sábado, 16 de julho de 2011

MÚSICA DAS ESFERAS


ASPECTOS E OUTRAS QUESTÕES ASTROLÓGICAS*


                                                                   
No Evangelho de São João está registrado que in principium erat verbum. Muitas são as traduções, verbo, palavra, as mais comuns. Alguns astrólogos antigos entenderam verbum como som. A base para essa interpretação estaria na sua argumentação de que, na tradição que defendiam, a criação deveria ser vista com a cristalização do canto do Criador. Pitágoras desenvolveu sua teoria a partir deste entendimento: a estrutura da música explicaria a estrutura do universo. Era através da música que da melhor maneira se poderia entrar no conhecimento do cosmos.



Essa relação entre música e matemática estabelecida pela via astrológica foi revelada a 
Pitágoras quando, passando diante de uma oficina de ferreiro, ouviu dois martelos batendo numa bigorna. Soavam com a diferença de uma oitava um do outro. Oitava, em música, é um intervalo que abrange oito notas da escala diatônica (que procede na sucessão natural dos tons e semitons). Oitava é sinal que indica que o trecho melódico deve ser executado oitavado, acima ou abaixo. Os outros dois soavam com a diferença de uma quarta (intervalo que abrange quatro notas de uma escala diatônica) e outros dois soavam com a diferença de uma quinta (intervalo que abrange cinco notas de uma escala diatônica, considerado a consonância perfeita). Pitágoras constatou que os que soavam em oitava estavam em relação de 1 para 2, os que soavam em quinta, numa relação de 2 para 3 e os que soavam em quarta, numa relação de 2 para 4.

A teoria pitagórica desenvolvida incorporou a ideia de que o Sol, a Lua e os demais astros giravam em torno da Terra em círculos concêntricos. As rápidas revoluções dos corpos produziam no ar um zumbido musical. Cada planeta emitia uma nota diferente que dependia da relação de sua órbita, do mesmo modo que a uma nota da lira dependia do comprimento da corda. Muito se discutiu: poesia, ciência, loucura? Esta teoria pitagórica influenciou muitos estudiosos que se voltaram para o estudo dos astros. O pensamento de Platão adotou o entendimento de que a alma do homem e os astros tinham o mesmo movimento imortal. Plotino foi outro que recebeu os ensinamentos de Pitágoras através do platonismo.

Séculos e séculos mais tarde, a experiência narrada por Pitágoras foi repetida (séc. XVII), o que permitiu associar os intervalos musicais aos aspectos astrológicos. Considerando-se o céu como um círculo imenso, o arco que separa dois astros tomou o nome de aspecto. Quando, por exemplo, dois planetas estão situados no mesmo grau do Zodíaco, seu aspecto é chamado de conjunção. Não há intervalo entre eles. Este aspecto, em música, recebeu o nome de uníssono musical, isto é, correspondia à emissão simultânea da mesma nota por dois cantores ou por dois instrumentos. Quando dois astros estão a 180° um do outro, temos a oposição. Os músicos comparam a oposição cósmica à oitava (relação de 1 para 2). Se essa distância corresponder a 120° (um terço do círculo ou Zodíaco), temos o trino, relacionado com a quinta (relação 2 para 3). Estes intervalos estão na base de todo o sistema de afinação dos instrumentos musicais.



Num famoso texto do século XVII, "O Livro das Consonâncias", seu autor, o Padre Marsenne, afirmou que os três números mencionados representavam, respectivamente, o Pai (unidade), o Filho (binário) e o Espírito Santo (ternário). Muitos astrólogos antigos chamavam indiscriminadamente a conjunção de uníssono e a oposição de oitava. Os músicos falavam da facilidade de um trino ou da dificuldade para um quadrado. O uníssono era o mais poderoso dos acordes. Comparava-se o amor ao uníssono, com justa razão.
As sete grandes consonâncias (séc.XVII) estavam relacionadas com os sete planetas: Oitava = Lua ou Selene; Sexta maior = Mercúrio ou Hermes; Sexta menor = Vênus ou Afrodite; Quinta = Sol ou Hélio; Quarta = Marte ou Ares; Terça maior = Júpiter ou Zeus; Terça Menor = Saturno ou Cronos.
Ainda segundo as correspondências do século XVII (Harmonie Universelle, do Pe.Marsenne), teríamos: o Fogo correspondendo à voz de Soprano, ao Vermelho (cor), ao Bastão (Tarô), ao Ouro (Metal), ao Oriente (ponto cardeal), ao Colérico (temperamento). Ao Ar, na mesma ordem: Contralto, Azul, Espada, Prata, Sul, Sanguíneo. À Água, na mesma ordem: Tenor, Branco, Taça, Estanho, Norte, Fleugmático. À Terra, na mesma ordem: Baixo, Negro, Dinheiro, Chumbo, Ocidente, Melancólico.
O número doze, de tanta riqueza simbólica, também inspirou os artistas-músicos que se valeram da Astrologia para estabelecer suas analogias. O doze, como sabemos, é o número das divisões espaço-temporais, produto de quatro (pontos cardeais) pelos três planos do mundo ou três dinâmicas, sendo usado para dividir o céu em doze setores em todas as antigas civilizações. É o número doze o símbolo do próprio universo no seu desenvolvimento cíclico, o número da realização, símbolo do devenir humano que continuamente se resolve.

AHURA MAZDA
Síntese do sistema duodecimal e do sistema circular, o doze rege o espaço e o tempo e sempre simbolizou a ordem e o bem. Estas ideias já estavam fixadas entre os persas: todo o bem proviria dos doze signos zodiacais, criação de Ahura-Mazda, enquanto o movimento irregular dos sete planetas provocavam o mal. Não é por acaso que o Olimpo tem doze divindades principais, que Cristo teve doze discípulos, que doze foram os pares da França, que doze foram os cavaleiros do Santo Graal, que o ano tem doze meses, que Israel tem doze tribos e doze patriarcas, que doze são as horas do dia...
Há um texto do século XIV, Livre des Propriétés des Choses, de Barthélémy de Glanville, onde encontramos uma ilustração que associa o Zodíaco (signos e casas) a instrumentos musicais. A ordem é a seguinte: 1ª casa - Áries - o tocador de tamboril e pífano - signo de fogo (a roupa do músico é vermelha), cor de Marte; 2ª casa - Touro - tocador de sacabuxa (trombone ou trombeta grave) - signo de terra - encontramos aqui a correspondência no som grave do instrumento; 3ª casa - Gêmeos - viela de roda, signo de ar - o instrumento faz ouvir simultaneamente a melodia e um acompanhamento; 4ª casa - Câncer - alaúde - signo de água - o instrumento é essencialmente lunar; um dos símbolos do alaúde é a cotovia (ave da família dos alaudídeos), ave lunar, por excelência; alaúde é palavra que vem do árabe com o significado de madeira (matéria) que se queima, que vai se consumir; 5ª casa - Leão - harpa - signo de fogo - representa a tensão entre a vida instintiva e as aspirações espirituais (o quadro de madeira e a as cordas); 6ª casa - Virgem - oboé de cor preta - flauta de som alto, caracterizado por uma espécie de "detalhamento" sonoro; 7ª casa - Libra - signo de ar - órgão portátil, relação óbvia com o ar que entra e sai em condições de desigualdade, ajustando-se permanentemente; 8ª casa - Escorpião - signo de água - o dulcimer - instrumento de cordas, parecido com o violão, maior, percutido com pequeno martelo; martelo vem de malho, instrumento de bater, aquilo que fere a corda, na música; também nome de um dos ossos do ouvido; em latim, martelo é marcus; o instrumento se apoiava entre as pernas do músico, junto do sexo; 9ª casa - Sagitário - signo de fogo - viola de arco - semelhança com o arco que dispara a flecha (sagita) - 10ª casa - Capricórnio - signo de terra - címbalos - símbolos do reino mineral e dos metais; signo do nascimento de Cristo, acontecimento acompanhado pelo simbolismo da gruta, celebrado pelo toque do instrumento, chocalho feito de uma ou várias placas metálicas; 11ª casa - Aquário - signo de ar - corneta de cor preta - à época, signo governado por Saturno; a cor de Aquário era o negro e o seu som era o do chumbo; 12ª casa - Peixes - signo de água - rabeca - instrumento cuja forma evoca a do peixe.

Os quatro elementos, que lembram a Jerusalém terrestre, a realização da Jerusalém celeste (visão de paz, de justiça e de união de todos, das doze tribos de Israel), na Terra, eram representados respectivamente pela viela (terra), pela cornamusa (espécie de gaita de foles), símbolo sexual (água), pelo oboé (fogo), instrumento solar, e pelo tamboril (ar), instrumento de percussão semelhante à cítara.
Ainda dentro deste capítulo das relações entre a Astrologia e a Música, uma das mais interessantes ligações que podemos fazer entre ambas nós as encontramos na China. Há mais de 3000 anos, talvez mais, os chineses já haviam elaborado a mais completa e fascinante filosofia da música de que temos conhecimento. A tradição musical chinesa é tão antiga que boa parte dela pertence ao mundo da lenda.
O pensamento que estava por trás dessa filosofia era a de que as notas musicais continham um poder transcendente, sendo cada uma delas uma forma de energia. Cada composição musical exerceria assim uma influência específica sobre o homem, sobre a vida social, sobre o cosmos. Essa influência dependeria de vários fatores, destacando-se, dentre eles, o ritmo, os padrões melódicos, a combinação dos instrumentos usados.
A música entre os chineses antigos nunca foi vista como entretenimento, diversão, pois eles consideravam que o lado escuro da natureza do homem poderia ser entretido tanto pelo lado mau e imoral da música quanto pela música correta. À música caberia transmitir verdades superiores, eternas, influindo deste modo no caráter do homem, tornando-o melhor. Poderia a música inclusive afetar diretamente a saúde do corpo físico. O efeito da música, mais do que o de qualquer outra arte, era o mais importante.
As quatro cordas existentes na cítara chinesa e as quatro estações simbolizavam a antiga concepção dos quatro aspectos do homem: sua mente abstrata, sua mente concreta, suas emoções e seu corpo físico. Estes quatro aspectos, como se vê, correspondiam àquilo que os alquimistas chineses chamavam de fogo, ar, água e terra, os quatro elementos.
Ao tanger as quatro cordas externas em uníssono, o músico aprendia também a ferir a corda central, correspondente ao eu superior, a corda da natureza espiritual. Ao atingir o domínio desse toque, seu gênio interior se manifestava. A moral era a seguinte: em primeiro lugar, cumpre dominar a nossa natureza quádrupla antes de lograr o nosso pleno desenvolvimento. Depois, somente depois, poderemos executar a música que valerá a pena ser executada.
Os chineses atribuíam importância vital à música pois acreditavam que ela encerrava em seus tons elementos da ordem celestial que governavam o universo inteiro. Noção de cosmos, isto é, de ordem, só com a música. A música era para eles a manifestação de um Som Fundamental, o Som superfísico, equivalente ao Aum dos hindus. Esse Som, embora inaudível, se achava presente em toda a parte, como vibração. Esse Som Fundamental se diferenciava em doze sons ou tons menores, cada um deles se associando a uma das doze regiões zodiacais do céu.

Se nos aproximarmos da antiga música indiana, encontraremos, desde os tempos védicos, um diálogo entre o número doze e o número sete. Ou seja, a ideia de que a música envolvia sempre disciplina e liberdade. A disciplina estava, por exemplo, nas notas (svaras), no tempo (laya), no ritmo (tal) enquanto a liberdade estava no intérprete, o músico, que podia fazer as suas improvisações, segundo os limites da raga, modo musical, divididas desde o período medieval da música indiana em doze escalas. Raga, lembre-se, é palavra que também pode ser traduzida como sentimento, amor, colorido, emoção, paixão, harmonia.



Se formos um pouco além, encontraremos na música indiana as mesmas concepções pitagóricas ou chinesas. Um de seus conceitos fundamentais é, por exemplo, o de nad (som), composto de na (respiração) mais da (fogo ou energia). Há duas espécies de nad: ahat e anahad. O primeiro é o som produzido pela manipulação de meios físicos (instrumentos musicais, voz humana).




O outro é o “som não percutido”, o da música das esferas celestes, o mesmo que na Yoga é ouvido quando a espiral de energia que o ser humano tem dentro dele (kundalini) se eleva do muladhara em direção do brahmarandra ou sahasrara, no alto da cabeça.
Os doze tons estavam na mais antiga concepção da Astrologia, manifestando-se eles como frequências vibratórias sobre a terra. A Astrologia chinesa estava intimamente ligada ao estudo do Tom Cósmico. Tanto na civilização chinesa como em outras, desde então, esse conceito foi unânime. Havia uma ordem perfeita nos céus, governada pelos doze tons. A ordem celestial foi então transposta para o mundo terreno. Uma das consequências desse entendimento está na divisão do ano em doze meses e do dia em vinte e quatro horas. Tudo isto era o sábio reconhecimento por parte do homem de fatos objetivos que hoje chamamos de científicos. Os doze tons se expressavam individualmente, em maior ou menor grau, de acordo com determinado mês do ano e hora do dia. Determinado tom "soava" com maior destaque em certo mês ou no transcorrer de determinada hora do dia. Os doze tons pertenciam a dois grupos, seis yang e seis yin, ou sejam, força masculina positiva e força feminina negativa. Em todo o universo estas forças se encontravam, forças opostas, desde a estrutura de partículas subatômicas até o maior ou o mais afastado dos planetas.
Assim como os Tons Cósmicos mantinham a harmonia e a ordem nos céus, assim a música, como reflexo deles, deveria manter a ordem e a harmonia na terra. Num antigo texto chinês encontramos: "O céu e a terra estão empenhados num ciclo. Todo fim é seguido de um novo começo, todo extremo é seguido de um retorno. Tudo se coordena com tudo o mais. O Sol, a Lua e as estrelas movem-se em parte rapidamente, em parte lentamente. O Sol e a Lua não concordam sobre o tempo de que precisam para completar o seu caminho. As quatro estações sucedem-se umas às outras. Trazem o calor e o frio, a brevidade e a extensão, a suavidade e a dureza... Quando o mundo está em paz, quando todas as coisas descansam, quando todos obedecem aos princípios superiores através de todas as mudanças da vida, a música pode ser levada à perfeição. A música aperfeiçoada tem seus efeitos. Quando os desejos e emoções não seguem caminhos falsos, a música pode se aperfeiçoar. A música aperfeiçoada tem sua causa. Nasce do equilíbrio. O equilíbrio nasce da justiça... A música é a harmonia do céu e da terra."
A música deveria expressar a ordem celeste. Por isso, habilidade artística, conhecimento e disciplina eram requeridos. Nada na música chinesa era deixado ao acaso ou se executava de maneira arbitrária. As notas fortuitas ou arbitrárias tenderiam a introduzir a desorganização, o caos, a anarquia social. Cada nota invocava uma força celeste específica.
A tonalidade nos coloca como ideia central a de uma tônica, o primeiro grau de uma escala diatônica. Ideia de centro, de dominante, as melodias e harmonias gravitando ao redor desse centro. A tônica, na música chinesa, tinha importância cosmológica. A tônica era o reflexo do Tom Cósmico na Terra. A tonalidade de toda a música chinesa não era mais, num outro plano, que a tonalidade astrológica e as relações (des)harmônicas entre os signos zodiacais devido às presenças planetárias num ou noutro. As relações entre as notas constituíam a base da tonalidade, numa tradução matemática e estética. Quando cantamos e falamos no início de nossas vidas utilizamos frases ou melodias firmemente baseadas em intervalos tonais. Tudo isso não era para os chineses nada mais que a união céu-terra pela Astrologia e pela Música. A partir do século XVIII, quando Urano, um novo arquétipo começou a se revelar à humanidade, o tonalismo na música começou a ser questionado até chegarmos, no início do século XX, às propostas radicais de Arnold Schoenberg e de seus discípulos, Anton Webern e Alban Berg, isto é, à renúncia de todo o conceito de tonalidade. Mas isto já outra história sob o ponto de vista astrológico, que a maior parte dos músicos desconhece...
Passando para outro capítulo, queremos nos referir agora a uma aproximação entre Astrologia e a Literatura grega (Teatro clássico e Poesia). Foram os antigos astrólogos gregos que sugeriram que os aspectos de quadratura na Astrologia poderiam ser vistos, uns, como verdadeiros dramas (signos cardinais), outros como tragédias (signos fixos) e outros como epopeias (signos mutáveis).
Aspecto é ato de ser visto, aparência, maneira pela qual algo se apresenta. Aparência é ângulo, face, lado. Ângulo de um problema. Ver sob um ângulo, sob um ponto de vista. Aspecto, etimologicamente, vem de olhar. A quadratura tem um ângulo reto, formado por duas retas a prumo, perpendiculares, a 90º. Quadratura vem do quadrado, do número quatro, número do universo material, sólido, tangível. O quadrado está ligado a uma ideia de coagulação, condensação, prisão na forma, obstáculo. Tem relação com a cruz, um dos quatro símbolos fundamentais, ao lado do círculo, do quadrado e do centro. A cruz, como sabemos, se expressa em direção dos quatro pontos cardinais, a base de todos os símbolos de orientação.
As quadraturas entre os cardinais (angulares) têm relação com o início das quatro estações. O princípio implícito é o da luta contra algo. A luta para sairmos do caos (XII), para sairmos da gruta (IV), para nos limitarmos conscientemente (VII) e para nos mantermos nas alturas (X). Os signos cardinais sugerem sempre luta, iniciativa, ambição, são sempre signos onde temos a ideia de algo mais público, mais evidente, mais à mostra. Na cruz cardinal estamos sempre mais atarefados, temos mais atividade, áreas em que temos que ser mais rápidos, em que temos de tomar decisões que nos põem invariavelmente numa situação de conflito contra alguém. Drama é algo que nos coloca numa situação em que temos que nos desvencilhar de algo. Drama quer dizer ação.
Já a quadratura dos signos fixos (casas sucedentes) tem o nome de trágica. A essência da tragédia é o sacrifício. Tragédia é etimologicamente o "canto do bode", considerado o animal do sacrifício no altar de Dioniso-Baco. O bode, como o carneiro, é símbolo da força vital, da libido, da fecundidade. Enquanto o carneiro tem características solares, diurnas, o bode é noturno, lunar. É o animal trágico por excelência. O bode, como animal sacrificial, aparece na Bíblia. O animal imolado destinado a carregar os pecados do povo, o bode expiatório.
A quadratura trágica tem um caráter lunar. A Lua é a primeira noção de morte que temos quando ela desaparece (Lua Nova). É um símbolo da passagem da morte à vida. Cada fase da Lua é uma quadratura. A tentativa de resolução de uma quadratura fixa sempre implica o sacrifício de algo. Os signos fixos são certamente aqueles que mais claramente definem os principais problemas que temos de enfrentar existencialmente. O esforço para superar as quadraturas que neles encontramos é enorme, se é que a tanto podemos chegar. A principal característica dos fixos talvez seja o desejo, representam um lugar onde nos fixamos, lugares onde estão ideias de valor, de importância pessoal, de valores compartilhados, de liberdade, de independência, de vida transpessoal. São lugares onde a energia parece se condensar, onde as estações apresentam as suas melhores características, razão pela qual teremos que alterar a ordem da regência não só dos signos fixos mas também quanto aos demais: assim, a ordem, quanto aos fixos, deverá ser a seguinte: (Touro: Saturno, Vênus, Mercúrio - Leão: Marte, Sol, Júpiter - Escorpião: Lua, Plutão, Netuno - Aquário: Vênus, Urano, Mercúrio).
As quadraturas relacionadas com os mutáveis são chamadas de épicas (epos é feito, algo que se faz heroicamente), traduzindo uma ideia de uma luta que temos que travar, como nos cardinais, mas só aqui essa luta será conosco mesmo. Representam os mutáveis transformações, mudanças, para que seja possível uma expansão, uma abertura para o futuro. A luta aqui é pela nossa mobilidade, pela nossa versatilidade. Os mutáveis devem sempre oferecer mais que receber (é neles, na Astrologia hindu, que a relação karma-dharma se torna mais evidente) já que neles está implícita a ideia de dar um sentido novo àquilo que os fixos representam. Os mutáveis seriam, assim, uma espécie de saída dessa relação.
Por fim, uma pequena divagação sobre um aspecto "esquecido", o quintil, chamado de aspecto menor. A base do quintil é a da divisão do círculo por cinco, 72º. Este aspecto tem relação com o oculto e o uso desse poder. Isto é, oportunidades de trabalho com um tipo de energia superior. O nº 5, no quintil, lembra transcendência do mundo físico (quatro), apontando para o éter, o quatro mais o um, o quinto elemento da Astrologia hindu. O quintil para ser mobilizado exige vontade solar, comando. Nesse aspecto encontramos oportunidades para compreender relações íntimas entre conjuntos aparentemente isolados, oportunidade para estabelecermos ligações com algo que está mais além. 360 dividido por 5, 72. Cinco é a mente criativa mais um. É a estrela de cinco pontas, sendo o cinco o número daquele que se iluminou. A estrela indica um movimento de formação do mundo (cosmogonia) ou da própria personalidade (individuação consciente).
No quintil encontramos poderes latentes, nunca acionados, e por ele podemos visualizar a capacidade e o talento criativos. Gênio, talento especial, alguma habilidade geradora? Ou, então, deixemos pra lá, esqueçamos! O quintil exige comando para que a evolução venha. O restante do mapa poderá ou não colaborar.
O nº 72 tem relação com as casas III e X, talento especial na utilização de ideias e comunicação, tendo-se em vista a carreira e metas profissionais. Os ângulos de 18º. 36º, 72º, 108º e 144º são encontrados no pentágono ou estrela de cinco pontas. São a síntese refinada dos elementos, indicando talento especial e habilidade incomum para sintetizar e combinar tendências diversas. O quintil evolucionário pode ser estudado nos 72º a partir de Áries ou 12º de Gêmeos. Neste segundo decanato de Gêmeos encontro Mercúrio (Urano, Mercúrio, Vênus) e não Vênus.
O quintil tem naturalmente a natureza dos signos de ar: por Gêmeos, adaptação, habilidade, versatilidade; por Libra, graça, diplomacia, talento artístico, desenvoltura social; por Aquário: comunicação de ideias, transpessoalidade, participação, intuição. O quintil engloba harmoniosamente os mutáveis, os fixos e os cardinais.
O quintil involucionário está a 72º de Áries, mas nos 18º de Capricórnio, segundo decanato, regido por Saturno (antigo: Saturno, Vênus, Mercúrio - novo: Mercúrio, Saturno, Vênus). Tem características de Capricórnio e Libra. Bons negócios, sociedade pelo MC (casa X), empreendimentos, casamento como negócio etc.
Os decanatos (36) nos vêm da Astrologia egípcia, tendo sua divulgação sido feita pela Astrologia helenística. O quintil tem relação com a escada de Jacó, de 72 degraus, através da qual o céu e a terra eram unidos. Para Platão, era o número nupcial. São ao todo 72 semi-decanatos. Cada grau solar é igual a 72º, isto é, uma pulsação, isto é, um dia do grande ano pitagórico de 25.920 anos ou o ciclo da precessão dos equinócios.
Plutarco nos diz que o deus Hermes intercalou 5 dias nos antigos 360, tirando 1/72 de cada dia. Qual a razão disso? O ano solar foi acrescido de 5 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos devido a uma convulsão cósmica que reduziu a velocidade da rotação da Terra, alguns séculos antes de Cristo. O ano solar é um produto do 3x4x5x6 = 360. 360 faraós governaram o Egito desde o primeiro (Menés) até Augusto, ano 1 da era cristã. Na Bíblia, há 360 vezes repetida a expressão "não temas", uma palavra tranquilizadora para cada dia do ano.

*“In memoriam” do músico e professor Roger Cotte (1921-1999), um dos maiores pesquisadores da música e de suas relações com a mitologia, astrologia e antigas religiões.