Como já vimos, síndrome é etimologicamente uma reunião tumultuosa (dromos=corrida, afluência de manifestações), de vários sintomas ou sinais que aparecem em relação a determinado estado patológico e que, no seu todo, permite orientar um diagnóstico. Já sintoma é indício, sinal (syn=junto + ptosis, queda; sinais reunidos, algo que cai num determinado lugar ao mesmo tempo). A medicina e a psicologia caracterizam uma síndrome como um conjunto de sinais ou sintomas observáveis em vários processos patológicos físicos ou psíquicos diferentes e sem causa aparente específica. Como acontece com os complexos, muitas síndromes são designadas a partir de personagens da mitologia, de histórias e de lendas. A palavra síndrome também é usada para definir certas manifestações clínicas de uma ou várias doenças independentemente da etiologia que as diferencia. Várias patologias ou idiopatias podem se esconder numa mesma síndrome. As síndromes, na área médica, geralmente são designadas pelo nome do médico ou cientista que primeiro as descreveu (síndrome de Down, por exemplo).
Vamos a elas, pois:
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PÂNICO |
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PAN |
Quem ousasse ultrapassar os territórios lunares, já deveria ter aprendido a se separar dos lugares conhecidos, simbolizados, além da casa familiar, pela gruta, o que significaria sempre uma vitória sobre os temores do desconhecido. Ártemis e Pan nos dizem que a vida é feita de passagens, caminhada em direção do grande Todo, a ser refeita constantemente, a fim de que, em meio às provas e dificuldades, aprendamos a conquistar e a preservar a nossa necessária autonomia. Ártemis, lembremos, é a deusa das passagens, aquela que protege tudo o que entra na vida, as crias, os brotos, as ervas novas, os riachos, e que tem que caminhar em direção de uma vida “adulta”.
Cavernas, grutas, todos os lugares sombrios e profundos, são arquétipos maternais, lembrando vida inconsciente. Eles se associam nos mitos aos ritos de iniciação, a ideias de dificuldades e de provas, sempre um convite àquele que entrou na vida para que parta em direção do grande Todo a fim de construir a sua personalidade.
PETER PAN - Peter Pan é um personagem que recusa o crescimento, isto é, que não quer chegar à vida adulta, responsável, preferindo manter-se numa adolescência infantilizada. Nada de responsabilidades, de deveres. A Psicologia deu o nome de Síndrome de Peter Pan ao comportamento do adulto que receia os compromissos e/ou se recusa a agir conforme a sua idade. Tudo isto pode ser percebido nos beijos de Wendy, no desejo de Peter Pan ter uma menina da sua idade que pudesse ser sua mãe, nos sentimentos conflituosos para com Wendy e Sininho (representações de diferentes arquétipos femininos), no simbolismo de sua luta com o capitão Hook, papel tradicionalmente protagonizado pelo mesmo ator que representa o pai de Wendy.
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SANDMAN |
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PETER PAN E HOOK |
A história de Peter Pan pode ser colocada em relação com a dos mitos heroicos. O nascimento do herói é geralmente milagroso (pai divino, mãe mortal ou o inverso); ele dá desde cedo, ainda na infância, demonstrações de seu poder, de sua habilidade, de sua força; costuma também se libertar do meio em que foi gerado, encontrando um deus ou um mestre que o orienta; passa por provas públicas (ameaças externas), lutando para adquirir o controle da sua vida interior, a mais difícil, já que sempre o ameaça a tendência ao descomedimento (hybris), ao descontrole interno, à passionalidade, que podem provocar a sua perdição e finalmente a sua morte. Sabemos que nos mitos o herói simboliza uma proposta de elã evolutivo, proposta que se traduz, para o homem comum, numa tomada de consciência de seu ego individual, sempre uma busca de autoconhecimento. Esta busca termina quando o homem alcança a sua idade madura. Há, contudo, nos mitos, um tipo de herói, parecido com Peter Pan, muito mais do mal, porém, que se recusa a se submeter às provas públicas para assumir aquilo que deve lhe caber essencialmente, o desempenho daquilo que lhe cabe. Na cultura ocidental, de um modo geral, a função mais importante dos heróis é a guerreira (matador de monstros e de inimigos), que representa a base de seu valor pessoal. Essa recusa significa a permanência em estágios de vida primitivos, uma renúncia à vida afetiva e à assunção de compromissos sociais, um desenvolvimento precário sob o ponto de vista psíquico.
Dá-se, em inglês, o nome de trickster (trapaceiro) a esse tipo de herói, muito comum em várias culturas. A palavra inglesa trickster e o seu correspondente francês tricheur (enganador, trapaceiro) vêm do verbo latino tricari, com o sentido de trapacear, dissimular, enganar. O Trapaceiro é um tipo cujos apetites físicos se impõem na sua conduta, tem mentalidade infantil, vive apenas para satisfazer as suas necessidades mais imediatas e primárias, costumando ser cruel, insensível e cínico.
Uma das formas sob a qual esse herói se esconde é a da raposa, animal que simboliza a esperteza. Esse herói pode às vezes participar de provas, demonstrando até valores superiores. Suas vitórias dependem sobretudo de sua habilidade, de sua astúcia, de sua rapidez, podendo inclusive vencer gigantes. Ulisses, neste sentido, é um dos personagens míticos mais representativos do trickster. O que estas ideias nos revelam é que a psique individual se desenvolve a partir de uma fase pueril. Por isso, é comum que adultos psicologicamente imaturos sonhem muitas vezes com imagens dessa primeira etapa, nela se fixando.
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TRICHEUR À L'AS DE CAREAU (LA TOUR, 1593-1652) |
Na arte, quem imortalizou a figura do tricheur foi G. de La Tour, pintor francês do séc. XVII, na sua tela Tricheur à l' Ás de Carreau (Trapaceiro com o Ás de Ouros), onde entram três grandes pecados do tempo: o jogo, o vinho e a luxúria. Lembre-se que outra importante tela sua, La Diseuse de Bonne Aventure, faz parte do mesmo universo da tricherie.
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LA DISEUSE DE BONNE VENTURE (CARAVAGGIO, 1571-1610) |
(Este texto sobre Peter Pan foi retirado de um E-Book meu intitulado Leituras – Caderno nº 2).
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VON MÜNCHHAUSEN |
Os atacados pela Síndrome de Münchhausen, que se concentram nos aspectos patológicos (doenças, somatizações, traumatofilia etc.) da existência humana, sempre respondem mal a tratamentos, vivem se submetendo a vários exames, seu histórico médico é incoerente, têm muita familiaridade com hospitais e procedimentos hospitalares, gostando muito de ler a literatura médica, inclusive bulas de remédios, que muitas vezes colecionam.
Grandes vítimas desta síndrome são as crianças. Isto acontece quando um parente, a mãe geralmente, na grande maioria dos casos, de forma persistente tenta fazer, intencionalmente ou não, com que o filho se sinta doente, sempre uma forma de abuso infantil que pode inclusive fazê-lo a passar por sérios riscos. A pergunta é inevitável: qual a razão disto? Difícil precisá-la. Dentre as mais comuns, notamos: necessidade de chamar a atenção do pai da criança? Agressão contra um filho não desejado? Afastar-se, para cuidar do filho, de um ambiente doméstico detestado?
Quando os sintomas psicóticos são compartilhados por duas pessoas (transtorno induzido), geralmente próxima ou da mesma família, adota-se para caracterizar a sintomatologia a expressão francesa folie à deux (loucura a dois). Exemplo: o medo ou a paranoia de um membro da família (um pai, uma mãe), serem passados para um filho. Quando mais de duas pessoas estão envolvidas, usa-se a expressão folie à trois, à quatre, à plusieurs (loucura a três, a quatro, a muitos).
STENDHAL– (veja neste blog).
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JASÃO E MEDEIA, 1907 (JOHN WATERHOUSER) |
Na Grécia, em Corinto, viveram bem, tendo dois filhos. Jasão, herói famoso, porém, rendeu-se aos encantos de Glauce, cujo pai, o rei Creonte, lhe prometera o trono quando morresse se casasse com a filha. Jasão repudiou Medeia para se unir a Glauce.
Parecendo conformar-se com tal situação, mas, no fundo, enlouquecida pela traição e ingratidão do marido, Medeia enviou como presente de núpcias a Glauce uma coroa e um manto de ouro, impregnados de poções mágicas letais, dos quais saíam também labaredas que tudo incendiavam quando usados. Ao tentar socorrer a filha, Creonte também morreu. Ao mesmo tempo em que Glauce e o pai morriam e o palácio em que viviam era reduzido a cinzas, Medeia assassinava os filhos.
Foi o comportamento desta trágica figura da mitologia grega, Medeia, que serviu de base para se dar forma à chamada Síndrome de Medeia. Um dos aspectos mais terríveis descritos por esta síndrome é aquele em que a pessoa por ela possuída mata aqueles que mais ama, os filhos, no caso. Tal acontece geralmente quando, numa relação matrimonial, tida pela mulher como "perfeita", o marido, um dia, a repudia porque encontrou um outro amor.
Mais recentemente, deu-se, nos meios jurídicos, o nome de Síndrome da Alienação Parental a uma variante da Síndrome de Medeia. A referida síndrome se configura quando um dos parceiros (geralmente a mulher), na iminência de ser abandonado (a) pelo outro, procura, por ações e atitudes, influenciar os filhos, despertando neles um sentimento de ódio, de profunda aversão, contra ele, mesmo sem nenhum fundamento real.
A leitura do mitologema nos dá condições de abordar outro aspecto da Síndrome de Medeia. Destruído o palácio real de Corinto, mortos Creonte, Glauce e os filhos que tivera com Medeia, Jasão tornou-se um farrapo humano, vindo a morrer quando, alcoolizado, dormindo na praia, um dos mastros da desmantelada nau Argos lhe caiu sobre a cabeça. A rigor, Medeia nada lhe fez diretamente, mas o atingiu profundamente, acabando com as suas expectativas de futuro, transformando-o num molambo.
A Síndrome de Medeia costuma também se manifestar nas mulheres que são tomadas pelo Complexo de Hera, mulheres que investiram anos e anos num casamento oficial, garantindo ao marido um cenário familiar pomposo, de sucesso social, colaborando de todas as maneiras (jantares, festas, solenidades, clubes etc.) para que ele possa se transformar num Zeus. Neste caso, o ódio das "medeias" não se volta contra os filhos, mas, às vezes, fisicamente, contra a "outra" e o marido ou, em outros casos, só contra o seu Zeus. O que cito aqui vai depender do temperamento (dominante elementar) da mulher/Medeia. Se ígnea a dominante, comuns a agressões físicas, pessoalmente, escandalosas, ou, então, a contratação de "profissionais" que se encarreguem desse serviço sujo (surras, perseguição, agressões, mutilações, destruição do patrimônio, incêndio etc.). Se terrestre a dominante da mulher-Medeia, a vingança será exercida de preferência através de bons e caros advogados que sempre saberão como arrancar "tudo" ($$$) de um apalermando Zeus, se ele não tiver tomado anteriormente providências para neutralizar a ação da mulher, antes uma Hera dócil e agora uma terrível Medeia .
Esta maneira de viver leva ao isolamento social e a descuidos, às vezes totais, com relação à higiene pessoal, saúde e alimentação. As atitudes com relação à vida pública são hostis. Comum a tendência ao acúmulo de lixo e de coisas inúteis (syllogomania, em grego). Geralmente são pessoas excêntricas, esquizoides, independentes, agressivas, que vão envelhecendo cada vez mais isoladas.