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sexta-feira, 13 de agosto de 2021

QUESTÕES ALQUÍMICAS : A SUBLIMATIO

        

ALQUIMISTAS

Apesar dos grandes trabalhos (Hegel, Freud, Jung, Castoriadis, Klein, enciclopédias etc.) que a abordam direta ou indiretamente, mais ou menos profundamente, a Sublimatio, do elemento ar, muito relacionada com as Artes e a Psicologia, tem as suas raízes fincadas na antiga Alquimia, como uma das suas principais operações, ao lado da Calcinação (Calcinatio-Fogo), da Coagulação (Coagulatio-Terra) e da  Dissolução (Solutio-Água)), encontrando-se na Astrologia os melhores desdobramentos práticos de todas estas operações. 


A palavra sublimar quer dizer elevar, engrandecer, exaltar, passar pelo alto, sub = parte alta, limen = porta. Passar por cima do limite, isto é, ultrapassar, essa é a ideia. A sublimação também é entendida, principalmente na psicologia (psicanálise) como uma purificação de sentimentos e instintos inferiores. Só que a sublimação alquímica é diferente da sublimação da psicanálise.  Sublimar, na Astronomia e na Química, por exemplo, é a passagem do sólido ao gasoso, sem que haja a passagem pelo elemento líquido, como acontece com os cometas, na sua caminhada em torno do Sol (periélio) e no seu máximo distanciamento dele (afélio).  Quanto ao ser humano, duas hipóteses aparecem: a) sublimação via intelectual (do instinto à razão); b) sublimação pela via afetiva (do sentimento à compaixão). A primeira se dá pela mente: a segunda, pela empatia (fusão).

Um dos grandes símbolos alquímico da sublimação é a escada (veja o texto Mutus Liber) e, por extensão, tudo o que eleva, que leva ao alto, desde anjos, asas e torres a foguetes, balões, aviões, ascensores, elevadores etc. A escada, porque  nos aponta para uma ascensão gradual, é, sem dúvida, aqui, um dos símbolos mais perfeitos. A Alquimia recomenda sempre que toda ascensão seja feita progressivamente. Os símbolos da sublimatio, lembremos, como a escada, têm analogia com o vertical, de natureza qualitativa; seu oposto é o horizontal, de natureza quantitativa. 


No plano humano, a dominante terra tende invariavelmente a se expressar horizontalmente. Seus símbolos traduzem essa tendência, sempre ideias de ocupação do espaço, de peso, de densidade, de construtividade, de segurança, de algo firme, fundamental, básico. Já a dominante ar trabalhará naturalmente com ideias de elevação, de ascensão, de transcendência. A sublimatio representa o estado gasoso, fluido, impalpável, leve, volátil, que tende sempre para a difusão, para a expansão ilimitada em espaços cada vez maiores. 

MUTUS LIBER

Fisiologicamente, o ar corresponde ao temperamento sanguíneo, marcado pela predominância do aparelho respiratório (trocas com o meio exterior). Psicologicamente, o tipo humano em que predomina o elemento ar é um expansivo, que vive da mobilidade, das trocas, dos contatos, ao qual costuma se adaptar e assimilar espontaneamente.

Participam do ar, como qualidades primitivas, o úmido e o quente, como se viu. O quente tem relação com energia, atividade, vivacidade, iniciativa, imediatismo, expansão. Pela contribuição do úmido, os sentimentos tendem a se impor ao intelecto, provocando instabilidade, impressionabilidade, caprichos, espontaneidade, versatilidade, difusão, elevação, mudança. O elemento ar, como se constata, é formado por duas qualidades primitivas que se opõem, apresentando, por isso, conceitualmente, por princípio, uma contradição assim expressa: ao mesmo tempo que receptivo, o ar  busca sempre uma expansão. É por causa dessa contradição que os tipos humanos, principalmente naqueles em que o quente predomina sobre o úmido, encontram muita dificuldade para dar forma ao que experimentam e sentem.

Nas combinações em que o quente predomina notavelmente sobre o úmido estamos sempre em presença de uma poderosa tendência expansiva das impressões recebidas. Com a predominância do quente, as percepções (úmido), por mínimas que sejam, procuram sempre uma forma expansiva, principalmente através de relacionamentos, de conexões. 

 

GÊMEOS            LIBRA               AQUÁRIO    

Na Astrologia, os signos de ar (Gêmeos, Libra e Aquário) representam as três grandes etapas dos inter-relacionamentos humanos. O primeiro é o signo dos relacionamentos informais, acidentais, causais; o segundo tem a ver com os relacionamentos íntimos, com as associações formais, legais; o terceiro se relaciona com amizades, com ideais comunitários, com companheirismo, ligações que se estabelecem por livre e espontânea vontade. Como grandes faltas ou deficiências atribuídas a esses signos temos: indecisão, adaptabilidade, dualidade, volubilidade, dispersão,  excessivo alheamento, teorização exagerada etc. Negativamente ainda, a dominante ar aponta para grandes dificuldades com os elementos terra (vida material) e água (sentimentos e emoções). 

SCHUMANN
Um exemplo interessante da dificuldade de uma dominante ar trabalhar com o elemento terra (dar ao tipo terra um pouco de chão) nós o encontramos no geminiano Robert Schumann, grande compositor alemão do séc. XIX. A vida de Schumann, como sabemos, foi dominada pela divisão, pela dualidade, desde cedo (dupla vocação: literatura-poesia e música), por pseudônimos, sósias e duplos de si mesmo que ele foi criando. Esta dualidade foi representada, sobretudo, por ele, por dois heterônimos, que, tragicamente, na vida artística, o puxaram em direções contrárias. A um, de natureza terrestre, ele deu o nome de Florestan (etimologicamente, florescente, que floresce); ao outro, de natureza celeste, ele deu o nome de Euzebios (etimologicamente, eu, bom, e sebastos, reverência, venerável, sagrado). 

AQUÁRIO
Dos três signos de ar, o mais quente é o de Aquário, o que oferece maior diversificação aos tipos humanos nos quais aparece pelo Sol, pelo Ascendente, por certas combinações do planeta regente do signo, Urano, ou por planetas na décima primeira casa. A diversificação aquariana, positivamente, tanto pode se apresentar na maneira de pensar, nos relacionamentos (associações) ou na sua capacidade mental de organizar, aperfeiçoar ou inventar. Raros e brilhantes são os aquarianos em que a sua originalidade, reforçada por relacionamentos adequados, costuma se voltar para o futuro. Quando isto acontece, temos os inventores, os que redimensionam repertórios, os que criam linguagens novas, o make it  new. Aquário está sintetizada no provérbio latino Ad augusta per angusta, a resultados sublimes por caminhos estreitos.

As melhores expressões aquarianas aparecem quando o esforço individual se integra ao social, isto é, quando o aquariano se dedica a uma causa como um servidor da humanidade, através de reformas, inovações ou revoluções. Não nos esqueçamos que o lema da revolução francesa de 1789 é de clara inspiração aquariana: liberdade, igualdade, fraternidade.

Quando o úmido prevalece sobre o quente, a disposição de se dar alguma coesão às impressões recebidas sempre aumenta. Isto se deve ao fato de o volume de impressões recebidas ser sempre muito significativo, incessante, muitas vezes; fica difícil lhes dar uma unidade, coesão, um sentido. Daí, nessa combinação, nas suas expressões mais malogradas, sempre presente a ameaça de um constante jogo de harmonizações, de um interminável balanceamento das impressões recebidas. É por essa razão que o signo de Libra, apesar de masculino, tem fortes traços femininos. 

É notória, nos exemplos que estamos expondo, a tendência que o tipo médio libriano apresenta no sentido de se inclinar alternadamente para a espontaneidade, para o receio, para o abandono, pelo recuo diante da vida, para um dar-se e um recolher-se, comportamentos que acabam por caracterizá-lo como um indeciso, um ser muitas vezes incapaz de tomar decisões.

A sentimentalidade desse libriano médio costuma tomar dois caminhos. Quando extrovertida (venusiana), temos ideias de disposição simpática, vontade de estabelecer uma rede de laços e afeições com o mundo, de dar livre curso à generosidade dos seus impulsos. Quando introvertida (saturnizada), a disposição sentimental costuma se concentrar numa única pessoa. Isto torna evidentemente o libriano muito mais frágil, inquieto, temeroso e inquieto, pelo medo de perdas afetivas, que, ocorrendo, podem precipitar verdadeiras tragédias. Neste caso, o libriano costuma se mostrar muito reservado, aparentemente tranquilo. Visto mais de perto, conhecendo-o um pouco mais profundamente, não será difícil perceber essa aparência em termos de uma sensibilidade dolorosa que encobre geralmente paixões agudas.

LAMARTINE
O que mais distingue Libra de Gêmeos é que este representa relacionamentos acidentais, de uma natureza informal, os chamados relacionamentos “ombro a ombro”, enquanto os do outro têm uma natureza mais formal, contratual. Em Libra, a união só se tornará possível se as partes compreenderem as bases da associação e concordarem voluntariamente com elas. Como isto raramente é conseguido, pois é da dinâmica da vida, o jogo equilíbrio-desequilíbrio, os librianos vivem no geral mergulhados em sofridas hesitações e indecisões. Na poesia, o mais representativo exemplo de Libra é, sem dúvida, Alphonse de Lamartine, um sentimental amoroso que sempre escreveu o que o seu coração ditava.

COCTEAU, 1916 ,MODIGLIANI

Em Gêmeos, como se sabe, há o predomínio do quente sobre o úmido, com contribuição do seco. As impressões (úmido) ganham não só dinâmica (quente) como alguma expressão concreta (seco). É isto que traz um desejo constante de variação ao tipo básico do signo. Para ilustrar o que aqui se coloca, podemos nos voltar, na literatura, dentre outras, para duas personalidades muito significativas: Jean-Paul Sartre e Jean Cocteau. 


SARTRE
Quem, por exemplo, representa o signo na mitologia são os Aswins (Índia) ou os Dioscuros (Grécia). Entre os gregos eram eles Castor e Polideuces (Pólux), o primeiro, astrologicamente, descreve um tipo mais primário, sanguíneo/emotivo, terrestre, e o segundo mais secundário, sanguíneo-não-emotivo, celeste. O tipo Castor, Jean Cocteau, é mais horizontal; já o tipo Polideuces, Sartre, é mais vertical. 

Dentre as histórias mais emblemáticas da sublimatio alquímica, a de Jacob, o ultimo patriarca judeu, filho de Isaac, neto de Abraão, é uma das mais representativas. Jacob é o adepto a ser despertado do seu sono, da sua inércia (lembre-se da prancha de abertura do Mutus Liber). Ele sonhou com uma escada que ligava a terra ao céu, uma escada de setenta e dois degraus (lembre-se também das especulações astrológicas que fizemos sobre este número), por onde transitavam continuamente os anjos, unindo os dois planos, o terrestre e o celeste.  

ABADIA DE SAINT NICOLAS-LES-CÎTEAUX
 CÔTE D'OR, DIJON, BOURGOGNE

A escada, como sabemos, é símbolo de ascensão progressiva e de valorização, representando a passagem de um nível de existência a outro, um itinerário espiritual comportando diversos estados de consciência figurados pelos degraus, lembrando ascensão de um mundo material (da base, terra) à espiritualidade (ao topo, céu). A escada sempre simbolizou, em todas as tradições, um ideal de elevação. Como exemplo, cito os mosteiros cistercienses (fundados no séc. XII) que, na Europa medieval, eram chamados de “escadas de Deus” (Scalae Dei).

Ao lado da escada, a asa é outro importante símbolo da sublimação, pois a ela sempre aparecem associadas ideias de elevação, de liberação, de ascensão, de espiritualização, em todas as tradições. Um exemplo é o tema das asas na literatura: o condoreirismo, movimento literário surgido no fim do Romantismo na Europa e no Brasil. O símbolo do movimento era o condor, ave das Américas, dos Andes. Como grandes patronos do movimento, tivemos, na França, Victor Hugo e, no Brasil, Castro Alves e Tobias Barreto. Esse movimento, entre nós, nasceu na Faculdade de Direito do Recife, por volta dos anos 1860. Caracteriza-se ele por produções poéticas “elevadas”, que adotam uma linguagem grandiloquente, pomposa até, e temas que falam de fraternidade, de liberdade, de campanhas cívicas, patrióticas. Verbalizado, o condoreirismo  é sempre declamatório.  Irradiou-se o movimento de Recife para a Bahia e, dali, chegou a São Paulo (Faculdade de Direito de São Paulo). 

Empresas aéreas, publicitários e empresas de viagem também usam bastante o tema da sublimação. A proposta é a de transformar o homem comum, preso a um quotidiano desinteressante, massacrante, alienante, nas grandes cidades, pelo breve período de suas férias, numa ilha, de preferência, num ser “olímpico”. 

PERSPECTIVISMO
A sublimação tem o poder de nos elevar acima das questões e problemas cotidianos que temos de enfrentar na nossa vida diária, libertando-nos das nossas pressões mais concretas e pessoais. A proposta é a de que, elevando-nos, conseguiremos ter uma visão suficientemente ampla da complexidade desse viver, uma visão que, de algum modo, possa nos ajudar a agir melhor sobre o que percebemos, permitindo-nos dar, inclusive, um outro sentido a eles, bem diferente daquele que dávamos quando neles mergulhados. A filosofia idealista despreza obviamente este modo de ver as coisas, ao qual damos o nome de Perspectivismo, uma teoria ou doutrina, se quisermos, que afirma ser o conhecimento inevitavelmente parcial (mas nem por isso necessariamente falso), limitado e determinado pela perspectiva particular segundo a qual o sujeito vê o mundo (parcialidade e limitação).  

A sublimação, de um modo geral, permite que o confuso, o denso e o pesado se tornem mais leves, presente sempre a ideia de que tudo, com ela, se torna mais claro, mais flexível, mais compreensível. A liberdade da sublimação participa daquilo que chamamos de sutil. Sutil quer dizer “o que passa pela tela”, subtela, ou seja, o que atravessa a tela. Figuradamente, sutil é o que tem grande capacidade de percepção, que é agudo, apurado, fino. Os antônimos são: espesso, pesado, tolo, grosso.

É destas ideias que sai a chamada Hermenêutica (etimologicamente, do deus Hermes e do verbo grego hermeneuein, interpretar), a arte de interpretar signos, sinais. A hermenêutica é uma reflexão filosófica sobre os signos, os discursos humanos em geral e por extensão dos mitos, das religiões e das mais variadas formas de expressão. A hermenêutica é uma noção central da filosofia moderna, de modo especial da fenomenologia existencial. Uma das técnicas hermenêuticas mais conhecidas é a Hiponoia (etimologicamente, sentido subjacente, significado oculto), muito usada para a interpretação dos mitos.

SAN JUAN

Na psicanálise, a sublimação designa a transformação de tendências ou instintos inferiores em sentimentos superiores e elevados. Por exemplo, as tendências sexuais podem ser sublimadas em tendências estéticas ou religiosas (veja a obra de San Juan de La Cruz e de Santa Teresa de Ávila). A sublimação lida com sentimentos brutos, com pulsões extremamente primitivas e negativas, com ideias de que se esses sentimentos prevaleçam, podem nos rebaixar como seres humanos.


San Juan de La Cruz e Santa Teresa de Ávila, ambos carmelitas (Ordem de N.S. do Monte Carmelo, fundada no séc. XII), sob o ponto de vista alquímico, orientaram toda a sua obra poética pelo fogo (calcinatio) e pelo ar (sublimatio). San Juan, por, exemplo, chamou a sua ascensão mística de  “a subida do monte Carmelo”. O Carmelo é um promontório rochoso que fica em Israel, na Samaria, perto de Haifa

A grande meta da sublimação é o céu, que é elevado, infinito, inacessível, transcendente, como lugar de manifestações inesgotáveis. Em todas as tradições, o céu sempre foi colocado acima da Lua. É no mundo sublunar que vivem os seres humanos e tudo o que está sujeito à transformação, ao devenir e à morte. Acima da Lua fica o céu dos deuses, a região etérica, dos seres que se alimentam de luz, eternos. Lembremos que morrer, nas religiões patriarcais, é “ir para o céu.”

PARACELSO
Como operações auxiliares da sublimação podemos citar a mortificação (já mencionada na coagulatio), a ela se associando operações como a moagem, a malhação, a separação, a extração e outras. A mortificação, como se viu, é a mais negativa operação alquímica, representada pelo negro, pela morte, pelo apodrecimento. Sobre esta última fase, por exemplo, Paracelso, médico e alquimista suíço (sécs. XV-XVI), deixou-nos a observação de que se o homem deseja se transformar ele deve procurar, antes, voltar a um estado de indiferenciação (massa pastosa) para daí  conquistar uma nova forma (construção de um novo eu). Através da putrefação, o negro se torna branco, é uma das mais conhecidas máximas alquímicas. 

Para se entrar num processo de mortificação, na perspectiva alquímica, temos que ter um conhecimento razoável da nossa sombra, temos que saber o que destruir, algo que complica bastante esta operação. Destruir a velha forma, a velha natureza, não é fácil. A sombra é a nossa segunda natureza, sem duvida, a alquimia deixa isso claro. A sombra, a rigor, é tudo o que recusamos conhecer, ou admitir, mas que se impõe contra a nossa vontade. A sombra é, muitas vezes, o que eu “sou” e que não entendo, é o que não sei de mim (veja o conto de Hans Cristhian Andersen, A Sombra).

É no capítulo das mortificações e na sua variante, a crucificação ( que estudamos também, por exemplo, expressões comportamentais dolorosas tipificadas pelo complexo de Héstia ou por temas como os de autopiedade, de autocomiseração, de autoflagelação, de sadomasoquismo e de sacrifícios de toda a espécie, além de muitos casos que na Astrologia costumam aparecer por quincúncios (aspectos de 150º). 

O final da mortificatio, em alguns casos, é a putrefactio, à qual se ligam, na sua expressão mais degradante, imagens de vermes, fezes, excrementos, imagens que apontam para ideias de podridão, decomposição, etapas preparatórias da dissolução final. Três seres do mundo animal, dentre outros, associam-se especificamente com a putrefactio: o escorpião, a hiena e o corvo. O primeiro serve de símbolo, no zodíaco, para representar o oitavo mês (o oito é o número da morte), no qual temos um dia dedicado aos mortos, mês que marca o início do retorno ao caos da matéria bruta e se prepara o húmus que permitirá, mais adiante, na primavera, o renascimento da vida. Já a hiena, que espalha sempre por onde anda um odor sepulcrorum, é o mais conhecido dos carnívoros necrófagos, um animal dos cemitérios, animal charognard (cadáver de animal em decomposição) no dizer dos franceses. Quanto ao corvo, necrófago também, os alquimistas sempre o associaram à fase da putrefação e à matéria negra.    

Há um número, o 40, cujo simbolismo se liga à putrefactio. O número significa tanto o fim de um ciclo como a passagem a um outro modo de ação, de vida. Na maioria das tradições religiosas, só quando decorridos quarenta dias da sua morte uma pessoa pode ser considerada realmente morta. É a chamada quarentena, que, uma vez terminada, determina o momento da realização dos ritos mortuários (desaparecimento da carne e limpeza dos ossos para colocá-los num lugar definitivo) e de purificação dos parentes do defunto.

O número 40 caracteriza também, nas tradições religiosas, as intervenções sucessivas de Deus que determinam a mudança de ciclos. O dilúvio, que precede a aliança com Noé, durou quarenta dias. Moisés passou quarenta dias conversando com Deus no Sinai. Jesus passou quarenta dias no deserto, submetido às tentações diabólicas. Ele se mostrou aos seus discípulos por quarenta dias, tempo que antecedeu a sua ascensão.

ECKHART
Uma variante da sublimação é a operação chamada separatio, separação, ou seja, toda elevação, toda transcendência implica normalmente uma separação. São de mestre Eckhart estas palavras sobre a separatio: Eu não vim à terra para trazer a paz, mas a espada para cortar todas as coisas. Para te separar do teu irmão, do teu filho, da tua mãe e do teu amigo, que na verdade são teus inimigos. Pois, na verdade, aquele que te adoça a vida é teu inimigo. Se o teu olho vê todas as coisas, teu ouvido ouve todas as coisas e teu coração se lembra de todas as coisas, na verdade, em todas essas coisas, a tua alma é destruída!  

A conquista de uma vida consciente é produto de uma separatio constante. A construção de um eu consciente não é algo que se realize de uma vez para sempre. Nossa consciência está permanentemente  ameaçada de dissolução, por ataques internos e externos: conteúdos inconscientes que vão se coagulando e que impedem que nossa consciência se realize em toda a sua plenitude. 

Símbolos da separatio: espadas, lâminas, facas, tudo que corta é tema da separação alquímica.  O maior símbolo (instrumento) da separatio é, todavia, a língua, que tem a forma de uma lâmina que corta pelos dois lados.  Filosófica e psicologicamente, falar é separar (relação entre Logos e Separatio). Ou seja, nomear é separar, dar nomes é sair da indeterminação. A Alquimia nos permite entender claramente que os que não sabem nomear vivem mergulhados numa solutio permanente. Os sufixos lys e lit nos remetem a ideias de separação, de afastamento: análise (separação pela palavra), ansiolítico (separação da ansiedade). Falar, discriminar, é saber separar, classificar, categorizar, diferenciar. Se não nos separamos, não temos opinião própria. Desde a criação do chamado cyber espaço, tudo foi posto em comum, tudo passou a ser transmitido em tempo real. Por esse processo de globalização, entramos numa solutio cósmica. Difícil, hoje, trabalhar no sentido contrário, inclusive no campo da arte. Na Astrologia, lembremos, o signo da separatio é Virgo. 

A malhação e a moagem se ligam evidentemente a conceitos de purificação e de sublimação, como operações que procuram alterar a organização da matéria na forma em que se encontra. Malhar era, basicamente, na metalurgia, bater o metal aquecido para torná-lo mais flexível e, assim, ir se lhe impondo uma forma desejada. Já na atividade agrícola malhar é processo pelo qual se separam os cereais da espiga, debulhar. Figuradamente, malhar, como se sabe, é surrar, espancar. 

HEFESTO

O malho (martelo) é um atributo do deus Hefesto e da iniciação cabírica (metalurgia), sendo um emblema da atividade demiúrgica. Simbolicamente, em muitas tradições esotéricas, era com ele que o mestre modelava o noviço. Demiurgo quer dizer construtor, artífice. Todo o trabalho psicoterapêutico (relação médico-paciente), com as suas várias técnicas, está incluído figuradamente na noção de malhação e de moagem do nosso psiquismo. 

A malhação adelgaça, torna mais leve, mais delgado, mais leve e mais flexível o que era denso e pesado. A malhação e a moagem estão ligadas ao abrandamento do material, à transformação do grosso em fino. Sem a sovação (malhação), por exemplo, o pão não fica bom. Já moer (britar, triturar, esmigalhar) é transformar em pequenos fragmentos, técnica que sob o nome de análise foi parar nos consultórios de psicologia analítica. Analisar, neste sentido, é moer, fragmentar, reduzir a pedacinhos para enfraquecer o todo. Tudo dependerá, é claro, de como usamos o “martelo”. O que sobra da malhação é o fino, o residual, o pó, que equivale na alquimia às cinzas, aquilo que vem depois do que foi queimado, malhado, triturado. As cinzas significam sempre o ponto de partida para uma reorganização futura. As cinzas simbolizam a renúncia de uma vida anterior. É por essa razão que os penitentes, os romeiros, esfregam cinzas no seu corpo, um símbolo de renúncia às vaidades, abandono do material. O pó tem um valor residual, lembra semente, o pólen, e, como tal, é ponto de partida para a conquista de novas formas. Misturando-se o pó à água, está criada a possibilidade da obtenção de uma nova forma. Como variante da malhação, temos, por exemplo, a esfoliação, outro processo alquímico de purificação. Esfoliar é transformar em folhas, laminar, técnica que simbolicamente significa retirar os excessos, comprimir, no fundo, um processo de limpeza.

Uma das operações menos estudadas da Alquimia é a circulatio, a alternância entre repetidas descidas e subidas ou entre polaridades, pois, viver, afinal de contas, é mudar constantemente de posição, já que procurar o céu (fixar-se apenas numa polaridade) como meta final da sublimação pode ser desastroso. Uma das máximas alquímicas nos lembra que devemos sempre sublimar o corpo e coagular o espírito, processo que, na existência humana, devemos repetir várias vezes. As melhores explicações sobre a circulatio ou alternatio nós as encontramos nos sete princípios da doutrina hermética (Caibalion): mentalismo, correspondência, vibração, polaridade, ritmo, causa e efeito e gênero. É pela circulatio que podemos entender que o homem será sempre responsável pelo que faz de si mesmo, deve ser um constante fazer-se. Esta a única maneira de ele poder se considerar vivo, livre. Está implícita para tal maneira de pensar (doutrinas fenomenológicas) a necessidade permanente de fazer escolhas. Esta necessidade é para tais doutrinas a postura autêntica diante da vida, apesar de toda a angústia que isto possa causar. É por estas escolhas, traduzidas obrigatoriamente em ações (ou omissões), que o homem será julgado. Agindo ou deixando de agir, fazendo as suas escolhas, o homem criará os seus valores, que não poderão ser criados em função de um bem ou de um mal absolutos, já que o homem é um ser histórico que vive em situação, no tempo e no espaço. 







quinta-feira, 15 de julho de 2021

A CASA XII

         

PERSONIFICAÇÃO DA ASTROLOGIA
(GIOVANNI BARBIERI, CONHECIDO COMO GUERCINO, 1591-1666) 

A boa prática astrológica nos informa que o setor (casa) em que se encontra o Sol num mapa nele encontraremos o centro da existência do dono desse mapa, o lugar de suas experiências mais significativas, talvez, quem saiba, de suas maiores realizações. Se estiver nessa casa bem colocado por signo e bem relacionado por aspectos, podemos sempre esperar ali algum   fator de elevação, de distinção, de êxito. Conforme os mestres hindus nos apontam, o Sol, se favorecido num mapa por posição e aspectos, encontrará, principalmente, nas casas I (Ascendente) e X (Meio do Céu) as suas melhores possibilidades expressivas tendo-se em vista o que acabamos de colocar. Todavia, dizem-nos também os mestres hindus que isto não exclui possibilidades de realização mesmo que o Sol se encontre em casas  “difíceis”, que alguns chamam de maléficas, como as mokshabhavas (IV, VIII e XII). 




Como entender isto, se consideramos que a casa XII, sempre tida como difícil, é a casa final de um mapa? Nela encontramos (ou não) informações de como depois dos feitos mundanos (casa X), alguém com preocupações altruístas (casa XI) poderá entrar, inspirado por um entendimento mais vasto da vida cósmica, em contacto com sentimentos de compaixão, de solidão contemplativa e de autossacrifício. A cultura astrológica ocidental vê a casa XII como suscetível de ocasionar grandes provações durante a vida, de modo especial para os que nascem com o Sol nela posicionado. Estas provações tanto podem significar uma série de obstáculos que poderão se erguer diante do êxito de várias maneiras, desde crises de consciência,  como provações de ordem moral, como problemas crônicos de saúde ou como inimizades ocultas e inexplicáveis etc.

Segundo alguns mestres hindus, a casa XII poderá ser um “vale de lágrimas” ou uma “câmara de horrores”, um lugar de deformações, de tristezas, de sujeição, da “mão pesada do destino” se ela não for entendida como o lugar num mapa através do qual poderemos prestar alguma ajuda a pessoas que não podem ou não conseguem se ajudar a si mesmas. É por esta razão que muitas vezes encontramos pessoas que têm o eixo das casas VI-XII dinamizado pela presença de um Sol, de modo especial se ele estiver na casa XII. Sempre presente também a  a ideia de que é através dessa casa que podemos ter que prestar algum tipo de serviço, seja, por exemplo, como funcionário num asilo, como enfermeiro num hospital de alienados, numa prisão, num lugar onde se internam pessoas, numa prisão como carcereiro etc. O signo dessa casa, o planeta Netuno ou planetas presentes em Peixes nos informarão que tipos de serviço, além dos que deveremos prestar normalmente, teremos executar. Sempre será bom lembrar, entretanto, que onde Netuno estiver num mapa nesse setor do mapa poderemos  ter que, em algum momento de nossa vida (ou sempre), nos haver com algum tipo de autossubmissão, de autodedicação, de sacrifício, de autoengano, de desilusão etc. 

Um Sol de casa XII, no geral, predispõe a pessoa a “aparecer” menos na vida, seja por timidez, medo, insegurança, dúvidas etc. Ou seja, uma pessoa desejosa, quase sempre, de permanecer inexplicavelmente, ao lado, à sombra, escondida. Um Sol de casa XII não “gosta” de ser alvo de atenções, de ser notado, de “enfrentar” pessoas. Difícil para um Sol nesta posição ser direto, espontâneo, mesmo que lhe expliquem não haver nada a temer. 

Aspectos Sol-Netuno poderão apresentar também muitas das características de um Sol de casa XII, a saber: sensibilidade a correntes coletivas, receptividade às vagas sociais, sentido fortemente comunitário, político, messianismo, realização por uma via coletiva, ideológica ou místico-religiosa etc. A rondar este Sol sempre os perigos de atitudes anárquicas, escapistas, evasivas, caóticas, sonhadoras, com sérias repercussões de ordem psicossomática.


Um Sol de XII costuma inclinar a atitudes compassivas, a uma certa afinidade com o misterioso, o nebuloso e o imaginário que podem dificultar a percepção da realidade. Comum, por exemplo, que um Sol de XII se veja às vezes “mantendo” contactos como amigos imaginários ou “sinta” que o que lhe acontece de negativo deve-se a alguma falta criada pela sua imaginação.    

Um Sol de XII costuma também às vezes imaginar que haja alguma coisa errada a fazer parte de sua vida, mesmo que ninguém lhe apareça para cobrar algo, para apontar alguma falta ou erro. Comum por isso que a pessoa com um Sol de XII se “sinta” mal, fabricando culpas, muito mais por pressões imaginárias do que por algo de mal realmente cometido.  A predisposição a ligações com o mundo sobrenatural é também muito possível com o Sol de XII, muito comuns histórias fantásticas, fantasmas, vida depois da morte etc. 

Muito concretamente, por sua analogia com o signo de Peixes e Netuno, a casa XII nos informa sobre inimigos ocultos, sofrimentos físicos de longa duração (internações, hospitalizações etc.), sofrimentos morais, enganos e segredos. Refere-se também a casa aos grandes animais, aos trabalhos penosos, às doenças incuráveis, a prisões e exílios, a traições e muito mais.

Posicionado e aspectado favoravelmente na casa XII, o Sol pode proporcionar vitória sobre os inimigos ocultos, êxito nas profissões ligadas à cura do corpo e da mente, inclinação ao estudo e prática das chamas ciências ocultas. Presentes às vezes, mesmo com a condição solar acima apontada, sofrimentos causados pelos assuntos regidos pelo signo presente na casa. Dependendo da dignidade solar, podemos ter escândalos decorrentes de vida sentimental, problemas com filhos, jogos etc. 

De um modo geral, um Sol de XII costuma depender muito das chamadas reservas inconscientes, o que inclina a expressões através de grandes instituições, clínicas, lugares de retiro, asilos, hospitais etc. Pode-se mesmo afirmar que a única forma de um Sol de XII obter algum reconhecimento ou satisfação será a de prestar serviços nos quais não entrem ideias de retribuição ou de reciprocidade. 

Um Sol de casa XII, mesmo dignificado e bem aspectado, pode também encerrar quem o tem numa forma de existência marcada pelo retorno periódico de acontecimentos infelizes como se estivesse submetido a fatalidades provenientes do exterior. Todavia, se observarmos mais de perto, muitas dessas fatalidades parecem ser produzidas pela própria pessoa. É o caso daqueles que são os artífices de sua própria “infelicidade”, que não podem suportar a conquista daquilo que mais intensamente parecem desejar.

Já uma Lua de casa XII pode nos revelar que o humor de uma pessoa ou que suas respostas emocionais estão fortemente marcadas por influências de natureza inconsciente ou por experiências vividas anteriormente, mas que subsistem, no geral desconhecidas por quem as experimenta. Normalmente, uma Lua na casa XII inclina à timidez, à sujeição de temores, a sonhos e devaneios, sempre com muita dificuldade de separar a realidade da fantasia. 

Praticamente, a Lua na casa XII pode indicar trabalho em hospitais, sanatórios, orfanatos, educandários, asilos de crianças, através de entidades que lidam com o passado de um modo geral. Pode indicar separação da família de origem, sofrimento através do lado materno, perda de heranças. Se Câncer, por exemplo, ocupar a casa VI ou se a Lua for a indicadora de saúde, poderemos ter o caso de moléstias incuráveis transmitidas pela via familiar, de separação familiar, de sofrimentos causados por mulheres (mãe, esposa), questões de herança etc.

A Lua na casa XII pode tornar a infância infeliz, doentia, ocasionar provações afetivas pela via materna, inimizades familiares etc. De um modo geral, a Lua na XII indica timidez, imaginação perigosa, sobretudo com relação a culpas, remorsos, inferências, memórias etc. Particularmente, na casa XII, a Lua costuma se revelar também por lembranças infantis, aparentemente insignificantes, mas muito marcantes porque tomam geralmente a forma de fantasias inconscientes. A Lua em XII pode, por isso, adquirir uma feição paradoxal, ou seja, lembranças importantes de acontecimentos e fatos infantis  são “esquecidos” enquanto outros, aparentemente insignificantes, são conservados na lembrança.

Quem tem a Lua na casa XII sempre encontra alguma ou muita dificuldade para falar de seus sentimentos e emoções. Esta atitude costuma se explicar pela ideia de que as pessoas, diante desta exposição sentimental ou emocional, não as entenderiam ou poderiam alimentar pensamentos “errados” quanto ao que lhes estava sendo exposto. Uma Lua de casa XII costuma também “entender” que as pessoas, se a elas ela se “abrisse”, dificilmente a perceberiam como ela é de fato, na realidade. O que se poderá “dizer” diante deste “entendimento” lunar? Que esta Lua é “normal”, que não há porque serem escondidos sentimentos e emoções? Numa abordagem mais ampla, talvez pudéssemos dizer a esta Lua que ela deveria deixar de impedir a sua própria expressão mais livre.  Que deixasse de ser o seu próprio obstáculo. Isto certamente ajudaria tal pessoa a eliminar pensamentos negativos como os de que não seria aceita se falasse mais de sua interioridade, do que sente. 

Uma Lua na XII sempre necessita de muita segurança emocional, mas costuma encontrar  sempre muita dificuldade para obtê-la. Um pensamento que sempre lhe ocorre é o do que quando mais precisar de suporte ou de compreensão não os conseguirá. As pessoas que poderiam lhe ajudar estão ausentes, foram viajar, estão presas a outros compromissos dos quais não podem se desobrigar ou morreram, seja tudo isto verdadeiro ou não. De qualquer maneira, sempre muito difícil para uma Lua de XII confiar em alguém sob o ponto de vista emocional. Comum neste caso, a Lua de XII fabricar culpas, como a de que está sendo tratada dessa maneira porque cometeu alguma falta, da qual não se lembra, com relação a pessoas que poderiam lhe ajudar. 

Nos piores casos, uma Lua de XII costuma também “trabalhar” muitas vezes com a hipótese de, faça o que fizer, estar sempre ferindo outras pessoas, se enchendo de dúvidas quanto à correção de sua maneira de agir. Por isso, cenas em que sabidamente haverá muitas descargas emocionais deverão ser evitadas por uma Lua de casa XII, principalmente as que envolvam questões de família. 

Uma Lua de casa XII predispõe, no geral, por isso, a uma infância infeliz, a doenças que durem muito (crônicas), a provações afetivas, familiares, dificuldades conforme seja o tema astral masculino (esposa “difícil”) ou feminino (marido “difícil”) etc. Inimizades públicas, perigo diante de multidões, viagens marítimas. Mal posicionada na XII, a Lua sugere uma receptividade exagerada, muita instabilidade emocional (signos de água, mutáveis), riscos com relação a tendências herdadas. É de se lembrar que num mapa a Lua representa a mulher, principalmente a mãe e, em menor extensão, a esposa. As forças inconscientes e sustentadoras da Lua têm relação com a alma, a vida instintiva, a memória, os hábitos, os atavismos e tudo aquilo que, de um modo geral, está ligado a ideias de abrigo e segurança. 

Uma Lua de casa XII pode inclinar à timidez, à empatia exagerada, a descontroles com relação à imaginação e à memória, podendo chegar a extremos pela incapacidade que gera quanto à separação da realidade da fantasia. A presença lunar na casa XII pode sugerir trabalhos em hospitais (infantis), sanatórios, orfanatos, educandários, leprosários. Mal posicionada e aspectada em XII, a Lua tende a restringir oportunidades diante da vida, sempre dificultando quem a tem a mostrar o seu valor, enchendo a pessoa de inibições, suposições, dúvidas etc. 

Mercúrio tende a se fechar quando na casa XII. Quem o tem nesta casa costuma apresentar uma tendência bem pronunciada quanto não só a manter seus pensamentos em segredo como, quando questionada, a se mostrar muito evasiva, reticente com relação ao que lhe perguntam. Comum um Mercúrio de XII fazer com que as pessoas sintam muita desconfiança de tal pessoa, mesmo que, aparentemente, não haja motivo para tanto. Há sempre uma ideia de que tal pessoa esteja escondendo algo. Em casos mais “sérios”, esta posição de Mercúrio pode fazer com que a pessoa se sinta muito insegura com relação às suas ideias. A envolver seus pensamentos e ideias, muitas vezes, o temor de que eles, por não serem adequados, convenientes, os possíveis interlocutores possam se mostrar pouco receptivos ou que seu julgamento será pouco ou nada simpático, benévolo. 

Esta posição de Mercúrio pode se tornar particularmente negativa para crianças e jovens quando na escola tiverem que ser submetidos a arguições orais. É por isso que, de um modo geral, as crianças e jovens com Mercúrio na XII preferem a “obscuridade”, Isto é, não se fazerem notados, se sentar no fundo da sala, procurando sempre chamar a mínima atenção, desejos de que os esqueçam. 

Mercúrio na XII costuma tornar as pessoas solitárias, incapazes muitas vezes de externar uma opinião sobre qualquer assunto. Possível que tornem a pessoa, para o bem ou para o mal, dependendo do astro, muito imaginativa, sonhadora, divagante mentalmente. Não esqueçamos que Netuno e Júpiter, os donos da casa XII, sempre ofereceram alguma ou muita dificuldade para se lidar com o “real presente”. Nesta perspectiva, Mercúrio na casa XII sempre oferecerá alguma dificuldade quanto à desejável objetividade quando tivermos que viver o nosso dia-a-dia. Não que Mercúrio nesta casa possa se tornar mentiroso, mas o fato é que neste setor ele sempre oferecerá dificuldades quanto a se trabalhar com um foco. É por isso que Mercúrio na XII pode nos fazer dizer coisas que não são propriamente falsidades ou mentiras, mas distorcê-las, “navegando” em assuntos que nada têm a ver com o que se está a discutir.

Mercúrio na XII (principalmente num mapa em que a dominante seja a água) pode tornar a pessoa, sem que saiba o porquê disso, muito sensível ao que está acontecendo na mente das pessoas com as quais dialoga. É por isso que Mercúrio nesta casa pode provocar alguns distúrbios (dúvidas, temores, fobias etc.) principalmente se a pessoa que o tem viver em ambientes muito excitantes, estressantes. É de se lembrar que Mercúrio na XII sempre pede que a pessoa viva em ambientes tranquilos, calmos. Mercúrio na casa XII costuma oferecer sempre alguma (ou muita) dificuldade para que lidemos com assuntos muito “exatos”, lógicos, como ciências ou matemática. 

Uma das maiores tarefas para Mercúrio em XII talvez seja a de procurar transmitir com clareza ideias a outras pessoas. Difícil para Mercúrio aqui falar ou escrever com objetividade. Para contornar este problema, se possível, quem tem Mercúrio em XII deve sempre procurar apresentar as suas ideias de modo ordenado, uma de cada vez, embora, como se sabe, tais ideais costumem aflorar em desordem, impregnadas de sentimentos, de impressões e através de imagens não muito claras. 

O que está acima, lembre-se, não significa que um Mercúrio de XII não possa ser inteligente. O que devemos lembrar é que ele nesta casa pode se mostrar muito intuitivo, inquieto, tímido, demasiadamente sensível. Nesta casa, o planeta costuma se impressionar fortemente diante de tudo que seja fortemente doloroso ou desagradável, com forte propensão para captar as chamadas vibrações de ambientes, pessoas ou coisas. Mercúrio na XII, em posição privilegiada por signos e aspectos, pode proporcionar grande habilidade para atividades ligadas à investigação e pesquisas de natureza psíquica, que exijam sigilo. 

Mais objetivamente, Mercúrio na XII, mal posicionado e aspectado, pode ocasionar dificuldades com relação a palavras e escritos (envolvimento com a Justiça, condenações, repúdio social etc.). Outras possibilidades: adolescência difícil, mente confusa (dificuldade para separar o falso do real), mania de perseguição, falta de memória), instabilidade física e mental, moléstia nervosa incurável, hostilidade de pessoas jovens, irmãos, vizinhos, nas vias públicas. Risco de cuidados e provações no campo intelectual. 

Prosseguindo: pensamentos influenciados por pressões do passado e por memórias inconscientes. Como assessor solar, seleção e escolha de informações comandadas mais por sentimentos do que avaliações racionais. Dificuldade para operar com objetividade e análise lógica dos fatos. Hábitos educacionais confusos, pouca capacidade de discriminação. Aprendizagem escolar deficiente.

Vênus na casa XII costuma tornar a pessoa reservada e tímida com relação à demonstração de seus sentimentos. Isto não quer dizer, em muitos casos, que pessoa, com esta posição de Vênus, não seja capaz de se mostrar afetuosa, receptiva. Contudo, sempre haverá com esta posição, se falamos de afetos, uma certa contenção, receios às vezes infundados, e desconfiança. Algo talvez ilógico, injustificável, mas, muitas vezes, sem dúvida, presente. 

Com Vênus na casa XII há, no geral, preferência para relações pessoais secretas, escondidas aos olhos dos demais. Nos contactos, tendência a interferir, a supor a presença de  pressões subconscientes, com muita profundidade emocional e, em muitos casos, com muita inspiração artística, falsa muitas vezes.. De modo geral, Vênus nesta casa costuma se mostrar bondoso e simpático para pessoas que porventura se encontrem em dificuldades, de modo especial com relação àqueles que demonstrem uma hipersensibilidade difícil de controlar. Em signos de água, Vênus sempre oferece algum perigo na medida que numa relação afetiva a pessoa pode se tornar muito empática. 

Vênus, nesta casa, pode também demonstrar alguma preferência por relações secretas, sendo comuns casos de adultério, de ligações ocultas etc. Se mal posicionado e aspectado, Vênus pode ocasionar aqui muitas dificuldades com relação às casas onde tivermos Touro e Libra. Problemas econômico-financeiros, com terras, com contratos em geral, litígios etc. Repúdio e condenação pública da sociedade por conduta imoral, escândalos amorosos, se Vênus estiver mal, podem ser esperados. Inimizade de mulheres.

Vênus pode indicar na casa XII êxito em ocupações de caráter beneficente e artístico, em trabalhos de assistência social. Difícil, porém, que nestas ocupações a pessoa possa colher mais abertamente o reconhecimento pela sua dedicação. Vênus, na XII, pede muito cuidado com tendências idealizantes com relação a pessoas ou atividades relacionadas com a casa. Comuns, por isso, as decepções, as desilusões. 

NAUSICAA
(1878, F. LEIGHTON
)
Um problema que Vênus costuma provocar quando na XII é o de oferecer muita dificuldade para a aceitação da realidade como ela é, especialmente com relação à vida social. Além do mais, comum que Vênus aqui faça as pessoas alimentarem temores se, numa relação afetiva, elas ousarem dar o primeiro passo em direção do outro. Muito comuns os casos de pessoas que com Vênus nesta casa, ainda que amem alguém, jamais conseguem se atrever a declarar para o outro o seu amor. A Mitologia grega ofereceu à Psicologia o nome para um complexo que vitima pessoas nesta situação, o chamado Complexo de Nausicaa, nome da infeliz amante de Ulisses, filha do rei Alcínoo.. 

Uma recomendação que pode ser feita para pessoas com Vênus na XII e/ou em mal aspecto com Netuno é a de que elas, se possível, lutem, recorrendo inclusive a aconselhamento técnico, para se tornarem como dizem os ingleses, um pouco mais outgoing de modo a que suas relações possam se tornar  mais compensadoras. Quanto a males que possam atingir de modo mais persistente (crônico) o corpo físico, especialmente se Vênus tiver relação com setores do mapa relacionados com a saúde, fica o alerta para os rins, os órgãos genitais femininos, a próstata, o pescoço, a nuca, a garganta, os seios, a epiderme, o sistema venoso. 







sábado, 19 de outubro de 2019

OS SALÕES DO SÉCULO XVIII*

                                       
SALON  DE  MARIE-TÉRÈSE  GEOFFRIN 
( MARIANNE LOIR, 1715 - 1769 )

Os acontecimentos históricos podem ser explicados de diversas maneiras. Além de historiadores, obviamente, todas as pessoas, letradas ou iletradas, a seu modo,  com maior ou menor autoridade e propriedade, formalmente ou não, podem ter algo a dizer sobre tais acontecimentos. De um lado, em menor quantidade, é claro, temos valorizados livros, teses ou tratados produzidos academicamente por qualificados profissionais da área sobre eventos variados, eventos passados, presentes ou futuros que a humanidade viveu, vive ou viverá. De outro lado, como imensa maioria, temos as simples observações e opiniões do homem comum que, muitas como desabafos, na sua maioria desqualificados, alimentados pela comunicação de massas, se perdem no  efêmero de nosso dia-a-dia. 

Tanto nas produções dos profissionais da cultura, das ciências e das artes como nos desabafos do homem comum encontro uma questão que me parece comum a ambos, uma pergunta mais ou menos bem formulada:  será que a história da humanidade caminha no sentido de um aperfeiçoamento moral ou exprime uma alarmante decadência, sobretudo dos costumes, apesar de um espantoso “progresso” tecno-científico?

O texto que está abaixo, uma breve incursão histórica, produzida na esfera de alguém que tem algum interesse em acontecimentos culturais, parte da constatação de que nestes estapafúrdios tempos em que vivemos só um pouco das muitas explicações e interpretações dos profissionais acima mencionados pode ser lido e compreendido e muito menos incorporado e renovado para orientar a nossa maneira de ser. Tudo, pois, que nos chega quando tratamos destes assuntos, precisa ser comparado, cotejado, reti-ratificado, arquivado, aproveitado, deletado, quando não ignorado ou esquecido totalmente.

A  ASTROLOGIA
(G. BARBIERI, 1591 - 1666)
Com o espírito assim orientado é que procuro, bem ou mal, como um ser comum de poucas letras, me abrir para o mundo na perspectiva aqui apontada, tendo como válido e útil aquilo que a Astrologia, seriamente considerada e estudada, nos propõe para a abordagem de acontecimentos históricos, culturais ou não.  O seriamente ora mencionado sobre a Astrologia nada tem a ver evidentemente com a pop astrology, como ela aparece em jornais e em muitos livros sobre ela publicados, mas com o que ela nos oferece desde tempos muito remotos como legado praticamente encontrado em todas as
CARTA ASTRAL
culturas, desde a pré-história, abandonado, por pressões dos representantes da “racionalidade”, pelas academias no séc. XVII. Nem tem a ver com a afirmação de pessoas que peremptoriamente declaram nela não “acreditar”, como se ela fosse uma religião, ainda que dela nada conheçam. A Astrologia, uma carta astral, nesta perspectiva, por exemplo, se parece com um hemograma. Não “acreditamos” num hemograma.  Apenas sabemos lê-lo ou não. E mesmo sabendo lê-los, os hemogramas, quantos erros não se cometem na interpretação de seus dados?

OS  DEZ  ASTROS 
A Astrologia nos revela, desde sempre, que os planetas que circulam, juntamente com os luminares (Sol e Lua), em volta da Terra, no zodíaco das doze constelações, influenciam,  além da humana, a vida do nosso planeta, nos seus três reinos, mineral, vegetal e animal. Os dez astros que atuam no círculo zodiacal das constelações, dependendo de seu relacionamento, formando o que chamamos de aspectos, envolvem continuamente a Terra com uma rede de energias que a tudo atinge, como está acima, principalmente quando pensamos no mundo natural no qual o homem vive, afetando sobremodo o seu comportamento. A recente descoberta dos planetas que estão além de Saturno, Urano, Netuno e Plutão (estes três invisíveis a olho nu), possibilitou ao homem não só ir além do sistema solar (Saturno era o limite) como lhe abriu o intelecto para um outro entendimento, quanto à sua psique coletiva e ao seu desenvolvimento bio-cultural.

TELESCÓPIO  HOLANDÊS DE ALTHOUGH LIPPERSTREY, 1624

Graças ao telescópio, no final do século XVIII, e outros inventos, o homem ampliou a sua visão e compreensão do universo, passando a entendê-lo melhor, com outras informações. A trajetória zodiacal de Saturno é de 28 anos. A de Urano, palavra grega que significa céu, é de cerca de 84 anos, permanecendo, em média, entre 7 e 8 anos em cada uma das constelações (signos). Logo que descoberto,
em 1.781, Urano, por suas características astronômicas foi estudado de vários modos pela ciência. Quanto à Astrologia, como ocorreu com outros planetas, anteriormente, que já haviam sido estudados desde a antiguidade, os astrólogos, dentre os quatro elementos (fogo, terra, ar e água) que atuam no universo, indicaram o elemento a que ele pertencia (ar) e os efeitos que produzia no comportamento humano, ao transitar por esta ou aquela constelação (signo astrológico); foram definidos, segundo a analogia, os princípios gerais que ele representava, as suas influência quanto à tipologia física, ao caráter, à psicologia, à psicopatologia, aos problemas físicos (patologias), às predisposições sociais etc. das pessoas por ele  mais ou menos sensibilizadas, conforme a matéria astrológica ensinava.


OS  QUATRO  ELEMENTOS

Algumas analogias, a partir de certos números que podemos estabelecer entre o homem e a vida cósmica, permitir-nos-ão certamente entender melhor o que aqui se expõe. O Sol, ao transitar lá nas suas alturas pelo zodíaco das constelações, leva 25.920 anos. O homem, por seu turno, respira por minuto, em média, 18 vezes por minuto. Por dia, em planos diferentes, evidentemente, temos também o mesmo número (18x60x24), 25.920 vezes. O Sol, com esse cálculo, leva 72 anos para andar um grau. Se multiplicarmos 72 pelos 360º do círculo zodiacal, teremos o mesmo número, 25.920. 72 bpm é, ao que nos parece, um número médio bastante aceitável para o ciclo de expansão e relaxamento das nossas artérias, para se atestar a nossa saúde cardíaca. Coincidência? Na Astrologia, o signo de Aquário tem estreita relação com o nosso sistema arterial enquanto o signo que lhe é oposto, o de Leão, é “governado” pelo coração, analogicamente o Sol, que energiza todo o sistema solar. As artérias, como se sabe, têm a finalidade de transportar sangue (energia) do coração para o resto do corpo. Comuns, por exemplo, os casos de muitos aquarianos que tendo certas dissonâncias (patologias) aquarianas, sob o ponto de vista astrológico, tenham os pés e/ou as mãos frias.

VITRAL  DE  CHARTRES
Cada era cósmica, segundo a Astrologia, tem a duração de 2.160 anos. A era de Peixes, na qual nos encontramos nos seus graus finais,  começou em 498 dC e terminará em 2.658 (2.160 + 498), quando o Sol ingressar matematicamente no signo de Aquário. Começará então realmente a famosa era de Aquário. Alguns dos temas desta futura era já vêm sendo “sentidos” desde o século XVIII nos
AQUÁRIO
( S.DALI, 1904 - 1989 )
vários campos da atividade humana, na ciência, na política, nas artes plásticas, na música, na literatura etc. No passado, séc. XVIII, o fenômeno da atividade dos salões foi um deles. Na política, as lutas de independência de várias colônias foi outro. Hoje, na ciência, temos, ainda exemplificando, o tema da inteligência artificial. No filosófico-religioso, o fim da filosofia e o trans-humanismo e o fim de Deus e das religiões (profecia de Nietzsche), estas oferecendo uma grande resistência, diante dos altíssimos lucros que obtêm. 

Quando Urano se destaca num tema astral por posição e aspectos, como logo se constatou desde a sua descoberta, inclusive por exemplos colhidos retroativamente, seu dono procura de um modo geral se voltar invariavelmente para a exploração de valores mais elevados, se rebelar com relação ao que é  tradicional, seja individualmente (arquétipo da hiper-individualização) ou através de associações,  de uma vida comunitária, grupal, que procura o bem-estar de todos. A procura da separação das origens costumava ser sempre enfatizada. Prevalecendo a tendência ao individualismo, sempre presente a ideia de “não ser como os outros”, que pode se expressar pela revolta, pela excentricidade, por riscos de desmedida ou pelo impulso de se criar algo diferente, inusitado. A inflação do eu pode ser de difícil contenção, sendo comuns, quando aspectos de
HIPÓFISE
Urano atingem principalmente o ascendente (corpo físico) e seu planeta regente, ou o Sol, espasmos, convulsões, movimentos físicos involuntários etc. Urano, no corpo humano, tem muito a ver com a hipófise ou a pituitária, a “glândula cibernética”, ligada ao controle de nossa vida hormonal (de hormao, em grego, excitar).

Fazem parte tradicionalmente da galeria dos aquarianos, uranianos de algum modo, portanto, pelo nascimento (trânsito do Sol pelo signo) ou pelo ascendente,  signo (Aquário) para o qual a Terra se voltava quando do seu nascimento: Darwin, Augusto Comte, Jung, Karl Marx, Byron, Schubert, Charles Dickens, Thomas Edison, Stendhal, Montesquieu, Galileu, Voltaire, James Joyce, Robespierre, Lewis Carrol, Antônio Carlos Jobim, Júlio Verne, H.G.Wells, Strindberg, Degas, Simone Weil,  Fernand Léger, Picard, Brecht, James Dean, Mozart, Manet, Virginia Wolf, Radamés Gnattali e muitos, muitos outros.

URANO
Urano, astrologicamente, foi associado ao signo de Aquário, tornando-se o seu regente (signo e planeta operam com energias muito semelhantes). Aquário, nas suas melhores expressões, é um signo que se relaciona com amizades, altruísmo, idealismo, uniões com interesses especiais, de ideias comunitárias, tendências prometeicas etc. Os participantes da revolução francesa de 1.789, deflagrada com a intenção de ser a Revolução das Revoluções, simplesmente não "deu". Na eterna alternância dos contrários, foi preciso que Napoleão viesse para dar uma "fechada" naquilo que a Revolução de 1789 abrira. Lembre-se que para marcar o evento  os revolucionários de 1789 cunharam a expressão Liberdade, Fraternidade e Igualdade, lema de forte inspiração aquariana. Só no ano de 2.672, entretanto, a humanidade entrará realmente na famosa Era de Aquário, embora já venhamos sentindo alguns de seus efeitos desde o séc. XVIII, quando Urano foi descoberto, ao transitar pelo signo de Gêmeos.

Urano é extremamente ambíguo: confunde os sexos (GLST), mas sabemos cada vez menos quanto ao que é masculino e feminino. Dentro em breve, a ciência dará certamente um jeito: homens gerarão (darão à luz) e as mulheres fecundarão. O mundo aquariano nos permite obter uma quantidade cada vez maior de informações, mas talvez nunca tenhamos nos deparado com tanta falta de conhecimento e  muito menos de sabedoria como hoje, estes dois a serem construídos por nós a partir daquelas. A velocidade e o alcance da nossa comunicação é espantosa, enorme, mas a solidão e a depressão aumentam cada vez mais. Enquanto isso, orgulhosamente, a ciência aquariana vai nos dando condições de visitar todo o sistema solar, de colonizar alguns planetas e de explorar a nossa galáxia.  

Uma síntese uraniana (seu campo semântico) pode ser assim apresentada: Urano é essencialmente um planeta variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, comunitário, excitante, maníaco (no sentido da mania grega), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista, utópico, original inédito e estéril.

No século XVIII, a verdade das religiões, tida como revelada, começou, por inspiração uraniana, a ser substituída por propostas filosóficas pragmáticas. A atitude, diante do mundo, começou ser inspirada pela empiria. Mesmo que, com todas as suas tentativas, seus tâtonnements, como diziam os franceses, o conhecimento deveria derivar agora da experiência humana e não da revelação divina. O critério da verdade passou a ser dominado pelo sucesso das ações. Só seria verdadeiro o que desse resultados positivos. Mesmo uma religião só seria considerada “verdadeira” se ela se mostrasse moralmente benéfica, útil. A classe social ascendente, a burguesia, sentia grande necessidade de luzes, de informações, para melhor tomar consciência de si mesma e do papel que deveria representar nos novos tempos.

VOLTAIRE
Voltaire, da Inglaterra, exportava para a Europa continental Newton, Bacon, Hume e Locke. Nas suas Les Lettres Philosophiques (1738) ele discorria amplamente sobre a vida inglesa e fazia, ao mesmo tempo, uma crítica pesada aos valores franceses. Por essa época, ele publica Les Eléments Philosophiques de Newton,
HELVETIUS
uma vulgarização muito bem feita dos princípios da ciência newtoniana. Na França, pela ação de Rousseau, dos 
enciclopedistas, abriam-se grandes fendas nas estruturas até então dominadas pelo clero e pela nobreza. O espírito crítico, o racionalismo e teses materialistas (Helvetius) passam a exercer uma poderosa influência contra a autoridade da Igreja Católica, afetando todo o pensamento filosófico então dominante.

Até o século XVIII, a literatura, em que pesem as exceções de sempre, não passava, no seu todo, de uma espécie de cerimônia de reconhecimento entre o escritor e seu público, uma afirmação de que ambos pertenciam ao mesmo e conhecido universo. Uma afirmação de reconhecimento de que ambos, apesar de ocasionais discordâncias por parte do escritor, pertenciam a uma sociedade modelar, a ambos familiar, e que, por isso, deveria ser respeitada quanto aos seus valores. Neste sentido, no plano das ideias, nada de se descobrirem coisas novas. Ficava o escritor, apesar de alguns deslizes e escapadas, como se disse, restrito ao que era conhecido do sistema dominante por ele e pelos leitores.

Desde início do século XVIII, principalmente, o escritor se sentia tomado por uma nova missão, a de iluminar e de reivindicar com as suas obras o direito de propor uma ação anti-histórica. Começava a ser efetivamente desmontada aquela impressão de estabilidade inabalável que o século XVII, dominado pelo cristianismo, pela monarquia e pelo classicismo, deixara. O século XVIII elegeu o movimento como o tema central de suas motivações para que uma nova ordem política e social fosse instalada. Esse movimento vinha sendo produzido desde o século anterior por uma fermentação de novas ideias que acabariam por fazer eclodir a revolução nos últimos anos deste século.  Lembre-se, embora só descoberto em 1.781, que as influências inovadoras uranianas já vinham sendo “sentidas”, provocando algumas mudanças desde o séc. XVII.

DUCHESSE DU MAINE
(A.S. BELLE, 1674-1734
Na França, o homem de letras assumiu um papel extremamente militante no bojo desse movimento. Esse papel fez com que a Corte deixasse de ser o centro do país e o foco gerador de opiniões no domínio das ideias, do pensamento filosófico e artístico. Outro fator que contribuiu muito para a aceleração desse movimento foi o da criação dos chamados salões, cafés e clubes, centros de muitas reuniões e discussões. Destaque especial quanto aos salões deve ser dado às mulheres da aristocracia que fundaram importantes polos
CHÂTEAU DE SCEAUX
irradiadores de inovadoras propostas culturais, apesar do caráter mundano de alguns deles. Dentre esses salões, de duração variável, mas sempre de agitação muito marcante, citamos os da duquesa do Maine, no castelo de Sceaux, que começou a funcionar já no início do séc. XVIII; o de Madame de Tencis, o de Madame de Lambert, o de Madame de Deffand, o de Madame de Geoffrin e o de Madame de Espinasse, dentre outros.


O papel do homem de letras, através de uma ação concreta, é agora o de iluminar as mentes e incendiar os corações tanto de aristocratas quanto de burgueses. Para isso era preciso combater as ideias dos primeiros e fazer com que os outros, os burgueses, esquecessem as suas humilhações, prevenções, desconfianças e temores diante da outra classe. Não mais confundir o presente com o eterno, como queria a Igreja. Combater a espiritualidade cristalizada, refundi-la no sentido de torná-la algo vivo, em permanente movimento e que não se prestasse mais a se confundir com qualquer ideologia.

Reuniam-se nos salões, à época, ratés ou não, escritores, poetas, filósofos, divulgadores de ideias, o que havia, enfim, de mais significativo em termos de cultura, ao lado de aristocratas, mondains e demi-mondains de toda a espécie. Frequentá-los e participar das discussões acabou por tornar esses salões indispensáveis para se conhecer, no detalhe, não só a cultura do tempo, mas, sobretudo, a nova literatura que então se produzia. As reuniões eram presididas normalmente por mulheres que se distinguiam não só por seu espírito livre, por sua capacidade mental, por seu gosto e pela habilidade e tato que demonstravam ao desempenhar tal função. Embora se discutissem assuntos diversos, à designação de Salões costumava juntar-se o qualificativo de literários. Um aspecto interessante que nesses Salões se desenvolveu bastante, a par da apresentação de textos, foi o hábito da conversação, da causerie sobre choses de l’esprit, um hábito que acabou por se integrar também à vida social dos franceses, de uma elite que pouco frequentava os Salões. 

O   MUNDANO
É de se lembrar a propósito de tudo o que está acima que, em 1.736, Voltaire publicou um poema filosófico intitulado Le Mondain em que satirizava valores cristãos e elogiava uma vida de prazeres vivida em sociedade. "Viver no Jardim do Paraíso" seria viver num estado de barbárie. Le Paradis terrestre est où je suis (O Paraíso terrestre é onde eu estou), concluía Voltaire. A publicação de Le Mondain levou-o a se envolver num escandaloso debate público com escritores que defendiam o sistema político-religioso vigente. Ameaçado de prisão, refugiou-se em Bruxelas, na Bélgica.


SALÃO  DO  HÔTEL  DE  RAMBOUILLET

A influência das reuniões que se realizaram em Rambouillet, sobre o gosto e a língua franceses, vinha desde então, o que deu a este "Hôtel" um lugar muito importante na história da literatura francesa. O "Hôtel", um grande palácio, servia de residência parisiense a Catherine de Vivonne, Marquesa de Rambouillet, de quem saiu o nome do "Hôtel", conhecido noutros tempos como Hôtel de Pisani. O Rambouillet ficava localizado nas proximidades do Palácio do Louvre, onde atualmente se ergue o Palais Royal.


CATHERINE  DE  VIVONNE - PISANI

A influência de Rambouillet pode ser traçada desde o início do séc. XVII, mais exatamente desde 1608, quando um grupo lá se reuniu para discutir literatura. A influência deste Salão pode ser constada até mais ou menos 1.660. O nome explica-se deste modo: pelo seu casamento com Charles d’Angennes, vidame (funcionário que substituía os senhores eclesiásticos em funções jurídicas ou militares) de Mans, depois marquês de Rambouillet pela morte seu pai, Catherine Vivonne-Pisani passou a ocupar a propriedade. Desde 1.608, por sua iniciativa, ela começou a receber um grupo da sociedade da época, iniciando-se assim as famosas reuniões desse "Hôtel", que foram ganhando uma expressão cada vez maior. Catherine, a bela marquesa, juntava às qualidades de sua afabilidade e de sua habilidade na administração do palácio (assumiu inclusive, como arquiteta, a responsabilidade pelas reformas no interior e no exterior do imóvel) superiores qualidades intelectuais por todos reconhecidas.

Durante o reinado de Luís XIII (1.610-1.643) teve também um certo destaque, embora não muito justificável o exagero, o Salão mantido por Madame Des Loges, chamada por seus admiradores de "a décima musa". Diziam mais esses admiradores que todas as musas pareciam viver no seu palácio sob sua proteção, prestando-lhe sempre as maiores homenagens. Porém, o que ficou realmente do séc. XVII foi o esplendor de Rambouillet, que uns poucos Salões, ainda que dignos de registro, procuraram imitar, mas jamais atingindo o seu éclat (brilho).

DUCHESSE  DU  MAINE
Só no séc. XVIII, porém, o movimento dos Salões ganharia um grande impulso com suas reuniões semanais realizadas aos sábados (salão da duquesa Du Maine) ou às terças-feiras (o da marquesa de Lambert). Muitos desses Salões, entretanto, apesar do esforço de seus patrocinadores para orientá-los na direção da cultura, das discussões literárias sobretudo e ainda que frequentados por gent d’esprit, ficaram conhecidos como “templos da galanteria e de graciosas frivolidades”.

MME  DE  LAMBERT
( NICOLAS LARGELY)
O Salão de Mme de Lambert, que funcionou entre 1.710 e 1.733, destacou-se dentre todos, porém, por ter, segundo Fontenelle, afastado de suas reuniões a “moléstia epidêmica do jogo” e por ter sido o único em que era possível participar, com espírito, de discussões culturais mais sérias, das quais participavam inclusive alguns religiosos. Há registros de que no Salão de Mme. de Lambert foram discutidos, antes de chegar ao público letrado, questões como a da “superioridade da cultura moderna sobre a antiga”, a da “inutilidade dos versos para a poesia”, “o absurdo das personificações mitológicas”, “o absurdo da manutenção de regras literárias apenas em razão de sua antiguidade” etc. Voltaire, por exemplo, foi, como frequentador destes Salões, um grande incentivador de Mme. Du Deffand para que ela, com destemor, continuasse a se manter firme na organização de suas reuniões.


BARÃO D'HOLBAC
( A.ROSLIN, 1718 - 793 )
Impossível esquecer, ao se discorrer sobre esse típico fenômeno aquariano do séc. XVIII dos Salões, o do barão d’Holbac, le premier maître d’hôtel de la philosophie. Há documentação abundante sobre ele; numa de suas reuniões, estavam presentes, dentre ouras figuras da época, Diderot, d’Alembert, Helvétius, o abade Galliant. Em tal reunião, segundo Rousseau, teria nascido a Enciclopédia. Este "Hôtel" era chamado pelo autor de Rêverie d’un pomeneur solitaire de club hollbachique.

STAËL  & B.CONSTANT
Com a revolução de 1.789 as reuniões deixaram de ser realizadas. Quando as agitações políticas terminaram, a vida pode renascer, reiniciando-se as reuniões. Um dos primeiros a funcionar foi o de Mme. de Staël & Benjamin Constant. Os tempos, porém, eram outros, perdera-se o ímpeto do século XVIII, embora alguns permanecessem ativos no novo século. Explicações? A política, a solicitação dos negócios e a crescente agitação no mundo do dinheiro acabaram com a disponibilidade para as coisas do espírito e enfraqueceram o gosto artístico. Acima de tudo, começou a faltar tempo para a delicatesse das supremas artes francesas, as da causerie e da conversation. Outras energias, na permanente troca que se dá entre elas e o céu (zodíaco das constelações e astros), estavam atuando, mudando a vida no nosso planeta.   

À Mara e ao Edson - São Paulo, outubro de 2.019