sexta-feira, 15 de outubro de 2021

HONORÉ DE BALZAC


HONORÉ   DE   BALZAC

Estamos hoje, Thereza e eu, voltados para um projeto (reler o que lemos sobre Balzac e ler o ainda não lido dele) que só uma estranha fidelidade a escritores do passado nos sustenta, nos mantém, uma incompreensível fidelidade para muitos, mas totalmente justificável para nós, porque são eles mestres desde sempre, Balzac, Zola, Proust, Stendhal, Maupassant e muitos outros. Um artigo escrito sobre Balzac, reencontrado, quando promovemos um ciclo sobre suas obras levadas para o cinema, foi o feliz pretexto.   

BALZAC
(AUGUSTE RODIN, 1840-1917)
Vamos, pois, ao fantástico autor de La Comédie Humaine: Honoré de Balzac nasceu em Tours, em 1799 (20 de maio). Tinha o Sol em Touro, o Ascendente em Leão e a Lua em Sagitário. Faleceu em Paris, a 18 de agosto de 1850. O pai, que era administrador de um hospício, para dar ares de nobreza a seu nome a ele acrescentou a partícula de, passando-a depois para o nome dos seus quatro filhos. A transferência do pai para Paris permitiu que Honoré começasse a frequentar o curso de Direito na Sorbonne e ao mesmo tempo, inteiramente tomado pelos textos de historiadores do pensamento, mergulhasse no estudo da Filosofia. O pai aceitou ambas as paixões do filho e lhe forneceu meios para se instalar numa mansarda, o que lhe permitiu dedicar-se totalmente à literatura. Depois de um ano, o resultado foi Cromwell (1821), uma tragédia em versos, cujo resultado não o satisfez, nem à crítica. Um início errado, sem dúvida. 

Destes primeiros anos ficaram também, pouco notados, Les Deux Hector ou Les Deux Familles Bretonnes, Charles Pointel e muitos outros, além de, com Horace Raisson, uma Histoire Impartiale des Jésuites e Un Code des Honnêtes Gens ou L’Art de ne pas être dupe de Fripons. Seus pseudônimos (alguns) desta época, pessoais ou coletivos, foram os de Horace Saint-Aubin e Lord  R’hoone (anagrama de Honoré). Pouco satisfeito com a acolhida pífia de suas primeiras obras, voltou-se Balzac para a indústria tipográfica. 

Pouco depois, partiu para a elaboração de uma série de romances, de novelas, de contos de estudo de costumes, que serviram para revelar a grande fecundidade de seu espírito, obras que foram sendo aceitas pelo público, conferindo-lhe grande autoridade, aceitação e renome. Depois dessas experiências, Balzac procurou se fixar principalmente na escrita de romances. Produziu muitos textos que nem chegaram a ser publicados. Insistiu nos  pseudônimos, atento ao gosto do tempo, partindo para romances de aventura e, em colaboração, folhetins. A tarefa, embora ingrata e cansativa, sempre lhe serviu para ir aprimorando a sua técnica como escritor. 

LAURE  DE  BERNY
Em 1822, Honoré conheceu Mme. De Berny, bem mais velha que ele, que, além de lhe dar o seu amor, encorajou-o bastante com muitos conselhos, iniciando-o nos costumes e no gosto do ancien régime. Aliás, lembre-se, as relações de Balzac com mulheres serão sempre complicadas. Muitos que estudaram a sua biografia e obra atribuem tais complicações ao que chamo aqui do “complexo de desmame” de Balzac. Primogênito, assim que nascido o segundo filho, Henry, dos quatro que teve, a mãe o abandonou. Théophile Gautier (1811-1872), mestre e precursor da poesia parnasiana, portanto contemporâneo de Balzac, deixou-nos vários depoimentos sobre ele. Num deles, sobre as mulheres, declarou que ele, Balzac, ao se ligar amorosamente sempre buscara um amour fou, no qual a mulher fosse ao mesmo tempo anjo e cortesã, maternal e submissa, dominadora e dominada, grande dama e cúmplice. 

Laure de Berny, que Balzac chama muitas vezes pelo nome de Dilecta (Bem-amada), entrou na sua vida quando tinha 45 anos, com os seus nove filhos. Bela, muito sensível, com experiência das coisas do mundo, ela encantou o jovem Balzac, que se tornou seu amante em 1822, apesar de ela lhe ter oferecido sua jovem filha Julie de 16 anos em casamento. Além de ter ajudado Balzac financeiramente em muitas ocasiões, Laure (Antoinette, na realidade) sempre o encorajou. Quando morreu, em 1836, Balzac declarou que Mme. De Berny foi como uma deusa para ele, além de mãe, amiga e amante, fazendo dele um escritor.

DUQUESA DE ABRANCHES
Em 1825, Balzac tornou-se amante da duquesa de Abranches, 15 anos mais velha que ele. Ela lhe passará inúmeras informações sobre a vida nos palácios e seus habitantes em vários níveis, muito úteis para elaborar os cenários de algumas de suas obras e compor os seus personagens. 

AURORE DUPIN 

Em 1831, Balzac conhece Aurore Dupin, baronesa de Dudevant, conhecida pelo nome literário de George Sand, que viera para Paris, afastando-se do marido. Balzac lhe deu para ler o seu A Pele de Onagro e ela se entusiasmou. Em 1838, ele voltará a se encontrar com George Sand, no castelo em que ela vivia, onde permaneceu vários dias. Lá passam os dois as noites a conversar animadamente, até as 5 horas da manhã, trocando ideias, discutindo literatura e arte. Ela o inicia em prazeres diferentes, dando-lhe para fumar houka e latakia, uma mistura de tabaco e droga, originários dos países árabes (Turquia e Síria); Balzac gostou das experiências, na esperança, segundo afirmou, de que esse tipo de tabaco o libertasse do café e dos vários excitantes que tomava para poder trabalhar por horas e horas seguidas. Apesar da ligação de George Sand com Chopin, Balzac continuará ao longo dos anos a se encontrar periodicamente com ela, sempre com grande interesse, para discutir questões literárias e artísticas em geral. Homenageando-a, Balzac lhe dedicou um de seus livros, Memórias de Duas Jovens Esposas.

OLYMPE PELISSIER

Frequentando os salões da moda, Balzac, antes se de unir a Mme. Hanska, manteve várias ligações. Dentre elas, destacamos a relação com Olympe Pelissier, bela e inteligente cortesã, que fora amante do escritor Eugène Sue, antes de se casar em 1847 com o compositor de óperas Gioacchino Rossini. Vieram, além de outras, a seguir, a duquesa de Castries (1832), Marie de Fresnay (1833), a condessa Guidoboni-Visconti (1835), por quem se apaixonou perdidamente. 

O sucesso literário, entretanto, não favoreceu Honoré de imediato. Decidiu ele se lançar, então, nos negócios, algo que lhe desse dinheiro, pelo qual sempre demonstrou muita avidez. Balzac associou-se a um editor, depois comprou uma casa impressora (gráfica), negócios que se, por um lado, lhe deram oportunidade de entrar em contacto com as gens de lettres e jornalistas, lhe deixaram muitas dívidas. Estas experiências pessoais lhe forneceram muitas informações para construir seus personagens, inspirando-lhe a visão satírica que sempre teve desse mundo. Essas primeiras aventuras financeiras acabaram em desastres, cujos efeitos danosos se projetaram ao longo de sua vida, gerando dívidas sobre dívidas que ele jamais conseguiu satisfazer, embora gastando sempre e cada vez mais.


Balzac foi romancista, dramaturgo, crítico literário, crítico de arte, ensaísta, jornalista e impressor. Deixou uma das mais importantes obras da literatura francesa, reunida em mais de noventa volumes, à qual deu o título de A Comédia Humana, publicada entre os anos 1829 e 1850. A este conjunto monumental são acrescentados cerca de 25 volumes, que reúnem contos e romances de juventude, publicados sob pseudônimo, além de outros textos esboçados e inúmeros artigos jornalísticos. Foi Balzac, sem dúvida, um dos maiores mestres do romance francês, tendo abordado praticamente todos os gêneros literários conhecidos, deixando-nos várias obras-primas.

Como Balzac explicou no prólogo da Comédia, sua intenção, ao produzir tanto, foi a de identificar e inventariar o que chamou de “espécies sociais” de sua época, tal como Buffon (naturalista francês do séc. XVIII, autor de uma História Natural, com cerca de 40 volumes) fizera com relação às espécies zoológicas. Inspirado pelas sugestões que a obra de Walter Scott lhe sugerira, a de que o romance poderia fazer incursões na área filosófica, Balzac explorou, em vários sentidos, todas as classes sociais de seu tempo, das superiores às inferiores, bem como os indivíduos que as compunham e melhor representavam, a fim de escrever uma história dos costumes, matéria esquecida pelos historiadores. Descreveu principalmente a ascensão do capitalismo e a absorção, pela burguesia, de uma nobreza incapaz de se adaptar às novas realidades, sempre criando personagens inesquecíveis.

Balzac nunca se preocupou em se definir politicamente, mas sempre prestou o seu depoimento, expondo as suas opiniões conforme o tema que abordava, ora procurando se alinhar com as descobertas técnicas do seu tempo, ora se declarando um liberal, ora defendo os operários, ora se mostrando conservador em muitas ocasiões, anarquista em outras, nunca deixando também de se interessar pelas religiões e pelo ocultismo. Multifacetado, contraditório, mas sempre autêntico, produziu uma obra ímpar, irregular, admirada tanto por setores da aristocracia, pela classe média ascendente, por escritores de vários matizes como por revolucionários socialistas como Marx e Engels. Inegavelmente, porém, foram as mulheres, ansiosas por conquistar posições na nova ordem social, que constituíram o seu “grande público”.

HÔTEL DE MASSA, SEDE DA
SOCIÉTÉ DES GENS DE LETTRE
Além de escrever inúmeros artigos, publicados diariamente pela imprensa, fundou e dirigiu revistas que nunca obtiveram sucesso, iniciativas que lhe causaram sérios prejuízos, que o levaram mesmo à falência algumas vezes. Nada o impediu, contudo, de se dedicar inteiramente, quinze ou mais horas por dia, à composição dos seus textos, sempre convencido de que escritores deveriam desempenhar socialmente uma função importante na estruturação das classes sociais. Conclamou inclusive, para tanto, os seus pares, a se organizarem, a se aproximarem, tendo contribuído bastante para a formação da Société des Gens de Lettres (Sociedade dos Escritores).

Trabalhador infatigável, glutão, desregrado, colecionador de arte, com grandes altos e baixos na sua vida econômico-financeira, nunca diminuiu a sua atividade. Seus excessos acabaram por deteriorar a sua saúde, levando-o precocemente, aos 51 anos, à morte. Fugindo dos credores, mudando sempre de residência, com gastos de nababo indiano, suntuosos, em meio a antiguidades que adquiria, envolvido sempre com mulheres caras, só ao final da vida, em 1850, depois de tê-la cortejado por dezessete anos, uniu-se matrimonialmente à condessa Hanska. Foi, como poucos, perseguido pelas dívidas. Tudo nele era superlativo, inclusive os seus gastos. Como não conseguia saldar as suas dívidas, vivia inventando projetos mirabolantes, negócios que o envolveram com uma casa impressora, com um jornal, com uma mina de prata e muito mais. Foi num palácio luxuoso, por ele comprado, que morreu cheio de dívidas em meio a um luxo inaudito. Quem, no seu enterro, proferiu a oração fúnebre de praxe, foi o grande Victor Hugo, que muito o admirava.

Ainda em vida, Balzac chegou a receber o devido reconhecimento pela alta qualidade de sua obra, tanto por parte do grande público como da crítica especializada, inclusive a de outros países. Influenciou bastante os escritores de seu tempo e outros que vieram depois. Mesmo muitos escritores de hoje, quaisquer que sejam as suas correntes estéticas, ainda lhe prestam tributo, embora não o saibam, porque a obra de Balzac , em muitos aspectos, guarda um nível de pioneirismo inapagável.

Para se ter uma ideia do alcance de sua obra, basta apenas dizer que A Educação Sentimental e Madame Bovary, de Gustave Flaubert, sempre considerados como dois dos maiores romances de todos os tempos, foram inspirados respectivamente, em seus Le Lys Dans la Vallée (O Lírio no Vale) e La Femme de Trente Ans (A Mulher de Trinta Anos). A técnica romanesca inventada por Balzac, de “trabalhar” personagens que ao longo de um vasto ciclo iam se transformando, mereceu grande admiração de dois outros “monstros” da literatura francesa, Émile Zola e Marcel Proust. Sua obra, ao longo dos anos, a partir do início do séc. XX, vem sendo reeditada e continuamente adaptada para o cinema, merecendo destaque, uma biografia cinematográfica que dele foi feita (uma série para a TV) por Josée Dayan, editada em DVD no Brasil, com Gérard Dépardieu no papel do escritor.

SWEDENBORG
A par de profundos interesses histórico-filosóficos, desenvolvidos desde cedo, pela literatura da vida privada e pelas chamadas cenas de costumes, Balzac, ainda bastante jovem, com cerca de vinte anos, começou a se interessar pelo martinismo e pelas chamadas ciências ocultas, tornando-se um profundo conhecedor da obra de Swedenborg, no seu todo, e da de Lavater (A Arte de Conhecer os Homens pela Fisiognomia). Valeu-se ele muito desta última obra para associar traços de caráter a características físicas no desenho de seus personagens. Já o martinismo era uma forma de cristianismo iniciático, esotérico ou místico, que procurava fazer com que seus adeptos atingissem um estado idealizado de vida (a descoberta do Cristo interior). 

L.C.DE SAINT MARTIN
O martinismo foi fundado no séc. XVIII pelo filósofo francês Louis Claude de Saint-Martin. Emanuel Swedenborg, sábio e teósofo sueco, viveu entre os sécs. XVI e XVII; escreveu várias obras através das quais procurou demonstrar, com um rigor matemático,  que era possível chegar a Deus pela força das coisas. Do místico sueco incorporou o tema da “história natural do mundo sobrenatural”. Neste sentido, dividiu com os poetas Charles Baudelaire e Gérard de Nerval o entusiasmo pela obra wedenborgiana, deixando-o registrado num curioso romance intitulado Louis Lambert, que li nos meus dezessete anos. 

Perto dos seus trinta anos, Balzac começou a ter a sua obra reconhecida pelo grande público. Em 1829, abandonando os pseudônimos, publicou a sua primeira obra com o seu nome, Honoré de Balzac, Les Chouans (A Bretanha em 1799). Neste mesmo ano, publicou Physiologie Du Mariage (Fisiologia do Casamento), história de um jovem celibatário, obra na qual mostra um profundo conhecimento da psicologia feminina, cujas informações recolheu, sem dúvida, do convívio com as suas amantes (Mme. de Berry, a duquesa de Abranches, Fortunée Hameli, Sophie Gay e outras). O livro, que fez muito sucesso, descreve o casamento como um combate, nele tomando Balzac o partido das mulheres e defendendo a igualdade dos sexos.

Todos que conviveram com Balzac confirmaram que as mulheres se sentiam muito atraídas por ele e que tal acontecia porque, além de muito generoso e “competente” com elas, sabia, em seus romances, descrevê-las com muita perspicácia psicológica. Seu imenso sucesso com o público feminino se justificava também porque ele conseguia com eloquência e veracidade fazê-las compreender que poderiam prolongar por muito tempo o que chamava de a idade do amor. Vários jornais e revistas da época, sobretudo com caricaturas e charges, registraram, segundo as colocações de Balzac, o triunfo da mulher de trinta anos, considerada, ao tempo, já muito velha para o amor. Está hoje no léxico de algumas línguas, como adjetivo, a palavra balzaquiana, mulher na qual se reúnem (reuniam ?), ao mesmo tempo, características de sedução, elegância, inteligência, cuidados corporais e amadurecimento. Mulheres que sabiam conquistar o seu lugar numa sociedade dominada pelo poder do dinheiro e pela busca de prazeres de baixíssimo nível. Esse modelo feminino consagrado por Balzac, no século XX, se degradou bastante, aparecendo vinculado ao que chamamos hoje de “perua”. Esse modelo feminino, como sabemos, se caracteriza principalmente por uma espalhafatosa maneira de se vestir, tendendo o seu nível intelectual a zero. 

FREQUENTADORA DE SALÕES
Além disso, não custa observar: é machista, freudiana, em muitos aspectos, na cultura ocidental, a mania de se dar pejorativamente às mulheres alcunhas com o nome de animais domésticos. Além de perua, são usados também os nomes de cadela, vaca, galinha, este último também aplicável a homens e mulheres promíscuos (daí o verbo “galinhar”, utilizado para designar homens ou mulheres que ficam “ciscando” parceiros). Fica fácil perceber que essa atitude com relação às mulheres traduz um modo de pensar típico das sociedades patriarcais, que procura, como é feito com animais, aprisionar a mulher nos domínios domésticos.

TIGRESA 
Quando a mulher não entra nesses modelos, tornando-se, ao invés, caçadora, predadora, usamos substantivos como loba e tigresa para designá-la. A designação idade da loba passou a ser aplicada àquele momento da vida de uma mulher em que ela, muitas vezes depois de um casamento desfeito, dos filhos criados, adota atitudes de autoafirmação com relação à sua vida, sobretudo sob o ponto de vista sexual. Tigresa é nome que veio dos Marvel Comics, nome que lembra aparência felina, garras, aplicado a mulheres que vampirizam homens, muitas vezes destruindo-os. 

Balzac reprovava com veemência nos autores protestantes a ética por eles defendida quanto à sensualidade e à sexualidade das mulheres, por eles sempre rebaixada nestes domínios, já que, como dizia, depois da falta de Eva, nada mais os homens concederam às mulheres, não admitindo para elas outro papel senão o de submissas. A Igreja Católica, com relação ao protestantismo, segundo afirmava Balzac, melhorou um pouco a vida das mulheres, um pouco, mas não muito...

No geral, na vida de Balzac foram as mulheres que sempre tomaram a iniciativa de procurá-lo, escrevendo-lhe, convidando-o, forçando a entrada. Foi, por exemplo, o caso de Caroline Landièredes Bordes, baronesa, rica viúva que ele encontrou na casa de um banqueiro conhecido. Os casos femininos são numerosos na sua biografia. Dentre eles citamos uma admiradora, Hélène-Marie-Felicité de Valette, que se apresentava com bretã e celibatária, mas, na realidade, viúva. 

JULIETTE RÉCAMIER
(J.L. DAVID, 1748-1825)
Conhecido, aclamado principalmente pelas mulheres, Balzac passou a frequentar os salões, sendo introduzido no salão de Juliette Récamier, o mais famoso da época, onde se reuniam o mundo artístico e a aristocracia mais aberta às modas culturais. Frequentou também o salão da princesa russa Catherine Bragation, onde entrou em contacto com a nobreza europeia que frequentava Paris. Ao entrar para o Grand Monde, Balzac se meteu em vários negócios, tentando sempre aumentar as suas rendas, já que, só com o dinheiro obtido com a literatura, ser-lhe-ia impossível frequentá-lo. 

Contudo, o sucesso de La Peau de Chagrin (A Pele de Onagro) mudou a situação. De inspiração romanesca por sua intriga, o tema explora uma oposição entre uma vida fulgurante consumida pelo desejo e uma longevidade apagada provocada pela renúncia a qualquer forma de desejo. O herói do livro é Raphael Valentin, uma espécie de alter ego de Balzac,um tipo que quer tudo, a glória, a riqueza, as mulheres; encontrou um talismã que tudo poderia lhe conceder, mas que, a cada

desejo satisfeito, menos vida lhe restaria. Publicado em 1831, o livro foi um sucesso imediato. Balzac, com dois livros, tornou-se o preferido dos editores e dos livreiros, além do grande favorito de todos os leitores da França e da Europa. Em 1832, Balzac pensou em ingressar na carreira política, tomado por ideias liberais, das quais faziam parte opiniões monarquistas e religiosas. Foi em janeiro de 1833 que começou a sua correspondência com uma admiradora polonesa, Mme. Hanska (Cartas à Estrangeira), indo algumas vezes ao exterior (Suiça, Saxe e Rússia) para encontrá-la.

Foi a partir desse período que sua obra Balzac tomou quatro caminhos, fixando-se: a) em romances filosóficos: dentre estes, destacam-se Louis Lambert (1832), A Pele de Onagro (1833) e À Procura do Absoluto (1834). b) romances sobre vida econômica e social, dentre os quais ressaltamos O Médico Rural. c) Contos droláticos (de drôle, divertido), através dos quais Balzac tenta recuperar a verve rabelaisiana. d) Romances de Costumes, com destaque para A Mulher de Trinta Anos, O Coronel Chabert, O Cura de Tours, textos de grande apuro técnico, que lhe permitirão alcançar, com Eugénie Grandet (1833) e O Pai Goriot (1834/5), o nível de obras-primas absolutas. 

EWELINA HANSKA (F.G. WALDMÜLLER, 1801-1882)

No ano de 1842, escolheu para dar um título geral à sua obra, organizando-a metodicamente, a expressão A Comédia Humana. Em março de 1850, Balzac, rico e célebre, mas sempre endividado, conseguiu se casar com Mme. Hanska, viúva há muito. A essa altura, já bastante esgotado, mas nunca deixando de se manter muito ativo, ao retornar a Paris, morreu aos 51 anos de idade. Consta que no seu leito de morte, Balzac, agonizante, chamou por diversas vezes à sua cabeceira o Dr.Horace Blanchon, o grande médico que tão intensamente participara de A Comédia Humana.

O gênio de Balzac se manifestou em dois planos, o da observação, sempre um escritor superdotado ao saber olhar e compreender as coisas e acontecimentos de seu tempo, e o da imaginação, dom tão importante quanto o outro. Baudelaire falou bastante de Balzac como um visionário apaixonado. Ambos os dons, observação e imaginação, foram colocados a serviço de uma grande quantidade de ideias que constituem o núcleo central de sua obra. Foram estas ideias que Balzac tentou e conseguiu organizar, como se disse, no prólogo de A Comédia Humana.

Antes de tudo, Balzac foi um escritor que soube ver, fixar na sua memória e reproduzir em sua obra coisas, objetos, lugares e pessoas. Dominado por ele, o mundo real, transposto para a sua obra, conserva toda a sua consistência e complexidade; ele soube, como poucos na história da literatura, impor em sua obra a “presença” da realidade. Qualquer detalhe, desde que vivo e significativo, era por ele incorporado ao seu texto. Seus heróis são seres humanos que bebem, comem, ganham e perdem dinheiro, amam e odeiam, como todos os seres humanos que conhecemos, todos tendo um corpo físico, uma profissão, um domicílio, uma aparência, uma maneira de se trajar. Sua grande capacidade de observação é que lhe permitiu trabalhar tão bem com os caracteres distintivos de seus personagens quanto ao sexo, à idade, ao nível social e às fases de sua vida. Foi, sem dúvida, o maior “pintor” dos costumes humanos que a literatura já nos deu.

T. GAUTIER
A imaginação de Balzac avulta quando pensamos no papel que ela desempenhou na sua elaboração das intrigas, na sua multiplicidade, sempre se sucedendo e se entrecruzando. Ainda que muitas vezes sustentada por alentada documentação, sua imaginação chega, em muitas passagens, a torná-lo um dos ancestrais do romance policial pela trama criada. Quem talvez tenha melhor sabido falar da sua poderosa imaginação foi o poeta Théophile Gautier: Balzac possuía o dom de se encarnar em corpos diferentes. Ele foi um vidente; os dois ou três mil tipos que ele criou, ele não os copiou, ele os viveu idealmente.

Diante do que está acima, podemos com segurança falar de uma ideologia balzaquiana, entendendo-se esta como um conjunto de crenças e aspirações que inspiram, em grande parte, os atos de alguém, tanto de uma sociedade, de um partido, de uma seita como de seres humanos. Quanto a Balzac, neste particular, através de seus personagens, sempre tivemos uma demonstração de suas aspirações científicas, que pudessem ser postas em prática, mesmo quando estamos diante de seus sonhos místicos. Outro componente do seu ideário era a sua curiosidade inesgotável, que abarcava todos os domínios do conhecimento humano: filosofia, psicologia (avant la lettre), moral, política, sociologia, economia, arte etc. Além do mais, presente em toda a sua obra o espírito sistemático através do qual ele sempre procurou estruturar aristotelicamente tudo o que escreveu. Por fim, quanto a este item, sua grande tentativa, a partir da sociedade de seu tempo, aproximar o pensamento da paixão. Balzac dizia que embora a paixão possa nos destruir, sem ela nada se pode fazer. Este tema está muito presente em obras como Louis Lambert, O Pai Goriot e A Pele de Onagro.

No romance francês, Balzac foi o primeiro a abordar a questão metodológica para a estruturação de suas obras. Como gostava de dizer, primeiro o enquadramento, depois os retratos. Ou seja, primeiro o cenário, as descrições, o meio, depois os homens que nele se movimentam. Antecipando-se ao pensamento sociológico dos anos vindouros, ele sempre considerou a sociedade como um estado, uma maneira de ser dos homens vivendo sob leis comuns. Esta vida em comum se fazia através de instituições e de sua funcionalidade, uma espécie de sua fisiologia que estuda a maneira pela qual as suas leis são vivenciadas, bem ou mal. Para Balzac, a sociedade era sempre um conjunto de relações entre os homens que a compunham, a própria conduta humana, enfim vida humana e meio ambiente se interpenetravam. Ele afirmava que o homem tendia a imprimir a marca dos seus costumes, dos seus hábitos, do seu pensamento, da sua própria vida em tudo de que se apropriava para a satisfação de suas necessidades.  Suas descrições são sempre minuciosas, realistas, sejam os ambientes sórdidos ou luxuosos. 

Foi por causa desta preocupação descritiva que Balzac conseguiu compor tipos ao mesmo tempo tão representativos como individualizados. É neste sentido que os seus personagens ultrapassam a época e as intenções conscientes de seu autor, transformando-se vários deles em arquétipos, modelos universais de comportamento. Muitos que se aproximaram da sua obra fazem, por essa razão, muitas restrições à sua grande “eloquência” descritiva, às suas longas explicações preliminares, embora nunca tenham deixado de reconhecer a sua grande contribuição para o gênero romanesco, em particular, e para a literatura, no geral. 

Dentre obra de Balzac, talvez a que nos que nos interesse mais de perto, seja Le Colonel Chabert (O Coronel Chabert), que se enquadra nos chamados romances de costume e nas cenas da vida parisiense. É nesta vertente que Balzac encontrou a melhor maneira de aprofundar o seu realismo, criando, além disso, tipos humanos poderosamente desenhados. 

O chamado romance de costumes, muitas vezes denominado também de romance urbano, é um subgênero do romance que tem como principal característica a retratação e a crítica da sociedade das grandes cidades que cresceram mais a partir do final do séc. XVIII. Ganhou impulso essa forma literária a partir do início do séc. XIX, com o desenvolvimento da vida urbana, sendo considerada um sinônimo de romance realista. Seus personagens centrais são homens comuns, da classe média ou das camadas mais baixas da população dos grandes centros urbanos. Nada de temas ligados à conquista de fama e poder, de personagens da nobreza ou da aristocracia, como ocorria com a produção dos séculos anteriores. As fórmulas exportadas pelo romance francês, desenvolvidas por Balzac, principalmente, conquistaram adeptos em todas as literaturas. No Brasil, por exemplo, já em 1844, com A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo, romance que tinha por cenário o Rio de Janeiro, “inaugurava-se” entre nós essa moda romanesca. 

Uma apreciação crítica da obra de Balzac, no seu conjunto, não pode deixar de registrar que boa parte da sua produção aparece hoje como destituída de maiores interesses. Isto se deve principalmente ao fato de Balzac ter escrito muita coisa pressionado pela falta de dinheiro. Não é o caso de O Coronel Chabert e de vários outros. Publicado em 1835, o livro foi dedicado a Mme. la Comtesse Ida de Bocarné, née, du Chastele, sendo precedido por O Pai Goriot e sucedido por A Missa do Ateu.

O Coronel Chabert é um dos seus mais curtos romances. Foi publicado sob sua forma definitiva em 1844 e depois republicado em forma de folhetim em suplementos de jornal. O romance, como dito acima, foi dedicado a Ida de Bocarné, que desenhou para Balzac os brasões imaginários das famílias nobres que às vezes aparecem em A Comédia Humana. O livro, no seu todo, é uma emocionada homenagem que Balzac presta aos soldados da velha guarda sob o reinado de Napoleão I

A história começa quando um homem se apresenta no escritório do advogado Derville, que está muito ocupado para atendê-lo e declara ser o coronel Chabert, Hyacinthe Chabert, para espanto de todos, pois sabe-se que o coronel morrera na batalha de Eylau e que sua mulher se casara novamente com o conde Ferraud. Como combinado, Chabert voltou ao escritório para a entrevista com o advogado. Depois de ouvir a sua história, Derville aceita a causa e se dispõe a ajudá-lo. Chabert, ao procurar o advogado, estava tentando recuperar a sua honra, seus bens e sua mulher. 

O dinheiro é sempre um motivo recorrente sua obra. Aliás, não só na dele, mas na de muitos grandes escritores que trataram do tema, gente como Esopo (o avarento que perdeu o seu tesouro) e Plauto (nas suas comédias, a A Aulularia, dentre outras), na antiguidade, e, mais recentemente, Molière (O Avarento). No romance de costumes do séc. XIX, tanto no realista como no naturalista, o tema, abandonada a abordagem cômica, satírica, passou a ser tratado de modo muito mais profundo, trágico até, considerado o dinheiro como uma verdadeira droga que envenenava as relações familiares e sociais e que passou a ser analisado como um elemento maior e negativo na realidade do século XIX. 

Desejoso de pintar a realidade de seu tempo, os romancistas, Balzac principalmente, nos ofereceram não só uma análise psicológica dos avarentos, mas nos apontaram  como esse “pecado” se tornou primordial na sociedade do século, varrendo os outros valores humanos, encarnados, por exemplo, pelo coronel Chabert: a honra, a fidelidade, o amor à pátria, o altruísmo, a generosidade. O romance, ao mesmo tempo que nos revela mais uma poderosa figura a se juntar à galeria dos personagens balzaqueanos, é uma homenagem que o autor presta aos militares do exército de Napoleão I que venceu a batalha de Eylau (1897) contra a Rússia e a Prússia, ao evocar a figura do coronel.

A história de Chabert foi por diversas vezes levada ao teatro e ao cinema. Neste último, desde 1911; a última realização é de 1994, sob a direção de Yves Angelo, com Gérard Dépardieu, Fanny Ardant, Fabrice Luchini e André Dussolier, todos excelentes atores, nos principais papéis, resumindo-se assim a sua sinopse: durante as guerras napoleônicas, o coronel é dado como morto. Dez anos mais tarde, recuperando a sua saúde e a sua memória, volta a Paris. Reencontra sua mulher casada com o Conde Ferraud, que procura financiar a sua ascensão política com o dinheiro de sua mulher, herdado do marido “morto”. Pela via judicial, Chabert vai procurar resgatar a sua honra e o seu dinheiro. Não o consegue. Diante das maquinações de sua ex-esposa, Chabert, enojado com tanta falsidade, ele que chegara até a admitir o recebimento de uma indenização para deixar de importuná-la, abandona tudo e se recolhe a um hospício, onde vai acabar, meio amalucado, os seus dias, como um épave, (destroço, restos de naufrágio), entre indigentes, doentes mentais e alcoólatras.
TÚMULO DE BALZAC,
  PÈRE LACHAISE

O nome e a obra de Balzac ocupam, sem dúvida, um grande lugar, um dos maiores, na história da literatura mundial. Poucos escritores como ele investiram com tanta perseverança e sagacidade na vida social e nos costumes de seu tempo. 

Alguns filmes baseados na obra de Balzac: La Duchesse de Langeais (Ne touchez pas à la hache), La Fille aux Yeux d'Or, Le Colonel ChabertL'Auberge RougeCousin BetteLa Maison NucingenLa Belle Noiseuse (Chef d'Oeuvre Inconnu), L'Homme du LargePeau de Chagrin