terça-feira, 6 de abril de 2021

AS CAVERNAS E O DEUS PAN

             

Se num primeiro momento grutas e cavernas são proteção, agasalho, nutrição, segurança, noutro elas poderão se constituir em abafamento, sufocação, castração e mesmo morte. Sair da gruta será sempre um problema, qualquer que seja o motivo. Foi certamente pensando nisto e em muitos outros aspectos relacionados com elas que os antigos gregos deram forma ao mito do deus Pan e, na filosofia, Platão, A República (Livro VII). 

No mito, Pan, nome que em grego quer dizer tudo, o todo, a totalidade, é filho do deus Hermes e da ninfa Dríope. Consta que por ser muito feio, peludo, teriomorfo, com orelhas pontiagudas, patas como as de bode no lugar de pés, e um pequeno rabo, foi rejeitado pela mãe. Hermes o levou então para o Olimpo. Saltitante, inteligente, curioso, querendo participar de tudo, desde logo o filho de Hermes deu também demonstrações de ter nascido com um intenso furor erótico. Foram os deuses que lhe deram o nome de Pan. O deus Dioniso se encantou com o jovem deus, obtendo a permissão do pai para integrá-lo ao seu séquito, sempre ruidoso e barulhento, com as suas sacerdotisas, as mênades. 


PAN
Pan passou a viver na Arcádia, região de pastores e poetas, sendo-lhe atribuída, de comum acordo com a deusa Ártemis, a tutela das regiões que ficavam além do oikos, dos territórios que ligavam o conhecido ao desconhecido, lugares que levavam do mundo familiar ao Grande Mundo, ao Todo. Pan passava os seus dias perambulando pelos campos, sem um lugar fixo, em meio a brincadeiras, ora dormindo em grutas, banhando-se nos rios, sempre com muitos companheiros, tocando a sua flauta (syrinx), perseguindo as ninfas e assustando os viajantes que se aventurassem pelos caminhos, pelas florestas e pelas montanhas. 

Antes, porém, uma palavra sobre o oikos. Na Idade do Bronze, que precedeu o período  arcaico da história grega, no fim do qual pequenos núcleos urbanos e vilarejos começaram a se formar, o oikos era a unidade familiar básica, constituída pela propriedade (casa, terras, plantações, pastos, escravos e animais). O pai era a autoridade suprema, fazendo-se a transmissão da propriedade e dos bens sempre pela via patrilinear. A palavra economia, como a usamos hoje, tem a sua origem em oikos (família) e nomos (lei, regra, regulamento), ou, muito simplesmente, a lei da família, a lei da casa.

O sentimento de solidão e de desamparo que costumava atacar os viajantes quando longe do oikos, principalmente nos dias escuros, de mau tempo, ou em noites sem Lua, quando nenhuma voz era ouvida, os campos silenciosos, os animais recolhidos, esse sentimento começou a ser considerado, não se sabe bem por qual razão, como inspirado por Pan. Ansiosos, alarmados, aterrorizados, os viajantes, os peregrinos, sem um motivo justificável, ficavam paralisados por essa presença oculta de Pan, que se anunciava, como logo começou a se propagar, por um som por ele produzido, um som terrível, entre o grito humano e o uivo animal. Aos poucos, esse sentimento passou a ser chamado de terror pânico, um estado entre o pavor e o espanto, inexplicável, geralmente somatizado de diversos modos pelos que se afastavam do oikos, taquicardia, problemas respiratórios, paralisias, desmaios, quando não uma sensação de morte iminente.

NINFAS E PAN
Os companheiros de Pan nas suas aventuras eram os sátiros, os centauros e os silenos.  As ninfas (oréadas, dríadas, potâmidas, creneias e muitas outras), mesmo as mais retraídas, mostravam-se todas sempre muito curiosas com relação a Pan e seus companheiros, sobretudo pela lubricidade que sempre demonstravam. Da história de Pan consta que ele prestou serviços aos deuses quando da titanomaquia (luta entre os deuses olímpicos e os titãs), e que, juntamente com seu pai Hermes, salvou Zeus (seu avô), quando do ataque de Tiphon, o maior dos monstros da mitologia grega, que imobilizara o Senhor do Olimpo, cortando-lhe os tendões dos braços e das pernas. 

FAUNO
Dioniso, como se disse, gostava demais da companhia do filho de Hermes, fazendo questão de levá-lo em suas viagens, ficando famosa a que o deus do vinho fizera com ele  à Ásia para divulgar o seu culto. Um dos apelidos de Pan era Hylaeos, como divindade das florestas. Da Grécia seu culto foi levado para a Itália, como protetor de rebanhos. Lá foi assimilado aos faunos (protetores da fertilidade), aos egipãs (Pans na forma de homenzinhos que lembram a forma caprina). Consta que no norte da África, na Líbia, havia uns egipans com cauda de peixe, dos quais teria saído a representação do signo de Capricórnio, dos silvanos (protetores do verde da Natureza), estes conhecidos também pelo nome de paniscus.

PRÍAPO
Muito semelhante a Pan era Príapo, um filho espúrio de Dioniso e de Afrodite, protetor das colheitas e da fecundidade em geral, dono de uma magia simpática (apotropaica) infalível. Grande divindade asiática, Príapo pontificava na cidade de Lampsaco, na Misia, nas margens do Helesponto. Tinha uma ereção desmedida, persistente. Deu nome ao priapismo, uma patologia sexual. Diferente da satiríase, também uma patologia sexual, é o priapismo caracterizado por uma grande e mórbida ereção, nela não entrando nenhum desejo sexual, o que acaba levando o vitimado por ela à impotência, à esterilidade.  


SILENOS

Todas estas divindades campestres se ligavam a Dioniso e também a Pan. Dioniso, aliás, era chamado também de Baco, nome retirado de um verbo grego que significava ser tomado por um transporte divino.  Dessas divindades, por exemplo, saíram designações como sátiro, que usamos para qualificar hoje o homem obsceno, lúbrico, voyeur ou exibicionista. Segundo Homero, teria existido nas montanhas da Cítia um povo inteiro de sátiros, que, quando envelheciam eram chamados de silenos (sátiros envelhecidos). Os sátiros (etimologicamente, nome ligado a um verbo que significa distender, entumescer, inchar) eram divindades menores da natureza que acabaram se integrando também ao cortejo de Dioniso. Híbridos, eram humanos, com acentuados traços que lembravam sobretudo os bodes: orelhas pontudas, pequenos chifres na testa, peludos, cascos ao invés de pés. 

CENTAURO

Os centauros, filhos de Nephele, a Nuvem, e de Ixion (que viverá no Tártaro até o final dos tempos), costumavam também frequentar os territórios de Pan, chamados pelos gregos, de agros. Brutais, quase sempre embriagados, vivendo em bandos, alimentando-se de carne crua, os centauros simbolizam a concupiscência carnal, a ameaça da vida instintiva, sempre presente no homem que não sabe controlá-la. É neste sentido que os antigos gregos consideravam o centauro como uma antítese do cavaleiro que sabia dominar e controlar a sua montaria. 

PAN
Em parte zoomorfo, em parte humano, Pan era uma divindade turbulenta, que com os seus aparecimentos súbitos provocava, como se disse, o pânico entre os humanos, entre as ninfas e mesmo entre os deuses. Nos humanos, o terror neles infundido será diagnosticado, muito mais tarde, como uma síndrome, um conjunto de sinais e sintomas observáveis como vários processos patológicos. No seu aspecto mais visível, uma condição crítica passível de despertar inicialmente insegurança, medo, e terminar como prostração, imobilidade, às vezes com a sensação de morte súbita, como exposto acima. 

A chamada síndrome do pânico impede que a energia vital, certamente por pressões inconscientes vindas da gruta, isto é, do inconsciente, se readapte diante de situações existenciais não familiares, desconhecidas, que exigem prontas mudanças, rápidas respostas, novos procedimentos, novas maneiras de ser diante de situações inusitadas, imprevistas. Astrologicamente, é de se lembrar que o deus Pan “vive” entre a quarta e a quinta casas astrológicas, ou, de outro modo, entre o signo de Câncer e o de Leão, sendo também possível a seu aparecimento nas posições e aspectos desarmônicos que a Lua vier a formar numa carta astral. 

CÂNCER
O signo de Câncer relaciona-se com a fecundação e a concepção, com a alimentação, presentes sempre os conceitos de segurança, proteção e amparo. Câncer tem a ver com o lar, a mãe, a tribo, as heranças, as impressões, as lembranças, a força psíquica das origens, os sentimentos e emoções, a memória. Inferiormente, o signo lembra: estreiteza mental, impressionabilidade, acumulação, adesão incondicional ao passado, emotividade, humor caprichoso, indolência, infantilismo psíquico, atavismo, idiossincrasias, o domínio do hábito. Já o signo de Leão, bem ou mal, aponta para a conquista de um ego poderoso, autonomia, ardor vital, auto-expressão criativa, império da vontade, força emotiva ativa, busca da própria razão de viver, iniciativa, ampliação, orgulho, passionalismo, tendência à ação sem compartilhamento, narcisismo, infantilidade, cólera, necessidade de reverências, generosidade, exibicionismo etc.

LASCAUX ,  FRANÇA

Ornadas de pinturas e desenhos, como nos mitos de gênese de antigos povos, desde recuados períodos da história da humanidade, as cavernas sempre apareceram associadas aos órgãos genitais femininos e, por extensão, à fertilidade. Vários povos, os astecas, por exemplo, relacionavam, num mesmo contexto simbólico, a Lua, a caverna, a mulher e a chuva.

Aparecendo no simbolismo dos sonhos de alguém, as cavernas podem indicar, como nos explicam muitos onirólogos, a necessidade de ser buscado por este alguém um novo sentido para a sua vida, uma renovação, um renascimento. Sob o ponto de vista psicanalítico, sonhos deste tipo costumam representar sempre uma descida às camadas profundas da vida subconsciente. Escondem, quem sabe, um forte anseio que possa levar a uma regressão, a uma vida pré-natal, uma volta a um mundo obscuro, morno, a bolsa amniótica, onde não há escolhas, angústias nem decisões, onde tudo é recebido de graça, sem esforço algum.

As cavernas e grutas exercem, sem dúvida, um grande fascínio (que o digam os espeleólogos!) sobre todos aqueles que pretendem conhecer um pouco mais sobre si mesmos, indo às profundezas de sua personalidade. Qualquer que seja o enfoque, grutas  e cavernas representam sempre abrigos absolutos. Entrar nelas é psicologicamente um retorno ao mundo maternal, uma negação do nascimento, um mergulho no indefinido. É, neste sentido, uma renúncia à vida atual, terrestre, e um desejo de renascimento sob uma outra forma, como se disse. 

É de se lembrar também que muitas cerimônias de iniciação se realizavam em cavernas, em antros, grutas naturais e profundas, materializando o que os latinos chamavam de “regressus ad uterum”. Era neste sentido que entrar numa caverna, nessas cerimônias, era fazer um retorno à vida original com a pretensão de mais facilmente se chegar aos céus depois.

O mito da caverna, num sentido mais amplo, diz respeito a todos aqueles que não vêm o mundo por si mesmos, iluminado pela luz do Sol, pessoas que obtêm as suas informações e conhecimentos sempre de segunda-mão, através de outras pessoas, nunca por si mesmas. É como se vivessem simbolicamente num lugar de ignorância, percebendo apenas, quando muito, as sombras dos seres e das coisas do mundo que de fora lhes chega, projetadas nas suas paredes. Vivem com informações distorcidas, falsas, vagas, incompletas, reflexos confusos.

CULTO A MITRA
Nas cavernas de muitos povos da antiguidade, como se constatou, realizavam-se cerimônias, cultos, representações ctônicas associadas aos poderes de entidades noturnas e infernais, com a finalidade de fazer com que os iniciados (mystes) pudessem buscar o caminho da luz. Um exemplo do que aqui se diz nós encontramos nas cavernas onde os antigos persas celebravam os seus cultos ao deus Mitra, com tal finalidade.

SÃO JOÃO EVANGELISTA
Influenciando de modo marcante o cristianismo então nascente, sabemos que as festas em honra ao deus persa não só contribuíram para que os romanos estabelecessem a data de nascimento de Cristo no final do mês de dezembro como para inspirar a iconografia cristã. Tanto o nascimento de Jesus (estábulo de Belém) como seu túmulo, quando de sua inumação, foram fixados em grutas. Mais ainda: registre-se que João Evangelista recebeu a visão do Apocalipse numa caverna na ilha de Patmos.     


domingo, 28 de março de 2021

OS MONSTROS - VI


            

GRÉCIA   ANTIGA

Para uma melhor compreensão do que antes já se disse,  desviemos o nosso olhar para Creta, onde viveu Minos, rei da ilha. Filho de Zeus e da princesa fenícia Europa, teve ele o seu trono disputado por dois irmãos. Pedindo um sinal divino que o confirmasse como único imperador, Minos foi atendido. Com essa finalidade, o deus Poseidon fez sair das águas do mar de Creta um touro maravilhoso, que em seguida deveria ser sacrificado.

Deuses, como se sabe, se alimentam de nosso sacrifício. O sacrifício é um símbolo de renúncia, implicando uma troca entre o material e o espiritual. Na antiguidade, o sacrifício tinha por objetivo assegurar a salvação e devolver a inocência a um povo para que se livrasse assim de suas faltas, projetando-as sobre uma vítima, que recolhia as referidas faltas, executada (sacrificada) em seguida de maneira ritual. 

Símbolo de expiação, de purificação e de súplica, o sacrifício se apresenta muitas vezes sob o aspecto de uma morte ritual acompanhada de injúrias, de agressões, chicotadas, lapidação ou cuspidas lançadas sobre a vítima a ser sacrificada, como o exemplo muito conhecido do chamado bode expiatória, que carregaria consigo os males de toda a comunidade. 

A palavra sacrifício quer dizer tornar sagrado, sacrum facere. É o ato que permite ao humano a sua entrada na esfera do numinoso, ou seja, de um plano superior de vida, do divino, se quisermos. Todo sacrifício era na origem a oferta de alguma coisa, de um vegetal, de um animal, de um ser humano, de algo de valor, um bem, do qual se abria mão, se matava, que se entregava, para atrair as boas graças das potências divinas. O sacrifício, aos poucos, tomou o caminho de morte, de perda, especialmente de uma perda interior pela qual o ser humano se tornava mais digno neste comércio com o céu, ou seja, da ideia de uma vida superior que ele carregava dentro dele e à qual ele acedia.

POSEIDON
O animal enviado por Poseidon era, entretanto, tão maravilhoso que Minos não resistiu; logo pensou em utilizá-lo como reprodutor para aumentar ainda mais o seu enorme rebanho e, consequentemente, a sua riqueza. Assim fez, entregando ao sacrifício um touro de seu rebanho, muito inferior ao animal enviado pelos deuses. 

A punição veio imediatamente: a rainha Pasífae, mulher de Minos, foi tomada por uma incestuosa paixão erótica pelo animal. Ela pediu a Dédalo, o grande inventor grego, então exilado na ilha, que fabricasse, com toda a sua arte, o simulacro de uma fêmea, na qual ela entraria, para poder se unir sexualmente ao touro maravilhoso. Esta a vingança divina com relação à hybris de Minos. Algumas versões do mito nos informam que esta paixão contra natura foi inspirada a Pasífae por Afrodite por ter o pai da rainha de Creta, o deus Hélio, revelado publicamente os seus amores com o deus Ares, um episódio que nunca deixou de ser comentado nas festas do Olimpo. 

CNOSSOS
Da união da rainha com o touro divino nasceu o Minotauro, um ser humano gigantesco, com cabeça de touro, um monstro horrível que se alimentava de carne humana. Tamanha foi a vergonha dos reis de Creta que eles imediatamente pensaram num meio de escondê-lo. Mais uma vez Dédalo foi convocado. Pediram que ele construísse um imenso palácio, ao qual se deu o nome de Labirinto, na capital do país, Cnossos. Nos subterrâneos dessa grande construção o monstro foi encerrado. Para alimentá-lo era necessário, como se disse, lhe dar carne humana. Os gregos, à época, derrotados pelos cretenses, então uma civilização poderosa e esplêndida, pagavam-lhes um tributo por meio do qual o alimento do monstro era obtido. Enviavam anualmente muitos jovens para saciar a fome do Minotauro.

 MURAL  EM  CNOSSOS 
Mais tarde, Teseu, herói e rei de Atenas, irá a Creta e matará o Minotauro, com o auxilio da princesa Ariadne, filha de Minos. Pelo lado dos reis de Creta, esta história nos fala da cegueira das paixões. Pelo lado de Minos, o que temos é o desejo do lucro a qualquer preço, o desejo irrefreável da riqueza, a corrupção do dinheiro dos seres humanos no seu mais alto grau. Por parte de Pasífae, a sensualidade exagerada, o prazer dos sentidos numa de suas formas mais degradadas, a zoofilia. O fruto da perversão dos reis de Creta é o Minotauro, cuja crônica se liga à civilização cretense como um produto histórico da chamada era astrológica de Touro, situada mais ou menos entre 4000 e 2000 aC.

DIONISO
Na antiga tradição grega, o touro era o animal que simbolizava o deflagrar irrefreável da violência. Era por essa razão consagrado a Poseidon, deus dos oceanos, e a Dioniso, deus das metamorfoses, traduzindo como símbolo uma força calorosa e fertilizante, assimilada à falta de limites e, por isso, a tempestades e furacões, como se colocou. 

O tema do Minotauro ilustra a situação do desejo injusto quando eles nos vitima. É a representação mais perfeita da falta de controle diante das pressões internas, a submissão à pressão dos sentidos, a concessão mentirosa e os subterfúgios que usamos para nos desculpar diante dos nossos fracassos em procurar controlá-los, minimamente que seja. Numa primeira abordagem, a história do Minotauro nos coloca claramente dentro da esfera do passional, que se opõe ao que que é razoável, lógico, racional. Sem entrar no campo religioso, o que temos diante nós é a oposição entre o que os gregos chamavam de pathos e logos. Se este nos remete ao campo do racional, da ordem, da harmonia, da claridade, da universalidade da vida, o pathos se liga diretamente ao irracional, a sentimentos e emoções, à desordem, à desarmonia, à obscuridade, à particularidade, à doença, à loucura, à morte. 

   MURAL   EM   KNOSSOS

O mito também nos deixa claro, como muitos filósofos apontaram, que as paixões têm sempre um caráter terrível, inevitável muitas vezes, ameaçando a alma de desordem, de intranquilidade e de desassossego. Quando isto acontece no ser humano, a parte inferior (epithymia) invade a superior (logistikon). Por isso, as paixões, seja sob o ponto de vista religioso, psicológico, médico ou moral, em todas as tradições e épocas, sempre foram objeto de muita preocupação, de muita vigilância. Impondo-se, as paixões são sempre deploráveis, mesmo aquelas que a razão pode justificar, as socialmente aceitas, as chamadas paixões positivas. De qualquer modo, porém, mesmo estas, desequilibram sempre o ser humano, o colocam numa situação de vítima, já que o encerram muitas vezes num único modo de ser, devendo por isso ser controladas, atenuadas. 

Psicanaliticamente, o Minotauro deve ser visto como a expressão do recalque, do que não pode ser exibido à luz do dia, exposto, isto é admitido pela consciência. O Minotauro deve por essa razão ser escondido na escuridão do subconsciente (os labirintos, os corredores subterrâneos do palácio construído por Dédalo, símbolo do artista corrupto, aquele que produz apenas para satisfazer os poderosos). 

O recalque, lembremos, é um mecanismo de defesa que, teoricamente, tem a função de fazer com que as exigências pulsionais, as condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a eles ligados, passem do campo da consciência para o inconsciente, ao entrarem em choque as exigências contrárias. 

O recalque, lembre-se, não lida com as pulsões em si, mas com os seus símbolos, aquilo as representa, imagens ou ideias, conteúdos que, apesar de recalcados, continuam ativos no inconsciente, prontos para assediar o consciente, atacá-lo mesmo, apesar de todo o cuidado em se mantê-los contidos, abafados. 

Dessa história sai também a palavra labirinto, que pode tomar vários sentidos. A palavra, numa leitura religiosa, por exemplo, serviria para alegorizar o mundo, o mundo como labirinto, a dispersão, a queda, a perdição e a perplexidade do espírito diante da vida fenomênica. A redenção só seria possível se fosse encontrado um meio de sair dele, se obtivéssemos o fio de de Ariadne. O fio, como símbolo, em todas as tradições, lembra a ligação entre dois estados da existência, dois modos de ser. Os hindus dão o nome de sutra ao fio como elemento de ligação entre o corpo material e o corpo anímico. 

No mito grego, como se disse, Teseu foi a Creta para libertar a Grécia (Atenas) do pagamento do tributo (carne humana) ao monstro. Foi ajudado pela princesa Ariadne, filha de Minos e de Pasífae, que lhe forneceu um fio com o qual ele poderia entrar e sair do labirinto. Sem este fio, ninguém conseguiria sair vivo daquela imensidão que eram os subterrâneos do palácio, cheios de túneis, desvios, corredores, salões e escadarias, em níveis diversos. 

   FIO   DE   ARIADNE  

O nome Ariadne admite vários sentidos: a muito veneranda, a muito pura, a muito luminosa. Ela é como tal uma representante do mundo matriarcal enquanto Teseu o é do patriarcado. Dois mundos que deveriam se completar, pois. O mito nos diz, entretanto, que tal não aconteceu. A promessa era a de que Teseu, uma vez vencido o monstro, voltaria a Atenas levando s princesa como sua mulher. Ora, ao retornar, o casal resolveu fazer uma parada para descanso na ilha de Naxos. Passaram a noite juntos. Na manhã seguinte, quando Ariadne acordou, não viu mais Teseu. Correu à praia, olhou o mar. Ao longe, as velas negras do barco do herói grego e a certeza de que fora abandonada.

ARIADNE EM NAXOS ( EVELYN DE MORGAN, 1855 - 1910 )

Essa história nos revela claramente que Teseu se aproveitou de Ariadne; valeu-se dela e a abandonou. Essa história permite, porém, outras leituras: há entre os personagens uma inadaptação mútua. Ariadne lhe forneceu o fio na esperança de prendê-lo. É uma figura do matriarcado que cede para conquistar. Dois mundos em conflito, um, o de Ariadne, agonizante, o matriarcado; o outro, o de Teseu, o patriarcado se afirmando cada vez mais sobre o outro, preparando-se para derrotá-lo, o que de fato aconteceu, imponde-lhe os seus valores.

Teseu não entendeu que o fio de Ariadne significava a oportunidade de um segundo nascimento (união entre o masculino e o feminino de sua personalidade). Fixado unicamente no seu lado masculino, usou o fio e abandonou a princesa, que, como o mito nos conta, foi encontrada pelo deus Dioniso na praia de Naxos. Dioniso a transformará em sua mulher e depois a matou, ou melhor, sacrificou. Antes, para celebrar a sua união com a princesa, Dioniso a presenteou com um belíssimo diadema, que depois será colocado nos céus como a constelação Corona Borealis. Lembro que astrologicamente uma das “vítimas” das influências desta constelação foi a princesa Diane, da Inglaterra, conforme depreendemos da leitura de sua carta astral.

Ariadne é um símbolo feminino, o da mulher que, fixada nas suas prerrogativas matriarcais, tenta manter o seu status, não sabendo se renovar, diante da ascendente ordem patriarcal. Numa outra leitura, Ariadne era em Creta uma antiga divindade da vegetação que na “nova ordem” (a nova ordem era a cultura do vinho, Dioniso) perdeu o seu poder, a sua posição cultual, mas com direito, na sua agonia final, a uma apoteose digna. Dioniso é a inapelável destruição das formas que não sabem se renovar. 

DIONISO E ARIADNE (TICIANO VECELLIO, 1490-1576)

Na ilha de Naxos, como recorda Plutarco, celebravam-se festas que tinham um duplo caráter, em honra a Ariadne e a Dioniso. Festas da dor e da alegria, com muitos cantos primaveris e ditirâmbicos. Estas festas viam a princesa como uma deusa da vegetação que tinha que morrer e renascer anualmente para dar lugar ao vinho (plantações do deus). 

Ariadne foi para Teseu, de certo modo, segurança, proteção e ternura. De outro modo, ao tentar levar essas funções muito longe (mãe-amante que abafa, castra e mata), ela significava riscos de opressão, de estreiteza, de limitação, insuportáveis para uma figura típica do patriarcado como Teseu. 

O encontro de Ariadne com Teseu marca a última fase do matriarcado e o início do acesso do patriarcado ao poder, na eterna alternância histórica das forças que atuam no universo, no jogo das polaridades. O matriarcado como se sabe está ligado a cultos agrários, nos quais a mulher ocupa posição importante, como doadora da vida. 

Com a afirmação das forças patriarcais, sobretudo sob o ponto de vista religioso (religiões do pai), submetido o princípio feminino ao masculino, a mulher, como grande-mãe, não deixará de ser reverenciada, mas sempre numa situação subalterna. Criam-se, por exemplo, ficções como a de virgens dando à luz a heróis e profetas. As diversas madonas que vão aparecer na arte ocidental, principalmente no Renascimento vêm desse mundo. 

O grande modelo da madona na arte ocidental se inspira claramente em Perséfone, como ela aparece na segunda fase (epopteia, contemplação) dos mistérios eleusinos, com um menino-deus de nome Brimo nos braços. 

Receptáculo da vida, matriz na qual foi concebido o mundo animado, associada às águas originais, a figura materna aparece em todas as tradições sob uma forma múltipla de aspectos, da mãe-virgem, passando-se pela madrasta infame, à prostituta. É sob estes três principais aspectos que as religiões patriarcais a vêm.

KALI
Os mitos, lembre-se, sempre utilizaram a imagem da Mãe Universal para conferir ao cosmos as suas originais propriedades femininas como nutriz e protetora. Há mais de 5.000 anos os cultos de inúmeras Grandes-Mães eram celebrados em grande parte do mundo já civilizado. Eram, no geral, divindades ligadas à terra, ao mundo da agricultura como símbolos da fertilidade. Nessa condição, as Grandes-Mães sempre representaram a vida e também a morte. Nascimento: saída da matriz; morte: retorno à Terra-Mãe. Na Índia, por exemplo, Kali é o nome da Grande-Mãe que sob o seu duplo aspecto é tanto terrível como benevolente. 

A psicologia moderna vê (entende?) que o arquétipo maternal sempre evoca as origens, a natureza, a vida instintiva, a criação passiva no seu aspecto gerador. Daí para esse entendimento a mãe encarnar sempre o aspecto vegetativo da criação, o inconsciente, os fundamentos da consciência, mas, ao mesmo tempo, a obscuridade noturna e angustiante.

MADONA  COM A  CRIANÇA  ( FILIPPO LIPPI, 1406 - 1469 )

Sob seu aspecto nutriente, a mãe é símbolo de saciedade, de carinho, de amor, de calor, de compreensão. Ela é proteção, refúgio, abrigo sempre procurado quando das tempestades da vida. Primeiro objeto de amor do que nasce, a mãe é também um primeiro ideal, conservado como fundamento inconsciente de todas as imagens de felicidade, de verdade, de beleza, de perfeição, que todas as imagens da Madona com o Bambino, por exemplo, procuraram fixar na arte da Renascença. 

No psiquismo masculino, a imagem materna tem relação com o inconsciente, significando uma relação (fixação) prolongada com ela um complexo (conjunto de sentimentos) a que a psicanálise deu o nome de complexo de Édipo: amor e desejo de reintegrar com ela um paraíso perdido contra o qual se opõe a figura paterna, odiada, no mais das vezes, inconscientemente.

É por essa razão que na Oniromancia as frequentes aparições da figura materna indicam uma falta de autonomia na conduta da existência. No inconsciente masculino, a aparição da figura materna costuma se dar por imagens que lembram a água e suas profundezas, a Lua, feiticeiras, pesadelos infantis, baleias, sempre ligadas a aspectos devoradores, à sua autoridade excessiva, à sua ausência ou maldade. Evidente, todas estas imagens indicam claramente ao sonhante a necessidade de se livrar da influência onipresente da mãe para adquirir um eu autônomo. 

As imagens maternais, arquetipicamente, podem tomar, num sentido pessoal, a forma de uma governanta, de uma ama-de-leite, de uma velha ama, de um animal (vaca) e, num sentido mais amplo, de uma gruta, de uma fonte, de uma igreja, de uma universidade, de uma cidade, de um país, da floresta. Não é por acaso que Alma Mater, por exemplo, é uma expressão muito usada, em determinados meios universitários, para designar a escola em que se formaram.

O tema do Minotauro é uma ilustração do desejo injusto, da submissão à pressão dos sentidos, das concessões mentirosas, dos subterfúgios que inventamos para apaziguar a nossa consciência. Psicanaliticamente, o Minotauro é, como se disse, a expressão do recalque, do que não pode ser exibido à luz do dia (admitido pela consciência) e que, por isso, deve ser escondido na escuridão do labirinto (subconsciente). O recalque é um mecanismo de defesa que, teoricamente, tem por função fazer com que as exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a ela ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias.


Dessa história sai também a palavra labirinto, que pode tomar vários sentidos. A palavra, numa leitura religiosa, servirá para alegorizar o mundo, o mundo como labirinto, a queda e a perdição da alma na dispersão e na perplexidade da vida fenomênica. A redenção só seria possível se alguém nos fornecesse um meio de sair dessa dispersão (o fio de Ariadne), que nos ajudasse a encontrar o caminho para sair dos corredores desse mundo subterrâneo. 

O labirinto pode ser também uma ilustração do mundo do erro, da necessidade que temos de ultrapassar os limites de uma vida vegetativa, na qual a maioria vive encerrada. Quando nascemos, entramos nesse mundo, somos quase vegetais. Precisamos caminhar em direção do animal e deste em direção do humano. Encontrar a saída, a luz, é muito difícil. Por isso, em muitas tradições a entrada na vida lembra a entrada num labirinto. No mundo das interpretações, a entrada no labirinto pode aparecer muitas vezes como uma ilustração da viagem noturna do Sol. Ao se esconder atrás das montanhas ou mergulhar no oceano, o Sol inicia uma viagem subterrânea que lembra muito uma viagem labiríntica. 

Outros consideram o labirinto como uma representação da mente do homem desprovido de uma dimensão espiritual em sua vida. Na catedral de Chartres e em muitas outras encontramos labirintos esculpidos (desenhos) nas pedras do seu solo para representar a vida como peregrinação e as dificuldades que nela podemos encontrar. Os labirintos nas catedrais europeias são chamados de caminhos de Jerusalém, considerados como substitutos da verdadeira peregrinação. 

A arte barroca  e a que lhe sucedeu, a arte rococó, em muitos parques públicos e privados,  (castelos), principalmente na França, transformam os labirintos, de esquemas relativamente simples, em verdadeiros dédalos (outro nome de labirinto) de vegetação alta e espessa, com o objetivo de divertir os visitantes.

Os labirintos na arte ocidental tomaram sempre o caminho que se estende por várias direções, falando-nos de encruzilhadas, possibilidade de escolhas, extravios, erros etc. Na linguagem corrente, a palavra labirinto tem invariavelmente o sentido de complicação, de enredamento, de um domínio do espaço problemático, possuindo um valor negativo,  traduzindo sempre a ideia de uma construção tortuosa destinada a desorientar as pessoas. 

No Renascimento, a imagem do labirinto começa a ser usada para representar a confusão da vida interior do homem. Entenda-se: na Idade Média, o mundo exterior era ainda ameaçador, o labirinto estava fora. No fim da Idade Média, os poetas começaram  a pensar que o labirinto estava dentro do homem e, como tal, era ele que o projetava para fora. De objetivo, o labirinto se torna uma figura subjetiva. 

O primeiro escritor a propor uma leitura totalmente nova do labirinto foi Boccaccio (1313-1375), gênio da poesia. Numa obra, Il Corbaccio (O Sonho), que tem por subtítulo Laberinto d´amore, o poeta descobre os caminhos tortuosos do amor. Apaixonou-se por uma bela viúva que não lhe deu a mínima atenção, ridicularizando-o inclusive.  A esse descaminho amoroso ele deu também o nome de curral dos porcos de Vênus. Daí para frente, a imagem do labirinto se integrou à poesia amorosa, designando uma espécie de prisão sem portas, cárcere voluntário no qual o poeta se encerrava.  

Aos poucos, nos séculos seguintes, o labirinto deixou de ser a imagem de uma sedução, de encantamento, de um sortilégio mais ou menos longo, para se tornar a imagem do próprio mundo. O foco da interpretação do labirinto deixou de se fixar na tensão entre o interior e o exterior, para considerar o próprio mundo como labirinto, de aparências enganadoras. 

Na Renascença o labirinto deixou de ser uma realidade exterior e hostil, uma realidade da qual o homem só se salvaria pela misericórdia divina. A partir de então fixa-se a leitura de que o labirinto é o espaço em que nos movimentamos, um lugar onde cada um tem que encontrar pessoalmente o seu próprio caminho. Desaparece também a ideia de que a saída do labirinto poderia levar a esta ou aquela meta. A obra de Kafka parece ter posto um final a essa ideia, de que há um centro a alcançar. Seu personagem K., perdido entre o Castelo e Josefov, em Praga, anda pelas ruas, entra por ruelas,
atravessa pontes, abre portas, mas não consegue chegar a lugar nenhum, para afinal ser julgado sem saber bem o que acontece. Com a obra de Kafka chegamos definitivamente à conclusão de que não há metas, mas tão somente caminhos. Dessacralizado o espaço, perdida a ideia de um centro, com Kafka começa aquilo que podemos chamar de errância moderna, um processo que James Joyce, na literatura, com o seu Ulisses, levará às últimas consequências. 

OS MONSTROS - V

 

ESFINGE  DO PALÁCIO DO BELVEDERE  DE  VIENA

A Esfinge faz parte daquela família de monstros formada pelo humano e pelo animal. A palavra esfinge vem do grego, do verbo sphinguein, apertar, constranger, sufocar, um monstro cuja característica principal é a de oprimir, atormentar, abater. Sua forma mais antiga parece vir do Egito, conforme imagens encontradas isoladamente ou em obeliscos e pirâmides. 

Embora o modelo clássico seja formado por uma mulher (cabeça) e por um corpo de animal (leão), sua forma admitia muitas variações no mundo antigo. Podiam ser encontradas Esfinges com cabeças de homem (androsphinx), com cabeças de carneiro (criosphinx) e com cabeças de falcão (hieracosphinx), ou com cabeças de faraós, do deus Amun e do deus Horus.

ESFINGE  COM  CABEÇA  DE  CARNEIRO

As Esfinges, lembremos, eram também encontradas em outras tradições, oriundas principalmente de cultos solares indo-europeus ligados aos pontos cardeais, como a babilônica, a assíria, a persa, a fenícia e a hitita, nelas aparecendo na parte inferior, além do leão, o touro ou a águia. Entre os egípcios, as Esfinges eram as senhoras dos segredos, guardando as necrópoles e os mistérios da existência, servindo de advertência àqueles que, desejando ter acesso a uma vida superior, deveriam renunciar ao conhecimento profano.

Nas Esfinges onde o touro aparecia, seus flancos, para muitos, representavam a matéria corporal, a nutrição abdominal, a inércia, a vida da sensualidade, a linfa. A cabeça humana da esfinge, nessa composição, representava já o espírito imaterial, sede do pensamento, mas preso ao saber terrestre e ao elemento terra. As garras e os membros dos animais representavam o fogo devorador, o vigor ativo e a energia unificadora que punha em ação os instintos e as resoluções voluntárias, com maior ou menor intensidade. 

QUATRO ELEMENTOS
Sob o ponto de vista da teoria dos elementos (fogo, terra, ar e água), o touro é terra, lunar, símbolo da fecundidade e aparece associado às divindades atmosféricas; seu mugido, nesse sentido, lembrava furacões, tempestades, enquanto seus chifres os crescentes lunares. Já a águia é ar, com as suas asas e seu olhar que tudo percebe, é símbolo da divindade sempre vigilante em todas as antigas civilizações. O leão, por sua vez, representa, dentre outras coisas, o poder destruidor do Sol, tão necessário para manter a harmonia do universo, como seu poder gerador.  

Temperamento, como sabemos, é índole, propensão, constituição psicofísica particular, conjunto de características vitais. Cada temperamento se relaciona com um ou mais elementos fundamentais da vida universal (fogo, terra, ar e água) dando-nos uma ideia do caráter (etimologicamente, coisa gravada) daquele que o ou os ostenta. No geral, temos mais de um elemento que costumam atuar em conflito.  Neste sentido, temperamento é dosagem. Nos humanos, por exemplo,  a dominante fogo (masculina) produz o tipo colérico, que se caracteriza pela atividade, pela determinação ou impetuosidade. Suas resoluções são rápidas e tendem a descarregar suas emoções em atos, palavras ou manifestações grandiosas. O tipo fogo mais puro é lacônico e costuma reduzir a sua sociabilidade a um meio para alcançar os seus fins. 

A dominante terra (feminina) produz o tipo melancólico, de temperamento introvertido, analítico, desconfiado, minucioso. A sociabilidade não é o seu forte, fazendo, por isso, amigos com certa ou muita dificuldade. Costuma ceder ao pessimismo, apresentando aversão por pessoas que têm pontos diferentes dos seus. Perfeccionista, precisa de muitos dados e informações para tomar decisões. Psiquicamente é o que podemos chamar de um ruminante.

A dominante ar, considerada masculina, produz o tipo normalmente vivo, ativo mentalmente, agitado. Tem facilidade de expressão, comunica-se com relativa facilidade. Pode ser inconstante e oscilar entre a atividade mental exuberante e a indolência. Estabelece muitos contactos, mas geralmente não os aprofunda. Sua noção de espaço não é muito boa, atrasando-se com frequência. Nas religiões, liga-se à manifestação do chamado sopro divino, sendo, como tal, um símbolo de espiritualização.  

A água, elemento feminino como a terra, é uma força original adaptável e calma geralmente, tendo relação com o norte, com o frio, com a pureza, indicando, nos sonhos, a necessidade de regeneração, de esquecimento do passado. É símbolo do inconsciente. É nesta perspectiva que sonhos com banhos podem significar a necessidade de mudanças ou da companhia de pessoas dinâmicas e realizadoras. O tipo água é muito sensível, sentindo sempre mais do que consegue expressar. Teme o perigo, mas pode produzi-lo pela imaginação. Nos tipos inferiores, faltando o entusiasmo, a lentidão e a dispersão predominam.  

Cada temperamento, como se viu, corresponde a um dos quatro elementos e tem relação com características físicas, morais e psíquicas. Os estudiosos da ciência do temperamento na antiguidade nos diziam que é mais importante conhecer o temperamento de alguém do que simplesmente julgá-lo. 

A sabedoria antiga retirava do enigma da esfinge as quatro regras fundamentais da conduta humana: 1) saber com a inteligência do cérebro humano; 2) querer com o vigor do leão; 3) ousar ou se elevar com o poder audacioso das asas da águia; 4) se calar com a força massiva e concentrada do touro. 

ESFINGE  DE  GIZÉ

A grande Esfinge de Gizé, no Egito, é sem dúvida o mais antigo e conhecido desses monumentos compostos, inclusive pelo tamanho. Tem cerca de 74 m. de comprimento; sua face tem 4 m. de altura. Até bem pouco tempo, sempre se acreditou que esse monumento havia sido construído entre os anos de 2.528 - 2.520 aC., durante o reinado do faraó Radjedef, sucessor do faraó Khufu, construtor da grande pirâmide. Está hoje provado, porém, que a esfinge egípcia é um monumento astrológico, como outros de natureza megalítica, encontrados em várias partes do mundo. Ela foi construída entre os anos 10.000 - 8.000 aC, para marcar a  passagem da era astrológica de Virgem para Leão. 


ESFINGES   FUNERÁRIAS

No mundo grego, as Esfinges, por influência egípcia e oriental (Síria e Fenícia),  começaram a ser usadas como monumentos funerários. Sob a forma de uma mulher alada, seios túmidos, sorriso misterioso, projetada para frente, presa a uma coluna, guardavam passagens e desfiladeiros. Propunham elas enigmas (enigma, em grego, é fala obscura, equívoca) aos que passavam, devorando todos aqueles que não os resolvessem. 

Segundo este entendimento, formulariam as Esfinges gregas, de modo ambíguo, o enigma da vida, que só poderia ser vencido pela inteligência. Mas a grande perversão da vitória pela inteligência estava no fato de que ela não bastava, de que ela era sempre precária e efêmera, uma vitória onde a elevação não entrava, pois ela é em si mesma ausência de transcendência. Por isso, vencer a esfinge, símbolo da vaidade destrutiva, era mergulhar no abismo.  


ESFINGE ( FERNAND  KHNOFF, 1858 - 1921 ).

As Esfinges, na Grécia, tornaram-se monstros sedutores e, como tal, foram erotizadas. Perderam as características de guardiãs de necrópoles para adquirir uma outra função, pela qual se tornaram muito conhecidas. Prometiam ao vencedor sexo e elevação, uma contradição, uma elevação falsa, porém, que não podiam dar porque fixadas à terra. Suas propostas, como cruéis cantoras (no que se igualavam às sereias) eram de uma  plenitude maligna, infernal.

ÉDIPO  E  A  ESFINGE
As Esfinges gregas, como sua longa crônica nos informa, numa leitura superficial, desavisada, falam, num primeiro momento, de vitórias exteriores. Por isso, atraíam tanto a juventude, ávida de glórias mundanas, momentâneas, que julgava poder vencê-la com a sua destreza física. Numa leitura mais consequente do mito,  porém, Fix, a Esfinge, diz que não podemos nos contentar com as vitórias exteriores, baseadas apenas na na cólera guerreira ou na inteligência, com as quais Édipo, por exemplo, se contentou. As grandes vitórias deverão se concentrar sempre na vida interior, pois implicam geralmente em transformações ou em redimensionamentos da  personalidade. A vitória sobre a Esfinge, neste sentido, não pode ser quantificada. O que a Esfinge sugere, nessa leitura, é que devemos ser verdadeiros com o nosso eu interior, mutante, por que só ele é real. 

O que a esfinge nos propõe no fundo, também, é uma luta permanente que devemos travar contra a queda, contra a banalização, contra a acomodação, baseada em vitórias físicas e mentais desprovidas de elevação. A vitória sobre a Esfinge deve ser uma vitória sobre o permanente em nós, ou seja, uma vitória sobre a morte, sobre os acréscimos que trazemos para dentro do nosso ser ou que sobre (dentro dele) ele depositamos.

A vitória sobre a esfinge é a descoberta de que permanecer é morrer. Só uma coisa morta pode ser permanente. Os oceanos estão aí nos dizendo que vida é fluxo e refluxo. Sem fluxo e refluxo não há vida. Tudo vive através da mudança, isto é, ir de uma polaridade a outra, é alternância constante, pois só assim poderemos nos tornar mais vivos e renovados.

MUSEU  DO  TEMPLO  DE
APOLO , DELFOS
A vitória sobre a Esfinge não pode ser obtida pela ciência, pela mente, já que a ciência é o conhecimento de tudo o que é externo; ela afasta a ideia de autoconhecimento. As bibliotecas e hoje a Internet, por exemplo, estão repletas de informações; podemos recolher nelas todas as informações do mundo, mas continuaremos ignorantes porque o conhecimento real consiste em se alcançar níveis mais altos de ser e ser mais não é ser mais informado, ter mais informações. Todo crescimento interior significa que estamos dando à luz a nós mesmos. Este processo deve ser contínuo e nunca deverá chegar a um fim, é interminável. Além do mais, é doloroso, trabalhoso, porque não há nem nunca houve crescimento sem sofrimento.

sábado, 27 de março de 2021

MONSTROS - (IV)

O que fica de mais consequente da história do Golem é que ele, como proposta última, é uma criatura do mundo religioso, representando a pretensão que o homem tem de imitar a Deus. Sua criação, segundo essa mesma visão religiosa, não passa de algo incompleto; o ser criado é destituído de liberdade, inclina-se para o mal, tornando-se escravo de suas paixões. Numa outra intepretação, mais adequada talvez, o Golem seria a imagem da criação tecnológica que se rebela contra o seu próprio criador e que pode esmagá-lo. 

HEFESTO
Essas ideias sempre circularam ao longo da história do homem em todo o mundo medieval, sendo oriundas, para a cultura ocidental, principalmente da Grécia antiga. O deus Hefesto, grande divindade metalúrgica, mestre do fogo e das artes da transformação, sintetiza certamente no seu mito todas estas pretensões humanas. É por essa razão visto como o deus da tecnologia, capaz de criar maravilhas sob o ponto de vista técnico, mas é totalmente amoral, aético na sua ação. Basta-lhe, apenas, a perfeição técnica do que cria, não entrando ele jamais em outras cogitações e questionamentos sobre o que produz. É, como tal, como se disse, símbolo do demiurgo amoral e, como tal, uma das grandes imagens da tecnologia moderna.  

Os rabinos, segundo a tradição cabalística medieval, entenderam que Deus não fabricara Adão de uma só vez. O caminho parece ter sido longo, combinações repetidas e corrigidas várias vezes. As disposições alfabéticas indicavam que era preciso, partindo do tetragrama IHVH, combinar as letras 231 vezes para dar vida à criatura. Tal foi feito, transformando-se aquele monte de terra acumulado, ao embalo monótono das recitações, num ser encorpado, terroso. A obra se completou quando, como se disse, lhe foi inscrita na testa a palavra Emet (Verdade). Também como já se viu, deram-lhe a missão de proteger os habitantes de Josefov dos ataques antissemitas.

Mas o monstro ficava cada dia maior, a ponto de sua cabeça romper o telhado da casa. A população da cidade começou a acorrer ao bairro para ver o prodígio. Vagando à noite, o Golem começou a matar indiscriminadamente as pessoas. A violência tomou conta da cidade. Os habitantes do bairro, antes protegidos, começaram a se sentir ameaçados pelo monstro, pedindo a sua morte. Não restou outra alternativa ao rabino senão a de destruí-lo. Uma noite, numa sala da casa, só o criador e a criatura, o rabino acercou-se dela e conseguiu apagar a primeira letra do nome que ela trazia gravado na testa. Imediatamente, o Golem se desmanchou, se desfez. Uma massa informe ocupou toda a sala, sufocando o rabino. Como um teraphim, nome que lhe deram os hebreus, o Golem, nesse sentido, não só se aproximou do simbolismo do urso (ser humano incompleto), como daquele que cercava os Penates e os Lares romanos (deuses protetores da casa e da família). 

LÂMIA
(JOHN WATERHOUSE, 1849-1917
Pela aproximação acima e lançando agora o nosso olhar ao antigo mundo grego, um dos monstros que mais chama a nossa atenção é a Lâmia, cujo nome provém de um radical grego lem, que tem o sentido de devorar, sugar. A mitologia, na versão mais canônica, nos informa que ela é filha de Poseidon e de Líbia, aparecendo nas histórias como um monstro raptor e devorador de jovens ou crianças. Poseidon é o deus do elemento líquido, dos oceanos, dos mares, dos rios e dos lagos. Um de seus apelidos é Hippios, o gerador de cavalos, ligando-se, como tal, a esses animais como símbolos da vida ctônica, do psiquismo inconsciente. Um de seus filhos é, por exemplo, Pégaso, cavalo alado da mitologia grega, que tem a ver com a inspiração, com a imaginação poética, desde que montado por heróis (artista competente). Aqueles que o montam sem uma preparação adequada, sem uma técnica trabalhada, longamente adquirida, comparada, avaliada, produzem monstruosidades artísticas, sendo por ele apeados, humilhados ou mortos.

POSEIDON -  HIPPIOS  ( CERÂMICA )

Os filhos de Poseidon são todos disformes, violentos, descontrolados, entregando-se à hybris com relativa facilidade. Tal propensão, como é fácil ver, decorre de sua origem, o elemento líquido, a água, que, no seu aspecto negativo, indica ausência de limites, falta de contenção, sempre. Negativamente, o elemento líquido, como se sabe, quando prepondera na personalidade de alguém produz uma sensibilidade extremada, favorecendo a permeação. Surgem então os estados de abandono, de inflação emotiva, inconscientes, que levam este alguém a se confundir com esses estados que sempre o ultrapassam. Ou seja, o que a pessoa sente escapa sempre da possibilidade de qualquer controle.

Inicialmente, Lâmia é descrita como uma mulher de grande beleza, tendo sido por essa razão notada pelo Senhor do Olimpo. Sentindo-se incompleta sem filhos, e desejando-os maravilhosos, não relutou em ceder às investidas de Zeus. Teve os filhos, mas as crianças assim que nascidas eram sistematicamente eliminadas a mando de Hera. Não sabendo o que fazer, desesperada, refugiou-se Lâmia numa caverna, passando a odiar toda a humanidade, sobretudo as mulheres que tinham filhos normalmente. 

HIPNOS
Aos poucos, tomada por um ódio crescente, começou a sair da sua caverna à noite para raptar crianças e devorá-las. Hera continuou a persegui-la, tirando-lhe o sono, não deixando que Hipnos, deus do sono, como fazia com todos, tocasse as suas pálpebras com o seu tridente.

Compadecido, para aliviar o seu sofrimento, Zeus concedeu-lhe o privilégio de poder arrancar e recolocar os seus olhos quando bem entendesse. Mas isso não resolveu o seu problema, a sua grande frustração. Desesperada, Lâmia, mesmo arrancando os seus olhos, e conseguindo às vezes dormir, vivia em grande irritação e, ao mesmo tempo, em profunda depressão. Começou então, cada vez mais cheia de ódio, a se embriagar e a sair às noites para se prostituir ou para raptar e matar crianças. Aos poucos, foi Lâmia se tornando uma criatura completamente descontrolada psíquica e fisicamente. Enorme, gorda, relaxada, imunda, sexualmente insaciável, transformou-se num monstro, a rondar as casas onde morassem crianças e jovens.

ILÍTIA
(TERRACOTA DE CHIPRE)

A história de Lâmia sempre foi considerada como uma ilustração da inveja, do ódio, do ciúme da mulher que não pode ter filhos e/ou da mulher que os tem fora da união legal; como tal, é um mito ligado aos valores da deusa Hera: casamento e prole oficiais. Hera, lembremos, era a deusa das justas núpcias, protetora das esposas legítimas e da descendência legal. Uma de suas filhas, aliás, a deusa Ilítia (a que faz vir à luz), é a deusa dos partos. Fiel seguidora da mãe, Ilítia sempre perseguiu implacavelmente as amantes de Zeus.

Muito próxima da Lâmia, encontramos na mitologia grega a Empusa (esvoaçar, voltear) uma espécie de íncubo feminino, ligado a pesadelos (cauchemar, nightmare). Ela faz parte do séquito de Hécate, a grande deusa lunar triforme infernal. Empusa vagueia pelas noite de Lua Nova, aparecendo sobretudo às mulheres e às crianças. Alimenta-se de carne humana. Quando queria atrair homens, tomava a forma de uma belíssima mulher que aparecia nas encruzilhadas.

AQUERONTE  ( GUSTAVE  DORÉ, 1832 - 1883 )

Com versões da Lâmia, os gregos tinham ainda os monstros femininos Mormo, Mormólice e Gelo. A primeira, cujo nome lembra espantalho, era um bicho-papão que ameaçava as crianças; tinha o hábito de mordê-las nas pernas, tornando-as coxas, aleijadas. Já a segunda era um demônio feminino em forma de loba, gênio infernal que assustava as crianças. Era ama de Aqueronte, um filho de Geia, condenado a viver no Hades como um rio porque dera de beber aos Gigantes quando da luta que travaram contra os olímpicos. No Inferno, ele se uniu a Orfne, ninfa das trevas, nascendo dessa união Ascálafo, transformado em coruja por Deméter.  A última acima mencionada, Gelo (devorar, etimologicamente) era um monstro feminino que vivia em Lesbos. Na origem, era a alma penada de uma jovem que morrera sem ter filhos. Voltava constantemente ao mundo dos vivos para devorar as crianças e/ou para se utilizar delas sexualmente.

A palavra lâmia passou com o tempo a designar na antiguidade grega monstros femininos com cauda de serpente que devoravam crianças e sugavam o seu sangue, como os vampiros. Na Idade Média, elas aparecem associadas às feiticeiras, declarando alguns demonólogos que eram demônios ferozes, que às vezes apareciam sob a forma de belas mulheres.

Aos poucos, as características acima mencionadas, embora sempre presentes, latentes, foram dando lugar a outras, passando a Lâmia, nas suas diversas versões folclóricas, populares, a tomar a forma de um monstro que devorava as crianças travessas, malcriadas ou desobedientes. 


BICHO-PAPÃO
Por exemplo: da península ibérica veio para o Brasil, no período colonial, o Bicho-Papão, um descendente da Lâmia, um ser monstruoso, que às vezes podia tomar a forma de bichos, naturalmente sempre com uma boca enorme, muitas vezes com olhos de fogo, tendo no lugar do estômago um forno ardente para fazer jus ao “papão” de seu nome, como devorador de crianças. 


Na literatura oral portuguesa, a Coca é um bicho-papão que rouba as criancinhas. É às vezes chamada de Maria-da-Manta, soltando esta fogo pelos olhos. É uma entidade maligna que está sempre à espreita (estar sempre à coca) para impedir que o sono chegue. Vai-te Coca, vai-te Coca/ Para cima do telhado/ Deixa dormir o menino/ Um soninho descansado.

GIL VICENTE

Gil Vicente, 1465-1536, o genial criador do teatro português, identificava o Diabo como o marido da Coca, chamando-o de Coco, por isso. A Coca era normalmente figurada como um dragão. Nas festas de Corpus Christi, São Jorge vinha lutar contra a Coca. Como variantes do Bicho-Papão temos no nosso folclore o Homem do Saco e a Cuca, representações associadas, sempre tendo a função de assustar ou mesmo devorar as crianças desobedientes, monstros que encheram de terror muitas noites infantis. Educação, respeito e obediência aos pais e aos adultos eram, em antigos tempos, o melhor remédio para evitar a visita desses monstros.

A Cuca é uma versão feminina do Bicho-Papão. Durma, meu benzinho, que a Cuca logo vem era um dos versos das velhas cantigas de ninar. É interessante observar que o medo infundido pela Cuca às crianças também podia vitimar os adultos. Em Portugal e no Brasil colonial circulava, nos meios populares adultos, a frase: Eu cá não tenho medo de Cucas! e tomava-se uma talagada de boa cachaça: matava-se o bicho.

COCA
A origem dessa expressão se prende a motivos medicinais. Isto é, tomar uma bebida alcoólica forte para matar qualquer bicho (agente patológico) que estivesse alojado no corpo. Dizia-se, segundo uma história do séc. XVI vinda da França, que uma mulher morrera e se constatara, aberto o seu peito, que havia um verme grudado ao seu coração. A única maneira de matá-lo foi a de se colocar sobre ele um pedaço de pão embebido em vinho. A partir de então, dizem,  os médicos recomendaram que todo o jejum, pelas manhãs, fosse quebrado, além do pão, também com  vinho. 

Os beberrões logo adotaram a ideia, matando o  bicho a qualquer hora do dia, substituindo-se o vinho pela cachaça. E como bicho poderia ser também o Bicho-Papão, a prática pegou. No mundo da cachaça, são equivalentes a matar o bicho expressões como morder a batata, acender a lamparina, alertar as ideias, mudar de camisa, salgar o galo.

É em antigas cantigas de ninar e acalantos, entoados para para fazer as crianças dormirem, que encontramos as melhores referências a esses monstros. Chamadas berceuses na França e ninnananna na Itália, essas cantigas têm como personagens importantes o Bicho-Papão e a Cuca, além de referências religiosas a anjos (entidades protetoras), a pais ausentes e a entidades míticas do sono como João Pestana.  

JOÃO PESTANA
O João Pestana merece referência especial. É uma entidade mítica que personifica o sono que está para chegar. É muito tímido e assustadiço, só se aproximando quando tudo está quieto e silencioso. Ao menor barulho, ele se afasta, foge. Quando ele chega, as pálpebras (pestanas) se fecham; por isso, nunca ninguém o viu. No folclore português, de onde o herdamos, ele é parente do Pedro Chosco, que põe pequeninos grãos de areia nos olhos das crianças para que elas durmam. Este personagem, no mundo anglo-saxão, chama-se  Sandman.

Todos são temas de cantigas de embalar em muitas línguas. João Pestana costuma trazer muita ansiedade já que ele compete com entidades poderosas como a Cuca e o Bicho-Papão. Monteiro Lobato, em seu livro O Saci, diz que a Cuca tem cara de jacaré e só dorme uma noite a cada sete anos. Quando enraivecida, solta urros que podem ser ouvidos a léguas de distância. 

Dentre todas estas entidades a que talvez se aproxime mais da Lâmia no nosso folclore seja a Cabra-Cabriola, que não é propriamente uma cabra, mas um monstro gigantesco com dentes agudíssimos, que solta fogo pelos olhos e pelas narinas. Ela costuma andar perdida pelas noites, invadindo as casas e devorando indiscriminadamente todas as crianças que encontra.