domingo, 17 de outubro de 2021

INFORMAÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO? - I

                                                            

A educação moderna redundou em completo malogro por ter exagerado a importância da técnica. Encarecendo-a em demasia, destruímos o homem. Desenvolvendo capacidades e ciência, sem a compreensão da vida, sem uma percepção total dos movimentos da mente e do desejo, tornar-nos-emos cada vez mais cruéis e isso significa fomentar guerras e pôr em perigo a nossa segurança física. O exclusivo cultivo da técnica tem produzido cientistas, matemáticos, construtores de pontes e conquistadores do espaço. Compreenderão esses homens o processo total da vida? Pode um especialista experimentar a vida como um todo? Só se deixar de ser especialista.

        J.Krishnamurti 


As filosofias da Índia sempre deram muito mais importância à vida interior do ser humano do que às suas conquistas externas. Praticamente, isto significou uma preocupação muito maior com transformações internas do ser humano, mudanças quanto ao seu comportamento, do que com a obtenção de informações sobre o mundo e o aumento de sua memória e domínio sobre ele. Neste texto, trataremos de uma maneira de pensar cujo objetivo é também o de fazer com que o ser humano, através de um mental superior, a ser por ele construído, possa transcender o seu eu pessoal, direcionando-o para a totalidade da existência (mundo natural e vida coletiva). Foi a isto que as antigas filosofias da Índia deram o nome de vida espiritual. 

Para os antigos pensadores da Índia, ao tempo em que começaram a formular as bases do que se denominou Vedismo (primeira fase das suas elaborações filosófico-religiosas), a sua principal preocupação, ao mesmo tempo em que procuravam descrever e explicar o mundo visível, foi a de estudar e de entender o que chamaram de eu interior (atma), uma entidade que consideravam como a base da personalidade consciente e do corpo humano. 

Para eles, este atman era uma partícula individualizada, independente, do que chamavam de Brahman, o Todo, a energia universal (alma universal), eterna, imperecível, autoexistente, de onde tudo o que se manifestava material ou imaterialmente provinha e ao qual tudo retornava, num devenir constante e perene. Assim, tudo o que entrava na existência, como o perceberam os pensadores daquele tempo, pertencia ao impermanente, ficava preso às coordenadas do tempo e do espaço, enquanto o eu interior (atman), porque partícula imperecível do Brahman, ficava fora de tudo isto.  

Para os pensadores ocidentais, a Filosofia, a partir dos gregos, dos pré-socráticos, foi, ao contrário, se voltando cada vez mais para o exterior, para o social, para o político, para o científico (principalmente a partir do Renascimento), procurando elaborar doutrinas no sentido de modificar o mundo material, de dominá-lo. Quanto ao eu interior, pouca ou nenhuma atenção a ele. Só no século XIX, voltaria esse tema a ser abordado de modo mais consequente, com as doutrinas psicológicas que então se criaram. Enquanto isso, quanto à Índia, seus filósofos persistiam na mesma direção: maior ênfase nos estudos da vida interior do ser humano, na sua problemática.  Foi esse direcionamento, mantido por séculos, milênios, que deu origem, no ocidente, a avaliações muito pouco favoráveis sobre a índia, de um modo geral. 

Enquanto o ocidente ia se modernizando, “progredindo”, a Índia, com os seus deuses, seu complicado politeísmo, e seu sistema de castas, com o seu exotismo, com a sua “espiritualidade”, tornara-se um país facilmente conquistável, símbolo do atraso, da miséria, da ignorância, da doença. Era a Índia um país de grandes recursos naturais, uma fácil conquista para os predadores europeus, a Inglaterra, no caso, que lá permaneceu, dominando-a, por mais de dois séculos. 

NAVIO DA COMPANHIA DAS ÍNDIAS
É bom lembrar que muito antes do domínio britânico, a Índia já atraía a cobiça dos europeus. Os primeiros a chegar foram os portugueses, que lá desembarcaram no século XVI, quando estabeleceram feitorias ao longo da costa de Malabar. Depois dos portugueses, vieram holandeses, franceses e britânicos. Os primeiros navios britânicos aportaram na Índia em 1612. Esses navios eram da Companhia Inglesa das Índias Orientais, que estabeleceu feitorias no litoral indiano. Nessas feitorias, eram realizadas trocas comerciais: produtos indianos (seda, algodão, especiarias.) eram trocados por produtos manufaturados ingleses. Só depois de dois séculos, de grandes lutas, conseguiram os indianos expulsar os ingleses em meados do séc. XX, mesmo assim com grandes prejuízos, perdendo grande parte de seu território (Paquistão e Bangladesh).



É bom lembrar também que com as chamadas “ondas de progresso” globalizantes que o ocidente fez chegar à Índia, mais para o fim da segunda metade do século XX, essa visão negativa sobre a Índia (país do atraso, da miséria, das doenças etc.) veio mudando, de modo a se considerá-la hoje quase como, apesar de alguns problemas ainda constatados nas áreas apontadas, um país que vai assumindo os valores do mundo ocidental, se “modernizando”.  

FILÓSOFOS HINDUÍSTAS
Em que pese tudo o que está acima, o que sempre interessou sobretudo aos filósofos hinduístas menos “ocidentalizados”, ao longo da história do país, ao invés dos índices econômicos, foram os valores éticos e morais. Ou seja: sem perder de vista, na medida do possível, o mundo fenomênico e os aspectos visíveis da sua existência (Economia, Ciência, Tecnologia etc.), estudar e analisar, como itens mais importantes, a interioridade do ser humano, as suas faculdades intelectuais, as operações da sua mente, as teorias do entendimento, as leis da lógica, as doutrinas psicológicas etc. Por todos estes fatores é que, ao contrário dos filósofos ocidentais, sempre interessou mais aos filósofos hinduístas o eu interior, a sua transformação, a sua mudança, em níveis tais que, com relação a alguns, podemos pensar a existência humana como uma sucessão de mortes e renascimentos 

É neste sentido que ao invés de procurar mudar o mundo (o que é importante, é claro!), os filósofos do hinduísmo sempre procuraram trabalhar mais com ideias de transformação interior, de transcendência do próprio eu. Transcendência obtida não através da simples compreensão intelectual, de leituras, mas através de mudanças no modo pelo qual o mundo é sentido e sobre ele se age, pois só estas  mudanças têm relação com a existência como um todo. Etimologicamente, transcendência vem do latim, de trans, além de, e de scandere, subir, remontar. Temos, então: escalar, transpor, elevar-se ultrapassando. Ideias de proeminência, sobrepujamento, sublimidade, de ir além das limitações. 

A história do pensamento indiano, no que ela tem de mais consequente, sempre nos mostrou uma crescente importância dada ao eu interior (atman). Ou seja, sem se desconsiderar o mundo exterior, concreto e tangível, o foco foi sendo direcionado para o eu interior, intangível e imaterial. É claro que este entendimento, em muitos períodos históricos, ocasionou uma perigosa desvalorização do mundo material, produzindo muita dor e sofrimento em termos sociais. Contudo, sempre prosseguiram os seus filósofos, procurando permanecer ligados à sua antiga tradição. 

Para uma melhor compreensão do que aqui se expõe, é preciso lembrar que a história filosófico-religiosa da Índia se divide em três grandes períodos: 1) Védico (2000-600 aC); 2) Bramânico (600 aC-1200 dC); 3) Hinduísta (1200 dC em diante).

Os princípios fundamentais do Hinduísmo são os seguintes: a) as metas de vida (artha, kama, dharma e moksha); b) o sistema de castas (varnas); c) o Yoga. Artha, kama e dharma são considerados como ocupações mundanas.  Na primeira, temos as conquistas materiais, o mundo dos valores, dos objetos, que podem ser obtidos e perdidos. Nesse mundo prevalece matysa-nyaya (a lei do peixe), “peixes grandes comem os peixes pequenos”. Nesse mundo, temos arthashastra, “a ciência da riqueza”. Na segunda ocupação, lidamos com os desejos. Quem nele atua é o deus Kama (Eros dos gregos), mestre e senhor das coisas materiais, que, com o seu arco e as suas flechas, abrasa o nosso coração de desejos. No terceiro item, dharma, são discutidas ideias de responsabilidade, obrigações, deveres, os aspectos morais da vida humana. Começa aqui uma noção mais abrangente da vida social. O último princípio tem relação com ideias de redenção, espiritualidade. Moksha é palavra que sugere conceitos de liberação de abrir a mão, de libertação. É nesta etapa que podemos ir além da informação, de sua crítica e do conhecimento obtido para chegarmos à sabedoria vivida como doação sem preocupações com ideias de retribuição e reconhecimento. Moksha (libertação), confunde-se aqui com kaivalya (independência) do físico, do afetivo e do mental inferior. 

As quatro castas, constituídas pelos árias e seus descendentes, são as seguintes: 1) Brahmanas - que tem por incumbência os deveres filosófico-religiosos, a conservação e a transmissão dos textos da cultura e da ciência, o ensino em todos os seus níveis. Seu caráter é mais ou menos sacerdotal. 2) Kshatryas – Guerreiros, administradores, políticos, governantes. 3) Vaishyas - Comerciantes, agricultores e profissões relacionadas com a vida econômica e bens. 4) Shudras -  Operários, trabalhadores, artífices. Fora do sistema de castas, ficavam os chamados intocáveis, asprishyas, formada pelos remanescentes das populações aborígenes. Segundo o governo indiano, hoje, o sistema de castas já não mais existe na Índia, devido a muitas subdivisões introduzidas e as novas formas de organização do trabalho. Todavia, na realidade, embora pareça caminhar para a sua extinção, ele ainda se faz presente, interferindo, até bastante, em várias regiões do país, principalmente no sul. 

O Yoga é uma escola filosófica (darshana) que tem a finalidade de levar o adepto a aprender a dominar os seus corpos físico, afetivo-emocional e mental para poder entrar em contacto com o seu eu verdadeiro (atma), aprendendo também o discípulo a usar o seu mental superior (buddhi). Fixando-se no seu eu verdadeiro (atman), o adepto se torna  um "unido" (yukta) ao Brahman. A palavra que designa a transmissão dos ensinamentos do Yoga é parampara, que significa "um depois do outro", indicando-se claramente a sua forma de transmissão de mestre para discípulo.

PATANJALI
De um modo geral, todas as escolas filosóficas aceitam como expressões maiores do Yoga cinco formas: Raja-Yoga, Hatha-Yoga, Gnana-Yoga ou Jnana-Yoga, Karma-Yoga e Bhakti-Yoga. Como requisitos básicos em todas temos os Yamas e os Niyamas, isto é, restrições e observâncias. Qualquer que seja a forma praticada, sempre presente a ideia de que todas levam ao mesmo fim, a uma experiência estática (samadhi), através da aquisição de conhecimento libertador do eu (atma).


Como proposições básicas no Hinduísmo, temos: 1) a verdade profunda é diferente daquela que obtemos por nossas percepções sensoriais, mesmo que interpretadas com todos os recursos do nosso intelecto; 2) partindo da imagem que nos fornecem as aparências, nós nos aproximamos tanto mais da verdade profunda quanto mais nos afastamos da multiplicidade em direção de uma ideia de unidade; 3) a aparição do universo resulta da manifestação do UM sob a aparência do múltiplo; 4) o mundo das polaridades, isto é, da consciência da multiplicidade, é concepção imperfeita e inexata da Verdade profunda; 5) a Verdade profunda deve englobar não só o que é mas também aquilo que ainda não entrou nas categorias da existência; 6) a alma do homem (atman) é idêntica à totalidade. É possível realizar esta unidade por disciplinas apropriadas, sendo este o fim da existência humana; 7) até que isto aconteça, a alma reencarnará, passando por uma sucessão de estados, sendo os dois principais o nascimento e a morte. O objetivo da existência, pode-se dizer, é o de escapar desta cadeia de reencarnações (samsara); 8) cada encarnação é consequencia das precedentes e determina, em certa medida, a sucedente; 9) cada encarnação tem características que a individualizam. Ela difere das outras pelas possibilidades que oferece e os deveres que impõe; 10) toda alma pode chegar à realização da Verdade profunda (liberação), concebida como união, consciência da não-dualidade, estado de consciência que ultrapassa tanto a unidade como a multiplicidade; 11) o intelecto é incapaz de conhecer a Verdade Suprema.

Os textos hinduístas que melhor falam da via mística são os Upanishads, o Bhagavad Gita, as obras do Vedanta e os das escolas filosóficas (Darshanas). Os fundamentos filosóficos da via mística estão nos Darshanas, os aspectos racionais da religião. Há seis sistemas filosóficos (Shad-Darshanas), seis escolas ortodoxas: 1) Nyaya, Lógica e Dialética; 2) Vaiseshika, escola atômica; 3) Samkhya, ateia; cosmogonia e evolução; 4) Yoga, técnicas de concentração e de união; 5) Purva-mimansa, estudos exegéticos e práticas rituais; 6) Uttara-mimansa, o Vedanta. Fora do Hinduísmo, há as chamadas escolas heterodoxas (nastika), como o Budismo e as escolas materialistas ateias (charvakas), todas, como as precedentes, diferentes meios de nos aproximarmos da verdade, visões do mundo, jamais conseguindo captar a totalidade.

Para o Hinduísmo, o conhecimento das coisas impermanentes não leva o homem a adotar uma atitude realista para com o mundo e para com a sua própria existência, pois estas coisas não permanecem, eis que carecem de substancialidade, perecem. Em fluxo contínuo, as coisas do mundo se contradizem e refutam constantemente, sendo, nessa perspectiva, ilusórias as formas fenomênicas. Dizem os mestres hindus: quem se apoia no mundo fenomênico sempre encontrará muitas dificuldades na vida. Aparentemente real, ele é, no entanto ilusório, sustentado pela ignorância (avidya) e pela prolongada ação das paixões enganosas.

No Hinduísmo, como na Psicologia ocidental, com algumas poucas variações,  a paixão é uma tendência de maior ou menor duração, acompanhada de estados afetivos e intelectuais, imagens muito poderosas que acabam por se impor, dominando a vida de uma pessoa pela sua intensidade e permanência. Uma inclinação que, instalada, torna-se o centro de tudo, tudo a ela se subordinando. Por isso, a paixão (etimologicamente, sofrimento) lembra cegueira. Nada vemos senão ela. Mesmo no caso de paixões ratificadas pela razão, somos tomados por elas. A paixão pode paralisar a ação normal da razão sobre a nossa conduta, impedindo a determinação da vontade. 

O passional se define por uma oposição ao racional, ao lógico. Neste sentido, é como a loucura. A razão, o racional, liga-se à ordem, à harmonia, à clareza. A paixão lembra irracionalidade, desarmonia, desordem, doença, caos. Desde a antiguidade, a mesma recomendação, na Filosofia, na Religião, na Medicina, na Psicologia, nas doutrinas ocidentais e ocidentais, vigiar as paixões, pois sempre ameaçam a alma e o corpo de desordem, doenças, destruição.

Para os hindus, somente quando trabalhamos com a consciência introvertida, dirigida para o mais profundo do nosso eu (atman) é que podemos alcançar aquele terreno fronteiriço que se situa entre os fenômenos mutáveis, no que eles têm de oscilante e perecível, e a nossa fonte interior, imutável e imperecível. Aquele que procura entender isto pode entrar realmente no conhecimento do próprio eu. Este entendimento tanto nos permite perceber a materialidade do mundo como a sua principal característica, a ilusória, mutável e impermanente, chamada pelo hindus de Maya. 

Este entendimento, que nos fala tão só de energia (Brahman) e de suas transformações, como fica fácil constatar, nada tem de teísta. Nada de mansões celestiais, de Deus, de um Pai ou de uma Mãe celestes ou de intermediários (religiões) a quem possamos dirigir preces ou pedidos salvadores. No lugar de tudo isto, como propõe realmente o Hinduísmo, apenas o ser humano e a sua interioridade, com a sua responsabilidade.

Os mestres hinduístas sempre ensinaram também que o pensamento humano é limitado pelo nosso repertório linguístico disponível. Esse repertório é denominado naman por eles,  nomen em latim, nome em português, o mundo dos nomes. Assim, a substância do ato de pensar, no ser humano, é formada pelo conjunto destes nomes disponíveis. O ato de pensar é constituído por esse conjunto de nomes, que deve corresponder às formas (rupas, em sânscrito) do mundo exterior percebidas. Rupa é forma, figura, cor. Nama-rupa foi o nome que os mestres hindus deram ao homem que percebe o mundo e o pensa, ou seja, o mundo considerado objetiva e subjetivamente.

Todavia, prosseguem os mestres, porque fenomênico o mundo percebido, os repertórios linguísticos são sempre inadequados para compreendê-lo. Isto é muito notável, por exemplo, quando temos que falar sobre sensações difusas, intuições, ocasião em que normalmente não encontramos sustentação do nosso aparato verbal. Muitas das nossas experiências mentais, dizem eles, vezes sem conta transcendem o nosso pensamento lógico, sendo criadas situações em que nosso repertório linguístico não as consegue descrever.

ARISTÓTELES
A filosofia grega trouxe como resultado prático a destruição da leitura mitológica do mundo, substituindo-a, em nome da eficiência e de resultados concretos ($$$) pela Lógica (Aristóteles), pela Física, pela Astronomia, pelas Ciências Naturais, enfim. A cultura ocidental, a partir das escolas filosóficas pré-socráticas,  sempre considerou, por isso, uma grande vitória do espírito humano a substituição das explicações míticas sobre o universo pelo Logos.

É pelo que acima se expõe que podemos entender porque o pensamento filosófico da Índia se apoia tanto da sua mitologia, razão maior pela qual aqueles que se voltam consciente e honestamente para a cultura indiana costumam destacar essa saudável união entre ambas, tão celebrada por imagens, tradição épica, divindades etc. É por essa razão também que os mestres hindus são profundamente céticos com relação às palavras e com os doutorais textos que o ocidente costuma produzir em geral sobre o pensamento filosófico-religioso. Mais vida e  menos palavras, dizem-nos eles. 

O mundo filosófico-religioso, de um modo geral, e o da Índia em especial, pode ser entendido por nós ocidentais através da teoria dos arquétipos (do grego, arché, antigo, original, e typos, exemplar), por imagens míticas que invadem o campo da nossa consciência. Só as percebemos através de suas manifestações no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, como fatores históricos, biológicos e outros. Em função da vida que levamos, conforme as condições de tempo e lugar, as imagens arquetípicas são apresentadas ao nosso consciente. Os personagens míticos e suas histórias, hindus, gregos ou de outras mitologias, podem atuar sobre a nossa vida consciente também como arquétipos do inconsciente coletivo, despojando-a de sua autonomia, gerando fenômenos de massificação, de alienação, doenças, patologias etc. 

Essas imagens provêm de uma área fora do alcance de nossa vontade consciente, mas fazendo parte de nosso mundo interior. Levam-nos a agir como não pretendemos, impondo-nos papéis que não sabemos por que os desempenhamos, fazem-nos muitas vezes ficar descontentes diante de nossa maneira de agir. Quase sempre, uma sensação de fracasso, de algo que saiu como não queríamos, atos falhos, vexames... Todas estas perturbações têm forte acento emocional e são estritamente pessoais. 

Embora estas imagens se assemelhem de uma pessoa para outra, sua intensidade varia muito. Muitas acabam por formar um núcleo temático, uma espécie de coágulo, e a ele vão se juntando, agregando, partículas toda vez que tal núcleo é estimulado por uma referência, por um encontro, por uma palavra que ouvimos, por um acontecimento externo ou interno que não conseguimos resolver, por fraqueza, inabilidade ou incapacidade. 

Esses núcleos temáticos são chamados de complexos. Neles represamos sentimentos, parcial ou totalmente inconscientes, com muita carga afetiva. Às vezes, quietos por longo tempo esses núcleos se ativam, fazendo até oposição às intenções do eu consciente, podendo inclusive romper a sua unidade. Comportamo-nos como se outro eu nos habitasse, dominando-nos. Uns são reconhecidos, outros jamais o serão. O reconhecimento intelectual desses núcleos não basta, pois o fenômeno é valorizado afetivamente. A libertação só virá se desintegrarmos os sentimentos neles represados.

O mundo dos arquétipos é sombrio, insondável e a ele não se tem acesso direto. Só o percebemos por via indireta, através de sua manifestação no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, tanto como fatores históricos ou biológicos, e é através deles que podemos relacionar nossa vida anímica com os mitos. Em função da vida que levamos, conforme as condições existentes internas e externas de tempo, lugar e espaço, as imagens arquetípicas são “apresentadas” ao consciente. O inconsciente coletivo é o conjunto de todos os arquétipos que nele se agrupam, como sedimentos, sempre ativados e propagados pela tradição, migrando de um lado para outro, manifestando-se muitas vezes espontaneamente. O inconsciente coletivo distingue-se do inconsciente pessoal; seus conteúdos nunca estiveram na consciência, devendo-se a sua existência à hereditariedade. Mitologicamente, os arquétipos aparecem como temas, ideias elementares, representações de caráter coletivo, não-pessoal. 

No ocidente, as explorações da teoria do inconsciente coletivo omitem por razões várias, que julgamos inoportuno aqui discuti-las, a prioridade do Hinduísmo no que diz respeito à sua formulação. Evidentemente, as elaborações hinduístas não se estruturam como as teses de Jung ou de outros estudiosos que no Ocidente se voltaram para essa teoria   nem têm a mesma apresentação, mas não se pode deixar de reconhecer a semelhança que a teoria junguiana tem com as formulações hinduístas. 

UPANISHADS
Em alguns Upanishads (Mundaka, Brihad-aranyaka, Taittiriya), encontramos referências a um substrato último da consciência, uma imensidão informal, experimentada ora como vazio, ora como silêncio, ora como obscuridade, considerada como região sem limites que se estende além da vida consciente. É chamada no Vedismo também de atman (alma individual) com o significado,  de alma profunda, identificada com o Brahman, enquanto subjacente ao eu empírico, onde atua a alma individual. 

A alma (atma), coletivamente considerada, se situa no fundo do ser, sendo comum a todos os seres. Os textos a descrevem o inconsciente coletivo como uma espécie de oceano informal de onde poderão emergir aspectos da natureza particularizada de cada ser. Esta imensidade é, no seu todo, impensável, distante, mas poderá estar muito próxima. Este eu profundo não é isto ou aquilo, dizem os textos, é impalpável, não podendo ser destruído. Como oceano é uma unidade, um continuum indivisível que se liga e é comum a todos os seres. O eu pessoal é um nó temporário, um ponto particular da consciência. 


O Hinduísmo fala de um ponto (bindu) onde a alma individual, com o nome de atma encontra a alma universal (atman).

                                       



sexta-feira, 15 de outubro de 2021

HONORÉ DE BALZAC


HONORÉ   DE   BALZAC

Estamos hoje, Thereza e eu, voltados para um projeto (reler o que lemos sobre Balzac e ler o ainda não lido dele) que só uma estranha fidelidade a escritores do passado nos sustenta, nos mantém, uma incompreensível fidelidade para muitos, mas totalmente justificável para nós, porque são eles mestres desde sempre, Balzac, Zola, Proust, Stendhal, Maupassant e muitos outros. Um artigo escrito sobre Balzac, reencontrado, quando promovemos um ciclo sobre suas obras levadas para o cinema, foi o feliz pretexto.   

BALZAC
(AUGUSTE RODIN, 1840-1917)
Vamos, pois, ao fantástico autor de La Comédie Humaine: Honoré de Balzac nasceu em Tours, em 1799 (20 de maio). Tinha o Sol em Touro, o Ascendente em Leão e a Lua em Sagitário. Faleceu em Paris, a 18 de agosto de 1850. O pai, que era administrador de um hospício, para dar ares de nobreza a seu nome a ele acrescentou a partícula de, passando-a depois para o nome dos seus quatro filhos. A transferência do pai para Paris permitiu que Honoré começasse a frequentar o curso de Direito na Sorbonne e ao mesmo tempo, inteiramente tomado pelos textos de historiadores do pensamento, mergulhasse no estudo da Filosofia. O pai aceitou ambas as paixões do filho e lhe forneceu meios para se instalar numa mansarda, o que lhe permitiu dedicar-se totalmente à literatura. Depois de um ano, o resultado foi Cromwell (1821), uma tragédia em versos, cujo resultado não o satisfez, nem à crítica. Um início errado, sem dúvida. 

Destes primeiros anos ficaram também, pouco notados, Les Deux Hector ou Les Deux Familles Bretonnes, Charles Pointel e muitos outros, além de, com Horace Raisson, uma Histoire Impartiale des Jésuites e Un Code des Honnêtes Gens ou L’Art de ne pas être dupe de Fripons. Seus pseudônimos (alguns) desta época, pessoais ou coletivos, foram os de Horace Saint-Aubin e Lord  R’hoone (anagrama de Honoré). Pouco satisfeito com a acolhida pífia de suas primeiras obras, voltou-se Balzac para a indústria tipográfica. 

Pouco depois, partiu para a elaboração de uma série de romances, de novelas, de contos de estudo de costumes, que serviram para revelar a grande fecundidade de seu espírito, obras que foram sendo aceitas pelo público, conferindo-lhe grande autoridade, aceitação e renome. Depois dessas experiências, Balzac procurou se fixar principalmente na escrita de romances. Produziu muitos textos que nem chegaram a ser publicados. Insistiu nos  pseudônimos, atento ao gosto do tempo, partindo para romances de aventura e, em colaboração, folhetins. A tarefa, embora ingrata e cansativa, sempre lhe serviu para ir aprimorando a sua técnica como escritor. 

LAURE  DE  BERNY
Em 1822, Honoré conheceu Mme. De Berny, bem mais velha que ele, que, além de lhe dar o seu amor, encorajou-o bastante com muitos conselhos, iniciando-o nos costumes e no gosto do ancien régime. Aliás, lembre-se, as relações de Balzac com mulheres serão sempre complicadas. Muitos que estudaram a sua biografia e obra atribuem tais complicações ao que chamo aqui do “complexo de desmame” de Balzac. Primogênito, assim que nascido o segundo filho, Henry, dos quatro que teve, a mãe o abandonou. Théophile Gautier (1811-1872), mestre e precursor da poesia parnasiana, portanto contemporâneo de Balzac, deixou-nos vários depoimentos sobre ele. Num deles, sobre as mulheres, declarou que ele, Balzac, ao se ligar amorosamente sempre buscara um amour fou, no qual a mulher fosse ao mesmo tempo anjo e cortesã, maternal e submissa, dominadora e dominada, grande dama e cúmplice. 

Laure de Berny, que Balzac chama muitas vezes pelo nome de Dilecta (Bem-amada), entrou na sua vida quando tinha 45 anos, com os seus nove filhos. Bela, muito sensível, com experiência das coisas do mundo, ela encantou o jovem Balzac, que se tornou seu amante em 1822, apesar de ela lhe ter oferecido sua jovem filha Julie de 16 anos em casamento. Além de ter ajudado Balzac financeiramente em muitas ocasiões, Laure (Antoinette, na realidade) sempre o encorajou. Quando morreu, em 1836, Balzac declarou que Mme. De Berny foi como uma deusa para ele, além de mãe, amiga e amante, fazendo dele um escritor.

DUQUESA DE ABRANCHES
Em 1825, Balzac tornou-se amante da duquesa de Abranches, 15 anos mais velha que ele. Ela lhe passará inúmeras informações sobre a vida nos palácios e seus habitantes em vários níveis, muito úteis para elaborar os cenários de algumas de suas obras e compor os seus personagens. 

AURORE DUPIN 

Em 1831, Balzac conhece Aurore Dupin, baronesa de Dudevant, conhecida pelo nome literário de George Sand, que viera para Paris, afastando-se do marido. Balzac lhe deu para ler o seu A Pele de Onagro e ela se entusiasmou. Em 1838, ele voltará a se encontrar com George Sand, no castelo em que ela vivia, onde permaneceu vários dias. Lá passam os dois as noites a conversar animadamente, até as 5 horas da manhã, trocando ideias, discutindo literatura e arte. Ela o inicia em prazeres diferentes, dando-lhe para fumar houka e latakia, uma mistura de tabaco e droga, originários dos países árabes (Turquia e Síria); Balzac gostou das experiências, na esperança, segundo afirmou, de que esse tipo de tabaco o libertasse do café e dos vários excitantes que tomava para poder trabalhar por horas e horas seguidas. Apesar da ligação de George Sand com Chopin, Balzac continuará ao longo dos anos a se encontrar periodicamente com ela, sempre com grande interesse, para discutir questões literárias e artísticas em geral. Homenageando-a, Balzac lhe dedicou um de seus livros, Memórias de Duas Jovens Esposas.

OLYMPE PELISSIER

Frequentando os salões da moda, Balzac, antes se de unir a Mme. Hanska, manteve várias ligações. Dentre elas, destacamos a relação com Olympe Pelissier, bela e inteligente cortesã, que fora amante do escritor Eugène Sue, antes de se casar em 1847 com o compositor de óperas Gioacchino Rossini. Vieram, além de outras, a seguir, a duquesa de Castries (1832), Marie de Fresnay (1833), a condessa Guidoboni-Visconti (1835), por quem se apaixonou perdidamente. 

O sucesso literário, entretanto, não favoreceu Honoré de imediato. Decidiu ele se lançar, então, nos negócios, algo que lhe desse dinheiro, pelo qual sempre demonstrou muita avidez. Balzac associou-se a um editor, depois comprou uma casa impressora (gráfica), negócios que se, por um lado, lhe deram oportunidade de entrar em contacto com as gens de lettres e jornalistas, lhe deixaram muitas dívidas. Estas experiências pessoais lhe forneceram muitas informações para construir seus personagens, inspirando-lhe a visão satírica que sempre teve desse mundo. Essas primeiras aventuras financeiras acabaram em desastres, cujos efeitos danosos se projetaram ao longo de sua vida, gerando dívidas sobre dívidas que ele jamais conseguiu satisfazer, embora gastando sempre e cada vez mais.


Balzac foi romancista, dramaturgo, crítico literário, crítico de arte, ensaísta, jornalista e impressor. Deixou uma das mais importantes obras da literatura francesa, reunida em mais de noventa volumes, à qual deu o título de A Comédia Humana, publicada entre os anos 1829 e 1850. A este conjunto monumental são acrescentados cerca de 25 volumes, que reúnem contos e romances de juventude, publicados sob pseudônimo, além de outros textos esboçados e inúmeros artigos jornalísticos. Foi Balzac, sem dúvida, um dos maiores mestres do romance francês, tendo abordado praticamente todos os gêneros literários conhecidos, deixando-nos várias obras-primas.

Como Balzac explicou no prólogo da Comédia, sua intenção, ao produzir tanto, foi a de identificar e inventariar o que chamou de “espécies sociais” de sua época, tal como Buffon (naturalista francês do séc. XVIII, autor de uma História Natural, com cerca de 40 volumes) fizera com relação às espécies zoológicas. Inspirado pelas sugestões que a obra de Walter Scott lhe sugerira, a de que o romance poderia fazer incursões na área filosófica, Balzac explorou, em vários sentidos, todas as classes sociais de seu tempo, das superiores às inferiores, bem como os indivíduos que as compunham e melhor representavam, a fim de escrever uma história dos costumes, matéria esquecida pelos historiadores. Descreveu principalmente a ascensão do capitalismo e a absorção, pela burguesia, de uma nobreza incapaz de se adaptar às novas realidades, sempre criando personagens inesquecíveis.

Balzac nunca se preocupou em se definir politicamente, mas sempre prestou o seu depoimento, expondo as suas opiniões conforme o tema que abordava, ora procurando se alinhar com as descobertas técnicas do seu tempo, ora se declarando um liberal, ora defendo os operários, ora se mostrando conservador em muitas ocasiões, anarquista em outras, nunca deixando também de se interessar pelas religiões e pelo ocultismo. Multifacetado, contraditório, mas sempre autêntico, produziu uma obra ímpar, irregular, admirada tanto por setores da aristocracia, pela classe média ascendente, por escritores de vários matizes como por revolucionários socialistas como Marx e Engels. Inegavelmente, porém, foram as mulheres, ansiosas por conquistar posições na nova ordem social, que constituíram o seu “grande público”.

HÔTEL DE MASSA, SEDE DA
SOCIÉTÉ DES GENS DE LETTRE
Além de escrever inúmeros artigos, publicados diariamente pela imprensa, fundou e dirigiu revistas que nunca obtiveram sucesso, iniciativas que lhe causaram sérios prejuízos, que o levaram mesmo à falência algumas vezes. Nada o impediu, contudo, de se dedicar inteiramente, quinze ou mais horas por dia, à composição dos seus textos, sempre convencido de que escritores deveriam desempenhar socialmente uma função importante na estruturação das classes sociais. Conclamou inclusive, para tanto, os seus pares, a se organizarem, a se aproximarem, tendo contribuído bastante para a formação da Société des Gens de Lettres (Sociedade dos Escritores).

Trabalhador infatigável, glutão, desregrado, colecionador de arte, com grandes altos e baixos na sua vida econômico-financeira, nunca diminuiu a sua atividade. Seus excessos acabaram por deteriorar a sua saúde, levando-o precocemente, aos 51 anos, à morte. Fugindo dos credores, mudando sempre de residência, com gastos de nababo indiano, suntuosos, em meio a antiguidades que adquiria, envolvido sempre com mulheres caras, só ao final da vida, em 1850, depois de tê-la cortejado por dezessete anos, uniu-se matrimonialmente à condessa Hanska. Foi, como poucos, perseguido pelas dívidas. Tudo nele era superlativo, inclusive os seus gastos. Como não conseguia saldar as suas dívidas, vivia inventando projetos mirabolantes, negócios que o envolveram com uma casa impressora, com um jornal, com uma mina de prata e muito mais. Foi num palácio luxuoso, por ele comprado, que morreu cheio de dívidas em meio a um luxo inaudito. Quem, no seu enterro, proferiu a oração fúnebre de praxe, foi o grande Victor Hugo, que muito o admirava.

Ainda em vida, Balzac chegou a receber o devido reconhecimento pela alta qualidade de sua obra, tanto por parte do grande público como da crítica especializada, inclusive a de outros países. Influenciou bastante os escritores de seu tempo e outros que vieram depois. Mesmo muitos escritores de hoje, quaisquer que sejam as suas correntes estéticas, ainda lhe prestam tributo, embora não o saibam, porque a obra de Balzac , em muitos aspectos, guarda um nível de pioneirismo inapagável.

Para se ter uma ideia do alcance de sua obra, basta apenas dizer que A Educação Sentimental e Madame Bovary, de Gustave Flaubert, sempre considerados como dois dos maiores romances de todos os tempos, foram inspirados respectivamente, em seus Le Lys Dans la Vallée (O Lírio no Vale) e La Femme de Trente Ans (A Mulher de Trinta Anos). A técnica romanesca inventada por Balzac, de “trabalhar” personagens que ao longo de um vasto ciclo iam se transformando, mereceu grande admiração de dois outros “monstros” da literatura francesa, Émile Zola e Marcel Proust. Sua obra, ao longo dos anos, a partir do início do séc. XX, vem sendo reeditada e continuamente adaptada para o cinema, merecendo destaque, uma biografia cinematográfica que dele foi feita (uma série para a TV) por Josée Dayan, editada em DVD no Brasil, com Gérard Dépardieu no papel do escritor.

SWEDENBORG
A par de profundos interesses histórico-filosóficos, desenvolvidos desde cedo, pela literatura da vida privada e pelas chamadas cenas de costumes, Balzac, ainda bastante jovem, com cerca de vinte anos, começou a se interessar pelo martinismo e pelas chamadas ciências ocultas, tornando-se um profundo conhecedor da obra de Swedenborg, no seu todo, e da de Lavater (A Arte de Conhecer os Homens pela Fisiognomia). Valeu-se ele muito desta última obra para associar traços de caráter a características físicas no desenho de seus personagens. Já o martinismo era uma forma de cristianismo iniciático, esotérico ou místico, que procurava fazer com que seus adeptos atingissem um estado idealizado de vida (a descoberta do Cristo interior). 

L.C.DE SAINT MARTIN
O martinismo foi fundado no séc. XVIII pelo filósofo francês Louis Claude de Saint-Martin. Emanuel Swedenborg, sábio e teósofo sueco, viveu entre os sécs. XVI e XVII; escreveu várias obras através das quais procurou demonstrar, com um rigor matemático,  que era possível chegar a Deus pela força das coisas. Do místico sueco incorporou o tema da “história natural do mundo sobrenatural”. Neste sentido, dividiu com os poetas Charles Baudelaire e Gérard de Nerval o entusiasmo pela obra wedenborgiana, deixando-o registrado num curioso romance intitulado Louis Lambert, que li nos meus dezessete anos. 

Perto dos seus trinta anos, Balzac começou a ter a sua obra reconhecida pelo grande público. Em 1829, abandonando os pseudônimos, publicou a sua primeira obra com o seu nome, Honoré de Balzac, Les Chouans (A Bretanha em 1799). Neste mesmo ano, publicou Physiologie Du Mariage (Fisiologia do Casamento), história de um jovem celibatário, obra na qual mostra um profundo conhecimento da psicologia feminina, cujas informações recolheu, sem dúvida, do convívio com as suas amantes (Mme. de Berry, a duquesa de Abranches, Fortunée Hameli, Sophie Gay e outras). O livro, que fez muito sucesso, descreve o casamento como um combate, nele tomando Balzac o partido das mulheres e defendendo a igualdade dos sexos.

Todos que conviveram com Balzac confirmaram que as mulheres se sentiam muito atraídas por ele e que tal acontecia porque, além de muito generoso e “competente” com elas, sabia, em seus romances, descrevê-las com muita perspicácia psicológica. Seu imenso sucesso com o público feminino se justificava também porque ele conseguia com eloquência e veracidade fazê-las compreender que poderiam prolongar por muito tempo o que chamava de a idade do amor. Vários jornais e revistas da época, sobretudo com caricaturas e charges, registraram, segundo as colocações de Balzac, o triunfo da mulher de trinta anos, considerada, ao tempo, já muito velha para o amor. Está hoje no léxico de algumas línguas, como adjetivo, a palavra balzaquiana, mulher na qual se reúnem (reuniam ?), ao mesmo tempo, características de sedução, elegância, inteligência, cuidados corporais e amadurecimento. Mulheres que sabiam conquistar o seu lugar numa sociedade dominada pelo poder do dinheiro e pela busca de prazeres de baixíssimo nível. Esse modelo feminino consagrado por Balzac, no século XX, se degradou bastante, aparecendo vinculado ao que chamamos hoje de “perua”. Esse modelo feminino, como sabemos, se caracteriza principalmente por uma espalhafatosa maneira de se vestir, tendendo o seu nível intelectual a zero. 

FREQUENTADORA DE SALÕES
Além disso, não custa observar: é machista, freudiana, em muitos aspectos, na cultura ocidental, a mania de se dar pejorativamente às mulheres alcunhas com o nome de animais domésticos. Além de perua, são usados também os nomes de cadela, vaca, galinha, este último também aplicável a homens e mulheres promíscuos (daí o verbo “galinhar”, utilizado para designar homens ou mulheres que ficam “ciscando” parceiros). Fica fácil perceber que essa atitude com relação às mulheres traduz um modo de pensar típico das sociedades patriarcais, que procura, como é feito com animais, aprisionar a mulher nos domínios domésticos.

TIGRESA 
Quando a mulher não entra nesses modelos, tornando-se, ao invés, caçadora, predadora, usamos substantivos como loba e tigresa para designá-la. A designação idade da loba passou a ser aplicada àquele momento da vida de uma mulher em que ela, muitas vezes depois de um casamento desfeito, dos filhos criados, adota atitudes de autoafirmação com relação à sua vida, sobretudo sob o ponto de vista sexual. Tigresa é nome que veio dos Marvel Comics, nome que lembra aparência felina, garras, aplicado a mulheres que vampirizam homens, muitas vezes destruindo-os. 

Balzac reprovava com veemência nos autores protestantes a ética por eles defendida quanto à sensualidade e à sexualidade das mulheres, por eles sempre rebaixada nestes domínios, já que, como dizia, depois da falta de Eva, nada mais os homens concederam às mulheres, não admitindo para elas outro papel senão o de submissas. A Igreja Católica, com relação ao protestantismo, segundo afirmava Balzac, melhorou um pouco a vida das mulheres, um pouco, mas não muito...

No geral, na vida de Balzac foram as mulheres que sempre tomaram a iniciativa de procurá-lo, escrevendo-lhe, convidando-o, forçando a entrada. Foi, por exemplo, o caso de Caroline Landièredes Bordes, baronesa, rica viúva que ele encontrou na casa de um banqueiro conhecido. Os casos femininos são numerosos na sua biografia. Dentre eles citamos uma admiradora, Hélène-Marie-Felicité de Valette, que se apresentava com bretã e celibatária, mas, na realidade, viúva. 

JULIETTE RÉCAMIER
(J.L. DAVID, 1748-1825)
Conhecido, aclamado principalmente pelas mulheres, Balzac passou a frequentar os salões, sendo introduzido no salão de Juliette Récamier, o mais famoso da época, onde se reuniam o mundo artístico e a aristocracia mais aberta às modas culturais. Frequentou também o salão da princesa russa Catherine Bragation, onde entrou em contacto com a nobreza europeia que frequentava Paris. Ao entrar para o Grand Monde, Balzac se meteu em vários negócios, tentando sempre aumentar as suas rendas, já que, só com o dinheiro obtido com a literatura, ser-lhe-ia impossível frequentá-lo. 

Contudo, o sucesso de La Peau de Chagrin (A Pele de Onagro) mudou a situação. De inspiração romanesca por sua intriga, o tema explora uma oposição entre uma vida fulgurante consumida pelo desejo e uma longevidade apagada provocada pela renúncia a qualquer forma de desejo. O herói do livro é Raphael Valentin, uma espécie de alter ego de Balzac,um tipo que quer tudo, a glória, a riqueza, as mulheres; encontrou um talismã que tudo poderia lhe conceder, mas que, a cada

desejo satisfeito, menos vida lhe restaria. Publicado em 1831, o livro foi um sucesso imediato. Balzac, com dois livros, tornou-se o preferido dos editores e dos livreiros, além do grande favorito de todos os leitores da França e da Europa. Em 1832, Balzac pensou em ingressar na carreira política, tomado por ideias liberais, das quais faziam parte opiniões monarquistas e religiosas. Foi em janeiro de 1833 que começou a sua correspondência com uma admiradora polonesa, Mme. Hanska (Cartas à Estrangeira), indo algumas vezes ao exterior (Suiça, Saxe e Rússia) para encontrá-la.

Foi a partir desse período que sua obra Balzac tomou quatro caminhos, fixando-se: a) em romances filosóficos: dentre estes, destacam-se Louis Lambert (1832), A Pele de Onagro (1833) e À Procura do Absoluto (1834). b) romances sobre vida econômica e social, dentre os quais ressaltamos O Médico Rural. c) Contos droláticos (de drôle, divertido), através dos quais Balzac tenta recuperar a verve rabelaisiana. d) Romances de Costumes, com destaque para A Mulher de Trinta Anos, O Coronel Chabert, O Cura de Tours, textos de grande apuro técnico, que lhe permitirão alcançar, com Eugénie Grandet (1833) e O Pai Goriot (1834/5), o nível de obras-primas absolutas. 

EWELINA HANSKA (F.G. WALDMÜLLER, 1801-1882)

No ano de 1842, escolheu para dar um título geral à sua obra, organizando-a metodicamente, a expressão A Comédia Humana. Em março de 1850, Balzac, rico e célebre, mas sempre endividado, conseguiu se casar com Mme. Hanska, viúva há muito. A essa altura, já bastante esgotado, mas nunca deixando de se manter muito ativo, ao retornar a Paris, morreu aos 51 anos de idade. Consta que no seu leito de morte, Balzac, agonizante, chamou por diversas vezes à sua cabeceira o Dr.Horace Blanchon, o grande médico que tão intensamente participara de A Comédia Humana.

O gênio de Balzac se manifestou em dois planos, o da observação, sempre um escritor superdotado ao saber olhar e compreender as coisas e acontecimentos de seu tempo, e o da imaginação, dom tão importante quanto o outro. Baudelaire falou bastante de Balzac como um visionário apaixonado. Ambos os dons, observação e imaginação, foram colocados a serviço de uma grande quantidade de ideias que constituem o núcleo central de sua obra. Foram estas ideias que Balzac tentou e conseguiu organizar, como se disse, no prólogo de A Comédia Humana.

Antes de tudo, Balzac foi um escritor que soube ver, fixar na sua memória e reproduzir em sua obra coisas, objetos, lugares e pessoas. Dominado por ele, o mundo real, transposto para a sua obra, conserva toda a sua consistência e complexidade; ele soube, como poucos na história da literatura, impor em sua obra a “presença” da realidade. Qualquer detalhe, desde que vivo e significativo, era por ele incorporado ao seu texto. Seus heróis são seres humanos que bebem, comem, ganham e perdem dinheiro, amam e odeiam, como todos os seres humanos que conhecemos, todos tendo um corpo físico, uma profissão, um domicílio, uma aparência, uma maneira de se trajar. Sua grande capacidade de observação é que lhe permitiu trabalhar tão bem com os caracteres distintivos de seus personagens quanto ao sexo, à idade, ao nível social e às fases de sua vida. Foi, sem dúvida, o maior “pintor” dos costumes humanos que a literatura já nos deu.

T. GAUTIER
A imaginação de Balzac avulta quando pensamos no papel que ela desempenhou na sua elaboração das intrigas, na sua multiplicidade, sempre se sucedendo e se entrecruzando. Ainda que muitas vezes sustentada por alentada documentação, sua imaginação chega, em muitas passagens, a torná-lo um dos ancestrais do romance policial pela trama criada. Quem talvez tenha melhor sabido falar da sua poderosa imaginação foi o poeta Théophile Gautier: Balzac possuía o dom de se encarnar em corpos diferentes. Ele foi um vidente; os dois ou três mil tipos que ele criou, ele não os copiou, ele os viveu idealmente.

Diante do que está acima, podemos com segurança falar de uma ideologia balzaquiana, entendendo-se esta como um conjunto de crenças e aspirações que inspiram, em grande parte, os atos de alguém, tanto de uma sociedade, de um partido, de uma seita como de seres humanos. Quanto a Balzac, neste particular, através de seus personagens, sempre tivemos uma demonstração de suas aspirações científicas, que pudessem ser postas em prática, mesmo quando estamos diante de seus sonhos místicos. Outro componente do seu ideário era a sua curiosidade inesgotável, que abarcava todos os domínios do conhecimento humano: filosofia, psicologia (avant la lettre), moral, política, sociologia, economia, arte etc. Além do mais, presente em toda a sua obra o espírito sistemático através do qual ele sempre procurou estruturar aristotelicamente tudo o que escreveu. Por fim, quanto a este item, sua grande tentativa, a partir da sociedade de seu tempo, aproximar o pensamento da paixão. Balzac dizia que embora a paixão possa nos destruir, sem ela nada se pode fazer. Este tema está muito presente em obras como Louis Lambert, O Pai Goriot e A Pele de Onagro.

No romance francês, Balzac foi o primeiro a abordar a questão metodológica para a estruturação de suas obras. Como gostava de dizer, primeiro o enquadramento, depois os retratos. Ou seja, primeiro o cenário, as descrições, o meio, depois os homens que nele se movimentam. Antecipando-se ao pensamento sociológico dos anos vindouros, ele sempre considerou a sociedade como um estado, uma maneira de ser dos homens vivendo sob leis comuns. Esta vida em comum se fazia através de instituições e de sua funcionalidade, uma espécie de sua fisiologia que estuda a maneira pela qual as suas leis são vivenciadas, bem ou mal. Para Balzac, a sociedade era sempre um conjunto de relações entre os homens que a compunham, a própria conduta humana, enfim vida humana e meio ambiente se interpenetravam. Ele afirmava que o homem tendia a imprimir a marca dos seus costumes, dos seus hábitos, do seu pensamento, da sua própria vida em tudo de que se apropriava para a satisfação de suas necessidades.  Suas descrições são sempre minuciosas, realistas, sejam os ambientes sórdidos ou luxuosos. 

Foi por causa desta preocupação descritiva que Balzac conseguiu compor tipos ao mesmo tempo tão representativos como individualizados. É neste sentido que os seus personagens ultrapassam a época e as intenções conscientes de seu autor, transformando-se vários deles em arquétipos, modelos universais de comportamento. Muitos que se aproximaram da sua obra fazem, por essa razão, muitas restrições à sua grande “eloquência” descritiva, às suas longas explicações preliminares, embora nunca tenham deixado de reconhecer a sua grande contribuição para o gênero romanesco, em particular, e para a literatura, no geral. 

Dentre obra de Balzac, talvez a que nos que nos interesse mais de perto, seja Le Colonel Chabert (O Coronel Chabert), que se enquadra nos chamados romances de costume e nas cenas da vida parisiense. É nesta vertente que Balzac encontrou a melhor maneira de aprofundar o seu realismo, criando, além disso, tipos humanos poderosamente desenhados. 

O chamado romance de costumes, muitas vezes denominado também de romance urbano, é um subgênero do romance que tem como principal característica a retratação e a crítica da sociedade das grandes cidades que cresceram mais a partir do final do séc. XVIII. Ganhou impulso essa forma literária a partir do início do séc. XIX, com o desenvolvimento da vida urbana, sendo considerada um sinônimo de romance realista. Seus personagens centrais são homens comuns, da classe média ou das camadas mais baixas da população dos grandes centros urbanos. Nada de temas ligados à conquista de fama e poder, de personagens da nobreza ou da aristocracia, como ocorria com a produção dos séculos anteriores. As fórmulas exportadas pelo romance francês, desenvolvidas por Balzac, principalmente, conquistaram adeptos em todas as literaturas. No Brasil, por exemplo, já em 1844, com A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo, romance que tinha por cenário o Rio de Janeiro, “inaugurava-se” entre nós essa moda romanesca. 

Uma apreciação crítica da obra de Balzac, no seu conjunto, não pode deixar de registrar que boa parte da sua produção aparece hoje como destituída de maiores interesses. Isto se deve principalmente ao fato de Balzac ter escrito muita coisa pressionado pela falta de dinheiro. Não é o caso de O Coronel Chabert e de vários outros. Publicado em 1835, o livro foi dedicado a Mme. la Comtesse Ida de Bocarné, née, du Chastele, sendo precedido por O Pai Goriot e sucedido por A Missa do Ateu.

O Coronel Chabert é um dos seus mais curtos romances. Foi publicado sob sua forma definitiva em 1844 e depois republicado em forma de folhetim em suplementos de jornal. O romance, como dito acima, foi dedicado a Ida de Bocarné, que desenhou para Balzac os brasões imaginários das famílias nobres que às vezes aparecem em A Comédia Humana. O livro, no seu todo, é uma emocionada homenagem que Balzac presta aos soldados da velha guarda sob o reinado de Napoleão I

A história começa quando um homem se apresenta no escritório do advogado Derville, que está muito ocupado para atendê-lo e declara ser o coronel Chabert, Hyacinthe Chabert, para espanto de todos, pois sabe-se que o coronel morrera na batalha de Eylau e que sua mulher se casara novamente com o conde Ferraud. Como combinado, Chabert voltou ao escritório para a entrevista com o advogado. Depois de ouvir a sua história, Derville aceita a causa e se dispõe a ajudá-lo. Chabert, ao procurar o advogado, estava tentando recuperar a sua honra, seus bens e sua mulher. 

O dinheiro é sempre um motivo recorrente sua obra. Aliás, não só na dele, mas na de muitos grandes escritores que trataram do tema, gente como Esopo (o avarento que perdeu o seu tesouro) e Plauto (nas suas comédias, a A Aulularia, dentre outras), na antiguidade, e, mais recentemente, Molière (O Avarento). No romance de costumes do séc. XIX, tanto no realista como no naturalista, o tema, abandonada a abordagem cômica, satírica, passou a ser tratado de modo muito mais profundo, trágico até, considerado o dinheiro como uma verdadeira droga que envenenava as relações familiares e sociais e que passou a ser analisado como um elemento maior e negativo na realidade do século XIX. 

Desejoso de pintar a realidade de seu tempo, os romancistas, Balzac principalmente, nos ofereceram não só uma análise psicológica dos avarentos, mas nos apontaram  como esse “pecado” se tornou primordial na sociedade do século, varrendo os outros valores humanos, encarnados, por exemplo, pelo coronel Chabert: a honra, a fidelidade, o amor à pátria, o altruísmo, a generosidade. O romance, ao mesmo tempo que nos revela mais uma poderosa figura a se juntar à galeria dos personagens balzaqueanos, é uma homenagem que o autor presta aos militares do exército de Napoleão I que venceu a batalha de Eylau (1897) contra a Rússia e a Prússia, ao evocar a figura do coronel.

A história de Chabert foi por diversas vezes levada ao teatro e ao cinema. Neste último, desde 1911; a última realização é de 1994, sob a direção de Yves Angelo, com Gérard Dépardieu, Fanny Ardant, Fabrice Luchini e André Dussolier, todos excelentes atores, nos principais papéis, resumindo-se assim a sua sinopse: durante as guerras napoleônicas, o coronel é dado como morto. Dez anos mais tarde, recuperando a sua saúde e a sua memória, volta a Paris. Reencontra sua mulher casada com o Conde Ferraud, que procura financiar a sua ascensão política com o dinheiro de sua mulher, herdado do marido “morto”. Pela via judicial, Chabert vai procurar resgatar a sua honra e o seu dinheiro. Não o consegue. Diante das maquinações de sua ex-esposa, Chabert, enojado com tanta falsidade, ele que chegara até a admitir o recebimento de uma indenização para deixar de importuná-la, abandona tudo e se recolhe a um hospício, onde vai acabar, meio amalucado, os seus dias, como um épave, (destroço, restos de naufrágio), entre indigentes, doentes mentais e alcoólatras.
TÚMULO DE BALZAC,
  PÈRE LACHAISE

O nome e a obra de Balzac ocupam, sem dúvida, um grande lugar, um dos maiores, na história da literatura mundial. Poucos escritores como ele investiram com tanta perseverança e sagacidade na vida social e nos costumes de seu tempo. 

Alguns filmes baseados na obra de Balzac: La Duchesse de Langeais (Ne touchez pas à la hache), La Fille aux Yeux d'Or, Le Colonel ChabertL'Auberge RougeCousin BetteLa Maison NucingenLa Belle Noiseuse (Chef d'Oeuvre Inconnu), L'Homme du LargePeau de Chagrin




 





sábado, 9 de outubro de 2021

A ELEGIA

                                                                

As primeiras poesias gregas que tomaram o nome de elegias (do grego, elegeia,  canto triste,  de luto, plangente, lamentoso) tinham relação com antigos cantos de guerra, de natureza épica, nos quais se destacavam os valores nacionais, a vida guerreira, as façanhas de heróis mortos. Tecnicamente, a poesia elegíaca foi se formando aos poucos pela transição desses temas épicos para temas exclusivamente líricos, entendendo-se estes como composições monódicas (cantadas a uma só voz) ou corais (cantadas em grupos), com versos de dez sílabas, sempre carregadas de muito sentimentalismo e enlevo, inclusive com acompanhamento de instrumentos musicais. 

No século VII aC, esta transição, ao que parece, já estava completa, designando-se como elegíacos os poemas  de alguns poetas como  Arquíloco, Tirteu, Callimacus  e outros. Do ritmo dos versos heroicos passou-se para o ritmo dos chamados versos pentâmetros ou elegíacos, que foi a característica mais notável, mais visível, exterior, desta transição, além de, naturalmente, dos sentimentos, da tristeza e da melancolia quanto ao conteúdo que carregavam. 

ARQUÍLOCO
Dentre os poetas acima citados, Arquíloco de Paros (712-648 aC) se destaca por ser o representante mais conhecido do chamado lirismo pessoal. Nascido na Trácia, era filho de um grego aristocrata decaído que lá vivia como colono e de uma escrava. Extremamente individualista, Arquíloco levou uma existência miserável, de mercenário, e cantou inicialmente a vida do guerreiro, a brutalidade que a cercava e as suas breves alegrias. Ao mesmo tempo alegre, melancólico e apaixonado, foi sempre Arquíloco um empedernido individualista. Ficou famoso por suas invectivas impiedosas contra a bela Neóbula e seu pai, que lhe recusara entregar a moça em casamento. Tanto fez Arquíloco, atazanando-os, que levou ambos, pai e filha, ao suicídio. Quanto ao seu talento, é, com toda a razão, considerado como um dos maiores, o maior talvez, dos líricos jônicos e iniciador da lírica monódica. Muito espontâneo na sua expressão, Arquíloco ficou famoso por seus iambos satíricos, tornando-se muito popular a sua poesia, cantada por  rapsodos, sendo, por isso, no seu tempo, colocado por muitos em pé de igualdade com Homero. 

SOLON
É de se lembrar, para ampliar o entendimento que tomou o caminho da poesia elegíaca, que no poema Salamina, Sólon (640-558 aC), o futuro legislador, embora  mantendo o espírito lírico dessa poesia, voltou a se aproximar da tradição épica para transmitir ideias de coragem e de destemor aos atenienses quando de seus revezes nas lutas que travaram, principalmente para recuperar a ilha de Salamina em poder de Mégara. 


MIMNERMO
Foi o poeta Mimnermo, porém, como tudo indica, quem, ao final do referido século, fixou a forma que os poemas elegíacos tomariam a seguir, forma através da qual chegariam aos tempos modernos, como poemas do amor, da saudade, do sofrimento e da reflexão melancólica. As elegias guerreiras de Mimnermo, ainda que ligadas aos antigos temas heroicos, já apresentavam, no geral, uma linguagem terna e apaixonada, abrindo caminho para o lirismo nostálgico que as impregnaria desde então. Nostalgia, registre-se, é palavra nova, criada no século XVII (1678) pelo médico suíço J.J. Harder, da Basileia, que uniu para formá-la, do grego, nostos (regresso) e algia (dor), ou seja, dor, sofrimento, por não se poder voltar mais ao passado.  

Nascido em Colophon, Mimnermo foi poeta e músico; viveu entre os séculos VII e VI aC, sendo considerado também como criador da elegia erótica. Seus cantos, chamados Nanno, além dos de inspiração heroica, se constituem, diante da ideia do nada, do aniquilamento de tudo, num forte apelo aos prazeres sensuais.

Não pode ser esquecido neste contexto também o poeta Simônides de Ceos, que viveu entre os séculos VI e V aC, autor de elegias e de epigramas. No concurso aberto para celebrar a vitória de Maratona, Simônides venceu Ésquilo, o grande poeta trágico, além de ter seu renome enaltecido pelas composições que publicou sobre as batalhas de Artemisium e de Salamina. A par dessas glórias poéticas, devemos acrescentar a elas talvez a maior, o reconhecimento que os gregos conferiram a Simônides como o incomparável poeta das expressões elegíacas patéticas, acontecimento literário que certamente definiu melhor o novo gênero, afastando-o das influências épicas. Realmente, não conheceram os gregos desse tempo nada mais triste que a poesia de Simônides de Ceos que escreveu usando várias formas poéticas, epigramas, cantos corais, hinos, odes, marchas fúnebres e ditirambos, tudo para louvar os heróis gregos e enaltecer a sua participação em várias baralhas contra os persas. É importante lembrar, quanto à poesia arcaica grega, que os seus melhores intérpretes foram os sofistas, já que para eles o canto (música) era a melhor força modeladora da alma.  

PROPÉRCIO
Em Roma, ficaram famosos, no século do imperador Augusto, por seus versos elegíacos, poetas como Gallus, Ovídio, Tibulo e Propércio, ainda que  discutam os especialistas se cabível incluir a obra de todos como poesia exclusivamente elegíaca. De Gallus, por exemplo, só chegaram até nós alguns fragmentos de seus versos. O que temos de mais consistente com relação a ele, quanto a este aspecto, lembremos, é o grande elogio que lhe fez Virgílio na sua sexta bucólica e a opinião de Quintiliano, que o considerava como um dos melhores poetas elegíacos latinos. 


CATULO
Famoso pela ternura dos seus versos, por sua sensibilidade quase feminina, Tibulo não pode ser esquecido. Foi um poeta pacifista, de estilo clássico, sempre saudoso dos antigos costumes camponeses, muito ligado a Horácio, Virgílio, Propércio e Ovídio.  Quanto a Catulo, embora ele não possa ser incluído no grupo dos quatro poetas elegíacos citados, ele deixou dois poemas no gênero que devem obrigatoriamente fazer parte do levantamento que se fizer das melhores elegias romanas, uma dedicada a Manilius e outra sobre a morte de seu irmão.

A tradição elegíaca greco-latina encontrou na poesia francesa a sua melhor expressão, talvez, em Ronsard (Contre les bûcherons de La Forest de Gastine), um lamento lírico contra a destruição dos velhos e sagrados carvalhos. Em Malherbe, acrescente-se, embora com alguma diferença dos greco-latinos, encontramos também, com tinturas mitológicas, a velha nostalgia elegíaca. A forma mais bem acabada da elegia, de inspiração pagã, entretanto, entre os franceses, só iria aparecer lá pelos fins do século XVIII nas obras de alguns poetas e, de modo mais interessante, nos diferentes versos de André-Marie Chenier, dentre os quais destacamos um fragmento de Néère, no qual temos expresso o triunfo do Amor sobre a Morte:

ANDRÉ-MARIE CHENIER
Au coucher du soleil, si ton âme attendrie

Tombe en une muette et molle rêverie.

Alors, mon Clinias, appelle, appelle-moi:

Je viendrai, Clinias, je volerai vers toi;

Mon âme vagabonde, à travers le feuillage,

Frémira; sur les vents ou sur quelque nuage.


Ao lado dos versos acima, poderíamos indicar também como fazendo parte do gênero elegíaco, muitos outros, de períodos posteriores, como os de Lamartine, Victor Hugo, de Mme. Desbordes-Valmores, Girardin etc. Indo a outras literaturas, poderíamos lembrar ainda a mesma presença dos temas do gênero na literatura espanhola (Garcilaso de La Vega), na italiana (Petrarca e imitadores), na portuguesa (na qual Camões e Sá de Miranda ocupam lugar privilegiado), e na literatura inglesa (Thomas Young).

Na virada do século XIX para o XX a elegia, no que tinha de mais tradicional, devido principalmente à poderosa influência de Rainer Maria Rilke, voltou a ter, ainda que com alguns ingredientes novos, grande destaque. Temas como a tristeza, a melancolia, a saudade, os sentimentos despertados pela morte, impregnavam-se agora de misticismo, de ideias de salvação e de temas angelicais, versos carregados de sentimentalismo e crise existencial. É famoso o verso com o qual Rilke, desesperado, inicia a sua primeira elegia, perguntando: Quem, se eu gritasse, me ouviria entre as hierarquias dos anjos? 

R.M. RILKE
 (WESTHOF, 1891-1977)
No século XX, realmente, não há como deixar de se citar, como maior representante das tradições do gênero elegíaco, pela grande influência que exerceu não só sobre a mentalidade literária do tempo como sobre o fazer poético, o boêmio-austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926), sempre considerado como um dos mais importantes poetas de língua alemã. Ele compôs os seus versos no castelo de Duino, perto de Trieste, lá hospedado a convite da princesa Marie Von Thurn e Taxis. Desde então, com Rilke, o gênero elegíaco, no século XX, parecia ter encontrado novos temas, matizados agora por uma sentimental e sedutora espiritualidade (o espírito do tempo?), da qual os poetas modernos não poderiam fugir,   sob pena de, não o fazendo, se virem solitários, abandonados. Será?

Indo à produção de alguns modernos poetas brasileiros (Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes e Mário Quintana), que ousaram escapar do modelo rilkeano, considerado o excepcional veio elegíaco de suas obras,  cito dois poemas deles (Quintana e Drummond) para os possíveis interessados no que aqui se discute: 





UMA SIMPLES ELEGIA.
                              Mário Quintana

Caminhozinho por onde eu ia andando
E de repente sumiste,
-- o que seria que te aconteceu?
Eu sei ... o tempo ... as ervas más ... a vida ...
Não, não foi a morte que acabou contigo
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
Que a de um caminho que se perdeu


CARLOS  DRUMMOND  DE  ANDRADE


ELEGIA  1938.
                                  C.D. de Andrade


Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,

onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.

Praticas laboriosamente os gestos universais,

sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.


Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,

e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.

À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze

ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.


Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra

e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.

Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina

e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.


Caminhas entre mortos e com eles conversas

sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.

A literatura estragou tuas melhores horas de amor.

Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.


Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota

e adiar para outro século a felicidade coletiva.

Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição

porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.