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quinta-feira, 15 de julho de 2021

A CASA XII

         

PERSONIFICAÇÃO DA ASTROLOGIA
(GIOVANNI BARBIERI, CONHECIDO COMO GUERCINO, 1591-1666) 

A boa prática astrológica nos informa que o setor (casa) em que se encontra o Sol num mapa nele encontraremos o centro da existência do dono desse mapa, o lugar de suas experiências mais significativas, talvez, quem saiba, de suas maiores realizações. Se estiver nessa casa bem colocado por signo e bem relacionado por aspectos, podemos sempre esperar ali algum   fator de elevação, de distinção, de êxito. Conforme os mestres hindus nos apontam, o Sol, se favorecido num mapa por posição e aspectos, encontrará, principalmente, nas casas I (Ascendente) e X (Meio do Céu) as suas melhores possibilidades expressivas tendo-se em vista o que acabamos de colocar. Todavia, dizem-nos também os mestres hindus que isto não exclui possibilidades de realização mesmo que o Sol se encontre em casas  “difíceis”, que alguns chamam de maléficas, como as mokshabhavas (IV, VIII e XII). 




Como entender isto, se consideramos que a casa XII, sempre tida como difícil, é a casa final de um mapa? Nela encontramos (ou não) informações de como depois dos feitos mundanos (casa X), alguém com preocupações altruístas (casa XI) poderá entrar, inspirado por um entendimento mais vasto da vida cósmica, em contacto com sentimentos de compaixão, de solidão contemplativa e de autossacrifício. A cultura astrológica ocidental vê a casa XII como suscetível de ocasionar grandes provações durante a vida, de modo especial para os que nascem com o Sol nela posicionado. Estas provações tanto podem significar uma série de obstáculos que poderão se erguer diante do êxito de várias maneiras, desde crises de consciência,  como provações de ordem moral, como problemas crônicos de saúde ou como inimizades ocultas e inexplicáveis etc.

Segundo alguns mestres hindus, a casa XII poderá ser um “vale de lágrimas” ou uma “câmara de horrores”, um lugar de deformações, de tristezas, de sujeição, da “mão pesada do destino” se ela não for entendida como o lugar num mapa através do qual poderemos prestar alguma ajuda a pessoas que não podem ou não conseguem se ajudar a si mesmas. É por esta razão que muitas vezes encontramos pessoas que têm o eixo das casas VI-XII dinamizado pela presença de um Sol, de modo especial se ele estiver na casa XII. Sempre presente também a  a ideia de que é através dessa casa que podemos ter que prestar algum tipo de serviço, seja, por exemplo, como funcionário num asilo, como enfermeiro num hospital de alienados, numa prisão, num lugar onde se internam pessoas, numa prisão como carcereiro etc. O signo dessa casa, o planeta Netuno ou planetas presentes em Peixes nos informarão que tipos de serviço, além dos que deveremos prestar normalmente, teremos executar. Sempre será bom lembrar, entretanto, que onde Netuno estiver num mapa nesse setor do mapa poderemos  ter que, em algum momento de nossa vida (ou sempre), nos haver com algum tipo de autossubmissão, de autodedicação, de sacrifício, de autoengano, de desilusão etc. 

Um Sol de casa XII, no geral, predispõe a pessoa a “aparecer” menos na vida, seja por timidez, medo, insegurança, dúvidas etc. Ou seja, uma pessoa desejosa, quase sempre, de permanecer inexplicavelmente, ao lado, à sombra, escondida. Um Sol de casa XII não “gosta” de ser alvo de atenções, de ser notado, de “enfrentar” pessoas. Difícil para um Sol nesta posição ser direto, espontâneo, mesmo que lhe expliquem não haver nada a temer. 

Aspectos Sol-Netuno poderão apresentar também muitas das características de um Sol de casa XII, a saber: sensibilidade a correntes coletivas, receptividade às vagas sociais, sentido fortemente comunitário, político, messianismo, realização por uma via coletiva, ideológica ou místico-religiosa etc. A rondar este Sol sempre os perigos de atitudes anárquicas, escapistas, evasivas, caóticas, sonhadoras, com sérias repercussões de ordem psicossomática.


Um Sol de XII costuma inclinar a atitudes compassivas, a uma certa afinidade com o misterioso, o nebuloso e o imaginário que podem dificultar a percepção da realidade. Comum, por exemplo, que um Sol de XII se veja às vezes “mantendo” contactos como amigos imaginários ou “sinta” que o que lhe acontece de negativo deve-se a alguma falta criada pela sua imaginação.    

Um Sol de XII costuma também às vezes imaginar que haja alguma coisa errada a fazer parte de sua vida, mesmo que ninguém lhe apareça para cobrar algo, para apontar alguma falta ou erro. Comum por isso que a pessoa com um Sol de XII se “sinta” mal, fabricando culpas, muito mais por pressões imaginárias do que por algo de mal realmente cometido.  A predisposição a ligações com o mundo sobrenatural é também muito possível com o Sol de XII, muito comuns histórias fantásticas, fantasmas, vida depois da morte etc. 

Muito concretamente, por sua analogia com o signo de Peixes e Netuno, a casa XII nos informa sobre inimigos ocultos, sofrimentos físicos de longa duração (internações, hospitalizações etc.), sofrimentos morais, enganos e segredos. Refere-se também a casa aos grandes animais, aos trabalhos penosos, às doenças incuráveis, a prisões e exílios, a traições e muito mais.

Posicionado e aspectado favoravelmente na casa XII, o Sol pode proporcionar vitória sobre os inimigos ocultos, êxito nas profissões ligadas à cura do corpo e da mente, inclinação ao estudo e prática das chamas ciências ocultas. Presentes às vezes, mesmo com a condição solar acima apontada, sofrimentos causados pelos assuntos regidos pelo signo presente na casa. Dependendo da dignidade solar, podemos ter escândalos decorrentes de vida sentimental, problemas com filhos, jogos etc. 

De um modo geral, um Sol de XII costuma depender muito das chamadas reservas inconscientes, o que inclina a expressões através de grandes instituições, clínicas, lugares de retiro, asilos, hospitais etc. Pode-se mesmo afirmar que a única forma de um Sol de XII obter algum reconhecimento ou satisfação será a de prestar serviços nos quais não entrem ideias de retribuição ou de reciprocidade. 

Um Sol de casa XII, mesmo dignificado e bem aspectado, pode também encerrar quem o tem numa forma de existência marcada pelo retorno periódico de acontecimentos infelizes como se estivesse submetido a fatalidades provenientes do exterior. Todavia, se observarmos mais de perto, muitas dessas fatalidades parecem ser produzidas pela própria pessoa. É o caso daqueles que são os artífices de sua própria “infelicidade”, que não podem suportar a conquista daquilo que mais intensamente parecem desejar.

Já uma Lua de casa XII pode nos revelar que o humor de uma pessoa ou que suas respostas emocionais estão fortemente marcadas por influências de natureza inconsciente ou por experiências vividas anteriormente, mas que subsistem, no geral desconhecidas por quem as experimenta. Normalmente, uma Lua na casa XII inclina à timidez, à sujeição de temores, a sonhos e devaneios, sempre com muita dificuldade de separar a realidade da fantasia. 

Praticamente, a Lua na casa XII pode indicar trabalho em hospitais, sanatórios, orfanatos, educandários, asilos de crianças, através de entidades que lidam com o passado de um modo geral. Pode indicar separação da família de origem, sofrimento através do lado materno, perda de heranças. Se Câncer, por exemplo, ocupar a casa VI ou se a Lua for a indicadora de saúde, poderemos ter o caso de moléstias incuráveis transmitidas pela via familiar, de separação familiar, de sofrimentos causados por mulheres (mãe, esposa), questões de herança etc.

A Lua na casa XII pode tornar a infância infeliz, doentia, ocasionar provações afetivas pela via materna, inimizades familiares etc. De um modo geral, a Lua na XII indica timidez, imaginação perigosa, sobretudo com relação a culpas, remorsos, inferências, memórias etc. Particularmente, na casa XII, a Lua costuma se revelar também por lembranças infantis, aparentemente insignificantes, mas muito marcantes porque tomam geralmente a forma de fantasias inconscientes. A Lua em XII pode, por isso, adquirir uma feição paradoxal, ou seja, lembranças importantes de acontecimentos e fatos infantis  são “esquecidos” enquanto outros, aparentemente insignificantes, são conservados na lembrança.

Quem tem a Lua na casa XII sempre encontra alguma ou muita dificuldade para falar de seus sentimentos e emoções. Esta atitude costuma se explicar pela ideia de que as pessoas, diante desta exposição sentimental ou emocional, não as entenderiam ou poderiam alimentar pensamentos “errados” quanto ao que lhes estava sendo exposto. Uma Lua de casa XII costuma também “entender” que as pessoas, se a elas ela se “abrisse”, dificilmente a perceberiam como ela é de fato, na realidade. O que se poderá “dizer” diante deste “entendimento” lunar? Que esta Lua é “normal”, que não há porque serem escondidos sentimentos e emoções? Numa abordagem mais ampla, talvez pudéssemos dizer a esta Lua que ela deveria deixar de impedir a sua própria expressão mais livre.  Que deixasse de ser o seu próprio obstáculo. Isto certamente ajudaria tal pessoa a eliminar pensamentos negativos como os de que não seria aceita se falasse mais de sua interioridade, do que sente. 

Uma Lua na XII sempre necessita de muita segurança emocional, mas costuma encontrar  sempre muita dificuldade para obtê-la. Um pensamento que sempre lhe ocorre é o do que quando mais precisar de suporte ou de compreensão não os conseguirá. As pessoas que poderiam lhe ajudar estão ausentes, foram viajar, estão presas a outros compromissos dos quais não podem se desobrigar ou morreram, seja tudo isto verdadeiro ou não. De qualquer maneira, sempre muito difícil para uma Lua de XII confiar em alguém sob o ponto de vista emocional. Comum neste caso, a Lua de XII fabricar culpas, como a de que está sendo tratada dessa maneira porque cometeu alguma falta, da qual não se lembra, com relação a pessoas que poderiam lhe ajudar. 

Nos piores casos, uma Lua de XII costuma também “trabalhar” muitas vezes com a hipótese de, faça o que fizer, estar sempre ferindo outras pessoas, se enchendo de dúvidas quanto à correção de sua maneira de agir. Por isso, cenas em que sabidamente haverá muitas descargas emocionais deverão ser evitadas por uma Lua de casa XII, principalmente as que envolvam questões de família. 

Uma Lua de casa XII predispõe, no geral, por isso, a uma infância infeliz, a doenças que durem muito (crônicas), a provações afetivas, familiares, dificuldades conforme seja o tema astral masculino (esposa “difícil”) ou feminino (marido “difícil”) etc. Inimizades públicas, perigo diante de multidões, viagens marítimas. Mal posicionada na XII, a Lua sugere uma receptividade exagerada, muita instabilidade emocional (signos de água, mutáveis), riscos com relação a tendências herdadas. É de se lembrar que num mapa a Lua representa a mulher, principalmente a mãe e, em menor extensão, a esposa. As forças inconscientes e sustentadoras da Lua têm relação com a alma, a vida instintiva, a memória, os hábitos, os atavismos e tudo aquilo que, de um modo geral, está ligado a ideias de abrigo e segurança. 

Uma Lua de casa XII pode inclinar à timidez, à empatia exagerada, a descontroles com relação à imaginação e à memória, podendo chegar a extremos pela incapacidade que gera quanto à separação da realidade da fantasia. A presença lunar na casa XII pode sugerir trabalhos em hospitais (infantis), sanatórios, orfanatos, educandários, leprosários. Mal posicionada e aspectada em XII, a Lua tende a restringir oportunidades diante da vida, sempre dificultando quem a tem a mostrar o seu valor, enchendo a pessoa de inibições, suposições, dúvidas etc. 

Mercúrio tende a se fechar quando na casa XII. Quem o tem nesta casa costuma apresentar uma tendência bem pronunciada quanto não só a manter seus pensamentos em segredo como, quando questionada, a se mostrar muito evasiva, reticente com relação ao que lhe perguntam. Comum um Mercúrio de XII fazer com que as pessoas sintam muita desconfiança de tal pessoa, mesmo que, aparentemente, não haja motivo para tanto. Há sempre uma ideia de que tal pessoa esteja escondendo algo. Em casos mais “sérios”, esta posição de Mercúrio pode fazer com que a pessoa se sinta muito insegura com relação às suas ideias. A envolver seus pensamentos e ideias, muitas vezes, o temor de que eles, por não serem adequados, convenientes, os possíveis interlocutores possam se mostrar pouco receptivos ou que seu julgamento será pouco ou nada simpático, benévolo. 

Esta posição de Mercúrio pode se tornar particularmente negativa para crianças e jovens quando na escola tiverem que ser submetidos a arguições orais. É por isso que, de um modo geral, as crianças e jovens com Mercúrio na XII preferem a “obscuridade”, Isto é, não se fazerem notados, se sentar no fundo da sala, procurando sempre chamar a mínima atenção, desejos de que os esqueçam. 

Mercúrio na XII costuma tornar as pessoas solitárias, incapazes muitas vezes de externar uma opinião sobre qualquer assunto. Possível que tornem a pessoa, para o bem ou para o mal, dependendo do astro, muito imaginativa, sonhadora, divagante mentalmente. Não esqueçamos que Netuno e Júpiter, os donos da casa XII, sempre ofereceram alguma ou muita dificuldade para se lidar com o “real presente”. Nesta perspectiva, Mercúrio na casa XII sempre oferecerá alguma dificuldade quanto à desejável objetividade quando tivermos que viver o nosso dia-a-dia. Não que Mercúrio nesta casa possa se tornar mentiroso, mas o fato é que neste setor ele sempre oferecerá dificuldades quanto a se trabalhar com um foco. É por isso que Mercúrio na XII pode nos fazer dizer coisas que não são propriamente falsidades ou mentiras, mas distorcê-las, “navegando” em assuntos que nada têm a ver com o que se está a discutir.

Mercúrio na XII (principalmente num mapa em que a dominante seja a água) pode tornar a pessoa, sem que saiba o porquê disso, muito sensível ao que está acontecendo na mente das pessoas com as quais dialoga. É por isso que Mercúrio nesta casa pode provocar alguns distúrbios (dúvidas, temores, fobias etc.) principalmente se a pessoa que o tem viver em ambientes muito excitantes, estressantes. É de se lembrar que Mercúrio na XII sempre pede que a pessoa viva em ambientes tranquilos, calmos. Mercúrio na casa XII costuma oferecer sempre alguma (ou muita) dificuldade para que lidemos com assuntos muito “exatos”, lógicos, como ciências ou matemática. 

Uma das maiores tarefas para Mercúrio em XII talvez seja a de procurar transmitir com clareza ideias a outras pessoas. Difícil para Mercúrio aqui falar ou escrever com objetividade. Para contornar este problema, se possível, quem tem Mercúrio em XII deve sempre procurar apresentar as suas ideias de modo ordenado, uma de cada vez, embora, como se sabe, tais ideais costumem aflorar em desordem, impregnadas de sentimentos, de impressões e através de imagens não muito claras. 

O que está acima, lembre-se, não significa que um Mercúrio de XII não possa ser inteligente. O que devemos lembrar é que ele nesta casa pode se mostrar muito intuitivo, inquieto, tímido, demasiadamente sensível. Nesta casa, o planeta costuma se impressionar fortemente diante de tudo que seja fortemente doloroso ou desagradável, com forte propensão para captar as chamadas vibrações de ambientes, pessoas ou coisas. Mercúrio na XII, em posição privilegiada por signos e aspectos, pode proporcionar grande habilidade para atividades ligadas à investigação e pesquisas de natureza psíquica, que exijam sigilo. 

Mais objetivamente, Mercúrio na XII, mal posicionado e aspectado, pode ocasionar dificuldades com relação a palavras e escritos (envolvimento com a Justiça, condenações, repúdio social etc.). Outras possibilidades: adolescência difícil, mente confusa (dificuldade para separar o falso do real), mania de perseguição, falta de memória), instabilidade física e mental, moléstia nervosa incurável, hostilidade de pessoas jovens, irmãos, vizinhos, nas vias públicas. Risco de cuidados e provações no campo intelectual. 

Prosseguindo: pensamentos influenciados por pressões do passado e por memórias inconscientes. Como assessor solar, seleção e escolha de informações comandadas mais por sentimentos do que avaliações racionais. Dificuldade para operar com objetividade e análise lógica dos fatos. Hábitos educacionais confusos, pouca capacidade de discriminação. Aprendizagem escolar deficiente.

Vênus na casa XII costuma tornar a pessoa reservada e tímida com relação à demonstração de seus sentimentos. Isto não quer dizer, em muitos casos, que pessoa, com esta posição de Vênus, não seja capaz de se mostrar afetuosa, receptiva. Contudo, sempre haverá com esta posição, se falamos de afetos, uma certa contenção, receios às vezes infundados, e desconfiança. Algo talvez ilógico, injustificável, mas, muitas vezes, sem dúvida, presente. 

Com Vênus na casa XII há, no geral, preferência para relações pessoais secretas, escondidas aos olhos dos demais. Nos contactos, tendência a interferir, a supor a presença de  pressões subconscientes, com muita profundidade emocional e, em muitos casos, com muita inspiração artística, falsa muitas vezes.. De modo geral, Vênus nesta casa costuma se mostrar bondoso e simpático para pessoas que porventura se encontrem em dificuldades, de modo especial com relação àqueles que demonstrem uma hipersensibilidade difícil de controlar. Em signos de água, Vênus sempre oferece algum perigo na medida que numa relação afetiva a pessoa pode se tornar muito empática. 

Vênus, nesta casa, pode também demonstrar alguma preferência por relações secretas, sendo comuns casos de adultério, de ligações ocultas etc. Se mal posicionado e aspectado, Vênus pode ocasionar aqui muitas dificuldades com relação às casas onde tivermos Touro e Libra. Problemas econômico-financeiros, com terras, com contratos em geral, litígios etc. Repúdio e condenação pública da sociedade por conduta imoral, escândalos amorosos, se Vênus estiver mal, podem ser esperados. Inimizade de mulheres.

Vênus pode indicar na casa XII êxito em ocupações de caráter beneficente e artístico, em trabalhos de assistência social. Difícil, porém, que nestas ocupações a pessoa possa colher mais abertamente o reconhecimento pela sua dedicação. Vênus, na XII, pede muito cuidado com tendências idealizantes com relação a pessoas ou atividades relacionadas com a casa. Comuns, por isso, as decepções, as desilusões. 

NAUSICAA
(1878, F. LEIGHTON
)
Um problema que Vênus costuma provocar quando na XII é o de oferecer muita dificuldade para a aceitação da realidade como ela é, especialmente com relação à vida social. Além do mais, comum que Vênus aqui faça as pessoas alimentarem temores se, numa relação afetiva, elas ousarem dar o primeiro passo em direção do outro. Muito comuns os casos de pessoas que com Vênus nesta casa, ainda que amem alguém, jamais conseguem se atrever a declarar para o outro o seu amor. A Mitologia grega ofereceu à Psicologia o nome para um complexo que vitima pessoas nesta situação, o chamado Complexo de Nausicaa, nome da infeliz amante de Ulisses, filha do rei Alcínoo.. 

Uma recomendação que pode ser feita para pessoas com Vênus na XII e/ou em mal aspecto com Netuno é a de que elas, se possível, lutem, recorrendo inclusive a aconselhamento técnico, para se tornarem como dizem os ingleses, um pouco mais outgoing de modo a que suas relações possam se tornar  mais compensadoras. Quanto a males que possam atingir de modo mais persistente (crônico) o corpo físico, especialmente se Vênus tiver relação com setores do mapa relacionados com a saúde, fica o alerta para os rins, os órgãos genitais femininos, a próstata, o pescoço, a nuca, a garganta, os seios, a epiderme, o sistema venoso. 







sábado, 19 de outubro de 2019

OS SALÕES DO SÉCULO XVIII*

                                       
SALON  DE  MARIE-TÉRÈSE  GEOFFRIN 
( MARIANNE LOIR, 1715 - 1769 )

Os acontecimentos históricos podem ser explicados de diversas maneiras. Além de historiadores, obviamente, todas as pessoas, letradas ou iletradas, a seu modo,  com maior ou menor autoridade e propriedade, formalmente ou não, podem ter algo a dizer sobre tais acontecimentos. De um lado, em menor quantidade, é claro, temos valorizados livros, teses ou tratados produzidos academicamente por qualificados profissionais da área sobre eventos variados, eventos passados, presentes ou futuros que a humanidade viveu, vive ou viverá. De outro lado, como imensa maioria, temos as simples observações e opiniões do homem comum que, muitas como desabafos, na sua maioria desqualificados, alimentados pela comunicação de massas, se perdem no  efêmero de nosso dia-a-dia. 

Tanto nas produções dos profissionais da cultura, das ciências e das artes como nos desabafos do homem comum encontro uma questão que me parece comum a ambos, uma pergunta mais ou menos bem formulada:  será que a história da humanidade caminha no sentido de um aperfeiçoamento moral ou exprime uma alarmante decadência, sobretudo dos costumes, apesar de um espantoso “progresso” tecno-científico?

O texto que está abaixo, uma breve incursão histórica, produzida na esfera de alguém que tem algum interesse em acontecimentos culturais, parte da constatação de que nestes estapafúrdios tempos em que vivemos só um pouco das muitas explicações e interpretações dos profissionais acima mencionados pode ser lido e compreendido e muito menos incorporado e renovado para orientar a nossa maneira de ser. Tudo, pois, que nos chega quando tratamos destes assuntos, precisa ser comparado, cotejado, reti-ratificado, arquivado, aproveitado, deletado, quando não ignorado ou esquecido totalmente.

A  ASTROLOGIA
(G. BARBIERI, 1591 - 1666)
Com o espírito assim orientado é que procuro, bem ou mal, como um ser comum de poucas letras, me abrir para o mundo na perspectiva aqui apontada, tendo como válido e útil aquilo que a Astrologia, seriamente considerada e estudada, nos propõe para a abordagem de acontecimentos históricos, culturais ou não.  O seriamente ora mencionado sobre a Astrologia nada tem a ver evidentemente com a pop astrology, como ela aparece em jornais e em muitos livros sobre ela publicados, mas com o que ela nos oferece desde tempos muito remotos como legado praticamente encontrado em todas as
CARTA ASTRAL
culturas, desde a pré-história, abandonado, por pressões dos representantes da “racionalidade”, pelas academias no séc. XVII. Nem tem a ver com a afirmação de pessoas que peremptoriamente declaram nela não “acreditar”, como se ela fosse uma religião, ainda que dela nada conheçam. A Astrologia, uma carta astral, nesta perspectiva, por exemplo, se parece com um hemograma. Não “acreditamos” num hemograma.  Apenas sabemos lê-lo ou não. E mesmo sabendo lê-los, os hemogramas, quantos erros não se cometem na interpretação de seus dados?

OS  DEZ  ASTROS 
A Astrologia nos revela, desde sempre, que os planetas que circulam, juntamente com os luminares (Sol e Lua), em volta da Terra, no zodíaco das doze constelações, influenciam,  além da humana, a vida do nosso planeta, nos seus três reinos, mineral, vegetal e animal. Os dez astros que atuam no círculo zodiacal das constelações, dependendo de seu relacionamento, formando o que chamamos de aspectos, envolvem continuamente a Terra com uma rede de energias que a tudo atinge, como está acima, principalmente quando pensamos no mundo natural no qual o homem vive, afetando sobremodo o seu comportamento. A recente descoberta dos planetas que estão além de Saturno, Urano, Netuno e Plutão (estes três invisíveis a olho nu), possibilitou ao homem não só ir além do sistema solar (Saturno era o limite) como lhe abriu o intelecto para um outro entendimento, quanto à sua psique coletiva e ao seu desenvolvimento bio-cultural.

TELESCÓPIO  HOLANDÊS DE ALTHOUGH LIPPERSTREY, 1624

Graças ao telescópio, no final do século XVIII, e outros inventos, o homem ampliou a sua visão e compreensão do universo, passando a entendê-lo melhor, com outras informações. A trajetória zodiacal de Saturno é de 28 anos. A de Urano, palavra grega que significa céu, é de cerca de 84 anos, permanecendo, em média, entre 7 e 8 anos em cada uma das constelações (signos). Logo que descoberto,
em 1.781, Urano, por suas características astronômicas foi estudado de vários modos pela ciência. Quanto à Astrologia, como ocorreu com outros planetas, anteriormente, que já haviam sido estudados desde a antiguidade, os astrólogos, dentre os quatro elementos (fogo, terra, ar e água) que atuam no universo, indicaram o elemento a que ele pertencia (ar) e os efeitos que produzia no comportamento humano, ao transitar por esta ou aquela constelação (signo astrológico); foram definidos, segundo a analogia, os princípios gerais que ele representava, as suas influência quanto à tipologia física, ao caráter, à psicologia, à psicopatologia, aos problemas físicos (patologias), às predisposições sociais etc. das pessoas por ele  mais ou menos sensibilizadas, conforme a matéria astrológica ensinava.


OS  QUATRO  ELEMENTOS

Algumas analogias, a partir de certos números que podemos estabelecer entre o homem e a vida cósmica, permitir-nos-ão certamente entender melhor o que aqui se expõe. O Sol, ao transitar lá nas suas alturas pelo zodíaco das constelações, leva 25.920 anos. O homem, por seu turno, respira por minuto, em média, 18 vezes por minuto. Por dia, em planos diferentes, evidentemente, temos também o mesmo número (18x60x24), 25.920 vezes. O Sol, com esse cálculo, leva 72 anos para andar um grau. Se multiplicarmos 72 pelos 360º do círculo zodiacal, teremos o mesmo número, 25.920. 72 bpm é, ao que nos parece, um número médio bastante aceitável para o ciclo de expansão e relaxamento das nossas artérias, para se atestar a nossa saúde cardíaca. Coincidência? Na Astrologia, o signo de Aquário tem estreita relação com o nosso sistema arterial enquanto o signo que lhe é oposto, o de Leão, é “governado” pelo coração, analogicamente o Sol, que energiza todo o sistema solar. As artérias, como se sabe, têm a finalidade de transportar sangue (energia) do coração para o resto do corpo. Comuns, por exemplo, os casos de muitos aquarianos que tendo certas dissonâncias (patologias) aquarianas, sob o ponto de vista astrológico, tenham os pés e/ou as mãos frias.

VITRAL  DE  CHARTRES
Cada era cósmica, segundo a Astrologia, tem a duração de 2.160 anos. A era de Peixes, na qual nos encontramos nos seus graus finais,  começou em 498 dC e terminará em 2.658 (2.160 + 498), quando o Sol ingressar matematicamente no signo de Aquário. Começará então realmente a famosa era de Aquário. Alguns dos temas desta futura era já vêm sendo “sentidos” desde o século XVIII nos
AQUÁRIO
( S.DALI, 1904 - 1989 )
vários campos da atividade humana, na ciência, na política, nas artes plásticas, na música, na literatura etc. No passado, séc. XVIII, o fenômeno da atividade dos salões foi um deles. Na política, as lutas de independência de várias colônias foi outro. Hoje, na ciência, temos, ainda exemplificando, o tema da inteligência artificial. No filosófico-religioso, o fim da filosofia e o trans-humanismo e o fim de Deus e das religiões (profecia de Nietzsche), estas oferecendo uma grande resistência, diante dos altíssimos lucros que obtêm. 

Quando Urano se destaca num tema astral por posição e aspectos, como logo se constatou desde a sua descoberta, inclusive por exemplos colhidos retroativamente, seu dono procura de um modo geral se voltar invariavelmente para a exploração de valores mais elevados, se rebelar com relação ao que é  tradicional, seja individualmente (arquétipo da hiper-individualização) ou através de associações,  de uma vida comunitária, grupal, que procura o bem-estar de todos. A procura da separação das origens costumava ser sempre enfatizada. Prevalecendo a tendência ao individualismo, sempre presente a ideia de “não ser como os outros”, que pode se expressar pela revolta, pela excentricidade, por riscos de desmedida ou pelo impulso de se criar algo diferente, inusitado. A inflação do eu pode ser de difícil contenção, sendo comuns, quando aspectos de
HIPÓFISE
Urano atingem principalmente o ascendente (corpo físico) e seu planeta regente, ou o Sol, espasmos, convulsões, movimentos físicos involuntários etc. Urano, no corpo humano, tem muito a ver com a hipófise ou a pituitária, a “glândula cibernética”, ligada ao controle de nossa vida hormonal (de hormao, em grego, excitar).

Fazem parte tradicionalmente da galeria dos aquarianos, uranianos de algum modo, portanto, pelo nascimento (trânsito do Sol pelo signo) ou pelo ascendente,  signo (Aquário) para o qual a Terra se voltava quando do seu nascimento: Darwin, Augusto Comte, Jung, Karl Marx, Byron, Schubert, Charles Dickens, Thomas Edison, Stendhal, Montesquieu, Galileu, Voltaire, James Joyce, Robespierre, Lewis Carrol, Antônio Carlos Jobim, Júlio Verne, H.G.Wells, Strindberg, Degas, Simone Weil,  Fernand Léger, Picard, Brecht, James Dean, Mozart, Manet, Virginia Wolf, Radamés Gnattali e muitos, muitos outros.

URANO
Urano, astrologicamente, foi associado ao signo de Aquário, tornando-se o seu regente (signo e planeta operam com energias muito semelhantes). Aquário, nas suas melhores expressões, é um signo que se relaciona com amizades, altruísmo, idealismo, uniões com interesses especiais, de ideias comunitárias, tendências prometeicas etc. Os participantes da revolução francesa de 1.789, deflagrada com a intenção de ser a Revolução das Revoluções, simplesmente não "deu". Na eterna alternância dos contrários, foi preciso que Napoleão viesse para dar uma "fechada" naquilo que a Revolução de 1789 abrira. Lembre-se que para marcar o evento  os revolucionários de 1789 cunharam a expressão Liberdade, Fraternidade e Igualdade, lema de forte inspiração aquariana. Só no ano de 2.672, entretanto, a humanidade entrará realmente na famosa Era de Aquário, embora já venhamos sentindo alguns de seus efeitos desde o séc. XVIII, quando Urano foi descoberto, ao transitar pelo signo de Gêmeos.

Urano é extremamente ambíguo: confunde os sexos (GLST), mas sabemos cada vez menos quanto ao que é masculino e feminino. Dentro em breve, a ciência dará certamente um jeito: homens gerarão (darão à luz) e as mulheres fecundarão. O mundo aquariano nos permite obter uma quantidade cada vez maior de informações, mas talvez nunca tenhamos nos deparado com tanta falta de conhecimento e  muito menos de sabedoria como hoje, estes dois a serem construídos por nós a partir daquelas. A velocidade e o alcance da nossa comunicação é espantosa, enorme, mas a solidão e a depressão aumentam cada vez mais. Enquanto isso, orgulhosamente, a ciência aquariana vai nos dando condições de visitar todo o sistema solar, de colonizar alguns planetas e de explorar a nossa galáxia.  

Uma síntese uraniana (seu campo semântico) pode ser assim apresentada: Urano é essencialmente um planeta variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, comunitário, excitante, maníaco (no sentido da mania grega), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista, utópico, original inédito e estéril.

No século XVIII, a verdade das religiões, tida como revelada, começou, por inspiração uraniana, a ser substituída por propostas filosóficas pragmáticas. A atitude, diante do mundo, começou ser inspirada pela empiria. Mesmo que, com todas as suas tentativas, seus tâtonnements, como diziam os franceses, o conhecimento deveria derivar agora da experiência humana e não da revelação divina. O critério da verdade passou a ser dominado pelo sucesso das ações. Só seria verdadeiro o que desse resultados positivos. Mesmo uma religião só seria considerada “verdadeira” se ela se mostrasse moralmente benéfica, útil. A classe social ascendente, a burguesia, sentia grande necessidade de luzes, de informações, para melhor tomar consciência de si mesma e do papel que deveria representar nos novos tempos.

VOLTAIRE
Voltaire, da Inglaterra, exportava para a Europa continental Newton, Bacon, Hume e Locke. Nas suas Les Lettres Philosophiques (1738) ele discorria amplamente sobre a vida inglesa e fazia, ao mesmo tempo, uma crítica pesada aos valores franceses. Por essa época, ele publica Les Eléments Philosophiques de Newton,
HELVETIUS
uma vulgarização muito bem feita dos princípios da ciência newtoniana. Na França, pela ação de Rousseau, dos 
enciclopedistas, abriam-se grandes fendas nas estruturas até então dominadas pelo clero e pela nobreza. O espírito crítico, o racionalismo e teses materialistas (Helvetius) passam a exercer uma poderosa influência contra a autoridade da Igreja Católica, afetando todo o pensamento filosófico então dominante.

Até o século XVIII, a literatura, em que pesem as exceções de sempre, não passava, no seu todo, de uma espécie de cerimônia de reconhecimento entre o escritor e seu público, uma afirmação de que ambos pertenciam ao mesmo e conhecido universo. Uma afirmação de reconhecimento de que ambos, apesar de ocasionais discordâncias por parte do escritor, pertenciam a uma sociedade modelar, a ambos familiar, e que, por isso, deveria ser respeitada quanto aos seus valores. Neste sentido, no plano das ideias, nada de se descobrirem coisas novas. Ficava o escritor, apesar de alguns deslizes e escapadas, como se disse, restrito ao que era conhecido do sistema dominante por ele e pelos leitores.

Desde início do século XVIII, principalmente, o escritor se sentia tomado por uma nova missão, a de iluminar e de reivindicar com as suas obras o direito de propor uma ação anti-histórica. Começava a ser efetivamente desmontada aquela impressão de estabilidade inabalável que o século XVII, dominado pelo cristianismo, pela monarquia e pelo classicismo, deixara. O século XVIII elegeu o movimento como o tema central de suas motivações para que uma nova ordem política e social fosse instalada. Esse movimento vinha sendo produzido desde o século anterior por uma fermentação de novas ideias que acabariam por fazer eclodir a revolução nos últimos anos deste século.  Lembre-se, embora só descoberto em 1.781, que as influências inovadoras uranianas já vinham sendo “sentidas”, provocando algumas mudanças desde o séc. XVII.

DUCHESSE DU MAINE
(A.S. BELLE, 1674-1734
Na França, o homem de letras assumiu um papel extremamente militante no bojo desse movimento. Esse papel fez com que a Corte deixasse de ser o centro do país e o foco gerador de opiniões no domínio das ideias, do pensamento filosófico e artístico. Outro fator que contribuiu muito para a aceleração desse movimento foi o da criação dos chamados salões, cafés e clubes, centros de muitas reuniões e discussões. Destaque especial quanto aos salões deve ser dado às mulheres da aristocracia que fundaram importantes polos
CHÂTEAU DE SCEAUX
irradiadores de inovadoras propostas culturais, apesar do caráter mundano de alguns deles. Dentre esses salões, de duração variável, mas sempre de agitação muito marcante, citamos os da duquesa do Maine, no castelo de Sceaux, que começou a funcionar já no início do séc. XVIII; o de Madame de Tencis, o de Madame de Lambert, o de Madame de Deffand, o de Madame de Geoffrin e o de Madame de Espinasse, dentre outros.


O papel do homem de letras, através de uma ação concreta, é agora o de iluminar as mentes e incendiar os corações tanto de aristocratas quanto de burgueses. Para isso era preciso combater as ideias dos primeiros e fazer com que os outros, os burgueses, esquecessem as suas humilhações, prevenções, desconfianças e temores diante da outra classe. Não mais confundir o presente com o eterno, como queria a Igreja. Combater a espiritualidade cristalizada, refundi-la no sentido de torná-la algo vivo, em permanente movimento e que não se prestasse mais a se confundir com qualquer ideologia.

Reuniam-se nos salões, à época, ratés ou não, escritores, poetas, filósofos, divulgadores de ideias, o que havia, enfim, de mais significativo em termos de cultura, ao lado de aristocratas, mondains e demi-mondains de toda a espécie. Frequentá-los e participar das discussões acabou por tornar esses salões indispensáveis para se conhecer, no detalhe, não só a cultura do tempo, mas, sobretudo, a nova literatura que então se produzia. As reuniões eram presididas normalmente por mulheres que se distinguiam não só por seu espírito livre, por sua capacidade mental, por seu gosto e pela habilidade e tato que demonstravam ao desempenhar tal função. Embora se discutissem assuntos diversos, à designação de Salões costumava juntar-se o qualificativo de literários. Um aspecto interessante que nesses Salões se desenvolveu bastante, a par da apresentação de textos, foi o hábito da conversação, da causerie sobre choses de l’esprit, um hábito que acabou por se integrar também à vida social dos franceses, de uma elite que pouco frequentava os Salões. 

O   MUNDANO
É de se lembrar a propósito de tudo o que está acima que, em 1.736, Voltaire publicou um poema filosófico intitulado Le Mondain em que satirizava valores cristãos e elogiava uma vida de prazeres vivida em sociedade. "Viver no Jardim do Paraíso" seria viver num estado de barbárie. Le Paradis terrestre est où je suis (O Paraíso terrestre é onde eu estou), concluía Voltaire. A publicação de Le Mondain levou-o a se envolver num escandaloso debate público com escritores que defendiam o sistema político-religioso vigente. Ameaçado de prisão, refugiou-se em Bruxelas, na Bélgica.


SALÃO  DO  HÔTEL  DE  RAMBOUILLET

A influência das reuniões que se realizaram em Rambouillet, sobre o gosto e a língua franceses, vinha desde então, o que deu a este "Hôtel" um lugar muito importante na história da literatura francesa. O "Hôtel", um grande palácio, servia de residência parisiense a Catherine de Vivonne, Marquesa de Rambouillet, de quem saiu o nome do "Hôtel", conhecido noutros tempos como Hôtel de Pisani. O Rambouillet ficava localizado nas proximidades do Palácio do Louvre, onde atualmente se ergue o Palais Royal.


CATHERINE  DE  VIVONNE - PISANI

A influência de Rambouillet pode ser traçada desde o início do séc. XVII, mais exatamente desde 1608, quando um grupo lá se reuniu para discutir literatura. A influência deste Salão pode ser constada até mais ou menos 1.660. O nome explica-se deste modo: pelo seu casamento com Charles d’Angennes, vidame (funcionário que substituía os senhores eclesiásticos em funções jurídicas ou militares) de Mans, depois marquês de Rambouillet pela morte seu pai, Catherine Vivonne-Pisani passou a ocupar a propriedade. Desde 1.608, por sua iniciativa, ela começou a receber um grupo da sociedade da época, iniciando-se assim as famosas reuniões desse "Hôtel", que foram ganhando uma expressão cada vez maior. Catherine, a bela marquesa, juntava às qualidades de sua afabilidade e de sua habilidade na administração do palácio (assumiu inclusive, como arquiteta, a responsabilidade pelas reformas no interior e no exterior do imóvel) superiores qualidades intelectuais por todos reconhecidas.

Durante o reinado de Luís XIII (1.610-1.643) teve também um certo destaque, embora não muito justificável o exagero, o Salão mantido por Madame Des Loges, chamada por seus admiradores de "a décima musa". Diziam mais esses admiradores que todas as musas pareciam viver no seu palácio sob sua proteção, prestando-lhe sempre as maiores homenagens. Porém, o que ficou realmente do séc. XVII foi o esplendor de Rambouillet, que uns poucos Salões, ainda que dignos de registro, procuraram imitar, mas jamais atingindo o seu éclat (brilho).

DUCHESSE  DU  MAINE
Só no séc. XVIII, porém, o movimento dos Salões ganharia um grande impulso com suas reuniões semanais realizadas aos sábados (salão da duquesa Du Maine) ou às terças-feiras (o da marquesa de Lambert). Muitos desses Salões, entretanto, apesar do esforço de seus patrocinadores para orientá-los na direção da cultura, das discussões literárias sobretudo e ainda que frequentados por gent d’esprit, ficaram conhecidos como “templos da galanteria e de graciosas frivolidades”.

MME  DE  LAMBERT
( NICOLAS LARGELY)
O Salão de Mme de Lambert, que funcionou entre 1.710 e 1.733, destacou-se dentre todos, porém, por ter, segundo Fontenelle, afastado de suas reuniões a “moléstia epidêmica do jogo” e por ter sido o único em que era possível participar, com espírito, de discussões culturais mais sérias, das quais participavam inclusive alguns religiosos. Há registros de que no Salão de Mme. de Lambert foram discutidos, antes de chegar ao público letrado, questões como a da “superioridade da cultura moderna sobre a antiga”, a da “inutilidade dos versos para a poesia”, “o absurdo das personificações mitológicas”, “o absurdo da manutenção de regras literárias apenas em razão de sua antiguidade” etc. Voltaire, por exemplo, foi, como frequentador destes Salões, um grande incentivador de Mme. Du Deffand para que ela, com destemor, continuasse a se manter firme na organização de suas reuniões.


BARÃO D'HOLBAC
( A.ROSLIN, 1718 - 793 )
Impossível esquecer, ao se discorrer sobre esse típico fenômeno aquariano do séc. XVIII dos Salões, o do barão d’Holbac, le premier maître d’hôtel de la philosophie. Há documentação abundante sobre ele; numa de suas reuniões, estavam presentes, dentre ouras figuras da época, Diderot, d’Alembert, Helvétius, o abade Galliant. Em tal reunião, segundo Rousseau, teria nascido a Enciclopédia. Este "Hôtel" era chamado pelo autor de Rêverie d’un pomeneur solitaire de club hollbachique.

STAËL  & B.CONSTANT
Com a revolução de 1.789 as reuniões deixaram de ser realizadas. Quando as agitações políticas terminaram, a vida pode renascer, reiniciando-se as reuniões. Um dos primeiros a funcionar foi o de Mme. de Staël & Benjamin Constant. Os tempos, porém, eram outros, perdera-se o ímpeto do século XVIII, embora alguns permanecessem ativos no novo século. Explicações? A política, a solicitação dos negócios e a crescente agitação no mundo do dinheiro acabaram com a disponibilidade para as coisas do espírito e enfraqueceram o gosto artístico. Acima de tudo, começou a faltar tempo para a delicatesse das supremas artes francesas, as da causerie e da conversation. Outras energias, na permanente troca que se dá entre elas e o céu (zodíaco das constelações e astros), estavam atuando, mudando a vida no nosso planeta.   

À Mara e ao Edson - São Paulo, outubro de 2.019   

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

DRAGÕES E SERPENTES NO MITO, NA ASTROLOGIA E NA ASTRONOMIA

PLANETAS
Em 1930, a União Astronômica Internacional  estabeleceu que no céu havia 88 constelações, distribuídas como  boreais (norte celeste), austrais (sul celeste) e zodiacais, que envolvem a Terra, por onde circulam, do ponto de vista terrestre, o Sol, a Lua e oito planetas: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão, estes três últimos invisíveis a olho nu. Os nomes destas constelações foram fixados na língua latina embora a maioria deles provenha da língua grega, da mitologia grega principalmente. Na antiguidade eram conhecidas, entre os três grupos acima mencionados, apenas 48 constelações, número definido por Ptolomeu no Almagesto. Hoje, esse número se expandiu para mais de cem.

LOS LIBROS DEL SABER
Historicamente, é de se recordar que só em 1252, na Europa, em Toledo, na Espanha, os estudiosos do céu voltariam a fazer uma nova e mais consequente avaliação do que gregos, latinos e outros povos haviam deixado. Esse trabalho tomou o nome de Los Libros Del Saber de Astronomia, as celebres Tábuas Afonsinas, compiladas pelos astrônomos árabes, sob o patronato do futuro rei Alfonso X, o Sábio, 1221 - 1284, dedicado astrônomo. De Alfonso, falavam os seus súditos,
CANTIGAS  DE  SANTA  MARIA
carinhosamente diga-se, que ele abandonava muitas vezes a coroa pelo astrolábio, esquecendo seus deveres terrestres pela sua paixão pelas coisas celestes. Vale informar também que Alfonso ficou também muito conhecido por sua atividade literária, sendo considerado, se não como o autor das 427 famosas Cantigas de Santa Maria, o poeta que compôs muitas delas. 

AL SUWAR
Aos agrupamentos de astros que formavam as constelações os gregos deram genericamente o nome de Morphoseis (semelhantes, parecidas) ou Schemata (figuras). Os latinos chamaram tais agrupamentos estelares de constellatio, constelações, dando-se o nome de Zodia àquelas que lembravam a forma animal. Em 1515, numa edição do Almagesto, apareceu o nome Stellatio para designá-las enquanto no mundo árabe já circulava, há muito, para o mesmo fim, o nome Al Suwar.

Foram os antigos gregos que, no ocidente, começaram a utilizar os nomes de figuras de animais para designar, principalmente, os agrupamentos estelares. Vindos do mito, dragões e serpentes ocuparam um lugar especial quanto a essa designação. Nomeando figuras formadas a partir de agrupamentos de estrelas, “sensibilizando” pontos do círculo zodiacal, atuando em certas áreas (quadrantes) ou isoladamente através de uma estrela fixa, dragões e serpentes marcaram fortemente desde então sua presença na Astrologia. Presentes em todas as tradições, esses estranhos seres, considerados como produzidos pela imaginação dos homens, costumam significar nos mapas astrais em que aparecem muito mal-estar, sofrimento e angústia.


QUATZACÓATL
A figura do dragão parte, no geral, de um modelo clássico, o da serpente, transformada ao receber pernas e componentes típicos dos répteis, como os dos crocodilos; ou receber também das aves asas, como no caso da serpente emplumada dos toltecas ou olmecas, o quatzacóatl (serpente, em língua nahuati); ao incorporar ainda dos animais marinhos barbatanas, escamas, caudas bífidas etc. A imagem desses monstros se completa muitas vezes pelo acréscimo de víboras, pequenas serpentes venenosas ao seu corpo escamoso, à guisa de pelos. 

HÉRCULES  E  CÉRBERO
Os dragões, quanto à forma, podem ser policéfalos, polioftalmos, polimorfos, polípodes etc. Vomitam fogo, sua baba é venenosa, seu sangue mata, mas, em alguns casos, é possível fabricar do corpo do dragão ou de suas secreções remédios e antídotos (contravenenos) maravilhosos. É, por exemplo, o caso de Cérbero, o cão infernal tricéfalo da mitologia grega, de cuja baba, quando esta atinge o solo, nasce o acônito. Versão mais completa sobre a origem desta planta nos informa que tal aconteceu quando Cérbero, vencido e trazido à luz por Hércules (10º trabalho), foi atingido por raios solares.  Contorcendo-se, o monstro vomitou uma baba escura e no lugar em que ela tocou a terra, brotou imediatamente um pé de acônito. Esta planta, como se descobriu posteriormente, já vicejava no Hades, no Tártaro, região infernal mais profunda, nos jardins lá mantidos pela deusa Hécate. Cérbero, como bem sabem os bons astrólogos, pode “aparecer” numa carta astral no lugar onde está posicionado Plutão.

ACÔNITO
O acônito, planta muito tóxica era utilizado na Grécia antiga em alguns rituais de magia negra. Na Europa, desde a antiguidade, o acônito era usado para afastar vampiros e curar a licantropia. Segundo a tradição, quem absorvia acônito podia morrer. Porém, aquele que estivesse envenenado e o absorvesse podia curar-se. Quando usado em doses homeopáticas o acônito costuma trazer muitos benefícios. É neste caso indicado para tratamento da ansiedade, de crises de pânico, tanatofobia, acrofobia, claustrofobia, necrofobia e descontroles físico-mentais em geral.

Em todas as tradições, qualquer que seja a sua forma, dragões serão sempre, num primeiro momento, um símbolo do Mal. Para efeitos práticos, serão dracônticos todos os seres que atuem nessa direção.  É neste sentido que os mitos relacionados com dragões, serpentes, gigantes e demônios nos revelam que quando esse seres atuam estamos sempre em perigo, sempre diante de situações ameaçadoras, que podem nos levar à morte.  

MONSTROS
Monstros, como sabemos, são seres disformes, fantásticos, tidos como produzidos pela imaginação, pela fantasia (phantasia, em grego, é imaginação) do homem. Monstro etimologicamente, quer dizer prodígio da natureza. Prodígio é palavra aplicada a seres que são aberrações, desvios, distorções, com relação ao que é natural, normal. Os monstros nos causam espanto, são descomunais. Estão presentes nos mitos, nas religiões, nas lendas e em muitas histórias da literatura universal.

MONSTROS
De um modo geral, eles têm relação com as cosmogonias, com a vida primordial e sua origem, sendo seu ambiente natural o das forças primitivas em ação no universo, forças que, embora consideradas como potencialidades formais, resistem tenazmente  a qualquer ordenação que se lhes queira dar. Nesse sentido, os monstros  aparecem sempre ligados ao caótico, ao desordenado, ao indiferenciado, ao que não tem limite ou lei. É por essa razão que os mitos e depois a psicologia fizeram deles símbolos da predominância, no ser humano, de forças instintivas ou irracionais, forças que devem ser sacrificadas em nome de uma vida superior, organizada, orientada racionalmente. Os monstros são assim avessos à ideia de cosmos, de ordem, de harmonia.

SÃO MIGUEL ARCANJO
Enquanto as serpentes, no seu modelo clássico, participam da terra e da água, os dragões se relacionam com os quatro elementos, fogo, terra, ar e água, com ênfase maior quanto ao primeiro. No cristianismo, por exemplo, a luta de São Jorge ou de São Miguel contra dragões é mais uma vitória do fogo espiritual sobre o fogo a serviço da matéria. 


Em muitas culturas, o estudo das forças do Mal, nas suas várias expressões, inclusive sob o ponto de vista histórico, é designado pelo nome de Demonologia. É nestes textos que são estudadas inclusive todas as metamorfoses pelas quais as entidades do Mal passaram e passarão continuamente para intervir não só no destino pessoal de cada ser humano como no das sociedades humanas em geral. À Demonologia aqui referida  podemos associá-la a um outro  conhecimento muito importante, a Criptozoologia, o estudo de espécies de animais lendários, hipotéticos ou simplesmente avistados, extintos ou desconhecidos, e sua relação com mitos de várias culturas.

AS  TRÊS  GÓRGONAS
( GUSTAVE KLIMT, 1862 - 1918 )
Uma característica notável que muitos dragões apresentam no mito é a da ambiguidade, podendo, neste caso, quando controlados ou vencidos, produzir o Bem. Um dos exemplos mais significativos do que aqui se fala é o da Medusa, conhecida como uma Górgona, juntamente com as suas duas outras irmãs, Ésteno e Euríale. Das três, a mais perigosa realmente era a Medusa, monstro feminino, com a cabeça enrolada por serpentes, de olhar terrível, que petrificava as pessoas com as quais trocasse olhares. O herói Perseu, quando cortou a cabeça desse monstro, avisado por deuses que o haviam aconselhado, recolheu o sangue que jorrava pelo lado direito do seu pescoço, que tinha a propriedade de curar doenças e mesmo em alguns casos de ressuscitar os mortos. O sangue do lado esquerdo, porém, era veneno mortal. 


NIX  ( PEDRO  AMÉRICO , 1843 - 1905 )
MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES, RJ 
Essa característica, aliás, a da ambiguidade, não estava presente no mito só com relação a alguns monstros. Muitas divindades que não podem ser classificadas como monstruosas, dracônticas, a possuíam, como, por exemplo, constatamos na história de Nix, a Noite, divindade primordial nascida do Caos. Nix, a Noite, entre os antigos gregos, sempre teve algum controle sobre doenças, sofrimentos, pesadelos, angústias, sonhos, infelicidades, disputas, guerras, assassinatos e morte. Tudo o que era inexplicável e temível para o ser humano podia, em muitos casos, vir dela de algum modo. Na Grécia antiga, as confrarias órficas foram na direção contrária deste entendimento, honrando-a de várias maneiras, santificando-a, porque, para elas, Nix trazia a bênção dos deuses. Símbolo de todas as germinações, de todas as gestações, Nix alimentava os luminares do céu e tudo o que a Terra produzia. O seu simbolismo tinha correspondências com a obscuridade, com o negro, com a ignorância, com o inconsciente e, por essa razão, com todas as possibilidades da existência, inclusive as de renascimento. Quando honrada devidamente, Nix tomava o nome de Eufrone, a mãe do bom conselho.
POSEIDON
Um dos maiores geradores de monstros na mitologia grega é Poseidon, deus do elemento líquido, dos mares e oceanos, Netuno entre os povos latinos, inclusive na Astrologia. Na forma de cavalo, Poseidon tomou o nome de Hippios, nome que pode ser associado à velocidade das ondas e à sua crista, como a de cavalos, quando do seu tropel marinho. Nos mitos, branco e alado, é um símbolo de espiritualidade, de autodomínio, da pessoa que sabe se dominar, se controlar. Negro, ele aparece ligado à Lua e à água, encarnando as forças descontroladas do psiquismo humano. 

BESTIÁRIO
Associado à luxúria nos Bestiários da Idade Média, o cavalo há muito já era considerado também um símbolo universal da energia psíquica colocada a serviço das paixões humanas. Todas as características e ligações de Poseidon com monstros simbolizam forças irracionais, algo tenebroso, abissal. Na Astrologia, é o planeta Netuno, princípio da receptividade passiva, manifestando-se por faculdades supranormais. Nos tipos superiores, é inspiração, intuição, amor universal, sacrifício desinteressado, espiritualidade. Nos tipos inferiores, é anulação da vontade, desorganização, caos. 

PERSEU E ANDRÔMEDA
( CHARLES - ANDRÉ  VAN  LOO, C.1740 )


Dentre outras possibilidades significativas, Poseidon (Netuno) é visto como o criador de paraísos artificiais e de ilhas, como a Atlântida. Pai de gigantes, cíclopes, salteadores e caçadores malditos, a prole de Poseidon é sempre sinônimo de desproporção, de descontrole, de malefícios. Um dos melhores exemplos que podemos mencionar com relação a Poseidon é o do monstro marinho que ele enviou para destruir o reino de Cefeu por causa da hybris (orgulho, soberba) de sua mulher, a rainha Cassiopeia,  que se considerava mais bela que todas as nereidas e que a própria deusa Hera, esposa de Zeus. 

Lembremos que não só através de divindades tidas como naturalmente benéficas, como Afrodite e Zeus, Vênus e Júpiter respectivamente na Astrologia, pode se “esconder” muito mal. Uma mulher, ainda exemplificando, pode viver astrologicamente a Vênus de seu mapa através de arquétipos representados pelas Sereias, pelas Ondinas ou pelas Melusinas (genericamente de todas as ninfas ligadas aos mares e aos oceanos, se quisermos), sempre belíssimas,  temíveis sedutoras que costumam levar muitos homens do mar à perdição e mesmo à morte. A  etimologia grega de seirazein, de onde sai a palavra sereia, quer dizer “prender com uma corda”.


JOGO  DAS  SEREIAS  ( ARNOLD  BÖCKLIN , 1886 - 1901 )

Afrodite tem vários nomes, apelidos, gerados pelos diversos papéis que pode representar, Calipígea, Trívia, Urânia, Pandêmia, Androfona, Citereia, Cípris etc. Toda pessoa que se envolve num processo afetivo de trocas, a deusa a transforma num ser especial, quase “divino”. Quando Afrodite se apossa da personalidade de uma mulher, ela costuma se abrir para o mundo, para os outros,
PALAS  ATHENA
( GUSTAV  KLIMT , 1862 - 1918 )
socializando-se, podendo inclusive aumentar bastante o seu magnetismo pessoal, chamado pelos gregos de enkrateia. Quando por razões sociais, culturais e religiosas a mulher é rebaixada, Afrodite se “ausenta”. O arquétipo pode pôr uma mulher, dependendo do meio, em divergência com os padrões de moralidade
vigentes. Por isso, as mulheres-Afrodite podem ser marginalizadas, satanizadas, consideradas como perigosas, quando não como raptoras do masculino, como no caso das Sereias. Em Atenas, lembre-se, onde Palas Athena, deusa virgem, guerreira, inspiradora dos trabalhos úteis e guia de heróis  pontificava, Afrodite era conhecida como a “oriental”, a “prostituta”.
ASCLÉPIO
As serpentes, desde tempos muito remotos, sempre apareceram associadas à vida e a  transformações porque elas têm a propriedade de mudar de pele, o que levou os antigos a considerá-las como capazes de recuperar a juventude. Por essa razão a serpente foi usada como um dos símbolos do deus Asclépio, que pontificava no santuário de Epidauro. Filho de Apolo, deus solar, educado pelo centauro Kiron, Asclépio “vivia” no Tholos, um edifício de seu complexo médico em Epidauro, em companhia de uma serpente sempre enrolada num bastão, que não só possuía o poder da adivinhação, por ter acesso ao mundo  ctônico, como por simbolizar também, como se disse, a vida que se regenerava continuamente. Não podemos esquecer que Asclépio era também conhecido pelo apelido de deus-toupeira, por fazer com que seus sacerdotes-médicos “penetrassem” na escuridão do psiquismo dos doentes, usando a  oniromancia (interpretação dos sonhos), juntamente com a chamada nooterapia (cura pela mente) técnica que levava à metanoia, à transformação dos sentimentos. A toupeira, como se sabe, é um animal ctônico, adaptado para ver na escuridão. Vive no interior da terra, movimentando-se em pequenos túneis e galerias,verdadeiros labirintos. 

ILUMINURA  MEDIEVAL
Na tradição alquímica, por exemplo, o dragão é Saturno, o adversário da luz, do espírito, do ouro, enquanto representa o chumbo. Como princípio da contração, da condensação, da inércia, força que tende sempre a cristalizar, impedindo irradiações, Saturno prende sempre à forma, impedindo mudanças. O chumbo, seu metal, governa a base mais modesta, mais inferior, de onde se pode partir em busca de alguma evolução, sempre muito difícil. Saturno se liga à falta de luz, é denso, pesado, governa a lei da gravidade e tudo o que limita e cerceia.

MONSTRO MARINHO
Dragões golpeiam, serpentes enlaçam e engolem. São diferentes dos animais de chifre que penetram e perfuram. Enquanto os dragões se ligam mais às quatro direções do espaço e aos quatro elementos, a serpente, por sua forma, liga-se mais ao movimento circular, participando de uma reabsorção cíclica, de
URÓBORO
uma ideia de eterno retorno. É neste sentido que em alguma tradições a serpente recebe o nome de
uróboro (do grego, cauda e engolir). É neste sentido que a serpente rompe o movimento linear, lembrando uma criação contínua, um perpétuo retorno. Daí ideias de continuidade e de auto-fecundação, cujo melhor exemplo encontramos no círculo zodiacal. Além do mais é preciso observar, ainda simbolicamente, que serpentes atuam mais no mundo subterrâneo, na vida subconsciente; dragões agem mais na superfície, atacando o ego que se pretende consciente.

Etimologicamente, a palavra dragão (drakon, o macho, e drakaina, a fêmea, em grego, vem do verbo derkomai, que significa “olhar fixamente”, no sentido de um olhar devolvido, muito penetrante. Os judeus lhe deram o nome de tannin, grande serpente, palavra cuja origem está ligada ao chacal (tan), animal necrófago. 

ZEUS   E   TIFON     
O dragão, nos mitos, costuma ter a sua origem estabelecida em períodos em que a ordem cósmica ainda não se fixara, períodos nos quais ele assumia o comando das forças regressivas que se opunham às que procuravam atuar evolutivamente. Nesta perspectiva, o dragão é um agente do caos. Na antiga Grécia, as forças que se 
TIAMAT
opunham à ordem cósmica tinham um representante máximo, o monstro Tifon, filho de Geia e do Tártaro. Os caldeus viram estas forças simbolizadas por Tiamat, personificação feminina do mar. É contra estas primitivas forças cegas do caos que os deuses inteligentes e organizadores devem sempre entrar em luta.

Os dragões encarnam o mal que deuses, heróis ou mesmo os seres humanos têm que vencer quando tentam buscar um caminho evolutivo. Se o dragão aparece associado ao seco, à esterilidade, o tesouro por ele guardado será então a fertilidade, representada pelo úmido, por um princípio feminino, uma princesa, por exemplo. Se, por outro lado, pensamos no escuro da vida subconsciente e nos monstros que ali habitam, o herói que deverá enfrentá-los será um representante da razão (elemento ar). Uma ilustração do que aqui se diz está na derrota do dragão de natureza luciferiana. Quem o derrotou foi Miguel, arcanjo que revelou a Sara que ela seria mãe de Isaac e que anunciou a Abraão que  não sacrificasse o filho na akedá. Miguel (Mikael: mi, quem, ka, como, El, por Elohim), em hebraico, aquele que é como Deus. Miguel está sentado à direita do trono divino, aparecendo associado aos arcanjos Gabriel, Rafael e Uriel, mas sendo a eles superior. Seu grande inimigo é Samael, líder dos demônios, chefe das forças do Setra Achra, o reino do Mal.


HESPÉRIDES  ( EDWARD  CALVERT , 1799 - 1883 )

Entre os gregos, a constelação do dragão, Draco, uma das mais antigas do céu, aparece unida a dois mitos. No primeiro temos a história do dragão de cem olhos que juntamente com as Hespérides guardava os pomos de ouro no maravilhoso jardim que ficava no extremo-ocidente. Outra versão nos conta que Apolo, para tomar posse do oráculo de Delfos, matou a drakaina  Python, também chamada de Delfine, que Geia gerara e designara para vigiá-lo.  Os egípcios identificavam Draco pelo nome de Ammit, monstro formado por partes de crocodilo, hipopótamo e pantera, que atuava na sua psicostasia (pesagem das almas).

DRAGÃO
(G. DORÉ , 1832 - 1883)
Os dragões, segundo a sua morfologia, indicam também as áreas da vida humana em que atuam. Assim, dragões com bico e pés de águia apontam para desejos de elevação, para um potencial celeste. Com o corpo de serpente, apontam para o mundo subterrâneo, para  a vida subconsciente. Com asas de morcego, sugerem elevação pelo intelecto; com corpo e/ou cauda de leão, se vencidos, indicam a vitória da vida racional sobre o instinto. 

A constelação de Draco, entre os gregos, tinha em tempos pré-históricos uma configuração bem maior do que a que tem hoje. Ela incorporava as duas Ursas, a Maior e a Menor. Estende-se atualmente entre as latitudes 63º e 81º N. A principal estrela de Draco é Thuban (nome adotado pelos árabes para tradução do nome grego Draco), que no ano de 2.700 aC ocupava a posição de estrela polar, o que fazia do dragão o guardião do centro em torno do qual todo o universo girava. Como circumpolar, a constelação do Draco nunca se põe, o que significa dizer que ela nunca “dorme” (se põe), como os dragões.

DRACO
Thuban (estrela alfa Draconis na astrologia ocidental) sensibiliza hoje o signo de Virgem a quase 7º. Sua influência, segundo Ptolomeu, é da natureza de Marte e de Saturno. No geral, os efeitos de Draco são considerados através dessa estrela. Sua proposta: o tema do tesouro e de sua respectiva proteção e vigilância. Pode isto significar numa carta astral a necessidade de muito zelo e cuidado com relação a algo a que a pessoa esteja ligada, uma ideia, uma habilidade, uma forma de arte, uma atividade profissional, algo inventado por ela etc. A influência de Draco (Thuban) também diz respeito ao ato de dar ou de compartilhar “tesouros”, inclusive quanto às dificuldades que desse ato possam decorrer. Nesta última hipótese, podemos ter também, por Saturno, indícios de personalidade fechada, soturna, sombria, quando não esquizoide.  

Sob pressão do cristianismo, a Idade Média fez da serpente um símbolo do Mal, do psiquismo impuro, um animal duplamente amaldiçoado. Primeiro, pelo Criador como um ser da astúcia, da tentação, do pecado, em suma. Segundo, foi também amaldiçoada pela Virgem Maria por ter assustado o burrico que usava para transportar o menino Jesus, quando da fuga para o Egito. É por essa razão que muitos astrólogos cristãos medievais representaram o sexto signo zodiacal por uma Virgem com um pé sobre a cabeça de uma serpente ou pisando um crescente lunar. 

O  PECADO  ORIGINAL
( HUGO VAN DER GOES , (1440 - 1482)
A satanização da serpente vem de longe, passando do judaísmo para o cristianismo. No primeiro, Satã, nome que significa acusador no antigo hebraico, era o maior dos antigos anjos. Recusou-se a prestar homenagem a Adão, uma criatura feita a partir do pó, enquanto ele, ainda que em bem menor proporção, como Deus, fora feito de luz. Lúcifer, etimologicamente, o que transporta a luz, ficou com ciúmes do status de Adão e desejou Eva. Na forma de uma serpente, tentou e manteve relação sexual com Eva, tornando-se o pai de Caim. Ao exilar-se do céu, tomou o nome de Satã, e levou consigo uma hoste de anjos, por ele liderados, formando o reino do Mal, Sitra Achra, que governa com Lilith, sua esposa. Quando se relacionou sexualmente com Eva, injetou sua peçonha nela e em todos os seus descendentes. Essa peçonha, segundo o Talmud, foi removida do povo de Israel quando Moisés lhe entregou os ensinamentos da Torá.

Em muitas constelações, encontramos referências a dragões e serpentes, como Ophiucus, Serpens, Cetus, além de monstros semelhantes. Nos doze trabalhos de Hércules, uma ilustração mítica do zodíaco, temos vários monstros de natureza dracôntica como as Éguas antropófagas de Diomeses, o Leão de Nemeia, a Hydra de Lerna, Cérbero , o Gigante Gerião e outros.