Século XX, fim da segunda guerra mundial, década dos
anos 50. Vivíamos num tempo de violência, violência física e moral. A História
estava repleta de nomes sugestivos: Nagasaki, Coreia, Dachau, Hiroshima,
Hungria, Congo etc. O homem então estava enquadrado: Nazismo, Fascismo, Capitalismo,
Comunismo. Era
o tempo das mãos sujas, como diria Sartre. Os anos que se seguiram à segunda
guerra mundial trouxeram o espectro atômico, as neuroses, os conflitos, as
desilusões. As gerações anteriores haviam legado duas guerras e a ameaça de uma
terceira. Se as verdades defendidas e proclamadas eram desmentidas no dia
seguinte, o que fazer? Se todas as formas de felicidade - família, religião,
pátria, trabalho – nada significavam, qual a saída? Se a vida não passava de
uma longa e tediosa acumulação de fins, para que viver? E os jovens viram-se
solitários, incapazes de responder às perguntas que a nova situação propunha.
Foi nesse panorama desolado que um fenômeno novo apareceu: o hipster. A origem da palavra é discutível.


O hipster americano era oriundo do proletariado e vivia no submundo das grandes cidades como Nova York, São Francisco, Los Angeles, Chicago. Ele podia ser um músico de jazz, ganhar a vida como um pequeno criminoso, assaltando supermercados ou postos de gasolina, ou viver de biscates em Greenwich Village ou, pelas estradas do país, numa fazenda, trabalhando nas colheitas. Alguns, todavia, encontraram refúgio em lugares mais rendosos, como cômicos de televisão ou artistas de cinema (James Dean). O hipsterismo desenvolveu-se grandemente nos EUA devido, principalmente, à difusão do jazz no país. Vale notar aqui que é o jazz que há de fornecer a inspiração formal para as obras dos beatniks. Kerouac diz o seguinte: Quero ser considerado um "jazz-poeta", improvisando um longo blue numa "jam-session", domingo à tarde... Outro beat afirma: "O escritor espontâneo deve possuir espírito particularmente ágil e extraordinariamente impressionável, capaz de armazenar não só pedaços episódicos dos acontecimentos, mas completas e elaboradas associações". E conclui Kerouac: A linguagem é fluxo tranquilo, a partir da mente, de ideias, palavras pessoais secretas, improvisado (como a música de jazz) sobre o tema da imagem.
Pelo jazz, o hipster chegou ao negro, que é a fonte alimentadora da sua filosofia existencial, juntamente com os outros dois grandes rebelados da sociedade americana:

Com efeito, o negro
americano teve que escolher desde cedo (os livros de Richard Wright são
bem esclarecedores):
ou ele se curva, se humilha, se submete, ou então ele elege a violência como
meio de vida, isto é, ele passa a dizer não aos squares, tanto brancos como negros. E, como o negro, o hipster vive no presente, pois ele deixava
de lado qualquer forma de antecipação para agarrar-se somente ao que podia revelar
a verdade do seu momento. Todos os contactos do hipster eram, por isso, imediatos e intensos: um diálogo sempre no
presente. Com esta atitude "presentista", ele procurava desviar
conscientemente a realidade do tempo do devenir como fator histórico. Dava-se o
mesmo com o negro que vivia na violência. Sem futuro, o negro tinha que viver num eterno
presente. Todos os seus atos eram provisórios, com um sentido limitado ao dia,
ao momento em que eram praticados. Era uma forma extrema de revolta; uma espécie
de anarquismo desesperado que engendrava facilmente o crime, como temos no herói
de Native Son, de Richard Wright.

Como
o hipster era jovem, a problemática do
sentido da sua vida não apresentava, a rigor, nada
de doentio, como tampouco
devia-se considerar patológica a angústia do homem que lutava por esse mesmo
sentido. O que havia era uma recusa lúcida, não se deixar influenciar pelo complexo
social, dominado pelo squares nem se deixar educar com vistas a esse conjunto
O hipster procurava criar valores de
situação para contrapô-los aos valores
eternos do square. Só assim, segundo
ele, a existência do homem se destacaria como algo essencialmente concreto. Só
deste modo, sob esta forma concreta e imediata, adquiria a vida humana um valor
de obrigatoriedade moral, peculiar e singular, apto a realizar as suas
possibilidades originais, que não se apresentavam senão uma vez. Ninguém, dizia o hipster, virá ao mundo com as mesmas possibilidades nem voltará
a tê-las; as ocasiões que se apresentavam eram únicas.

Daí a aproximação entre o Zen a “beat generation”. D.T.Suzuki, nos seus
Ensaios, que divulgaram o
Zen
no Ocidente, dizia: "Se o intelecto fosse capaz de trazer uma nova ordem à
inquietação, não haveria necessidade de filosofia, após ela ter sido sistematizada
por um grande pensador, um Aristóteles ou um Hegel. Mas a história do
pensamento prova que cada nova estrutura criada vem sempre a ser posta de lado
pelas seguintes. Esse constante construir e destruir tem sentido como maneira
de ser da filosofia, pois a natureza inerente ao intelecto pede que isso
aconteça. Mas quando se trata da própria vida, não podemos esperar pela última
solução oferecida pelo intelecto. Não podemos suspender nem mesmo por um
momento nossa atividade de vida à espera de que a Filosofia nos revele seus mistérios. Que os
mistérios permaneçam como estão — viver nós podemos. A fome não pode
esperar até que se faça uma completa análise do alimento e se determine o valor
nutritivo de cada elemento".

O Zen é um meio e uma visão de vida que não pertencem a nenhuma das
categorias formais do moderno pensamento ocidental. Não é uma filosofia nem
uma religião; não é uma psicologia ou um tipo de ciência. Historicamente, o Zen pode ser considerado
como a realização de antigas tradições culturais hindus e chinesas que se
fixaram profundamente na cultura japonesa e que, depois da segunda guerra mundial,
passaram a exercer uma influência considerável nos meios intelectuais e
artísticos do Ocidente, principalmente norte-americanos.
Algumas das principais propostas do Zen já
estavam de certa forma embutidas na obra dos escritores da beat generation,
duas em especial: procurar livrar o homem do dualismo, partindo da compreensão
do absurdo das escolhas. “Nós devemos, dizia o Zen, começar por sentir a
relatividade e por conhecer que a vida não é uma situação da qual há algo para
se extrair.” A outra proposta se referia à necessidade de se viver no aqui e no
agora. Ação e instantaneidade.
Enquanto a experiênci

É evidente que o
Zen
que chegou aos escritores da beat
generation nada
tinha de ortodoxo, sempre uma visão extremamente pessoal. Aliás,
vale lembrar, quanto a essa questão da “pureza doutrinária” que o maior
divulgador do Zen nos EUA foi o inglês Allan Watts, que para lá se mudou em
l938. Instalando-se na Califórnia, São Francisco mais exatamente, como
professor universitário, dali espalhou o Zen através de textos e palestras. Watts,
salientemos, nunca foi bem aceito pelos meios oficiais do Budismo Zen
(ramificações japonesas) instalados no país nem pelos scholars e psicólogos que na esteira de Suzuki teorizaram sobre a doutrina.


A relação entre o
Zen e a beat generation (Kerouac, Gregory Corso, Allen Ginsberg,
Anatole
Broyard,
Lawrence Ferlinghetti e outros) foi, à época, claramente apontada em
muitas publicações (essa dimensão escapou do filme de Walter Salles e dos que se meteram a falar sobre o seu filme). A Chicago Revue, por
exemplo, divulgou, à época, textos de Jack Kerouac juntamente com matérias sobre o Zen.
Em 1959, para jogar mais luz (ou mais poeira) sobre a relação, foi publicado Beat Zen Square and Zen, em paperback, de autoria do próprio Allan
Watts. Jack Kerouc, lembremos, desde o
início dos anos 50 se interessara pelo Zen; tem na sua bibliografia um livro (Dharma Bums, Vagabundos do Dharma) em que
essas questões são abordadas, um livro dedicado a um poeta chan (Zen chinês), no
qual alguns procuram descobrir a personalíssima espiritualidade de Kerouac.
Anatole

