, regente do ascendente, dispositor da Lua, e corregente da casa III). Netuno, corregente da casa III, o planeta da fotografia, na casa II, sugere dinheiro ou conquistas mundanas e financeiras por ela.

Lembremos que LC tinha a sua sétima casa em Gêmeos, o que por si só indica dificuldades para compromissos sociais mais firmes. Gêmeos fala de inconstância, falta de receptividade, superficialidade, ênfase no mental dispersivo etc. Muita conversa, nada profundo, porém, nenhum engagement mais consequente. LC nunca se casou, embora, supõem alguns, tenha tentado fazê-lo com alguma amiguinha, não só com Alice. O Sol em signo de ar, a Lua, Vênus, Marte e o regente do ascendente (Júpiter) em signos mutáveis reforçam o que acabamos de dizer, não inclinam a compromissos formais e duráveis. Se se unisse matrimonialmente a alguma menina teria certamente muita ascendência sobre a parceira, esta, sem dúvida, uma reflexão que lhe deve ter passado pela cabeça. Contudo, nunca se atreveu... 

LC tinha o seu ascendente em Sagitário, signo de fogo, mutável. 
O ascendente simboliza o modo como a personalidade de alguém se exprime mais imediata e espontaneamente. É a chamada personalidade visível. Representa a imagem que é projetada, aquilo que outros captam mais espontaneamente de uma pessoa. Não é, contudo, um retrato fiel de uma personalidade pois pode encobrir, abafar ou entrar em choque (o mais comum) com orientações mais profundas, do eu solar.


Sagitário no ascendente pode inclinar alguém a buscas distantes, falando-nos o signo de vida espiritual (vida religiosa, no caso de LC), desenvolvimento mental, viagens físicas, exploração, educação formal, ensino superior (deu aulas na universidade de Oxford), tudo muitas vezes impregnado de alguma forma de idealismo. Fisicamente, no ascendente, o signo pode alongar o corpo (longilíneo) ou levar à corpulência (o que não é o caso aqui). LC era alto, delgado, conforme depoimentos, com cerca de 1,80 m. de altura ou um pouco mais.Quanto às patologias, o signo costuma predispor a problemas na região sacro-lombar, no coxo-femural, no fígado e na circulação (química do sangue). 

A Lua, muito poderosa no mapa de LC, no ascendente, fixa os problemas de saúde em males digestivos e/ou pulmonares, estes últimos muito acentuados no mapa, provavelmente herdados (via materna). A Lua, funcionando como hyleg, em conjunção com ascendente, aumenta os problemas emocionais, somatizações, sugerindo-nos tanto um grande desejo de contacto mais íntimo com as pessoas e, ao mesmo tempo, um grande temor de que tal acontecesse devido às obrigações decorrentes. A Lua, como vimos, faz parte da chamada “hesitação” de LC, um componente importante. Muitas contradições, muita vulnerabilidade a pressões externas, imaginadas ou reais, necessidade de contactos, expectativas, de um lado, e, de outro, barreiras levantadas inexplicavelmente, desconfiança, temores, uma sensibilidade exagerada. Há uma tendência à idealização da vida quotidiana, da vida familiar, à indolência e a caprichos, tudo muito bem encoberto por uma aura religiosa.




Polixeni Papapetrou

Como regente da casa oito, no ascendente, a Lua revela também uma poderosa influência feminina, materna, sobre a personalidade de LC, além de indicar fortes traços de uma sexualidade vinculada à infância, nela fixada, e à mãe. Parece-me inegável a influência lunar sobre a sua famosa atração por meninas nuas ou seminuas, tema que seus biógrafos sempre tentaram descaracterizar como pedofilia, algo nunca assumido de fato por ele, mas que o tornou certamente um ser dividido entre a tentação e a culpa.



A Lua, no mapa de LC, é o seu astro vital (hyleg, como o denomina a astrologia árabe, é o astro que se situa numa carta astrológica na proximidade do grau ascendente); foi a Lua por sua ação o principal fator responsável pela sua morte, em 1898, aos 66 anos. Com efeito, LC morreu a 14 de janeiro desse ano, no inverno portanto, vitimado por uma pneumonia (uma gripe inicialmente), em Chestnuts, nome dado à casa de uma de suas irmãs, em Guildford, onde está enterrado. Nesse dia, por trânsito, a Lua, o astro da morte e hyleg, e o planeta Júpiter, regente do ascendente, este exercendo funções anaréticas (planeta que ataca o hyleg), estavam conjuntos no Meio do Céu, na constelação de Libra, no mapa de LC.


A Lua, no corpo físico, além de problemas digestivos que pode causar, tem muito a ver com males pulmonares, bronquites, asma etc. LC, como se sabe, aos 17 anos, teve uma coqueluche, responsável por crônicos problemas nessa área corporal, causadores da sua surdez parcial. Saturno é, como se sabe, astrologicamente, o significador da surdez. Ao chegar à idade acima mencionada, um ataque (quadratura) de Saturno, por trânsito, em Peixes, à Lua, deixou LC parcialmente surdo.



Vênus e Marte ( Boticelli )


Dentro da primeira casa, encontramos ainda Vênus e Marte, conjuntos, aos quais já me referi. O primeiro é regente das casas VI (LC trabalhava como um “touro), X e XI; o segundo, das casas IV e V. Nesta conjunção, no elemento fogo, Vênus perde um pouco de sua umidade, tornando-se um pouco mais “egoísta”, mais “quente”, pela predominância do seco e pelo contacto com Marte. Estes planetas atuando juntos associam aqui desejo e satisfação, ou seja, instalando-se o desejo há que satisfazê-lo, até indiscriminadamente se for o caso, pois muita ansiedade e até sofrimento podem se manifestar se tal não ocorrer. Daí, frases como “Um dia para não esquecer”, usadas por LC para celebrar os encontros (desejos realizados, “pecados”?) com as suas amiguinhas. Daí, também as anotações suprimidas ou encontradas no seu diário através das quais se sabe que pedia a Deus que o ajudasse a servi-lo melhor. Evidentemente, o que temos aqui, muito atuante, é a censura sagitariana, já que o signo do centauro tem a ver com propostas superiores dessa natureza, como uma espécie de superego freudiano. Lembro que o planeta Júpiter revela num mapa, pela sua posição e aspectos, como somos ou não éticos. No tema de LC, ele ataca a própria casa que rege (Asc) e a Lua nela situada. Muitos conflitos, pois, quando pensamos nestas questões de censura ético-religiosa.




A quadratura Lua-Júpiter aponta para descontroles emocionais, auto-indulgência e mesmo imaturidade, que a sua dominante terra procurava conter. Daí, as constantes oscilações psíquicas entre períodos de grande entusiasmo e de profunda apatia. Ao atacar o ascendente, que rege, Júpiter acentua os problemas ligados à auto-complacência de LC, à sua imoderação emocional, tendências de dificílima contenção, que o tornaram um verdadeiro glutão emocional em eterna luta contras as pressões e os constrangimentos que vinham do elemento terra de seu mapa, do trígono Mercúrio-Saturno, responsável pelo seu lado “lógico”. Este trígono proporcionou a LC um intelecto bem desenvolvido, organização mental, capacidade lógica, grande poder de retenção, a sua dominante terra, sempre em diálogo com a sua dominante ar, aquariana. Um diálogo que ele explorava magistralmente, mas que não conseguia incorporar à sua vida.

Pela conjunção Sol-Urano, LC é um aquariano, signo de ar, o que explica o seu grande interesse por gadgets, sua paixão por variados jogos, a inventividade dos seus textos, o gosto pelo jogo de palavras (aquilo que alguns chamam de seu lado “joyceano”, nunca analisado devidamente) e, também, a sua gagueira. A casa III, como se disse, é a casa da inteligência inata e da comunicação em geral. Aquário, de certo modo, põe a pessoa adiante de seu tempo. Urano, na casa, reforça as características do signo em termos comunicacionais.

Na casa III encontramos também informações sobre os relacionamentos de natureza informal, às vezes acidentais, cercados de muita imprevisibilidade, rompimentos etc. LC valeu-se muito das peculiaridades desta casa de seu mapa, usando-as para “seduzir” através de brincadeiras as pessoas com as quais se relacionava, as amiguinhas principalmente, construindo marionetes e bichinhos, modelados em pano, formulando enigmas, executando passes de mágica etc. A cauda do dragão, o nó lunar sul, junto de Urano, pode revelar aqui um certo desperdício de energia mental (a sua produção aquariana). O seu lado “sério”, de “reverendo”, está bem apoiado pelo trígono Mercúrio-Saturno, trígono que o segurou dentro de um sistema social até o final da vida.





Lewis Carroll

Foi o diálogo das duas notáveis dominantes do tema, ar (aquariana) e terra (virgo-capricorniana), que sem dúvida levou Dodgson desde cedo a se interessar pelos problemas de matemática e de lógica, que criava, muitos inclusive ocultos nos seus textos. Os jogos que testavam a razão, o prazer que tinha em forçar as leis da lógica aristotélica, os limites da linguagem simbólica, suas “brincadeiras” com os silogismos, todos estes ataques, enfim, se constituíram no meio (genial) que ele encontrou para dar vazão à sua rebeldia aquariana contra as estruturas do sistema (terra) no qual vivia e do qual dependia.

Quanto às estrelas fixas no mapa de LC, observo inicialmente que a conju
nção Vênus-Marte, muito próxima da Lua Negra, está posicionada no final de Sagitário, uma região de nebulosas, ocupada por Acumen e Aculeus. Nebulosas, como se sabe, em astrologia, sempre apareceram ligadas a deficiências visuais, quando não à cegueira. Obviamente, esta referência tem que ser entendida metaforicamente, podendo então sugerir tais nebulosas desorientação, dificuldades com o uso da energia vital, sexual, alguma forma de incapacidade física, obliteração mental, indiferença espiritual, conforme a casa do mapa em que se encontrem e os planetas com os quais se relacionem.



Acumen e Aculeus constituíam, na antiguidade, o chamado ferrão de Escorpião, semelhantes as suas influências, segundo Ptolomeu, à ação conjunta de Marte e da Lua. Estas nebulosas contribuíram certamente para dificultar o desempenho de Marte na vida de LC, quanto às suas iniciativas, a atitudes mais abertas diante da vida e à sua sexualidade. A única saída para a difusa carga de vitalidade afetiva que a conjunção Vênus-Marte proporcionava estava no aspecto de sextil por ela formado com Júpiter (regente de seu ascendente), saída que LC aproveitou literariamente.

O planeta Mercúrio no mapa de LC recebe poderosa influência de Wega (Al Waki, para os árabes), estrela da constelação da Lyra. Esta constelação, conhecida pelos antigos gregos como a Lira de Orfeu, sempre esteve ligada a expressões artísticas. Mercúrio por seu lado descreve, dentre outras coisas, a inteligência e as funções de relação. As influências de Wega têm a natureza de Vênus e de Mercúrio. Sempre considerada uma estrela de natureza carismática, Wega é propícia, concedendo “algo mais” através do planeta que toca, algo muito semelhante ao que os deuses gregos, no mito, davam o nome de kydos, um favorecimento que distribuíam àqueles que queriam glorificar.

ILUSTRACÕES DE ADRIANA PELIANO

Publicado no site da Sociedade Lewis Carroll do Brasil